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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

NA MADEIRA PARADISÍACA QUASE DOIS SUICÍDIOS POR MÊS E 1,3 TENTATIVAS POR DIA


O meritório trabalho da jornalista Maria Catarina Nunes, inserto na edição de hoje do DN-Madeira, constitui uma “pedrada no charco”. O suicídio é tema preocupante e vem de longa data. A sensação que tenho é que se vive em um penoso deixa andar. Há governantes que olham para a sociedade como se estivessem a olhar para si próprios. Para com os seus botões, dirão, pressuponho: se eu e os do meu círculo estão relativamente bem, os outros, certamente, apesar das dificuldades, vivem com ausência de problemas. Simplesmente porque não conseguem perceber que a organização social de hoje, constitui uma boa solução para um problema errado. É dramático quando se constata que na paradisíaca Madeira, a tal do "povo superior", apresenta quase dois suicídios por mês e de 1,3 tentativas por dia (471,4 por ano). Dramático. E a secretária da Inclusão e dos Assuntos Sociais vem hoje dizer que "mais do que as palavras contam os actos". Quais? 


Em Novembro de 2009 apresentei, na Assembleia Legislativa da Madeira, uma comunicação sobre a sociedade que estávamos a construir. Essa intervenção surgiu na sequência de um trabalho do jornalista do DN-M, Ricardo Duarte Freitas, sobre as causas do suicídio. Nesse texto, a páginas tantas, o juiz do Tribunal de Família e Menores, Dr. Mário Silva, sugeriu uma reflexão sobre o actual modelo de sociedade que estávamos a construir para os jovens. "O suicídio e o parassuicídio (tentativa de suicídio) são problemas que naturalmente me preocupam e que me levam a reflectir sobre o modelo de sociedade que estamos a construir, nomeadamente para os nossos jovens, com a busca exaustiva da perfeição aos vários níveis e com expectativas por vezes excessivamente altas". Eu diria, escrevi então, que o Juiz tinha tocado, exactamente, no núcleo central do problema, isto é, na organização social consequente de uma vaga eléctrica, nervosa, sustentada na febre do "ouro" e na riqueza rápida. De facto, passámos da Sociedade da Manufactura para a Sociedade de Mentefactura, na feliz síntese de Luís Cardoso. O que hoje está em causa, já não é o músculo mas a cabeça e a FACTURA. De forma rápida e sem acautelar todas as variáveis. E isso, tal como salientou David Vice, determinou que os anos noventa e seguintes ficassem para a História como a década da pressa e da cultura do nanosegundo. 
Em Janeiro de 2013 regressei ao tema. Escrevi: “(…) vivemos encarcerados, lamentando e não actuando. Em 2011, registaram-se mais 110 suicídios do que em 2010 (dados nacionais), segundo o Instituto de Medicina Legal (IML). "Os 1208 casos registados, que correspondem a três suicídios por dia, estão, contudo, longe de representar a real dimensão deste fenómeno, já que “muitas vezes o Ministério Público dispensa a autópsia quando tem suspeitas fundadas de que não houve crime”, conforme esclareceu Duarte Nuno Vieira, ao tempo presidente do IML. O suicídio é a principal causa de morte não-natural no país, tendo ultrapassado o número de mortes na estrada. Segundo notícia do Público (Lusa - 08 de Setembro de 2012), em 2009, verificou-se um suicídio a cada quatro horas, tendo sido a Madeira a Região de maior incidência. E apesar disto assim se verificar há um estranho silêncio no equacionamento das causas que estão associadas e que são potenciadoras dos dramas pessoais e familiares. Esta auto-destruição da vida aflige-me e, certamente, aflige todos os que amam a vida. E o que é sensível por aí é o silêncio sobre este arrepiante drama, certamente, porque tem muito que se lhe diga. A depressão, a melancolia, a grande tristeza, a desesperança e o pessimismo, entre múltiplas causas que aos especialistas compete identificar, deveriam ser motivo de análise e debate aberto, face a um quadro que me parece ser muito preocupante. Quem o comete está, obviamente, em grave e profunda depressão e, por isso mesmo, deveria estar sob vigilância, até porque os sinais ou tendências suicidas não surgem de um dia para o outro. Mas a sociedade pouco se rala, individualista que é, tampouco quem governa entende serem necessárias adequadas políticas. Escreveu Morpheu: "(...) o suicídio é muitas vezes uma solução patológica para um angustiante problema que a pessoa considera intransponível, como o isolamento social, as dolorosas injustiças, ingratidões, maus tratos, violências psíquicas a vários níveis, um lar que se desfez durante a infância, situação altamente traumatizante, cuja ferida se arrasta numa dor insuportável e culmina mais tarde numa depressão gravemente patológica que conduz a um triste final da vida. É ainda, a consequência de uma doença física grave, o desemprego, a toxicodependência, o envelhecimento que não se aceita, etc”. Li que "90% dos suicídios se verificam em resultado de múltiplas doenças psíquicas ou psiquiátricas. Cerca de 15% dos suicidas sofrem de depressão, em que a desmotivação de vida é insuportável, e torna-se imbatível o não querer viver. Dir-se-á que a pessoa perdeu toda a capacidade energética e a vida deixou de ter o mínimo sentido ou interesse. Cerca de 7% sofre de dependência alcoólica".
Naqueles 15%, é convicção minha, encontram-se muitos que são a consequência da sociedade que estamos a construir. A sociedade do ter antes do ser, a sociedade da ambição sem limite, a sociedade das aparências, das festas, da vergonhosa ostentação, da competição com o outro embora sem meios para tal, a sociedade que também relega, não olha, castiga o eventualmente mais fraco atirando-o para a margem dos desprotegidos. É esta a sociedade que, de olhos vendados, constrói, alegremente, as armas da sua destruição. E nem conta dá do tortuoso caminho que está a percorrer. É esta louca correria, sem o sentido da responsabilidade, do bom senso, da honradez, do passo de acordo com a perna, que conduz, paulatinamente, às insónias, à ansiedade, à angústia, às drogas sejam elas de que tipo forem e, finalmente, deduzo, à desesperança. A este tipo de organização social digo, com firmeza, NÃO, OBRIGADO! 
O desenvolvimento não é isto nem é para dar nisto. O desenvolvimento tem a ver com três dimensões inter-relacionadas: 
a) Com uma dimensão económica, ligada à produção e distribuição dos bens; 
b) Com uma dimensão social, ligada às condições de vida e com as desigualdades; 
c) Com uma dimensão cultural, ligada, fundamentalmente, com o património num sentido lato, enquanto conjunto de capitais (capital social, económico, cultural e o simbólico). 
Isto implica que a palavra desenvolvimento deva ser enquadrada no sentido endógeno e integrado, como resultado de considerações de ordem filosófica, ideológica e metodológica. São estes factores que entendo como os pressupostos que devem conduzir à contextualização do desenvolvimento. Senhora secretária, mexa-se, por favor. 

NOTA 
Síntese de alguns textos já publicados. 
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

2013 - UM SUICÍDIO A CADA SEIS HORAS


Quem os ouve na Assembleia da República ou em outros espaços e confronta as palavras ditas com a realidade, só pode concluir uma de duas coisas: ou estão desfasados da realidade da vida dos portugueses, ou são mestres na arte de mentir mantendo um semblante de grande seriedade. Eu penso que são portadores das duas hipóteses, pois mentem que nem um saco roto e são pessoas insensíveis à dureza da realidade. Eu já não os consigo ver, muito menos suportar. Eu que gosto do debate político, que seguia com entusiasmo os pontos de vista não só dos políticos, mas dos comentadores, hoje, tantas vezes dou comigo ligado à RTP-Memória. Dispo-me das minhas convicções partidárias, aspecto que não é fácil, e situo-me na condição de cidadão que cruza a informação disponível, as leituras de outras fontes, na busca das causas das causas e, normalmente, concluo que uma grande parte do que ouço não é sério, não é honesto, é frágil e muito superficial. Mentem e repetem a mentira e de tanto mentirem mais me fazem lembrar o ministro da propaganda nazi, Joseph Goebbels, que disse que "uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade".


"Pinóquio" da história recente!

Na situação pela qual passam os portugueses eu não diria que a mentira se tornou verdade, bastando para isso olhar para as grandes manifestações que têm decorrido em todo o país, todavia, são geradoras de alguma dúvida, de uma permanente interrogação e mais do que isso, de medo, ao jeito de "não venha pior". O caminho foi aberto nesse sentido, primeiro através de uma dramatização como nunca, depois, de fazer acreditar que não existe caminho alternativo. Temos de empobrecer, facilitar o despedimento, criar as condições para a emigração forçada, roubar aos reformados e pensionistas, extorquir o produto do trabalho com impostos, taxas e sobretaxas, não pagar horas extraordinárias, envelhecer no posto de trabalho, desprezar os idosos em quase tudo e fazendo-os recolher filhos e netos, enfim, todos os dias, ao longo dos dois últimos anos, tem sido este o rosário e o calvário dos portugueses. Insensíveis, ainda ontem, na Assembleia da República, vi um primeiro-ministro de mil e um enganos, em mais um titânico esforço de tornar a mentira em uma verdade absoluta. Em concordância com o seu chefe, há dias, para rematar, a ministra das Finanças, disse que os portugueses não podem se sentir injustiçados. Esta gentinha, por acaso, sabe do que fala, tem a noção do que por aí vai? Penso que não. 
Deixo aqui apenas uns números para reflexão. Recentemente foram divulgados os suicídios de 2012. Aumentaram 6,2% em relação ao ano anterior: 1076 casos em 2012. Três por dia. Um de oito em oito horas. Com uma curiosidade: 57 vezes superior nos idosos. Nos primeiros seis meses de 2013 verificaram-se 674 suicídios. A média mensal de 2013 está nas 84 mortes, sendo que os dias de menor luminosidade, factor associado pelos especialistas ao aumento dos sentimentos de angústia e desesperança, mal chegaram. Mas atenção, "estes números estão longe de reproduzir fielmente o que se passa. Nem todos os suicídios são reportados, muitos corpos não chegam a ser autopsiados (para isso acontecer tem de haver requisição da parte do Ministério Público). E por detrás do mistério das mortes por causa indeterminada - 232 casos até agosto deste ano - pode estar também o suicídio" (Jornal de Notícias).
São valores dramáticos. Não bastasse esse drama, segundo o INE, confrontamo-nos com uma "proporção crescente de idosos e decrescente de jovens; um aumento do índice de dependência de idosos e de envelhecimento; uma taxa de crescimento natural negativa; um decréscimo do índice sintético de fecundidade e com uma crescente taxa de desemprego". Só o governo não consegue ver o que significa a conjugação de todos estes aspectos. Esta gentinha tem de ser posta a andar. Quanto antes.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

UM AUMENTO DE 1% NA TAXA DE DESEMPREGO, CORRESPONDE A 0,8% NA TAXA DE SUICÍDIO!


Fulano, beltrano ou sicrano são pobres porque são pobres e porque querem ficar nas margens. Quem governa prefere aliviar a consciência com algumas migalhas distribuídas sob a forma de subsídios, com algumas cantinas sociais, com alguns apoios caritativos através das instituições de solidariedade social, mas não esboça uma preocupação estrutural de romper com o círculo vicioso da pobreza. Quem governa fala de empreendedorismo, de criatividade e inovação, distribui até alguns apoios, mas logo a seguir fica a dever milhares aos empresários e impõem-lhes impostos que acabam por sufocar a sua actividade. Quem governa fala da família, mas não apresenta uma política de família. Quem governa fala da Educação, mas torna a Escola remediadora social. Quem governa preocupa-se com as estatísticas dos exames de Português e Matemática, mas dispensa professores e não se preocupa com o aluno que deveria ser o centro das políticas educativas. Daí os altos índices de exclusão e de insucesso. Quem governa quer manter-se no poder a qualquer preço, gasta na sua promoção e apresenta-se completamente alheio aos olhares definidores das prioridades e do esbatimento das desigualdades sociais. Cada um que se arrume!


O problema, embora não sendo novo, parece que apresenta proporções cada vez maiores. Causa-me angústia assistir a determinados programas ou simplesmente ler aquilo que vai acontecendo mesmo à nossa beira: casais sem meios e filhos institucionalizados, violência doméstica, desespero, pais que matam e que se suicidam, enfim, dramas em catadupa que não deveriam permitir a indiferença, mas que testemunham essa mesma indiferença da sociedade e dos seus representantes políticos. A notícia vive no instante e logo morre. Passadas umas horas já poucos se lembram de um facto que nos prostrou e arrepiou. Vivemos encarcerados, lamentando e não actuando. Em 2011, registaram-se mais 110 suicídios do que em 2010, segundo o Instituto de Medicina Legal (IML). "Os 1208 casos registados, que correspondem a três suicídios por dia, estão, contudo, longe de representar a real dimensão deste fenómeno, já que “muitas vezes o Ministério Público dispensa a autópsia quando tem suspeitas fundadas de que não houve crime”, conforme esclareceu Duarte Nuno Vieira, ao tempo presidente do IML. O suicídio é a principal causa de morte não-natural no país, tendo ultrapassado o número de mortes na estrada. Segundo notícia do Público (Lusa - 08 de Setembro de 2012), em 2009, verificou-se um suicídio a cada quatro horas, tendo sido a Madeira a Região de maior incidência. E apesar disto assim se verificar há um estranho silêncio no equacionamento das causas que estão associadas e que são potenciadoras dos dramas pessoais e familiares. 
E as causas são múltiplas, obviamente. Uma delas tem a ver com o desemprego. Li uma declaração de José Carlos Santos, da Sociedade Portuguesa de Suicidologia que aludia a um estudo publicado em 2011, segundo o qual "a cada aumento de 1% na taxa de desemprego nos países da União Europeia correspondia uma subida de 0,8% na taxa de suicídio, entre 2007 e 2009". O desemprego, a desestruturação familiar, as depressões, julgo eu, leigo na matéria, constituem factores que deveriam merecer preocupada atenção, mas que, infelizmente, passam ao lado dos governantes. Deixo essa análise para quem é especialista e estudioso dos fenómenos sociais, mas não deixo passar a questão política em função do desinteresse público e notório. Sinto que os governos, se em outras matérias não são pró-activos, nesta, na da organização social ainda pior se comportam. Fulano, beltrano ou sicrano são pobres porque são pobres e porque querem ficar nas margens. Quem governa prefere aliviar a consciência com algumas migalhas distribuídas sob a forma de subsídios, com algumas cantinas sociais, com alguns apoios caritativos através das instituições de solidariedade social, mas não esboça uma preocupação estrutural de romper com o círculo vicioso da pobreza. Quem governa fala de empreendedorismo, de criatividade e inovação, distribui até alguns apoios, mas logo a seguir fica a dever milhares aos empresários e impõem-lhes impostos que acabam por sufocar a sua actividade. Quem governa fala da família, mas não apresenta uma política de família. Quem governa fala da Educação, mas torna a Escola remediadora social. Quem governa preocupa-se com as estatísticas dos exames de Português e Matemática, mas dispensa professores e não se preocupa com o aluno que deveria ser o centro das políticas educativas. Daí os altos índices de exclusão e de insucesso. Quem governa quer manter-se no poder a qualquer preço, gasta na sua promoção e apresenta-se completamente alheio aos olhares definidores das prioridades e do esbatimento das desigualdades sociais. Cada um que se arrume!
É isto que me dói e que me deixa revoltado perante tanta desgraça que tem sido do conhecimento de todos nós, com os governantes mergulhados no seu egoísmo, na valorização da sua imagem, na visita de peito cheio aqui e ali, no microfone onde debitam banalidades, raramente ou nunca numa leitura correcta sobre as situações e, como lhes compete, na implementação de medidas tendentes a corrigir os dramas que fragilizam a sociedade. E por aqui fico.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 7 de abril de 2012

CARTA A PROFESSORES, ALUNOS, PAIS, GOVERNANTES, CIDADÃOS...


Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.

Remeteram-se o texto de uma carta dramática escrita pela filha de uma Professora. Entendi publicá-la porque são já muitos os casos semelhantes. A depressão acompanha centenas ou mesmo milhares de professores. Ainda ontem escrevi sobre o sistema educativo e sobre a necessária mudança que deverá ser operada no sistema educativo. Infelizmente, os governantes preocupam-se com as margens e não com a profundidade dos problemas. O que ontem escrevi leva-me a que reproduza essa carta assinada por Sara Fidalgo, filha de uma professora que se suicidou.
Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados. Por Sara Fidalgo. Sexta-feira, 9 de Março de 2012.
As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passou das aulas de uma hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total. Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos.
Depois veio o secundário e deixámos de ter “folgas” porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as “aulas de substituição” nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero.
Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores. Até ao dia 1 de Março. Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das melhores professoras de Inglês que conheci, o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os tremores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: “Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores”. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educar. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem.
A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar, levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andou. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça.
Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.
De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço (todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra “incapaz” sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir “ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora”. Mas era verdade. Ela soube. Ela foi.
Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros eletrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum. Eu, pelo menos, não o consigo ver. E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda. Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender. Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor.
Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve, até não poder mais.
Sara Fidalgo
P.S. Não posso deixar de agradecer a todos os que nos ajudaram neste momento de dor.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 22 de novembro de 2009

A SOCIEDADE QUE ESTAMOS A CONSTRUIR

Há dias, na Assembleia Legislativa da Madeira, produzi uma intervenção orientada, fundamentalmente, para a sociedade que estamos a construir. Hoje, com grande oportunidade, o DN-M insere um importante trabalho da autoria do Jornalista Ricardo Duarte Freitas sobre as causas do suicídio. A páginas tantas, o juiz do Tribunal de Família e Menores, Dr. Mário Silva, sugere uma reflexão sobre o actual modelo de sociedade que estamos a construir para os jovens. "O suicídio e o parassuicídio (tentativa de suicídio) são problemas que naturalmente me preocupam e que me levam a reflectir sobre o modelo de sociedade que estamos a construir, nomeadamente para os nossos jovens, com a busca exaustiva da perfeição aos vários níveis e com expectativas por vezes excessivamente altas". Eu diria que o Juiz tocou, exactamente, no núcleo central do problema, isto é, na organização social.
Na colisão de vagas (agrícola, industrial e pós-industrial ou superindustrial), na superluta de que fala Alvin Toffler (1984, pág. 13), geraram "novos estilos de família, modos modificados de trabalhar, amar e viver, uma nova economia e novos conflitos políticos". É esta vaga, eléctrica, nervosa, sustentada na febre do "ouro" e na riqueza rápida, que levou Toffler ao contraponto: "(...) agora que a civilização da Terceira Vaga fez o seu aparecimento, implicará a industrialização rápida, a libertação do neocolonialismo e da pobreza ou, pelo contrário, garantirá a dependência permanente? (...)". Da pertinência da questão eu diria que ficámos, inexoravelmente, pela dependência permanente. Passámos da Sociedade da Manufactura para a Sociedade de Mentefactura, na feliz síntese de Luís Cardoso. É verdade que, o que hoje está em causa, não é o músculo mas a cabeça e a FACTURA. De forma rápida e sem acautelar todas as variáveis. E isso, tal como salientou David Vice, da Northern Telecom, determinou que os anos noventa e seguintes ficassem para a História como a década da pressa e da cultura do nanosegundo. E foi mais longe, concluindo com a ideia-chave que, no futuro, aquele que estamos agora a viver, "só haveria lugar a dois tipos de gestores: os rápidos e os mortos". Posição, aliás, compaginável com a perspectiva que Peter Drucker (1992) quando referiu que sendo estes tempos de mudança logo seria "preciso estar preparado para abandonar tudo ou então desertar do barco".
Ora bem, é esta pressa, esta loucura de viver, esta cultura de um mundo organizado a partir do nanosegundo, que é provocadora de um ambiente à escala global de grande instabilidade e turbulência. Hoje vive-se um mundo orientado para a diversidade, para o cliente em permanente mutação e para as novas necessidades traduzidas diariamente por uma moda que se transforma a uma velocidade vertiginosa. Como salientou o meu Amigo Doutor Gustavo Pires, temos de aceitar que este século que agora dá os primeiros “passos” será o século das incertezas, do desenvolvimento tecnológico, da pressão demográfica, do pragmatismo, pelo que se vivem, por isso, tempos difíceis, tempos de confronto entre o novo e o velho, o Norte e o Sul, o interior e o litoral, o local e o global, o formal e o informal e é neste quadro de paradoxos que hoje se organiza o mundo em geral e as nossas vidas em particular. A única segurança estará (?) na nossa capacidade de ultrapassar as dificuldades e os desafios deste novo século. E isso só se conseguirá pela imaginação e pelo conhecimento, sustentados em amplos processos de formação democrática.
De qualquer modo, tenho muitas dúvidas sobre o caminho que estamos a trilhar. Considero, para já, que caminhamos para a tragédia. Os sinais são evidentes, pela ausência de participação democrática, pela imposição dos vários directórios mundiais que conjugam interesses sem fim, pela sensível incapacidade dos políticos (circunscrevo-me, agora, ao País e à Região) gerarem as condições necessárias para definirem os princípios de uma nova organização social. Creio que este vale tudo, independentemente das situações de natureza patológica, só pode gerar depressão e morte. As posições do Psiquiatra, Dr. Ricardo Alves (DN), são muito claras sobre o problema do sucicídio. Vale a pena ler o trabalho publicado.
Fotos: Google Imagens.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

SUICÍDIO - UM DESABAFO!

Ainda a semana passada tive conhecimento de um suicídio de um empresário com formação superior. Hoje, pela manhã, comunicaram-me outro, também empresário e com formação superior. Pessoas socialmente conhecidas e que chegam, rapidamente, ao nosso conhecimento. Outros, nem deles se sabe, jovens e menos jovens, e quantos, pergunto, são salvos nos serviços de urgência. Esta auto-destruição da vida aflige-me e, certamente, aflige todos os que amam a vida. E o que é sensível por aí é o silêncio sobre este arrepiante drama, certamente, porque tem muito que se lhe diga.
A depressão, a melancolia, a grande tristeza, a desesperança e o pessimismo, entre múltiplas causas que aos especialistas compete identificar, deveriam ser motivo de análise e debate aberto, face a um quadro que me parece ser muito preocupante. Quem o comete está, obviamente, em grave e profunda depressão e, por isso mesmo, deveria estar sob vigilância, até porque os sinais ou tendências suicidas não surgem dia um dia para o outro. Mas a sociedade pouco se rala, individualista que é, tampouco quem governa entende serem necessárias adequadas políticas. Escreveu Morpheu: "(...) o suicídio é muitas vezes uma solução patológica para um angustiante problema que a pessoa considera intransponível, como o isolamento social, as dolorosas injustiças, ingratidões, maus tratos, violências psíquicas a vários níveis, um lar que se desfez durante a infância, situação altamente traumatizante, cuja ferida se arrasta numa dor insuportável e culmina mais tarde numa depressão gravemente patológica que conduz ao terminus da vida. É ainda, a consequência de uma doença física grave, o desemprego, a toxicodependência, o envelhecimento que não se aceita, etc.
Li que "90% dos suicídios se verificam em resultado de múltiplas doenças psíquicas ou psiquiátricas. Cerca de 15% dos suicidas sofrem de depressão, em que a desmotivação de vida é insuportável, e torna-se imbatível o não querer viver. Dir-se-á que a pessoa perdeu toda a capacidade energética e a vida deixou de ter o mínimo sentido ou interesse. Cerca de 7% sofre de dependência alcoólica".
Naqueles 15%, é convicção minha, encontram-se muitos que são a consequência da sociedade que estamos a construir. A sociedade do ter antes do ser, a sociedade da ambição sem limite, a sociedade das aparências, das festas, da vergonhosa ostentação, da competição com o outro embora sem meios para tal, a sociedade que também relega, não olha, castiga o eventualmente mais fraco atirando-o para a prateleira dos desprotegidos. É esta a sociedade que, de olhos vendados, constrói, alegremente, as armas da sua auto-destruição. E nem conta dá do tortuoso caminho que está a percorrer. É esta louca correria em que muitos embalam, sem o sentido da responsabilidade, do bom senso, da honradez, do passo de acordo com a perna, que conduz, paulatinamente, às insónias, a ansiedade, à angústia, às drogas sejam elas de que tipo forem e, finalmente, deduzo, à desesperança.
A este tipo de organização social digo, com firmeza, NÃO, OBRIGADO!
O desenvolvimento não é isto nem é para dar nisto. O desenvolvimento tem a ver com três dimensões inter-relacionadas:
a) Com uma dimensão económica, ligada à produção e distribuição dos bens;
b) Com uma dimensão social, ligada às condições de vida e com as desigualdades;
c) Com uma dimensão cultural, ligada, fundamentalmente, com o património num sentido lato, enquanto conjunto de capitais (capital social, económico, cultural e o simbólico).
Isto implica que a palavra desenvolvimento deva ser enquadrada no sentido endógeno e integrado, como resultado de considerações de ordem filosófica, ideológica e metodológica. São estes factores que entendo como os pressupostos que devem conduzir à contextualização do desenvolvimento.
Ora, não é isto que está a acontecer na nossa sociedade. Há uma clara inversão nas prioridades que começa no exemplo de quem governa (desperdício) e termina na família (apenas um exemplo) onde o carro topo de gama está primeiro que a casa enquanto abrigo. Um pouco por tudo isto, escrito ao correr do pensamento, temos a população idosa desesperada e sem alegria de viver (quandos deambulam pelos corredores dos hospitais e quantos acamados por aí andam sem condições mínimas de higiene, alimentação e de carinho), o promotor imobiliário aflito porque a sua aventura não encontra mercado, o empresário às voltas com os impostos e com a falta de receitas para os poder pagar, os desempregados onde cada mês falta mais mês, a violência doméstica a disparar, os jovens a desertar da sua terra, enfim, o que me aflige é que perante um quadro de extrema preocupação, não veja quem alerte, quem proponha a discussão, quem aponte caminhos, quem respeite a dignidade dos outros e quem trave esta onda de depressão colectiva em que aos poucos estamos a mergulhar.
Apenas um desabafo, porque desta matéria nada sei. Tão somente me preocupa!