segunda-feira, 23 de junho de 2014

A ABERRAÇÃO DOS EXAMES NO ENSINO BÁSICO


"Chumbos não ajudam a recuperar o desempenho dos alunos. Portugal tem das taxas de retenção mais elevadas da OCDE, mas a medida não é eficaz, diz o estudo do Banco de Portugal".


Chumbar nos primeiros seis anos de escola prejudica o desempenho dos alunos, pelo menos a avaliar pelos resultados dos testes PISA. Por isso dizem os autores de um estudo publicado pelo Banco de Portugal, há vantagens em substituir a retenção, por medidas alternativas de apoio. (Expresso). Rigorosamente nada de novo nesta posição. Apenas a confirmação do que há muito se sabe. É, por isso, que várias vezes aqui tenho escrito e questionado o secretário da Educação sobre o seu posicionamento no quadro da Autonomia Político-Administrativa. Não se trata de um problema Constitucional, mas sim organizacional. Não se trata de um impedimento da Constituição da República ou da Lei de Bases do Sistema Educativo, mas de pensamento estratégico. Não se trata de um problema  apenas da secretaria de Educação, mas de um trabalho sistémico que envolve outras secretarias a montante da Escola. E custa-me ver que a Madeira não tenha uma ideia sobre esta matéria. Pelo contrário, apoia o ministro, verga-se perante o erro e a teimosia de um homem que deseja que o presente se faça à imagem do seu passado escolar, quando os tempos são outros. É a tal frase que tantas vezes aqui repito, a de  uma "escola sempre  igual a competir com a vida que é  sempre diferente". Às vezes chego a pensar se acredita no formato dos exames ao contrário de uma avaliação rigorosa e contínua, ou se se serve dos alunos para avaliar o desempenho docente. Seja como for, de uma maneira ou de outra, está completamente errado. 
Voltar a escrever sobre o mesmo é chover no molhado. Por isso, deixo aqui um texto que alinhavei em Janeiro de 2013. Talvez ajude a melhor situar os leitores desta página face a este problema:
"Não vou muito longe e socorro-me de algumas passagens de um incisivo artigo do Professor José Pacheco (figura que ainda ontem destaquei) publicado na edição de Inverno de 2012 da revista A Página da Educação. O artigo começa assim: "A conceituada revista Science deu a conhecer um estudo que contraria tendências reveladas em recentes decisões de política educativa. (...) Deborah Stipek, docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, trabalhou o seu estudo ao longo de 35 anos. A autora do estudo denuncia o facto de os jovens serem treinados para obterem bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. E acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada. (...) Irá o senhor ministro contrariar dados científicos? - questiona e prossegue: (...) Deborah sublinha o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas enquanto prejudicam vidas que poderiam ser promissoras. Em suma, sublinha o Professor José Pacheco, "um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames é prejudicial à aprendizagem. E quem o afirma é a revista Science que tem por título "Educação não é uma corrida". Escutemos a pesquisadora: "O sistema actual baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Esta forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na actualidade faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos mesmo antes da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja o cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém". Mais adiante, o Professor José Pacheco traz à colação a coordenadora do Centro de Pesquisa em Empreendedorismo da Universidade de S. Paulo: "É preciso redescobrir o signicado de ir à escola, de estudar. Mercado de trabalho e status social são questões que devem deixar de nortear as políticas educacionais. A sociedade valoriza muito mais o trabalho cooperativo, mas a escola forma alunos muito mais focados no trabalho individual" (...) A maioria dos grandes pensadores que deixaram um legado para a humanidade seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido". 
Portanto, concluo, a questão central não pode circunscrever-se aos exames, mas à mudança do sentido de Escola. Mudança de paradigma que é difícil, sublinho, não só porque os políticos não se interrogam, mas porque há uma mentalidade formatada e encaixotada que impede desde logo a discussão séria dos assuntos. E se os centros universitários de formação e investigação bem lutam por uma mudança, a verdade é que se trata de uma luta desigual, simplesmente porque, por ignorância altifalante, os decisores não querem ouvir.
Esta mudança, que leva muitos anos, quando está em causa a completa ruptura de um sistema e a paulatina criação de um outro, não significa, no ensino básico, é dele que estamos a falar, ausência de avaliação quer no vértice da pirâmide do sistema (vértice estratégico - ministério ou secretaria regional), quer na linha hierárquica (ao nível de escola), quer ao nível do centro operacional (professores e alunos). Pelo contrário, as exigências são muito maiores, porque formativas, contínuas e sistémicas. Mas para essa construção falta, na expressão de Rubem Alves uma "erecção da inteligência" a todos os níveis!"
Ilustração: Google Imagens
OUTROS TEXTOS:
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/05/os-exames-que-nunca-deveriam-ser.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/05/exames-de-1-ciclo-e-ereccao-da_2.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2014/01/nuno-crato-nao-tem-emenda-exigencia-e.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2014/06/nem-fecundam-nem-se-deixam-fecundar.html

domingo, 22 de junho de 2014

AS SOCIEDADES DE DESENVOLVIMENTO ESTÃO FALIDAS. SERÁ NECESSÁRIO FAZER UM DESENHO?



Li, com a maior das atenções, a entrevista da Drª Maria João Monte, ex-deputada do PSD-M e, actualmente, presidente das Sociedades de Desenvolvimento. Fiquei na mesma. Tenho um Amigo que costuma dizer: "para falar ou ouvir certas pessoas, às vezes tenho que me esquecer do sei". Pois. Perante as responsabilidades do governo nada disse, isto é, fugiu a sete pés! Às responsabilidades dos outros, claro, caiu em cima. Refiro-me às responsabilidades dos incumprimentos por parte de empresários e outros, mas, relativamente ao Porto Santo, saltou com os dois pés em cima, com números, como se a dívida pertencesse à actual equipa que lidera a Câmara. O habitual. Eu que passei pela Assembleia Legislativa, em dois períodos cruciais, 1996/2000 e 2007/2011, lembro-me, perfeitamente, de tanto de debate que ali aconteceu sobre as ditas sociedades e tenho presente tantos alertas sobre os erros que estavam a ser cometidos. Vem agora a Drª Maria João Monte dizer que encontrou "vícios, incumprimentos em contratos de arrendamento e de concessão". Tudo junto, ronda um esforço de recuperação de receita acumulada na ordem dos "três milhões de euros" (jamais recuperará), admitindo, no entanto, que as rendas, nalguns casos, são elevadas e que a dívida global atinge 498,7 milhões de euros. E sobre o valor das obras de manutenção preferiu não quantificar: "Prefiro deixar para a altura da definição do Orçamento anual, a debater com a tutela. Debater em segredo como se o dinheiro não fosse público!


Importante seria, pelo futuro da Madeira, que a Drª Maria João Monte, que se diz mais executiva do que parlamentar, talvez quisesse dizer, menos política, assumisse as responsabilidades que se escondem a montante: quem definiu o modelo, quem as planeou, quem mandou executar as obras e quem desbaratou milhares de milhões de euros. Todavia, se o Dr. João Cunha e Silva fez boa interpretação de uma passagem da entrevista, encontrará lá uma que não passa politicamente em claro: encontrei "vícios, incumprimentos em contratos de arrendamento e de concessão". Pergunto: e quem foi o responsável político por essa vergonhosa gestão?
Para avivar a memória da Drª Maria João Monte deixo aqui um texto que publiquei em 04 de Junho de 2010, já lá vão quatro anos, quando o grupo parlamentar do PS-Madeira elaborou 404 perguntas sobre as Sociedades de Desenvolvimento e que nunca tiveram resposta do Vice-Presidente do Governo. O texto baseia-se em declarações do Dr. Carlos Pereira ao Diário de Notícias: 

"A partir de 2012, e durante pelo menos 10 anos, cada madeirense irá pagar por ano 280 euros, cerca de 70 milhões de euros, mais de 5% de todo o orçamento da RAM".

Ambos são responsáveis pelo descalabro político
Desde há muito que considero um monumental erro a criação das Sociedades de Desenvolvimento. A edição de hoje do DN-Madeira traz um trabalho onde o Deputado Dr. Carlos Pereira elenca uma extensa listagem de preocupações que devem ser consideradas. Deixo aqui algumas passagens:
"Obras megalómanas" em freguesias de população reduzida, restaurantes e bares sem clientes ou em zonas onde desincentivam os privados, projectos que nem para a sua manutenção arrecadam receita e o enigma de como acorrer aos "assustadores compromissos" com a banca, já em 2012. (...) O grande problema é que, já a partir de 2012 - avisa Carlos Pereira -, a Região terá de pagar as dívidas contraídas para as obras das SD. E como as Sociedades mergulharam na "falência técnica", no dizer do próprio Tribunal de Contas citado pelos proponentes, estão incapacitadas para qualquer solução aceitável. Muitos dos empreendimentos nem conseguem garantir a sua própria manutenção e o drama exige um 'ponto de situação' urgente. O que significa clarificar, em pormenor, os projectos das Sociedades, a começar pelos mais emblemáticos, nos seguintes planos: capacidade para gerar receitas e fazer face aos compromissos financeiros; capacidade para gerar emprego; e ainda a alavancagem de investimento privado que cada um destes investimentos públicos tenha proporcionado.
Sem estas diligências não será possível debater "estratégias futuras" com vista a solucionar os problemas criados com a política em apreço, apresentada de início como de "interesse público" e baseada em "motivos consistentes". Entretanto, sublinha Carlos Pereira, as SD criaram uma "dívida colossal que corresponde a quase metade do Orçamento da Região". (...) Para o deputado socialista, hoje "os factos não enganam": as sociedades de desenvolvimento foram um "tremendo fracasso". O ónus que recai sobre os madeirenses é "demasiado pesado para os magros efeitos positivos desta incoerente operação". O futuro é sombrio: "A partir de 2012, e durante pelo menos 10 anos, cada madeirense irá pagar por ano 280 euros, cerca de 70 milhões de euros, mais de 5% de todo o orçamento da RAM". É que os resultados dos investimentos das SD "não libertam nem alguma vez libertarão meios para pagar a dívida ou sequer os encargos". Pior ainda, na análise de Carlos Pereira, é que estas empresas públicas, além de praticamente não terem criado emprego, "foram responsáveis pelo afastamento do investimento privado".
Seria bom, sem limite de tempo, como acontece com o Presidente do Governo no decorrer do debate do Orçamento e Plano, que fala a solo sem possibilidades de ser questionado, o Vice-Presidente viesse à Assembleia e respondesse às 404 questões que foram elencadas sobre as Sociedades de Desenvolvimento, hoje consideradas de Endividamento". 
Um outro texto sobre as "Sociedades de Desenvolvimento" pode ser lido aqui.
Depois deste paleio da Drª Maria João Monte, melhor seria pedir autorização ao Dr. Cunha e Silva e disponibilizar-se para ir à Comissão de Economia da Assembleia e responder às 404 perguntas que o Grupo Parlamentar do PS colocou e que nunca iveram resposta. Ainda está a tempo.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 21 de junho de 2014

GENERAL GARCIA DOS SANTOS: "NESTE MOMENTO, EU NÃO ACEITO SEQUER OLHAR PARA A CARA DELE"



10.000 PÁGINAS QUE VALEM ZERO. E OS CONCORRENTES À LIDERANÇA O QUE PENSAM DISTO: ALINHAM NA FANTOCHADA OU DEMARCAM-SE?


Não é sério, nem é para levar a sério no campo político. Treze volumes, certamente com muitas pessoas envolvidas, uma pipa de massa gasta e, pergunto, para quê? Resolverá a dramática situação de uma dívida criada por este "senhor governador", por este "senhorio dos novos tempos", dívida que vai nos 6.3 mil milhões, sem contar com as "Parcerias Público Privadas"? Não discuto, porque não sei, o rigor Histórico dessas 10.000 páginas, mas no plano meramente político, para os fins a que se destina (demonstrar que a Madeira não é uma terra despesista), parece-me óbvio que esses volumes se juntarão ao extenso rol das megalomanias jardinistas. É mais uma no plano do despesismo. 


Neste caso, os de lá vão rir-se com o disparate, porque eventuais erros do passado não ilibam a irresponsabilidade dos últimos trinta e tal anos. Trata-se de um "inconseguimento" do "chefe" na expressão da Presidente da Assembleia da República!
Mas, pior que isso, custa-me aceitar que falte tanta coisa nas escolas, no sistema de saúde, no apoio aos menos jovens, aos pensionistas, a todo o sistema social, aos empresários e estes senhores gastem onde não é prioritário, apenas por uma questão de birra e até de defesa pessoal, para demonstrar a sua reclamada "inocência" na colossal dívida que o "chefe" gerou. Acredito, inclusive, à falta de melhor justificação, que essas dez mil páginas constituem um certo contraponto ao processo "Cuba Livre". O tal cujo Acórdão nunca mais sai!
Se a JUSTIÇA funcionasse como eu a entendo, se a responsabilidade dos políticos fosse igual à de um cidadão comum, estou certo que muitos estariam em maus lençóis. Talvez... presos! 
E quanto ao "estudo", disseram-me que liderado pelo "historiador do reino", os independentes, sem vínculo ou sem interesses, vão ter tempo para esmiuçá-lo. Sei lá se não irão descobrir coisas curiosas nos últimos anos! Já agora que a História vá até ao fim.
Finalmente, os "delfins" o que pensam disto? Alinham nesta fantochada ou demarcam-se?
Foto: Arquivo pessoal. 
Título: "Uma Autonomia a precisar de uma operação mamária"

quinta-feira, 19 de junho de 2014

UMA INTERVENÇÃO DO DEPUTADO CARLOS PEREIRA QUE INCOMODOU A BANCADA DO PSD


Exacto, Senhor Presidente da Assembleia, para resolver o problema da "ESPADA", há muita outra discussão mais profunda que tem de ser feita. Tal como a espada que vive a enormes profundidades. O Senhor Presidente da Assembleia devia ouvir a conhecida intervenção da deputada brasileira Cidinha Campos, quando a discussão era sobre o leite, ela preferiu falar dos que mamam!
 

VIA LITORAL E VIA EXPRESSO... É UM FARTAR VILANAGEM!

A PROPOSTA DE MÉNAGE DO PSD-MADEIRA


No plano meramente teórico, dificilmente o CDS/PP consentirá um "namoro" (político) com quem, desde sempre, foi tido como um parceiro rasca, ligado aos interesses da "Madeira-Velha", aos senhorios, aos colonos, aos ingleses e à Maçonaria, entre muitas outras e gravíssimas ofensas no plano individual dos seus dirigentes. Seria contranatura um casamento precedido de namoro parlamentar, uma clara falta de respeito por si próprio e um pontapé naquilo que diz ser o seu posicionamento filiado na doutrina social da Igreja. Juntar os trapinhos e entregar-se nos braços de quem faliu a Madeira, gerou desemprego e pobreza, parece-me arrepiante quanto à dignidade política. Mas, na política tudo é possível, pelas forças que se movem e pelas promessas "sinceras" de um "amor eterno" até que a "morte os separe".

Uma AUTONOMIA
que precisa de uma operação mamária!


É evidente que o CDS/PP está entre a espada e a parede. Daí, na óptica do seu líder, José Manuel Rodrigues, a proposta de uma ménage (moradia a três no significado original) porque "a sociedade madeirense está poluída por um ambiente de conflitualidade, radicalismo e agressividade trazido por agentes políticos" e, por isso, essa necessidade de um "ménage à trois", "inadiável" entre o seu partido, o PSD e PS na Madeira para ultrapassar a situação. 
Apesar das palavras de circunstância ditas boca fora, parece-me óbvio que José Manuel Rodrigues não está para aí voltado, por um lado, porque sabe que isso significaria trazer a raposa para dentro do galinheiro e, por outro, a população não veria com bons olhos uma vida de concubinato entre entes que se rejeitam, se ofendem e com longos anos de injúrias e difamações. Repito, alianças dessa natureza são contranaturas e espúrias. Digamos que José Manuel Rodrigues teve de fazer aquele número político, por duas razões: uma, eleitoralista, pois fica sempre bem falar de qualquer coisa que, pressupostamente, revele desprendimento, interesse pela Madeira e que o povo entenda; segundo, por razões de proximidade à coligação nacional. Ainda hoje, sem surpresa, José Manuel Rodrigues reconheceu que "Portugal precisa de uma profunda revisão da sua Constituição" porque a lei fundamental está "desadequada" e porque constitui um entrave à política do Governo da República. O meu Amigo de longa data José Manuel Rodrigues pareceu-me aquele "padre" de aldeia que dizia: "em verdade vos digo que não acredito no que digo". José Manuel Rodrigues disse e, certamente, bebeu água de seguida. Porque ele, inteligente que é, sabe que não é a Constituição que está em causa, mas quem não soube e não sabe governar. Sempre que o árbitro de futebol erra, e isso acontece tantas vezes, não vamos alterar as regras do jogo! José Manuel Rodrigues sabe que assim é e, portanto, quis passar a mão na coligação nacional e dar uma "esperança" ao pedido de namoro do PSD-M que, todos sabemos, vocifera contra a Constituição. 
Extraordinária foi, entretanto, a posição do Deputado Tranquada Gomes (PSD), depois de mil uma alterações ao Regimento da Assembleia, todas ou quase todas com a sua assinatura e sempre no sentido de coarctar a intervenção dos partidos da oposição, venha agora reconhecer que "hoje não basta um partido maioritário para resolver os problemas da Região" porque necessário se torna "um amplo consenso entre os partidos que podem ser alternativa". Isto é, andou anos a fio a "violar" (os textos, claro), a maltratar, por via disso, o debate político e agora, faz aquela declaração de amor, quase dizendo, queridos, eu passei um tempo conturbado, eu fazia sem saber porque fazia, perdoem-me, eu juro fidelidade! Eu estou num grupo onde fazemos terapia, estamos a exorcizar os nossos demónios, creiam que estamos a caminho da cura. Espantoso!
Para mim a situação é muito clara. Espero que o CDS/PP que diz ter "ideias claras" consiga perceber: primeiro, que uma coligação com o PSD-M, a probabilidade é de ambos se afundarem, porque se trata de uma reedição de uma coligação continental face à qual os madeirenses abobinam; segundo, quem foi e é o fulcro do problema, não pode ser elemento da solução; terceiro, que existem outras possibilidades, mais ou menos alargadas, que a humildade política, desde que prevaleça, poderá garantir futuro à Madeira. Finalmente, no que concerne ao PS-Madeira, enquanto partido fundamental, urge uma clarificação interna, devidamente estudada e que não afugente possíveis interessados em acabar com o jardinismo. 

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

EDUCAÇÃO: EU ENSINO. TU APRENDES?


Aí está a época de exames. Com excepção dos exames que determinam o acesso ao ensino superior, entendo que todos os restantes não fazem sentido. Portugal segue uma orientação que não me parece ser a mais adequada face ao conhecimento. É tal a paranóia dos exames que, dentro em pouco, chegarão ao 2º ano do primeiro ciclo. Existem muitos estudos sobre esta matéria. Fui "obrigado" a ler documentos, pelo que, desde há muito, a minha mais profunda convicção se situa na avaliação contínua e rigorosa. Só que isso implica uma reconversão quase total da organização do sistema educativo português. Sobre esta matéria já aqui publiquei vários textos. Deixo aqui uma parte de artigo que acabo de ler do Professor David Rodrigues, subordinado ao título: "Eu ensino. Tu aprendes?" 


A páginas tantas salienta: "(...) A aprendizagem não é papaguear uns conceitos, uns modelos, umas definições ou umas datas. Aprender é muito mais do que decorar ou mesmo do que conseguir "safar-se" numa prova de avaliação. Quantas coisas já decorámos (existe um termo menos polido que tem a ver com os crâneos dos bois e que muito bem define este processo...) e hoje completamente esquecemos? Aprendemos? Não. Decorámos. Hoje quando se fala de aprendizagem, queremos dizer que tem de haver uma mudança de perspectiva entre o que sabíamos antes e o que passámos a saber depois de termos aprendido. A aprendizagem é uma transição de paradigmas sobre uma visão e conhecimento da realidade. Aprendemos quando começamos a olhar para uma realidade de uma forma diferente daquela que olhávamos antes. Vê-se, assim, que decorar manuais, repetir "ipsis verbis" o que o professor disse, não significa que tenhamos feito aprendizagens, significa que temos boa memória - capacidade em que os elefantes nos parecem levar vantagem... e os computadores nos dão uma escandalosa "abada"...
Não existe aprendizagem sem relação. Mas relação entre quê? Antes de mais, entre o que sabemos e o que temos de aprender. Nenhum professor consegue ensinar um aluno se não souber o que ele já sabe. Antes de mais, aprender é esta ponte entre o antes e o depois. Mas a aprendizagem implica outras relações: com o objecto do conhecimento. Ninguém consegue aprender se não estiver autenticamente interessado no objecto da aprendizagem. Daqui a importância de incentivar, de reforçar a motivação. 
Teoricamente, toda a gente está interessada em aprender. Mas, na realidade como poderemos fortalecer este interesse em conhecer, este interesse em ter uma relação com o objecto da aprendizagem? Sobretudo se o objecto da aprendizagem estiver longe das motivações do aprendente? E falta, ainda, um outro tipo de relação: de quem ensina com quem aprende. Não conseguimos aprender com alguém a quem fomos indiferentes, por quem não temos qualquer consideração ou mesmo detestamos. Aprender implica, também que se estabeleça relação entre ensinante e aprendente. Esta é uma relação de respeito, de incentivo, de descoberta e de camaradagem. Sem ela, nada feito. Três relações, portanto: com o que se sabe, com o que se quer aprender e com quem connosco coopera para aprender (...)".
Definitivamente, as nossas escolas, ou melhor, o nosso sistema, não está preparado para este desafio.  E o que  pensará o secretário regional da Educação?
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 17 de junho de 2014

UMA EUROPA EM QUEDA LIVRE


Não sou especialista em assuntos europeus e, portanto, corro o risco de uma certa leviandade ao escrever sobre a Europa. Mas guiando-me pela sensibilidade e pelos sinais que qualquer um detecta, parece-me óbvio que a configuração desta Europa, nos vários domínios, não está para durar. 


Se os riscos de convulsão interna já eram evidentes, agora, depois das últimas eleições europeias, os próximos tempos serão de natural conflito. Entre os nobres princípios que nortearam a sua formação e aquilo que é oferecido aos cidadãos europeus, a diferença é abissal. Hoje, encontramo-nos todos espezinhados por directórios que mandam a seu bel-prazer, que determinam a vida dos Estados e dos seus povos, que, paulatinamente, impõem as suas directivas como se todos os outros não fossem Estados Soberanos. Quase deixamos de existir. Não é assunto novo. Tratou-se de uma construção perversamente "inteligente", lenta mas segura, com objectivos bem delineados de conquista e de esmagamento. Numa aproximação a Ben Baddikian (1994), embora outro fosse o contexto, "os senhores da aldeia global têm a sua própria agenda política e resistem a quaisquer mudanças económicas e sociais que não se ajustem aos seus interesses financeiros. Juntos eles exercem um poder homogeneizante sobre as ideias, as culturas e o comércio que afectam as maiores populações de que se tem conhecimento desde sempre. Nem César, nem Hitler, nem Roosevelt, nem qualquer papa tiveram tanto poder como eles para moldar a informação da qual tantas pessoas dependem para tomar decisões, sobre as mais variadas matérias: desde em quem votar até ao que comer (...)".
Estamos à beira do desastre e do conflito. Os povos estão a levantar-se contra esta Europa. O sentido de voto e a abstenção têm um significado muito evidente. O Euro, provavelmente, será sacudido e os silenciosos desígnios  da Alemanha serão combatidos. Olho para estes dirigentes europeus e vejo a mentira, a aldrabice, os interesses, a fuga para a frente, tal como a montagem fotográfica acima, um Barroso que é um zero, mas apostado numa Europa capitalista selvagem. Os próximos anos certamente que se instalará o conflito institucional. Aliás, coisa que Nigel Paul Farage, político britânico, já em 2011, não tivesse denunciado no Parlamento Europeu.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

ISABEL MOREIRA: CAVACO É UMA FRAUDE!


"Não me lembro de não existir Cavaco. Quando Cavaco não era ainda a mais regular instituição democrática do país, a minha idade não permitia dar pela figura. Nada haveria de angustiante nisto se, tantos anos no poder, como Ministro, como Primeiro-Ministro e como Presidente da República fossem anos largos, porque o ator político é excecional. É difícil, não vivendo numa ditadura, imaginar alguém ser tudo o que se pode ser em política, de eleição em eleição, com a substância da não-substância.

Um artigo da Deputada Isabel Moreira

Um mau Primeiro-Ministro chegou a Belém, oportunidade para brilhar nas malhas largas que o sistema semipresidencialista oferece ao cargo (basta recordar o génio de Mário Soares), oportunidade rejeitada, e não perdida, desde a primeira hora, em nome de uma presidência cujo exercício, de mau, já deu azo a teorizações acerca da bondade do nosso sistema político.
Cavaco despreza o significado do seu cargo: ser um órgão de soberania; representar a República; ser o garante da independência nacional, da unidade do Estado e do regular funcionamento das instituições democráticas; defender a Constituição e fazê-la cumprir; ou ser o comandante supremo das forças armadas. Cavaco despreza a justificação do sufrágio universal que o elege.
Ser Presidente da República não é para todos. Há mesmo uma idade mínima para o ser. É coisa para gente com mínimos de maturidade política e de compreensão do pilar fundamental do cargo, de ser aquele ou aquela que modera, que nomeia e demite Governos e os seus membros, que, numa ponderação difícil, dissolve o Parlamento, que veta politicamente leis e decretos-leis, que suscita a fiscalização preventiva de diplomas, bem como a sucessiva, que nos discursos audíveis e surdos faz pelo Regime e não contra o Regime.
Cavaco é uma fraude. Cavaco conspirou contra um governo legitimado democraticamente, fixando-se, nesse momento, numa trincheira armada com um Partido político que abraçou num projeto pessoal ilegítimo.
São coisas que a história registará. Um presidente a quem todos associarão para sempre a "inventona" de Belém; um presidente que usou de simples vetos políticos momentos explosivos anunciados para as 20 h da noite, inventando uma ofensiva socialista aos seus poderes constitucionais; um presidente que à margem dos tais poderes constitucionais nunca saiu trincheira; um economista que se atreveu a mentir sobre as causas da crise, a bem da narrativa da "situação explosiva" criada pelo indisciplinado governo que assim ouviu, no discurso do Ano Novo de 2010, a bala disparada rumo a uma nova presidência e com um governo programado a partir de Belém; um presidente da república que rasgou o seu diploma universitário, ignorando intencionalmente a crise internacional de 2008, a que se seguiu, os efeitos diferenciados do euro, tudo em nome da tal da "verdade", numa palavra, a mentira.
A mentira pegou e Cavaco conseguiu descobrir a pólvora em 2009, que negara em 2008, ano em que surgia como "bom pai de família" e tal.
Veio então a "verdade". Essa narrativa feita numa trincheira com pessoas que agora a negam, caso de Manuela Ferreira Leite, estava cheia daquele bolor moralizante que os bons costumes usam acolher.
É a desgraça da paz social, essa coisa que já permitiu tudo, aqui e noutros países, porque a paz social, ou a invocação dela por outras vias, sempre foi e sempre será apetecível. Chega mesmo a deixar a vidinha caminhar enquanto um ditador teima em durar. Está nos livros.
Cavaco insiste, como insistiu no outro dia, o de Portugal, país que não serve, na tese do antes e do depois, do país sem gestão das contas públicas e no país do rigor.
Na trincheira, fala aos portugueses pouco tempo depois de ter permitido em conluio com o Governo, não requerendo a fiscalização preventiva do OE, o saque durante 5 meses ao salário de funcionários públicos, salários milionários de 675 euros.
Na trincheira, fala aos militares, àqueles cujos subsistemas foram atacados por diploma recente, tendo Cavaco, em conluio com o Governo, feito um uso desviado do veto político, porque sabia que este, ao contrário do veto por inconstitucionalidade, seria, como foi, ultrapassado.
Não me lembro de não existir Cavaco. Mas ele faz por recordar que existe, por razões que me revoltam, enquanto republicana convicta.
O discurso da verdade moralizante é por natureza o discurso da trincheira cavada na valeta que enterrou qualquer razão de estado.
Tenho para mim que a trincheira deixou esticar de mais os braços do desviado da função. Talvez por isso, mais tarde, quando se escrever sobre Cavaco, essa instituição tão regular a qualquer custo, já não se encontrem apologistas da paz habitual".
Ler mais:

sábado, 14 de junho de 2014

NEM FECUNDAM, NEM SE DEIXAM FECUNDAR!


Li as declarações do secretário regional da Educação, Dr. Jaime Freitas, e também as do Director Regional de Educação, Dr. João Estanqueiro. O primeiro multiplicou-se em contas e percentagens ao jeito da publicidade dos relógios que "nem adiantam nem atrasam"; o segundo, chutou para o ministério as causas dos resultados negativos na Matemática, devido às constantes alterações programáticas. Ora, se foram melhores ou piores que os dos anos anteriores, isso pouco interessa. É paleio. Apenas paleio. Este ano melhora aqui e piora ali; no ano seguinte verifica-se o contrário, porque isso depende de muitas variáveis! Depende, até, dos "exigentes" critérios de correção da responsabilidade do GAVE. Portanto, repito, tal questão é paleio com mofo. Simplesmente porque o fulcro da questão está em perceber, no plano político, qual a posição do governo da Região Autónoma da Madeira e, particularmente, da secretaria regional: se considera ou não importante a realização de exames no 4º e 9º anos, se prefere os exames à avaliação contínua exigente, rigorosa e de qualidade e se prefere fazer ou não um simulacro da Autonomia Político-Administrativa. É isto que está em causa. Por um lado, promovem conferências e convidam investigadores para aqui debitarem conhecimento, por outro, continuam a dobrar-se àquilo que é ditado pelo ministério. Não bastasse isso, hoje existe muita investigação, muitos autores com obra publicada e muito pensamento relativamente ao que deve ser uma Escola que se assuma como motor da sociedade. A Universidade da Madeira, para não irmos mais longe, tem pensamento produzido sobre esta matéria. Só os políticos deste trágico governo regional é que não transmitem qualquer opinião segura e portadora de futuro. Não influenciam nem se deixam influenciar. Nem fecundam nem se deixam fecundar!


Um político não pode ser neutro. A política educativa, entre as demais, não é neutra. Impõem-se opções, definição de percursos (políticas) e responsabilidades. E o que se passa com a Educação é qualquer coisa assexuada. Desde que a "loja" abra às 08:00 e encerre cumpridos os horários de "expediente", pois bem, como antigamente dizia o cigarrilha... siga! E que se dane a Autonomia Política. O Crato manda e o Jaime cumpre. O Crato quer que os professores, a partir de Janeiro, TREINEM os meninos para os exames e o Jaime cumpre. O Crato dispensa professores e o Jaime alinha. O Crato altera os programas e o Jaime diz que temos de trabalhar mais (os professores, claro). O Crato impõe um estúpido modelo de avaliação do desempenho docente e o Jaime, retoca, mas mantém a estupidez. E assim vamos, tal como letra antiga... "cantando e rindo, levados, levados"... eu concluiria, e de que maneira! 
Tudo tem o seu tempo e este governo já teve o seu. Há muito que a rotina se impôs à inovação. Apregoam a criatividade, mas preferem a estagnação. Política integrada que coloque os Assuntos Sociais a par da política educativa, bom, isso dá muito trabalho. Depois, é vê-los correr atrás do prejuízo, isto é, do abandono escolar e do insucesso. Importante é dizer por todos os cantos, para disfarçar a moleza, a apatia e a indiferença, que o Estado deve não sei quantos milhares de milhões nos encargos da Educação e da Saúde. Regionalizaram de olhos fechados, não assumiram compromissos sustentáveis e agora, com o cofre vazio, exprimem a reivindicação baseada no "paguem vocês e mandamos nós". Uma  vez mais manda a Autonomia às malvas, sabendo que quem paga, manda!  
E se começassem a governar? Já é tempo. Porque governar é muito mais do que cumprir o horário de funcionário público.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

VÁ LÁ... CONTEM TODA A VERDADE!


Li na edição de ontem do DN-Madeira: "A marina do Lugar de Baixo está a ser negociada com um grupo de investidores portugueses para poder ser concessionada e se tornar num espaço temático e de lazer, a exemplo do zoomarine situado no Algarve ou em Roma. A ideia é tornar o local num autêntico polo de atracção turística constituído por um conjunto de espectáculos, nomeadamente com a interacção de golfinhos". Ainda olhei para o calendário, mas não, ontem foi 12 de Junho e 01 de Abril há muito que foi. Ora, este súbito interesse traz água no bico. Ou existe qualquer coisa ainda não explicada e, portanto, a notícia serve aos potenciais "investidores" para criar um ambiente tendencialmente favorável, ou então, numa leitura mais simples, o governo quer fazer saltar aquela batata quente e aquele poço sem fundo de dinheiro gasto, para as mãos de outros. 


Talvez fosse melhor os tais "investidores", para já sem rosto, das duas, uma: ou solicitarem à vice-presidência do governo regional um álbum de fotografias, por anos, onde ficasse patente as sucessivas fúrias do mar, com um anexo circunstanciado dos muitos milhões de euros ali afundados; ou esperar pelo próximo inverno e assistirem, ao vivo, ao espectáculo entre o belo e o horrível que o mar proporciona naquela zona. Por último, ainda, perguntarem aos mais idosos da Ponta do Sol e do Lugar de Baixo sobre o comportamento das correntes. É evidente que há tecnologia para tudo ou quase tudo, mas esta história não me convence. Vá lá... contem toda a verdade!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

NÃO EXISTE POLÍTICA EDUCATIVA, SENHOR REPRESENTANTE


O Senhor Representante da República para a Madeira, Juiz Conselheiro Ireneu Barreto, manifestou-se preocupado com o nível de iliteracia no nosso país e na Região, e daí pediu a ajuda dos professores para o combate a esta situação “decisiva para o sucesso das novas gerações”. Senhor Representante, uma vez mais, errou o alvo. Não tem de pedir aos professores, mas exigir dos governantes. Nesta terra, onde representa a República (!), deveria insurgir-se contra duas figuras institucionais: primeiro, a Secretaria Regional da Educação; segundo, se quisesse ser mais incisivo, o Ministério da Educação. Os professores, Senhor Representante, têm sido peças descartáveis no processo, não são responsáveis pelo caos social, pela pobreza, pela ausência de políticas de família e pela mentalidade criada que tresanda. Os professores não são responsáveis pelos currículos e pelos programas bem como pelo excessivo número de alunos por escola e por turma. Eles não são responsáveis pelos orçamentos, pela ausência de financiamento dos projectos educativos e não podem ser responsabilizados pela existência de sistemas (educativo, económico, financeiro, social e cultural) que geram abandono e insucesso. Mais lhe digo: os professores não são responsáveis por terem deslocado o centro das preocupações educativas para o professor e não para o aluno: tome-se em consideração a pouca-vergonha da avaliação de desempenho dos docentes, a ausência de uma verdadeira autonomia nos estabelecimentos de educação e ensino e a infernal e estúpida burocracia que não serve para nada. Visite uma escola e pergunte-lhes. 


Os professores não são responsáveis pela matriz do sistema educativo que, no essencial, se perfila na Sociedade Industrial. É fácil perceber as palavras da doutorada em Educação, Rosanna Barros, quando sublinha o facto da “matriz da governação supranacional estar a funcionar” (…) “porque predomina uma agenda redutora, que tem tido a preocupação de destruir aquilo que, apesar de tudo, tem dado mostras de trazer dinâmica”. Eles, Senhor Representante, cumprem tarefas e andam apavorados. Não são responsáveis pela paranóia dos exames no 4º, 6º e 9º anos e que, pelo andar da carruagem, se estenderão às crianças do 2º ano, em detrimento de uma avaliação contínua exigente, abrangente, estruturada, séria e rigorosa. Só que isto implica uma outra Escola ou como escreveu o Catedrático Domingos Fernandes: “(…) só fará sentido pensar em melhoria do ensino e das aprendizagens se houver uma visão sofisticada, elaborada, integrada e global para a Educação”. 
O Senhor sublinhou e bem que “(...) A iliteracia não se resume à incapacidade para interpretar textos. A iliteracia abrange outras realidades, como a incapacidade para compreender o mundo político (…) ou a incapacidade de entender a sociedade em que vivemos”. Certo. Mas, o Senhor Representante, por momentos, já pensou que, por perversa que seja, essa (iliteracia) foi uma intenção política de quem governa? Que uma coisa foi colocar os meninos na escola de acordo com as responsabilidades constitucionais; investir nas infra-estruturas no quadro das preocupações inauguracionistas e eleitoralistas; outra, dar capacidade para que a Escola seja Escola, transmissora de um “conhecimento poderoso” que está muito para além do Português e da Matemática. Como salientou o Filósofo e Catedrático Fernando Savater (in Carta à Ministra), existe, Senhor Representante, um “perverso propósito de converter os jovens em dóceis robots ao serviço da omnipotência castradora do poder estabelecido”. Não encontro melhor síntese.
É por isso que, passados quase quarenta anos, os resultados globais são preocupantes, embora, por paradoxal que pareça, tenhamos a geração mais bem preparada de sempre. E esse mérito, há que não esquecê-lo, fica a se dever aos professores. Sabe, Senhor Representante, Paulo Freire acertou na mouche quando disse que “a Educação sozinha não transforma a sociedade, mas sem educação a sociedade não muda”. Ora, é disto que estamos a falar, da não existência de “educação transformadora” porque os governos não querem. A transformação não se dá por culpa, desleixo ou ineficácia dos professores. O estado da Educação é consequência de uma outra iliteracia que transborda do ministério e deste governo regional. Há uma incultura em estado puro tal como sublinhou, por outras palavras, o Professor Sérgio Niza, figura inspiradora da pedagogia: “O ministério da Educação é de uma ignorância que faz medo”. Imagine, Senhor Representante, o governo regional que, por norma, apenas adapta o que é ditado pelo ministro! Fixe isto: só na aparência os professores gozam de autonomia, porque tudo ou quase tudo está centralizado e tudo ou quase tudo é mitigado. De resto, se a iliteracia pior não é, tal deve-se ao facto de milhares de professores, sofrendo, andarem anos com a casa às costas, manifestarem uma infinita tolerância quando são roubados, no salário e na progressão da carreira, e, ainda assim, manterem uma suprema paixão pelo acto de ensinar.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

DA EUFORIA À TRAGÉDIA



O Estádio Municipal de Leiria, remodelado e ampliado para o Euro 2004, num investimento de 88 milhões de euros, custa à câmara, diariamente, € 16.750,00, estando ainda por pagar 48 milhões de euros de empréstimos, informou a autarquia. Mas não é apenas este: o de Faro/Loulé custou 66 milhões e apresentava, recentemente, € 9.400,00 de manutenção por dia e o de Braga que custou 161 milhões, tinha um milhão de euros de encargos anuais. Para não falar de outros disparates. Nós estamos a  pagar a factura e, no Brasil, onde a população reclama mais e melhor educação e saúde, por exemplo, a factura há-de chegar. Como, por exemplo, chegou na Grécia após os Jogos de 2004, cujas instalações (muitas) são hoje elefantes-brancos. A euforia do Mundial de Futebol do Brasil, inevitavelmente, dará lugar à tragédia. 
Eu gosto de assistir a uma boa partida de futebol. Eu gosto de ver actuar Ronaldo e outros. Não é isso que está em causa. Mas é de mais. Liga-se a televisão e não há canal que nos dê algum descanso. As peças de reportagem sucedem-se, as ligações aos "enviados especiais" são constantes; os assuntos repetidos e especulados até à exaustão através de sucessivos programas de comentadores; é o sujeito que fez 5.000 km de bicicleta para ali estar; é o bar que vende sandes com o nome Ronaldo, enfim, uma paranóia insuportável. É o jogador A com uma lesão, é o B que esteve indisposto, o C que tem apresenta fadiga muscular, o D que ficou no ginásio e não subiu ao relvado, sinceramente, do meu ponto de vista, é de mais, parece que a vida se esgota ali. Até o Presidente da República pediu à selecção que alegre os portugueses com umas vitórias. Como se a bola da FIFA resolvesse as múltiplas questões dramáticas que envolvem as famílias portuguesas. O "ouro" da FIFA fica com eles e com as instituições que a rodeiam. Não tem efeito multiplicador e sobretudo duradouro. Gostaria que tudo fosse mais comedido, sensato e colocado no patamar adequado. Mas não é assim. Resta-me, para já, mudar de canal. Mas, atenção, conto ver os jogos de Portugal e que apesar de todos os nossos problemas, a selecção portuguesa evidencie dignidade competitiva.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 10 de junho de 2014

DIA DE PORTUGAL (ADIADO)


No quadro político e social no qual nos fizeram mergulhar, serão porventura poucos os que olharão, hoje, para esta data com ORGULHO. Obviamente que o meu sentimento e o da esmagadora maioria dos portugueses é elevadíssimo pela nossa História, todavia, é inegável o esmorecimento por aquilo que tem sido feito aos portugueses nos últimos anos. Um período de novo e grave empobrecimento, de saque, de uma clara divisão entre muito ricos e pobres, que tem deixado o país sem esperança no futuro e nas garras de uma economia financeira liderada por instituições de sentido mafioso. Quando estou fora, certamente como todos, sinto o apelo do regresso, porque é aqui que estão as pessoas e as coisas que fazem o meu mundo. Mas ao lado desse apelativo sentimento, outros me envolvem de uma incontida revolta. Do Presidente da República ao governo, toda essa gente não merece este Povo. Mas vão pintá-lo, hoje, em tons garridos, solenemente vão jurar sobre a esperança de um futuro melhor, quando se sabe que as palavras soam a aldrabice e fuga à verdade. 


O Povo emigra, o povo esperneia, o povo sente a fome, uma em cada quadro crianças está em privação, a recolha de alimentos sucede-se, as empresas de corda ao pescoço, o desemprego em alta, o PIB que já vai nos 132% depois de três anos de esbulho, mas lá no alto do púlpito serão derramadas as palavras que ditam que não podemos andar para trás, que o caminho (do empobrecimento) tem de ser continuado e que a felicidade, mínima que seja, está ali ao virar da esquina. Mentirosos e aldrabões! Não está. Obviamente que não está. Temos constragimentos para mais de trinta anos e todo o esforço feito desde 1974, com altos e baixos, é certo, perder-se-á. Porque deram cabo do nosso país e porque eles, fanaticamente, acreditam que a austeridade, a redução dos salários, o corte nas pensões e reformas, a substancial perda de direitos sociais, uma carga fiscal insuportável e a nossa presença no Euro, constituem a receita certa para (re)construirmos um país devastado por uma crise que foi fabricada externamente. Para ficar como desejam, falta agora rasgar a Constituição da República. 
Um pouco por tudo isto, neste dia tenho presente os nossos irmãos emigrantes, nem todos bem sucedidos, muitos que trabalham apenas para se alimentarem, que fugiram e continuam a sair deste espaço que não lhes garantiu futuro. Por esses mantenho respeito, ao contrário do Presidente da República que, ainda há dias, disse que "(...) Devemos assumir uma visão serena e realista desta nova realidade do mundo global, recusando a ideia que a emigração representa necessariamente uma perda irreversível para o país". Fala quem nunca foi emigrante, quem está no "quentinho de Belém" e não tem noção da desestruturação dos laços de família. Fala quem não sabe o que significa a emigração de tantos e qualificados quadros, formados no País e aproveitados lá fora. Fala quem apenas vê a necessidade de algum dinheiro proveniente das remessas, cada vez menor, mas que dão jeito aos que ficam. Será que podemos ter orgulho nesta gente? Eu não tenho nem lhes concedo o direito para falarem da minha Pátria! 
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

NÃO PERCA ESTES 2'49" DE UMA CRIANÇA DE DOZE ANOS!



Fantásticas declarações. Quando esta criança fala de "confisco da Constituição por um partido", deveria o Presidente da República Cavaco Silva, o Primeiro-Ministro Passos Coelho e o Vice-Primeiro-Ministro Paulo Portas, ouvi-la e tomarem consciência se, no contexto português e por outras razões, não estarão também a querer "confiscar a Constituição". É a criança que diz: "os objectivos sociais da Revolução ainda estão para ser alcançados".

domingo, 8 de junho de 2014

BREVE REFLEXÃO


Enquanto cidadão fico, obviamente, preocupado; enquanto militante de base do Partido Socialista, sem qualquer actividade directa, nem vos conto a minha perplexidade. Sou contra as "primárias", neste contexto e pelas razões que já enunciei, embora não coloque de parte, que talvez esse seja um caminho a percorrer no futuro, depois de bem pensado e estruturado. Sendo assim, o PS deveria partir, rapidamente, para a sua clarificação interna através de um Congresso. Sem dramas, sem constrangimentos e sem emoções irracionais. Os actos de humildade e o desprendimento definem a grandeza dos homens e das mulheres. Mais preocupado ainda fico, quando o líder dos socialistas da Madeira, Vítor Freitas, assume: “(...) Não transponho o que se está a passar em termos nacionais para a Região e isso já ficou claro". Está no seu direito, mas tal não corresponde a uma decisão acertada. Seguro, tudo indica que sim, irá contra uma parede; Vítor segue-lhe o rasto, onde nem a experiência de, atempadamente, expôr-se à sociedade lhe passe pela cabeça. Repito, tem esse direito porque foi eleito em Congresso, mas todos sabemos que uma coisa é ganhar um congresso onde as fidelidades se juntam, outra é ganhar os eleitores que são, grosso modo, 97% não filiados. Há momentos políticos com uma carga histórica tal que obrigam a uma ratificação.


A pergunta é simples: "será que eu, líder, político legitimamente eleito, terei capacidade para convencer, pelo menos, cerca de 40% do eleitorado e, por essa via, mudar a Madeira?" Simples, muito simples. Para mais, o quadro de coligações alargadas parece-me afastado, pelo que, a probabilidade é que o PS venha a se apresentar só contra vários partidos, com a agravante do PSD poder vir a ser liderado por uma nova figura, que poderá gerar algum benefício da dúvida entre os que sempre votaram na "setinha para o céu". Não perceber isto ou, pelo menos, não equacionar estas possibilidades, entre outras, não me parece de bom senso e evidencia, por outro lado, uma obstinação sem sentido da realidade. 
Trata-se, apenas de uma reflexão, simplesmente porque, a possibilidade de mais uma oportunidade perdida e de mais quatro anos de idêntico prato, ultrapassa a minha capacidade de digestão! E sendo assim, ninguém deveria ter medo de sujeitar-se à ratificação popular antes do próximo acto eleitoral. No mínimo, anunciem, mandem fazer e publiquem os dados de uma alargada sondagem. E se já existe tal estudo de opinião, façam o favor de dar conhecimento aos madeirenses e portosantenses. Pela Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 7 de junho de 2014

O ERRO DE ANTÓNIO JOSÉ SEGURO. E PORQUE NÃO UMA SONDAGEM NA MADEIRA?


Já me pronunciei sobre a decisão do Dr. António José Seguro. Considero-a péssima para o PS e sobretudo para o país. Digo-o, abertamente, apesar de ser seu Amigo há muitos anos. Desde os anos 90! Depois destes três anos de esforço contínuo pela recuperação da credibilidade eleitoral perdida, sublinho, por factores externos ao país, é verdade que António José Seguro, depois de duas vitórias, merecia conduzir o partido até às legislativas. Repito, merecia! Tratou-se de um esforço notável, pela antecipação que fez dos problemas e  pela consecutiva negação das medidas de austeridade que só viriam a tornar mais complexa a situação do país. O tempo passou e deu-lhe razão: a dívida aumentou substancialmente, o desemprego não diminuiu (os portugueses é que emigraram), a economia paralisou e a pobreza atingiu níveis altamente preocupantes. António José Seguro combateu, diariamente, o monumental roubo à carteira dos portugueses, defendeu os reformados e pensionistas e apresentou medidas visando o crescimento. São factos que podem ser demonstrados não só através das propostas, mas também no contraponto do que defendeu relativamente à situação actual. É verdade que não gostei de alguns acenos ao PSD, quando deveria ser a esquerda a levá-los. De qualquer forma, globalmente, dir-se-á que não foi compreendido. As pessoas, influenciáveis que são, formaram uma ideia menos positiva, que ele não era a solução, que outro existia melhor colocado para defrontar e ganhar as legislativas do próximo ano. E sendo assim, apesar de todo o seu labor, eu julgo que deveria ter saído. Constitui um monumental erro pessoal, para o PS e para o país, a sua decisão em querer continuar, pelo menos até Setembro. Estou convencido que perderá as "primárias" para António Costa (as primeiras sondagens são claras) e acabará por sair por uma porta estreita, quando as circunstâncias proporcionaram-lhe a oportunidade de uma saída pacífica, com grandeza e humildade política. Lamento.


Ainda anteontem participei em um almoço de amigos de longa data. Fui convidado e lá estive no meio de trinta pessoas que muito considero. No final, deixei-me ficar em cavaqueira com um grupo restrito. Falaram-me da política regional e a páginas tantas colocaram o problema de quem estaria melhor colocado para responder aos problemas do país. Foi unânime: António Costa. Reconheceram o esforço de Seguro, mas para o confronto político com a actual coligação PSD/CDS e, com possibilidades de ganhar com maioria absoluta, Costa seria o mais indicado. Confesso que joguei à defesa, isto é, não me expus, fui de parcas considerações, exactamente, para perceber o sentimento das pessoas, embora aquele fosse um pequeno grupo e dali não fosse sensato partir para o universo dos eleitores. Mas foi um indicador a juntar a outros.
Daí a minha dificuldade em compreender a posição de António José Seguro, por maiores que sejam as pressões, a correlação de forças internas e a sua mágoa pelas situações criadas após a vitória eleitoral europeia. Para uma figura politicamente experiente, com capacidade para perceber os sinais externos, inclusive, a sua cotação junto dos jornalistas e comentadores, não deixa de ser esquisito que não tivesse colocado o país acima de tudo e de todos. Atrasar o processo, gerar esta história das primárias, permitir que se instale alguma perturbação no eleitorado, consequentemente, admitir algum fulgor(!) na coligação por ausência de uma clara e consistente alternativa, parece-me que constitui já não digo um tiro no pé, mas na própria cabeça. 
Pela amizade e pelo trabalho político gostaria que Seguro chegasse a Primeiro-Ministro, porque se trata de um Homem íntegro e politicamente verdadeiro e honesto, só que as circunstâncias políticas muitas vezes não são aquilo que desejamos. Os ventos (públicos) não estão a seu favor e, sendo assim, melhor teria sido que saísse e mantivesse um estatuto de grandeza que falta a muitos fazedores de política. Para já, nestas circunstâncias, Primárias, NÃO, OBRIGADO.
E, já agora, como gostaria eu de ler uma sondagem, na Madeira, a fim de perceber quem estará melhor colocado no PS-M para ganhar as legislativas regionais do próximo ano na Madeira!
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A REALIDADE NESTE MUNDO CÃO


O seguinte texto foi publicado, em Agosto de 2012, no El País, tendo-se tornado absolutamente viral em Espanha. Reflecte sobre o terrorismo financeiro e a captura económica. Chama as coisas pelos seus nomes e faz uma análise sobre o capitalismo actual, o que veio a incendiar não só Espanha como todo o mundo. O título é "Um canhão pelo cu", e foi escrito por Juan José Millas. Passaram-se dois anos e a situação agrava-se. Todos sabemos o que se passa. Reli este artigo e decidi aqui deixá-lo para que possamos cruzar toda a informação disponível. É que há situações que a velocidade dos acontecimentos não permite que possamos trazê-los em memória activa. A linguagem pode ferir algumas pessoas mais sensíveis.

"Um canhão pelo cu"


"Se bem entendemos - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo de classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres. E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos".
Juan José Millas
http://resistir.info/ .

O TRIBUNAL CONSTITUCIONAL "É O MELHOR MINISTRO DA ECONOMIA DO GOVERNO"

quinta-feira, 5 de junho de 2014

E OS CIDADÃOS PORTUGUESES É QUE VIVERAM ACIMA DAS SUAS POSSIBILIDADES



Apenas mais uma achega para a compreensão dos problemas. São 43’ de informação detalhada e bem documentada. É pena que ainda não tenha passado num canal televisivo português. Quem assina a peça é um jornalista que se chama António Cascais, por isso ele editou o programa em língua lusa. Deixa claro que a compra foi combinada no governo de Barroso, que é o primeiro a dar o seu acordo ao negócio, que passa a ser seguido pelo ministro da defesa, Portas. No final deixa a informação de uma cláusula contratual que obriga a que a revisão dos submarinos seja anual, pelo preço de € 5 milhões e pelo período de 30 anos, e feita nos estaleiros que construiu o submarino.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A CADEIA ALIMENTAR PARTIDÁRIA


O exercício da política começa a cansar-me. Olho em redor e questiono-me não apenas sobre as atitudes de quem governa, mas também sobre o que fazem algumas figuras de quem deveria partir o exemplo. Olho e identifico: os que não aprenderam com as experiências de vida, inclusive, políticas; os que fazem do exercício da política a sua profissão e não um serviço à comunidade; os que arregimentam votos que permitem alcandorar "amigos" de circunstância a posições de destaque; os que na "cadeia alimentar" partidária vendem a sua consciência a troco de qualquer coisita; os que funcionam como eminências pardas, que estão mas não estão, que trabalham longe e na sombra, que contactam, influenciam, tipo escoteiros "sempre alerta", mantendo a ilusão sebastiânica; os que alinham na lógica do "agora somos nós" e que se danem os outros; os que não têm sensibilidade para perceber que lhes falta cultura política, alicerçada no conhecimento da História, da Sociologia, da Economia, das Finanças, entre um vasto leque que deve constituir a base dos posicionamentos. Olho e apercebo-me da mentira todos os dias passada como verdade. Olho e leio, com desagrado, textos em jornais satíricos, que valem o que valem, mas que narram o basfond das ruelas e dos cordões umbilicais. Bom, dirá quem me lê que estou desencantado! Estou. Tantas vezes apetece-me fechar, definitivamente, este blogue ou a página do facebook, porque aprendi que o Homem não tem sentidos, apenas é sensível.  E eu sou sensível ao que vejo por aí de poderes com pés de barro, de gente que não consegue perceber que lhes falta competência política e idoneidade social e que, por isso mesmo, deveriam perceber que uma coisa é sentar-se em uma qualquer cadeira, outra, ser reconhecida para um dado desempenho. É o egoismo a prevalecer que atravessa desde aqueles que nunca fizeram outra coisa se não exercer o poder, até aos aspirantes a tais funções.

Por si e pelos outros...

E assim os vejo em jogos de poder, tentando afastar quem eles pensam fazer-lhes sombra, reunidos segundo os seus interesses, conhecedores das cartas dos outros, mas jogando tudo por uma liderança, fragmentando o seu próprio partido, numa luta pela sobrevivência que ultrapassa o quadro político. Uns, habituados à grandeza do "negócio político", outros, que se contentam com as migalhas caídas do grande banquete das misérias políticas. Uns mostrando-se sempre esfaimados por mais e mais; outros, contentando-se, apenas, com um lugar atrás de uma pequena mesa e de uma cadeira. Ficam-se por aí, esquecendo-se que o objecto da acção política está muito para além de meia-dúzia de palavras ditas no parlamento, em encontros, jantares ou em comícios de circunstância. Arrastam-se na vida e acabam de infernizar a vida dos outros que olham e acabam por se sentir em um labirinto de interesses e no meio de um ninho de vespas. 
Apesar disso, apesar deste desencanto múltiplo, que provém de análises e sínteses ao que se passa nos grandes areópagos do debate político internacional, à constante mentira vendida como verdade nacional, até à política caseira, julgo que continuará a valer a pena meter o pauzinho nas engrenagens, pela via da denúncia ou pela via da análise no quadro de mais uma opinião a juntar a tantas outras. Lamento que a humildade ande distante, que a febre de um poderzito qualquer cegue ao ponto de a todos prejudicar por um mero capricho ou ambição pessoal. Tal como no "Lago dos Tubarões":  i'm out! 
Ilustração: Google Imagens.
NOTA
Em Abril de 2013 deixei aqui um texto sobre o que Galbraith diz sobre o poder. "O poder cumpre, há séculos, uma regra de três instrumentos: "o poder condigno, o poder compensatório e o poder condicionado". O primeiro refere-se à capacidade de "impor às preferências do indivíduo ou do grupo, uma alternativa suficientemente desagradável ou dolorosa para o levar a abandonar essas suas preferências" (...) " o poder condigno obtém a submissão, infligindo ou ameaçando consequências adequadamente adversas"; o poder compensatório, em contraste, conquista a submissão oferecendo uma recompensa positiva, proporcionando algo de valor ao individuo que assim se submete" (...) na economia moderna a mais importante expressão do poder compensatório é sem dúvida a recompensa pecuniária" (...), isto é, "a submissão aos objectivos económicos ou pessoais dos outros". Finalmente, o poder condicionado "é exercido mediante a convicção e uma crença" (...) a persuasão, a educação ou o compromisso social com o que parece natural, apropriado ou correcto, leva o indivíduo a submeter-se à vontade alheia" (...) a submissão reflecte o rumo preferido" pelo que "a submissão não é reconhecida".

terça-feira, 3 de junho de 2014

UM TEXTO DE AMOR E MEMÓRIA


Batalhámos por mais salários. Foste tu quem impulsionou a aplicação do primeiro salário mínimo (3.300 escudos) na Madeira. Lutámos pelo direito à reforma para todos(as) os(as) que trabalhavam, pelo direito à habitação e pelo fim das furnas e das barracas, por melhores acessos e estradas, por um serviço regional de saúde ao serviço do utente que dele necessitasse, por uma segurança social mais solidária com os mais necessitados, por um melhor ambiente contra a especulação imobiliária e pela proteção do nosso litoral, pela defesas de políticas de igualdade onde a mulher ocupasse o espaço que é seu por direito, etc, etc… Acreditámos sempre que a nossa intervenção na política era uma missão por causas públicas para melhorar sempre as condições de vida das pessoas. Ao defender estas e outras causas nunca perguntámos aos beneficiados(as) qual era o partido em que votavam. Sabemos mesmo que a maioria votava em partidos opostos ao nosso. Mas sentíamos que estávamos a fazer o nosso dever e a nossa consciência estava sempre muito tranquila. Gostávamos de andar na rua de cabeça levantada.

Senhora D. Guida Vieira

Conheço o Paulo Martins há muitos anos. Tenho por ele uma grande consideração e estima, embora  a nossa convivência tivesse ficado por encontros pontuais e pela nossa participação enquanto deputados na Assembleia Legislativa da Madeira. Em Dezembro último visitei-o quando ele se encontrava hospitalizado e em recuperação. Disse-me que dali não saía sem estar recuperado. Espero que rapidamente aconteça. Entretanto, ontem, li um texto de amor e de memória política, escrito pela Guida Vieira, sua companheira de sempre e grande lutadora pelas causas sociais. Não fiquei insensível ao texto e aqui o deixo:
"Faz precisamente este mês 36 anos que legalizámos a nossa relação de casal. Agora que estás doente, acho que te devia dedicar este artigo porque sei que a situação política que estamos a viver sempre te preocupou, talvez demasiado, e que, se conseguisses escrever, continuarias a ser aquele Paulo que todos(as) aprendemos a respeitar e a ouvir e a ler com muito respeito e atenção. Lutámos toda uma vida, mais de 40 anos, para que as pessoas no nosso País e na nossa Região tivessem direito a viver com a dignidade que lhe tinha sido negada pelo fascismo. Agora que tudo começa a ruir, com a ação destes governos sem escrúpulos e sem consideração pela luta desencadeada ao longo de décadas, é bom relembrar, e tu mereces isso, que muita gente trabalhou e batalhou para que o futuro fosse mais feliz para as novas gerações.
Lutámos e conquistámos muitos direitos que dignificaram quem trabalhava e quem se reformava. Sei o quanto lutaste pelos direitos cívicos e políticos e que sempre te bateste para que a Assembleia Regional, onde foste um digno Deputado durante 26 anos, tivesse uma lei de incompatibilidades, que separasse claramente a atividade política de outros interesses económicos. Sempre foste contra a promiscuidade de interesses e dedicaste-te de corpo inteiro ao exercício da política na defesa de causas públicas.
Lutámos juntos por direitos políticos para todos(as), por uma Autonomia regional ao serviço dos(as) madeirenses, com impostos mais baixos que compensassem os custos da insularidade. Combateste ao lado dos Caseiros pelo fim da colonia, e tiveste uma intervenção social nessa luta da qual, ainda hoje, há gente que se recorda. Foste pioneiro em levar ao Parlamento regional as leis das bordadeiras de casa, que lhes deram muitos direitos que, até então, nunca tinham tido. Convenceste, com os teus argumentos para estas causas, todos os restantes parlamentares, que mesmo sendo adversários políticos, reconheciam o mérito dos teus argumentos.
Batalhámos por mais salários. Foste tu quem impulsionou a aplicação do primeiro salário mínimo (3.300 escudos) na Madeira. Lutámos pelo direito à reforma para todos(as) os(as) que trabalhavam, pelo direito à habitação e pelo fim das furnas e das barracas, por melhores acessos e estradas, por um serviço regional de saúde ao serviço do utente que dele necessitasse, por uma segurança social mais solidária com os mais necessitados, por um melhor ambiente contra a especulação imobiliária e pela proteção do nosso litoral, pela defesas de políticas de igualdade onde a mulher ocupasse o espaço que é seu por direito, etc, etc…
Acreditámos sempre que a nossa intervenção na política era uma missão por causas públicas para melhorar sempre as condições de vida das pessoas. Ao defender estas e outras causas nunca perguntámos aos beneficiados(as) qual era o partido em que votavam. Sabemos mesmo que a maioria votava em partidos opostos ao nosso. Mas sentíamos que estávamos a fazer o nosso dever e a nossa consciência estava sempre muito tranquila. Gostávamos de andar na rua de cabeça levantada.
 A política sempre esteve em ti, tão natural e legítima, que, quando todo o mundo dos direitos começou a ruir, tu sofreste como poucos, e desta vez em quase silêncio. Apenas te restavam os artigos de opinião, que agora ainda não consegues recomeçar a escrever, mas que o DN, gentilmente, te continua a indicar datas.
Quem viveu a política como uma causa pública e nunca dela se serviu para seu interesse pessoal, como tu o fizeste, merece estar presente nas nossas recordações, até porque são fontes inspiradoras para não desanimar e continuar a pensar que o futuro pode ser sempre melhor. Mesmo para ti, pois a esperança ainda se mantém de que nos poderás voltar a brindar com as tuas lúcidas análises.
Um dia pedi no meu mural no facebook que se formasse uma forte corrente de apoio, para te transmitir energia positiva para saíres da situação de perigo em que te encontravas. Essa corrente foi enorme e fez-me pensar que muita gente, felizmente, ainda se recorda que tu serás sempre um digno representante da verdadeira intervenção política, ao serviço das pessoas e das suas causas. Peço que essas pessoas continuem a te transmitir energia positiva, para te dar força neste momento difícil."
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

CONTINUAM A CONJUGAR O VERBO ROUBAR


Ontem foi Dia da Criança. Um dia onde continuam a subsistir mais direitos do que justiça! Trouxeram-nas para a rua, organizaram festas e disponibilizaram convívios de que tanto gostam. Hoje, tudo regressou à enervante normalidade, onde um quarto delas vive e continuará a viver no meio da pobreza. Acompanhei duas excelentes peças na RTP 1 que me tocaram, profundamente, que me deixaram com um nó na garganta e uma pergunta sem resposta: porquê? Porquê tanta miséria, tanta carência, tanto ausência de cuidado por aqueles seres frágeis que apenas precisam de alimentação, amor, carinho e formação? Rostos tristes, não sei se assustados ou se de maturidade fabricada à pressa, dizendo o que presenciam e o que lhes vai na alma: "meus pais, às vezes choram"; "minha mãe está desempregada" (...) "antes era melhor"; "estudo música, mas o meu pai já disse que se ficar desempregado não tenho hipótese de continuar". Quando a jornalista os questionou se sabiam quem era Pedro Passos Coelho, a resposta veio célere: o  primeiro-ministro que "rouba". Pois, rouba aos pobres para dar aos mercados, aos senhores de rosto tapado e sem nome, que por aí andam a infernizar a vida de todos nós e de muitos povos europeus. Vi crianças desalentadas, sem esperança, caras exprimindo sofrimento como o daquela mãe que sobrevive com trezentos euros. Certamente, no meio de muitas cujas receitas mensais nem chegam a esse valor. E eles querem que, neste quadro, as crianças  tenham sucesso escolar, que não abandonem a escola, passem o crivo do Português e da Matemática, não adoeçam e sejam felizes! Politicamente, são uns bandidos!


Perante isto, o Soares da Mota, aquele arregalado que é ministro da Solidariedade esquivou-se, não quis ser ouvido. Ele, Mota Soares (CDS/PP), o responsável por tantos cortes, desde os abonos de família ao subsídio de desemprego, passando por todos os outros, por uma sequência absolutamente obscena,  nada tem a dizer, exactamente, no Dia da Criança. Ele sabe, mas assobia para o lado, que estamos no início da tragédia, da degradação social, de um futuro incerto onde a pobreza será paisagem. Ele sabe que retrocedemos mais de dez anos e  que a recuperação deste tempo levará mais de trinta! Ele sabe que tudo isto está pelas pontas, que são as instituições de solidariedade social que esbatem a fome de muita coisa. Neste fim-de-semana foi o Banco Alimentar, uma vez mais, pedir a solidariedade dos portugueses. Nas próximas semanas serão outros voluntários a tentarem remendar um tecido social completamente esfarrapado. 
Compra-se quatro pães, pagamos a totalidade,
mas um é pertença do Estado!
E no meio disto, vociferam contra a Constituição da República. Ela a culpado dos males. Ela que não deixa ir mais longe. Ela que não permite a felicidade do povo. Não é a incompetência destes senhores que governam ao serviço de outros que está em causa, mas sim a Constituição. E vai daí, certamente, a caminho vem um novo castigo sobre toda a população que atingirá, ainda mais, as populações frágeis. Vão carregar no IVA, vão, certamente, impôr mais taxas extraordinárias sobre aos subsídios de Natal e de férias, enfim, vão continuar a roubar a quem pouco ou nada tem. 
As famílias ficarão mais pobres, a natalidade vai continuar a decrescer, a mortalidade a aumentar, o défice público que já vai nos 130% do PIB tenderá a crescer, o abandono e o insucesso escolares vão ter novas e vergonhosas taxas, a saúde ficará cada vez mais periclitante e esta gente continuará, delirantemente, a dizer que não podemos regressar ao passado. Finalmente, para quê este Presidente da República? Ele que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição da República, perante um governo que, por três vezes, apresenta um Orçamento de Estado INCONSTITUCIONAL, pergunto, de que está à espera? Só poderia demitir o governo, mas não, manterá esta vergonhosa política porque, é farinha do mesmo saco.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 1 de junho de 2014

UM PROBLEMA DE GRANDEZA


O Dr. Carlos Pereira decidiu sair da vice-presidência do PS-Madeira. Aplaudo essa decisão e explico porquê. Mas antes quero separar a questão política da questão pessoal. Tenho pelo Dr. Carlos Pereira uma profunda amizade alicerçada em poucos mas bons anos de convivência, troca de experiências e de conhecimentos. Nele vejo um dos melhores quadros da nossa Região, pela sua inteligência, capacidade técnica, hábitos de estudo, visão global dos problemas e um sentido prospectivo que poucos podem vangloriar-se de ter. Aliás, durante muitos anos de actividade política conheci muitas pessoas capazes, que sustentavam o que diziam pelo conhecimento, conheci gente apaixonada que fez da política um serviço à comunidade, amigos que me convidaram e com quem tive o prazer de trabalhar e de colaborar, mas não me lembro de um com as qualidades do meu Amigo Carlos Pereira. Esta é, em síntese, a minha leitura no quadro pessoal. No quadro específico do exercício da política o Dr. Carlos Pereira é um parlamentar de mão-cheia. Que o digam os seus adversários políticos. Rápido no raciocínio, acutilante, um produtor de notáveis sínteses, com humor qb e ironia que apaga qualquer outro se lhe apresente. Habituei-me a ver no Carlos uma cabeça arrumada, com os números da verdade e não os que interessam à verdade conveniente, um conhecimento que está muito para além das ilhas e que, por isso, sempre que fala provoca uma generalizada urticária nas outras bancadas. 


Ora, muitas vezes, perguntam-me, mas quando é que "vocês" têm um candidato no qual possamos acreditar? Muitas vezes, também, respondo a essa questão de duas maneiras: não podemos ir à olaria fazer uma candidato à medida de cada um dos interesses, ou, não se pode estar à espera da última moda para fazer o fato novo. É isso. As pessoas, às vezes, colocam-se nessa área de comodidade, ou porque não vão com a cara, ou com o tom discursivo, ou porque a imagem global não é geradora de credibilidade e, por isso, mandam logo um candidato para a lista dos que não interessam. Se é verdade que nem sempre é assim, eu sei, também é verdade que não é fácil contrariar o sentimento que a sociedade adquiriu e consolidou. Por razões diversas existem, fabricado ou por falta de jeito, pessoas cujas característica pessoais, históricas, de comunicação e outras, por mais que se esforcem, não chegam lá. E, neste caso, é preciso ter noção disso, eu diria espelho, e do que este reflecte, ter a GRANDEZA de abrir espaço para quem esteja mais bem colocado. A "grandeza" de colocar de lado os interesses pessoais e de grupo e a "grandeza" de admitir que a Região e os seus 260.000 habitantes merecem melhor do que têm tido ao longo de quase quarenta anos. Se o sujeito A não consegue, por maior que seja a sua determinação, mandará o bom senso e a humildade política que crie as condições para que tal venha a acontecer. 
Ademais, um partido político só tem razão de existir para ser governo e nunca para gerir espaços que não vão além de um metro quadrado (mesa da Assembleia). Essa dimensão maior, essa dimensão de ver a Região e não a mesa, não se confina a uma lista candidata a isto ou àquilo, porque podem cair, fruto do trabalho, uns cobres na algibeira. O exercício da política é muito mais do que isso, implica ver longe, ter sentido de responsabilidade, conhecimento sustentado na investigação, capacidade de leitura histórica local, nacional e universal, princípios e valores democráticos e humanistas.
Espero que haja "GRANDEZA" suficiente para que a "Mudança" que se apregoa para fora, comece por uma "Mudança" interna. Não de exclusão, até porque todos não são de mais, mas de colocação das peças nos sítios certos de onde resultem ansiadas vitórias.
Ilustração: Google Imagens.