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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"O BES E O PINGO QUE NÃO PINGA"


Não será preciso muito para se chegar à conclusão de que a culpa é do Governo e que tudo o resto, se não é paisagem, é quase. Ou, melhor, que a culpa é do Governo e das instituições políticas europeias. Ou, ainda melhor, que a culpa é de uma ideia que ainda governa parte da Europa e, em particular, este desgraçado país. 


E essa ideia tem uma origem e um nome, bem mostrados no vídeo publicado no post anterior a este. A origem está nos tempos de Bush II e o nome é trickle down economics (a economia do pingo). Trata-se da tese segundo a qual os grandes devem ter tudo pois, ao terem tudo, deixam pingar recursos para baixo, para o resto da economia. Se não forem tributados, se puderem amassar o máximo de massa possível, acumularão recursos que depois serão largados na economia. Uma ideia com tudo de falso, que esteve nas mentes da troika e do governo por ela assessorado, e que permitiu a Ricardo Salgado andar de um lado para outro sem que ninguém o incomodasse. É importante notar que essa ideia tem muitos apoiantes entre jornalistas, "economistas" (as aspas é que nem todos o são, verdadeiramente) e fazedores de opinião. A guerra civil entre privado e Estado, por essa gente alimentada, é um dos seus reflexos. Portugal precisa de mais senso, e mais senso passa por pôr a malta do dinheiro no seu devido lugar. Os bem comportados agradecem. Coisa que só os governos podem fazer e em que o presente Governo português, escondido, claramente, não está interessado. Para resolver o problema de fundo será preciso expulsar aquela brilhante ideia. Para tal, aconselham-se, talvez, reuniões estratégicas nos locais de trabalho por ela mais afectados.
Ilustração: Google Imagens.
Nota: retirado do blogue do Doutor Pedro Lains. (aqui)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

OS FRETES E FALÁCIAS DA OCDE


A OCDE enviou uma equipa a Portugal para repetir, mais uma vez, a narrativa ortodoxa em torno da crise e apoiar a continuação do programa austeritário. Sob uma capa de objectividade tecnocrática, o seu discurso limita-se a defender interesses particulares. São bons, há que reconhecê-lo. Ao ouvir as palavras à comunicação social portuguesa do Secretário Geral da OCDE, Angel Gurría, não há como não ficar impressionado com o grau de depuração retórica alcançado pelo campo austeritário na sua exposição das raízes da crise e do que é necessário fazer para ultrapassá-la. O que Gurría disse às televisões foi algo como isto: "Portugal perdeu competitividade porque os salários aumentaram mais do que a produtividade ao longo dos anos. Os países em que os salários aumentaram abaixo da produtividade, como a Alemanha, viram a sua competitividade reforçada. Portugal precisa por isso de continuar a garantir que a produtividade aumenta acima dos salários". Esta equipa da OCDE diz algumas outras coisas, tanto no relatório encomendado pelo Governo que ontem apresentou como nas declarações à comunicação social efectuadas no contexto dessa apresentação. A economia portuguesa está a virar a página, foram os ricos quem pagou a crise, a coesão social foi assegurada, o programa de ajustamento foi um sucesso e há que prosseguir o rumo. Em termos programáticos concretos, o destaque vai para a defesa da continuação do congelamento do salário mínimo e para a enunciação, pela enésima vez, do mantra do combate à rigidez do mercado de trabalho.


Vamos por partes.
O suposto sucesso do programa de ajustamento e o pretenso virar de página são a parte relativamente mais fácil e menos interessante de rebater, na medida em que são realmente do reino do pensamento mágico. A dívida pública nunca foi tão elevada como é hoje; a desalavancagem privada está quase toda por realizar; o emprego total é inferior em quase seis centenas de milhar face ao máximo anterior à crise e em quase trezentos mil em relação ao início do programa de ajustamento em 2011; o investimento encontra-se a níveis de há décadas atrás. O alívio parcial e temporário da austeridade por imposição constitucional nos últimos tempos permitiu suspender temporariamente a espiral recessiva e deixou que a evolução do PIB e a taxa de desemprego respirassem um pouco (esta última auxiliada adicionalmente pela emigração), mas isso fez imediatamente degradar o equilíbrio das contas externas... que na fase anterior havia sido o principal sucesso reivindicado pelo Governo. Já quase toda a gente percebeu que nas condições actuais da economia portuguesa o equilíÍbrio externo só se consegue à custa de manter a economia deprimida, e que a suspensão da recessão só se consegue à custa do défice externo. Toda a gente, menos o Governo... e pelos vistos a OCDE, que consegue vislumbrar aqui um sucesso a prosseguir.
Mas a parte mais interessante do discurso da OCDE é a explicação simples da crise que citei no início deste texto, e que, no fundo, corresponde à versão depurada e para consumo de massas da narrativa dos custos unitários do trabalho excessivos com que vimos sendo presenteados há já alguns anos. É uma narrativa fascinante porque brilhantemente falaciosa, sendo composta por elementos parcialmente verdadeiros articulados de forma a produzir uma conclusão falsa.
É que Gurría esquece-se de dizer que se os salários nominais, ou os custos unitários do trabalho, aumentaram tanto em Portugal e na periferia da zona Euro no período pré-crise, isso deveu-se ao facto da inflação em Portugal e nesses países ter sido sempre mais elevada do que na Alemanha e no centro da zona Euro de uma forma geral. Não se deveu aos rendimentos do trabalho terem aumentado a sua parte na distribuição funcional do rendimento, que permaneceu essencialmente inalterada na década e meia anterior à crise. Não foram os salários que cresceram excessivamente, foram todos os rendimentos e preços em Portugal que cresceram insustentavelmente face ao que sucedeu no centro da zona Euro.
Gurría esquece-se também de dizer que se esse diferencial cumulativo de preços e rendimentos entre o centro e a periferia da zona Euro se verificou, foi principalmente devido ao afluxo continuado de crédito do centro da zona Euro para a periferia, como consequência secundária dos desequilíbrios estruturais associados à moeda única. Não sou só eu que o digo; é o próprio Banco Central Europeu que já o admite (por exemplo, no resumo deste documento de trabalho), quando refere que a deterioração da balança de transacções correntes dos países da periferia da zona Euro precedeu a divergência dos custos unitários do trabalho.
E de uma forma mais geral, Gurría esquece-se ainda de dizer que o que determina a competitividade não são os salários - é a relação entre os preços dos produtos e as suas características (gama, qualidade, inovação...). Isolar um dos elementos da estrutura de custos como constituindo o determinante único da competitividade é objectivamente errado. Como é errada a ideia segundo a qual os preços são determinados exclusiva ou principalmente pelos salários e que a redução dos preços (que aliás é uma forma tosca de promover a competitividade) só se consegue cortando os salários. Esquece-se com isso toda a restante parte dos rendimentos da economia - os lucros, juros e rendas - que não são salários mas que provêm igualmente dos preços pagos no mercado. Não é uma parte pequena: é mais de metade. Acontece é que quase ninguém tem falado dessa parte, porque as atenções, como num passe de mágica, foram integralmente concentradas nos rendimentos do trabalho e na pretensamente incontornável necessidade de os cortar.
O resultado desta notável manipulação é que desde 2009, a parte dos rendimentos do capital no PIB aumentou já de 49% para 52%, graças às medidas sistemáticas de desvalorização do trabalho tomadas desde a eclosão da crise e entusiasticamente apoiadas pela OCDE. O bolo é mais pequeno, mas há uma das fatias que está maior... e para isso têm contribuído todos aqueles que, sob uma capa de objectividade tecnocrática, mais não fazem do que reproduzir um discurso destinado a servir interesses particulares, interesses de classe.
Há que desconfiar dos economistas, sobretudo quando nos trazem presentes. São uma espécie perigosa.
(publicado originalmente no Expresso online)
NOTA:
Retirado, com a devida vénia, do blogue "Ladrões de Bicicletas" (10.07.2014), postado por Alexandre Abreu.

domingo, 29 de dezembro de 2013

A NECESSIDADE DE EXPLICAR A CRISE


Há qualquer coisa que me escapa ou face ao meu olhar parece não bater certo. Por um lado, temos mais instituições de solidariedade social do que freguesias; pobreza face à qual assistimos, diariamente, a testemunhos arrepiantes; níveis de desemprego assustadores; números preocupantes de emigração; empresas aflitas; governo cheio de calotes; por outro, centros comerciais a abarrotar e uma corrida aos saldos como se os encargos de Natal não tivessem pesado na carteira; supermercados com filas intermináveis, logistas que dizem que não tem sido mau o negócio; crescimento do número de notas de € 500 euros em circulação; viagens pagas em dinheiro vivo; levantamentos em caixas de multibanco muito elevados; hotéis e outros espaços com muita procura face aos programas de fim-de-ano, circulação viária que parece indicadora de pujança da economia e, genericamente, um movimento citadino que também parece vivermos o melhor dos mundos! 


Julgo eu que bastam 10.000 pessoas para darem vida à cidade do Funchal e que elas rodam pelos espaços comuns. E isso corresponde a 10% dos habitantes do Funchal e a cerca de 4% da população da Região, fora, claro, os que estão em trânsito e, dentro destes, os emigrantes que se aventuraram e que, nesta época de reunião da família, regressam com saudades da terra. Poderá então deduzir-se que os outros estão arredados para as margens das carências sem fim e da luta pela sobrevivência. Sabe-se, também, que o subsídio de Natal proporciona algum desafogo e que prolifera por aí muita economia paralela e alguns esquemas financeiros marginais, mas tanto constrangimento sentido e divulgado, será que explica este movimento em contraponto ao discurso da crise? Não sei explicar e até posso estar a ser leviano nesta superficial análise. Há, com toda a certeza, outras e importantes variáveis a considerar que me escapam. Todavia, aparentemente, há qualquer coisa que parece, repito, não bater certo. Temo é que, perante as aparências, o governo, sorrateiramente, dispare mais austeridade, porque eles "aguentam, aguentam". 
Oxalá tudo isto fosse consistente e verdadeiro, mas não me parece. O que o nosso conhecimento e observação detecta merece uma análise muito mais profunda e fina para percebermos os fundamentos desta realidade. Afinal, o que se está a passar? Gostaria de ler para melhor compreender a realidade. Até porque 2014 começa dentro de horas e serão doze meses de nova e brutal carga fiscal. 
Ilustração: Google Imagens.     

terça-feira, 19 de novembro de 2013

"CONDENADO À MORTE POR MINHA CAUSA"


O Economista João César das Neves é uma anedota política. Há muito que evidencia, talvez a palavra seja esta, ódio aos pobres e aos excluídos da sociedade. Diz-se católico, mas certamente não perfila Cristo. Não sei como se pode ser professor universitário com uma cabeça sempre em "primeira" ou engatada em "marcha atrás". César é uma versão Ulrich, qual deles o mais estreito em pensamento político, económico, social e cultural. Mas esses , e outros, têm palco, podem dizer as asneiras todas, podem ofender, podem utilizar o megafone dos interesses do governo, como frente avançada dos poderes instalados e ideológicos, todavia, habilidosamente, mantendo, como convém, o distanciamento e, com uma lata proporcional aos tais interesses, abrem a boca e soltam a asneira e a provocação. Ouvir um César, um Ulrich ou um Medina, pela falta de contextualização, pela ausência de rigor histórico, só me fazem lembrar Almada Negreiros e o "Manifesto Anti-Dantas". Parafraseando, diria: (...) Morra o "César", morra! Pim! (...)

O César... no "Dinheiro Vivo"!

Uma geração com um "Ulrich" a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um "Medina" ao leme é uma canoa em seco!
O "César" é um cigano!
O "Ulrich" é meio cigano!
O "Medina" é um habilidoso!
O "César, o "Ulrich" e o "Medina" especulam e inoculam os concubinos! (...) 
Diz o Dr. João César das Neves que baixar a idade da reforma seria "suicida"; que aumentar o salário mínimo "é estragar a vida aos pobres" (...) que a maior parte dos pensionistas não são pobres e estão a fingir que são pobres. E diz isto com uma tal arrogância, refastelado no cadeirão, e sobretudo com agressividade e despudor perante tanta gente que passa mal. César é dos tais que não sabe nada de pobres, nem de pobreza, nem como se combate esse flagelo. Ulrich, com uma desfaçatez do tamanho de Portugal, assume que eles "aguentam". Medina, fala do óbvio, critica tudo e todos, ninguém lhe escapa, mas não apresenta uma única solução para os problemas. Agora, convida outros da mesma linha de pensamento para dizer o que já poucos toleram ouvir do seu velho e riscado disco. E esta gente fala e fala, descontextualiza, ignora a História, passa ao lado de outras variáveis e o curioso é que são chamados a dar opinião. Talvez porque não têm problemas em se expor ao ridículo. César das Neves e outros deveriam fazer uma viagem guiada pelo Portugal profundo, ouvir os vários milhões de aqui nascidos que vivem de forma desumana, passar pelas muitas instituições de solidariedade social para se aperceberem de quem lá vai pedir ajuda e quem são os novos pobres, entrar nas casas e ver a sobrelotação, olhar para os idosos e assistir ao seu sofrimento e bastas vezes à violência de que são vítimas, tomar consciência que são retirados aos lares, onde desfrutam de assistência, para poderem apoiar filhos e netos com as suas magras pensões, basta ser sensível aos 120.000 por ano que abandonam o País por não encontrarem um mínimo de felicidade em Portugal. Finalmente, César olha para os reformados e pensionistas e aplaude o confisco sobre os seus direitos, porventura considera muito bem que todos os direitos sociais sejam coarctados, porque ele, certamente, passa bem. 
César escreveu, ontem no DN-Lisboa: "Não há felicidade maior do que saber que Deus, o Deus supremo, sublime, transcendente, que fez o céu e a terra, se entregou à morte para me salvar. A mim pessoalmente. Nas nossas cidades e aldeias, nas casas e capelas de Portugal, em especial neste Ano da Fé que agora termina, tudo lembra este facto radical. Apesar disso, ele é esquecido a cada passo. Por isso as nossas vidas não são felizes. Ele está pendurado por minha causa. Nas paredes das salas, nas frontarias das igrejas, nos quadros dos museus, até no meu peito, em todo o lado a imagem da cruz lembra que Aquele ali, coberto de sangue, foi condenado à morte por minha causa. Eu vivo a minha vida, em cada momento, sob o olhar do que está num patíbulo em vez de mim. (...)". Que grande incoerência! Veja-se ao espelho.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O DR. EDUARDO JESUS TEM RAZÃO: “FINALMENTE ENCURRALADOS”


Pergunto ao Dr. Eduardo Jesus: para quem, politicamente, teve a responsabilidade de governar a Madeira durante 36 anos ininterruptos, “objectivamente” não estará este governo regional “em fim de festa”? Não existirá aqui uma “loucura” que pode determinar o recuo da Autonomia? E mais, “os responsáveis por toda esta vergonhosa situação” não vão continuar por aí “à solta”? Não estaremos aqui, na MADEIRA, “finalmente encurralados”?



Não é que me espante, mas há pessoas que, pela posição que ocupam na sociedade, deveriam manter um maior rigor e distanciamento na análise política. É o caso do economista Dr. Eduardo Jesus, presidente da Secção Regional da Ordem dos Economistas. Há dias viu-o na RTP-M de baterias apontadas para o Governo da República como se aqui nada estivesse a acontecer. Hoje, leio o seu artigo de opinião, na edição do DN e confirmo o sectarismo da sua posição. Antes de mais deixo aqui alguns excertos: “(…) É assim que nós, Portugueses, nos encontramos. Objectivamente, sem outra solução! (…) Revelámos incapacidade, mostramos irresponsabilidade e deixamos claro como se vive bem com uma consciência nacional que tolera este estado de coisas. A situação acomodou-se e a população tolerou. O imperativo económico determinou o fim da festa! Acabou!!! (…) Terminou não só a loucura como a nossa soberania nacional. E este facto, lamento profundamente. (…) Os responsáveis por toda esta vergonhosa situação, por ai ficaram, "à solta", sem qualquer encargo e assunção de responsabilidade e, em tão pouco espaço de tempo, não arranjarão outros empregos, nem ocupações que alimentem os vícios entretanto criados. Corremos o risco de os ter de volta e com a mesma incompetência e desinteresse nacional para desgovernar Portugal”. Por aí fora…
Fui lendo e dei comigo a escutar um Deputado do PSD na Assembleia Legislativa da Madeira. Exactamente o mesmo livrinho. Qualquer Deputado do PSD não faria melhor, ao desviar as atenções para lá quando, aqui, nas barbas do Senhor Presidente da Ordem dos Economistas da Madeira existe uma situação absolutamente catastrófica para debruçar-se em importante análise. Como se a Região não fosse autónoma, não dispusesse de uma Assembleia, de um Governo e de um Orçamento próprio. Não vou muito longe, basta olhar para os 20.000 desempregados, os 75.000 pobres, o sufoco dos empresários, a questão do modelo da Zona Franca, o problema das Sociedades de Desenvolvimento, os mais de seis mil milhões de dívida do governo regional e a falência dos sistemas educativo e de saúde. E então, pergunto ao Dr. Eduardo Jesus: para quem, politicamente, teve a responsabilidade de governar a Madeira durante 36 anos ininterruptos, “objectivamente” não estará este governo regional “em fim de festa”? Não existirá aqui uma “loucura” que pode determinar o recuo da Autonomia? E mais, “os responsáveis por toda esta vergonhosa situação” não vão continuar por aí “à solta”? Não estaremos aqui, na MADEIRA, “finalmente encurralados”? O Dr. Eduardo Jesus pode até (especulação minha) nutrir simpatia ou pertencer ao quadro de militantes do PSD. Para mim isso é pacífico. Eu respeito as opções políticas. O que já não aceito e, certamente, muitos economistas da Região não aceitarão, é que, enquanto responsável por uma Ordem que deve ser respeitada e independente, passe ao lado dos graves problemas da Região e apenas olhe para o “inimigo externo”. Isso pode agradar ao Dr. Jardim, mas descredibiliza a Ordem, no plano regional, instituição que, distante dos partidos políticos, deve assumir posições que nos ajude, a todos, reflectir.

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

AGORA... SÃO OS PIRATAS À SOLTA!


Espantoso, repito. Depois do dramatismo de 17.500 desempregados e que tudo leva a crer que, até ao Verão, lamentavelmente, a Região se aproximará dos 20.000 (oxalá que não), do principal responsável desta dramática situação, nem uma palavra. Fala de "piratas", de inveja e, se calhar de mau olhado. 

E os outros é que estão loucos!
Anda tudo aflito e o presidente do governo regional a inaugurar jardins e elevadores. Espantoso! E com declarações do tipo, não se pode dizer tudo, porque há "piratas à solta" que podem comprometer os investimentos. Espantoso, repito. Depois do dramatismo de 17.500 desempregados e que tudo leva a crer que, até ao Verão, lamentavelmente, a Região se aproximará dos 20.000 (oxalá que não), do principal responsável desta dramática situação, nem uma palavra. Fala de "piratas", de inveja e, se calhar de mau olhado. O dramatismo dos empresários, com a banca à perna, com dívidas acumuladas, com colaboradores em desespero, este homem, responsável pelo governo, de peito cheio, comporta-se como se estivesse no tempo das vacas gordas, durante o qual um responsável político chegou a dizer que "dinheiro não era problema".
A Região está no limite, não aguenta mais. A crise só virá a agravar a delicada situação construída durante largos anos. Ainda recentemente uma auditoria do Tribunal de Contas (TC) aos "Encargos Assumidos e não Pagos por serviços da Administração Regional da Madeira revela que o Governo de Alberto João Jardim escondeu ao próprio TC e à Direcção-Geral do Orçamento, planos de reestruturação de dívidas a fornecedores na ordem dos 180 milhões de euros". São dívidas sobre dívidas, miséria sobre miséria e o homem continua aí a falar como se nada estivesse a acontecer, como se o Cortejo da Flor e um circunstancial aumento de turistas, conseguisse abafar a floresta do desencanto. 
A Região não aguenta mais. Precisa, urgentemente, de novos actores políticos, precisa de varrer esta política que está a destruir as pessoas, dos mais frágeis aos da classe empresarial. A Madeira precisa de apresentar políticos de confiança, políticos de ciência, reconhecidos pela sua credibilidade técnica, política e social. A Região não pode ficar-se por políticos de 3ª divisão, amadores no sentido do conhecimento, pessoas que não trazem nada de novo, antes repetem, meticulosamente, o passado. É preciso que se assuma que a Região está em colapso total e esse desastre político, económico, social e cultural não se resolve com as mesmas receitas de ontem, como também não se resolve com as mesmas personalidades políticas. Tudo isto tem de dar uma volta no sentido da salvação regional. Torna-se necessária uma limpeza total nas figuras que lideram os processos políticos, uma mudança radical nos procedimentos e nos projectos, pois só por aí será possível gerar as condições de inversão do caminho da catástrofe social com a qual toda a Madeira está confrontada. Adiar esta dor social será muito complicado a muito breve prazo. E a propósito, a pirataria política não estará no governo e não nos empresários? 
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 16 de abril de 2011

INCONFORMISMO E CRIATIVIDADE


"(...) Foi isto que fez Nestor Kirchner, Presidente da Argentina, em 2003. Recusou-se a aceitar as condições de austeridade impostas pelo FMI, dispôs-se a pagar aos credores apenas um terço da dívida nominal, obteve um financiamento de três biliões de dólares da Venezuela e lançou o País num processo de crescimento anual de 8% até 2008. Foi considerado um pária pelo FMI e seus agentes. Quando morreu, em 2010, o mesmo FMI, com inaudita hipocrisia, elogiou-o pela coragem com que assumira os interesses do País e relançara a economia".


Li um importante artigo do Dr. Boaventura de Sousa Santos, publicado na revista VISÃO de 07 de Abril. O artigo começa, assim: "É hoje consensual que o capitalismo necessita de adversários credíveis que actuem como corretivos da sua tendência para a irracionalidade e para a autodestruição, a qual lhe advém da pulsão para funcionar ou destruir tudo o que pode interpor-se no seu inexorável caminho para a acumulação infinita de riqueza (...)". E mais adiante: "(...) Nos últimos 30 nos, o FMI, o Banco Mundial, as agências de rating e a desregulação dos mercados financeiros têm sido as manifestações mais agressivas da pulsão irracional do capitalismo. Têm surgido adversários credíveis a nível nacional (muitos países da América latina) e, sempre que isso ocorre, o capitalismo recua, retoma alguma racionalidade e reorienta a sua pulsão irracional para outros espaços". E, depois, lá vem a pergunta fundamental: "poderá surgir, em Portugal, algum adversário credível capaz de impedir que o país seja levado à bancarrota pela irracionalidae das agências de rating (...)?".
Achei muito curioso este enquadramento, sobretudo quando lá para o meio do artigo o Sociólogo traz à colação a questão da Argentina."(...) Foi isto que fez Nestor Kirchner, Presidente da Argentina, em 2003. Recusou-se a aceitar as condições de austeridade impostas pelo FMI, dispôs-se a pagar aos credores apenas um terço da dívida nominal, obteve um financiamento de três biliões de dólares da Venezuela e lançou o País num processo de crescimento anual de 8% até 2008. Foi considerado um pária pelo FMI e seus agentes. Quando morreu, em 2010, o mesmo FMI, com inaudita hipocrisia, elogiou-o pela coragem com que assumira os interesses do País e relançara a economia".
Em Portugal "um país integrado na UE e com líderes treinados na ortodoxia neoliberal, não é crível que o adversário credível possa surgir pela via institucional. O correctivo terá de ser europeu e Portugal perdeu a esperança de esperar por ele, no momento em que o PSD, de maneira irresponsável, pôs os interesses partidários acima dos interesses do País".
Resta a via extra-institucioal, que "consiste na rebelião dos cidadãos inconformados com o sequestro da Democracia por parte dos mercados financeiros (...)". Acredito que o caminho seria e será este. Tarde ou cedo.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

GOVERNO REGIONAL RECLAMA CONTADOR A ZERO


"O resultado está à vista. O descalabro das finanças regionais. A Região incapaz de satisfazer os seus compromissos financeiros de curto prazo. As dívidas a fornecedores a se avolumar. O sistema de saúde a rebentar. A banca a fechar a torneira. Agora não há engenharia financeira criativa (no passado, com a cumplicidade de grupos bancários portugueses!) que possa ajudar".

Um político visado
pelo caos na Região
É evidente que compreendo a aflição do Dr. Ventura Garcês, Secretário Regional do Plano e Finanças. Não tem dinheiro no cofre e montanhas de facturas por pagar. Mas, ao ouvi-lo esta tarde, a reivindicar fundos advindos de um eventual empréstimo e dos “efeitos positivos na nossa economia” possa gerar, depois da recém entrada dos técnicos do FMI em Portugal, deixa-me perplexo. É que as dificuldades que o governo da Madeira está a passar tem uma causa e essa ele bem a conhece. A rutura não advém da crise internacional, ela tem origem na atitude megalómana e na sua própria incapacidade para, politicamente, dizer basta ao seu "chefe". A crise, na Madeira, tem muitos anos e ainda ontem foi escalpelizada pelo Dr. Maximiano Martins, em artigo de opinião no DN:
Dr. Maximiano Martins
marca a diferença
na postura política.
"(...) As autoridades regionais não se comportaram com mais responsabilidade e sentido de sustentabilidade do que os privados e a banca. Pelo contrário, exponenciaram o endividamento, injectaram meios financeiros no consumo (na base de uma cartilha primária de keynesianismo!) e anteciparam recursos financeiros futuros com as vias rodoviárias, gastando hoje  e deixando para as gerações vindouras os pesados encargos daquelas operações. Ou construíram obra pública que não garante retorno económico (piscinas e pólos desportivos, centros cívicos, pontes e estradas por onde não circulam bens e serviços, marinas e obras marítimas…).
O resultado está à vista. O descalabro das finanças regionais. A Região incapaz de satisfazer os seus compromissos financeiros de curto prazo. As dívidas a fornecedores a se avolumar. O sistema de saúde a rebentar. A banca a fechar a torneira. Agora não há engenharia financeira criativa (no passado, com a cumplicidade de grupos bancários portugueses!) que possa ajudar".
Num quadro destes como é que ainda se tem o desassombro de enviar recados ao Continente? Se calhar querem colocar o contador a zero. Há cada uma!
Ilustração: Google Imagens. 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

INVESTIMENTOS RACIONAIS? SÓ AGORA? MAS, HÁ QUANTO TEMPO ISSO É DEFENDIDO?


Oh Senhor Secretário (do estado a que isto chegou), mas afinal julga que os madeirenses são todos uma cambada de mentecaptos, que ninguém se lembra do que disse nos debates, do que consta no diário das sessões da Assembleia, da sua postura em defesa de um modelo ultrapassado, nos ataques sistemáticos ao governo da República como se eles fossem os culpados dos desmandos e megalomanias regionais?


Fui ao dicionário on-line em busca de um significado para o nome "Ventura". E dei com esta preciosidade: "aquele que não vive com os pés chão e desliga sua atenção com uma rapidez incrível. As vezes isso dá a impressão de não estar nem ai para o que acontece à sua volta (...) não gosta nem de dar nem de receber ordens e precisa aprender a controlar a teimosia".
Ora, o Secretário Regional do Plano e Finanças, Dr. Ventura Garçês, parece-me ter um pouco de tudo isto, entre venturas e desgraças desta Região. Quando, tantos anos depois, quando depois de tantos alertas no decorrer dos debates do Orçamento da Região, vem dizer que a Região terá de ter uma política orçamental muito rigorosa e os investimentos a realizar terão de ser rendíveis do ponto de vista social, ou para alavancar o investimento privado, só pode ter andado para aí distraído com o que acontece à sua volta. Mais. E que a sua prescrição servirá de mote para os próximos tempos. Oh Senhor Secretário (do estado a que isto chegou na Madeira), mas afinal julga que os madeirenses são todos uma cambada de mentecaptos, que ninguém se lembra do que disse nos debates, do que consta no diário das sessões da Assembleia, da sua postura em defesa de um modelo ultrapassado, nos ataques sistemáticos ao governo da República como se eles fossem os culpados dos desmandos e megalomanias regionais? Afinal, quem é que assinou, deu o aval, abanou a cabeça do consentimento a tantas obras que hoje são elefantes brancos e que estão a custar os olhos da cara a todos os madeirenses e porto-santenses? Em todo este tempo, certamente, não andou com os pés no chão. Onde andou a coragem do Secretário (do estado a que isto chegou) para dizer não a marinas, piscinas e estádios de futebol? Onde estão os seus alertas públicos que esta não poderia ser uma via de sucesso, mas uma via para a ruína? E questiono, o que é para este Secretário (do estado a que isto chegou) o investimento no sector social, quando nega um complemento de pensão aos pensionistas de baixíssimos recursos, quando aceita que os funcionários públicos continuem a ser espoliados dos seus direitos,  quando nega o esbatimento da pobreza com medidas que, obviamente, acarretam despesa, mas diminuem o sofrimento? Que sentido do social terá? Será que fazer uma estrada ou um túnel constitui uma obra social no verdadeiro sentido e contexto da palavra social? Não terá olhos abertos para ver o sentido da política social nos Açores? E é para isto que vai "botar" discurso num painel frente a pessoas que, infelizmente, o terão de aplaudir?
Só agora descobriu que os investimentos têm de ser racionais. Que numa política de desenvolvimento, um dos princípios basilares é o da PRIORIDADE ESTRUTURAL. Tantos anos para perceber isto. Tantos anos para perceber que "temos de assegurar o crescimento económico, porque este é que vai assegurar postos de trabalho e riqueza". Só que a muitos não engana, porque este tipo de discurso para além de desfasado no tempo, ninguém acredita em função do que habitualmente a casa gasta. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A DENÚNCIA DA INCAPACIDADE GOVERNATIVA


O que isto demonstra é a claríssima insuficiência do governo e a denúncia da incapacidade governativa. Saberá o Dr. Brazão de Castro quantas propostas de natureza económica foram apresentadas na Assembleia e chumbadas pela maioria que apoia o governo? Ao ponto a que isto chegou: o governo a pedir ideias para governar.

O exercício da política na Madeira atingiu níveis de uma "lata" insuportável. Agora foi o Secretário dos Recursos Humanos, habitualmente, um secretário que consegue ver taxas de desemprego a descer quando os números crescem, assustadoramente, que vem dizer que está de "braços abertos" para receber propostas eficazes de combate ao desemprego. Vamos lá por partes: desde logo, afinal, qual é a sua função de governante? A sua e a do Vice-Presidente que tem a responsabilidade dos assuntos económicos? Afinal, o que é que andou a fazer, durante estes quatro anos, fora os outros, que não conseguiu ouvir, perceber e compreender a dimensão e implicações das propostas apresentadas nos vários debates que aconteceram na Assembleia ou nos sucessivos debates do Plano e Orçamento da Região? Mas, afinal, este governo não foi eleito para resolver os problemas? Inclusive, os do emprego?
Percebo que o governo raras vezes compareça na Assembleia, mas tem lá 33 deputados correias-de-transmissão. Podiam colocá-lo ao corrente. Mas nem isso. Daí o disparate que não é assim tão ingénuo quanto isso, de vir pedir ao povo que dê ideias. Ora, o que isto demonstra é a claríssima insuficiência do governo e a denúncia da incapacidade governativa. Saberá o Dr. Brazão de Castro quantas propostas de natureza económica foram apresentadas na Assembleia e chumbadas pela maioria que apoia o governo?
O problema, eu sei, é que tudo o que foi apresentado e discutido implacaria uma substancial alteração do modelo económico e financeiro, o que, factualmente, o governo não quer e não sabe. Ao ponto a que isto chegou: o governo a pedir ideias para governar. E a culpa é do Sócrates e da Constituição.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

MADEIRA: UM PIB À ARÁBIA SAUDITA


Em plena discussão do envelope financeiro 2014-2020, a Região ainda não tem nem discurso nem estratégia junto da União Europeia, colocando em causa as expectativas financeiras da Região para o referido período.

sábado, 23 de outubro de 2010

MINAS GERAIS AO CHÃO


Esta é a Madeira real, a Madeira onde os seus habitantes têm de falar baixinho, a Madeira anestesiada, sem poder de cidadania, sem capacidade de reagir à irresponsabilidade. Experimenta-se, não deu certo, paga-se e volta tudo ao normal. Entretanto, novas obras, novas inaugurações, novos discursos, novos ataques e a vida continua. Quem paga? O povo, claro!

Porque raio a culpa,
na Madeira,
morre sempre solteira?
Rima e é verdade!
"Minas Gerais ao Chão". E ninguém reage a isto? Sinceramente, esta situação revolta-me. Politicamente, é a cereja que faltava em cima do bolo da irresponsabilidade. O edifício foi autorizado e agora será expropriado por uma "pipa de massa"? Então, meus senhores, onde estão os estudos científicos, da Secretaria do Equipamento Social, do Instituto Superior Técnico, da Universidade da Madeira, do Laboratório Regional de Engenharia Civil, os pareceres técnicos da Câmara Municipal do Funchal, que determinaram a sua viabilização e de todos os edifícios circundantes, caso concreto, do "Marina" e do próprio "Dolce Vita"? Será que tudo aquilo nasceu, espontaneamente, como cogumelos selvagens?
Se os estudos só foram elaborados depois da catástrofe de 20 de Fevereiro, é muito grave, se não existiu planeamento urbanístico, pior ainda. Em um caso ou outro constituia, numa Região de vivência Democrática e com um alto sentido cívico, constituia motivo para que todos os responsáveis já tivessem colocado os seus lugares à disposição ou, então, já tinham sido demitidos. Numa empresa privada, um Engenheiro que cometesse um erro que levasse à perda de muitos milhões, nem ouvido era, tinha um despedimento certo e por e.mail. Mas, por estas banda, o Engenheiro que, "carinhosamente", o Deputado Edgar Silva apelida de "engenheiro da destruição", refiro-me ao Senhor Engenheiro Santos Costa, permanece no governo, imune a qualquer responsabilidade política. E num tempo de crise, de cofre vazio, voarão uns larguíssimos milhões (tenho a informação do quantitativo, apenas por confirmar), que tanta falta fazem a outros sectores da governação. Ao promotor daquela obra terá saído uma espécie de lotaria, pois não acredito que esta operação lhe traga qualquer prejuizo. E no meio disto, diz o Secretário Regional, que os projectos estão a ser realizados com todo o cuidado e com todos os estudos necessários, que envolvem mais de 50 técnicos e outros tantos projectistas, salienta o DN (...), na vertente segurança que assume particular importância em toda a intervenção prevista, permitindo encarar os fenómenos da Natureza com uma maior confiança. Esta posição política, revolta qualquer pessoa, porque nela descobre-se uma clara tentativa de branqueamento das responsabilidades. O ar sereno com que o Senhor Secretário aparece na página 10 do DN, dá a entender aos desprevenidos que nada aconteceu, que nada existe a montante deste problema, que a irresponsabilidade política morrerá solteira e que ninguém autorizou um conjunto de obras que vieram a se mostrar inapropriadas, exactamente contrárias àquilo que tantos lembraram e, por isso, foram enxovalhados na praça pública. Só agora percebeu que terá de existir um percurso de escoamento a céu aberto para aumentar o poder de vazão  das ribeiras.
Ora bem, esta é a Madeira real, a Madeira onde os seus habitantes têm de falar baixinho, a Madeira anestesiada, sem poder de cidadania, sem capacidade de reagir à irresponsabilidade. Experimenta-se, não deu certo, paga-se e volta tudo ao normal. Entretanto, novas obras, novas inaugurações, novos discursos, novos ataques e a vida continua. Quem paga? O povo, claro!.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ESCONDER O ENDIVIDAMENTO


Recolher documentação, ler os estudos de viabilidade e montantes dos avales concedidos às empresas públicas, analisar os relatórios das últimos três anos das empresas públicas, perceber a constituição da Zarco Finance, o enquadramento legal e estudos que deram origem à titularização de créditos, avaliar os documentos de constituição da Via Madeira, Via Litoral, Via Expresso, os Relatórios do SESARAM, do IHM, o contrato de concessão da Valor Ambiente, do Madeira Parques Empresariais, enfim, analisar essa extensa listagem sugerida pelos subscritores do pedido de inquérito, isso NÃO.

Ontem, a 2ª Comissão Especializada de Economia, da Assembleia Legislativa da Madeira, chumbou o pedido de inquérito, assinado por onze Deputados, representantes de todas as bancadas, no sentido de avaliar o endividamento da Região. Era o desfecho previsível, pois a Assembleia Legislativa constitui um espaço completamente dominado por uma maioria politicamente hermética e que, portanto, nada permite. No fundo, esta maioria nega, esmaga, tritura e deita para o cesto dos papéis a sua própria função. Averiguar, investigar, estudar, conhecer, perceber e divulgar constituem verbos cuja conjugação é proibida. O PS-Madeira, à luz dos elementos disponíveis, assume haver uma dívida global de seis mil milhões de euros; para o PSD-M, apenas dois milhões. Pois, como se a dívida, por exemplo, do Jornal da Madeira, do Marítimo SAD, da PATRIRAM, do SESARAM, entre tantas outras, não fossem dívidas que, tarde ou cedo, todos nós teremos de pagar.
Ora, tendo em conta a necessidade de apurar as responsabilidades financeiras da Região e avaliar todos os seus contornos, exigia-se rigor e transparência nesta abordagem. Mas não, a Comissão decidiu, há tempos, ouvir o Secretário das Finanças, que contou a sua versão (até aí tudo muito bem) mas, a partir daí, a Comissão deu por finalizado o seu trabalho. Recolher documentação, ler os estudos de viabilidade e montantes dos avales concedidos às empresas públicas, analisar os relatórios das últimos três anos das empresas públicas, perceber a constituição da Zarco Finance, o enquadramento legal e estudos que deram origem à titularização de créditos, avaliar os documentos de constituição da Via Madeira, Via Litoral, Via Expresso, os Relatórios do SESARAM, do IHM, o contrato de concessão da Valor Ambiente, do Madeira Parques Empresariais, enfim, analisar essa extensa listagem sugerida pelos subscritores do pedido de inquérito, isso NÃO. Calculando que isto daria no que deu, tal como dizia o Senhor Deputado Leonel Nunes, isto é, tal "como a pescada que antes de o ser já era", o PS solicitou 30 documentos para estudo e desses apenas recebu uma folhinha A4 com a posição do sector empresarial em 30.12.2009, o que corresponde, apenas, ao cumprimento da alínea d) dos documentos solicitados.
Significa este comportamento que a Assembleia está completamente descaracterizada e não cumpre a sua nobre função de órgão primeiro da Autonomia e responsável pela fiscalização dos actos do governo. A Assembleia existe mas não existe. Ela nega-se a si própria com estas atitudes, quando a vida pública não permite jogo de sombras, negação da verdade e subterfúgios perpetrados nas costas dos madeirenses e porto-santenses. Eu receio que a situação seja muito mais grave do que aquela que, aparentemente, é. Esconder o endividamento traz água no bico. Não querer estudar, colocando em cima da mesa uma séria metodologia de trabalho no sentido de uma avaliação que não se confine à voz do Secretário, pode significar falta de transparência e medo que se saiba a verdade dos números.
Por isso, ontem, mais uma vez, a AUTONOMIA foi atraiçoada e a DEMOCRACIA atirada para o espaço do faz-de-conta. Porque não há governos eternos, um dia, este castelo, contruído na areia, desfazer-se-á por uma qualquer onda ou maré viva. Ainda ontem, nessa Comissão, sublinhei que, em Março de 1974, todas as altas patentes foram ao beija-mão do Chefe do Governo Português e, um mês depois, o regime caiu e muitos rumaram ao Brasil, entre os quais, o Presidente da República e o Primeiro-Ministro. O Povo é assim! Tenham isso presente
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A CAMINHO DO ABISMO



São factos há muito conhecidos e que, tal como um balão, quando picado, estoira. É a própria situação criada, ao longo de muitos anos, que leva e levará os bancos a fecharem a torneira.


São várias as notícias, hoje publicadas, que preocupam. Desde logo um trabalho do Jornalista Miguel Torres Cunha subordinado ao título "Bancos fecharam a torneira ao Governo Regional -Bancos já não aceitam factoring pois o governo tem por pagar 250 milhões". Salienta o Jornalista:
"De acordo com o último parecer do Tribunal de Contas sobre a Conta da Região, no final de 2008 o Governo Regional tinha como dívida administrativa 355,3 milhões de euros. Deste valor, 83,2 milhões diziam respeito a encargos assumidos e não pagos do exercício, enquanto os remanescentes 272,1 milhões de euros diziam respeito à regularização de dívidas antigas, havendo um acordo de 2005 no valor de 150 milhões de euros, bem como um acordo de sub-rogação de créditos a favor das concessionárias rodoviárias, no valor de 111,9 milhões de euros. Nem os juros de mora tinham sido pagos a tempo e horas, pelo que tinha ficado por liquidar 10,1 milhões de euros. Os bancos terão adiantado mais de 250 milhões de euros, substituindo-se ao governo. Embora as empresas tenham recebido, a verdade é que a Região ficou a dever".
Bom, factos há muito conhecidos e que, tal como um balão, quando picado, estoira. É a própria situação criada, ao longo de muitos anos, que leva e levará os bancos a fecharem a torneira. Neste terrível pressuposto que tem culpados políticos é muito natural que se assista a um movimento complementar negativo junto do tecido empresarial madeirense. Com uma facturação a depender da capacidade financeira do governo regional, parece-nos óbvio que o se verificará um substancial crescimento do desemprego, sobretudo no sector da construção. Um drama que, aos poucos, se aproxima.
No meio de tudo isto, ontem, lamentavelmente, porque desceram duas centenas de desempregados na listagem, agora de 15.150 madeirenses, o Secretário dos Recursos Humanos veio, com sinais vitoriosos, falar de uma irreal melhoria, cuja contextualização no quadro da economia madeirense, constitui um verdadeiro desastre. É o que se chama varrer para debaixo do tapete e sempre a sorrir. E aqui vamos.

sexta-feira, 12 de março de 2010

RAPAR, PORQUE FALTA PARA PAGAR OBRAS

Mas que raio de sociedade estamos a construir?
Oiço a maioria parlamentar, sistematicamente, numa dura crítica ao Governo da República. Como soe dizer-se, por tudo e por nada. No pós tragédia é verdade que a crítica tornou-se mais suave ou quase desapareceu. Não se sabe por quanto tempo. Isso vai depender do dinheirinho e, nesse aspecto, o Presidente da Comissão Europeia, Dr. Durão Barroso, ainda hoje destacou que "haverá uma contribuição, mas não será essa contribuição que vai resolver tudo". Esta situação obviamente que também se coloca ao dinheirinho da República, pois, creio eu, qualquer atraso será motivo para um regresso da agressividade política. E é este mesmo governo que tem um histórico de ofensa e de sistemática agressão institucional por carência de dinheirinho que, dentro da sua casa, do seu espaço de governação, agredindo vinte e tal mil funcionários, mata o subsídio de insularidade que há muitos anos lhes é atribuído. Nos Açores tal subsídio é o dobro da Madeira; aqui, aniquila-se esse valor. Da mesma forma como não atribui um complemento de pensão aos idosos.
Pode-se então concluir que todo o dinheirinho está a ser rapado do cofre para pagar as obras megalómanas e sem sentido, na lógica sempre defendida que "com milhões faço inaugurações e com inaugurações ganho eleições". Rouba-se o subsídio de insularidade como se a maioria dos funcionários públicos auferissem de valores substancialmente visíveis. Coitados!
Depois, não se tenta nivelar por cima, puxando os que menos auferem (sector empresarial privado) para patamares acima da sobrevivência. Não. Arrasta-se a classe dita média para o fundo. Mas que raio de sociedade estamos a construir?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

SACUDIR A ÁGUA DO CAPOTE EM MOMENTO DE AFLIÇÃO

A sensação que fica é que, afinal, aqui nunca houve nem Assembleia, nem governo, tampouco uma legião de secretarias, direcções, autarquias, chefias e mais chefias responsáveis pela situação a que se chegou.
As insuficiências da governação caem em catadupa. É a dívida aos bancos, aos fornecedores, é a situação de conflito que se alastra na saúde e na educação, é a agricultura cada vez mais pobre mas face à qual o secretário da respectiva pasta está sempre a falar de milhões para "os senhores agricultores", é o turismo em queda, é o secretário das finanças que, depois de vários anos de alertas sobre o PIB "virtual" da Madeira, pelo efeito do Centro Internacional de Negócios, vem agora atacar o governo da República como se algum passo tivesse o governo regional dado para contrariar tal situação (pelo contrário, foi o presidente do governo regional que se vangloriou, em Bruxelas, de ter tirado a Região do Objectivo 1, esquecendo-se com isso, que perdemos cerca de 500 milhões de transferências da UE), enfim, perante um quadro gravoso que está aos olhos de todos os que queiram ser isentos, o que sobressai é uma diária correria a tudo quanto é sítio para tentar demonstrar que a República é que é a culpada de todo o desvario regional. A sensação que fica é que, afinal, aqui nunca houve nem Assembleia, nem governo, tampouco uma legião de secretarias, direcções, autarquias, chefias e mais chefias responsáveis pela situação a que se chegou. Por isso, dou razão ao Deputado Dr. Carlos Pereira, a quem o secretáriuo das finanças, indirectamente, chama, hoje, de "iluminado", ao afirmar no seu artigo de opinião:
"(...) Vejamos. É apenas exagero meu ou Alberto João Jardim e os seus compinchas há anos que não governam à custa do argumento da Lei das Finanças Regionais (LFR)? É ficção minha ou o PSD para tudo o que de mal aconteceu às famílias e empresas madeirenses nos últimos anos respondeu (hipocritamente) com o argumento de pouco poder fazer por causa da famigerada LFR? É invenção minha ou Alberto João Jardim e o seu governo sempre que se deparava com obstáculos de governação e evidências de má gestão pública atirava com a desculpa das maldades da LFR? É pura demagogia da minha parte ou o PSD M respondeu a todas as criticas e a todas as propostas da oposição, no quadro parlamentar regional, com a "insuflada" LFR?
O PSD tem tido a habilidade perversa de sacudir a água do capote, atirando todas as responsabilidades para a maior patranha da política madeirense: a LFR".

Assino, por baixo!
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

OS SUBTIS TRAÇOS DA DITADURA MODERNA

Se Al Capone regressasse ficava pasmado... como é possível tanto sangue sem um único tiro!
Só hoje tive algum tempo para ler o magistral ponto de situação da última semana política, de desabafo também, da autoria do Jornalista Luís Calisto, publicado na edição de Domingo do DN-Madeira. Vale a pena ler, pela oportunidade e pelo que ele traduz, em todos os campos de análise, numa terra onde sobressaem, claramente, os traços de uma política ditatorial. Ficam, aqui, alguns excertos:
"(...) Mas imaginemos que, em lugar de um só noticiário semanal, Sócrates decidia fechar por inteiro um órgão de comunicação com mais de 130 anos e para isso usava todos os meios financeiros públicos necessários e todos os métodos ilegais, exactamente como Jardim faz na Madeira, no seu projecto assumido de levar o Diário de Notícias à falência? Ou então, de que grau na escala de Richter seria o terramoto na capital se Sócrates ameaçasse expropriar um jornal? Foi o que Jardim fez relativamente ao Diário, aliás com todo o País a ouvir (...) e se, mais do que a tentativa de usar a publicidade como castigo ou prémio, o governo de Sócrates tivesse mesmo cortado há mais de dez anos os anúncios oficiais a um órgão para os canalizar todos ao jornal da sua cor, tal como faz na Madeira o dr. Jardim? Que, além de negar publicidade ao Diário para a entregar ao JM, e ainda intimidar nos discursos públicos os empresários que anunciam no Diário, mandou que todos os órgãos públicos cortassem a assinatura do DN, incluindo escolas. Sócrates, que com toda a lógica paga já pelo atrevimento da 'tentativa de interferência', onde já não andaria se chegasse ao cúmulo que Jardim pratica nesta Região, com dinheiros públicos! Que aconteceria naquela Lisboa e arredores se Sócrates resolvesse governamentalizar o DN de lá até 99% do capital, injectar-lhe uma fortuna diariamente, e depois, apesar do crescendo assustador do passivo, torná-lo gratuito e agravar ainda mais as despesas com o aumento da tiragem e alargamento desenfreado da distribuição, tudo com a ambição de fechar os que não domina? Como reagiriam Correio da Manhã e Público, por exemplo, e quantos dias mais aguentaria Sócrates no poder? Pois é essa situação que existe na Madeira, sem tirar nem pôr, e bem à vista de todos. (...) E se Sócrates fizesse como o sr. Jardim, que calunia, insulta e enxovalha diariamente os jornalistas com epítetos de corruptos, traidores, comunas, súcias, fascistas, tolos, incapazes, incultos, vingativos, desonestos, gente reles, mentes recalcadas, bastardos, exóticos, incumpridores de estatutos editoriais, ralé que não toma banho? E as jornalistas de vendidas, descompensadas, sovaqueiras...? Que seria de um Sócrates cavalgando tal paradigma? É claro - dirá algum leitor continental -, é claro que se Sócrates ou sátrapa mais bem pintado se atrevesse a tanto no Continente, sairia muito maltratado da refrega".
O leitor que leia e retire as suas conclusões. Da minha parte, parabéns ao Director do Diário pela coragem de tocar na ferida que mata a DEMOCRACIA. Este texto ficará para memória futura.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

ESTAMOS METIDOS NUM SARILHO (II)

Este Governo Regional já não tem condições para continuar a governar.
A cada dia que se passa, a verdadeira situação da Região Autónoma da Madeira surge aos olhos de todos de forma amarga. Digo-o, infelizmente, porque há muito que o quadro está definido e denunciado não só através de milhares de intervenções das forças políticas da Região como através de artigos de opinião, cartas do leitor, entrevistas, peças jornalísticas, enfim, neste momento, os relatos não surpreendem, apenas confirmam o desastre político, social e cultural. Não sei se é caso para dizer que o beco não tem saída possível. A ver vamos. Uma coisa parece-me certa, é que este governo regional já não tem condições para continuar a governar. Desgastado por trinta e quatro anos de governo ininterrupto e de mão de ferro, os dados estão aí aos olhos de todos: falência económica e financeira, sistema de saúde em total derrapagem, sistema educativo pelas vias da amargura, turismo, agricultura, pescas, para não falar de questões importantes como o ordenamento do território. É minha convicção que vamos pagar bem caro o desvario e não haverá lei das finanças regionais que venha a cobrir a política megalómana e despesista.
A minha terra merece melhor. Não me conformo com o texto, verídico, assinado pela Jornalista Marta Caires do DN, publicado, na edição de hoje, sobre o problema do sistema de saúde:
"(...) Rupturas no fornecimento de medicamentos, serviços com falta de camas, instalações velhas e obsoletas. Sem dinheiro para acudir as todas as exigências e com um clima de conflito entre profissionais de saúde e administração, o Hospital Central do Funchal está no limite. O director clínico reconhece que, por mais remendos que se façam, a Região precisa de um novo hospital e com urgência (...)". Enquanto isto acontece, trinta e tal milhões serão gastos no Estádio do Marítimo, segundo julgo saber, baptizado de "Arena", fora milhões em obras de duvidoso interesse porque sobretudo não prioritárias.
Merecemos melhor quando alguns, à custa de milhares, brincam com a felicidade de um Povo.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

ESTAMOS METIDOS NUM SARILHO

O grande sarilho é a negociação de toda a dívida contraída, os respectivos prazos sem desconfortos para uma populção sem recursos.
Aquilo que deveria ter sido realizado com serenidade, com bom senso, escolhendo o momento próprio, através de uma negociação entre três governos (República, Açores e Madeira) distante de qualquer azedume politicamente armado, aquilo que deveria ter sido concretizado através de um permanetente contacto, ministério a ministério, com a responsabilidade política que a situação requeria, acabou, como sempre, numa gravíssima luta de palavras sem sentido com consequências que não são, ainda, de todo perceptíveis. Como ainda hoje escreveu o meu Amigo Dr. Maximiano Martins no DN:
"(...) Estamos metidos num sarilho. Todos. E é neste exacto momento que os partidos madeirenses entendem levar à Assembleia da República a revisão da Lei das Finanças Regionais. Não é difícil imaginar o que cada português, em Trás os Montes, nas Beiras, no Alentejo, pensará sobre a oportunidade da iniciativa da Assembleia Legislativa da Madeira. Tenho a opinião de que por alguns ganhos de causa que se tenha (alguns, poucos, milhões que nada alteram à situação económica da Madeira) os custos de imagem das autonomias são elevadíssimos. Leia-se a imprensa económica e veja-se a opinião publicada de analistas independentes e sérios. A prazo sentir-se-ão os efeitos. Pagaremos todos. Enfim, sarilhos...".
De facto são uns milhões que não resolvem nada. A ferida que está aberta e que sangra por todos os lados, precisa de uma outra visão do problema. É que a Lei das Finanças Regionais, como aqui já salientei, nada vem resolver. O problema situa-se num patamar político muito superior, isto é, o que está verdadeiramente em causa é uma negociação para avaliar e definir como é que a Região e em que prazos poderá solucionar o problema da sua dívida pública, sem que daí advenha graves desconfortos para a população, ela que apresenta sinais de grande debilidade económica, financeira, social e cultural. O problema está aí, está na cifra de mais de cinco mil milhões às costas e não nesses escassos 50 milhões que nem dão para pagar a dívida aos fornecedores do sistema regional de saúde. Este é o grande sarilho que temos pela frente e que urge começar a pensar.