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sábado, 10 de outubro de 2015

“SE VOCÊ QUER ALGO NOVO, VOCÊ PRECISA PARAR DE FAZER ALGO VELHO" - PETER DRUCKER


Li com muito agrado uma entrevista ao Dr. Ricardo Alves, director do serviço de Psiquiatria, publicada na edição de ontem do DN-Madeira. Entre outros aspectos que merecem uma ponderada e exaustiva reflexão, registei estas passagens: "(...) Nós, tivemos a sorte de pertencer a uma geração em que tínhamos três meses de férias, brincávamos, tivemos um período de adolescência para crescer e aprender a lidar com o não e com a frustração e, hoje, isso não acontece (...) Muitas vezes as pessoas esquecem-se que só vivemos uma vez e que todos temos os nossos limites. Numa sociedade em que é tudo para ontem, há muitos casos de "burnouts" (ndr: distúrbio psíquico de carácter depressivo) estão a acontecer, em todas as áreas profissionais e até nos estudantes (...) as novas tecnologias estão a criar uma sociedade que não manifesta emoções (...)". 

Estava a interiorizar estas declarações e a lembrar-me do nosso pobre sistema educativo e da nossa esquizofrénica organização social onde se enquadra o mundo laboral. Estamos entregues a governantes de conhecimento medíocre, que repetem, mecanicamente, o erro, sem tempo para questionarem o seu próprio pensamento, atitudes e decisões. Como se mais horas de trabalho significassem maior produção ou mais horas entre as quatro paredes de uma escola pudessem redundar em melhor aprendizagem. Quanto errados estão! Depois, obviamente, pagamos com os desequilíbrios emocionais, com os estados de ansiedade e depressão. Pagamos com custos elevados no quadro do sistema de saúde, no do absentismo e no do insucesso e abandono escolar. Há anos que é assim e ninguém,  no mínimo, tenta uma reflexão. Pelo contrário, li, recentemente, uma declaração do secretário regional da Educação, a propósito do início do ano escolar, onde salientou que o próximo ano lectivo "começará mais cedo, muito mais cedo"! Como se a escola fosse um armazém, um depósito de alunos, como se mais tempo passado na escola fosse determinante na qualidade das aprendizagens e da formação global das crianças e jovens. Não é. Pelo contrário é factor de distúrbios vários, da mesma forma que, no mundo laboral, a cultura da pressa e do nanosegundo, esse mundo da pressão, do cumprimento de objectivos desconexos com a realidade, só acarretam estados de profunda intranquilidade e de insegurança. Deveriam ter presente as palavras do Professor Doutor Santana Castilho, investigador, quando sublinha que as escolas a tempo inteiro (pergunto, com os currículos e programas de hoje quais as que não são) constituem uma “aberração pedagógica e social que nacionalizou crianças e legitimou a escravização dos pais”. Escravizam as crianças que deixaram de ter tempo para serem crianças e escravizam os pais que, ou não têm trabalho ("ansiedade, depressão e suicídio") ou andam a correr de um lado para outro na busca de uma estabilidade que está no horizonte que se distancia a cada passo. Tem razão o Dr. Ricardo Alves: “(...) Podemos estar a criar uma sociedade sem emoções”. Eu diria: estamos.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 30 de março de 2013

SENHOR BISPO LEIA AS DECLARAÇÕES DO PSIQUIATRA DR. RICARDO ALVES


Não basta dizer que "perante as imagens de sofrimento, o discípulo de Cristo não pode ficar insensível ou indiferente. É necessário, pois, cultivar um coração compassivo, sensível à dos que sofrem". Pois, Senhor Bispo, esse sentimento é o que milhares têm e defendem, mas que resolve? Resolverá alguma coisa? Ora, o Bispo sabe, ora se sabe, que isto não vai com "compaixão", com um sentimento de pesar que nos causam os males alheios, isto vai com atitudes certas de quem tem o poder político nas mãos. Resolve-se com posições firmes, consistentes, humanistas e de respeito pelas prioridades. Porque o meu coração "não é insensível em face dos problemas dos outros" é que escrevo e tento denunciar a pouca-vergonha. Mas eu não tenho púlpito, eu não tenho a chefia da Diocese, eu não possuo a força de uma rede hierárquica capaz de colocar em sentido os responsáveis pelos dramas humanos. E o Senhor Bispo do Funchal, que não deve ser partidário, tem o dever de "(...) ajudar as pessoas a perceberem que elas podem fazer mais do que acham que podem", todavia no sentido da luta pela sua dignidade e não no sentido que deduzi das palavras ditas. Senhor Bispo, com toda a sinceridade, mude o seu discurso, claramente, por omissão, mais partidário do que assente na Palavra de Cristo. Enfrente a realidade e seja VERDADEIRO. É a única coisa que lhe peço, enquanto cristão. 


Reflecti se deveria ou não escrever em clara oposição ao que li. Decidi que a solenidade destes dias não me impedia de ter uma opinião contra o essencial da homilia de ontem do Senhor Bispo do Funchal. Irritou-me aquela lengalenga, por si só repetitiva, porque a par dos elementos da História milenar, não consegue dar um passo em frente devidamente contextualizado com a realidade. O tempo de sofrimento não é o de há dois mil anos. Ficou o exemplo. Hoje, desse exemplo e dessa Palavra, urge partir, chamando os bois pelo nomes, partir para um espaço de intervenção directa, frontal e correctora dos desequilíbrios geradores de "sofrimento". Ao Bispo, essa reserva que os cristãos podem(iam) ter nesta Região de senhorios, pede-se frontalidade e não subserviência, pedem-se contributos e não palavras para um peditório que todos nós já demos e continuamos a dar. Não basta dizer que "perante as imagens de sofrimento, o discípulo de Cristo não pode ficar insensível ou indiferente. É necessário, pois, cultivar um coração compassivo, sensível à dos que sofrem", disse. Pois, Senhor Bispo, esse sentimento é o que milhares têm e defendem, mas que resolve? Resolverá alguma coisa? Ora, o Bispo sabe, ora se sabe, que isto não vai com "compaixão", com um sentimento de pesar que nos causam os males alheios, isto vai com atitudes certas de quem tem o poder político nas mãos. Como salientou o Bispo, "(...) nos caminhos deste mundo, são muitos ainda aqueles que experimentam ao vivo os sofrimentos de Jesus e solicitam a nossa solidariedade, atenção e amor concreto". Pois, é isso que muitos milhares sentem e oferecem, mas isto não se resolve com caridade. Resolve-se com posições firmes, consistentes, humanistas e de respeito pelas prioridades. Porque o meu coração "não é insensível em face dos problemas dos outros" é que escrevo e tento denunciar a pouca-vergonha. Mas eu não tenho púlpito, eu não tenho a chefia da Diocese, eu não possuo a força de uma rede hierárquica capaz de colocar em sentido os responsáveis pelos dramas humanos. E o Senhor Bispo do Funchal, que não deve ser partidário, tem o dever de "(...) ajudar as pessoas a perceberem que elas podem fazer mais do que acham que podem", todavia no sentido da luta pela sua dignidade e não no sentido que deduzi das palavras ditas.
As pessoas, Senhor Bispo, não resolvem o problema do desemprego, elas estão atadas, metidas numa camisa de forças, tal como vi e ouvi um homem com as lágrimas nos olhos, numa recente manifestação de trabalhadores dos estaleiros navais de Viana do Castelo: "eu, com o meu trabalho, com o meu suor, consegui dar formação a uma filha; custa-me dizer a uma outra que não pode continuar porque não tenho dinheiro!" As pessoas, Senhor Bispo, amarradas a um sistema que as conduz, inevitavelmente, ao "sofrimento" sabem que os responsáveis por esse sofrimento estão a montante, estão na governação, uns há dois anos, outros há 37! As pessoas sabem que existem directórios europeus e mundiais que as condenaram ao sofrimento, em função da ganância e da especulação. É contra esses, Senhor Bispo, que deve um olhar felino e uma palavra cáustica. 
Ainda hoje, quando li as palavras do Senhor Bispo, cruzei-as com as do médico psiquiatra Ricardo Alves. Está lá escarrapachado que as pessoas estão em pânico, estão deprimidas e estão em desespero: "(...) este clima de austeridade forçada, de insegurança, leva muitas famílias - mais das classes médias e até altas, que tinham um determinado estatuto e um determinado padrão de vida, e têm que se adaptar forçosamente a um novo estatuto - a algum grau de desespero e, posteriormente, a desesperança, e muitas vezes as pessoas refugiam-se, inclusivamente, no abuso solitário, nomeadamente de bebidas alcoólicas, assim como de outras substâncias e aí podemos abordar cannabis e, claro, também de psicofármacos" (...) "as "perturbações de ansiedade estão a aumentar bastante." Este trabalho de Jornalista Sílvia Ornelas (DN-Madeira) tem o mérito de ter sido muito mais importante que a homilia do Senhor Bispo D. António Carrilho. O médico Dr. Ricardo Alves, não se colocou com reservas, disse a verdade, contextualizou, chamou a atenção e para quem é minimamente atento, percebeu que a "austeridade forçada" existe por culpa de políticos que a Igreja não afronta. São esses que estão na origem deste desastre social. E agora pergunto: como podem ter um "coração compassivo" os 25.000 que estão desempregados, as centenas que passam fome, os empresários desesperados, as crianças sem futuro e os idosos jogados a um canto? 
Senhor Bispo, com toda a sinceridade, mude o seu discurso, claramente, por omissão, mais partidário do que assente na Palavra de Cristo. Enfrente a realidade e seja VERDADEIRO. É a única coisa que lhe peço, enquanto cristão.
Ilustração: Google Imagens e DN-Madeira.