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quarta-feira, 14 de maio de 2014

CURVADOS AO JEITO DO BAILE PESADO


Há personagens, não é que me revoltem, mas pelas quais acabo por sentir alguma pena. Se, em matéria de política, podemos ou devemos ter pena! Seja como for digito ao correr do pensamento. Tenho-me cruzado com muitas figuras. Umas por amizade nascida após Abril de 1974, outras que determinadas circunstâncias vieram a “corrigir” os seus azimutes políticos. Algumas diziam do PSD o que “Maomé não disse do toucinho”; outras, que consideraram que as convicções político-ideológicas não se coadunavam com as verdades primeiras. Destas últimas rigorosamente nada me opõe. Seguiram o seu trajecto, sem interesses e sem jogadas pré-idealizadas no tabuleiro do xadrez político. Do outro grupo são tantos aqueles que mandaram as convicções às malvas, silenciosamente e com mil e um cuidados foram mudando de cor e mudando a carapaça até ao momento de espreitarem uma oportunidade de algum poder por mais ínfimo que fosse. 


Não me refiro aos de meia tabela para baixo que, por necessidade ou porque, por exemplo, um familiar precisava de emprego e o cartão constituía um importante passaporte (houve tempos assim), subjugaram-se a esse aceno do “vem por aqui”, refiro-me aos outros, àqueles que não precisavam, nem do exercício da política nem dos favores, que inicialmente eram uma voz crítica independente ou situada no espaço da esquerda política, que zurziam forte e feio “no senhor governo” e nas trapaças que se adivinhavam, que por mim passavam e diziam entre outras coisas: “a luta continua”, que apregoavam princípios e valores sociais, que se mostravam intolerantes para com certos políticos, esses, sim, porventura acabo por ter pena. Venderam-se aos bocados como bem explicou Sttau Monteiro no capítulo “O homem vende-se”, no livro “Angústia para o Jantar”: "(...) O homem vende-se aos bocados, a prestações, dia a dia. Muitos, ao fim dum tempo, já nem sabem que estão a vender-se: atingem uma posição que os obriga a defender interesses contrários a tudo o que sempre sustentaram, e são comprados por essa posição (…)”.
Quando leio determinados artigos de opinião, quando os vejo na passerelle do poder ou por aí próximos, lutando pelo dinheirinho ou espreitando uma posição, sinceramente, sinto pena. Muita pena, vê-los rastejar ou simplesmente curvados ao jeito do baile pesado.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 17 de março de 2014

36 ANOS DE PODER


Um dia, em véspera de eleições, meados dos anos oitenta, olhou-me e disse-me: isto só vai para a frente quando você desaparecer do mapa... e vai desaparecer! Foi na Jaime Moniz, ao princípio da noite, junto à piscina. Nada o fazia prever face à serenidade do momento, mas a arrogância e aquele instinto de quero, posso e mando, de político absoluto que convive mal com outras verdades ditas e escritas, levou-o a dizer o disparate. Disse e retirou-se rapidamente com o seu séquito, quando respondi à letra com palavras muito azedas. A sessão que estava a orientar terminou naquele momento. Jamais esqueci. A verdade é que eu não desapareci da política, saí de cena pelos meus pés, não estou na Assembleia Legislativa Regional porque não quero e porque entendo que tudo tem o seu tempo. Cedi o meu lugar. E estou bem assim, simplesmente porque há um tempo para estar e um tempo para fazer outras coisas. Não deixo é de, todos os dias, escrever o que me vai na alma. Quem me disse que eu sairia de cena, esse, sairá pela porta muito pequenina, escorraçado pelos seus pares, ao ponto de assumir que não se entende com essa gente ingrata. Pois é, quando não se sabe viver o tempo do seu tempo, a probabilidade é sempre maior de ser sacudido. Trinta e seis anos de chefia é muito tempo. E o tempo é sempre um grande mestre! Há gente na força da idade que nunca experimentou a alternância política, no fundo, a democracia, enfim, outras caras e outros pensamentos relativamente à construção de uma sociedade equilibrada e feliz. Viveram no "reino" do poder absoluto, do controlo de tudo, da subjugação e da bajulação que conduziu ao medo de ter opinião e de saber dizer NÃO, quando tal se justifica. 

Salazar, o segundo da esquerda para a direita.

O exercício da política tem de ser realizado com o sentimento de um serviço público à comunidade e não como um emprego para a vida. Quando alguém se mantém 36 anos no poder (fora outros nas margens do poder) é que fez da política uma opção de vida e um emprego. Há vários casos de políticos que se eternizaram na cadeira. Em 2012, o historiador Fernando Rosas escreveu, no livro "Salazar e o poder - a arte de saber durar", vejam lá, exactamente, sobre os 36 anos ininterruptos de Oliveira Salazar, sublinhando que esses 36 anos corresponderam, "só ao período de Oliveira Salazar como chefe de Governo", como a "ditadura do presidente do Conselho". Não sei se se trata de bater um qualquer recorde, mas se essa foi a intenção, infelizmente conseguiu! Fernando Rosas escreveu que Salazar exerceu o poder através de uma "violência preventiva". Obviamente, que sendo outros os tempos, o recorde não foi batido através da "vigilância policial dos comportamentos quotidianos", pela PSP e a GNR, pelas "agências estatais de enquadramento e inculcação ideológica", nomeadamente a Mocidade Portuguesa, a FNAT - Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho e a Junta Central das Casas do Povo, entre outras. Não foi por aí, porque a Constituição da República não lhe permitiria, mas, de uma forma mais "raffiné", através de outros e poderosos controlos, a verdade é que deixou uma grande parte da população com a sensação de um homem providencial. Lamento. 
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A URGÊNCIA DE REORGANIZAR A SOCIEDADE


Conheço, relativamente bem, a Dinamarca. Foi dos países que, positivamente, mais me impressionaram em vários sectores, áreas e domínios. Entre outras razões, talvez porque resolveram o problema do analfabetismo há mais de um século. Só que ela também está a mudar, como alguns indicadores demonstram. Em 2011 foi considerado o país com menor índice de desigualdade social do mundo no que concerne à riqueza. Li que, várias pesquisas, realizadas entre 2006 e 2008, tinham considerado a Dinamarca como "o lugar mais feliz do mundo" para viver, no quadro dos direitos sociais, da educação, da saúde, passando pela assistência social. Só que o capitalismo selvagem está a dar cabo da excelência da outrora organização social. O vídeo que aqui deixo transporta-nos a reflexões muito profundas. As sociedades caminham para a mais completa desumanização e desestruturação que coloca em causa princípios fundamentais como a estabilidade familiar vs mundo laboral. Entregam-se os bebés nos berçários e os idosos nos lares, enquanto a faixa intermédia da vida subordina-se à ordem capitalista sem rosto que espreme o ser humano até ao tutano. Sugiro que sigam este vídeo e que se interroguem se é este o caminho que devemos seguir ou se não estará em causa uma nova ordem mundial!
   

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A "REFORMA LABORAL", A TROIKA E AS POLÍTICAS DE DIREITA


Está à vista de todos, se passarmos em revista os acontecimentos e se fizermos um necessário cruzamento das várias peças do puzzle, que houve um tempo de intencional e paciente conquista das pessoas, através das lógicas de um mercado sem qualquer supervisão. Foi o engodo em que milhões caíram, aplaudindo esse aparente bem-estar, mas sem dar-se conta da fatura que vinha, serenamente, cavalgando contra os próprios. Aliás, a direita política, no plano histórico, sempre foi assim, paciente, meticulosa, soube sempre colocar as peças, qual tabuleiro de xadrez, até ao xeque-mate. A direita política quer lá saber das lutas de Chicago, dos pobres, dos mais frágeis da sociedade! Interessa-lhe, fundamentalmente, o dinheiro, a riqueza de alguns à custa do espezinhamento dos demais.


Há gente sem rosto a dominar.
E o Primeiro-Ministro prefere a lógica
de Maria vai com as outras!
As minhas convicções políticas situam-se à esquerda. Na esquerda da liberdade, dos princípios e dos valores. Embora a matriz dos meus princípios e valores aí se situem, tal não significa ortodoxia na perspectiva de uma total inflexibilidade às mudanças. Quero eu dizer que uma coisa é a matriz do meu pensamento político, enquanto alicerce, outra a descoberta de novas soluções políticas que conduzam ao bem-estar da população. O que não gosto é de colocar em causa os princípios. Isto para dizer que olho com grande desconfiança para o essencial desta dita "reforma laboral".
Se, por um lado, considero admissível o debate que conduza a reajustamentos, por outro, entendo que tais reajustamentos não devem ir ao encontro da sistemática subtração de alguns dos direitos adquiridos. Não se trata de querer manter, na palavra do Primeiro-Ministro, a "zona de conforto", mas porque estas ditas "reformas" não trazem no seu bojo qualquer horizonte de esperança. Pelo contrário, há exemplos bastantes de degradação e de empobrecimento. Para mim é evidente o que esta Europa, marcada por uma direita política sem compaixão, muito mais próxima dos milhões dos grande senhores do que do pobre e humilde trabalhador, pretende, paulatinamente, construir. E está à vista de todos, se passarmos em revista os acontecimentos e se fizermos um necessário cruzamento das várias peças do puzzle, que houve um tempo de intencional e paciente conquista das pessoas, através das lógicas de um mercado sem qualquer supervisão. Foi o engodo em que milhões caíram, aplaudindo esse aparente bem-estar, mas sem dar-se conta da fatura que vinha, serenamente, cavalgando contra os próprios. Aliás, a direita política, no plano histórico, sempre foi assim, paciente, meticulosa, soube sempre colocar as peças, qual tabuleiro de xadrez, até ao xeque-mate. A direita política quer lá saber das lutas de Chicago, dos pobres, dos mais frágeis da sociedade! Interessa-lhe, fundamentalmente, o dinheiro, a riqueza de alguns à custa do espezinhamento dos demais. Para a direita política a pobreza resolve-se com atitudes de caridade, a fome resolve-se através das instituições de solidariedade. A direita política não se preocupa em olhar para a organização social, para os horários de trabalho, para as condições em que esse mesmo trabalho se concretiza. Tem um discurso de apelo à família, mas no plano da práxis política, o discurso social é inexistente. O dinheiro é que conta, mesmo que sujo, porque à custa da exploração e dos especuladores.
Ora, eu entendo que o mundo laboral deve ser exercido, em todos os sectores, áreas e domínios, privados ou de natureza pública, com exigência, com rigor, com disciplina no quadro de um largo conjunto de deveres. Mas não abdico que, ao lado dos deveres não se encontrem os direitos. Quando, tendencialmente, os deveres arrasam os direitos, quando deixa de existir um desejável equilíbrio potenciador de resultados, aí digo basta, o que me conduz à interrogação: por que será que são sempre os trabalhadores as vítimas do processo? E os empregadores, retirando os grandes grupos e marcas (nem todos) que níveis de escolaridade e de competências profissionais têm? Que capacidade criativa, inovadora e empreendedora demonstram? Que currículo bancário dispõem para poderem crescer e desenvolver as empresas? Não lhes pertencerá uma significativa parte do estado a que chegámos? Ainda ontem, Pedro Santos Guerreiro, Diretor do Jornal de Negócios sublinhava: "A nossa capacidade de gestão é genericamente fraca. Temos muitos chefes incultos, gestores que não imaginam como se motiva (...) empresários muito pouco exigentes em relação a si mesmos (...)". Ora, não é por mais horas ou dias de trabalho anuais que exportaremos na quantidade e qualidade desejáveis. Porventura, melhoraremos através da qualidade do trabalho e não de mais trabalho. Se os processos que sustentam a generalidade das empresas forem os mesmos, não me parece expectável que os resultados sejam diferentes.
Causa-me tristeza quando assisto à perda de direitos e ao intencional "empobrecimento" da população. Vejo o Primeiro-Ministro aplaudir o acordo, mas não o vejo preocupado com a reorganização social, com o sistema educativo que é determinante nas competências profissionais, não ouço uma palavra de simplificação burocrática, não escuto uma palavra no sentido de um regime fiscal que favoreça as empresas, uma palavra na defesa das famílias. O que resta do seu discurso característico da direita política é a simplificação dos despedimentos por motivos subjetivos, a redução das indemnizações, o aumento do desemprego, o banco de horas, o bloqueio às horas extraordinárias, etc. etc.. Enfim, vejo o Primeiro-Ministro de costas voltadas para Portugal e claramente rendido e deslumbrado com os "areópagos" europeus e ao deus Mercado. "Areópagos" que não são de sábios, mas de gente ao serviço dos interesses económico-financeiros dominantes.
Mesmo em uma situação de dependência externa penso que outro poderia e deveria ser o rumo, mais equilibrado e esperançoso. Não aceito, por um lado, que espremam o povo a um tal ponto, com medidas diárias quase sempre piores que as anteriores, por outro, bloqueados em um beco sem saída, esse povo trabalhador desprotegido tenha de submeter-se à mão de obra barata e escrava como solução para os seus problemas imediatos. Fazer dos trabalhadores os culpados da situação não é, genericamente, nem sensato nem justo. Olhemos, a título de mero exemplo, para o caso da Sicasal. Um incêndio levou parte das instalações. A administração veio logo dizer que os 650 postos de trabalho não estavam em risco. Uma semana depois já laborava a 80% da sua capacidade máxima com a ajuda dos trabalhadores. E na passada semana, comoveu-me a iniciativa de todos os trabalhadores numa sentida homenagem ao patrão da empresa. Ora, este exemplo demonstra que quando existe liderança, capacidade empreendedora, qualidade organizacional e bom desempenho profissional, os resultados aparecem.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 19 de novembro de 2011

"A TROIKA NÃO MANDA NA MADEIRA" E O PRESIDENTE DIZ-SE "ENTALADO"


O Senhor Representante da República é o garante do normal funcionamento das instituições, não deve, por isso, ser laranja, rosa, vermelho, azul, amarelo ou de qualquer outra cor. Existe para exercer a sua magistratura de influência, competindo-lhe ouvir, ser conciliador e deve, por isso, constituir uma ponte de soluções entre a Madeira e a República por via do Senhor Presidente da República. Não posso aceitar, por exemplo, que venha "relativizar a dívida da Madeira" em claríssimo apoio ao governo regional, comparando-a com as empresas públicas ou com a dívida do Estado. Não me parecem sérias nem honestas tais comparações.


Duas notas:
Primeira. Disse o secretário regional dos assuntos sociais da Madeira que a "troika não manda na Madeira". Isto a propósito das taxas moderadoras. Oh, Senhor secretário do "estado a que isto chegou", infelizmente e por culpa dos senhores que governam há trinta e cinco anos, infelizmente, repito, estamos nas mãos daqueles a quem sempre o presidente do governo regional agrediu com palavras. Pois, a troika não manda nisto, mas manda no dinheirinho! E para pagar os calotes do sistema de saúde entre os oito mil milhões de dívida global, é óbvio que precisam de se agachar às imposições da cartilha exploradora do FMI e de seus pares. O que o Senhor poderia ter dito é que tentariam evitar situações gravosas para a população. Aí, vá que não vá, ficar-lhe-ia bem. Agora, esse tipo de arrogância que configura a ideia que aqui não mandam nada, por favor, poupe-nos, porque estamos fartos dessa treta. É claro que se aproximam tempos difíceis e não é por acaso que o seu "chefe" anda por lá a mendigar 1,2 mil milhões para atenter a responsabilidades de curto prazo. E diz-se "entalado". Significativo. E aqui vamos com mais de 14% de desemprego, com empresas a fechar e com a pobreza a aumentar.
Segunda. O Senhor Representante da República foi entrevistado pela RTP-M. Sinceramente, não gostei das suas declarações. Manifestou-se, claramente, ao lado do governo regional da Madeira. Ora, o Senhor Representante da República é o garante do normal funcionamento das instituições, não deve, por isso, ser laranja, rosa, vermelho, azul, amarelo ou de qualquer outra cor. Existe para exercer a sua magistratura de influência, competindo-lhe ouvir, ser conciliador e deve, por isso, constituir uma ponte de soluções entre a Madeira e a República por via do Senhor Presidente da República. Não posso aceitar, por exemplo, que venha "relativizar a dívida da Madeira" em claríssimo apoio ao governo regional, comparando-a com as empresas públicas ou com a dívida do Estado. Não me parecem sérias nem honestas tais comparações. Porque, a entrar por aí (que não deveria), para além de outras importantes variáveis, teria de dividir a dívida de lá por 10 milhões de habitantes e a daqui por 260.000. Ora, a dívida da Madeira é muito grave, uma parte dela foi escondida, o desemprego é crescente e ocupa a segunda pior posição no contexto nacional, a pobreza está sem controlo, o Governo da República não dá indicações de assumir qualquer solidariedade e face a tudo isto o Senhor Representante da República, naquela entrevista, tentou relativizar os problemas que são muito graves. Teria sido melhor o seu silêncio.
Não gostei, também, da sua posição relativamente à ausência do PND da ronda que o Representante fez após o acto eleitoral. Essa de dizer que "só fazem falta os que cá estão" não é de bom tom. E lembro que o PS, na sequência dos acontecimentos (ocupação) no Jornal da Madeira, esteve no Palácio para dialogar com o Representante da República. Essa audiência foi-lhe negada com a justificação que o Senhor Representante se encontrava numa reunião. Ora, tendo em consideração que para o Senhor Representante "só fazem falta os que cá estão", dir-se-á que o PS manifestou-se preocupado, mas não obteve qualquer resposta do Senhor Representante. O PS esteve e o Representante não!
A justificação agora dada é que não era assunto seu nem tinha meios para actuar. Esta desculpa esfarrapada não colhe, porque, no mínimo, era seu dever receber a delegação partidária, escutar, apreciar e, se esse fosse o caso, mostrar-se impotente para o resolver. Hoje, aqui o digo, que foi a situação mais delicada e mais frustrante de toda a minha participação activa no processo político. Aliás, porque tinha sido a segunda vez que tal acontecia. A um pedido de audiência solicitado pelo PS, antes do início da campanha eleitoral (e mesmo que tivesse sido em período de campanha), o Senhor Representante também não quis receber o PS. Pergunto, por que razão? Não serão situações destas que geram desconfiança política e alinhamentos de todo reprováveis?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

AINDA A QUESTÃO DO EMPOBRECIMENTO EM TEMPO DE ORÇAMENTO DE ESTADO


"Os senhores da aldeia global têm a sua própria agenda política e resistem a quaisquer mudanças económicas e sociais que não se ajustem aos seus interesses financeiros. Juntos, eles exercem um poder homogeneizante sobre as ideias, a cultura e comércio que afectam as maiores populações de que se tem conhecimento desde sempre. Nem César, nem Hitler, nem Roosevelt nem qualquer papa tiveram tanto poder como eles para moldar a informação da qual tantas pessoas dependem para tomar decisões sobre as mais variadas matérias: desde em quem votar até ao que comer". Eles processam, refinam e presidem à circulação de imagens e de informações que determinam as crenças e atitudes e, em última instância, o comportamento. E o povo é o culpado, e o povo é que tem de ser espezinhado e submetido às leis impostas pelo deus mercado?


Temos de empobrecer. Não sei se esta foi a frase dita pelo Primeiro-Ministro, mas o sentido foi aquele. Diariamente, aquela frase baila-me entre pensamentos e leituras que vou fazendo a esta versão do PREC (processo revolucionário em curso - 1974/75...) agora transformado em PEEC (processo de empobrecimento em curso). Empobrecer, dizem os estrategos desta tragédia da direita política nacional, porque, imagine-se, temos vivido e vivemos acima das nossas possibilidades. Isto é, todos nós estamos condenados a viver na pobreza. Todos nós, não é bem assim, pois que uma parte continuará a somar riqueza à riqueza acumulada sem que lhe toquem na riqueza. Muitas vezes uma riqueza mal explicada, de natureza especulativa, mas que se multiplica, é verdade. Não que tenha alguma coisa contra os ricos, desde que o consigam de forma honesta, através da criatividade, da inovação, do sentido de risco, da criação de postos de trabalho correctamente remunerados e paguem, atempadamente, os impostos. O que não aceito é que a esmagadora maioria, por maior que seja o seu esforço diário, não consiga atingir os patamares mínimos que possam garantir a estabilidade, o bem-estar, a educação e a saúde. E quando a maioria está mergulhada em água até ao pescoço, esbracejando em busca de uma bóia, em fase de pré-afogamento, o nosso primeiro, com a serenidade de um "anjo", diz-nos, laconicamente, que temos de empobrecer! Ainda mais...
Mas que culpa pode ser imputada à generalidade do povo? Que culpa terão os desgraçados pelos desmandos, pelos egoísmos, pela irresponsabilidade de quem tinha o dever político de governar e de regular todos os sistemas? Que culpa pode ser atribuída a uma esmagadora maioria, sem falar dos pensionistas, que ganha 400 a 600,00 Euros? E que culpa terão pela falência do BPN, entre outras? E, entre tantas e tantas situações gravosas, será que 1000,00 Euros, em função do custo de vida, das responsabilidades familiares, constitui um valor que possa ser subtraído nos subsídios de Natal e de férias, quando se sabe que tais subsídios, mor das vezes, se destinam a reequilibrar situações difíceis e acumuladas ao longo do ano? Ou terão sido os bancos, na ânsia gulosa da multiplicação dos lucros, face a um povo que não foi educado para o valor do dinheiro e para uma estável organização de vida, que convidaram a entrar na louca fantasia do desfrute hoje e pague amanhã? E que entidades políticas regularam a situação? E que contraponto foi feito? Então o povo, o povo mais pobre, é que tem de suportar os erros muito graves de um sistema global triturador? Ben H. Baddikian, citado por Jorge de Campos (1994), sublinha que "os senhores da aldeia global têm a sua própria agenda política e resistem a quaisquer mudanças económicas e sociais que não se ajustem aos seus interesses financeiros. Juntos, eles exercem um poder homogeneizante sobre as ideias, a cultura e comércio que afectam as maiores populações de que se tem conhecimento desde sempre. Nem César, nem Hitler, nem Roosevelt nem qualquer papa tiveram tanto poder como eles para moldar a informação da qual tantas pessoas dependem para tomar decisões sobre as mais variadas matérias: desde em quem votar até ao que comer". Eles processam, refinam e presidem à circulação de imagens e de informações que determinam as crenças e atitudes e, em última instância, o comportamento. E o povo é o culpado, e o povo é que tem de ser espezinhado e submetido às leis impostas pelo deus mercado?
É evidente que a situação está criada e face ao quadro internacional não há muitas escapatórias. Mas elas existem. O que seriamente me preocupa é a facilidade com que sacam o dinheiro ao povo pobre, sem que outras alternativas sejam procuradas. Ora, sou um intransigente defensor da paz e da estabilidade social. Acredito no diálogo, mas acredito também que há limites para o sofrimento. Otelo Saraiva de Carvalho falou ontem de limites que estão quase a ser ultrapassados, com todas as consequências que daí poderão resultar. Oxalá os políticos percebam isso e percebam que os sacrifícios estão a matar o povo, sobretudo aquele povo que não é culpado pelos erros dos outros. Tinha eu aí uns 14 anos e ouvia o meu pai, ironicamente, gozando o regime de então, dizer que "éramos um país em vias de desenvolvimento". Passaram-se quase 50 anos e continuamos no pântano.
Ilustração: Google Imagens.  

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"A AGRESSIVIDADE VEM DA IGNORÂNCIA"


Li e reli partes desta entrevista e projectei-a muito para além do contexto dos conflitos que um Embaixador tem de gerir quando os portugueses são apanhados em situações de conflito e de guerra onde trabalham. No exercício da política a "agressividade" muitas vezes também vem da "ignorância". A ausência de conhecimento, de estudo, a ambição desmedida, o egoísmo, a ausência das próprias limitações, os interesses pessoais em detrimento dos colectivos, conduzem, mor das vezes, a um sinal de intolerância e de agressividade que se explicam nessa ausência de conhecimento. É por isso que achei interessante a síntese do Dr. António Monteiro: "quanto mais se conhece mais se tolera. É preciso essa educação para perceber os outros".


Tenho tido essa felicidade e privilégio, enquanto português, pelo menos uma vez por ano, de sair da Região. Razão tinha Jorge de Sena (1968): "os portugueses deviam ser obrigados a viajar para fora das fronteiras nacionais. Não para chegarem a Paris ou a Bruxelas e aí se comprazerem numa tasca tipicamente portuguesa ouvindo fados e comendo sardinhas assadas. Mas para verem como era a Europa além fronteira e adquirirem assim a consciência real do povo que eram e do país que tinham". Li este excerto de uma entrevista à BBC, no livro de Leonel Cosme, Os Portugueses - Portugal a Descoberto".
Há dias, no regresso de Viena de Áustria, li, na revista de bordo, uma interessante entrevista ao Embaixador Dr. António Monteiro, carinhosamente apresentado como um profissional das viagens, julgo que assim estou a interpretar bem. A páginas tantas, dizia: "Viajar é sempre uma aprendizagem. E uma das grandes lições que tirei da minha vida profissional e das situações de conflito com que tive de lidar é que a agressividade vem da ignorância. Quanto mais se conhece mais se tolera. É preciso essa educação para perceber os outros". A posição de Jorge de Sena compagina-se com as do Embaixador António Monteiro. Por um lado, viajar, implica conhecer, meter o nariz em tudo ou quase tudo, de catedrais a museus, meter-se na idiossincrasia de um povo, na sua cultura, na estrutura social e não passar horas, por exemplo, em restaurantes comprazendo-se com actos gastronómicos (é verdade que também é cultura, mas não a essencial). Pessoalmente, prefiro entrar em um supermercado pegar em uma sandes, numa peça de fruta, numa água e toca a andar. Quando se opta pela viagem, sinónima de enriquecimento pessoal, damos razão a Jorge de Sena, esse notável poeta, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário. Complementarmente, vamos de encontro  à síntese do Embaixador António Monteiro, quando sublinha que a "agressividade vem da ignorância".
Li e reli partes desta entrevista e projectei-a muito para além do contexto dos conflitos que um Embaixador tem de gerir quando os portugueses são apanhados em situações de conflito e de guerra onde trabalham. Projectei-a no exercício da política onde a "agressividade" muitas vezes também provém da "ignorância". A ausência de conhecimento, de estudo, a ambição desmedida, o egoísmo, a ausência das próprias limitações, os interesses pessoais em detrimento dos colectivos, conduzem, mor das vezes, a um sinal de intolerância e de agressividade que se explicam nessa ausência de conhecimento. Achei, por isso, interessante a síntese do Dr. António Monteiro: "quanto mais se conhece mais se tolera. É preciso essa educação para perceber os outros".
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

JARDIM DÁ ORDENS PARA "EMAGRECER"!


A dita "ordem" de emagrecimento traz no seu bojo uma outra leitura, a de que existe muito desperdício na administração da coisa pública. E neste caso, pergunta-se, quem os permitiu? Quem deixou resvalar o actual quadro financeiro para níveis incomportáveis da Região? Só esta expressão "ordem de emagrecimento" acaba por ter o significado de despesismo assumido, de descontrolo, de irresponsabilidade e de ausência de um mínimo de rigor na gestão e administração do que é de todos.


Show-off do presidente do governo esta de dizer que deu ordem às várias secretarias para "emagrecer", leia-se cortar em tudo o que é supérfluo. Ora, nem precisava de emanar essa dita "ordem", porque todos sabem que o cofre está vazio, o governo de tanga ou melhor, de calças na mão para pagar milhares de facturas e os milhões que elas representam. Qualquer governante bem intencionado, responsável por um sector, sabe que o recurso financeiro é sempre escasso. E não precisava porque, de fora para dentro, vão dizer-lhe como é que tudo se processará nos próximos anos. Aliás, de três em três meses, andarão por aí uns senhores para fiscalizar as continhas. Aquele que, durante anos, bateu forte e feio nos governantes do País, no essencial, fez o mesmo e será fiscalizado. Neste processo, nem a Assembleia Legislativa, enquanto primeiro órgão de governo, terá qualquer intervenção. Se antes não fiscalizava nada, agora, muito menos. Nem sei, com a perda de Autonomia, para que servirá a Assembleia no quadro da sua responsabilidade política fiscalizadora dos actos da governação. Mas essa é outra história que ficará para depois.
Ora, mas esta dita "ordem" de emagrecimento traz no seu bojo uma outra leitura, a de que existe muito desperdício e ausência de prioridades na administração da coisa pública. E neste caso, pergunta-se, quem os permitiu? Quem deixou resvalar o actual quadro financeiro para os níveis incomportáveis da Região? Só esta expressão "ordem de emagrecimento" acaba por ter o significado de despesismo assumido, de descontrolo, de irresponsabilidade e de ausência de um mínimo de rigor na gestão e administração do que é de todos. Se, politicamente, o responsável por esta situação deveria ser exemplarmente punido nas urnas, pois é assim em qualquer democracia consolidada e adulta, em regimes democráticos, claro, há em tudo isto um crime (ou muitos) por utilização indevida dos bens públicos. Se ninguém deveria passar incólume à prepotência, julgada em acto eleitoral, no que diz respeito aos bens públicos de todos, aí, outra leitura deveria ser feita, da mesma forma que um cidadão anónimo, não cumpridor das regras de conduta, acaba por ter problemas com a Justiça. O caso da Madeira é, do meu ponto de vista, também um caso de Justiça. Eu bem espero que o processo em averiguação na Procuradoria Geral da República esclareça e defenda, para o futuro, os madeirenses que, de resto, não poderão ficar sujeitos a políticos que se servem do poder. Refiro-me, exclusivamente, à tresloucada utilização dos financiamentos públicos para actividades e projectos megalómanos e à inaceitável ocultação das contas públicas. Mas, a Justiça funcionará? E que consequências determinará? Novas eleições?
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

EM REFLEXÃO...


Ora, ele está em reflexão. Pois bem, que chegue à conclusão que não foi o inimigo externo o culpado, não foi a Lei das Finanças Regionais a culpada, não foram os bancos, que lhe cortaram o crédito, os culpados, não foi a Constituição da República a culpada, mas as suas políticas absolutamente loucas porque desajustadas da dimensão de uma Região que deveria crescer e se desenvolver de forma equilibrada e sustentável. Que ele chegue à conclusão que deve um pedido de desculpas ao povo da Madeira.


O homem que conduziu a Madeira ao desastre disse estar em "reflexão". Eu julgo que precisa de uns dias de reflexão que conduzam a um acto de contrição. Reflexão por ter apostado, apenas, na sua sucessiva reeleição; reflexão pela dívida que acumulou e que escondeu; reflexão pelo controlo de toda a sociedade; reflexão pelo desastre económico, financeiro, social e cultural das suas políticas e reflexão pelas subtis perseguições que fez ou que o sistema se encarregou de operacionalizar ao longo de muitos anos. A prateleira está cheia de homens e mulheres que não se vergaram. Exactamente, este homem deve reflectir profundamente no que fez e no que não permitiu que se fizesse. E deve pedir perdão aos madeirenses e porto-santenses pelo sufoco que gerou nas famílias e no aperto que ultrapassará o limite das possibilidades de cada um na sequência das suas tresloucadas medidas.
Ele fala de obras e eu falo de pobreza e de desemprego. Ele fala do Continente e eu falo da Madeira AUTÓNOMA que tem órgãos de governo próprio e um orçamento próprio. Ele fala do "inimigo externo" e eu falo de um grupo e de um "chefe" que não soube ser equilibrado, que gastou tudo apenas por ambição política. Conservou-se no poder, é certo, mas destruiu a sociedade, empobreceu as famílias, deu cabo do tecido empresarial e matou, por uns tempos, a Autonomia que tanto custou a conquistar. De que servem agora os mamarrachos construídos e inaugurados com pompa e circunstância? De que serve o cimento lançado por toda a Região, tornando-a toda igual, destruindo a identidade de locais que deveriam ser preservados? Quem vai pagar a manutenção e o funcionamento de centenas de infraestruturas desajustadas dos princípios de um desenvolvimento sustentável? Eu sei, o povo, claro, o povo pagará, com o seu magro bolso e com a sua quase infinita paciência. Eu disse quase, porque aquilo que se sabia e que a última campanha eleitoral traduziu em palavras é que os madeirenses vão ser esmagados por culpa de um homem e de um partido. E esse povo naturalmente que se revoltará. Não há outros responsáveis neste processo. Não é a oposição nem a República.
A Madeira, com 260 mil habitantes, é inferior em população a muitos concelhos do país. Apenas tem a dignidade de Região Autónoma. E, por isso, teve aqui uma Assembleia, um Governo, directores regionais, directores de serviço, chefes de divisão, institutos, sociedades de desenvolvimento, empresas públicas, dinheiro europeu e nacional, eu sei lá, dispôs, organizacionalmente, de um "Estado" dentro de um Estado. Então esta gente não tem de ser responsabilizada política e até criminalmente? Eu não tenho dúvidas sobre esta matéria. Se alguém fizesse na sua vida privada o que faz na vida pública estaria hoje preso. Não teria quaisquer hipóteses de fugir à Lei.
Ora, ele está em reflexão. Pois bem, que chegue à conclusão que não foi o inimigo externo o culpado, não foi a Lei das Finanças Regionais a culpada, não foram os bancos, que lhe cortaram o crédito, os culpados, não foi a Constituição da República a culpada, mas as suas políticas absolutamente loucas porque desajustadas da dimensão de uma Região que deveria crescer e se desenvolver de forma equilibrada e sustentável. Repito, que chegue à conclusão que deve um pedido de desculpas ao povo da Madeira. E, atenção, não pode demitir-se. Vai ter de aguentar, entre dentes, este osso duro de roer, porque ganhou as eleições com maioria absoluta, após uma campanha que terá custado alguns milhões. Lá mais para a frente, então sim, se não aguentar deverá sair e abrir portas a um novo acto eleitoral clarificador. E assumo isto por dois motivos: primeiro, porque a maioria da população eleitora não votou no PSD; segundo, não me parece legítimo que algumas margens se apresentem a aproveitar situações políticas, face a um povo que votou enganado no dia 9 de Outubro. Um povo que não teve o conhecimento prévio e exacto da situação.
Dentro de algumas semanas ou, se calhar, dias, tudo ficará mais claro. Aguardemos.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

CARNAVAL, NA POLÍTICA, NÃO, OBRIGADO!


Se existem, neste momento, diferenças, correspondem, certamente, a pequenos detalhes. Ora, isto significa uma de duas coisas: ou o poder cega ou, na verdade, o povo acaba por ter razão quando diz que são todos iguais. Decididamente, não embarco nessa promíscua e interesseira forma de ver e de participar na política.


Nunca gostei de disfarces, nem no Carnaval alguma vez saí. Nunca me disfarcei porque nunca achei piada na interpretação daquilo que não sou. Simplesmente respeito quem o faça. Sou assim em época carnavalesca e sou assim na política, obviamente.
E isto a propósito do que por aí vou assistindo, na política, claro, com jogos, máscaras, alianças espúrias, declarações pouco cuidadas, em uma confusão de princípios e de valores que me deixam, não digo perplexo, mas com algum desânimo. Por aqui, obviamente, que se sabe como as coisas funcionam ou estão a funcionar, enfim..., mas acabo de folhear a revista FOCUS desta semana e detive-me em duas entrevistas: uma com o Dr. Paulo Portas (CDS/PP), outra com o Dr. Sérgio Sousa Pinto, ex-líder da Juventude Socialista e com dez anos de Deputado ao Parlamento Europeu (PS). Na página 22, leio: "CDS e PSD deviam fazer programa conjunto", assume o Dr. Paulo Portas; quatro páginas à frente, leio: "PSD é o parceiro natural do PS". Quem lê estes títulos que correspondem ao essencial das declarações, fica, desde logo, com a ideia de que, do CDS ao PS, passando pelo PSD, se existem, neste momento, diferenças, correspondem, certamente, a pequenos detalhes. Ora, isto significa uma de duas coisas: ou o poder cega ou, na verdade, o povo acaba por ter razão quando diz que são todos iguais. Decididamente, não embarco nessa promíscua e interesseira forma de ver e de participar na política.
O exercício da política tem, obrigatoriamente, de ser balizado por valores e o que está a acontecer é que todos estão a vender o mesmo produto. Todos falam dos pobrezinhos, dos desempregados e das empresas, o que fazem depois de uma eventual chegada ao poder, bom, isso fica para depois! Ora, numa altura que todos nós precisamos de referências, de caminhos que assegurem a diferença, numa altura onde há necessidade de definir campos de actuação geradores de confiança, parece-me óbvio que este tipo de actuação política não ajuda nada.
Uma coisa é, após umas eleições, em função da composição da Assembleia, seja ela qual for, no superior interesse do País ou da Região no estrito campo da governabilidade, assegurar acordos que conduzam à estabilidade governativa; outra é, antes de qualquer eleição, fazer da política um exercício de pesca à linha, como se fossemos todos gémeos no fácies e na roupa que vestimos. Eu não sou, que fique claro, e nesse barco não entro.
Sou partidário, defendo bandeiras e por elas me bato no Parlamento, embora tenha, no plano pessoal, a maior consideração, profundo respeito e amizade por todos os elementos da oposição e muitos, até, da maioria. Todavia, com as convicções não brinco. Os meus princípios e valores são da esquerda política e com esses, repito, não brinco.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A HORA É DE MUDANÇA


Cheira a ditadura legitimada pelo voto. Cheira a Senhorio face aos colonos. Cheira a nobreza, clero e o povo que se amanhe. Cheira a corrupção de princípios, de valores e gestão permanente das mentes. Já não há pachorra para os aturar, na sua "omnipresença" em tudo o que organismo público e privado, no seu ar de peito inchado, na forma arrogante como se comportam, naquele olhar de cima para baixo portador da verdade inquestionável.

Acabo de ler uma "carta do leitor", muito interessante, da autoria do Padre Martins Junior, subordinada ao título "4-44 Angola, Moçambique, Egito, Madeira". Vale a pena ler, à luz da História, dos actos dos Homens e das coincidências das datas. Deixo aqui um excerto que corresponde à parte final da carta:
"(...) Felizmente que neste 4 de Fevereiro, o Dia D, (da "Despedida") os egípcios reclamam a maravilhosa manhã do seu "25 de Abril", levantando na Praça da sua Liberdade, Tahrir; o pregão de uma vitória anunciada:"Vai-te embora Faraó, o nosso deus é o Sol". Com eles, os africanos já descobriram a síndrome dos 30 anos de poder:"Chega, vai-te embora!" É o Egipto, é o Iémen, é  a Tunísia, outros virão. Trauteando a canção, diria  Sérgio Godinho: "E a Madeira aqui tão perto". 4 de Fevereiro de múltiplos aniversários, um dia "fixe" para pensar em ser livre e ser pacífico!"
Tenho por assumido que há ventos de mudança um pouco por todo o lado. É sensível o seu crescimento. Pelas mais variadas razões, umas mais evidentes, que ressaltam aos olhos de qualquer pessoa que vive e sente os desequilíbrios sociais, outras, menos observáveis mas que lá se encontram, no domínio económico, geo-político, religioso, enfim, por uma extensa panóplia de factores, a verdade é que o Povo, sentindo que lhes estão a pisar os calos, como soe dizer-se, está a assumir que basta de espezinhamento e que deseja ver cumpridos os Direitos do Homem. A Europa dá sinais, ainda que ténues, dessa preocupação. Como escreveu o Dr. Mário Soares, no seu último artigo no DN-Lisboa, "a União Europeia, sem o desejar, está a mudar de paradigma de desenvolvimento".
Por razões diferentes, mas também preocupantes, a Madeira não pode manter um poder, praticamente centrado na mesma pessoa, já lá vão 35 anos. Cheira a ditadura legitimada pelo voto. Cheira a Senhorio face aos colonos. Cheira a nobreza, clero e o povo que se amanhe. Cheira a corrupção de princípios, de valores e gestão permanente das mentes.
Já não há pachorra para os aturar, na sua "omnipresença" em tudo o que organismo público e privado, no seu ar de peito inchado, na forma arrogante como se comportam, naquele olhar de cima para baixo portador da verdade inquestionável. Já não há pachorra para suportar a teia de interesses, os erros de governação, os erros estratégicos e as dívidas que afogam o presente e comprometem o futuro. Já não há pachorra para suportar a mentira, o disfarce político-carnavalesco, como se não fosse importante o agravamento da dívida, em 2009, em 37,6%, a qual, neste momento, é substancialmente superior. Não há pachorra ver uma população enganada, que não sabe onde está metida e que continua a carregar a cruz com uma quase infindável paciência. Só que a paciência também se esgota e lá vem o dia e temos um quadro egípcio pela frente! Há que evitá-lo com uma transição política rápida mas serena. Gostaria que assim fosse, porque o Mundo é feito de mudança - escreveu Camões.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O "VELHO" INCAPAZ DE GERAR O NOVO


E o que a Região precisa não é de correcções marginais, antes necessita de mudanças profundas, sensatas, escalonadas no tempo, através de novas políticas que só outros políticos o poderão fazer com eficácia. Maquilhar não chega, pois retirando-a fica a realidade. A História dos processos políticos diz-nos que não são possíveis mudanças através do mesmo quadro ideológico, fundamentalmente porque as pessoas seguem posicionamentos idênticos, ficam amarradas pela mentalidade, pelos interesses e pelas pressões. As mudanças operam-se sempre de fora para dentro, porque é aí que reside a inovação, a criatividade e o entusiasmo pela transformação.

Fazer crescer a planta da alternativa política
A Região Autónoma da Madeira encontra-se, todos sabem, portanto, não constitui novidade para ninguém, pelo menos para aqueles que acompanham o dia-a-dia político, numa situação de eminente catástrofe social. Já aqui equacionei um conjunto de preocupações na sequência das leituras que faço aos indicadores sociais.
Tais indicadores são a consequência de anos a fio de uma política megalómana, contrária e desproporcional à realidade e ao sentido dos princípios que devem nortear o desenvolvimento. Pelo menos estes: o da responsabilidade do Estado, o da teleologia funcional, o da auto-determinação, o da prioridade estrutural, o da auto-sustentação, o da transformação graduada, o da continuidade funcional, o da interacção e da integração, o da flexibilidade, o da optimização dos meios e o da participação. Todos estes princípios foram subvertidos ou esquecidos em todos os sectores que sustentam o desenvolvimento e, portanto, o resultado é aquele que temos aí. Ignoraram que o desenvolvimento integra três dimensões inter-relacionadas: a Económica, ligada à produção e distribuição dos bens; a Social, que tem a ver com as condições de vida e com as desigualdades; e a Cultural, ligada, fundamentalmente, ao património num sentido lato do termo.
E quem assim não soube interpretar o desenvolvimento, parece-me óbvio que não está em condições de arquitectar e de operacionalizar outras respostas que não aquelas que temos vindo a assistir. Há trinta e tal anos que o registo é sempre o mesmo, daí que não se possa esperar novos caminhos de quem apenas sabe repetir o passado, apenas com alguns "acertos" meramente marginais, quer ao nível dos conceitos quer ao nível dos actores políticos desses conceitos.
E o que a Região precisa não é de correcções marginais, antes necessita de mudanças profundas, sensatas, escalonadas no tempo, através de novas políticas que só outros políticos o poderão fazer com eficácia. Maquilhar não chega, pois retirando-a fica a realidade. A História dos processos políticos diz-nos que não são possíveis mudanças através do mesmo quadro ideológico, fundamentalmente porque as pessoas seguem posicionamentos idênticos, ficam amarradas pela mentalidade, pelos interesses e pelas pressões. As mudanças operam-se sempre de fora para dentro, porque é aí que reside a inovação, a criatividade e o entusiasmo pela transformação. Quem está por dentro acomoda-se, ganha raízes, deixa andar, desenvolve mecanismos da sua afirmação pessoal e de grupo, enreda-se em laços e compromissos e, portanto, fica sem hipóteses de gerar o novo portador de futuro.
Charles Handy explica-nos isso através da Curva Sigmóide. Dir-se-á que o PSD-Madeira (e o seu governo) passou pela fase de implantação, cresceu, maturou e encontra-se, hoje, na zona de turbulência (entre A e B), onde os seus processos já não respondem aos problemas com os quais se confronta. A saída para este quadro político está na construção de uma nova Curva Sigmóide (alternativa política) sob pena de declínio e morte para a qual arrastará todos os madeirenses e porto-santenses.
Ilustração: Google Imagens (1)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A MUDANÇA NECESSÁRIA


Consigo, caro leitor, (em particular, claro) em cinco minutos, descrever uma possível equipa de governo do PS. Competir-lhe-ia, secretaria a secretaria regional, verificar, a partir do conhecimento existente, se, com muita qualidade, a alternativa existe ou não. Sabe, as ilhas já existem há 500 anos (de forma habitada), todos os seus líderes morreram e a vida continuou, sempre para melhor!

Um visitante deste meu blogue, a propósito de MUDANÇA POLÍTICA e das propostas que o PS tem vindo a apresentar, no quadro da construção de uma alternativa, deixou um interessante comentário:
"Sabe qual é o seu problema? É que orienta as suas opiniões contra o PSD regional, mas o seu PS nacional faz o mesmo ou pior... A garantia que um PS regional faria o que defende, se no poder, é zero. A sua luta até seria aceitável e válida, mas sempre fora dos partidos. Ou no mínimo, num partido sem ambições governativas onde se pode ser demagógico à vontade pois nunca terá que provar que aplica o que defende.
Dentro de um partido com ambições de ser poder as suas lutas soam a falso e de pouco valem. E têm o efeito contrário do que pretende. Menos votos. Pois os seus camaradas, quando (no) poder fazem o contrário".
Por outro lado, ao contrário do que o leitor assume, não há luta política, quando se fala de opções governativas fora dos partidos. Os movimentos cívicos são indiscutivelmente importantes, mas o nosso quadro político é pautado pela existência de partidos. E é com eles que temos de viver, conviver e decidir.
Considerei interessante porque permite várias leituras. Desde logo, parece-me óbvio que a leitura que emerge está profundamente marcada por um sentido partidário, que eu respeito, mas que não se coaduna com a realidade, tampouco com os fundamentos da vivência democrática. Repito, respeito todos os partidos e todas as opções. Os partidos, note-se bem, enquanto instituições e as pessoas que neles militam ou são meros simpatizantes. Isto para dizer que não oriento as minhas posições contra o PSD enquanto instituição. Entendo é que a sua práxis política, depois de trinta e quatro anos consecutivos, já deu tudo quanto tinha para dar. Revejo-me em outros princípios orientadores que me fizeram socialista. E o que vejo que o PSD está acorrentado aos interesses que ele próprio gerou e o próprio presidente é, hoje, refém desses interesses. E a Sociedade, por múltiplas razões, exige a mudança. Nascemos para sermos ivres e não meros pivots de uma estratégia.
Aliás, são os diversos indicadores sociais que testemunham a necessidade de mudança. Já aqui escrevi que, por princípio, rejeito mais do que dois mandatos. Um terceiro só deve ser concedido quando existe um claro vazio alternativo de poder. O que, valha a verdade, não é o caso. Desde há muitos anos que são apresentadas excelentes equipas, quer para as autarquias quer para o governo, e todas elas, salvo raras excepções, perdem os combates eleitorais. Perguntar-se-á, porque razão? São muitas, obviamente. São razões de natureza cultural, de ausência de participação política directa ou indirecta por parte da população, de formação escolar que desperte para a Liberdade responsável, razões de constrangimento político, subtil ou descarado, mas intencionalmente criado através de uma rede onde todo o associativismo está controlado, é o domínio do dinheiro que tudo subverte, é o desvio de milhões para a propaganda (um dos casos é o do Jornal da Madeira) que conduz a que as pessoas não tenham, por medo, repito, por medo, opinião, enfim, são muitas as variáveis deste complexo jogo.
Isto também para dizer que as pessoas, em função do comentário feito, não são todas iguais. O PS-Madeira, por exemplo, tem autonomia estatutária e veja-se, por exemplo, o que se passa nos Açores em determinados domínios do desenvolvimento. São realidades completamente diferentes, dir-se-á, porque existem culturas democráticas também distintas. O que não me parece correcto afirmar é que existe demagogia da minha parte quando escrevo seja lá o que for, animado pelas minhas convicções. Pelo contrário, tento, com a minha experiência e leitura da Região, do País e do Mundo, caminhar num sentido que me parece mais justo e mais consistente relativamente ao crescimento e desenvolvimento das populações, neste nosso caso, dos madeirenses e porto-santenses.
Ora, aceitar a posição do leitor como válida, obviamente, que teríamos de partir do princípio que nunca existiria alternativa, o que não é, de todo, um bom caminho. A Democracia exige inovação, criatividade, pessoas que tragam novas ideias que pela sua consistência transformem, localmente, a vida das pessoas. É esse o meu objectivo e se me conhecesse bem veria que assim é!
É por isso que reafirmo que a Madeira precisa, urgentemente, de mudar de actores políticos. Consigo, caro leitor, (em particular, claro) em cinco minutos, descrever uma equipa de governo do PS. Competir-lhe-ia, secretaria a secretaria regional, verificar, a partir do conhecimento existente, se, com muita qualidade, a alternativa existe ou não. Sabe, as ilhas já existem há 500 anos (de forma habitada), todos os seus líderes morreram e a vida continuou, sempre para melhor!
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

POLÍTICOS DOENTES OU A DOENÇA DA POLÍTICA!


A podridão está aqui instalada, com muitas mãos sujas, com muita gente que, durante três dezenas de anos apregoaram a felicidade e, olhando hoje para os resultados, o que é sensível é que os mesmos geraram uma sociedade infeliz, pobre, dependente, desequilibrada, que carrega a Cruz porque foi obrigada a suportá-la através das falinhas mansas, dos discursos de poder e de medo, dos discursos redutores e, algumas vezes, miseráveis, contra todos quantos têm uma leitura diferente da condução dos actos políticos.

Assiste-se a um fortíssimo ataque aos políticos. Ainda esta manhã ouvi comentários oriundos do povo, num desses programas de antena aberta, muito causticos para o comportamento dos agentes políticos. Não deixa de ser verdade, embora seja muito preocupante, que os políticos, sobretudo os de primeira linha, têm vindo a colocar-se a jeito. As atitudes públicas, a mentira sofisticada, envolvida em papel celofane colorido, o ar convincente das palavras que não se conjugam com a dramática realidade vivenciada pelas pessoas, a ofensa, os interesses, os alegados negócios, a promiscuidade entre a actividade política e a actividade privada, enfim, coexiste aqui um explosivo mix que leva as pessoas a reagirem, a desabafarem e a carregarem sobre os detentores de cargos ou funções de natureza política. Quem se sente apertado, constrangido, com enormes dificuldades de viver a vida a que têm direito e que por ela lutaram ou lutam, obviamente, que descarregam e com razão face a muita podridão que por aí acontece.
É evidente que olho para a conjuntura internacional e olho, também, para a conjuntura nacional, todavia, não me conformo, isso não, com esta conjuntura regional. Eu diria, por razões autonómicas e do que daí deriva em termos de órgãos de governo próprio. A podridão está aqui instalada, com muitas mãos sujas, com muita gente que, durante três dezenas de anos apregoaram a felicidade e, olhando hoje para os resultados, o que é sensível é que os mesmos geraram uma sociedade infeliz, pobre, dependente, desequilibrada, que carrega a Cruz porque foi obrigada a suportá-la através das falinhas mansas, dos discursos de poder e de medo, dos discursos redutores e, algumas vezes, miseráveis, contra todos quantos têm uma leitura diferente da condução dos actos políticos.
Os serventuários do regime atacam por um lado (eu fui um dos visados, há relativamente pouco tempo), incute-se o medo através das queixas em Tribunal (o caso Dr. Raimundo Quintal, ainda ontem, foi um dos que estavam em linha de mira) e ouvi, também ontem, o Senhor Presidente da Assembleia Legislativa, em uma peça transmitida pela RTP-Madeira, cujo enquadramento e justificação não percebi, falar de "políticos doentes" e que há que ter "paciência" e não "contrariar". Bom, não sei se estaria a referir-se a Deputados que sugerem a abertura de um hospital psiquiátrico, aos deputados que "dormem", aos deputados que chumbam propostas de relevante interesse económico-social ou de um alto responsável que passou um dia na Assembleia a gesticular e a interromper com desprestigiantes "bocas" o que outros diziam, terminando a sua infeliz presença com um discurso digno de constar do anedotário político regional. Todas as interpretações são possíveis. Admito, no entanto, que a peça da RTP-Madeira que escutei constitua um excerto descontextualizado de uma ideia maior. Mas foi isto que passou. Quero eu dizer com estes exemplos, ao correr do pensamento, que os políticos estão a colocar-se a jeito para a crítica. Políticos a quem lhes falta humildade, políticos que não olham a meios, políticos mal formados do ponto de vista da Democracia, dos princípios e dos valores da vida, políticos de altos decibéis mas de duvidosa competência, políticos que julgam ter toda a verdade, quando apenas têm a sua e mal fundamentada. 
E a procissão ainda não está no adro. Depois das Presidenciais, lá para Fevereiro, as baterias vão começar a disparar, em que sentido e com que efeito, logo se verá. Mas, presumo, que nada de bom vem por aí. Há muita "folha feita", sobre pessoas e instituições, por isso, oxalá que o Povo saiba fazer a destrinça entre o essencial e o acessório.
Ilustração: Google Imagens. 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O MANUAL DE ACÇÃO PSICOLÓGICA E A EXPERIÊNCIA DA GUERRA


Não convivo com a hipocrisia, com a mentira, com os falsos pregadores, com os espezinhamentos que começam na família e acabam no teatro das operações sociais, não convivo com o reles, baixo, acintoso, malcriado e até, perdoem-me a palavra, nojento. Não é esse o meu espaço de compromisso pessoal com a sociedade. Nunca foi.

A artilharia das palavras
Assim vai a cultura democrática na Região. Tudo parece normal, espontâneo, de dentro para fora, mas não, por detrás das atitudes infâmes, doentias, algumas com traços esquizofrénicos, alguma coisa se está a passar. E o que se passa tem, penso eu, duas causas: por um lado, um poder em queda e a resposta desesperada e, por isso, desajeitada; por outro, a solta de cães, o avanço dos buldozers, a artilharia pesada a abrir caminho à infantaria que se prepara para o "combate" do próximo ano. E nisto, de estratégia, convenhamos, muito sabem alguns desses pregadores. São trinta e tal anos, por montes e vales, cidades e sítios a lançar a semente. E quem se predispuzer a acompanhar a situação com alguma cuidado, cruzando as declarações produzidas, parecendo desconjuntadas, elas não são nem estão. As declarações compaginam-se, fazem parte de uma estratégia pensada ao pormenor, como se de um jogo de xadrez se tratasse. E isto percorre os diversos sectores da governação até às instituições, estratégia que começa, em muitos casos, com o levantamento da "folha de cada um" como soe dizer-se, bem à moda de uma "pide boazinha", para atacar, ferozmente, abrindo caminho à tal infantaria eleitoral. Preparam o terreno levando tudo pela frente. E neste acto masturbatório de garganta, vale tudo, a ofensa, a calúnia, a lama, a porcaria lançada sobre o bom nome de pessoas e das instituições. Saltam de todos os lados, mentalmente desengonçados, é verdade, mas firmes nos propósitos, na ajuda a quem lhes garante ajuda. Ao fim e ao cabo, seguem mais ou menos a mesma linha de um slogan que li há já alguns anos: "ajudei, ajudem-me". Julgo que era assim ou muito próximo disso. E os actores desta farsa sentem-se bem neste processo, a interpretar este papel num palco corroído pelo caruncho e com vestes a cheirar a naftalina. Devem ganhar muito com isso, a que níveis(?) apenas imagino, mas perdem, claramente, nos princípios e nos valores, na honestidade, na verticalidade, na noção de homens bons que a sociedade acaba, tarde ou cedo, por os classificar.
Saber gerir o silêncio!
Há um podridão instalada na nossa sociedade. A podridão dos interesses que geram um cheiro nauseabundo a partir da torrente de palavras e declarações provocadoras de vómito, e se é isso que sinto e, por isso escrevo, é porque não convivo bem com a malidicência, com o ataque à pessoa e não à estrutura de pensamento da pessoa. Não convivo com a hipocrisia, com a mentira, com os falsos pregadores, com os espezinhamentos que começam na família e acabam no teatro das operações sociais, não convivo com o reles, baixo, acintoso, malcriado e até, perdoem-me a palavra, nojento. Não é esse o meu espaço de compromisso pessoal com a sociedade, enquanto por aqui andar. Nunca foi. O que penso não constitui uma bíblia, apenas reflexões, ou melhor, contributos para uma sociedade melhor.
Há uma coisa que a vida me ensinou: saber gerir o silêncio acaba por ser tão ou mais importante quanto a permanência da voz portadora de mensagens.  Porque voltando à metáfora sobre o avanço dos buldozers (serventuários) e da artilharia pesada (das palavras) a abrir caminho à infantaria, a conquista do terreno pode não ser tão fácil como alguns desejam, porque é sempre possível a emboscada no momento próprio. O Povo já demonstrou que a sabe fazer. Enquanto um diz ou parece que leu o manual de acção psicológica, eu estive na guerra durante dois anos e, no mato, combati. E a teoria sem prática não resulta em pleno. Muito menos na sociedade. A ver vamos!
Ilustração: Google imagens.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NÓS GOVERNAMOS E VOCÊS PAGAM A FACTURA



O Senhor Vice-Presidente não veio falar da necessidade de acabar com tanto desperdício, com tanto esbanjamento nas Sociedades de Desenvolvimento e nas empresas públicas falidas, no descontrolo orçamental das autarquias, nas obras que não trouxeram retorno económico e social, em todos os elefantes brancos construídos e que, infelizmente, não se reduzem, apenas, à marina do Lugar de Baixo, no rio de dinheiro que corre para o Jornal da Madeira e para um futebol falido.

Não é a Educação e a Saúde
que estão em causa,
mas o estoiro nas contas públicas.
Nada de estranho nem de novo nas posições do Senhor Vice-Presidente do Governo no que concerne ao pagamento de parte ou de todas as despesas com a Educação e com a Saúde. É a tecla que já há algum tempo anda a ser repetida. No essencial, o que ele uma vez mais transmitiu foi isto: nós governamos e vocês pagam a factura. Aliviados com o peso que esses dois sectores têm no Orçamento, nova euforia inauguracionista viria a caminho, com novas obras, novos encargos e aumento da dívida. Talvez, de permeio, o pagamento de algumas facturas da longa listagem de dívidas aos fornecedores que esperam e desesperam.
O Senhor Vice-Presidente não veio falar da necessidade de acabar com tanto desperdício, com tanto esbanjamento nas Sociedades de Desenvolvimento e nas empresas públicas falidas, no descontrolo orçamental das autarquias, nas obras que não trouxeram retorno económico e social, em todos os elefantes brancos construídos e que, infelizmente, não se reduzem, apenas, à marina do Lugar de Baixo, no rio de dinheiro que corre para o Jornal da Madeira e para um futebol falido.
Depois, sinceramente, há aqui uma coisa esquisita: tudo, mas tudo o que diz respeito à Segurança Social é pago, obviamente, por Lisboa. Nem um cêntimo sai do Orçamento Regional. Ao contrário da Região Autónoma dos Açores onde, em 2010, foram inscritos 24 milhões de euros para atender a complementos de pensão, abono de família e apoio medicamentoso. Tudo o que diz respeito aos serviços da República na Região, obviamente, uma vez mais, é pago por Lisboa. Não fazia sentido que assim não fosse.  Mais. Agora, querem a Educação e a Saúde, dentro em pouco será outro sector qualquer e, pergunto, o que é que fica sob a responsabilidade regional, quando os impostos aqui gerados aqui ficam? Isto é, ficam as receitas, mais o que é devido pelo Orçamento de Estado, mais os apoios europeus, mas no campo dos encargos, outros que paguem. Não me parece que isto seja racional. Até porque quem paga impõe, resvalando a Autonomia para uma desconfortável situação.
Ora bem, o que esta situação denuncia é uma clara angústia consequência dos loucos investimentos realizados, que têm de ser liquidados, angústia por outras contratualizações que estão em curso e, pior ainda, o que vem a caminho, a partir de 2012, com o pagamento da dívida à banca. Não é a Educação e a Saúde que têm de ser pagas pela República. Sai muito mais barato que o Povo entregue o governo desta terra a outras pessoas. Precisamos, isso sim, de uma mudança de governo, com novos actores, um governo capaz de inverter este terrível descontrolo, capaz de uma revisão total na despesa corrente, capaz de definir prioridades na obra pública, capaz de olhar para o tecido empresarial e capaz de rever, totalmente, o sistema organizacional da Administração Pública regional. O caminho é outro e não o apontado pelo Vice-Presidente.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 3 de outubro de 2010

E SOLUÇÕES? TANTAS... SÓ QUE NINGUÉM PARECE ESTAR INTERESSADO!


Se a Madeira tem um percurso de 36 anos políticos a partir dos quais, hoje, vemos, factualmente, terem sido "tresloucados", a culpa não tem sido da Oposição política. Alguém governou, alguém teve essa responsabilidade, alguém construiu o monstro da dívida pública, alguém, com as suas políticas, fez aumentar os gravosos números da pobreza e do desemprego, alguém colocou em falência os sectores da educação e da saúde, alguém está a deixar pelas costuras o ordenamento do território, alguém está a deixar os empresários em estado de angústia diária, alguém tem responsabilidades sobre a falência das sociedades de desenvolvimento e empresas públicas, alguém conduziu a Região a seis mil milhões de dívida, alguém não colocou no centro das prioridades a construção do Homem...


A demagogia é uma arma dos fracos. No grupo onde me insiro a palavra demagogia há muito que está expurgada do discurso político. Não costumamos brincar com assuntos muito sérios, não alinhamos em manobras relativamente fáceis susceptíveis de garantirem uma certa popularidade, um certo eco na sociedade, porém, insustentáveis e inconsequentes. Não é de agora, sublinho. Passei pela Assembleia entre 1996 e 2000 e já era assim. Nos últimos três anos, agora, com maior consistência técnica e política, sobretudo no vital sector da Economia, de onde tudo depende, sinto que a demagogia está bem longe. Pasmo, por isso, quando se fala de um "jogo que não interessa aos cidadãos". Que jogo, pergunto? O da luta diária, das reuniões diárias, das análises diárias, do testemunho diário oferecido através da comunicação social, da luta contra a ofensa e a má educação, dos projectos que se apresentam sabendo da sua imediata condenação? O da luta diária contra uma população anestesiada e condicionada por um polvo de enormes tentáculos? Poder-se-á designar esta luta "de mau gosto" (?), que há para aí quem se coloque em bicos de pés para retirar dividendos?. Por favor, basta, façam a crítica quando é justa e quando corresponde a uma análise factual, por desvios e oportunismos baratos.
Se a Madeira tem um percurso de 36 anos políticos a partir dos quais, hoje, vemos, factualmente, terem sido "tresloucados", a culpa não tem sido da Oposição política. Alguém governou, alguém teve essa responsabilidade, alguém construiu o monstro da dívida pública, alguém, com as suas políticas, fez aumentar os gravosos números da pobreza e do desemprego, alguém colocou em falência os sectores da educação e da saúde, alguém está a deixar pelas costuras o ordenamento do território, alguém está a deixar os empresários em estado de angústia diária, alguém tem responsabilidades sobre a falência das sociedades de desenvolvimento e empresas públicas, alguém conduziu a Região a seis mil milhões de dívida, alguém não colocou no centro das prioridades a construção do Homem, alguém foi responsável pela anestesia e pela concomitante incultura. Alguém, enfim, é responsável pelo estado a que a Região chegou. A Oposição e particularmente, o PS-M, tem um comportamento político "tresloucado"? Não é essa a minha opinião. É fácil dizê-lo mas não corresponde a uma análise honesta dos factos.
A Madeira tem um Governo Autónomo, tem uma Assembleia Legislativa, tem orçamento próprio e uma legião se servidores políticos. Em redor de um partido, por força dos interesses em jogo, congregaram vontades, ofereceram lugares, criaram as condições de funcionamento absoluto, desde o governo às autarquias, das casas do povo ao associativismo desportivo e cultural. E a Oposição é que é culpada? Culpada de quê? Dos milhões desperdiçados, enterrados em obras sem retorno económico e social?
Sinceramente, pela amizade que tenho por muitos, gostaria de ver alguns, deste lado, em qualquer dos quadrantes políticos, durante apenas um mês, tipo estágio profissional, a participar em um "brainstorming" para perceberem como se elaboram as propostas, como são discutidas e, mais tarde, como são, liminarmente, chumbadas.
No presente quadro não há qualquer desvio de atenções relativamente às medidas de austeridade enunciadas pelo governo da República. Não alinho nessa visão do problema. Através da AUTONOMIA as políticas de governo decidem-se aqui. Somos nós, madeirenses e porto-santenses, através de um governo em legítimas funções, que temos de traçar o futuro colectivo. Não são os outros. Não é o Terreiro do Paço que vai definir tal construção. A AUTONOMIA só tem significado e valor político quando marca a diferença. E foi, por isso, independentemente, de tantas propostas feitas ao longo do tempo, que foi questionado pelo Deputado Carlos Pereira se o governo, no âmbito das suas responsabilidades...
01) Vai congelar carreiras da administração pública? Ou, em alternativa vai utilizar os poderes autonómicos para diferenciar positivamente os madeirenses?
02) Vai aplicar a descida de salários ou introduzir mudanças nesta matéria com aplicação do subsídio de insularidade diferenciador?
03) Vai assumir o corte nas prestações sociais sem qualquer pacote complementar que acuda os mais desfavorecidos, sejam mais pobres, sejam desempregados?
04) Vai implementar a mais que necessária reforma na exploração do CINM?
05) Vai assumir que o PIB da RAM está empolado e que se torna urgente redefinir todo o processo de negociação com a UE em termos de pacote financeiro?
06) Vai promover os parâmetros de competitividade da economia madeirense contrabalançando o aumento do IVA com redução de impostos às empresas e famílias?
07) Vai suspender os investimentos sem prioridade?
08) Vai sair definitivamente do apoio ao desporto profissional apresentando alternativas mais consensuais e, sobretudo, menos onerosas?
09) Vai encerrar definitivamente todas as empresas tecnicamente falidas, garantindo a integração do pessoal na Administração Pública regional?
10) Vai estender aos municípios a regra de fechar o que é supérfluo e sem viabilidade?
11) Vai corrigir as concessões ruinosas para a RAM, ou com alteração de contrato ou com impostos especiais destinados a implementar um roteiro social adequado aos tempos que vivemos?
12) Vai proceder a mudanças urgentes nos transportes aéreos e marítimos de modo a reduzir preços e aumentar competitividade da economia e facilitar o acesso das famílias aos bens de consumo mais baratos?
13) Vai introduzir rigor, ponderação e contenção no desvario da despesa pública, designadamente reduzindo os gastos em transferências para empresas e institutos públicos, assim como reduzindo o esforço nas administrações?
14) Vai colocar um travão no endividamento insensato, designadamente aquele que não cria emprego nem acode a questões sociais?
Ora, é ao governo regional, no âmbito da AUTONOMIA político-administrativa, das suas responsabilidades estatutárias que deve uma resposta ao Povo da Região. Se existe siêncio não por parte do principal partido da Oposição, mas do próprio governo. Talvez, uma ida à Escócia e a um casamento sejam mais importantes!
Ao lermos aquelas catorze questões, compaginadas com tantas outras propostas nos âmbitos da Economia, da Educação, da Saúde e Assuntos Sociais, das Empresas, enfim, em todos os sectores, áreas e domínios da governação, se concluirá do manancial de propostas que, de todo, não se enquadram na "demagogia inconsequente". Às vezes torna-se mais complexo digerir certas leituras menos felizes do que gerir o dia-a-dia político. Mas, enfim, é esta terra onde vivemos e é nela que devemos continuar a luta por uma sociedade mais justa e fraterna, mais culta e mais feliz.
Ilustração: Google Imagens.