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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

DO FUNDO DO CORAÇÃO... PORQUE FAZ UM ANO


Não sou de guardar datas. Muito poucas fazem parte das inesquecíveis. Umas rejubilo pela felicidade que me provocam; outras trazem-me o profundo amargo que a tristeza martiriza. O 21 de Agosto é uma delas. Eu que não sou de superstições registo o fatídico dia do ano 13, com o somatório dos algarismos (21) ser igual a três! Sinto um nó na garganta como se a apertassem para fazer explodir a lágrima contida. Passo, pelos vários espaços da casa, interiores e exteriores, e aí encontro o contraponto ao sufoco, porque a sua presença permanece ali, embora não estando, porque me recordo da Amizade, da sua prontidão para tudo, para o convívio ou para uma simples tarefa que eu, desajeitado, não conseguia fazer, da sua gargalhada, o seu abraço apertado e o seu beijo que nos unia quase como irmãos. O Miguel era assim, transportava o perfume da amizade e da solidariedade, não aquela feita de palavras ocas, mas a expressa no dia-a-dia. Vivi e escutei os seus longos desabafos, as suas angústias relativamente aos seus amigos, os seus dramas profissionais e algumas vezes descongestionei com palavras as lágrimas de sofrimentos vários pela incerteza do dia seguinte. O Miguel era assim. Tanto ria a bandeiras despregadas, alegrando todos em redor, como vertia a lágrima pelo seu bom coração. 


Faz hoje um ano que a minha família o perdeu. Era o mais novo de cinco irmãos. Pessoalmente, perdi mais do que um cunhado, perdi um Amigo. E de perdas posso falar, dos meus pais aos meus sogros passando por outros muito, muito próximos. Na família, sentimos os seus desaparecimentos, obviamente que sim. Só que entre o esperado e o inesperado a diferença, sabe-se, é substancial. Nos primeiros, a dureza dos factos leva-nos a interiorizar, aceitar e a acomodarmo-nos às circunstâncias. Há um tempo de consciencialização de que nada mais podemos fazer. Com o Miguel a meta da vida foi angustiante, desde logo perante os que, desesperadamente, tentaram trazê-lo de volta, como se aquele fosse, apenas, mais um episódio para relatar mais tarde, em uma Quinta-feira ou num fim-de-semana, no meio de umas saudáveis gargalhadas com um petisco de permeio. Não foi. O Adeus foi inesperado e definitivo. E assim passámos um ano em choque e luta pela aceitação da tecla da vida que determina o fim.
Sei o que pensa aquela legião de amigos que tinha, dos mais chegados a outros amigos de amigos. Sei da sua relação fácil desde os do topo até aos mais humildes da sociedade. Sei das suas recordações e das cumplicidades sem limites. Sei dos laços inquebrantáveis de união, mesmo quando as palavras eram azedas no calor de uma qualquer discussão. Sei a quantos ajudou de diversas maneiras e por quantos foi ajudado no quadro dessa cumplicidade. Sei das incompreensões do tecido empresarial que vive no princípio de todos deverem a todos, em claro desrespeito por quem pouco dorme e muito trabalha. Eu sei!
O Miguel repousa na profundeza do mar, frente ao seu lugar de eleição, o Jardim do Mar. O seu “Stress Zero” (que ironia!) por ali passa e ancora muitas vezes em sinal de uma memória que não se apaga por muitas que sejam as voltas da vida e por muito que se repita que a “vida continua”. As embarcações dos seus amigos idem, e creio, mesmo sem qualquer alerta, nas suas tripulações e amigos, por momentos, perpassa-lhes o sentimento que o Miguel está aqui. 
À Susana e ao João um beijo e um abraço. Gostamos muito de vocês. Na passada semana, no dia que fizeste anos, Susana, telefonei-te e não te dei parabéns. Apenas disse-te, propositadamente, que a partir de um determinado momento da vida não fazemos anos, acrescentamos experiência, mesmo as mais amargas. A foto que aqui deixo expressa a sua alegria de viver. O Miguel, para nós, Susana e João, anda por aí, porque não o esquecemos. Ele vive em nós e estou em crer que zela por nós!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 25 de agosto de 2013

A CELEBRAÇÃO DA VIDA E DA MORTE


Foi lindo, ver mais de uma trintena de embarcações, muitas engalanadas, cheias de amigos de calções e chinelos, perfiladas frente ao Jardim do Mar, com o “Stress Zero” no centro, a música, os sons da gaita-de-foles, o fogo-de-artifício, as palmas, a pequena urna de pedra descendo mar abaixo, os abraços e beijos da sentida despedida, as gargantas a chamar por “Testas…Testas”, as flores que encheram o espaço circundante e tantos jogando-se de imediato ao mar num gesto de indescritível sentimento de amizade, como que o abraçando e se divertindo com a figura que ali, fisicamente, já não estava, mas estava repousando lá no fundo! Depois, esse ror de amigos, já em terra, no Portinho do Jardim do Mar, confraternizando e mantendo viva a memória, tal como o Miguel sempre fazia com os seus amigos. Porque a vida é sempre um instante e a amizade não deve ser perdida. Verdadeiramente fantástico e emocionalmente indescritível, repito.


Ontem, mesmo em dia trágico, concederam-me a possibilidade de viver um dos momentos mais bonitos e sentidos da minha vida. É muito difícil descrever por palavras o turbilhão de emoções na despedida do meu querido Amigo e cunhado Miguel Jardim (carinhosamente conhecido por "Testas"). Momentos, repito, trágicos pelo desaparecimento físico de uma pessoa, mas inesquecíveis pela forma como tudo se processou. Momentos que, certamente, a todos proporcionou uma reflexão sobre a fugaz vida no contexto do tempo cósmico e a celebração do instante da morte. Se a vida deveria ser vivida como Miguel a construiu, a morte terrena também deveria ser, sem excepção, a manifestação do carinho de todos quantos tiveram a possibilidade de com ele viver e conviver. Uma vida cheia de amigos, sem ódios e sem rancores, oferecendo a camisa pelo outro, trabalhado duro, muito duro, mas gozando também os momentos de lazer, comedidamente, embora com enorme intensidade. Foi lindo, ver mais de uma trintena de embarcações, muitas engalanadas, cheias de amigos de calções e chinelos, perfiladas frente ao Jardim do Mar, com o “Stress Zero” no centro, a música, os sons da gaita-de-foles, o fogo-de-artifício, as palmas, a pequena urna de pedra descendo mar abaixo, os abraços e beijos da sentida despedida, as gargantas a chamar por “Testas…Testas”, as flores que encheram o espaço circundante e tantos jogando-se de imediato ao mar num gesto de indescritível sentimento de amizade, como que o abraçando e se divertindo com a figura que ali, fisicamente, já não estava, mas estava repousando lá no fundo! Depois, esse ror de amigos, já em terra, no Portinho do Jardim do Mar, confraternizando e mantendo viva a memória, tal como o Miguel sempre fazia com os seus amigos. Porque a vida é sempre um instante e a amizade não deve ser perdida. Verdadeiramente fantástico e emocionalmente indescritível, repito. 
Por extensão, esta cerimónia acabou por ser uma lição para reflectir em contraponto com a imagem que temos de um funeral. Ali, as emoções de profunda tristeza misturaram-se com a alegria, a cerimónia pesada de um cemitério, os cumprimentos de pesar junto aos da primeira fila, os terríveis sons dos passos no areão até à pavorosa descida à terra, deram lugar à explosão de cores, a um sentimento de profundíssima amizade em memória de um homem que não se esquece. Lindo. As convicções de cada um, sejam elas quais forem, integralmente respeitadas, a celebração da vida e da morte, essa foi diferente. Jamais esquecerei. Até sempre, MIGUEL.