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domingo, 1 de julho de 2018

NO DIA DA AUTONOMIA


Tenho uma grande consideração e Amizade pelo José Manuel Rodrigues. Ao longo de muitos anos, muitos mesmo, sempre soubemos colocar de parte as questões de base ideológica para nos centrarmos no essencial. Desde os tempos da televisão, ele um excelente profissional do  jornalismo e eu um mero colaborador. Foi também assim na Assembleia Legislativa, no debate político, onde nunca faltou a elegância no trato. Hoje, mesmo que só nos cruzemos de tempos em tempos, sabemos que essa amizade é inquebrantável. É neste quadro que escrevo, democrático e dialéctico, como se estivéssemos sentados algures, olhando entre o mar e a serra desta nossa terra, conversando sobre preocupações de ordem política.


Começo por dizer-lhe que, hoje, li a entrevista do jornalista Jorge de Sousa ao Presidente da Assembleia Legislativa da Madeira. De tantas vezes ter escutado a mesma cantilena nas respostas dadas, equivalente a um choradinho de uma qualquer letra considerada pimba, digo-lhe que passei ao lado. Uffa... chegou ao fim! Já a sua crónica de ontem, como tantas vezes acontece, li com agrado e reflecti. Em tais crónicas, algumas vezes discordo, em outras, genericamente, concordo com o essencial. Só que a de ontem, por via de, hoje, ser DIA DA REGIÃO, motivou-me para estas linhas em jeito de diálogo à distância. 
Assume o meu Amigo: "(...) A primeira batalha que temos que travar é conseguir que todos os madeirenses voltem a acreditar na Autonomia". É interessante esta frase, porque conduz à pergunta: quem a desacreditou, quando, ao longo de quanto tempo e porquê? Aspecto que o Presidente da Assembleia, sabendo, ora se sabe, mas que, na dita entrevista, fugiu a sete pés! 

É, por isso, que podemos rever a Constituição, como o meu Amigo diz, "para que o Parlamento regional possa legislar sobre todas as matérias que não estejam na reserva absoluta da Assembleia da República", para mim uma questão pacífica, mas só possível, note, quando forem completamente esbatidas essas grotescas historietas do "contencioso das autonomias" e a governação regional for orientada por homens e mulheres de enorme notoriedade e credibilidade política, com bom senso e que pela sua atitude e exemplo consigam estabelecer os laços de respeito e de confiança mútua. A "dura luta com o poder central", refere, terá de preceder uma luta, digo eu, pela existência local de pessoas que sejam referências impolutas. Faltam-nos referências, como sabe. Descemos ao grau zero onde se cruzam centenas de interesses menores. 

Os tempos, Caríssimo José Manuel Rodrigues são substancialmente diferentes daqueles face aos quais podíamos dizer "que nada nos é dado de mão beijada". Não devemos entrar por aí, é perda de tempo, porque o quadro de hoje baseia-se na negociação e na CONFIANÇA. E quando temos políticos que, primeiro, atiram um arsenal de bombas políticas da Madeira para a República, mas depois enfiam o rabinho entre as pernas quando descem em Lisboa, obviamente que, desse comportamento, só se pode esperar, em consequência, relacionamentos difíceis, de circunstância, meramente institucionais e ineficazes.
Mas vamos a outros aspectos que elencou na sua crónica. Todas as leis são elaborados para um determinado momento, daí que me pareça pacífica a revisão da Lei de Finanças das Regiões Autónomas. Mas, atenção, Amigo José Manuel, não me parece minimamente razoável que seja a República a tudo pagar, no quadro da "cobertura total dos custos de insularidade", quando se mantém, por outro lado, a mentalidade do regabofe que foi apanágio durante dezenas de anos, onde se misturaram investimentos de carácter prioritário com outros que poderiam aguardar. Um facto que conduziu a Região, apesar dos impostos aqui cobrados aqui ficarem, a uma dívida superior a seis mil milhões de Euros. Um sistema fiscal próprio, em sede constitucional, já poderia ter dado passos significativos não fosse a constante agressividade, embora, a dúvida que me assiste é se tal liberdade (justa em termos teóricos) teria esbatido a loucura da obra pública, a concomitante dívida e a atenuação dos níveis de pobreza. Tenho dúvidas, até porque, lembra-se de uma vez termos falado que o homem assumiu que "com dinheiro fazia inaugurações e com inaugurações ganhava eleições". A lógica  de funcionamento continua a ser, grosso modo, a mesma.
O meu distinto Amigo José Manuel fala da questão política do hospital que, não esqueçamos, vem desde antes de 2001. Lembro-me, em 2004, o ex-presidente do governo ter dito que, se fosse eleito, gostaria de inaugurá-lo até 2008. Se o disse é porque existiam condições para tal. Ou, então, constituiu uma fraude tal promessa eleitoral. Mais tarde, em sede própria, houve quem desvalorizasse tal necessidade e hoje, passados dezoito anos, está no ponto próximo do zero. Isto, meu Caro, no tempo das vacas gordas, ainda distante da angústia da crise internacional que arrastou tantos países para uma gravíssima austeridade. Entretanto, sabe que cresceram obras de somenos importância que continuaram a servir as eleições seguintes e não as gerações seguintes. 
E já agora uma outra. Diz na sua crónica: "(...) A República deve assumir os custos com a Saúde e a Educação na Madeira na mesma proporção que suporta estes setores no todo nacional (...)". Dois aspectos: primeiro, estou de acordo que, no actual quadro constitucional, existem limitações (Artigos 164º  e 165º - Matérias de reserva Absoluta e Relativa) o que não significa que a Região não possa dispor de uma organização estrutural diferente e com resultados que não envergonhem. Os recentes dados da PORDATA são arrepiantes da falência do sistema educativo. E isso nada tem a ver com mais dinheiro e com mais escola, mas sim com questões organizacionais e pedagógicas, portanto, com melhor escola. Há muito que defendo um País com três sistema educativos autónomos. Só que para aí se chegar não basta jogar dinheiro em cima dos problemas, mas inteligência, capacidade de visão e de organização. Na Saúde, a mesma coisa, embora os contextos sejam diferentes.
Isto leva-me a dizer, complementarmente, que não precisamos, do ponto de vista organizacional, de um Estado dentro do Estado. Temos uma estrutura orgânica de governo próprio que consome milhões de euros sem necessidade. Começa pelo primeiro órgão de governo próprio, onde não se justificam tantos lugares de deputados; passa pela estrutura de governo com uma Administração extremamente pesada e vai até às autarquias (necessária uma revisão administrativa do território) e pelas centenas de instituições que consomem o que têm e o que não têm. Tudo isto tem de ser discutido, com seriedade e, paulatinamente, terão de ser dados os passos necessários à sua necessária correcção. Acho que devemos começar por aí, quando a Região tem menos cem mil habitantes que o concelho de Sintra.
Finalmente, quando escreve sobre a renegociação da dívida regional, prazos e juros, as políticas de continuidade territorial, direito de voto dos emigrantes, eleição directa para o Parlamento Europeu e "Centro Internacional de Negócios com a negociação com a União Europeia de um regime fiscal atrativo após 2027 (desde que o CINM seja de gestão pública e não privada), julgo que tem razão, mas, uma vez mais, questiono, se existirão referências políticas e desprendimento de interesses capazes de o fazer. Sem chapéu na mão, sublinho!
Caríssimo José Manuel, com amizade, o resto fica para um café ou, talvez melhor, para uma cerveja ,  com os olhos no mar e na serra, porque o tempo, apesar de uma meteorologia algo confusa, é de Verão. Um abraço.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 14 de dezembro de 2013

O CDS QUER A RAPOSA DENTRO DA CAPOEIRA


A questão é outra e designa-se, na minha opinião, por rompimento total com o modelo criado que gerou um monstro indomável. A solução não está em fazer uma "feijoada a três" porque, tendencialmente, de bons odores não será! A receita do PSD está escarrapachada na sua práxis política de muitos anos, na forma como tratou todos os outros partidos da oposição, nos chumbos a todas as propostas legislativas fundamentais e comissões de inquérito, na ocultação da dívida, nas ofensas feitas a todos os líderes da oposição (ou o líder do CDS/PP já se esqueceu das atitudes contra a sua pessoa?), na histórica arrogância e impreparação para viver em democracia, portanto, do PSD nada há a esperar, nem deste grupo que o lidera há quase quarenta anos, nem dessas figuras que se perfilam, uma vez que todos leram a mesma cartilha e todos andaram na mesma escola política. Até alguns que eram oposição lá se acoitaram. Os princípios e os valores são os mesmos, embora pintados de fresco! Por isso, perguntar-se-á, como é possível o CDS/PP pretender acordos com aqueles que nos trouxeram à desgraça, portanto, a toda aquela caracterização que o partido fez? Do meu ponto de vista, sem conhecer outros meandros que a política muitas vezes esconde dos eleitores, eu diria que se trata de uma proposta só possível no Natal, com o Pai Natal de permeio ou, então, salvo as devidas proporções e âmbitos, um toque de Mandela, o Homem do eterno perdão, na semana em que partiu.



Ininteligível a proposta do CDS/PP da Madeira de querer juntar à mesma mesa o PSD e o PS para um compromisso de resgate e aprofundamento da Autonomia, flexibilização do Plano de Ajustamento Financeiro, defesa de um novo quadro de relacionamento entre a Região e o Estado, no sentido de assegurar o cumprimento do princípio da continuidade territorial, e dos direitos fundamentais dos portugueses das ilhas e reestruturação da dívida regional com o apoio da República - sustentou o líder do CDS/PP José Manuel Rodrigues. O tal estúpido "arco da governação" que ainda anteontem aqui escrevi. Isto é o que se chama querer abrir a porta à raposa para que se instale dentro da capoeira. Desconheço se esta proposta configura um isco, porventura se traz alguma outra preocupação ou objectivo não denunciado. Não sei, mas pressuponho que exista, porque não faz sentido, mesmo num quadro de proximidade política ao PSD-M, juntar estruturas de pensamento político que uma história de quase quarenta anos nos diz ser de impossível conciliação. 
Que a situação da Madeira é "insustentável", que "exige a máxima responsabilidade", que o Plano de Ajustamento Económico e Financeiro está "a deixar em agonia a economia regional e a sociedade madeirense" e que "a Região permanecerá sem sustentabilidade nas finanças públicas", bom, tudo isso é verdade e há que anos é denunciado de forma clara e inequívoca, sobretudo pelo deputado Carlos Pereira do PS-Madeira. Foi ele, a partir de 2007, quando ninguém sequer estimava a dívida, através dos seus estudos, concluiu e apontou para um dívida entre os 5.5 e 6.5 mil milhões. Foi criticado, eu diria, bombardeado, mas a verdade veio pouco tempo depois. Portanto, não existe qualquer novidade naquela caracterização. 
Ora, assim sendo, a questão é outra e designa-se, na minha opinião, por rompimento total com o modelo criado que gerou um monstro indomável. A solução não está em fazer uma "feijoada a três" porque, tendencialmente, de bons odores não será! A receita do PSD está escarrapachada na sua práxis política de muitos anos, na forma como tratou todos os outros partidos da oposição, nos chumbos a todas as propostas legislativas fundamentais e comissões de inquérito, na ocultação da dívida, nas ofensas feitas a todos os líderes da oposição (ou o líder do CDS/PP já se esqueceu das atitudes contra a sua pessoa?), na histórica arrogância e impreparação para viver em democracia, portanto, do PSD nada há a esperar, nem deste grupo que o lidera há quase quarenta anos, nem dessas figuras que se perfilam, uma vez que todos leram a mesma cartilha e todos andaram na mesma escola política. Até alguns que eram oposição lá se acoitaram. Os princípios e os valores são os mesmos, embora pintados de fresco! Por isso, perguntar-se-á, como é possível o CDS/PP pretender acordos com aqueles que nos trouxeram à desgraça, portanto, a toda aquela caracterização que o partido fez? Do meu ponto de vista, sem conhecer outros meandros que a política muitas vezes esconde dos eleitores, eu diria que se trata de uma proposta só possível no Natal, com o Pai Natal de permeio ou, então, salvo as devidas proporções e âmbitos, um toque de Mandela, o Homem do eterno perdão, na semana em que partiu.
Meu Caro José Manuel Rodrigues, a questão da Madeira é, de facto, muito complexa. Os eleitores disseram, em Setembro, que não querem o PSD por perto. De uma assentada lá foram sete municípios. Isto pode significar que o Povo está farto não apenas de um homem, mas de uma política. E sendo este um facto, embora as legislativas tenham um outro enquadramento, pressuponho que essa tendência irá continuar como forma de libertação de um baile pesado e de uma música que já não há paciência para ouvi-la. Pense nisso, Amigo José Manuel Rodrigues.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 21 de julho de 2013

AS APARÊNCIAS ILUDEM


Não é sério quando assume e critica que "o PS criou o problema e não quer fazer parte da solução". Pelo contrário, quem criou o problema, à luz dos dados que acima lhe deixo, é que deve resolvê-los. E relembro-lhe as palavras de Paulo Portas, em Março de 2011: "o PS não é parte da solução, é parte do problema". Depois do descalabro da governação social-democrata/centrista e da posição de Portas fará algum sentido pedir, aos para si "culpados" da situação, uma bóia de salvamento político, ao jeito de repartição da factura dos estragos feitos por clara impreparação para governar? Relembro, também, que foram legitimamente eleitos após chumbarem, na Assembleia da República, o PEC IV e o governo foi empossado pelo Presidente da República, com um programa de "salvação nacional". Prometeram resolver o problema do País sem esfrangalhar o já de si pobre tecido social. Foi o que vimos! Mas, o curioso, José Manuel Rodrigues, é que ao mesmo tempo que responsabiliza o PS, também diz que "é necessário ter um governo mais forte que lance políticas", o que significa que este governo, em sua opinião, evidencia sensíveis fragilidades e que, deduzo eu, o campo da austeridade pela austeridade apenas agravou a situação herdada. Em que ficamos? Pergunto-lhe, então, neste contexto e uma vez mais, se faz algum sentido, chamar para um "compromisso", de governo ou de legislatura, aqueles que, no seu entendimento, foram os culpados, os mais gastadores e sem sentido de Estado, aqueles que conduziram "o país à maior dívida da sua história"? Que incoerência política, Caro José Manuel!


Meu Caro 
José Manuel Rodrigues,
Somos Amigos há muitos anos. Julgo que a consideração e estima pessoal é mútua. Respeitamo-nos com as naturais diferenças de pensamento político. Sou por políticas de esquerda, de respeito pelo ser humano, o meu Caro pertence à direita política que se esqueceu do seu ideário democrata-cristão. Mas isso não significa que não nos entendamos e nos respeitemos. É essa forma de estar na vida e no exercício da política que me leva a escrever estas linhas ao correr do pensamento. Que gostaria que fossem interpretadas de forma séria, sem interesse colateral em função da proximidade das eleições autárquicas. Se ler estas linhas considere-as como se estivéssemos numa conversa informal, em tempo quente, em todos os sentidos, com uma cerveja pelo meio. 
Meu Caro, politicamente, não é sério, nem justo, que assuma que foi o PS "que conduziu o país à maior dívida da sua história". Repito: não é sério, nem justo. A declaração pode servir interesses políticos mediáticos, na cavalgada pelo poder, mas não tem sustentabilidade. Sabe, tão bem quanto eu, que o governo do Engº José Sócrates, no primeiro mandato, reduziu um défice de 6.83% para menos de 3% e com quatro factores que não devem ser escamoteados: crescimento económico, substancial aumento dos benefícios sociais, política de abertura aos mercados externos (exportações) e aposta nos sectores estratégicos, concretamente, na educação/ciência e energias, entre outras. Não lhe vou dar exemplos, porque o meu Amigo sabe que assim foi. E sabe também que a avassaladora crise, a pior dos últimos oitenta anos, colocou muitos países em situação complexa. Os países com maiores debilidades estruturais foram os que mais sofreram. A nossa taxa de analfabetismo, insucesso, abandono, défice no campo profissional e quase 2,5 milhões de pobres (INE) foram determinantes para impedir o esbatimento das consequências do gigantesco tsunami económico e financeiro. Independentemente das circunstâncias internas, peço-lhe que olhe, por exemplo, para Espanha, que tinha superavit nas contas públicas e como ela está hoje, entre tantos outros países que andam de angústia em angústia. A crise portuguesa tem, portanto, origem externa, o que não significa que não tivessem sido cometidos erros. Qual o governo que não os comete(u)? Porém, não se me afigura sério que apenas se olhe para um dos pratos da balança e que, politicamente, se esconda o peso do que de bom foi concretizado. 
Ora bem, mas se esse foi, no seu entendimento, um mau período de governação, o que dizer do governo a que o seu partido pertence que de uma riqueza do País que estava a cair 0,9%, em 2011, hoje, cai 4%; que dizer do seu governo cuja taxa de desemprego era de 12,1% e que passou para 17,6%; onde a dívida pública era de 107% do PIB e passou para 127% e que continua em acelerado e preocupante crescimento; onde o défice estava em 8% e que hoje é de 10,6%? Caro José Manuel Rodrigues, permita-me que lhe diga, uma vez mais, não está a ser sério, quando conhece, porventura melhor do que eu, todas as promessas feitas aos portugueses pelos partidos da coligação PSD/CDS, nessa ânsia apressada de chegar ao poder ou ao "pote" conforme se queira interpretar. Em dois anos de governo, o José Manuel Rodrigues sabe que esta coligação deu cabo do País, intencionalmente empobreceu-o, castigou-o com impostos e taxas pavorosas, maltratou os reformados e pensionistas, conduziu o povo a um novo ciclo de emigração e de um PEC IV, negociado com as mais altas instâncias europeias e com o "selo" de garantia de Merkel, hoje, andará pelo PEC quinquagésimo se somarmos as medidas desde então tomadas!
Não é sério quando assume e critica que "o PS criou o problema e não quer fazer parte da solução". Pelo contrário, quem criou o problema, à luz dos dados que acima lhe deixo, é que deve resolvê-los. E relembro-lhe as palavras de Paulo Portas, em Março de 2011: "o PS não é parte da solução, é parte do problema". Depois do descalabro da governação social-democrata/centrista e da posição de Portas fará algum sentido pedir, aos para si "culpados" da situação, uma bóia de salvamento político, ao jeito de repartição da factura dos estragos feitos por clara impreparação para governar? Relembro, também, que foram legitimamente eleitos após chumbarem, na Assembleia da República, o PEC IV e o governo foi empossado pelo Presidente da República, com um programa de "salvação nacional". Prometeram resolver o problema do País sem esfrangalhar o já de si pobre tecido social. Foi o que vimos! Mas, o curioso, José Manuel Rodrigues, é que ao mesmo tempo que responsabiliza o PS, também diz que "é necessário ter um governo mais forte que lance políticas", o que significa que este governo, em sua opinião, evidencia sensíveis fragilidades e que, deduzo eu, o campo da austeridade pela austeridade apenas agravou a situação herdada. Em que ficamos? Pergunto-lhe, então, neste contexto e uma vez mais, se faz algum sentido, chamar para um "compromisso", de governo ou de legislatura, aqueles que, no seu entendimento, foram os culpados, os mais gastadores e sem sentido de Estado, aqueles que conduziram "o país à maior dívida da sua história"? Que incoerência política, Caro José Manuel!
E quanto a eleições antecipadas, ao sublinhar que elas "só viriam a agravar a situação do país em termos financeiros", desculpar-me-á mas penso que se trata de uma afirmação sem qualquer consistência e apenas para consumo dos menos esclarecidos. Agravar em que aspecto? É tão legítimo pensar dessa forma como eu presumir que, através de um confronto político, os "mercados" repensariam a sua estratégia de exploração e de esmagamento dos países. É preciso sustentar aquilo que se afirma. Eu não entro nesses domínios da discussão, em função de uma complexidade que não domino, mas estou certo que há uma absoluta necessidade de uma nova ordem internacional, que Christine Lagarde não pode dizer hoje uma coisa e, amanhã, o seu contrário, e que à Europa, dominada pela onda neoliberal, comilona e insaciável a que o seu partido pertence, devem os países mostrar os dentes. Repito: mostrar os dentes! Sabe, não devemos ser eternos "bons alunos". É tempo de sermos bons professores! Temos que nos dar ao respeito, em função de quase novecentos anos de História. Hoje, não se empresta dinheiro, vende-se dinheiro. E o dinheiro que nos venderam, tem de ser restituído, é certo, mas de forma (re)negociada e com taxas de juro que não signifiquem o estrangulamento de dez milhões e de outros por essa Europa fora.  
Mas ainda sobre as eleições antecipadas, a talhe de foice, questiono o meu Amigo, fazendo um zoom à Madeira, se a sua tese corresponde ao mesmo princípio, isto é, que elas também aqui não se justificam? Com uma dívida (impagável) estimada em mais de oito mil milhões (com as PPP), com 25.000 desempregados, empresas em falência, pobreza em crescimento, será, pergunto-lhe, que a nossa situação se agravaria com eleições antecipadas? Dir-me-á que são dimensões diferentes do problema. Respondo-lhe, tal como Cunhal disse a Soares: "olhe que não... olhe que não". A embrulhada é a mesma, a pouca-vergonha política por aqui é pior que a da República, daí que, eleições para colocar esta gente a andar justifica-se, sendo para tal necessário um pingo de responsabilidade por parte do Presidente da República, figura que está em Belém com o apoio do CDS/PP, convém lembrar. A não ser que esteja a pensar numa coligação com o PSD-M! O mesmo lhe digo, relativamente, ao governo de Passos/Portas, completamente desacreditado, onde só a devolução da palavra ao povo poderá trazer alguma esperança. O meu Amigo não as deseja, eu compreendo, porque sabe o que vale o CDS de lá e o CDS de cá; sabe que o desastre eleitoral para o CDS será catastrófico, porque poucos perdoarão o que fizeram durante estes dois anos de tormento pela sistemática agressão aos mais elementares direitos das pessoas. 
Sem me afastar deste meu desabafo, porque as palavras são como cerejas, em Maio passado li, no Expresso, um artigo de Paulo Gaião com o seguinte título: "Porque é que o CDS não aprovou o PEC IV". Ele traz à colação Lobo Xavier que chamou "aprendiz de feiticeiro" a Passos Coelho e onde sublinha que o CDS "é especialista nestes revisionismos históricos, em que só os outros saem mal na fotografia". O autor, mais adiante, transcreve o que é contado no livro "Resgatados", de David Dinis e Hugo Filipe Coelho (editora Esfera dos Livros), sublinhando que "muita gente no PSD, ainda que por diferentes razões, pôs as mãos na cabeça quando Passos anunciou que ia rejeitar o PEC IV. Durão Barroso telefonou ao líder do PSD para o demover: "Não pode chumbar isso. Já foi muito discutido. Esteve aí uma missão da Comissão Europeia e do BCE a preparar tudo". "Isto com a Grécia foi horrível, se você puder evitar isso é o mais importante. Depois terá uma oportunidade (...)". Eduardo Catroga tinha uma visão diferente mas também era contra o chumbo do PEC IV, como se refere no mesmo Resgatados. Em telefonema a Passos, Catroga disse ao líder do PSD: "Se eu fosse a si, ainda viabilizava mais este, porque isto vai rebentar mais à frente, antes do fim do ano. Aguente e o Sócrates cai para a casa dos 10% e, então, fica bem enterrado". O CDS quer engalfinhar os laranjinhas. O problema é a bomba ao retardador também o atingir (...) o velho problema do CDS quando começa a fazer piruetas muito ousadas e morde a própria cauda". É este tipo de política, Amigo José Manuel, que repudio. Você conhece o bas-fond da política e mais não lhe digo, porque seria ensinar o "Pai Nosso ao vigário".
Caro José Manuel Rodrigues, eu compreendo a sua angústia pela proximidade de um acto eleitoral onde decidiu jogar tudo e cujos tiros podem sair pela culatra. Não se convença da expressão eleitoral das últimas legislativas que lhe garantiu nove deputados. O PS também já teve dezanove embora num outro contexto. Quando tive algumas responsabilidades políticas sabia que quando o PS por lá andava bem, na Madeira crescíamos; a contrária também foi sempre verdadeira. No seu caso, presumo, que o mesmo se verificará. O desastre da governação nacional (PSD/CDS) terá repercussões no seu partido ao nível regional, apesar de alguma condescendência que venho a verificar na crítica política em relação ao PSD. Parece-me óbvio que sofrerá as consequências da péssima governação nacional. É a vida! O que não me parece de bom tom político é a dissimulação, é responsabilizar outros por incompetências provadíssimas, é querer estar no poder sem apoio social, é ter um discurso na República e outro na Madeira. Isso, não aceito.
Meu Caro, um dia destes falamos com uma cerveja pelo meio. Talvez ajude a afogar as suas "mágoas". As minhas expresso-as neste blogue, porque há um tempo para fazer política e um tempo para reflectir o que vai acontecendo em nosso redor.
Um abraço de Amizade.
Ilustração: Google Imagens.