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quinta-feira, 24 de março de 2016

QUINTA-FEIRA SANTA - "FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM... O QUE É ISTO?"


É esta uma noite ímpar, pela soma de contrastes que a vestem. Por um lado, os galopantes ventos cruzados que derrubam árvores e travam aeronaves. Por outro, a lua cheia, viajando fagueira “como a alma de um justo”, entra-nos em casa e na mente em acenos de paz e cânticos de Páscoa. Dormem no mesmo berço nocturno, as bombas suicido-assassinas dos aeroportos e os prenúncios de uma Ceia, em cuja mesa pão e vinho se misturam com o sabor do abraço e do perdão. E é nesta Ceia, chamada a Última, que debruço hoje o meu olhar para descobrir-lhe a ementa e desvendar-lhe o significado. Espero não ferir susceptibilidades e arquétipos interpretativos que sucessivas gerações nos transmitiram ao ritmo imponderado do tradicionalismo religioso.



No derradeiro adeus aos amigos mais próximos, J.Cristo pôs a mesa e sobre a toalha dispôs pão e vinho da terra, dizendo: “Isto é o Meu Corpo, Isto é o Meu Sangue”. E como quem acentua o núcleo ideológico daquela estranha despedida, mandatou-os com este aviso: “Fazei Isto em memória de Mim”. 
Que sentido maior terá o demonstrativo “Isto” no contexto da narrativa?
O conhecido e abalizado teólogo Bento Domingues refere, na sua crónica de domingo passado, que a Última Ceia fica toda iluminada com o gesto simultâneo de J.Cristo quando decidiu lavar os pés aos comensais, pescadores e pecadores, seus amigos desde a primeira hora – uma atitude de intensa carga afectiva e de partilha igualitária entre todos, sublinhando a moralidade global daquela Ceia: “Também é Isto que deveis fazer uns aos outros”. (Mt.26,26; Jo.13,1-17). 
Os primeiros cristãos traduziram à evidência o mandato do Mestre: “Partiam o pão em casa e comiam juntos com alegria e singeleza de coração…Tinham tudo em comum: até vendiam as suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, conforme as necessidades de cada um”.(Act.2, 44-46). Eis a genuína interpretação da Ceia do Senhor e do subsequente Lava-pés, fielmente vivenciada pelos que receberam em primeira mão a narrativa do Cenáculo. Para eles, interessavam menos os rituais do que as acções concretas de solidariedade no terreno, demonstração dinâmica da sua fé na Eucaristia – a “Boa Graça”, etimologicamente.
Assim não entenderam os séculos posteriores e os cristãos, doutrinados e dominados por uma hierarquia crescente em poder, luxo e majestade. Passou-se a privilegiar o rito em prejuízo da seiva interior que lhe dava sentido e actualização. Fechou-se a Ceia no círculo apertado do formalismo litúrgico da “Consagração”. Depois, ergueram-se camarins e baldaquinos, cinzelaram-se sacrários, âmbulas e custódias, algumas delas de ouro precioso (lembremo-nos da sumptuosa custódia do ourives quinhentista Mestre Gil Vicente) e guardou-se o “Senhor do Universo” numa perfeitinha hóstia circular, bem segura numa prisão que, por ser dourada, não deixa de ser prisão. E chegou-se a esta obtusa contradição: enquanto o Mestre e os primeiros cristãos tomavam o pão da Eucaristia para abrirem caminho ao exterior, aos que viviam nas periferias, a Igreja usa prioritariamente a Ceia do Senhor para prendê-lO nas áureas teias do solenes rituais.
Não está em causa o fenómeno da “transubstanciação” (um vocábulo dogmático que os crentes pouco entendem) mas a inversão dos factores-valores da equação entre os meios e os fins, entre o ritualismo e vida. Se alguém houve que repudiou o verniz dos cerimoniais e defendeu acerrimamente os valores da fé viva e actuante, esse alguém foi o nosso Líder e Mestre, atraindo, por isso, contra si a fúria dos sumos-sacerdotes sentinelas da religiosidade formalista oficial.
Em síntese, todo o equívoco resume-se à frágil distinção entre significante e significado. Quanto menos evoluído é um povo, mais necessidade tem de significantes - repetidos, redundantes, asfixiantes até. Pelo contrário, um povo de olhos límpidos, não afectados por sombrias cataratas ideológicas, depressa intui o significado essencial dos gestos e tradu-lo em expressões factuais, prova transparente da sua crença.
Quinta-feira Sã e Santa, porque criadora de solidariedades necessárias, dos perdões consensuais, embora tantas vezes doridos e sofridos, mas no fim sempre geradores de prazer e militância face ao futuro!
Não há Eucaristia sem Abraço!
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Seria “divertido” e produtivo se alguém quisesse desenvolver um tema que tivesse mais ou menos este título: “Ao fim de 50 anos de embargo a Cuba, o presidente adventista Obama visitou aquele Povo. Na Madeira, faltam só oito anos para a Diocese levantar o embargo decretado desde 1974 à comunidade cristã e católica, chamada Ribeira Seca”.
Viva Quinta Feira Sã, Saudável, Santa!
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23.Mar.16
Martins Júnior

NOTA:
Texto publicado pelo Padre Martins Júnior no seu blogue Senso e Consenso.
http://sensoconsenso.blogspot.pt/2016/03/o-que-e-isto-pao-e-vinho-sobre-mesaem.html#gpluscomments

quinta-feira, 1 de abril de 2010

QUINTA-FEIRA SANTA

É a verdadeira Páscoa, meus Senhores, vivida de dentro para fora.

Duas notas nesta Quinta-Feira Santa:
1ª A carta do leitor do meu grande Amigo José Ângelo Paulos. Vale a pena ler na totalidade. Identifico-me, sem retirar uma vírgula:

"(...) E a minha fé em Jesus, hoje, é muita mais viva e mais sã, porque me não reconheço no papa, nos bispos, nem nos sacerdotes. Para viver o Evangelho não preciso desses apêndices. Podem ser o que forem, eu continuo a acreditar que Jesus é o meu Único e Verdadeiro Deus. E eu estou à solta como Ele esteve e está. Não preciso de andar atrás de andores da Virgem Peregrina a calcorrear as ruas do Funchal e as freguesias da Madeira, só porque aparece um bispo, cónegos e padres que arrastam todo um povo para a contemplação de uma estátua e esquece-se de ir ao âmago de toda a vivência cristã: O Evangelho do Senhor Jesus. Só Ele é Verdadeiro. Só Ele é o que, vós Amigos Sacerdotes, deverieis servir. E não à estátua peregrina, que, em minha opinião, nada nos diz, nem nos transforma. Só os lencinhos brancos, tercinhos, benzeduras, uns adeus lancinantes em que ostentam, de certa maneira, mais do que adesão ao Senhor Jesus, uma efervescência mariana de grande sofrimento e obscurantismo (...)".
2ª As declarações do Senhor Padre José Luís Rodrigues, em uma espécie de "recado" ao Senhor Bispo do Funchal: "(...) As pessoas hoje têm muitas inquietações, têm problemas com a vida de todos os dias, têm problemas com o emprego e não sabem se vão conseguir pagar os seus empréstimos bancários. É disto que se deve falar, nesta abertura da Igreja, do clero aos problemas do Mundo, numa linguagem que seja do nosso tempo, que as pessoas percebam, que as possam ajudar no seu quotidiano".
Digo eu, é a Páscoa, meus Senhores, vivida de dentro para fora.
Ilustração: Arquivo pessoal (Catedral de Barcelona).