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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

EDUCAÇÃO: ERIC HANUSHEK VEIO FAZER UM FAVOR POLÍTICO AO MINISTRO NUNO CRATO


Estou a achar uma imensa piada a estes convidados, penso eu, com o selo de Nuno Crato, que têm aparecido em Portugal a fazer a apologia de uma política, pergunta-se, de quem? De Nuno Crato, obviamente! Agora foi um tal americano Eric Hanushek que veio propor a substituição de, apenas, 4% dos professores "menos eficazes", os "menos eficazes" de todos, salientou, para verem o salto qualitativo nos resultados dos alunos. Segundo li, Eric Hanushek é um economista que se apresenta como especialista em economia da educação. "Em um dos gráficos mostrou: o impacto de afastar entre 6% e 10% dos professores “menos eficazes” colocaria o país deste investigador (USA), ao nível da Finlândia, um dos que têm melhores resultados educativos do mundo (só atrás da Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Xangai)". Na visão de Hanushek, "é preciso, desde logo, ter sistemas educativos onde os alunos sejam avaliados com exames centralizados — para que se tenha noção do que sabem “à entrada de um ciclo de ensino e, depois, à saída do ciclo de ensino” — de forma a medir a eficácia dos professores. Sugestão para Portugal: "Manter e até aumentar o sistema de exames."


O paleio deste "especialista" é conhecido, como é conhecida a práxis de Nuno Crato: menos professores, exames de acesso ao exercício da docência para desprestígio da universidade, turmas enormes, avaliação exaustiva dos professores, exames aos alunos e ranking's de estabelecimentos de ensino. Ora bem, pergunto, legitimamente, e se nós substituíssemos, em toda a Europa, inclusive na América, entre os 6% e os 10% dos economistas que estão a gerar a falência das sociedades, bem patente na crescente falta de emprego e na concomitante pobreza? É-me legítimo colocar esta pergunta, repito. O convite a este senhor feito pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, do meu ponto de vista, é desprestigiante para a própria instituição Gulbenkian. Pode saber de Economia, mas de Educação e de Sistemas Educativos melhor seria estar calado. Eu diria que os organizadores (!) foram enganados. E tratando-se de um economista, desde logo julgo que deveria consultar o Nobel da Economia em 2000, James Heckman, e os seus textos sobre o investimento em Educação. Talvez mudasse de opinião!
Parafraseando o Professor Abel Salazar e a sua frase no contexto da medicina: economista que só sabe de economia, nem de economia sabe! É que Eric Hanushek demonstrou desconhecer tudo o que os investigadores em educação, autores, professores, psicólogos, pedagogos, pedopsiquiatras, sociólogos e especialistas em organização laboral e familiar têm vindo a sublinhar sobre o que deve ser a Educação (no sistema educativo) no tempo do nosso tempo. Eric Hanushek secundariza os baixos níveis sociais e culturais que chegam à escola portuguesa e o "milagre" que muitos professores fazem para que o desastre não seja maior. Eric Hanushek opta pela visão simplista e redutora tal como o ainda Ministro Nuno Crato optou: se não sabem Português ou Matemática, não vale a pena ir às causas, facultam-se mais horas de "trabalho", portanto, mais escola, no pressuposto que se não vai a bem, vai a mal! Como se mais escola significasse melhor escola. Um aluno polaco, país que ele enaltece, por exemplo, tem 731 horas de aulas por ano; em Portugal, para o mesmo ano, tem 827 horas! E nem assim os resultados aparecem. Porquê, Dr. Eric Hanushek?
Aliás, com tanta investigação produzida em Portugal, com tantos autores de relevante qualidade que temos, com tanta literatura disponível, com tantos professores experientes, para quê chamar um americano, ainda por cima para nada acrescentar? Ah, percebo, Eric Hanushek veio a convite, talvez pago, para dizer o que o ministro quer que oiçamos. É a voz que vem da América. E tem a lata de falar da Finlândia. Conhecerá Eric Hanushek o que se passa na Finlândia? Deixo aqui uma parte de um texto que publiquei em Junho e que, em síntese, é o contrário do que veio propor a Portugal: "(...) Na Finlândia (existem outras experiências de sucesso em vários países) o professor é um moderador, um jogador atento e um criador de fenómenos que conduzem à descoberta. “(…) A ideia é não ser o professor a ensinar tudo”. Dizem os alunos: “é mais fácil compreender a matéria do que só de ouvido. Somos treinados para sermos independentes e para irmos à procura de respostas”. Leio: “(…) a aula decorre, mas não é Niina Vänttä a dar as ordens, apresenta a matéria ou perde tempo a mandar calar os alunos”. E o interessante, note o leitor, é que começam na escola aos sete anos, aprendem e estão no topo da avaliação PISA; só têm exames no final do secundário, por isso, não há stress, ansiedade ou nervosismo entre alunos e professores; só 3,8% dos alunos repetem um ano ao longo de todo o percurso escolar, contra 34,3% em Portugal; em toda a Europa são os que menos tempo passam na escola (média de 703 horas por ano, quando em Portugal são 803); dez páginas chegam para salientar o que os alunos precisam de saber do 1º ao 9º ano (qualquer disciplina), enquanto em Portugal são necessárias 110 páginas; rejeitam a sistemática “medição de resultados” (avaliação); 83% da população adulta tem o secundário, quando em Portugal ronda 38% (uma simples inversão de algarismos); são os professores que fazem o planeamento e definem as metodologias de aprendizagem e não uns estranhos à vivência escolar sentados no conforto dos gabinetes. Palavras de uma professora: “a sociedade mudou muito e os estudantes precisam de competências diferentes para quando forem trabalhar. No mundo real não existe a Matemática, a Biologia, a Química, não existem disciplinas escolares, mas fenómenos complexos, aos quais não podemos dar resposta como se fossem perguntas de resposta múltipla (…)”. Daí que os conhecimentos tenham de ser trabalhados de forma integrada. Mais, porque a Educação é necessária ao desenvolvimento, ela é pública, todo o ensino do pré-escolar ao superior é gratuito, incluindo as refeições, o transporte e os manuais. O número de alunos por escola situa-se entre os 200 e os 300. Os professores são vistos pelos alunos como “superautoridades” e é mais difícil ter acesso ao curso universitário de professor do que entrar para Medicina, leio no trabalho da jornalista Isabel leiria. Conheço a Finlândia e nada disto me é estranho. (...)". O problema português é, senhor "investigador" Eric Hanushek, sobretudo, económico, social, de autonomia das escolas, de investimento sério na escola pública, é curricular e programático, em síntese, como disse o Professor José Pacheco, o problema é de "uma escola com alunos do Século XXI, com professores do Século XX, mas com metodologias superiormente impostas implementadas desde o Século XIX".
Se me cruzasse com este "investigador" Eric Hanushek pedia-lhe: por favor, não diga disparates e não culpe os professores. Já temos por aqui um Crato, há quatro anos, a infernizar a vida de alunos, professores, encarregados de educação, sindicatos e investigadores. Goze o clima ameno de Portugal e regresse ao seu país onde pode vender as suas teses!
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

ENSINAR A PENSAR


Há dias tive uma conversa muito interessante com um Psicólogo. Falámos de sistema educativo e de escola. A páginas tantas convergimos em um pensamento comum: esta escola não desperta a curiosidade, tampouco estimula o pensamento. PENSAR é coisa que, raramente, a escola provoca. Há "matéria para dar" porque há programas para cumprir. O aluno anda ali, de sala para sala, para ser avaliado, porque os professores também o são, de diversas maneiras. Fazer PENSAR parece que dá muito trabalho, é coisa esquisita, quando decorar, mesmo sem compreender, se torna prioritário em função do débito de "conhecimento" no dia do teste. Ainda hoje sei de cor algumas definições que não me serviram para nada, rigorosamente para nada, para a minha vida, inclusive, a profissional. Estou a lembrar-me de uma que meti na cabeça para, numa festa de estudantes, imitar o professor de anatomia e fisiologia: o "retículo endoplasmático" (organelo exclusivo de células eucariontes, formado a partir da invaginação da membrana plasmática). Dizia eu, exactamente, com a entoação e velocidade de palavras do professor-debitador: "o retículo endoplasmático é um dispositivo de armazenamento das substâncias proteicas. Consiste num grande sistema de vesículas e canais (...)", por aí fora. Valeu-me zero. Sabíamos os ossos todos, descrevendo-os, pormenorizadamente. E quando a cantilena falhava, regressávamos ao princípio como para tomar embalagem! Valeu-me zero na minha vida profissional. 


Hoje, crianças do final do primeiro ciclo, decoram e decoram. Já estudam os ossinhos todos, identificando-os. Coisa que era de anos muito mais avançados, já constitui matéria do 4º ano. A paranóia é tal que os alunos do 1.º ciclo que não obtenham aprovação em inglês podem ficar retidos na 4º ano, de acordo com um despacho publicado esta terça-feira. E o exame de Cambridge do 9.º ano pesará 20 a 30% na avaliação final. Ainda ontem li uma peça no DN-Madeira: "A EB1-PE do Estreito da Calheta (Madeira) implementa no presente ano lectivo uma experiência inovadora no âmbito do seu projecto curricular, assente na introdução aos fundamentos das linguagens de programação computacional (...)". Reparem... programação computacional! Sinceramente, tenho dificuldades em compreender esta oferta educativa incluída no projecto de escola. Entretanto, no meio da loucura colectiva, onde ninguém pára para PENSAR, foge o tempo para ser criança, para aprender, sim, mas para observar e PENSAR. São palavras do Filósofo Immanuel Kant (1724/1804): "Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida. Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infrequente deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública." - In Ensinar a Pensar.
Estimular o pensamento desde as primeiras idades seria muito mais rico e portador de futuro do que cumprir currículos e programas completamente desajustados da realidade e das necessidades. Quando uma criança assume junto dos pais que a escola é uma prisão e isto não faz despoletar, na escola, um sinal de alarme; quando os professores se sujeitam à doentia rotina ao jeito de "a minha parte está feita"; quando nos confrontamos com ministros, secretários e quejandos a quem lhes falta capacidade para perceber que a sementeira e a colheita estão dependentes da preparação do terreno; quando tantos decisores não conseguem entender que a consistência de um edifício depende do seu alicerce, enfim, pessoalmente, resta-me assistir a este filme de péssima qualidade, embora tentando, sempre que possível, meter o pauzinho na engrenagem.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A LOUCURA DE CRATO


Contra toda a corrente, contra o pensamento de tantos especialistas, a douta cabecinha do ministro Nuno Crato, matematicamente, estipulou os quatro anos de idade como a do início do pré-escolar. Com a particularidade do diploma prever que a "regulamentação possa estender a universalidade do ensino pré-escolar às crianças com três anos". Eu tenho muito respeito pelas pessoas enquanto seres humanos, mas, politicamente, esta decisão designo-a por ignorância altifalante. Ele não assume os dois anos de idade porque não lhe deu na veneta! A decisão surge na mesma semana que a Ordem dos Médicos propôs que as mães amamentem até aos três anos e que disponham de dispensa no horário laboral para que tal aconteça. Digo eu, que espantosa cabecinha a deste senhor ministro da Educação. Suponho que ele pretenda, no essencial, deixar uma marca em um mandato profundamente turbulento em vários domínios e de total desencanto dos professores, dos sindicatos e das escolas. Se o anterior primeiro-ministro, Engº José Sócrates, apostou nos doze anos de escolaridade obrigatória, este quer antecipar o pré-escolar para os quatro anos. Como se as duas situações fossem semelhantes ou comparáveis. 


Crato pode ser um excelente professor de Matemática, mas de Educação e de Sistema Educativo já provou ser uma nódoa. Em uma aproximação a Eça só sai com benzina (1885)! Nem a Escola é um armazém de crianças, tampouco se pode escolarizar idades que devem ficar marcadas pelo jogo no sentido, entre outros autores bem mais recentes, de Jean Chateau (1961): "se o jogo desenvolve as funções latentes, compreende-se que o ser mais bem dotado é aquele que mais joga" (...) "para ela quase toda a atividade é jogo, e é pelo jogo que ela descobre e antecipa as condutas superiores". Para Claparède, in Psychologie de l'enfant e pédagogie expérimentale, "o jogo é o trabalho, o bem, o dever, o ideal de vida. É a única atmosfera em que o seu ser psicológico pode respirar e, consequentemente, pode agir" (...) Perguntar por que joga a criança, é perguntar por que é criança". Crato não leu isto e, por isso, ignora autores, conhecimento e baralha conceitos. Esta decisão Cratiana constitui mais um ataque aos direitos da criança. Bastaria que tentasse beber a síntese do Professor Rui Trindade, doutorado em Ciências de Educação e investigador: (...) A necessidade da escola se afirmar como um espaço mais inclusivo não obriga, necessariamente, a que haja mais escola, mas melhor escola". Ora, isto implica assumir, sublinha o investigador, que "as crianças têm de ter espaços e disponibilidade para explorar, brincar, descobrir, relacionar-se, produzir e apreciar" (...) o que conduz ao estabelecimento de um princípio: "as crianças não deverão ser adultas antes do tempo e que é um equívoco pensar que se educa hoje para agir amanhã". Bastaria que tentasse, ainda, compreender a síntese do Psicólogo Clínico Eduardo Sá: as crianças "(...) passam cada vez mais horas na escola, o que não é adequado. Aquilo que me preocupa é que mais escola, sobretudo como ela está a ser vivida, signifique menos infância e quanto menos infância, mais nos arriscamos a construir pessoas magoadas com a vida. Quanto mais longa e mais rica for a infância mais saudável será a adultez (...) neste momento a infância começa a ser perigosamente a escola e, de repente, há toda uma vertente tecnocrática como se o que estivesse em primeiro lugar fosse toda a formação e depois viver a vida. Isto é um absurdo".
Expliquem, então, ao ministro, se ele entender, que a escola não é a solução para a desestruturação social e que é essa situação que conduz a uma certa escravização do mundo da criança, levando-a passar horas a mais num mundo que não deve ser o seu. Expliquem, porque ele ainda não percebeu que "o jogo é a fonte comum de todas as actividades superiores". E, sendo assim, não pode escolarizar tudo e antes do tempo. Se ele não perceber, bom, há que aguardar mais uns meses para terminar o pesadelo. Outubro está aí ao virar da esquina e, espero eu, que alguém ponha um travão a toda esta loucura.
Ilustração: Google Imagens.
NOTA
Artigo de opinião, da minha autoria, publicado hoje no Funchal Notícias.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

MILITARES NA RESERVA COMO VIGILANTES NAS ESCOLAS


O Conselho de Ministros aprovou, na passada Quinta-feira, um diploma que permite o recrutamento de elementos das Forças Armadas, na reserva, para fazer vigilância nas escolas. Uma medida com o dedo do ministro Crato, certamente. Ao invés de abrir concurso público para contratar novos assistentes operacionais, não, possibilita que pessoas, provavelmente com vontade e de comportamento exemplar, mas com lacunas formativas específicas, desempenhem funções em um espaço que não é comparável a um quartel. Custa-me acreditar nesta decisão, mas é pública e o dia 1 de Abril já vai longe!



Este ministro Crato pode ser, e eu acredito, um bom pai, um "chefe" de família exemplar, um cidadão sem mácula, mas de sistema educativo tem provado não perceber rigorosamente nada. Os últimos quatro anos provam-no. Ser assistente operacional implica ou deveria implicar uma formação adequada, até porque os alunos passam muito tempo na escola em contacto com eles. Por isso mesmo, cada vez mais, face a um larguíssimo número de factores, se torne fundamental que os "assistentes operacionais" tenham formação adequada. Não quero dizer que todos aqueles que hoje desempenham tais funções a tenham, todavia, para aí se deveria partir. A função no "assistente operacional", no bar, na cantina, no recreio, nos corredores, na biblioteca, nos pavilhões, enfim, em todos os cantos da escola tem, obrigatoriamente, de ter um cunho EDUCATIVO. Mas Crato, primeiro, recrutou-os no desemprego e agora virou-se para os militares na reserva. Sai muito mais barato. Pergunto, será que um primeiro-sargento na reserva, pelo seu estatuto, aceitará limpar a escola? Duvido.  
Ilustração: Google Imagens.

"OS EXAMES NÃO ESTÃO A GERAR MELHORIA DAS APRENDIZAGENS"


Começam hoje os exames do final dos Ensino Básico e Secundário. Cerca de 260.000 alunos estão envolvidos. O curioso, ou talvez não, é que, de acordo com os resultados aferidores, "os exames não estão a gerar melhoria nas aprendizagens" (Público). E como não estão, ora bem, a ordem é para que os "critérios sejam mais flexíveis na avaliação das respostas" podendo os professores "validar respostas não previstas no guião" (Diário de Notícias). E dizem os mentores que as suas políticas são contra o facilitismo! Tudo isto é trágico, apesar do "acompanhamento extraordinário" dos alunos ditos mais fraquinhos; das numerosas edições de livros de testes que inundam desde livrarias a estações de correio; da insistência, na sala de aula, na resolução de testes de treino dos anos anteriores e não só; e, ainda, das explicações, algumas pagas a peso de ouro, a que os pais recorrem. E apesar disso, dizem, não há melhoria!


Esta é a realidade do sistema. A obsessão pelos exames em detrimento de uma avaliação contínua, sobretudo no Ensino Básico, tomou conta da inteligência do decisor político. Trabalha-se para a avaliação e não para o conhecimento. A sensatez que deveria conduzi-los a equacionar as causas, isto é, à formulação de uma pergunta tão simples quanto esta: "eu ensino... tu aprendes"? é negligenciada pela teimosia e por uma atroz cegueira. E assim vão, de erro em erro, sem darem conta ou se deixarem fecundar pelo conhecimento trazido pelos investigadores. Para eles, refiro-me a todos esses "cratos" que infernizam a nossa vida, os exames estão certos, os professores é que estão errados; a política social do governo está certa, os portugueses é que não querem trabalhar. 
Mas a paranóia está longe de ser atribuída apenas ao decisor político e à questão dos exames. "O Conselho das Escolas (CE) fez, esta semana, uma recomendação ao Ministério da Educação no sentido de os alunos terem uma pausa de dois dias, a meio do primeiro período, uma espécie de "férias de outono", altura em que as escolas poderiam planear actividades de apoio aos alunos que revelassem maiores dificuldades". Li que "a proposta não agradou à Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap) que criticou as várias pausas que já existem ao longo do ano e defendeu a necessidade de uma revolução no ensino e um período lectivo muito mais longo: "as aulas deveriam começar no início de Setembro e terminar no final de Julho", sugeriu o presidente da Confap. É caso para dizer que este homem não percebe nada nem de educação, nem de sistema educativo. A revolução que este senhor fala não é sistémica, logo à partida, de (re)organização de toda a sociedade; de atenção à diversidade (culturas que chegam à escola) e à desigualdade (económicas e sociais); a revolução não é de ruptura com um disparatado sistema educativo curricular e programático e não é de financiamento do sector educativo. Para este senhor que faz parte do Conselho Nacional de Educação, pasme-se, o problema é de mais tempo na escola, diariamente e ao longo de todo o ano. Isto porque, está subjacente à sua posição, torna-se necessário que os pais trabalhem de sol-a-sol, progressivamente sem direitos sociais, com baixos salários, sem direito a horas extraordinárias e sempre com a espada do despedimento sobre as suas cabeças. Para este senhor, a escola deve ser uma espécie de armazém. Não estranho, caro leitor. O Dr. Jorge Manuel Ascensão, presidente dessa Confap, é Licenciado em Gestão Financeira, é ou foi Consultor na empresa Portugal Telecom, Auditor de Fornecedores da PT (Sistemas de Gestão e Responsabilidade Social) e Gestor do Segmento de Negócio Empresarial.
Com uma opinião diferente, que aplaudo, a presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIP), Isabel Gregório, saudou a recomendação do Conselho das Escolas (CE) sublinhando que a proposta de uma pausa lectiva ia ao encontro de outros pressupostos que a Confap não entende: "(...) as crianças, jovens e adolescentes precisam de tempo para crescer" (...) "Não queremos criar robots, queremos cidadãos completos e as crianças precisam de espaço para socializar, e a verdade é que, neste momento, muitos estão na escola das oito da manhã às seis da tarde a estudar, com a agravante de ainda trazerem TPC para fazer em casa" (...) "as crianças precisam de crescer como um todo e não apenas na vertente escolar. Os nossos filhos estão cada vez mais ocupados, são cada vez mais competitivos no sentido de terem as melhores notas e serem os melhores, e isso pode pôr em causa a entreajuda entre colegas".

Concluo, para o presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap), bom, bom, seria os meninos levarem a cama para a escola, libertando os pais da função de educadores primeiros. E assim vai o país, com exames e mais exames, e com uns senhores que disto percebem como eu de energia nuclear!
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A INVASÃO DA ESCOLA PÚBLICA POR UMA INSTITUIÇÃO PRIVADA


Este Ministério da Educação, liderado pelo inefável Nuno Crato, tem perpetrado muitas maldades ao sistema educativo nacional, à escola pública e, particularmente, aos professores. O rol é muito extenso, mas o pior de tudo é que não se lhe conhece uma ideia para a Educação. Ou melhor, de forma completamente errada, destes quatro anos de mandato, ficam para a história a sua obsessão pelos exames do ensino básico. Quando por todo o lado emergem importantes sinais de mudança, com novos olhares organizacionais e programáticos, Portugal continua preso a velhas concepções e velhos dogmas. Mas essa é uma outra longa questão que não vem ao caso. Agora, são os exames de Inglês, obrigatórios no 9º ano, realizados sob a égide da instituição privada Cambridge. A dinâmica de escola é ultrapassada, os professores, idem, através da obrigação de frequência de uma formação (certificação) com o objectivo de atestar a sua aptidão para supervisionarem tais exames. Os cursos universitários são mandados às malvas, pois quem manda no sistema educativo são os doutos senhores(as) dessa entidade privada. Chegam ao ponto de preparar para as sessões de speaking (provas orais), vigilância e classificação da prova escrita. Espantoso.


Nunca vi nada assim: o sistema público passar pelo vexame da supervisão de uma entidade estranha e de natureza privada. Ora, esta situação, criada pelo ministro Crato, traz, obviamente, água no bico. Deveria ser bem explicada. Se a obsessão do ministro pelos exames é pública e notória, caso do Português e da Matemática, já no quadro da aprendizagem do inglês, chamar alguém de fora para determinar a "qualidade" da aprendizagem, parece-me ser de natureza ofensiva. Há gato escondido com o rabo de fora.
Ora, se a instituição Cambridge quer ter mais alunos nas suas escolas, pois que publicite e angarie alunos. O que não me parece correcto é o sistema educativo português permitir-lhes que invadam a escola pública, utilizando (o termo é este) os professores da rede nacional, gratuitamente, menosprezando o trabalho que realizam e as suas próprias qualificações universitárias. Ademais, se alguém (aluno) desejar uma qualquer certificação que se inscreva na instituição Cambridge. Se assim não for, não levará muito tempo e teremos o "assalto" de uma entidade francesa a querer certificar para os conhecimentos desta língua.  
Uma nota final. Li um comunicado da Fenprof: "(...) Só quem desconhece todo o trabalho que os professores têm que desenvolver numa escola, como parece ser o caso dos responsáveis do MEC e, particularmente, aquele que tem de ser feito no último período do ano letivo, é que pode considerar ajustado submeter os professores a este tipo de tarefas que vão para além do seu horário de trabalho e que não fazem parte do conteúdo funcional da profissão. O trabalho que os professores têm que desenvolver com os seus alunos passa a ser secundário face a todas as tarefas relacionadas com este exame de Inglês!" Concordo.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 27 de março de 2015

FINLÂNDIA MUDA DE SISTEMA EDUCATIVO. EM PORTUGAL, CRATO CONTINUA NO SÉCULO XIX!


"A Finlândia vai começar a ensinar por tópicos e muda o paradigma. Sistema de ensino finlandês está prestes a fazer uma revolução nas escolas, substituindo disciplinas por tópicos. Após 40 anos de ensino por disciplinas, a Finlândia sente que está na altura de mudar". Por aqui, Nuno Crato, continua no Século XIX! Está mais preocupado com exames aos professores, aniquilando e desprestigiando o trabalho das instituições superioras de formação. Crato só vê o passado como se os tempos fossem iguais. Tem a obsessão pelos exames, logo no primeiro ciclo, como se eles fossem portadores de "conhecimento poderoso" para o futuro. Infelizmente, continuaremos com altas taxas de insucesso e de abandono enquanto se mantiver esta triste mentalidade. 


"Já é conhecida a eficácia do sistema de ensino finlandês. A sua constante presença nos tops dos rankings educacionais inquieta estudiosos, que já se aprontaram a estudar o fenómeno. Mas a Finlândia já estruturou uma nova forma de ensinar nas escolas: deixarão de existir disciplinas para se lecionar por tópicos. 42 anos após a última reforma no ensino finlandês, esta reforma será uma das maiores já feitas na educação. Apesar do sucesso, os responsáveis pelo ensino finlandês sentiram, em 2013, que o sistema estava a começar a vacilar, ao descerem até 12º lugar, atrás da Estónia, no prestigioso PISA global rankings, que avalia leitura, ciência e matemática. “Os dias de ouro acabaram”, desabafou Finnbay, serviço noticioso finlandês, após os resultados saírem em 2013. Debatia-se em “como voltar ao jogo” e, anos depois, é anunciado este novo sistema de ensino. O novo paradigma de ensino baseia-se em aprender por tópicos. Os jovens finlandeses passarão a estudar União Europeia ao invés de estudarem apenas economia, história, língua e geografia. O objetivo dos responsáveis pelo ensino na Finlândia é eliminar a sensação de inutilidade de um determinado conteúdo. A motivação, o factor prático de um tópico e a coerência são valores máximos no novo modelo finlandês. “Precisamos de um tipo de educação diferente que realmente prepare as pessoas para o mercado de trabalho” justificou o responsável pela inovação da cidade de Helsínquia, Pasi Silander, ao Independent. “Os jovens já usam computadores avançados. No passado, os bancos tinham muitos funcionários a fazer cálculos, mas agora tudo mudou. Temos, portanto, de fazer as mudanças na educação necessárias para a indústria e sociedade modernas.”, acrescentou.
Apesar de tudo, esta reforma também tem sido alvo de críticas. Os professores, habituados a um sistema de ensino por disciplinas, iriam ser forçados a colaborar e depender de outros professores para cumprirem um plano curricular, dispersa pelas diversas áreas. Mas, para Pasi Silander, 70% dos professores das escolas básicas de Helsínquia já podem receber este novo modelo. Um dos adeptos e fundadores desta reforma, Marjo Kyllonen, chama a este novo modelo de “co-teaching” e assegura que existirão vários bónus aos professores de colaborarem nesta mudança. De momento este modelo está a ser testado. Por exemplo, algumas turmas de 16 anos já não têm disciplinas como Literatura Inglesa e Física. “Mudámos mesmo a mentalidade. É ligeiramente díficil convencer os professores a entrar na nova abordagem e a dar o primeiro passo. Mas quem colaborou connosco diz não querer voltar atrás.” assegura Silander. A ideia é ter este sistema aplicado em todo o país por volta de 2020".
NOTA
Texto publicado no "Observador".
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 13 de março de 2015

UMA VERGONHA CHAMADA NUNO CRATO


No âmbito do exame da Cambridge, Preliminary English Test for Schools Portugal (PET), os docentes de Inglês que, agora, em regime de obrigatoriedade, vão ter de aplicar e corrigir a prova, terão de realizar um exame da Cambridge para avaliar a sua proficiência linguística!


Tratando-se esta prova (PET) de um serviço que o MEC, entidade pública, presta a uma entidade privada (Cambridge), obrigar os professores das escolas públicas a servirem os interesses que estarão por trás de todo este processo já é, para a FENPROF, algo inaceitável. Porém, obriga-los, não só a prestarem serviço àquela empresa, como a submeterem-se a exames que a mesma impõe é absolutamente inadmissível e constitui um autêntico abuso. Não se pode aceitar que o MEC submeta professores, devidamente habilitados a exercerem a sua atividade nas escolas que tutela, a esta nova “PACC” supervisionada pela Cambridge. Esta é uma situação que a FENPROF reputa de totalmente inadmissível, abusiva e lesiva dos profissionais de Inglês, devidamente credenciados pelo ensino superior para lecionarem a disciplina.
Já não bastava estes docentes serem obrigados a realizar todo o trabalho suplementar e gratuito que esta prova obriga, em cima dos seus horários de trabalho já tão sobrecarregados… Vem agora o Ministério da Educação e o IAVE impor uma nova tutela aos professores de Inglês: a Cambridge English Language Assessment! É este departamento da Cambridge que decide quem pode aplicar e corrigir o exame de Inglês nas escolas portuguesas! Não tarda será ele que decidirá quem pode ou não dar aulas de Inglês em Portugal! 
A FENPROF reitera o que já antes afirmou: estamos perante um intolerável abuso de poder por parte da administração, de uma enorme falta de respeito pelos professores e pelas escolas, mas igualmente pelas instituições de ensino superior portuguesas.
A FENPROF tudo fará para pôr cobro a mais este desvario do MEC e de Nuno Crato e apela aos professores, às Associações de Professores de Inglês e às instituições de ensino superior que tomem posição contra tão ultrajante e vergonhosa situação. Os gabinetes jurídicos dos Sindicatos de Professores que integram a FENPROF estão a apoiar os seus associados que pretendem reclamar contra este abuso, podendo, inclusivamente, levar o caso à barra dos tribunais. Entretanto, esta nova peça será enviada à Procuradoria-Geral da República para que a integre no processo que, a este propósito aí decorre desde o ano passado, quando a FENPROF apresentou queixa contra o MEC.
O Secretariado Nacional da Fenprof

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

NUNO CRATO, O PIOR MINISTRO DA EDUCAÇÃO EM 40 ANOS DE DEMOCRACIA


Não há memória de um titular da pasta da Educação tão fraco e tão varrido de qualquer ideia para o sistema. É borrada atrás de borrada. Culminou com a vergonhosa colocação de professores. Docentes colocados, com horário e trabalho em curso, regressaram à situação de desempregados por erro (dizem) no processo de colocação.


Professores que mudaram de cidade (mobilidade habitual, durante anos a fio, de cidade em cidade, do Norte ao Sul), que contratualizaram habitação, viram agora cancelados os seus contratos com todos os prejuízos daí de correntes. Este Crato é um político ignorante. Aquela figura que, no programa “Plano Inclinado” (SIC), batia forte e feio no sistema e nos ministros com responsabilidades políticas, engole hoje o veneno que semeou. Este Crato que exige uma avaliação ao desempenho docente, através de um processo absolutamente burocrático e gerador de grave conflito dentro dos estabelecimentos de educação e ensino, este Crato deveria sim submeter-se à mesma avaliação, agravada com os itens relacionados com a governação. A desvergonha é tal que revela não possuir princípios políticos. Situações como as que diariamente são reveladas, deveriam levar a demissão do cargo que ocupa. Prejudicou o sistema educativo, prejudicou milhares de professores, prejudicou o funcionamento normal das escolas, gerou tensões injustificáveis e sempre, mas sempre, com uma atitude como se tudo fosse normal. Senhor Ministro, vá embora, porque não tem jeito, nem político nem profissional, para a coisa. 
Deixo aqui um artigo de José Miguel Tavares (Público):

Caro Nuno Crato: ainda aí está?


"Convinha que a desresponsabilização na política portuguesa não chegasse a este triste ponto: desde que um ministro não seja apanhado a fazer corninhos no Parlamento ou a contar piadas sobre hemofílicos de Évora, ele pode espalhar a sua infinita incompetência por ministérios e secretarias de Estado sem que nada lhe aconteça. Ora, após o homérico desastre que está a ser o início do actual ano lectivo, por culpa exclusiva dos serviços do ministério da Educação, somos obrigados a perguntar que mais é preciso acontecer para que Nuno Crato se decida a apresentar o seu pedido de demissão.
Crato ficou em tempos conhecido por um colorido comentário que envolvia a implosão do ministério da Educação, e não se pode dizer que estivesse sozinho nesse desejo. O ministério da 5 de Outubro é um monstro burocrático que engole tudo à sua volta, e cujas preocupações acerca da gestão do exército docente suplantam em muito as preocupações com a qualidade de ensino dos alunos que é suposto servir. Mas por mais que nos unamos a Crato na sua vontade de implosão, a verdade é que em 2014 ele colocou a dinamite no local errado: em vez de implodir o ministério, explodiu com o ano lectivo.
Há muitos anos que não se via nada assim, e qualquer cidadão deve questionar-se para que serve um ministério com milhares de funcionários se ele não é sequer capaz de executar a mais básica tarefa para que foi criado: começar as aulas a tempo e horas e atribuir a cada aluno os professores a que ele tem direito. As listas de colocação de professores saíram apenas a 9 de Setembro, o que fez com que no começo das aulas milhares de alunos estivessem sem docentes. E nas escolas de ensino artístico a tragédia é completa, com instituições, como os Conservatórios, a garantirem que só em meados de Outubro a situação deverá estar normalizada – um mês após a data fixada para início do ano lectivo.
Quando se tenta encontrar uma explicação para esta situação, há quem balance entre a incompetência fortuita e a incompetência intencional. Ou seja, uns acham que Nuno Crato pura e simplesmente não sabe o que anda a fazer, outros acham que Nuno Crato sabe o que anda a fazer bem de mais. Tradução: o ministério da Educação estaria a aproveitar estes atrasos inconcebíveis para poupar uns milhões em ordenados de professores. Seja qual for a opção, ela mais do que justificaria que Crato arrumasse os tarecos – e quando se junta a isso o desastre matemático na ordenação dos professores das bolsas de contratação de escola, e as mentiras que o ministro da Educação andou a espalhar pelo Parlamento, só mesmo a narcolepsia de Pedro Passos Coelho pode justificar a permanência de Crato na 5 de Outubro.
Depois de o ministro ter andado 15 dias a assobiar para o ar fingindo não ver um erro matemático básico na ordenação das listas, ele ainda foi para a Assembleia da República jurar que “os professores colocados mantêm-se”, que “eventuais duplicações serão analisadas caso a caso”, que “os alunos não serão prejudicados”. Tudo mentiras, como se viu: as listas anteriores foram simplesmente anuladas e centenas de professores foram descartados após três semanas a dar aulas. Após a asneira ter sido feita, nunca haveria boas soluções para o problema. Mas a cabeça de director-geral de administração escolar é demasiado pequena para ser a única a rolar. Nuno Crato deve ser devidamente responsabilizado – é inadmissível ter um governo que exige tanto aos portugueses e tão pouco a si próprio".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 22 de julho de 2014

HOJE É, INFELIZMENTE, DIA DE CONFUSÃO NAS ESCOLAS. MAS HÁ QUEM DÊ UMA NO CRAVO OU NO "CRATO", OUTRA NA FERRADURA!


Sorrateiramente, de forma muito pensada, numa tentativa de não permitir o contraponto por parte das organizações sindicais, o ministério da Educação marcou, com um intervalo de três dias úteis, uma "prova de avaliação de competências e capacidades" para mais de 4000 professores contratados. Independentemente de outras leituras que, aliás, já as desenvolvi neste blogue, esta é uma atitude que só tem uma classificação, apenas com  duas palavras, para quem a tomou: desonesto e prepotente. Lamento, por isso, ter lido, ainda ontem, no Jornal de Notícias, a posição do socialista Augusto Santos Silva, ele que foi ministro da Educação, concordante com esta prova, através de uma esfarrapada justificação: "(...) para repor alguma equidade entre candidatos que se formaram e foram classificados em condições muito díspares". Fiquei furioso ao ponto de exclamar: entre o Crato e este Augusto, a este propósito, que venha o diabo e escolha. Simplesmente porque a avaliação sempre foi díspar e subjectiva, entre escolas e entre professores que leccionam a mesma disciplina. Há sempre um grau de subjectividade entre dois avaliadores, imagine-se entre centenas! O respeito que deve existir pelas instituições formadoras e pelos respectivos professores, onde se enquadram catedráticos, do meu ponto de vista, deve ser tido em consideração. Augusto Santos Silva é Sociólogo e Professor Catedrático da Faculdade de Economia do Porto. Mas também não estranho certos comportamentos. Este Augusto também já participou no Clube Bilderberg. Para mim está tudo dito.

A mim,  autor deste blogue,
 também não me cheira bem!

O seu artigo é uma no cravo ou no "crato" e outra na ferradura. Diz e bem que Crato destruiu o programa de modernização escolar, destruiu o programa Magalhães, destruiu as Novas Oportunidades, destruiu a avaliação dos professores, destruiu o inglês no 1º Ciclo, está a destruir o sistema científico, está a destruir o sistema profissional, está a destruir a relação de confiança com o ensino superior (ora aí está o contra-senso em relação à prova de avaliação de conhecimentos dos professores), semeia a confusão na fileira profissional e politécnica, enfim, dá no Crato forte e feio, chamando-lhe "salteador", de "instinto sádico cujo prazer é magoar e destruir", mas neste vergonhoso vexame aos professores que têm servido o sistema educativo, coloca-se ao lado de Crato. Não entendo, nem os professores, em geral, entendem. Que se exija das instituições formadoras uma redobrada atenção na formação docente, tudo bem. Colocá-las em causa, parece-me desajustado. Há bons e menos bons professores, tal como existem em todas as profissões, inclusive, entre os que se formaram em Sociologia.
Ilustração: Google  Imagens.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

NÃO É UM EXAME... É UM VEXAME!


Os professores têm, no mínimo, o grau de Licenciado. Passaram por uma instituição de Ensino Superior, reconhecida pelo Ministério da Educação. Ao longo dos anos de estudo foram, sucessivamente, avaliados e, finalmente, atribuída a licença para exercer a docência. Realizaram um estágio pedagógico, orientado por um professor da instituição de ensino superior e por um professor do estabelecimento de educação ou ensino. No estágio desenvolveram projectos de trabalho e aprenderam a planear as unidades didácticas. Sempre sob a supervisão dos orientadores. Debateram, realizaram relatórios e organizaram acções de natureza científico-pedagógica. Depois, foram aprovados. Para o ministro Crato tudo isto vale zero ao exigir que os professores contratados, com menos de cinco anos de serviço, realizem uma "Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC)" imposta aos docentes contratados. Adivinham-se novas acções de contestação. Essa prova está marcada para a próxima terça-feira e destina-se a todos quantos não a realizaram em Dezembro passado. Na altura verificaram-se imensos protestos,  tendo, inclusive, a Federação Nacional dos Professores (Fenprof), conseguido suspender a prova com recurso aos tribunais.


Crato não desiste e volta à carga. Certo e sabido que, na próxima semana, teremos mais contestação nas ruas e nas escolas, a avaliar pelas posições já assumidas pela generalidade das instituições que enquadram professores. Crato não consegue ver, sequer, que a sua atitude constitui uma grave ofensa às instituições de Ensino Superior  e aos professores que avaliaram e aprovaram os agora docentes, como também constitui um ataque miserável a milhares que tiveram a missão de ensinar ao longo de vários anos. Foram contratados, serviram o sistema educativo, foram avaliados nas suas escolas e agora são olhados com desconfiança. Ora, esta prova não faz qualquer sentido. O professor é portador de uma habilitação profissional que passou por vários e exigentes estádios, daí que, para além da avaliação de desempenho docente, não faz sentido que lhes seja exigida uma certificação de competências. Se o desempenho não é o melhor, estão previstas em lei a sequência dos procedimentos. Ponto final.
E o mais grave e que demonstra quem é este ministro Crato, é a data da marcação da prova, quando há professores que já se encontram em licença de férias. Está tudo dito. É o pior ministro de todos estes anos de democracia. Com ironia, espero que o secretário regional da Educação do governo da Madeira não faça a mesma triste figura de assobiá-lo e insultá-lo, tal como fez junto a um hotel do Funchal, aquando da presença do Engº José Sócrates, na altura que os professores andavam de candeias às avessas com a ex-ministra Maria de Lourdes Rodrigues. 
Ilustração:  Google  Imagens.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

NUNO CRATO É, CLARAMENTE, UM MINISTRO INCOMPETENTE


"Este ministro aparenta estar absolutamente convencido de que está a fazer o melhor, mas ele não é um homem da educação. Até presumo que tenha sido escolhido por ser um bom comunicador político - ele tinha uma receita conservadora de reforço do ensino tradicional, e conseguiu passá-la nos media - e é economista com especialização em estatística - o que é importante para fazer contas e tornar a educação mais barata. Infelizmente, o senhor ministro não tem uma cultura acrescentada sobre a escola nem um conhecimento, para além do senso comum, sobre educação".

"Ser professor é um inferno", sublinha Sérgio Niza, nesta entrevista ao Diário de Notícias. Sérgio é um professor desde sempre ligado à Educação. É a figura mais "inspiradora da pedagogia portuguesa nos últimos cinquenta anos. Foi ele que, há pouco tempo, numa entrevista à revista "A Página da Educação", sublinhou que "Este ministério da Educação é de uma ignorância que mete medo". O meu Amigo Danilo Matos falou-me desta entrevista que me tinha escapado. Aqui a reproduzo pela sua importância.


Alunos sem esperança, professores ansiosos, ensino bafiento e uma escola que não serve os interesses das crianças e jovens nem os do país. Sérgio Niza dedicou a vida à educação e não se conforma com o estado a que a escola portuguesa chegou. Mas há soluções, diz ele.
Professores insatisfeitos, pais preocupados e alunos que acham as aulas uma maçada. O que é que se passa com a nossa escola?
_Esse é o retrato da escola portuguesa e da generalidade das escolas dos países ocidentais devido à forma de organização do trabalho. A estrutura de ensino simultâneo - todos a aprender a mesma coisa ao mesmo tempo - vem do século XVII e ainda perdura apesar de se saber desde os anos vinte do século XX que é um modelo esgotado. O professor dá uma lição, depois faz uma pergunta, escolhe um aluno para responder e avalia o trabalho substancial que é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não-comunicação em que o professor usa mais de três quartos do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo possível. Poderá algum jovem ou criança suportar isto?
Não é a melhor metodologia para aprender, certo?
_Hoje, graças à investigação, sabemos que se aprende dialogando, falando e escrevendo o conhecimento científico e cultural que se estuda na escola. Devemos contar com a inteligência, os saberes e a colaboração dos alunos e os currículos não devem ser um segredo, devem ser eles a geri-los em conjunto com os professores. Persistir neste modelo de não-comunicação equivale a continuar a encarcerar alunos e a impedir a sociedade e as pessoas de se aproximarem da escola.
A escola não está adaptada à sociedade do século xxi?
_Nenhuma outra organização humana resistiu a tanta história e a tanta mudança como a escola, que funciona do mesmo modo há séculos. Hoje temos mais consciência de que a escola, como instrumento ao serviço do desenvolvimento humano, da sociedade, da economia e da cultura, já não serve.
Portugal está ao mesmo nível dos países europeus ou pior?
_A nossa desgraça é que estamos sempre muito atrasados. Quando implementamos políticas que foram experimentadas noutros países, fazemo-lo fora do tempo. A escola portuguesa está esclerosada, está desfasada do tempo histórico. Não corresponde às vivências, necessidades e esperanças dos alunos e das pessoas em geral.
Em suma, qual é a sua maior preocupação com a escola portuguesa?
_Não temos uma escola democrática, os alunos não participam na organização das aprendizagens e no ensino. Quase quatro décadas depois do 25 de Abril, lamento que os governantes não tenham aprendido que a melhor maneira de competir é pela cooperação - os desportistas de equipa, por exemplo os futebolistas, sabem-no bem. Ao invés, nós pusemos os alunos a competir com os colegas e os professores uns com os outros, o que empobrece o trabalho realizado. Esta ideia de transformar a escola, que deve ser um centro vivo de cultura, numa empresa é uma ilusão perigosa. E o sistema de vigilância e punição que está a montar-se para alunos e professores vai tornar a escola ainda mais desumana do que já é.
A escola está a formatar crianças e jovens?
_Completamente. A escola não perde tempo a fazer aprender. Cada vez mais, o que se sugere aos professores é que debitem a matéria, que vigiem e que penalizem os alunos que não aprendem por si ou com as famílias procedendo à sua retenção ou sujeitando-os a fileiras secundárias de ensino precário, como acontece com a introdução recente do ensino vocacional, que poderá por lei vir a atingir alunos do primeiro e segundo ciclos, o que é desde já sentido por todos como uma nova via de castigo ou de discriminação.
Mas do professor o que se espera é que transforme alunos com dificuldades em alunos tão bem sucedidos como os outros...
_As famílias e a sociedade deviam pressionar os professores para que assim fosse. Mas as políticas atuais parecem preconizar que o modo tradicional de trabalhar é que é bom. E assim as crianças e jovens que têm dificuldades vão continuar a ser excluídos. Da escola e da sociedade. E, no entanto, a Direção-Geral da Educação acabou de fazer um estudo sobre os percursos curriculares alternativos e concluiu que a inserção dos alunos nessas turmas especiais não se traduz numa recuperação das aprendizagens e que são residuais os casos de reingresso no ensino regular. Ora, eu pergunto: se é assim, porque se continua a apostar no mesmo? Sabem o que vai acontecer a estes jovens? Vão perder-se em outros percursos igualmente alternativos e vão continuar a ser tratados como portugueses de segunda.
Porque é que os professores não mudam as práticas dentro da sala de aula?
_Os professores foram ensinados de determinada maneira e tendem a replicar o modelo que conhecem. Por outro lado, esta forma de estar na escola tornou-se tão natural que alguns professores até pensam que é a única. Mas não. Temos de ter consciência do que se passa na generalidade das escolas para perceber porque fracassámos e querer mudar. Porque há soluções.
Quais são?
_Temos de substituir as soluções únicas da velha escola tradicional, reforçada agora por soluções de empobrecimento cultural inspiradas na América dos anos de 1980, por uma gestão comparticipada dos programas, pela entreajuda entre alunos, pela individualização de contratos de aprendizagem e uma forte colaboração que forme para a cidadania democrática. Alguns professores já o fazem hoje e devem continuar até que respeitem os seus direitos profissionais.
Os bons professores estão acomodados?
_Chegámos a um ponto em que até os bons professores que se mantêm no ensino temem ficar desempregados e o país corre o risco de que se tornem uns cordeirinhos, que obedecem cegamente às manipulações da administração. Os professores estão muito ansiosos, já não querem gastar tempo a falar de estratégias de ensino que melhorem as aprendizagens porque também eles estão obcecados com a avaliação. A que têm de fazer constantemente aos alunos e a avaliação final de ciclo, externa às escolas. Além disso, eles também vão ser examinados através dos resultados dos alunos, por via da avaliação do desempenho. É um inferno ser professor neste contexto.
Discorda da avaliação do trabalho dos professores?
_Não, o trabalho dos professores é pago por todos nós e deve ser avaliado. Mas uma coisa é avaliar o conjunto do trabalho do professor, incluindo a sua atitude no seio de uma equipa pedagógica, outra coisa é avaliar o professor como se faz com qualquer outro funcionário público. É que a natureza do trabalho dos professores é muito particular por ser crucial para o desenvolvimento humano, a preservação e a renovação da herança cultural.
Ainda há pouco tempo foram publicadas as metas curriculares para o ensino básico. É caso para dizer que finalmente haverá objetivos de aprendizagem claros e autonomia para os professores?
_Nem pensar. As metas servem a atual espinha dorsal da escola, que passou a ser o seu controlo. Não têm nada de novo, apenas servem para examinar e vigiar. As metas desviam-se dos programas em vigor mas isso é indiferente para o ministério pois os professores sabem que para alcançar resultados têm de olhar para as metas tendo-as em conta como o novo currículo.
As novas metas não servem os interesses dos alunos nem dos professores?
_O discurso oficial é que sim, que servem. Mas não é verdade, não servem porque empobrecem ocurriculum, o trabalho intelectual dos professores e dos alunos. Estas metas não trazem uma vantagem cultural e de socialização acrescida às aprendizagens, à escola e à sociedade.
Que apreciação faz do trabalho do ministro Nuno Crato?
_Este ministro aparenta estar absolutamente convencido de que está a fazer o melhor, mas ele não é um homem da educação. Até presumo que tenha sido escolhido por ser um bom comunicador político - ele tinha uma receita conservadora de reforço do ensino tradicional, e conseguiu passá-la nos media - e é economista com especialização em estatística - o que é importante para fazer contas e tornar a educação mais barata. Infelizmente, o senhor ministro não tem uma cultura acrescentada sobre a escola nem um conhecimento, para além do senso comum, sobre educação.
NOTA:
Entrevista publicada no Diário de Notícias de Lisboa, conduzida por Célia Rosa.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A ABERRAÇÃO DOS EXAMES NO ENSINO BÁSICO


"Chumbos não ajudam a recuperar o desempenho dos alunos. Portugal tem das taxas de retenção mais elevadas da OCDE, mas a medida não é eficaz, diz o estudo do Banco de Portugal".


Chumbar nos primeiros seis anos de escola prejudica o desempenho dos alunos, pelo menos a avaliar pelos resultados dos testes PISA. Por isso dizem os autores de um estudo publicado pelo Banco de Portugal, há vantagens em substituir a retenção, por medidas alternativas de apoio. (Expresso). Rigorosamente nada de novo nesta posição. Apenas a confirmação do que há muito se sabe. É, por isso, que várias vezes aqui tenho escrito e questionado o secretário da Educação sobre o seu posicionamento no quadro da Autonomia Político-Administrativa. Não se trata de um problema Constitucional, mas sim organizacional. Não se trata de um impedimento da Constituição da República ou da Lei de Bases do Sistema Educativo, mas de pensamento estratégico. Não se trata de um problema  apenas da secretaria de Educação, mas de um trabalho sistémico que envolve outras secretarias a montante da Escola. E custa-me ver que a Madeira não tenha uma ideia sobre esta matéria. Pelo contrário, apoia o ministro, verga-se perante o erro e a teimosia de um homem que deseja que o presente se faça à imagem do seu passado escolar, quando os tempos são outros. É a tal frase que tantas vezes aqui repito, a de  uma "escola sempre  igual a competir com a vida que é  sempre diferente". Às vezes chego a pensar se acredita no formato dos exames ao contrário de uma avaliação rigorosa e contínua, ou se se serve dos alunos para avaliar o desempenho docente. Seja como for, de uma maneira ou de outra, está completamente errado. 
Voltar a escrever sobre o mesmo é chover no molhado. Por isso, deixo aqui um texto que alinhavei em Janeiro de 2013. Talvez ajude a melhor situar os leitores desta página face a este problema:
"Não vou muito longe e socorro-me de algumas passagens de um incisivo artigo do Professor José Pacheco (figura que ainda ontem destaquei) publicado na edição de Inverno de 2012 da revista A Página da Educação. O artigo começa assim: "A conceituada revista Science deu a conhecer um estudo que contraria tendências reveladas em recentes decisões de política educativa. (...) Deborah Stipek, docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, trabalhou o seu estudo ao longo de 35 anos. A autora do estudo denuncia o facto de os jovens serem treinados para obterem bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. E acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada. (...) Irá o senhor ministro contrariar dados científicos? - questiona e prossegue: (...) Deborah sublinha o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas enquanto prejudicam vidas que poderiam ser promissoras. Em suma, sublinha o Professor José Pacheco, "um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames é prejudicial à aprendizagem. E quem o afirma é a revista Science que tem por título "Educação não é uma corrida". Escutemos a pesquisadora: "O sistema actual baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Esta forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na actualidade faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos mesmo antes da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja o cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém". Mais adiante, o Professor José Pacheco traz à colação a coordenadora do Centro de Pesquisa em Empreendedorismo da Universidade de S. Paulo: "É preciso redescobrir o signicado de ir à escola, de estudar. Mercado de trabalho e status social são questões que devem deixar de nortear as políticas educacionais. A sociedade valoriza muito mais o trabalho cooperativo, mas a escola forma alunos muito mais focados no trabalho individual" (...) A maioria dos grandes pensadores que deixaram um legado para a humanidade seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido". 
Portanto, concluo, a questão central não pode circunscrever-se aos exames, mas à mudança do sentido de Escola. Mudança de paradigma que é difícil, sublinho, não só porque os políticos não se interrogam, mas porque há uma mentalidade formatada e encaixotada que impede desde logo a discussão séria dos assuntos. E se os centros universitários de formação e investigação bem lutam por uma mudança, a verdade é que se trata de uma luta desigual, simplesmente porque, por ignorância altifalante, os decisores não querem ouvir.
Esta mudança, que leva muitos anos, quando está em causa a completa ruptura de um sistema e a paulatina criação de um outro, não significa, no ensino básico, é dele que estamos a falar, ausência de avaliação quer no vértice da pirâmide do sistema (vértice estratégico - ministério ou secretaria regional), quer na linha hierárquica (ao nível de escola), quer ao nível do centro operacional (professores e alunos). Pelo contrário, as exigências são muito maiores, porque formativas, contínuas e sistémicas. Mas para essa construção falta, na expressão de Rubem Alves uma "erecção da inteligência" a todos os níveis!"
Ilustração: Google Imagens
OUTROS TEXTOS:
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/05/os-exames-que-nunca-deveriam-ser.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/05/exames-de-1-ciclo-e-ereccao-da_2.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2014/01/nuno-crato-nao-tem-emenda-exigencia-e.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2014/06/nem-fecundam-nem-se-deixam-fecundar.html

sábado, 14 de junho de 2014

NEM FECUNDAM, NEM SE DEIXAM FECUNDAR!


Li as declarações do secretário regional da Educação, Dr. Jaime Freitas, e também as do Director Regional de Educação, Dr. João Estanqueiro. O primeiro multiplicou-se em contas e percentagens ao jeito da publicidade dos relógios que "nem adiantam nem atrasam"; o segundo, chutou para o ministério as causas dos resultados negativos na Matemática, devido às constantes alterações programáticas. Ora, se foram melhores ou piores que os dos anos anteriores, isso pouco interessa. É paleio. Apenas paleio. Este ano melhora aqui e piora ali; no ano seguinte verifica-se o contrário, porque isso depende de muitas variáveis! Depende, até, dos "exigentes" critérios de correção da responsabilidade do GAVE. Portanto, repito, tal questão é paleio com mofo. Simplesmente porque o fulcro da questão está em perceber, no plano político, qual a posição do governo da Região Autónoma da Madeira e, particularmente, da secretaria regional: se considera ou não importante a realização de exames no 4º e 9º anos, se prefere os exames à avaliação contínua exigente, rigorosa e de qualidade e se prefere fazer ou não um simulacro da Autonomia Político-Administrativa. É isto que está em causa. Por um lado, promovem conferências e convidam investigadores para aqui debitarem conhecimento, por outro, continuam a dobrar-se àquilo que é ditado pelo ministério. Não bastasse isso, hoje existe muita investigação, muitos autores com obra publicada e muito pensamento relativamente ao que deve ser uma Escola que se assuma como motor da sociedade. A Universidade da Madeira, para não irmos mais longe, tem pensamento produzido sobre esta matéria. Só os políticos deste trágico governo regional é que não transmitem qualquer opinião segura e portadora de futuro. Não influenciam nem se deixam influenciar. Nem fecundam nem se deixam fecundar!


Um político não pode ser neutro. A política educativa, entre as demais, não é neutra. Impõem-se opções, definição de percursos (políticas) e responsabilidades. E o que se passa com a Educação é qualquer coisa assexuada. Desde que a "loja" abra às 08:00 e encerre cumpridos os horários de "expediente", pois bem, como antigamente dizia o cigarrilha... siga! E que se dane a Autonomia Política. O Crato manda e o Jaime cumpre. O Crato quer que os professores, a partir de Janeiro, TREINEM os meninos para os exames e o Jaime cumpre. O Crato dispensa professores e o Jaime alinha. O Crato altera os programas e o Jaime diz que temos de trabalhar mais (os professores, claro). O Crato impõe um estúpido modelo de avaliação do desempenho docente e o Jaime, retoca, mas mantém a estupidez. E assim vamos, tal como letra antiga... "cantando e rindo, levados, levados"... eu concluiria, e de que maneira! 
Tudo tem o seu tempo e este governo já teve o seu. Há muito que a rotina se impôs à inovação. Apregoam a criatividade, mas preferem a estagnação. Política integrada que coloque os Assuntos Sociais a par da política educativa, bom, isso dá muito trabalho. Depois, é vê-los correr atrás do prejuízo, isto é, do abandono escolar e do insucesso. Importante é dizer por todos os cantos, para disfarçar a moleza, a apatia e a indiferença, que o Estado deve não sei quantos milhares de milhões nos encargos da Educação e da Saúde. Regionalizaram de olhos fechados, não assumiram compromissos sustentáveis e agora, com o cofre vazio, exprimem a reivindicação baseada no "paguem vocês e mandamos nós". Uma  vez mais manda a Autonomia às malvas, sabendo que quem paga, manda!  
E se começassem a governar? Já é tempo. Porque governar é muito mais do que cumprir o horário de funcionário público.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

NUNO CRATO NÃO TEM EMENDA: "A EXIGÊNCIA É AMIGA DOS POBRES"


Saberá Nuno Crato, Ministro da Educação, o significado das suas palavras na Assembleia da República? Com que então... "a exigência é amiga dos pobres". Saberá Nuno Crato o que é um pobre? Conhecerá o drama de milhares de famílias que não podem pensar numa educação a vinte anos, porque têm de pensar a vida ao mês, à semana e, muitas vezes, ao dia? Saberá Nuno Crato o que acontece nas escolas e as condições sociais que ali chegam que colocam direcções executivas e professores em geral à beira de um ataque de nervos? Conhecerá a indecorosa política de acção social? E mais especificamente, quanto aos programas de Matemática, não desconfia, nem um pouquinho, que alguma coisa não bate certo quando milhares de professores e associações de matemática apontam o dedo ao ministro dizendo que o seu projecto está errado? Saberá o que significa o desemprego, a fome, a emigração e as consequências nas idades de formação? Dominará, minimamente, a necessária articulação e graus de exigência entre os diversos ciclos de estudo? Saberá alguma coisa de POLÍTICA EDUCATIVA? Não seria mais avisado ouvir os mais experimentados, as escolas, as associações, mesmo que para ele, ministro, constituam mais joio que trigo, quando os submete a ridículos exames?


Deixo aqui uma conhecida história que Nuno Crato deveria ter em consideração:
"Um homem, que tinha 17 camelos e 3 filhos, morreu.
Quando o testamento foi aberto, dizia que metade dos camelos ficaria para o filho mais velho, um terço para o segundo e um nono para o terceiro.
O que fazer?
Eram dezessete camelos; como dar metade ao mais velho? Um dos animais deveria ser cortado ao meio?
Tal não iria resolver, porque um terço deveria ser dado ao segundo filho. E a nona parte ao terceiro.
É claro que os filhos correram em busca do homem mais erudito da cidade, o estudioso, o matemático.
Ele raciocinou muito e não conseguiu encontrar a solução, já que a mesma é matemática.
Então alguém sugeriu: "É melhor procurarem alguém que saiba de camelos, não de matemática".
Procuraram assim o Sheik, homem bastante idoso e inculto, mas com muito saber de experiência feito.
Contaram-lhe o problema.
O velho riu e disse: "É muito simples, não se preocupem".
Emprestou um dos seus camelos - eram agora 18 - e depois fez a divisão. Nove foram dados ao primeiro filho, que ficou satisfeito. Ao segundo coube a terça parte - seis camelos - e ao terceiro filho foram dados dois camelos - a nona parte. Sobrou um camelo: o que foi emprestado.
O velho pegou seu camelo de volta e disse: "Agora podem ir".
Esta história foi contada no livro "Palavras de fogo", de Rajneesh e serve para ilustrar a diferença entre a sabedoria e a erudição. Ele conclui dizendo: "A sabedoria é prática, o que não acontece com a erudição. A cultura é abstrata, a sabedoria é terrena; a erudição são palavras e a sabedoria é experiência."
Moral da história: o ministro Nuno Crato deveria escutar os professores, repito, antes de enveredar pelas palavras, conceitos e programas aparentemente eruditos, mas sem qualquer sabedoria que só a experiência é portadora. É claro que esta história com camelos também funciona com burros, já que, segundo o ministro, em Portugal, parece existirem mais burros que camelos.
Quando manda pela borda fora os professores, quando reduz a intervenção pedagógica precoce, logo nas primeiras idades, quando o governo a que pertence deixa degradar o tecido social, quando reduz, substancialmente, o orçamento para a Educação, quando sobrecarrega os professores com desnecessários processos burocráticos e não pedagógicos, quando a autonomia das escolas é claramente mitigada, quando os alunos e as famílias não são o centro do processo educativo, quando aposta no privado e não no sector público, parece-me evidente que por maior exigência que seja feita ela não é, de todo, "amiga dos pobres". É paleio! Simplesmente porque existem numerosas variáveis que deveriam ser acauteladas para que a exigência, o rigor, o trabalho com resultados possa ser interligado e eficaz. 
Ilustração:  Google Imagens.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A CORRUPÇÃO NA EDUCAÇÃO. ELES ESTÃO A FAZER TUDO PARA ACABAR COM A ESCOLA PÚBLICA.


Ana Leal foi a jornalista que ousou fazer uma reportagem na TVI mostrando a opção do governo pelo ensino privado, acompanhado do desmantelamento da escola pública. Trata-se de uma reportagem que demonstra, inequivocamente, a corrupção na Educação e o que este Ministro Nuno Crato faz para acabar com a escola pública. Ele pode dizer que não é bem assim, mas os factos demonstram o que lhe vai na cabeça. Esta reportagem já tem algum tempo, mas continua actual. Eu julgo que todos os professores deveriam segui-la e retirar as conclusões. Aqui deixo o convite. Quanto à jornalista, por esta e outras situações foi suspensa. Por divulgar a verdade inconveniente.

 

Violência

A Educação nacional está a ser confrontada com caminhos que desprezam a sua natureza axiológica e procuram impor-lhe o modelo de mercado. Trata-se de apresentar a Educação como um simples serviço, circunscrito a objectivos utilitários e instrumentais e regulado apenas por normas de eficiência e eficácia. Trata-se de impor um acto educativo transformado em produto e a escola transformada em empresa de serviços. Trata-se de impor uma ideologia marcada pela sede de desinstitucionalizar e pela pressa de privatizar.


O Professor Doutor Santana Castilho, escreveu, no PÚBLICO, no dia 04 de Dezembro corrente, um artigo que, do meu ponto de vista, clarifica o vídeo que aqui deixei. Vale a pena ler.
"A arrogância, o ódio aos professores, a ignorância sobre a realidade do sistema educativo e das escolas e a impreparação política e técnica são os eixos identificadores daquilo que poderemos designar por bloco central de governo da Educação da última década. Se apelarmos à memória, salta à vista a convergência ideológica entre Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, relativamente ao papel dos professores. Uma ou outra divergência quanto a processos não apaga o essencial. Do outro lado da barricada, a classe dos professores não interiorizou, enquanto tal, a dimensão política da sua profissão. E, em momentos vitais das lutas a que tem ido, soçobrou por isso.
As mudanças sociais e económicas que varrem a vida dos portugueses colocam à Educação problemas novos e emprestam uma dimensão maior aos problemas de sempre. Mas o maior de todos é político e como tal ideológico e intencional. A Educação nacional está a ser confrontada com caminhos que desprezam a sua natureza axiológica e procuram impor-lhe o modelo de mercado. Trata-se de apresentar a Educação como um simples serviço, circunscrito a objectivos utilitários e instrumentais e regulado apenas por normas de eficiência e eficácia. Trata-se de impor um acto educativo transformado em produto e a escola transformada em empresa de serviços. Trata-se de impor uma ideologia marcada pela sede de desinstitucionalizar e pela pressa de privatizar. De entre tantas mudanças que aqui não cabem, recordemos as duas que melhor servem tal desígnio: a criação da Parque Escolar e o regime jurídico de gestão das escolas. Com a primeira, passou-se para o domínio empresarial a propriedade de mais de metade das escolas secundárias do país. São milhares e milhares de metros quadrados urbanizados nas zonas mais nobres das maiores cidades. Se o BPN foi nacionalizado e a SLN ficou de fora, por que não considerar que a Parque Escolar pode vir a ser vendida ao grupo GPS ou à empresária Isabel dos Santos? Com a segunda, escancararam-se as portas à possível gestão privada das escolas públicas. Porquê? Porque o órgão de gestão das escolas passou a ser escolhido por uma espécie de assembleia de accionistas das empresas (Conselho Geral, onde a maioria dos membros não pertencem à Escola); porque o director assim escolhido também pode, ele próprio, ser estranho à própria Escola ou mesmo, no momento, a qualquer escola, um simples contratado por alguém, que cumpra os requisitos legais. Muitos não pensaram nisto, nem no como pode ser atraente para outros juntar as duas peças, sob a bênção da ideologia de Passos e Crato. Aos primeiros recordo Sun Tzu:
“… Se conheces o inimigo e te conheces a ti mesmo, não precisas temer o resultado de cem batalhas. Se te conheces mas não conheces o inimigo, por cada vitória sofrerás uma derrota. Se não te conheces nem a ti próprio nem ao inimigo, perderás todas as batalhas. …”
A distorção nas representações sobre as condições de exercício da profissão docente, ardilosamente passada pelo Governo para a sociedade em geral, atingiu o limite do suportável e ameaça hoje a própria integridade profissional dos professores, que não se têm afirmado suficientemente vigorosos para destruir estereótipos desvalorizantes. Com tristeza o digo, mas a classe dos professores manifesta-se cada vez mais como classe de dependências. E quem assim se deixa aculturar, dificilmente compreenderá o valor da independência e aceitará pagar o seu custo. É neste contexto que devemos olhar para a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades, criada por Maria de Lurdes Rodrigues, importa não esquecer, e então fortemente contestada pelo PSD, importa recordar. Não é coisa de alguns. É coisa de todos. Pese embora tudo o que se possa dizer, o carácter facilitista da prova serve para esvaziar a sua contestação. O “Público” evidenciou o grotesco da prova quando mostrou que adolescentes dos 8º e 9º anos a resolvem com facilidade e rapidamente. Mas, recordemos, há uma segunda prova, sobre conhecimentos específicos, que … pode ser bem diferente. Enquanto chamarmos básica, ridícula, elementar, insultuosa, apatetada, desadequada, absurda, a uma prova que é tudo isso, não nos ocupamos de uma política, que vem de longe, que a utiliza para descredibilizar os docentes da escola pública e para os apontar como responsáveis pela degradação da Educação, etapa importante para o que virá a seguir. A todos aqueles vocábulos há que acrescentar a palavra que falta: violência. É o que esta prova é: uma violência.
Dizem os dicionários que a violência é a qualidade de tudo aquilo que opera com ímpeto, que se exerce com força, que se opõe ao direito ou à justiça. Porque há vários tipos de força, o conceito de violência é, de forma mais lata, aplicado comummente a todo o tipo de comportamento que, com intencionalidade, agride ou intimida. Não só do ponto de vista físico, mas, também, do ponto de vista psíquico e moral. O rompimento abrupto das normas e dos princípios constitutivos da moral social vigente é, no meu entendimento, sempre, uma violência. Quantas vezes mais bárbara que a que se exerce de bastão na mão.
Ilustração: Google Imagens.