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quarta-feira, 25 de julho de 2018

TUDO NORMAL E NINGUÉM É RESPONSABILIZADO


Sinto que foram, uma vez mais, aos meus impostos e que levaram um pouco da minha contribuição. Todos os madeirenses e portosantenses deverão estar a sentir que estão a mexer nos seus bolsos. Segundo o DIÁRIO, em uma peça do jornalista Élvio Passos, clarinha como água da nascente, ficámos a saber que a Região terá de pagar três milhões de Euros de indemnização por obras não realizadas. A empresa do Senhor Avelino Farinha (AFAVIAS), assistente no processo, porque se sente lesada, irá assim receber esse valor. O cartoon da edição de ontem, com refinado humor, transmitia a verdade: "A Região vai pagar por ter obras a menos; antes pagava por trabalhos a mais". Tiro certeiro, porque equivale dizer que o contribuinte está sempre a pagar!

Novo Savoy. Uma agressão à paisagem e ao sentido de escala.

Não me interessa, para já, saber os pormenores. Interessa-me o lado político da questão. Quando as obras foram projectadas e autorizadas pelo governo regional, o mínimo exigível era determinar dois aspectos essenciais: primeiro, se a obra se justificava, respeitando o princípio da prioridade estrutural; segundo, se tinha enquadramento financeiro, entre outros, baseado nos recursos internos e externos. É o mínimo que qualquer cidadão eleitor deve exigir. Ora, se não respeita a prioridade e ainda o contribuinte é chamado a pagar uma obra que ficou por ser concretizada, então aí o problema é político. Os governantes podem apresentar as justificações que entenderem, por exemplo, que o problema residiu nos "atrasos na entrega dos terrenos expropriados, livres e desocupados" (é espantoso!), porém, serão sempre desculpas esfarrapadas, por ausência de rigor, aqui sim, rigor na administração dos bens públicos. Mandar executar sem todas as garantias, na lógica que "a História fala de obras e não de dívidas" é pressupor que "vivemos em França no tempo dos reis" ou então "contar com o ovo no da da galinha". Quem vier depois que a(s) pague! Esse foi e continua a ser o problema que tem uma génese eleitoralista. 
Novo Savoy. Para o empresário, "amigos, amigos, negócios à parte".
Daí que, para mim, seja estranho que não exista investigação séria sobre estes assuntos lesivos do interesse dos cidadãos. São três milhões! De "cantinho do Céu" dou comigo a pensar se não passámos para um "cantinho da impunidade". Não acredito que não existam pontas soltas que conduzam a investigações sérias. É-me difícil aceitar sinais exteriores de riquezas mal explicadas. Agora, do ponto de vista político, aí, a história deveria ser outra. Independentemente de uma penalização nas urnas (então não é o povo quem mais ordena?) a Assembleia Legislativa da Madeira deveria criar uma Comissão de Inquérito para estudo, não apenas da situação agora conhecida, mas de tudo quanto foi pago em indemnizações, pareceres jurídicos, enfim, de tudo, tudo, quanto foi gasto por incúria e que tanta falta faz em vários sectores. Mas isso não vai acontecer, pois aqui tudo tem tendência a ser normal e ninguém é responsabilizado. Por exemplo, "esconder facturas" parece que constituiu um acto normal. Tanto assim é que, apesar de três milhões voarem, estiveram todos no designado "pau-de-fileira" no novo hotel Savoy, sorridentes, com discursos elogiosos ao Senhor Avelino Farinha, petiscando ou jantando, como se as relações fossem absolutamente normais. Nem o governo se sentiu constrangido, nem o empresário, que ganhou fortuna com a tal "Madeira Nova", perdoa a indemnização que a lei lhe confere. Depois, não deixa de ser curioso, não sentindo vergonha dos rabinhos de palha da sua gestão, diariamente, o governo regional atira-se ao governo da República como forma de esbater as suas insuficiências. Com algum humor, é caso para dizer que estão a precisar de "pau", não de fileira!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

TRINTA, VINTE... DOZE DIAS. E AQUI VAMOS!


Eles não estão preocupados com a reorganização das sociedades, com os direitos das pessoas, com as famílias, com a educação, com a saúde, com o direito a ser feliz, antes pensam, de uma forma egoísta e reles, no seu próprio sucesso, na sua carteira, na sua conta bancária, no fundo, onde o dinheiro pode fazer mais dinheiro. Porque, para eles, o dinheiro não tem pátria. À custa desta mentalidade doentia, sôfrega, nem conta dão que a sua própria estabilidade depende sempre da estabilidade dos demais. São tão cegos os discípulos desta mentalidade que, ainda hoje, um tal Eduardo Catroga, conhecido no tempo em que foi ministro das finanças como o "cadroga de ministro", assume: "temos de rever a Constituição para não ser um entrave à governação" (primeira página do Diário Económico). Para ele que, em tempos, por auferir, mensalmente, de muitos milhares de euros, disse que "tem o seu preço de mercado", os outros que se lixem! Isto é, se não vai a bem... vai a mal. Muda-se o texto constitucional e pronto, fica a porta aberta, por um lado, à escravização e precarierização, por outro, ao florescimento das riquezas. 


Já foram trinta dias de indemnização por cada ano de trabalho; já foram vinte e anda aí a proposta para doze dias. A esta situação juntam-se, entre outras que não me ocorrem, a baixa dos salários, o banco de horas, a redução ou, pura e simplesmente o não pagamento das horas extraordinárias, enfim, aperto sobre aperto tendo por base a ditadura da troika.
Eu até posso compreender certos empresários, os honestos e de boa-fé, os que se sentem num mar revolto de problemas, não só pelo facto do mercado encontrar-se bloqueado, mas também pelas exigências que a sobrecarga de impostos está a ocasionar. Entendo o que é chegar ao final do mês e não ter receitas suficientes para liquidar os encargos com os trabalhadores. É um sufoco, certamente que sim. Só que o problema é muito mais vasto do que esse quadro. Se formos à génese do problema confrontamo-nos com uma questão ideológica, que assenta na premissa que vem do início dos anos 90, definida numa simples frase: "nada mais certo no futuro que o emprego incerto". É nesta lógica, aparentemente dinâmica e mobilizadora da sociedade, de cada um construir a sua própria vida, que os "senhores do mundo", impõem as suas regras ditatoriais que correspondem aos novos formatos da escravização do ser humano. Eles não estão preocupados com a reorganização das sociedades, com os direitos das pessoas, com as famílias, com a educação, com a saúde, com o direito a ser feliz, antes pensam, de uma forma egoísta e reles, no seu próprio sucesso, na sua carteira, na sua conta bancária, no fundo, onde o dinheiro pode fazer mais dinheiro. Porque, para eles, o dinheiro não tem pátria. À custa desta mentalidade doentia, sôfrega, nem conta dão que a sua própria estabilidade depende sempre da estabilidade dos demais. São tão cegos os discípulos desta mentalidade que, ainda hoje, um tal Eduardo Catroga, conhecido no tempo em que foi ministro das finanças como o "cadroga de ministro", assume: "temos de rever a Constituição para não ser um entrave à governação" (primeira página do Diário Económico). Para ele que, em tempos, por auferir, mensalmente, de muitos milhares de euros, disse que "tem o seu preço de mercado", os outros que se lixem! Isto é, se não vai a bem... vai a mal. Muda-se o texto constitucional e pronto, fica a porta aberta, por um lado, à escravização, precarierização e pobreza, por outro, ao florescimento das riquezas.  
E vem agora o secretário-geral da UGT, o Engº João Proença, derramar lágrimas de crocodilo, ele que assinou o acordo de concertação social e esteve ao lado do governo, como se fosse possível conceder o benefício da dúvida. Veio falar em má-fé, que a concertação social está em causa e que o acordo poderá ser rasgado por constituir uma "violação total" que, por isso, terá "consequências graves em relação ao clima de diálogo social" (...) que o Governo ignorou o fundo de garantia e apresenta ao mesmo tempo uma redução de 20 para 12 dias, totalmente ao arrepio dos estudos da média da UE"! "Fraude" e "incompetência" do governo foram outras palavras empregues por João Proença. Então ele não sabia o que a direita política, cada vez mais à direita, prossegue?
Ilustração: Google Imagens.