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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O QUE SE PASSARÁ COM A CABEÇA DO CARDEAL?


O argumento posto a circular, a propósito da proposta de continência sexual sugerida aos “casais irregulares”, pelo cardeal patriarca de Lisboa é o de que se trata de um assunto interno da Igreja Católica Apostólica Romana, que só diz respeito aos seus membros. Este argumento defendido por algumas vozes que vieram em defesa do cardeal, faria algum sentido se a Igreja não se sentisse no direito de considerar os seus valores como devendo ser de todos, tentando impor as suas regras em matéria como divórcio, homossexualidade, adoções, eutanásia, interrupção voluntária da gravidez a católicos e não católicos, sob a forma de código penal, impondo a todos o seu próprio código moral. Mal estaria o mundo se os valores só pudessem ser questionados pelos membros de cada clube.


Não há na nossa sociedade duas escalas de valores e, a Igreja, que se sente no direito de condicionar toda a sociedade não pode levantar muitos em sua defesa, quando tenta evitar que a sociedade a influencie.
Seria interessante conhecer em que circunstâncias a Igreja admite o divórcio ou, para ser mais preciso, a nulidade do casamento, excluindo, é claro, a cunha, coisa que também existe nos divórcios da Igreja. No passado houve mesmo um ex-embaixador junto do Vaticano que já depois de reformado ainda ocupou um alto cargo no Estado, nomeação feita por um ministro agradecido pela ajuda que recebeu do embaixador na anulação do seu casamento.
A verdade é que os motivos que levam quase 100% dos casais a divorciarem-se não são contemplados no direito canónico. A partir do momento em que um casamento se realiza em condições normais e seja consumado quase nada é aceite como motivo de divórcio. Seria interessante se o cardeal apresentasse estatísticas de divórcios canónicos, por exemplo, em casos de violência doméstica. Aliás, todos sabemos qual a posição dos padres em relação a uma mulher que se queixe de violência doméstica, não é certamente a proteção da vítima.
Uma mulher que se divorcie por ser violentada ou mesmo violada pelo marido e volte a casar dificilmente conseguirá anular o seu casamento celebrado pela Igreja Católica, por aquilo agora ficámos a saber ou a mulher continua a aceitar a violação e a violência santificada pelo sacramento do casamento ou é forçada à abstinência sexual, sob pena de ficar excluída da Igreja, isto é, fica condenada a uma exclusão que não sendo equivalente à excomunhão corresponde a uma marginalização caluniosa no seio da Igreja.
Na telenovela “Tieta do Agreste”, baseada num romance de Jorge Amado, há uma personagem que se chama Modesto Pires que sendo casado mantinha uma “teúda e manteúda”. A determinada altura a amante e a esposa decidiram fazer uma greve de sexo que levou o Modesto Pires ao desespero. O desespero era tanto que o Modesto perguntava aos amigos se não havia o risco de “aquela coisa” lhe subir à cabeça.
Começo a achar que os receios do Modesto Pires tinham alguma razão de ser, a obsessão dos padres da Igreja Católica em relação ao sexo marca tanto a Igreja, estando no centro de tantas das suas decisões, que a explicação só pode corresponder aos receio do Modesto Pires, aquela coisa não sai por via das relações sexuais e sobe à cabeça dos nossos padres ciosos da sua castidade.

NOTA
por estatuadesal (In Blog O Jumento, 12/02/2018)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

"UMA IGREJA MAIS CRISTÃ E MENOS CATÓLICA"



Estou certo que este não é o dia mais adequado face à solenidade Pascal, mas porque sou cristão não consigo ceder aos meus princípios. Simplesmente porque li o que o chefe da Igreja madeirense referiu na homilia de ontem: "(...) Caros sacerdotes, é necessário e urgente escutar o espírito de Deus que nos ungiu e consagrou para a missão. Ele suscita em nós um desejo sincero de renovação e maior atenção à realidade humana e social do tempo presente" (...) "Queria pedir uma atenção particular à presente conjuntura económica e social na descoberta das carências, necessidades e problemas do povo que vos está confiado. Nesse sentido, seria bom que, juntos, pudéssemos descobrir novos projectos e dar novo vigor àqueles que já existem e às vezes não são suficientemente valorizados". Tiro fora do alvo. Ainda mais, Senhor Bispo? Não fossem as instituições particulares de solidariedade social onde associo o notável trabalho de muitos párocos, que reúnem à sua volta centenas de pessoas que ajudam na solução dos problemas das famílias e teríamos uma catástrofe social. Ao invés, o grande recado não deveria ser para a generalidade dos senhores Padres, mas para um governo regional que não tem em atenção o que se está a passar na comunidade. O tiro do Senhor Bispo foi, repito, para fora do alvo. Ao não querer ser político acabou por sê-lo ao branquear a acção governativa. De resto, não é a primeira vez. A questão da pobreza e dos excluídos, obviamente que o Senhor Bispo sabe, não se resolve com atitudes de caridade, mas indo ao centro do problema e incentivando os poderes criados a terem em atenção as gravíssimas assimetrias sociais. É aí que se encontra o centro do alvo, doa a quem  doer!


A política visa isso mesmo. Não me levem a mal, porque não vou ser politicamente correcto, mas olho para o Papa Francisco e vejo o futuro, alguma esperança; olho para o Bispo Carrilho e vejo nele o passado. Mesmo que tente as peugadas de Francisco, com algumas citações, não chega lá. Eu compreendo a dificuldade. Há muita pedra no sapato, entre outras, três que são públicas e notórias: o Jornal da Madeira, que retira cerca de € 11.000,00 por dia que poderiam ser de apoio aos marginalizados; os défices de várias comissões fabriqueiras que edificaram um excessivo número de templos face ao quadro social em que vivemos; finalmente, a suspensão a divinis, assunto claramente político, que envolve o Padre Martins Junior e que não há maneira de ser resolvido. Nem o julga em Tribunal Eclesiástico nem o reintegra. Está ali, em lume brando, talvez à espera que Jardim saia do poder. São assuntos que impõem enervantes silêncios. Um Bispo deve, na minha opinião, assumir-se pela Palavra e ter essa capacidade de colocar os poderes políticos em sentido. Mas compreendo que assim não seja. Houve alguém que disse que teve sempre os Bispos que interessavam à Madeira. Pois, tal como o "omo", mais branco não há! 
Já tem uns anos, cruzei-me e mantive um diálogo com um Bispo que considero notável. Um Homem que teve o condão de mexer comigo, pelas sábias palavras e conceitos que me transmitiu. Simples, afável, directo, com um sentimento da importância da Igreja no contraponto com o poder político, disse-me, com palavras sem rodeios, aquilo que dizia no púlpito. A páginas tantas foi muito claro quando, olhando-me nos olhos, me disse que os madeirenses e portosantenses precisavam de "um bispo de cultura". Eu percebi a palavra cultura, no contexto em que falávamos, muito para além do significado da palavra. Entendi-a como a capacidade de alguém, que não dependendo de ninguém, sabe cruzar todos os dados, sabe elaborar sínteses e dizer em alto e bom som as fragilidades de que a sociedade padece. Mais tarde, telefonei-lhe no sentido de convidá-lo para um debate. Falámos de questões sociais, da Missão da Igreja, da importância desse encontro para ouvir e participar nos desencontros. Ficou de acertar a data em função da sua disponibilidade. Não chegou a realizar-se, mas tive pena. Nós precisamos disto, de uma "Igreja mais cristã e menos católica", frontal e envolvente, na esteira do que me disse um Padre desta Região, a quem me ligam laços de respeito,  consideração e Amizade, ele também apostado na solidariedade e na Palavra e que não precisa, como tantos outros, de ouvir recados de  apelo à caridade. Ademais, o povo não precisa de lengalengas que a nada conduzem, porque o disco está velho demais para um tempo que precisa de gente que não bata no peito ao Domingo e infernize a vida das pessoas ao longo da semana.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 17 de março de 2012

A DEMOCRACIA MEDE-SE PELO CINTO


Quando olho para aquela triste Assembleia, para aquela monumental mentira que ali se desenvolve pela estridente gritaria da maioria política, onde todas as propostas são chumbadas, como se fossem portadores de uma verdade suprema e absoluta, como se ali estivessem os crâneos, os grandes pensadores, os filósofos, os políticos de craveira superior, os que "dão luzes ao mundo", fico a pensar se esta gente que por aí anda, amargurada, ferida no seu orgulho, que olha para os filhos e neles não vê futuro,  sem esperança, se esses milhares de homens e mulheres não terão uma palavra a dizer neste descalabro social! Terão, com toda a certeza, porque a democracia mede-se pelo cinto.


Cruzei-me, ao início da manhã, com um jurista. Na rápida conversa, do tipo, mais um fim de semana, o bom tempo que se faz sentir, etc, rapidamente, passámos à situação política regional. E aí falou-me, em abstrato, claro, de casos que lhe entram escritório adentro. Pessoas do grupo social que se configurou designar por classe média que, há muito pouco tempo, ele empresário, ela bem empregada, com filhos e com a sua casa e carro(s), hoje encontram-se perdidos, sem saber como sair do redemoinho em que se encontram. Estão completamente sugados pelo desastre regional. A empresa faliu e ela ficou desempregada. Um quadro suficiente para qualquer pessoas ficar de coração apertado. Imagino o drama dessa(s) família(s), ou melhor, das centenas de famílias que hoje, na Região, estão mergulhadas nessa desesperante angústia. O Senhor Bispo Emérito D. Teodoro de Faria, na edição de hoje do DN, assumiu: "Para dizer que há pobres entre nós basta ter os olhos abertos. Eles entram-nos pela porta dentro". Complemento: só o governo não vê, só os deputados da maioria na Assembleia Legislativa da Madeira não conseguem enxergar, porque veem o mundo dos outros à semelhança do seu bem estar.
É evidente que folgo com a declaração do Senhor D. Teodoro de Faria, mas não deixo de dizer que a Igreja tem acrescidas culpas neste processo, porque foi demasiado serena, branda e, por vezes, cúmplice perante os erros que estavam a ser cometidos, porque não basta, Senhor D. António, revitalizar as instituições caritativas numa lógica de andar atrás do prejuízo, Ela tem de assumir um discurso firme que coloque, proativamente, em alerta os cidadãos e o poder político. O que aconteceu e acontece é que, lamentavelmente, a Igreja, embora faça todos os possíveis por não parecer, assume o discurso partidário da maioria. A situação do Jornal da Madeira constitui, apenas, uma ponta do icebergue das relações que bloqueiam essa atitude firme contra os comportamentos políticos que se desviam da própria Palavra. Neste caso, o governo rouba quatro milhões anuais da boca dos pobres. Isto para não falar da falta de sensatez no "caso" do Padre Martins Junior, da Ribeira Seca. Porquê? Que cumplicidade política é essa? Depois, há muitos subsídios em jogo, há muitas igrejas construídas não pelo Povo, mas pelos interesses do poder político, e tudo isto, eu compreendo, todos compreendem, que tem limitado a participação livre da Igreja.
Desviei-me um pouco do que vinha a desenvolver, em função das palavras de D. António de Faria. A conversa desta manhã com o tal jurista, não que eu não tenha a noção do que está a acontecer, mas porque quando os assuntos são trazidos à colação, deles tomamos uma melhor consciência. E quando olho para aquela triste Assembleia, para aquela monumental mentira que ali se desenvolve pela estridente gritaria da maioria política, onde todas as propostas são chumbadas, como se fossem portadores de uma verdade suprema e absoluta, como se ali estivessem os crâneos, os grandes pensadores, os filósofos, os políticos de craveira superior, os que "dão luzes ao mundo", fico a pensar se esta gente que por aí anda, amargurada, ferida no seu orgulho, sem esperança, que olha para os filhos e neles não vê futuro, se esses milhares de homens e mulheres não terão uma palavra a dizer neste descalabro social! Terão, com toda a certeza, porque a democracia mede-se pelo cinto.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 12 de março de 2012

MAMAS PARA QUE TE QUERO?



Se há tetas em fase minguante, pergunto, quem as fomentou, quem as disponibilizou à vez, quem permitiu utilizá-las, muitas vezes, de forma sôfrega? Se a consciência lhe diz da existência de tetas que o regime expandiu por toda a Região no tempo das vacas gordas, com que lata vem agora delas falar, como se nada tivesse a ver com essa alegada distribuição de bocas famintas de poder e de dinheiro?


Há "muita gente a mamar na teta do Regime", disse, ontem, o Presidente do Governo Regional em mais um adro de igreja. O que me leva a dizer, desde logo, que, afinal, ao contrário da apregoada transparência, da isenção, dos cuidados relativamente ao desperdício e aos interesses que se movimentam na orla da governação, o presidente assume que o regime tem tetas, digo eu, e que tetas(!), as tais que levaram ao caos que hoje é a Madeira. Nada que não se soubesse e desde há muitos anos. Apenas se assiste à assunção da verdade através do deslizar da língua para essa incontornável verdade. No fundo, o que o presidente veio para o adro assumir, corresponde a um tiro para dentro do seu próprio partido, para todos quantos alimentaram o regime e que  estiveram e estão sentados à mesa do orçamento, comendo e rapando o tacho, colocando-os, agora, de sobreaviso que, das duas, uma: ou estão com ele ou, então, tê-lo-ão à perna. Porém, se há tetas em fase minguante, pergunto, quem as fomentou, quem as disponibilizou à vez, quem permitiu utilizá-las, muitas vezes, de forma sôfrega? Se a consciência lhe diz da existência de tetas que o regime expandiu por toda a Região no tempo das vacas gordas, com que lata vem agora delas falar, como se nada tivesse a ver com essa alegada distribuição a bocas famintas de poder e de dinheiro?
Bom, diz a sabedoria popular que "pela boca morre o peixe" e, se desta vez foi um pouco mais longe em sua clara defesa, do tipo, eu sou muito sério, mas há por aí gente que não se cansa de mamar, o presidente, conhecida a sua velha e repetitiva estratégia de baralhar e dar de novo, esteve no adro mas não terá convencido. Porque as pessoas estão fartas, a população já conhece a sua "homília", as gentes estão com um aperto na garganta e voltam-lhe as costas sabendo que aquela é já conversa de treta e fiada. Dizer que as contas vão ficar equilibradas em quatro anos constitui uma treta, uma colossal mentira, pois bastará fazer umas continhas, poucas, e todos concluirão que temos drama para vinte a trinta anos, se outras medidas e solidariedades não forem assumidas. Aguardemos pelo "debate" do Plano e Orçamento e quem estiver atento aperceber-se-á da realidade.
Finalmente, na última campanha eleitoral para as legislativas regionais, assisti a alguns párocos (e bem) a solicitarem que não entrássemos no adro com fins de mensagem política. Quem me acompanhava sempre respeitou essa posição. Não deixa de ser curioso que, agora, porque é o PSD, os adros das igrejas sejam invadidos por gente que, ainda por cima, após a Missa têm de escutar um homem a falar de gente que "mama na teta do regime", declaração que pode ser interpretada, também, como um deselegante aviso à Igreja Católica, beneficiária de substanciais apoios ao longo dos tempos. Mas, enfim, quem se coloca a jeito tem de silenciar ou frenar os seus posicionamentos. É caso para dizer, mamas para que te quero?
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

NÃO GOSTEI

 
Há tantos escândalos na política como a História demonstra que, infelizmente, a Igreja, feita por homens e mulheres, está cheia de tristes e alguns repugnantes episódios. Há mãos e corpos sujos em muitos sítios, pelo que a generalização considero-a abusiva.
 
 

O Senhor Dom José Policarpo, Cardeal Patriarca, fez uma declaração que, sinceramente, não gostei. Há muitas mãos sujas na política, mas também há muita gente séria e honesta, que está no exercício da política apenas por convicções. Da mesma forma que existe, com toda a certeza, membros da Igreja Católica de exemplar comportamento, a todos os níveis, e outros que exercem a sua função de forma muito pouco transparente. Sabemos que é assim e o Senhor Dom José Policarpo reconhecerá, certamente. Há tantos escândalos na política como a História demonstra que, infelizmente, a Igreja, feita por homens e mulheres, está cheia de tristes e alguns repugnantes episódios. Há mãos e corpos sujos em muitos sítios, pelo que a generalização considero-a abusiva.
Tenho pelo Senhor Dom Policarpo uma elevada consideração, pela sua postura serena e pelas palavras muitas vezes acutilante que a todos deixa a reflectir. Mas, esta NÃO. Senti-me ofendido. Nunca fiz política envolvido em negócios com o governo, por exemplo. Nem com o governo nem com ninguém. Estive sempre em exclusividade no Parlamento. E da minha longa passagem pelo exercício da política, apenas estive oito anos no Parlamento. Não fui e não sou um carreirista. Tal como eu, muitos outros não têm negócios com o governo, não legislam de manhã para beneficiar à tarde, não estão directa ou indirectamente à mesa do orçamento regional ou nacional. Mas há quem esteja, eu sei! A generalização, repito, ofende. Equivaleria, malevolamente, eu dizer que ninguém sobe na hierarquia da Igreja de forma transparente. Seria abusivo e até reles da minha parte. Não conheço os processos e, por isso, por respeito, não me atrevo a dizê-lo. Agora, sei, por exemplo, que, por aqui, são milhões que são gastos no Jornal da Madeira e na construção de templos. Ainda há dias foram 2,8 milhões! Isto, quando há gente com fome.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A DEDICAÇÃO DE UM TEMPLO A 28 DIAS DAS ELEIÇÕES


E o que este Senhor Bispo, na esteira de outros, me estão a "vender" é uma palavra com "p" minúsculo, a palavra dos interesses, a palavra de um cristo não libertador, de um cristo (com "c" minúsculo) que manda carregar a cruz (com "c" minúsculo), para que uns quantos continuem a dominar e a esmagar como querem e entendem uma população inteira. Eu que, diariamente, confesso, tenho um momento de recolhimento pessoal, considero abjeta esta forma de conduzir um povo. Se, por este governo, não nutro qualquer respeito pela forma como age, esta Igreja feita por homens de vestes partidárias, irrita-me.


Já nada me espanta. Hoje, pela manhã, recebi uma mãe aflita com a longa lista de materiais para a escola de dois dos seus filhos. Não tinha dinheiro e já tinha batido à porta de muita gente. Hipocritamente, numa Junta de Freguesia, proporcionaram-lhe uma ajuda para outro filho, mas na condição de votar no PSD. Não liguei a este desabafo lateral porque sei o que a teia  e os tentáculos do polvo produzem na Região. Resolvi a situção dos pequenos e ponto final, porque com a Educação não se deve brincar e aqueles pobres não pediram para estar nesta situação. Até são bons alunos. O curioso desta história é que isto teve lugar nem 24 horas depois da Dedicação da Igreja de Santa Cecília, onde governo e Igreja Católica apareceram de braço dado. Pelo que li, do dinheiro público, cerca de 2,6 milhões de euros foram ali empregues, mas as pessoas, o bem supremo da vida que a Igreja prossegue, ficou para depois, isto é, a fome de muita coisa que o ser humano precisa, entre as quais, a educação, essa fome pode esperar. O dinheiro não é elástico, pois é. Eu sei. As prioridades é que estão invertidas, obviamente, que também sei. O Senhor Bispo poderia ter sido menos ostensivo, poderia deixar a Dedicação do templo para o dia 10 de Outubro, mas não, cedeu a quem mandou pagar 2,6 milhões. Quem paga, manda. Na Homília aconteceram os agradecimentos da praxe com o presidente do governo presente. Um fatinho à medida, digo eu.
Ora bem, eu não escrevo estas linhas como partidário, escrevo como cidadão e como seguidor da Palavra de Cristo. E o que este Senhor Bispo, na esteira de outros, me estão a "vender" é uma palavra com "p" minúsculo, a palavra dos interesses, a palavra de um cristo não libertador, de um cristo (com "c" minúsculo) que manda carregar a cruz (com "c" minúsculo), para que uns quantos continuem a dominar e a esmagar como querem e entendem uma população inteira. Eu que, diariamente, confesso, tenho um momento de recolhimento pessoal, considero abjeta esta forma de conduzir um povo. Se, por este governo, não nutro qualquer respeito pela forma como age, esta Igreja feita por homens de vestes partidárias, irrita-me.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A MILITÂNCIA DO SILÊNCIO


Ora, uma pessoa imbuída destes valores, obviamente, que terá de ser uma pessoa não acomodada, fingidora e de braços caídos. Terá, naturalmente, que fazer parte de um grupo de pensadores que se manifestam contra a "militância do silêncio". Quando, aos outros, se atribuem "pecados", talvez o "pecado" maior seja o da "militância do silêncio" (...)


Tenho uma cada vez maior admiração pelo Senhor Padre José Luís Rodrigues. Admiração pelo desassombro das suas mensagens, pelos  respeito que nutre por princípios e valores de Vida, pela fé de que dá nota, pela profundidade da Palavra que transmite. No seu blogue pessoal (Banquete da Palavra), que assiduamente visito, leio: "Sou sacerdote. Gosto muito do que faço. Ora bem, e o que se há-de esperar de quem é feliz! Assim, o que mais desejo neste mundo é que os outros também sejam muito felizes. Por isso, façam todos o grande favor de serem felizes".
Ainda hoje, lá colocou um post, um poema de Sebastião da Gama:
"Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
(...)"
Ora, uma pessoa imbuída destes valores, obviamente, que terá de ser uma pessoa não acomodada, fingidora e de braços caídos. Terá, naturalmente, que fazer parte de um grupo de PENSADORES que se manifestam contra a "militância do silêncio". Quando, aos outros, se atribuem "pecados", talvez o "pecado" maior seja o da "militância do silêncio", como o ilustre Reverendo declarou hoje ao DN. É uma voz incómoda, é claro que é. Mas também não tenho dúvidas que a voz do Padre José Luís Rodrigues é construtora de uma Igreja verdadeira e não de uma Igreja bafienta, arrumada e trancada nas gavetas da Sacristia.
Não coloco aqui a questão entre crentes e não crentes, entre os que têm e os que não têm fé, coloco sim, aqui, a existência de uma instituição universal, com dois mil anos, com um poder que nenhuma outra desfruta, e que não pode ou não deve prosseguir na "omissão e nos silêncios, sobretudo aqueles pensados e estudados", porque tudo isso "é uma forma de tomar partido". Concordo, Padre José Luís, que essa "militância do silêncio" se torna castradora da Libertação, o que contraria, como sublinhou, que "é algo que vai contra aquilo que fez Jesus Cristo, "que tomou posição clara em relação aos poderes quer religioso, quer político" (...) "Jesus foi o maior político da história, tomando partido pelos mais pobres, numa afronta directa em relação aos poderes político-religiosos da época".
É por isso e pela sua inteligente participação cívica, de Homem feliz que apenas deseja que os outros também sejam felizes, que aqui deixo a minha admiração. Aliás, tantas vezes digo no meu círculo de amizades: se sou feliz, porque raio os outros não têm esse direito? É por isso que, relativamente ao Padre José Luís, apenas sublinho: tomara que a nossa terra pudesse contar com muitos que traduzissem a Palavra por miúdos, devidamente contextualizada na Vida.
Um abraço de grande admiração.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

GERAÇÃO DOWNLOAD? PREFIRO UMA GERAÇÃO UPGRADE!


O que andam a "descarregar" (download) sobre o povo em geral e sobre a juventude em particular, no plano político, obviamente, são versões antigas geradoras de insatisfação. A própria Igreja precisa de um upgrade ao contrário de continuar a descarregar a Palavra repetida e descontextualizada. Com os mesmos princípios e valores doutrinários, o seu software tem de ser outro para que a juventude consiga bem trabalhar no teclado da vida.

D. António Carrilho, Bispo da Diocese do Funchal falou ontem de uma geração "download". Sinceramente, mesmo no contexto que Sua Excelência Reverendíssima enquadrou o conceito, eu continuo a preferir lutar por uma geração upgrade. Uma geração que não se resuma a transferir dados, a sacar, a baixar e a copiar elementos, pelo contrário, entendo que temos de intervir com paradigmas upgrade. E se falamos em termos de computação, eu diria que o hardware, em todos os âmbitos de análise, tem de ser melhorado para versões mais atualizadas, de tal forma que possa receber o software adaptado aos sinais dos tempos. O que andam a "descarregar" (download) sobre o povo em geral e sobre a juventude em particular, no plano político, obviamente, são versões antigas geradoras de insatisfação. A própria Igreja precisa de um upgrade ao contrário de continuar a descarregar a Palavra repetida e descontextualizada. Com os mesmos princípios e valores doutrinários, o seu software tem de ser outro para que a juventude consiga bem trabalhar no teclado da vida.
E sobre esse novo software, deveria aí D. António Carilho ter uma palavra no quadro da ciência da computação da vida, no sentido de colocar em sentido os decisores políticos da Madeira que, há trinta e seis anos preferem o mesmo hardware educativo (e não só) onde correm currículos e programas desajustados. É por aí que temos de recomeçar, porque de nada vale "anunciar Jesus e a sua maravilhosa boa nova de paz e alegria, o Evangelho como ideal e mensagem de vida", como salientou D. António Carrilho, quando há desespero, fome, desestruturação social e familiar e quando assistimos ao mais completo desvirtuamento dos princípios humanistas. 
Cristo Jesus viveu no meio dos Homens. O seu software correu num hardware tão atualizado que dispensou downloads de emergência, tampouco de um qualquer facebook para multiplicar a Palavra. A mensagem multiplica-se, hoje, se o Homem, no caso específico da Igreja, souber enfrentar, denunciar e corrigir os comportamentos dos vilões e essa espécie de fariseus (na política há tantos) dos novos tempos que se consideram mais justos e santos que todos os outros. 
É por isso que a luta da Igreja, enquanto instituição milenar e experiente, terá de relegar o circunstancialismo das palavras que não têm eco, as palavras bafientas, relegar esse sofware que já não adianta, fazer um upgrade da mensagem compaginada com as causas políticas que, a montante, estão a gerar uma sociedade que caminha para a sua autodestruição.

domingo, 17 de abril de 2011

UMA IGREJA PARTIDÁRIA


Como é que gente da minha Igreja não consegue fazer um acto de contrição, que prefira manter fora da Igreja um Pastor que deseja estar de pleno direito na Igreja que serve? Por ser político? E Cristo, não o foi? Cristo não defendeu o que muitos políticos, mesmo aqui próximo de nós, defendem na sua actividade em defesa dos pobres e dos que não têm voz?


Para mim é um não caso, o do Senhor Padre Martins Júnior. A sua suspensão "a divinis" definida pelo Bispo Francisco Santana não é, apenas política, é claramente partidária. A narrativa dos acontecimentos (in Jardim, a Grande Fraude), o seu percurso de vida, a carta do Padre Mário Tavares, escrita a 10 de Março de 1985, ao Senhor Bispo António Teodoro, parece-me bem clara. O Padre Mário Tavares, a páginas tantas sublinha: "(...) mas porventura a ilha da Madeira conheceu algum político mais activo do que D. Francisco Santana, enquanto Bispo do Funchal?".
Passados todos estes anos, D. Teodoro passou ao lado (e percebo porquê) de um problema que deveria ter resolvido e, o agora Bispo D. António Carrilho denuncia lavar as mãos. Passaram-se quatro anos desde que aqui chegou. Que grande engrenagem esta! Como é que gente da minha Igreja não consegue fazer um acto de contrição, que prefira manter fora da Igreja um Pastor que deseja estar de pleno direito na Igreja que serve? Por ser político? E Cristo, não o foi? Cristo não defendeu o que muitos políticos, mesmo aqui próximo de nós, defendem na sua actividade em defesa dos pobres e dos que não têm voz? Há algum "crime" em subir ao púlpito e falar a verdade, muito para além, perdoem-me a franqueza, da lengalenga das Leituras que todos já as conhecemos de fio a pavio? Haverá mal algum em denunciar a pobreza, os escândalos, a inversão das prioridades, as carências e as meias-verdades? Haverá algum mal em olhar para a Cruz de uma forma redentora e não pelo seu peso na vida de cada um? E que peso na consciência dos líderes da Igreja quando o que parece estar em causa é uma troca de silêncios por subsídios? Então o Presidente do Governo pode falar (já discursou) no púlpito com intervenções políticas e os Senhores Padres não?
Já agora... Inaceitável, com todo o respeito por Sua Excelência Reverendíssima, o Senhor Bispo D. António Carrilho, que existindo uma carta, há mais de um ano, no Paço Episcopal, solicitando uma audiência com o Grupo Parlamentar do PS-Madeira, no quadro do Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social (2010), essa carta nem resposta tivesse tido. Foi ignorada. Cruzei-me com D. António, no decorrer das cerimónias do dia da Força Aérea, realizadas na Madeira, falou-me de condicionamentos de agenda, embora não lhe tivesse feito qualquer abordagem nesse sentido. Enfim, o Ano Europeu lá vai, porém, a pobreza continua e cresce na Madeira. Daí que o pedido de audiência se mantenha. Porque somos poucos para trabalhar nessa área.
Portanto, fica claro, que se o encontro não se realiza é porque existe uma claríssima intervenção política e sobretudo partidária nesse sentido, que não abona a independência da Igreja e mais do que isso, a sua necessidade de trabalhar com todos independentemente dos posicionamentos político-partidários. Não é esta a minha Igreja, a Igreja dos Homens que marcam uma diferença entre as palavras e os actos.
Uma palavra final: resolvam lá o problema que criaram ao Senhor Padre Martins Júnior. Porque os Homens passam e a Igreja continua. Mesmo sem fogueiras e torturas, há para aí uma espécie de intolerável e moderna "Inquisição". Basta!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 10 de março de 2011

TRÊS MILHÕES E MEIO...


(...) A Palavra que coloque certos senhores em acto de contrição pela forma como actuam, que coloque em causa os seus actos, que fale aberta e de forma independente dos problemas reais, que toque nas feridas sociais que sangram, que ela nunca seja um meio de estupidificação, mas de libertação, que faça da Igreja um contrapoder ao pensamento oportunista, reles e que nada tem a ver com os princípios orientadores da condução do Homem na Vida. 


Não aceito que um governo, com problemas financeiros até ao céu de boca, se dê ao luxo de aplicar mais três milhões e meio de euros em dois templos. Fora os outros!
Não entendo, por três motivos: primeiro, porque o número de fiéis que cumprem os rituais da Igreja Católica, visivelmente, diminuiram; segundo, porque 3,5 milhões (fora outros) muita falta fazem no combate à pobreza e à fome (2010 foi o ano europeu do combate à pobreza e à exclusão social); terceiro, porque demonstra, inequivocamente, a inversão das prioridades políticas do governo. Se, a essência, digo eu, da Igreja, circuncreve-se à mensagem "amai-vos uns aos outros como vos amei", este sinal dado pelo governo da Madeira, contraria, completamente, aquele nobre princípio, porque ele se inscreve numa lógica não de amor ao próximo e de partilha dos bens públicos, mas de poder. É o PODER político que está em jogo compaginado com a ignorância.
Já há dias disse-o aqui que, no plano da Palavra, sou tão Católico como qualquer outro que, diária ou semanalmente, assista aos rituais. No plano pessoal e familiar a Palavra está sempre presente e não preciso de outras formas, muitas delas exaustivamente repetidas, enviesadas e sem conteúdo que vão sendo propaladas. Preciso, isso sim, de ouvir a Palavra que coloque certos senhores em acto de contrição pela forma como actuam, que coloque em causa os seus actos, que fale aberta e de forma independente dos problemas reais, que toque nas feridas sociais que sangram, que utilizem a Palavra, que ela nunca seja um meio de estupidificação, mas de libertação, que faça da Igreja um contrapoder ao pensamento oportunista, reles e que nada tem a ver com os princípios orientadores da condução do Homem na Vida. E para isto não são necessários mais templos. Necessário se torna, apenas, menos opulência e mais verticalidade, independência e objectividade nas acções.
Ficaria feliz, por exemplo, se esses 3,5 milhões (fora os outros) fossem destinados às crianças com uma alimentação desequilibrada, às famílias desempregadas e aos idosos com pensões de miséria. Aplaudia se esse fosse o gesto.
O problema é que a Madeira tem um governo que conjuga este tipo de apoios com, por exemplo, os muitos milhões (fora outros) ao futebol.  Gastam à tripa forra porque a fome pode esperar. Não é esta a Palavra de Cristo. Pelo menos para mim.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A PROPÓSITO DE SONOLÊNCIA


Distinto Cónego, sabe tão bem quanto eu a importância que a Igreja Católica madeirense e, particularmente, os dois anteriores Bispos, tiveram na sonolência deste Povo.

E a sonolência do Povo
a quem se deve?
As declarações do Senhor Cónego Manuel Martins, nas Homilías de Domingo passado, foram pouco certeiras. Quis-me parecer que o Senhor Cónego ao se referir "aos governantes incompetentes e bispos sonolentos" colocou no centro das suas declarações os "profissionais" da política no espaço Continental. Perdoar-me-á se esta minha leitura parte de um pressuposto incorrecto. Foi a minha dedução da leitura que fiz, até porque, seria deselegante da sua parte, atacar o Bispo do Funchal. E essa dedução leva-me a dizer que o tiro não foi certeiro, pois o Senhor Cónego não pode nem deve esquecer-se que esta Região tem uma Assembleia própria, um Governo próprio e um Orçamento próprio. E sendo assim, quem há 36 anos anda a governar de forma "incompetente" e quem ajudou a cimentar essa incompetência está identificado. E mais, Distinto Cónego, por quem tenho uma enorme simpatia, sabe tão bem quanto eu a importância que a Igreja Católica madeirense e, particularmente, os dois anteriores Bispos, tiveram na sonolência deste Povo. Por aqui, os Senhores Bispos, com todo o respeito, não estiveram sonolentos, antes souberam conduzir o rebanho segundo a batuta política do governo regional.  E se há uma pobreza em crescendo que, aliás, o Senhor Cónego Manuel Martins tem sido um dos grandes denunciadores, essas pessoas que, diariamente, lhe batem à porta, primeiro, na Sé, depois, em Machico, são filhas legítimas de uma política madeirense que a isso conduziu. Parece-me, então, que a sonolência está mesmo aqui ao nosso lado e convém não descartá-la. Enveredar por esse caminho significa negar a existência de órgãos de governo próprio. Houve e há muito profissionalismo incompetente, inclusive, na própria Igreja a que pertenço. 
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ASSIM, NÃO É FÁCIL... MAS A LUTA TEM DE CONTINUAR


Ela pode ter uma participação, mesmo que mínima, no capital social da empresa, mas daí autorizar a sua distribuição no interior do seu espaço, penso que o descaramento vai longe demais. Não é aceitável nem razoável, simplesmente porque ali está uma questão de política e não uma questão de transmissão da Palavra.

Há de facto situações
que não cheiram nada bem!
 Ontem, vivi uma experiência interessante que proporciona reflexão sobre as desproporcionalidade dos meios para fazer chegar às pessoas a mensagem político-partidária. O PS elaborou um "flyer" com as dimensões de 6x21 centímetros, subordinado ao título "Autonomia ao Serviço do Povo" e com sete pontos essenciais que se subordinam à seguinte posição: "Os salários dos funcionários públicos só baixam na Madeira se o governo regional do PSD quiser". Várias equipas foram distribuídas pela cidade e, discretamente, à saída das missas de Domingo, o documento foi distribuído.
Ora bem, à saída da celebração, invariavelmente, na esmagadora maioria dos locais por onde passei, as pessoas saíam com o Jornal da Madeira. O tal órgão de comunicação social, pago com o dinheiro dos contribuintes, distribuído "de borla" e que funciona como um "boletim da paróquia" agora em formato grande. Antes, era o panfleto elaborado na antiga "máquina de escrever", impresso no velho "stencil", manual ou eléctrico, depois, na fotocopiadora e, agora, em formato tablóide. E a Igreja Católica, infelizmente, permite isto. A Diocese pode ter uma participação, mesmo que mínima, no capital social da empresa, mas daí autorizar a sua distribuição no interior do seu espaço, penso que o descaramento vai longe demais. Não é aceitável nem razoável, simplesmente porque ali está uma questão de política e não uma questão de transmissão da Palavra. Mas, enfim, na Madeira, é assim, vale tudo pela manutenção do poder. Lamento, porque não é esta a dimensão da Democracia onde gostaria de viver.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 17 de julho de 2010

UM ENTREVISTA DE UM HOMEM CULTO


Jesus quando começou a sua intervenção original na sociedade teve três tentações: a tentação do poder político, a tentação do poder económico, e a tentação do espectáculo religioso. Jesus negou isso tudo. (...) Encostada ao poder, abraçada ao poder, a Igreja depois será julgada também como poder. E quando o poder político abraça muito a Igreja, sufoca-a.


A entrevista da TSF, assinada por Nicolau Fernandez e Raquel Gonçalves, publicada na edição de hoje do DN, escorreu-me na garganta como mel. É uma entrevista sincera e, embora limitada no espaço, aflora assuntos de relevante importância. Pergunta o jornalista, a páginas tantas, a Frei Bento Rodrigues: "A Igreja precisa de um Vaticano III? "O mundo mudou muito desde os anos 60. Só que também foram nomeados bispos que desejam pouco a renovação. Acho que a mudança devia ser preparada ao nível de base, nas comunidades, nas paróquias, nos movimentos". Isso seria inverter toda a lógica, retorquiu o jornalista... "Seria, mas era uma boa lógica, era uma lógica Eclesial. A Igreja somos nós todos. Os bispos são aqueles que orientam, mas a Igreja é feita de todos. O Vaticano II tem tantas virtualidades que ainda não foram acolhidas. O necessário era encontrar formas e desafios globais e locais para praticar o Vaticano II. É necessário que algo aconteça porque há um nó de problemas que ficou rígido e que neste momento é necessário desatar".
A Igreja então, nesta matéria, não tem bom senso?
"Não, não tem. A questão é a seguinte e, para mim, é claro como a água: o que espanta no Novo Testamento foi a revolução feminista feita por Jesus. Se lermos as narrativas do Evangelho, vemos que até o Cristianismo tinha acabado se não fossem as mulheres. Na ressurreição, Jesus revela-se às mulheres em primeiro lugar, e encarrega-as de ir dizer aos irmãos: a luta continua, tudo para a rua. A tal ponto que Maria Madalena, nos Dominicanos, é dita a mãe dos pregadores, porque ela é que foi revelar aos outros que Cristo estava vivo. Além disso, foram as mulheres que começaram por financiar o projecto de Jesus e, a seguir, foram as únicas que aguentaram o processo de Jesus na Cruz. Os homens pisgaram-se, cada um foi à sua vida. Acharam que não era de confiança alguém que se proclamava filho de Deus e que nem foi livrado da cruz. Houve mulheres extraordinárias ao longo da história da Igreja, mas o poder foi açambarcado pelos homens, os mesmos que pensam que é bom que varram as igrejas, que ponham flores nos altares, mas mais do que isso não dá".
Tem um livro que aborda a religião e a política. Aqui na Madeira critica-se o facto da Igreja estar muito ligada ao poder, o mesmo poder que muitas vezes afasta os padres que são da oposição. Conhece esta situação? Já me falaram dela e acho uma coisa miserável. Por uma razão simples: os padres podem meter-se na política como cidadãos. Mas não podem servir-se do facto de serem padres para manipular. E depois também não se devem deixar manipular pelo poder político. A meu ver, há que respeitar a vocação de cada um, mas seja partidário, seja governo, seja o que for, a Igreja nunca deve deixar-se dominar pelo poder político. Digo isto por uma razão simples: Jesus quando começou a sua intervenção original na sociedade teve três tentações: a tentação do poder político, a tentação do poder económico, e a tentação do espectáculo religioso. Jesus negou isso tudo. Não sou nada contra os políticos. Meu Deus, é uma das missões mais importantes na sociedade. Mas os serviços da Igreja devem ser aqueles que alertam para a voz dos sem voz, para o poder dos sem poder, para as necessidades de todos. Encostada ao poder, abraçada ao poder, a Igreja depois será julgada também como poder. E quando o poder político abraça muito a Igreja, sufoca-a.
Acha mal um padre ou um bispo ir a uma inauguração? Eu acho que era melhor não. Por uma razão simples, muitas vezes há coisas e há inaugurações que são fruto de uma política errada e muitas vezes opressiva e exploradora, e então o padre vai abençoar. Meu Deus, não! Há mais que fazer".
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

VISITA DO PAPA BENTO XVI

"As iniciativas que visam tutelar os valores essenciais e primários da vida, desde a sua concepção, e da família, fundada sobre o matrimónio indissolúvel de um homem com uma mulher, ajudam a responder a alguns dos mais insidiosos e perigosos desafios que hoje se colocam ao bem comum”, defendeu o Santo Padre, numa breve referência a dois dos mais polémicos temas sociais, o aborto e o casamento homossexual.
A declaração de Bento XVI surge numa altura em que o Presidente da República português está ainda a analisar o diploma que autoriza legalmente o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo.
O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, admitiu no dia da chegada de Bento XVI a Portugal que o Papa poderá vir a referir-se aos temas da despenalização da interrupção voluntária da gravidez e do casamento entre pessoas do mesmo sexo durante a sua visita. Federico Lombardi sublinhou que as posições do Papa sobre "o tema do aborto e da família são conhecidas" e que "o Papa frequentemente as apresenta”. "Quem deve tirar as conclusões, deve tirá-las segundo as suas responsabilidades", disse na altura.
Respeito a posição da Igreja, mas não é essa a minha opinião, pelo menos em vários aspectos.
in Jornal PÚBLICO. Posted by Picasa

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O PECADO DA RIBEIRA SECA


Está na hora dos mentores se confessarem!


Concordo, sem retirar uma vírgula, com o texto, directo, sem rodeios, sem... "mas, porém, todavia, contudo"... da Jornalista do DN, Raquel Gonçalves. A situação criada pela Diocese e que ilustres Reverendos da Madeira, um ou outro, abertamente, um ou outro, para além do silêncio do adro, testemunham, está muito para além de uma simples suspensão "ad divinis" imposta pelo falecido Bispo Dom Francisco Santana, ele um apaniguado e acérrimo defensor das políticas social-democratas, lideradas pelo ainda presidente do PSD-Madeira. O que está aqui em causa, aliás, como tenho vindo a sublinhar, é uma questão que está muito para além da gestão corrente da Igreja. É um assunto claramente POLÍTICO, um assunto sujeito a muitas pressões, a muitos telefonemas e que se reduz a um posicionamento que se circunscreve, provavelmente, em uma simples frase: enquanto eu aqui estiver, ele não regressa. É um caso de vitória ou derrota e nada mais. Há uma história de agressividades sem sentido. Se o Padre Martins Júnior, como outros que defenderam a esquerda e a esquerda das esquerdas, em tempos que já lá vão, tivesse alinhado, politicamente, com os social-democratas, hoje era secretário regional ou candidato a Bispo. A análise do processo a esta conclusão me conduz. É por isso que o texto da Jornalista Raquel Gonçalves tem valor e acrescenta muito em termos de reflexão. Aqui fica, com a devida vénia:
"Vergonhoso! É esta a melhor definição para o que aconteceu, este fim-de-semana, na Ribeira Seca. Todo o enredo que rodeou a visita da imagem peregrina é, aliás, digno de uma espécie de realismo mágico à moda da América Latina. Uma santa, padres e um povo que se sente ostracizado por uma Igreja autista e pouco justa.
Pelo meio, uma suspensão 'ad divinis' que se perde no tempo, sem condenação ou redenção e com política à mistura.
Não fosse risível, tudo isto seria trágico. E trágico para quem? Não para os padres, com certeza, mas para o povo que acredita.
Visto de fora, o episódio até pode parecer de pouco interesse, uma discussão de paróquia em torno de uma imagem de barro.
Mas não é assim para quem tem fé. E, neste prisma, se houve alguém a quem a Diocese e os seus padres ofenderam não foi o padre Martins, mas sim o povo da Ribeira Seca. Esse povo que, pela devoção, constitui a verdadeira Igreja. Esse povo que merecia mais respeito e cuja crença não se compadece com brigas de sacristia. É claro que vão começar a chover versões e explicações para o que aconteceu. Se calhar até chovem críticas e condenações à comunicação social, como é tradição. Mas o 'pecado' cometido na Ribeira Seca tem raízes mais profundas do que a retórica que apenas serve para atirar água benta aos olhos. / Raquel Gonçalves, Editora de Madeira".
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O PROBLEMA DO PAÍS NÃO É CONSTITUCIONAL

Quatro notas ao iniciar esta semana de trabalho político:
1ª O Dr. Pedro Passos Coelho, novo líder do PSD, quer a revisão da Constituição da República Portuguesa, quanto antes e, se possível, antes das eleições presidenciais. Ora, o problema do nosso País não é Constitucional. Quem se der ao exercício de a ler, concluirá que a Constituição é um texto de excelência em matéria de princípios. Não significa, obviamente, que aqui e ali, sobretudo no que concerne às Autonomias Regionais, não deva, cirurgicamente, ser melhorada no sentido de garantir, em determinados domínios, que a Autonomia não constitua, apenas, uma palavra decorativa. Reconheço alguns entraves, sem sentido, que tornam inconstitucional alguma legislação produzida. Penso, no entanto, em uma perspectiva mais alargada, que o problema do País não é constitucional e que, portanto, outros objectivos se escondem no discurso do novo líder do PSD. A sua postura política, marcada pelo seu campo ideológico é que o leva a assumir tal prioridade. Quando ele fala da liberdade das pessoas poderem escolher a Educação e da Saúde que querem, este é apenas um exemplo, isto significa um posicionamento ideológico que nem o Dr. Paulo Portas, do PP, se atreveria a iria tão longe. O que está aqui em causa é, até ver, uma assumida opção pela privatização em detrimento das obrigações de natureza pública. Ou, então, o novo líder não conhece o País onde vive (dois milhões de pobres) e a importância de sectores que devem continuar com uma prevalência pública. O tempo o dirá.
De resto, sabemos, pelo dia-a-dia, que o nosso problema colectivo é político e dos políticos e não da Constituição. Se temos a sociedade que temos não se deve à Constituição. Se a Escola é aquilo que é no que concerne à sua organização sistémica, curricular e programática, não se deve à Constituição. Se há carências graves no sistema social e de saúde, tal facto não fica a dever-se à Constituição. O nosso atraso cultural não se deve à Constituição. A falta de respeito pelo ordenamento do território não se deve à Constituição. A quase falência do sistema de Justiça não se deve à Constituição. E por aí fora... O nosso drama, enfim, está nos políticos e nas políticas que são implementadas. Está na "guerra" diária e no pântano onde se atolam dirigentes, da base ao topo, sem escrúpulos, com sede de poder e necessidade de se sentarem à mesa do Orçamento, em uma espécie de salve-se quem puder. Olhe-se para a Madeira e vejamos se esta não tem sido um laboratório experimental que confirma que a Constituição não tem nada a ver com o desenvolvimento mas sim com os políticos e as políticas. Por aqui fico, mas quanto à revisão constitucional, por favor, mais à direita, Não!
2º Em Portugal estão autorizados cerca de 4900 cursos ministrados pelas universidade e institutos politécnicos. De acordo com a Agência para a Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, cerca de 650 cursos deverão ter fim anunciado para breve, segundo deduzo das palavras do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago. Finalmente, digo eu. Era já tempo de colocar um ponto final em licenciaturas de "vão de escada", sem qualidade e sem interesse para o desenvolvimento do País.
3º Tenho dificuldade em aceitar (mas percebo!) esta teimosia do PS em não posicionar-se, rapidamente, como apoiante do Dr. Manuel Alegre nas presidenciais de 2011. O Dr. Pedro da Silva Pereira, que é Ministro da Presidência do governo socialista, dizia há dias, que o PS não quer "nesta fase dar nenhum sinal de que podemos ter aqui uma inversão de prioridades". Mas quais prioridades? Uma coisa é a candidatura que será promovida pelo candidato Manuel Alegre, outra, é o apoio explícito do PS a essa candidatura. Que inversão de prioridades governativas existirão nessa declaração de apoio? Não vejo nenhuma. O que me parece é que este protelamento do apoio esconde muitas outras coisas, onde o Dr. Mário Soares, infelizmente, parece envolvido. Quem analisa no mesmo sentido que eu defendo é o Presidente do Governo dos Açores, Dr. Carlos César, que assumiu que o PS precisa de se definir "com urgência" sobre este assunto.
4º Finalmente, na sua homilía de Sexta-feira Santa o Cardeal Patrirca de Lisboa disse: "os pecados da Igreja, mesmo os pecados dos sacerdotes, indignam o Mundo e ofuscam a imagem do Reino de Deus. Sem se referir aos casos de pedofilia, o Patriarca, acrescentou: "continuamos a precisar do Vosso amor redentor, por causa dos nossos pecados. Perdoai os pecados da Vossa Igreja". Palavras sinceras, profundas, dizendo, não dizendo, explicitamente, o motivo das mesmas.
Ora, comparar aquelas palavras, plenas de humildade e grandeza, com as de Dom Teodoro de Faria, Bispo Emérito do Funchal, a propósito do mesmo assunto, as de D. Teodoro não têm explicação, para não dizer perdão possível, simplesmente porque devemos saber perdoar!

domingo, 4 de abril de 2010

DOMINGO DE PÁSCOA E A "CHAMA DA ESPERANÇA"

É essa Igreja que faz falta, aquela que dispensa os milhões para novos Templos, aquela que não quer o seu Povo dependente da caridade, antes luta pela igualdade e pela fraternidade, luta pelos direitos, luta por um Evangelho vivo, aplicado, custe o que custar e doa a quem doer.


Uma nota neste Domingo de Páscoa.
Começo pelas palavras do Senhor Bispo Dom António Carrilho que apelou aos cristãos (DN-M) para que acendam "a chama da esperança" e deixem transparecer na sua vida "a verdade, o amor, a justiça e a paz de Jesus" (...) porque esta sociedade está "carente de paz, amor e esperança", e que deixem "acontecer o milagre da vida nos gestos de ternura e de bondade" (...) com "escuta, perdão, compreensão e solidariedade".
Tudo bem, julgo que ninguém colocará em causa estas palavras de circunstância, perfeitamente adaptadas ao período Pascal. Melhor dizendo, neste período ou em qualquer outro menos festivo do ano. O problema é perceber que razões levam a que não haja verdade, amor, justiça, paz, esperança e bondade. O problema reside aí. E sabe o Senhor Dom António Carrilho que o problema é político, dos políticos e da Igreja, obviamente. Há muitos anos que oiço a Igreja falar do mesmo, daquelas palavras tão importantes e tão profundas, todavia, sem resultados práticos. Cada vez vez há menos verdade, menos amor, menos justiça, menos paz, menos esperança e menos bondade. Sabemos que assim é e de nada valerá escamotear. E isto acontece, entre muitas e muitas variáveis, ao facto da Igreja não se assumir pela diferença, distanciando-se do poder temporal e ao contrário de contextualizar a Palavra, preferir delas falar de forma oca e sem significado. O problema é, por isso, político, e sendo-o, só aí tocando, a tal verdade, o tal amor, a tal justiça, a tal paz, a tal esperança e a tal bondade poderá invadir o coração dos Homens. Se assim não for a Igreja continuará a sua lenta marcha cada vez mais distante dos princípios e dos valores que a sociedade reclama.
Eu quero uma Igreja redentora, eficaz, directa junto daqueles que promovem o egoísmo, a fome, a exclusão e castram a liberdade. É essa Igreja que faz falta, a Igreja que não fica pelos rituais, antes vai ao encontro do Homem, libertando-o. É essa Igreja que faz falta, aquela que dispensa os milhões para novos Templos, aquela que não quer o seu Povo dependente da caridade, antes luta pela igualdade e pela fraternidade, luta pelos direitos, luta por um Evangelho vivo, aplicado, custe o que custar e doa a quem doer.
E por aqui fico, porque hoje é Domingo de Páscoa. Embora tanto tivesse para dizer do coração para fora!
Ilustração:
Sagrada Família. Barcelona.
Arquivo pessoal.

quinta-feira, 18 de março de 2010

SAIR DA ROTINA BAFIENTA

"Uma diocese frustrada, súbdita, gaga, sem saber sair de uma situação lamentável que provocou a si própria"

É isso, Padre Mário Tavares, "(...) a Igreja do poder ainda não soube libertar-se dos esquemas de domínio dos tempos da escravatura e do analfabetismo e tem tido dificuldade em pregar a liberdade como dom de Deus, dado a cada um dos seus filhos". Subscrevo-o na íntegra. Inocentemente, quando Dom António Carrilho aqui chegou, escrevi um artigo que terminava dizendo: "carrilhar, é preciso". Acreditei na possibilidade de um tempo novo, onde a Palavra fosse contextualizada na vida de cada um e na colectiva, naturalmente. Vi-o a almoçar no Apolo, no meio do Povo, no centro da "bilhardice" regional, e acreditei que o largo sorriso daria lugar, em simultâneo, ao Homem que trazia o novo, o subtil corte com o poder temporal instituído. Aos poucos, já aqui o disse uma vez, essa esperança de uma Igreja viva, moderna, atenta e libertadora, desvaneceu-se perante quadros que vou assistindo e que não auguram nada de bom face ao que dela era expectável receber. Lamento, enquanto seguidor da Palavra, não sentir essa comunhão de princípios e de valores que a Igreja, se quisesse, tão bem poderia operacionalizar. O tempo e no Templo já não há quem aguente a lengalenga, o ar bafiento, o repetitivo, a ausência de coragem para tocar nas feridas sociais, a incapacidade para, delicadamente mas sem rodeios, meter o dedo onde sangra, fazendo sentir que há muito por fazer e que esta sociedade pobre tem o direito ao amor, à educação, à saúde, ao trabalho e ao bem-estar físico, psíquico e social.
É isso, Padre Mário Tavares, concordo consigo quando clama: "(...) Senhor Bispo, este programa não é para renovar a diocese. É, antes, o retrato de uma diocese frustrada, súbdita, gaga, sem saber sair de uma situação lamentável que provocou a si própria". Lamento, porque é isso que qualquer um sente. Uma Igreja que não se liberta da pequenez dos poderes que por aí andam, que escravizam e matam, lenta mas seguramente, os princípios maiores que enquadram o respeito pela dignidade humana.
A caminho de três anos de apostolado, de chefia da Igreja madeirense, continuo como no primeiro dia e com o devido respeito: "carrilhar é preciso". Preocupações que alimento desde o tempo do Papa João XXIII, o Papa BOM que queria, ardentemente, que a Igreja mudasse de mentalidade, para poder melhor enfrentar e acompanhar as transformações do mundo moderno.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

PENSEM NOS HOMENS

A Igreja Católica é a sociedade mais centralista do Mundo.
Uma nota prévia: não percebo nada, rigorosamente nada, de direito canónico. A única coisa que penso saber, minimamente, mas que vai dando para me guiar na vida, é o pensamento tornado Palavra. Não os comportamentos dos Homens, mas as mensagens fundamentais que percorrem dois mil anos de História. Essas, pelo menos para mim, e com o respeito que nutro por todas as outras confissões que pregam o amor, são determinantes na efemeridade da Vida que todos levamos. Talvez, por isso, não entenda a polémica que dura há trinta anos que envolve o Senhor Padre Martins Júnior. Um caso manifestamente político e não de amor aos Homens e à Igreja. Um Padre amado na sua paróquia mas excluído da hierarquia que se manifesta intolerante e subserviente ao poder político.
Li um texto do Senhor Padre José Luís Rodrigues no seu blogue O Banquete da Palavra. Confirmei o que há muito penso. Aqui fica um excerto do seu texto que aconselho uma leitura reflexiva.
"(...) Nada ou quase nada mobiliza as pessoas para os diversos serviços que a Igreja oferece. Um conserto de música com um cantor qualquer mobiliza milhares de pessoas, as iniciativas da Igreja estão reduzidas aos mesmos fiéis. Algo está mal. A Igreja perdeu a capacidade de atracção. E se não fosse a realidade trágica da morte, há muito que a Igreja tinha passado à história.
Não deve ser este simplismo rasteiro que nos deve centrar na análise das coisas. É preciso procurar mais fundo. Até dúvido muito, que as grandes enchentes que Nossa Senhora de Fátima consegue se não são mais um claro sinal da decadência em que tudo isto está mergulhado.
A Igreja tal como está não pode evoluir nem pode adaptar-se à realidade sempre nova que os tempos nos apresentam. Antes de mais não pode evoluir uma Igreja centralista e que perante as provocações ou apelos à mudança se fecha em copas e agarra-se ao poder com todas as suas forças. Não pode evoluir uma Igreja que se agarra a títulos e mordomias principescas, mais grave do que tudo isso, teimosamente, chama a esses anacronismos absurdos de serviços.
Não parece, mas o governo da Igreja tem muita importância. Ora, vejamos, A Igreja Católica funciona quase exclusivamente sob um poder vincadamente centralista, a autoridade central (entendida como sendo de direito divino). A Igreja Católica é a sociedade mais centralista do mundo. (...)"
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A NECESSIDADE DA PALAVRA

Há um conjunto de situações e de jogos que, diariamente, passam por debaixo dos nossos olhos de "observadores-actores", por aproximação a Joel de Rosney, que nos deixam, certamente, perplexos. Como é possível (?), interrogamo-nos. Ora, da comunicação social dos últimos dias ressaltam algumas peças que suscitam reflexão. Passo à primeira.
Desde logo tudo quanto envolve a Missão do Senhor Dom António Carrilho, Bispo da Diocese do Funchal. Sinceramente, desvaneceram-se as minhas esperanças. Cada dia que se passa começa a ser sufocante a atitude de uma Igreja, virada para si própria e, por isso mesmo, muito pouco libertadora. Quando aqui chegou, lembro-me, com um sorriso de orelha a orelha, a almoçar no Café Apolo. Simbolicamente, aquela atitude significou, para mim, um Homem da Igreja junto do seu Povo, um passo na abertura, um rompimento com o ar por vezes bafiento da sacristia e com as fronteiras impostas, um Bispo atento, pouco ralado com os políticos mas obstinado com os dramas sociais e, por isso mesmo, junto da comunidade dos pastores que servem a Igreja. Ingenuidade da minha parte. Lembro-me, também, nessa altura, já lá vão mais de dois anos, ter escrito um artigo de opinião onde, metaforicamente, dizia: "carrilhar, é preciso!".
O tempo passou e o que vejo não são os sinais da mudança, da libertação através da Palavra, um Bispo apaziguador, atento e que, sem medo, é capaz de tocar nas profundas feridas que matam, inclusive, a fé. A história da Ribeira Seca onde o Padre Martins Júnior reclama o desejo de ser ouvido e "julgado" e que D. António Carrilho", dois anos depois, mantém um silêncio sepulcral. Este é um entre outros episódios que não faz qualquer sentido, e razão tem o Padre José Luís Rodrigues (S. Roque) quando desafia o Bispo a "ousar quebrar as amarras do passado" e que é "inconcebível que não se escute a voz de um povo, que não prevaleça a vontade de um povo, só porque a lei dita outra coisa e os interesses mundanos de algumas pessoas da Igreja falem mais alto". É a questão de uma certa "lei da rolha" ao recomendar cautelas nas declarações públicas dos padres e nos comentários dados, sobretudo nas situações mais polémicas, segundo li, na edição do DN, do dia 23 último. Preocupações desta natureza, entre outras, colocam a Igreja na Madeira no caminho da continuidade, quando esta comunidade católica precisa de uma Igreja actuante e distante dos senhores da política, humanista, repito, libertadora, atenta, pró-activa, desafiadora de princípios e de valores, defensora da família e, neste aspecto, capaz de apontar os erros dos políticos que conduzem à marginalização, à pobreza e à exclusão social. A Igreja Católica não precisa de mais do mesmo, não precisa de mais templos e, por esta via, de sentar-se à mesa do orçamento e de se deixar silenciar e corromper pelo poder político. A Igreja precisa de alma nova, precisa da Palavra, precisa de estar no meio da turbulência com amor e não apenas, distante, a pregar aquilo que já todos conhecem. Dois anos depois, volto a dizer, "carrilhar, é preciso".