quarta-feira, 11 de novembro de 2015

NOVE RAZÕES POR QUE SERÁ BOM TER UM GOVERNO DE ESQUERDA


José Vítor Malheiros
Artigo de José Vítor Malheiros (Público)


A primeira razão é mesmo aquela que o PSD e o CDS já adivinharam e vieram denunciar nos debates televisivos em tom inflamado, como se fosse razão para uma pessoa honesta ter vergonha.
A primeira razão por que será bom ter um governo de esquerda é mesmo (confesso, confesso) não ter de continuar a ver e ouvir Pedro Passos Coelho nove vezes em cada noticiário, primeiro como primeiro-ministro, depois como presidente do PSD, depois como candidato às eleições, depois como representante de Portugal (vá-se lá saber porquê) num Conselho Europeu, depois como conferencista numa conferência, depois como entrante numa feira agrícola, depois como sainte de uma audiência com Cavaco, depois como visitante daquilo e comentador da outra coisa. Isso, só por si, é um alívio.
Não é que seja pessoal, que não é. Não é só porque os seus lábios eternamente crispados e a escassez do seu léxico me arrepelam a vesícula. Não é só porque a sua cerviz curvada e as suas mãos postas frente a Angela Merkel me encanzinam. É mais político. Mas pôr fim à sua ubiquidade será uma bênção.
A segunda, mais séria, é porque poderemos ter um governo que, para equilibrar as contas, vai recorrer a outras medidas que não sejam rapar os rendimentos do trabalho, confiscar subsídios, aumentar o IRS, criar prestações extraordinárias sobre os salários, cortar pensões, reduzir prestações sociais, cortar serviços públicos, vender empresas públicas estratégicas fundamentais para a economia e vai (espero) encontrar meios de aumentar a receita fiscal olhando também para o património e para os rendimentos do capital e, principalmente, reduzindo a “fuga legal” aos impostos das grandes empresas e das grandes fortunas. Poderemos ter um governo que não acha que os trabalhadores são mimados, que os desempregados são preguiçosos, que os beneficiários de subsídios são parasitas, que os emigrantes são piegas. Poderemos ter um governo que olha para nós não como contribuintes mas como pessoas e cidadãos.
A terceira razão é porque o novo governo vai (espero) defender os interesses nacionais em Bruxelas e noutros fóruns internacionais, o que é uma novidade bem-vinda (quase que nos esquecemos como é que é, mas é possível) e discutir com os parceiros da União Europeia como se fossem parceiros em vez de sermos empregados deles apanhados em falta.
A quarta razão é porque o novo governo vai tentar fazer crescer a economia, o investimento, o emprego e o rendimento disponível dos portugueses, apostando na educação, que garante o reforço das competências; na investigação, que produz o conhecimento que é a matéria-prima mais importante que há; na inovação, que transforma o conhecimento em riqueza; na sustentabilidade social e ambiental, que garante que as próximas gerações não encontrarão um país delapidado e que criará novos mercados; no financiamento das PME, que representam a maioria da economia nacional.
A quinta razão é porque acabou o ilegal, ilegítimo, inconstitucional, imoral e estúpido cordão sanitário que impedia que os partidos à esquerda do PS se aproximassem do poder (veja-se como Cavaco reage à ideia de PCP e BE possam apoiar o futuro governo!) e que desperdiçava assim uma imensa quantidade de ideias e de capacidade de intervenção e afastava milhões da política ao certificá-la como um jogo viciado à partida, onde só a direita e a esquerda light podiam actuar.
A sexta razão é porque vamos enfim ter bancadas parlamentares que apoiarão o governo mas que não serão apenas a voz do dono, exemplos vergonhosos de submissão, de obediência e de subserviência mas que farão o seu dever como representantes do povo, apoiando quando necessário mas também discutindo e propondo alterações. 
A sétima razão é porque teremos um governo que não confunde o Estado Social com a sopa dos pobres – como a pobre, pobre Isabel Jonet – e que sabe que o Estado Social é de todos para todos porque só assim se garante a justiça e a equidade e só assim se garante a qualidade e a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, da Segurança Social, dos programas sociais.
A oitava razão é porque vamos ter um governo que sabe o que é a Cultura e que não a confunde com a decoração de interiores, que sabe que a cultura é um factor de progresso social e individual, de bem-estar social e individual, algo essencial para a vida intelectual de cada um de nós e, por isso, para a nossa vida em sociedade, para o estímulo do conhecimento, da criatividade, do prazer da fruição, do sentido crítico e do sentido de humor sem os quais não se consegue inventar uma sociedade onde seja bom viver.
A nona razão é porque poderemos ter enfim uma governação e uma acção política que não é apenas obediência (à Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu, ao FMI, ao Eurogrupo, à Alemanha, aos mercados, à Goldman Sachs, aos tratados existentes e a existir, aos poderes estrangeiros em geral) mas que pode ser invenção, imaginação, participação, debate e criação. A nossa invenção. Como numa democracia!
NOTA
in Público, 03/11/2015

terça-feira, 10 de novembro de 2015

UM MOMENTO HISTÓRICO



O governo da República da responsabilidade do PSD/CDS caiu. Estou feliz, tal como milhares pelo país fora. Vi, frente à Assembleia da República, abraços de satisfação, de grande emoção, muito certamente por parte de tantos que, ao longo de quatro anos, sofreram através da enormíssima carga fiscal, da retirada de direitos sociais fundamentais, sofreram com o desemprego, sofreram com os dados da emigração e sofreram com o empobrecimento. Só nos dados da emigração temos de recuar aos anos 60 do século passado para obtermos valores idênticos. Trata-se de um acordo histórico, com toda a esquerda a entender-se naquilo que os une e deixando de lado o que os desune. As Leis e os Decretos-lei são apreciados, debatidos e aprovados ou não na Assembleia da República. Sendo assim, porque a Coligação PSD/CDS ganhou as Legislativas sem maioria, obviamente, que não tinha condições políticas para governar. E, em DEMOCRACIA, é tão legítimo a direita coligar-se, como não deve constituir qualquer sobressalto e espanto a esquerda juntar-se para garantir a estabilidade governativa. Cabe, agora, ao Presidente da República seguir os caminhos constitucionais e indigitar um novo primeiro-ministro.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

MARINA DO LUGAR DE BAIXO - O TAPUME DA VERGONHA






















É, claramente, o tapume da vergonha. O tapume da megalomania. O tapume do cemitério de mais de cem milhões de euros. Tudo degradado e à espera de um mais um mar invasor. Responsabilidades, pergunta-se? De ninguém, a avaliar pelo silêncio. Ontem, passei os olhos, fotografei entre as frestas do tapume que a curiosidade de alguns abriu. Infelizmente, há mais tapumes por aí.

domingo, 8 de novembro de 2015

A EMERGÊNCIA DE UM NOVO PORTUGAL POLÍTICO


Olho em redor e sinto a presença de muitos em um misto de expectativa e até de medo pelo próximo futuro. Tenho a sensação de estarmos a viver um momento complexo em função da extremada informação que surge a cada minuto que passa. Nada que não tenha uma justificação. Foram anos de intoxicação política, de transmissão da ideia de bancarrota, que a dura austeridade era inevitável, que a pobreza de ontem e de hoje se transformaria em felicidade, através do crescimento económico, da redução da taxa de desemprego e consequente justa distribuição da riqueza. Fomos absorvidos pela mensagem dos directórios europeus, pela circulação de imagens e de discursos, por um lado, de medo, por outro, de esperança, que compuseram o ramalhete do empobrecimento e da inevitabilidade da emigração forçada. Jornalistas, comentadores e analistas de circunstância, por obediência aos seus patrões, por interesse pessoal, por convicção político-partidária ou incapacidade de estabelecer outras formulações, foram vendendo a ideia de um só caminho, uma só verdade, um único sentido programático no exercício da governação. A extensa teia foi montada e perante uma população que denuncia incapacidade para o cruzamento de dados e produção de sínteses, outra coisa não seria de esperar neste momento político que, dizem, ser de crise política. Existe, assim, para alguns, um efectivo receio do futuro quando se abre a janela da democracia autêntica onde todos os votos contam. 


Habituados que fomos a repartir o poder por três partidos, habituados que fomos à "evangelização", por todos os meios, sobre os perigos de outros serem considerados audíveis nas suas propostas (a estúpida história do arco da governação), o novo quadro, escolhido pelo povo português, está a gerar uma despropositada angústia nos sectores conservadores. É um Deus me acuda! E agora, como será? Falam sobre a necessidade de estabilidade como se ela fosse unidireccional e assiste-se à produção diária de discursos completamente inapropriados, para não classificar de outra maneira, como aconteceu, até, na última semana, na Assembleia Legislativa da Madeira. No essencial, como vão abrir os cordões à bolsa, depois de tanta intoxicação discursiva, interna e aplaudida pela Europa, que, afinal, os cofres não estão cheios e que, por isso mesmo, o caminho reformista é pela direita e não pela esquerda moderada e responsável? O que leio de alguns, embora não seja portador de qualquer verdade, deixa-me perplexo perante as certezas que vão produzindo. Foi-se a atitude reflexiva, no mínimo, de tentar perceber que razões subjazem ao facto de, após tanta austeridade manifestada através de uma enormíssima carga fiscal, nos encontrarmos em situação pior do que em 2011. Bastam-me três indicadores: o facto da dívida ter disparado, representando, hoje, 130 % do PIB, o número de emigrantes nestes últimos anos ser superior a 480.000 e termos regressado aos níveis de pobreza de há dez anos. Esta é uma realidade incontornável. Prometeram-nos mundos e fundos em campanha eleitoral e, depois, veio o "castigo", o esmagamento, a ilusão da construção do futuro, mas sobretudo, a subserviência a uma Europa no quadro da lei germânica!
Não estamos em tempo de experimentalismos políticos, mas estamos em tempo de mudança política. A possibilidade de um novo Portugal político não me assusta. Pelo contrário, desperta-me a esperança, por cá, quando sinto que poderá existir um novo olhar sobre os portugueses espoliados, por lá, um aviso à navegação política europeia, que o "povo é quem mais ordena". Falta saber qual o posicionamento do Presidente da República. Mas, algo cheira-me menos bem. Aguardemos. 
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 7 de novembro de 2015

ABÓBORAS



Li, mas não sei precisar em que documento da NET: "A simbologia da abóbora possui uma ambivalência de sentidos. Por um lado, é associada à distração e à estupidez, por outro, é associada à inteligência". No exercício da política é caso para dizer que há muita abóbora! "As suas sementes são associadas à sabedoria, fecundidade e abundância. A abóbora é também considerada símbolo de regeneração e fonte de vida". 
Deixo aqui as abóboras de um meu vizinho, o Senhor Agostinho, na Calheta. São 22 dispostas umas ao lado das outras. Na maior, a segunda da esquerda para a direita, faltam cinco centímetros para um metro! Espantoso.
Ilustração: Arquivo próprio. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

PRESIDENTE DA REPÚBLICA NA MADEIRA. PARA QUÊ?


Não aprecio e não nutro, parece-me que nesta apreciação não estou só, qualquer simpatia por este Presidente da República. Evidentemente que lhe assiste o direito e até o dever de visitar todas regiões do País e de forma acrescida as duas Regiões Autónomas. Mas a verdade é que, ao longo dos últimos dez anos, quando mais precisámos da sua presença, ele pura e simplesmente não esteve. Em relação às autonomias dele retenho três momentos: a sua satisfação, nos Açores, pelas vacas satisfeitas e que lhe pareciam rir de felicidade no extenso pasto; nas Selvagens, o sorriso de orelha a orelha com as duas mãos a agarrar uma cagarra; e a interrupção das férias para uma desajeitada comunicação ao País, aquando do novo Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores. Destes dois mandatos, para os madeirenses, a sua acção foi NULA. 


E tanto que houve para fazer e sobretudo, dizer. A Assembleia, por exemplo, viveu momentos extremamente conturbados enquanto o ex-presidente do governo ofendia e menosprezava o primeiro órgão de governo próprio. E o Senhor Silva, um dos ofendidos, em todo esse tempo foi incapaz, no mínimo, de uma mensagem ao Parlamento. Assobiou para o lado. E quando por cá passou em visita oficial, fugiu a uma sessão plenária na Assembleia, recebendo os representantes dos partidos em um quarto de hotel! 
Depois, vieram os tempos de dupla austeridade para a Madeira e de tripla austeridade para o Porto Santo e o Presidente continuou em silêncio absoluto. Daí que, a história do seu comportamento político, do meu ponto de vista, valeu zero para os madeirenses e porto-santenses. E agora aparecerá por aí durante dois dias. Pergunto, para quê? Para assinar o ponto em fim de mandato? Talvez!
Por outro lado, não aprecio e não nutro consideração pelas suas posições nacionais claramente partidárias. Nunca foi o Presidente de todos os portugueses e se melhor prova existe é exactamente a sua penúltima intervenção, durante a qual indigitou o Dr. Pedro Passos Coelho para Primeiro-Ministro. Estava no seu direito fazê-lo, não precisava de levar quase dez dias para designá-lo e muito menos, a esse propósito, de produzir um discurso ofensivo para uma larga fatia dos portugueses que votaram no Bloco de Esquerda e no Partido Comunista. Foi um discurso azedo, partidário e de exclusão de uma significativa parte dos eleitores. Repito, agora aparecerá por aí durante dois dias. Pergunto, para quê? 
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

BISPO CARRILHO EM CONTRACICLO COM O PAPA FRANCISCO


Apenas um desabafo na sequência de algumas leituras de circunstância sobre o Papa Francisco. Pensamento enrola-se em pensamento e lá dei eu a confrontar posturas, a do Papa Francisco com a do Bispo António Carrilho. O Papa consegue encher-me, pela sua visão do Mundo, sobre o inteligente ataque às causas dos problemas, sobre a forma como combate o imobilismo e sobre a sua atitude frontal relativamente aos poderosos da economia que nem poupam o Vaticano. O Papa tem a leitura de um Mundo que sobrevive no caos e que fomenta a desesperança e, por isso mesmo, não deixa escapar uma oportunidade para fazer ouvir a sua voz. Mesmo em tempo de fuga de informação e de documentos que revelam extravagâncias financeiras e corrupção no Vaticano, mantém-se "determinado" a avançar com as reformas da Igreja. "Vamos em frente com serenidade e determinação", assumiu, dando a entender que a Sua missão sobreviverá à teia corrupta.



Já o Bispo Carrilho que, agora, nem tem a sombra (condicionadora) chamada Alberto João Jardim, lidera um processo rotineiro e previsível, absolutamente distante da realidade política, económica e social, como se nada estivesse a acontecer na Diocese de uma terra que necessita ser agitada, tantos são os gravíssimos problemas sociais que enfrenta. São palavras do Papa Francisco "(...) Não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e solidário". Ora, esta preocupação não encontra eco na Madeira, quando deveria constituir a mensagem central. Não é com fé e caridade, Senhor Bispo, que se resolvem os problemas, antes pela assunção e contextualização da Palavra, tal como o Papa Francisco aconselha: "(...) Eu quero que a Igreja vá para as ruas, eu quero que nós nos defendamos de toda acomodação, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja não sai às ruas, converte-se em uma ONG. E a Igreja não pode ser uma ONG". A questão é saber como é que a Igreja desce à rua, isto é, desce às pessoas, agitando-as nas causas dos seus dramas, gerando o necessário desassossego e colocando em sentido o poder político. "(...) Não tenho ouro nem prata, mas trago comigo o mais valioso: Jesus Cristo", disse Francisco. E se traz Cristo, obviamente, que transporta essa Mensagem profunda, que a muitos incomoda, embora batam repetidamente no peito. Eu desejaria essa inquietação nesta Diocese, na esteira do que sublinha o Papa: "Não deixe que ninguém tire a sua esperança". E há quem nos esteja a roubar a esperança, seguindo os caminhos do silêncio que compromete. Porquê? Porquê? Porque há pedras no sapato, desde a incómoda situação do Jornal da Madeira até às dívidas pela megalomania na construção de novos templos? 
O Bispo Carrilho, com lamento o digo, não é a figura que a Diocese precisa. A Igreja é muito mais que os rituais e orientações bafientas. Ela tem de ser política porque Cristo foi um político de primeira água. Quando o Papa Francisco assume que "(...) os jovens têm que sair e se fazer valer, sair a lutar pelos seus valores", parece-me óbvio que ele não  está a fazer-lhes um convite à emigração. Antes convida-os, serenamente, a deixarem de ser amorfos, a não permitirem que os obriguem a carregar a cruz das suas vidas assentes na pobreza e na marginalidade, enfim, incentiva-os à luz da Palavra que lutem pelo direito à esperança, quando, até, esse conjunto de direitos tem configuração Constitucional. Ora, isto não se faz com lengalengas gastas, previsíveis e com cânticos de embalar, antes se faz tocando nas feridas que sangram, em uma tentativa de corrigir processos porque "a verdadeira riqueza não está nas coisas, mas no coração", disse Francisco. 
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

EDUCAÇÃO E REDES SOCIAIS


Escrevo porque gosto, nunca na expectativa de, por exemplo, no facebook, contar o número de "gostos", "comentários" e ou "partilhas". Escrevo como exercício diário que me leva a estruturar o pensamento sobre qualquer assunto que se encontre no âmbito das minhas preferências. A Educação e o Sistema Educativo são dois campos que merecem a minha particular atenção. E entre gostos, comentários e partilhas, sinceramente, prefiro o comentário sereno, honesto, responsável e com elevação democrática, quer em uma perspectiva de apoio ou de outras análises que são sempre possíveis. A verdade é múltipla. Com muitos comentários, confesso, tenho aprendido, o que me proporciona grata satisfação. Mas, destes escritos muitas vezes elaborados ao correr do pensamento, verifico que para a nossa comunidade "facebookiana", uma fotografia de uma batata gigante, por exemplo, é capaz de valer muito mais do que uma reflexão sobre política educativa; uma frase do Dalai Lama é mais apreciada do que um texto sobre a pobreza; uma paisagem, embora ocupe um importante lugar, até por razões estéticas, é muito mais apreciada do que uma opinião sobre direitos sociais sucessivamente extorquidos; a receita de uma iguaria é mais valorizada que os impostos que pagamos. Por aí fora. 


Há dias, fui cortar o cabelo. Os que ainda conservo! A senhora que me lavou a cabeça, recentemente contratada pelo cabeleireiro, disse-me que já me conhecia há mais de 30 anos. Recordou que trabalhava no cabeleireiro onde eu era cliente e, veja lá, disse-me, venho encontrá-lo 32 anos depois. Interessante. E a conversa continuou. Sabe, eu fui sua amiga no facebook, mas já não sou. Retorqui: fez uma limpeza aos seus amigos virtuais! Sim, respondeu. E com o mais cândido à vontade, sem qualquer vestígio de má educação, serena, honesta e frontalmente, adiantou: sabe, como só escreve sobre política e isso não me interessa, deixei de ser seu amigo. Foi só por isso. Dando corda à conversa, finalizei: sabe, minha amiga não virtual, escrevo sobre política exactamente para ajudar a que possa ter cabeças para lavar e cabelos para cortar! Sinceramente, não sei se percebeu, mas isso pouco me interessou. Mas achei interessante. 
E assim, a fotografia de uma batata com cerca de 5 kg. que cresceu na fazenda de uma minha vizinha na Calheta, contou com 173 "gostos", 17 comentários e 12 partilhas, enquanto um texto sobre o sistema educativo, onde coloquei em causa a conferência de Eric Hanushek, realizada na Gulbenhian, contou com seis "gostos", dois comentários e uma partilha. Este é um exemplo entre muitos. Do meu ponto de vista trata-se de um quadro que nos deve levar a pensar, porque é genérico a todas as páginas das redes sociais e blogues. Há, de facto, depois de quarenta anos de vida democrática, um alheamento sobre as questões sérias da nossa vida colectiva. Parece que nada é connosco, que a coisa pública é para os outros, que mais ou menos empregabilidade, maior ou pior acessibilidade à educação e à saúde, mais ou menos carga fiscal é assunto que não nos cabe apreciar, que o estado da Europa ou da zona Euro pertence a uns senhores que vivem muito distantes e que de nada vale comentar, porque eles têm as armas que impõem o que comer, o que vestir e até em quem votar! E não é assim. E neste pressuposto, questiono, que andámos nós a fazer durante estes quarenta anos? Que democracia esta que, ao contrário de colocar as pessoas a PENSAR as atirou para as margens da reflexão? Que sistema educativo temos que se preocupa em empanturrar os jovens de pseudo-conhecimento (para esquecer) e que passa ao lado de uma estrutura que os conduza a PENSAR e a estruturar o alicerce do "conhecimento poderoso"?   
Nas redes sociais há espaço para tudo: para a batata, para a foto que nos dá prazer publicar, para a divulgação dos nossos prazeres de leitura, arte, poesia, cinema, para a festa, a moda, eu sei lá, tudo, mas também para as reflexões sobre a nossa vida colectiva que tem sempre com cenário principal a política. E neste campo, julgo eu, temos pela frente um longo caminho a percorrer.
Ilustração: Google Imagens. 

terça-feira, 3 de novembro de 2015

SÍNODO DOS BISPOS: PROCURA-SE, VIVO OU MORTO!





Nota
Um artigo do Padre Martins Júnior publicado no blogue Senso&Consenso.

Não sei por onde escolha --- é o que me diz a mão com que escrevo. De entre as rajadas de vento que passam vou ficar com aquela que, ao menos pelo visual majestoso, marcou o início da semana: o Sínodo da Família em Roma. Muitos abanões espadanaram por esse mundo fora. Para uns, foi a ameaça de um “cisma prático”. Para outros foi a derrota do Papa Francisco. Bento Domingos interrogava-se, por duas vezes consecutivas no jornal Público; “Sínodo das Famílias ou Sínodo dos Bispos”? E para o grande auditório do mundo global, imagino eu, aquilo foi mais uma não notícia e, se o foi, não passou de um episódio das clássicas novelas romanas.
Mas o caso foi muito sério. Não pelos cenários, mas pelos bastidores. Não pelo guarda-fato dos figurantes, mas pelo dentro da peça representada. Não pelo que se disse e aprovou, mas pelo que se não disse e obliterou. Concretamente: é verdade que os debates incidiram sobre questões fracturantes, endurecidas e fossilizadas de séculos --- a família, o casamento e seus derivados --- e por isso nunca daí poderiam esperar-se consensos. Para dourar a pílula, os 270 bispos e cardeais convidaram 18 casais e algumas mulheres. Esperava-se que estes últimos, considerados legítimos representantes dos verdadeiros destinatários do Sínodo, (as famílias) fossem ponderadamente ouvidos nas assembleias e dali saíssem conclusões mais amplas para o mundo exterior, abrindo mentes e corações sensíveis aos problemas actuais, realidades novas onde está mergulhada a instituição familiar, fruto do inevitável processo histórico.
Mas não. Prevaleceram os fósseis, as teses dogmáticas, o imobilismo ou, mais precisamente, as almofadas bolorentas em que dormitaram os velhos cardeais, solteirões oficiais à força, que durante as reuniões só acordavam sobressaltados quando alguém desafinava do coro dos anciãos, como nas tragédias gregas. “Uma Igreja moribunda, ligada às máquinas”, escreveu no seu blog o meu amigo Padre José Luis Rodrigues. Na mesma linha contestatária, conta a historiadora Lucetta Scaraffia, 67 anos, convidada a participar no Sínodo, ela mesma responsável do suplemento feminino do jornal vaticano L’Osservatore Romano: “Quantas vezes tive que reprimir a impaciência rebelde que me assaltava, ao longo dessas três semanas…Mas o que mais me chocou foi ver a ignorância total dos cardeais quanto à condição feminina, a sua forma de tratar as mulheres como sendo inferiores, da mesma forma como tratavam as freiras que, quase sempre, lhes servem de criadas domésticas”. (Le Monde, edição de hoje).
Para quem segue com alguma atenção esta metamorfose que se opera no Vaticano, seja-me permitido transmitir a leitura holística que faço do Sínodo. Ele inscreve-se naquela dinâmica que o Papa Francisco pretende instaurar, ou seja, não uma Igreja impositiva, mas uma Igreja propositiva e participativa. São os cristãos que devem construir a sua Igreja, como Povo de um Cristo permanentemente actualizado e aberto. Poderíamos dizer, se não fora a corruptela do termo, uma Igreja Democrática. Era assim nos primórdios fundacionistas do cristianismo, até na indicação dos seus próprios bispos. Depois, tudo se foi degradando, passou o povo cristão à condição de servo, humilde, obediente, proibido de pensar e até de ler a Bíblia, enfim, uma ditadura sacralizada de liturgias e sanções canónicas, banais caprichos de classe que os homens da religião transformavam em mandamentos divinos.
E agora estamos nisto. O Papa Francisco --- dificilmente teremos outro igual --- bem se esforça para que sejam as bases, os cristãos a pronunciarem-se sobre aquilo que à sua Igreja diz respeito, mas em vão. Já aqui transcrevi o pensamento de um reconhecido teólogo: “Enquanto os cristãos continuarem à espera de um exclusivo líder carismático, a Igreja perderá a sua vitalidade, a sua identidade essencial”. Deve ser o maior desgosto deste Grande Reformador: pensar que, depois da sua morte, tudo fique na mesma inércia e volte a Igreja ao armário dos esqueletos, manipulada e contorcida por gente vestida de vermelho e enegrecida de ideia ou, como dizia, o Mestre: “sepulcros caiados de branco por fora, mas cheios de ossadas por dentro”.
É este um assunto inesgotável, pleno de esperança para quem sonha, mas causa perdida à nascença para a maior parte dos cristãos. Porque se demitem do seu mandato, porque lhes é mais cómodo rezar que pensar. Batemo-nos pelas nossas capelas futebolísticas e partidárias e damos de barato o templo da nossa crença. Ninguém espere que a seiva criadora venha de cima, dos paços episcopais, das mitras-altos capuzes de carnaval ou das colunatas do Vaticano. É do chão, das raízes que emana a produção renovadora. Para debelar o fascismo dos anos trinta foram precisas décadas de luta. A este propósito, ocorre-me aquela resposta que um simpático clérigo portuense, então secretário do, agora, bispo do Funchal, me deu sobre a inércia diocesana em resolver o caso Ribeira Seca: “Sabe, amigo, a Igreja é uma instituição que já tem dois mil anos”. Percebi-lhe a ironia, em jeito de crítica ao que por aqui acontece.
A solução é o que se vê, a “debandada”, como dizia o Papa Francisco aos bispos portugueses na recente visita a Roma. Tenho para mim que a Igreja institucional não passa de mais um adereço da etiqueta social. Quanto mais opulenta e magnificente mais servirá para igualizar-se aos “príncipes deste mundo” e defendê-los nas suas refregas (como fez ontem o cardeal Patriarca de Lisboa, a propósito de Cavaco Silva) e, em ricochete, para menorizar os crédulos dos seus rituais, melhor ainda, citando Lucetta Sacaraffia, trata-los com tratam as freiras, criadas domésticas.
Se não houver cristãos esclarecidos e actuantes, o Papa Francisco perderá sempre, por mais sínodos e conclaves que houver. Ele precisa de nós.
Também aqui, a Hora é Nossa!
29.Out.15
Martins Júnior

O CAIS 8 E A EXIGÊNCIA DE PUBLICAÇÃO DE TODOS OS PARECERES



                                               Foto Rui Silva/ASPRESS, com a devida vénia, publicada no DN-Madeira.

É caso para dizer que o designado "Cais 8" anda "feito num 8". Bem foram avisados por vários especialistas. Hoje foi o Braemar, cujo comandante "decidiu abandonar o porto do Funchal e permanecer fundeado ao largo da baía funchalense, por entender que não estão reunidas condições para atracar no Cais 8". A obra que avançou por teimosia, presumo, porque estão dinheiros públicos em causa, exige a publicação ou disponibilização de todos os pareceres técnicos que foram elaborados sobre o polémico cais. Ou será  que, neste caso, a teimosia morrerá solteira?

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O QUE ESCONDE FRANCISCO ASSIS?


Tinha pelo socialista Dr. Francisco Assis consideração política. Sinceramente, desiludiu-me. Ele que é Eurodeputado eleito nas listas do Partido Socialista, a convite do Dr. António José Seguro, então secretário-geral, independentemente das circunstâncias, deveria assumir um posicionamento político mais cordato com a liderança do Dr. António Costa. Não é que não tenha direito a comentar e até de colocar algumas reticências relativamente à conjugação de entendimentos políticos entre o PS, o BE e o PCP. A forma como o faz é que, em minha opinião, se torna partidariamente reprovável. Assumiu: "(...) Vou reunir-me com militantes de várias zonas do País que discordam do rumo que está a ser seguido". Ele que tem o dever de lealdade para com os órgãos legitimamente eleitos; ele que parecia defender princípios e valores da esquerda, afinal, acabou por denunciar que está mais próximo do PSD do que propriamente da carta de princípios do Partido Socialista. Repito, o dever de lealdade é fundamental em qualquer instituição partidária liderada pelo sufrágio directo dos seus militantes e simpatizantes. Não se trata de uma "agremiação" de bairro, que se pode dar ao luxo de mudar o líder entre uma rodada e outra, mas de uma instituição política da qual dependem, quando governantes, todos os portugueses. Francisco Assis, até pela função que ocupa deveria ser ponderado.


É nos órgãos que se esgrimem posições e é nos órgãos que se votam as políticas estratégicas. Nunca na praça pública sobretudo em assuntos complexos dos quais depende a vida dos portugueses. Quem não considera que este é o rumo certo, obviamente que tem uma caminho: o da demissão dos lugares, não se vinculando às políticas que estão a ser seguidas.
A questão é esta: e se, eventualmente, o Presidente da República der posse a um governo liderado pelo Partido Socialista e com uma base parlamentar acordada com o BE e o PCP, e que esse governo consegue demonstrar, no final do mandato, que melhorou a vida dos portugueses ao mesmo tempo que melhorou o terrível défice que nos persegue? E se esta nova experiência política constituir um exemplo para outros povos europeus? Pergunto, finalmente, em que posição política ficará o Dr. Francisco Assis? Tenho dificuldades em perceber os seus fundamentos quando assume que as "soluções" do acordo inter-partidário terão como "inevitável consequência a albanização" de Portugal. E disse mais, que esta ligação à esquerda constitui a mais "despudorada expressão de ambição desmedida pelo exercício do poder". Ecoam-me palavras ditas por Passos Coelho, por Paulo Portas ou Paulo Rangel, entre outros. Lamento. Falta-lhe a humildade do Santo com o mesmo nome.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 1 de novembro de 2015

ILITERACIA POLÍTICA OU COMO O SHOW-OFF TOMA CONTA DA POLÍTICA


Sou muito sensível às políticas sociais. Sublinho, políticas sociais. Porque o show-off da politiquice social, onde cabem os que se pavoneiam à custa da pobreza, aqueles que pedem fé como se ela resolvesse o pão de cada dia, os que apoiam a caridade ao jeito do que foi o "movimento nacional feminino" de triste memória, enfim, irritam-me todas essas demonstrações de pretensa solidariedade. Sensibilizam-me, todavia, as centenas de voluntários que, nas instituições que esbatem a fome, lutam todos os dias, anónima e discretamente, para que o desastre não seja maior. Os da politiquice apenas desejam aparecer, tudo servindo para mostrar a sua presença ao mesmo tempo que demonstram a sua oca actuação. Questiono, a propósito, qual o interesse de uma campanha informativa designada por "Literacia Financeira - faça Contas à sua Vida", segundo li, com o objectivo de sensibilizar as pessoas para a gestão dos seus orçamentos, sobretudo quando o Natal se aproxima? Politiquice, óbvia.


Mas quem não faz contas à vida, senhora secretária regional da Inclusão e Assuntos Sociais? Para os pobres cada mês falta mais mês. A esmagadora maioria dos aposentados e pensionistas há muito que andam com o credo na boca contando euro a euro até à próxima vinda do correio ou do depósito bancário. Os que foram vítimas das políticas económicas que conduziram ao desempregado e que vivem na dependência de familiares, nem contas fazem! Mesmo os que dispõem de alguma folga financeira, esses, pensam duas vezes antes de consumir. Os ricos, muito ricos e os novos milionários continuam a sua vida investindo ou gastando como melhor lhes apetece. Restam os muitos que estão envolvidos em processos de incumprimento e, de "corda ao pescoço", obviamente que se limitam a gerir o dia-a-dia. Aliás, que o digam as empresas de quase todos os sectores, sobre o que está a acontecer ao nível do consumo. Daí que aquela iniciativa que pretende que as pessoas façam "contas à vida" seja inócua e despropositada. Trata-se, apenas de politiquice. É iliteracia política. Não tarda e, no âmbito da Inclusão, estão a aconselhar hortas caseiras!
Medida de grande alcance para todos os mais vulneráveis seria, por exemplo, que secretária regional da Inclusão e Assuntos Sociais anunciasse a atribuição de € 50,00 como complemento regional de pensão, aos pensionistas que auferem valores abaixo do limiar de pobreza. Uma proposta, com barbas, de quase todos os partidos da Assembleia Legislativa da Madeira, mas sempre chumbada pela maioria. Não resolvia tudo, é certo, mas ajudava na dignidade de vida a que todos têm direito. Bastaria copiar o que se passa na Região Autónoma dos Açores. O exercício da política senhora governante é, repito, muito mais que show-off.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 31 de outubro de 2015

COM QUE LATA SUBTRAEM 52 MILHÕES DE EUROS


Já se sabia, mas agora foi dito de viva voz pelo secretário regional dos Assuntos Parlamentares: todos os madeirenses vão ter de pagar € 52.000.000,00, correspondentes às dívidas do Jornal da Madeira. Diz o secretário Dr. Sérgio Marques que estes milhões se inscrevem no processo de reestruturação, digo eu agora, para colocar a zero o contador das dívidas da empresa, para depois entregá-la a um privado que seguirá, certamente, a mesma linha editorial. Pessoalmente, não tenho quaisquer dúvidas. Aliás, li na peça do DN: "Sérgio Marques reforçou a intenção de garantir o pluralismo na comunicação social (...)". Ora, para o governo PSD isto pode significar que, abusivamente, o DN se enquadra em um posicionamento ideológico contrário ao do governo, pelo que terá de existir a garantia de pluralismo! Resta saber quem estará na calha para continuar a fazer do JM o órgão de comunicação social almofada do governo. Cinquenta e dois milhões corresponde a um grande euro milhões que sai direitinho dos nossos impostos. Não é exagero dizer que são subtraídos à pobreza. 

O JM leva 52 milhões
e vão buscar à banca 30 milhões!

Múltiplas questões podem e devem ser colocadas. Eis algumas ao correr do pensamento: o que tem a ver um governo sério e transparente com o pluralismo da comunicação social? O Jornal da Madeira, enquanto empresa, é diferente de todas as outras empresas em dificuldade? Vão pagar os passivos dessas empresas? O passivo do Diário de Notícias, por exemplo? E a anunciada redução para 28 trabalhadores faz-se de que maneira? Através de negociação? Se esse é o procedimento, quanto é que isso custará? A redução faz-se por incorporação directa nos quadros das várias secretarias governo? Se é assim, é legítimo que se questione: com que legitimidade? Muitas mais questões podem e devem ser colocadas. Simplesmente porque todos os madeirenses, inclusive, as empresas, são confrontados com uma enorme carga fiscal e, ainda por cima, vão ter de pagar as megalomanias políticas no quadro da "propaganda ilícita" do governo regional da Madeira. Que cada leitor retire as conclusões. Eu já retirei as minhas.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ENTRE A "RENOVAÇÃO" E O PAPEL "RENOVA"


O Director do DIÁRIO, Dr. Ricardo Oliveira, manifestamente ofendido, acabou por escrever um texto doce, explicativo e não justificativo, directo mas não ressabiado, que li e reli, mastigando palavra a palavra, trazendo em memória a longa história inscrita na matriz genética de quem por aí anda, há quarenta anos, fazendo de conta que bem governa. Daí que não estranhe a repetição dos actos, a mal formação congénita, onde não há "renovação" que assista e quebre. É assim. Em uma das passagens do artigo, salienta o director do DN: "(...) Temos dado notícia da aselhice constante. Daí que alguns prefiram insultar o “pulha do director” do DIÁRIO do que honrar os compromissos que assumiram. Nem todos temos estudos ao nível da malta do Gabinete mas sabemos que não é relegando para segundo plano os mais capazes que a meritocracia se instala, que não é dispensando os visionários que se legitimam fantochadas, que não é na adega que se faz vinho! Um mandato vive de obras e um Presidente de inaugurações. Mesmo em tempo de vacas magras, não são os olhos azuis que ganham eleições. São os favores e as cunhas que a família social-democrata instituiu e dos quais ainda é refém. Não estou à espera de desculpas por parte de quem o poder foi oferecido à conta de estatutos que não resultam do sufrágio livre. Nunca 300 valeram tão pouco. Só que enquanto este "pulha" dá a cara, os honestos e íntegros refugiam-se no anonimato cobarde. (...)"


Não conheço a profundidade do que se passa nem quero saber. Detesto a bisbilhotice. Só que este texto tem muito que se lhe diga. Foram tantos, ao longo de anos, insultados e ofendidos, até perseguidos, oposicionistas que chamando a atenção e intervindo democraticamente foram encostados à parede com vilipêndios de caixão à cova e ameaças na Justiça. Pois é, pergunto, alguém poderia esperar alguma coisa diferente, quando a máquina é a mesma, o óleo é de idêntica marca e as peças substituídas foram conseguidas sabe Deus como? Para mim, mero observador, o que durante anos fizeram aos outros está a rebentar nas próprias mãos, no sarilho de uma unidade inexistente, nos silêncios que dizem tudo e nas pinturas externas com tintas de baixíssima qualidade. As paredes apresentam fissuras e parece não haver bombeiros que cheguem para tanta ignição. Há mais maquilhagem que governo. Qualquer pessoa atenta sabia que o futuro seria assim. Mas houve quem os levasse ao colo até à Vigia do povo, pois agora é que era, a tal "renovação" que se ficou pela mudança de casaco! Ganharam pela diferença mínima, mais por demérito de quem deveria ter construído uma alternativa de sucesso do que por mérito das propostas que, se as houve, não dei por elas! Mas ganharam pelo que têm o dever de governar. Mas governar sem atropelos, sem ofensas a ninguém, deixando os vícios legislativos de lado, os do chumbo pelo chumbo. Deve ser difícil para quem sempre andou politicamente drogado, estrábico relativamente à democracia e à coisa pública. Pode ser complicado, talvez, só que os tempos são outros, os olhos abriram-se, a democracia começa a evidenciar outros contornos e exigências, pelo que "pulha", "canalha" e palavrinhas afins devem ser banidas. A minha solidariedade ao Dr. Ricardo Oliveira.
Ilustração: Google Imagens. 
Texto integral em: 
http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/547103-gabinetes-sem-estudos#comment-658532

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

LIGAÇÕES AÉREAS: É A "RENOVAÇÃO" ESTÚPIDO!


O secretário regional da Economia, Turismo e Cultura da Madeira foi à Assembleia Legislativa e, lamentavelmente, voltou a meter os pés pelas mãos. Para além do não reconhecimento político que a Portaria veio a despoletar tarifas exageradas, da história dos 60 dias para o reembolso, falou da questão dos pagamentos com cartão de crédito. Em síntese, do que me apercebi, só quem pagar em dinheiro vivo terá reembolso imediato; quem pagar com cartão de crédito terá de esperar 60 dias. RIDÍCULO! O secretário parte do princípio que o cartão de crédito não é um meio LEGAL de pagamento e esquece-se que em uma significativa parte das compras online, o meio de pagamento é o cartão de crédito. Sinceramente, já não há paciência para aturar certos governantes. Como, há dias, me dizia um amigo: "é a "RENOVAÇÃO" estúpido!


Quanto aos preços das viagens é óbvio que estamos a ser devorados. Pagamos o preço estipulado (ia dizer, concertado), perdemos, a favor do Estado, os juros durante 60 dias e quase "proíbem" a utilização do cartão de crédito. No DN-Madeira li um comentário assinado por A.M.P. que subscrevo e ajuda à reflexão:
"Utilizando a ferramenta Skyscanner.net, fiz uma simulação para os seguintes voos (ida-e-volta) para os dias 23 de Dezembro e 4 de Janeiro. A comparação é baseada nos preços mais baratos disponíveis nesses dias, independentemente do horário, companhia aérea ou agência de viagens que está a vender o bilhete.
Lisboa - Funchal - 497€
Lisboa - Ponta Delgada - 158€
Paris - Corsega - 249€
Roma - Sicilia - 148€
Madrid - Palma Mallorca - 87€
Madrid - Las Palmas - 331€
Madrid - Tenerife - 332€
A insularidade pesa, mas pesa mais do lado de cá. E é de notar, que nalguns dos casos acima é possível combinar outros meios transporte, por exemplo, autocarro/comboio/ferry.
Não tenho qualquer dúvida que existe concertação de preços entre as companhias aéreas. A TAP um ano antes bloqueia as tarifas Discount e Basic, só disponibilizando as tarifas mais caras. As restantes ajustam-se a este facto. A Transavia hoje, dia 27 de Outubro, só disponibiliza comercialmente uma viagem diária para a época natalícia desde o Porto quando provavelmente já tem slots para dois voos diários. E a easyJet de um conjunto de 600 rotas, Lisboa-Funchal é a mais cara nesse período. (...)"
E se o senhor secretário ouvisse as pessoas e demonstrasse uma atitude política mais séria? E se chegasse a um acordo de SUSPENSÃO da Portaria? E se o Governo recuasse e mantivesse os € 60,00 de subsídio enquanto outra solução não é acordada? É que ESTA TRAPALHADA, NÃO!

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

EDUCAÇÃO: ERIC HANUSHEK VEIO FAZER UM FAVOR POLÍTICO AO MINISTRO NUNO CRATO


Estou a achar uma imensa piada a estes convidados, penso eu, com o selo de Nuno Crato, que têm aparecido em Portugal a fazer a apologia de uma política, pergunta-se, de quem? De Nuno Crato, obviamente! Agora foi um tal americano Eric Hanushek que veio propor a substituição de, apenas, 4% dos professores "menos eficazes", os "menos eficazes" de todos, salientou, para verem o salto qualitativo nos resultados dos alunos. Segundo li, Eric Hanushek é um economista que se apresenta como especialista em economia da educação. "Em um dos gráficos mostrou: o impacto de afastar entre 6% e 10% dos professores “menos eficazes” colocaria o país deste investigador (USA), ao nível da Finlândia, um dos que têm melhores resultados educativos do mundo (só atrás da Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Xangai)". Na visão de Hanushek, "é preciso, desde logo, ter sistemas educativos onde os alunos sejam avaliados com exames centralizados — para que se tenha noção do que sabem “à entrada de um ciclo de ensino e, depois, à saída do ciclo de ensino” — de forma a medir a eficácia dos professores. Sugestão para Portugal: "Manter e até aumentar o sistema de exames."


O paleio deste "especialista" é conhecido, como é conhecida a práxis de Nuno Crato: menos professores, exames de acesso ao exercício da docência para desprestígio da universidade, turmas enormes, avaliação exaustiva dos professores, exames aos alunos e ranking's de estabelecimentos de ensino. Ora bem, pergunto, legitimamente, e se nós substituíssemos, em toda a Europa, inclusive na América, entre os 6% e os 10% dos economistas que estão a gerar a falência das sociedades, bem patente na crescente falta de emprego e na concomitante pobreza? É-me legítimo colocar esta pergunta, repito. O convite a este senhor feito pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, do meu ponto de vista, é desprestigiante para a própria instituição Gulbenkian. Pode saber de Economia, mas de Educação e de Sistemas Educativos melhor seria estar calado. Eu diria que os organizadores (!) foram enganados. E tratando-se de um economista, desde logo julgo que deveria consultar o Nobel da Economia em 2000, James Heckman, e os seus textos sobre o investimento em Educação. Talvez mudasse de opinião!
Parafraseando o Professor Abel Salazar e a sua frase no contexto da medicina: economista que só sabe de economia, nem de economia sabe! É que Eric Hanushek demonstrou desconhecer tudo o que os investigadores em educação, autores, professores, psicólogos, pedagogos, pedopsiquiatras, sociólogos e especialistas em organização laboral e familiar têm vindo a sublinhar sobre o que deve ser a Educação (no sistema educativo) no tempo do nosso tempo. Eric Hanushek secundariza os baixos níveis sociais e culturais que chegam à escola portuguesa e o "milagre" que muitos professores fazem para que o desastre não seja maior. Eric Hanushek opta pela visão simplista e redutora tal como o ainda Ministro Nuno Crato optou: se não sabem Português ou Matemática, não vale a pena ir às causas, facultam-se mais horas de "trabalho", portanto, mais escola, no pressuposto que se não vai a bem, vai a mal! Como se mais escola significasse melhor escola. Um aluno polaco, país que ele enaltece, por exemplo, tem 731 horas de aulas por ano; em Portugal, para o mesmo ano, tem 827 horas! E nem assim os resultados aparecem. Porquê, Dr. Eric Hanushek?
Aliás, com tanta investigação produzida em Portugal, com tantos autores de relevante qualidade que temos, com tanta literatura disponível, com tantos professores experientes, para quê chamar um americano, ainda por cima para nada acrescentar? Ah, percebo, Eric Hanushek veio a convite, talvez pago, para dizer o que o ministro quer que oiçamos. É a voz que vem da América. E tem a lata de falar da Finlândia. Conhecerá Eric Hanushek o que se passa na Finlândia? Deixo aqui uma parte de um texto que publiquei em Junho e que, em síntese, é o contrário do que veio propor a Portugal: "(...) Na Finlândia (existem outras experiências de sucesso em vários países) o professor é um moderador, um jogador atento e um criador de fenómenos que conduzem à descoberta. “(…) A ideia é não ser o professor a ensinar tudo”. Dizem os alunos: “é mais fácil compreender a matéria do que só de ouvido. Somos treinados para sermos independentes e para irmos à procura de respostas”. Leio: “(…) a aula decorre, mas não é Niina Vänttä a dar as ordens, apresenta a matéria ou perde tempo a mandar calar os alunos”. E o interessante, note o leitor, é que começam na escola aos sete anos, aprendem e estão no topo da avaliação PISA; só têm exames no final do secundário, por isso, não há stress, ansiedade ou nervosismo entre alunos e professores; só 3,8% dos alunos repetem um ano ao longo de todo o percurso escolar, contra 34,3% em Portugal; em toda a Europa são os que menos tempo passam na escola (média de 703 horas por ano, quando em Portugal são 803); dez páginas chegam para salientar o que os alunos precisam de saber do 1º ao 9º ano (qualquer disciplina), enquanto em Portugal são necessárias 110 páginas; rejeitam a sistemática “medição de resultados” (avaliação); 83% da população adulta tem o secundário, quando em Portugal ronda 38% (uma simples inversão de algarismos); são os professores que fazem o planeamento e definem as metodologias de aprendizagem e não uns estranhos à vivência escolar sentados no conforto dos gabinetes. Palavras de uma professora: “a sociedade mudou muito e os estudantes precisam de competências diferentes para quando forem trabalhar. No mundo real não existe a Matemática, a Biologia, a Química, não existem disciplinas escolares, mas fenómenos complexos, aos quais não podemos dar resposta como se fossem perguntas de resposta múltipla (…)”. Daí que os conhecimentos tenham de ser trabalhados de forma integrada. Mais, porque a Educação é necessária ao desenvolvimento, ela é pública, todo o ensino do pré-escolar ao superior é gratuito, incluindo as refeições, o transporte e os manuais. O número de alunos por escola situa-se entre os 200 e os 300. Os professores são vistos pelos alunos como “superautoridades” e é mais difícil ter acesso ao curso universitário de professor do que entrar para Medicina, leio no trabalho da jornalista Isabel leiria. Conheço a Finlândia e nada disto me é estranho. (...)". O problema português é, senhor "investigador" Eric Hanushek, sobretudo, económico, social, de autonomia das escolas, de investimento sério na escola pública, é curricular e programático, em síntese, como disse o Professor José Pacheco, o problema é de "uma escola com alunos do Século XXI, com professores do Século XX, mas com metodologias superiormente impostas implementadas desde o Século XIX".
Se me cruzasse com este "investigador" Eric Hanushek pedia-lhe: por favor, não diga disparates e não culpe os professores. Já temos por aqui um Crato, há quatro anos, a infernizar a vida de alunos, professores, encarregados de educação, sindicatos e investigadores. Goze o clima ameno de Portugal e regresse ao seu país onde pode vender as suas teses!
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

PRESIDENCIAIS. PORTUGAL PRECISA DE UM PRESIDENTE DISTANTE DO SUBTERRÂNEO DA POLÍTICA


Marcelo Rebelo de Sousa é, no plano político, um produto da comunicação social. Não o conheço, pessoalmente, daí que possa estar a incorrer em um qualquer erro de apreciação. Mas por aquilo que vou seguindo, desde a história (lamentável, mas caracterizadora) da tal vichyssoise servida em Belém (aqui), do Professor Marcelo tenho a ideia de ser, repito, politicamente, uma pessoa que passa os olhos por toda a comunicação social, tem uma boa lista de contactos telefónicos que o informam em detalhe e um razoável poder de verbalização das suas sínteses. Pouco mais do que isso. Foi presidente do PSD sem sucesso e tem andado por aí, nos últimos anos, como comentador de assuntos de natureza política. Deu notas semanais (!) e apresentou centenas de livros, transmitindo uma imagem de uma vastíssima cultura (?).

Professor Doutor Sampaio da Nóvoa

Nele não acredito. E o que me incomoda enquanto cidadão é que alguns querem levá-lo ao colo até Belém. Não tenho presente uma única iniciativa sua que tivesse marcado um tempo. Ademais, a minha posição é cada vez mais clara: precisamos de um Presidente político e jamais partidário. Precisamos de alguém que prime pela novidade, que não tivesse andado nem ande pelos corredores e pelo bas-fond dos partidos. Precisamos de um Presidente que seja o contrário do que tem sido o Professor Cavaco Silva, um político que nunca conseguiu despir a sua capa partidária, demonstrou arrogância e algum indisfarçável ódio por quem o combateu. O momento que atravessamos exige alguém com bom senso, que seja socialmente respeitado, que tenha idoneidade académica, uma grande sensibilidade pelas causas sociais, seja capaz de ouvir e de não ter língua travada neste mundo extremamente conturbado, alguém que não fique deslumbrado e que se venda aos primeiros com quem tiver de tropeçar. A Presidência no Portugal de hoje dispensa, permitam-me a expressão, toda a rataria interesseira que se move no quadro das correias de transmissão dos inúmeros poderes nacionais e externos. É, por tudo isto, que não acredito no Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Considero-o demasiado plástico, ou melhor, feito de uma plasticina que não me agrada. Prefiro a independência de alguém que brota da sociedade, em cujo currículo não exista percursos politicamente duvidosos. 
Há muito que defini a minha posição. Estou com o candidato Professor Sampaio da Nóvoa, por quatro essenciais motivos: provém da academia onde tem um trabalho reconhecido pelos seus pares; sabe e já o denunciou em inúmeras oportunidades, que a Educação e a Ciência são o melhor caminho para Portugal crescer e desenvolver-se; é humilde, sabe ouvir e tem uma enorme sensibilidade social; finalmente, porque aprecio a sua independência. Não é que encontre mal algum nos candidatos que emergem dos partidos, respeito-os, só que, no momento que atravessamos, extremamente complexo, o distanciamento e a capacidade de abrangência parecem-me relevantes. Enfim, se Marcelo, "o humilde servo de Salazar", pensa que tem isto no papo logo à primeira volta, desengane-se! Quero lá saber que prescinda de algumas ditas "mordomias" atribuídas aos Presidentes da República após deixarem o cargo! Essa é das balelas populistas que não colhem. Aliás, sustento que um Presidente, após ter desempenhado a sua função, deve usufruir da dignidade inerente à mais alta Magistratura desempenhada, até porque continuará a ter tarefas de relevância no plano interno e externo. Até por aí, Marcelo não convence.
Ilustração: Google Imagens.   

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

DESONESTIDADE POLÍTICA: A PREVISÃO DE 35% DE DEVOLUÇÃO DA SOBRETAXA PASSOU PARA 9,5%! OU COMO POVO É ENGANADO...



Podem explicar como quiserem que não deixa um rasto de desonestidade política. Assume o "Jornal de Negócios" que "embora o Governo só tenha começado a divulgar a estimativa de devolução da sobretaxa a partir de Junho, tem estimativas desde Fevereiro". Ora, as estimativas "mostram-se irregulares de mês para mês". Por exemplo, em Fevereiro a estimativa era de devolução de 37%, tendo caído para 7,9% em Março. Mas o Governo só anunciou as previsões nos dois meses antes das eleições. E foi de Junho a Agosto que elas melhoraram (...) Até sexta feira, a previsão anunciada pelo Governo era de que a devolução da sobretaxa seria de 35,3%". Sabe-se que, agora, é de 9,5%.
Trata-se de um duplo roubo fiscal. Primeiro, foi a aplicação de uma sobretaxa de IRS, de 3,5%, criada como medida extraordinária para obter mais receita pública e combater o défice orçamental; depois, em plena campanha eleitoral, a forma como engodaram o povinho com uma falsa promessa. Das duas, uma: ou se tratou de uma grosseira mentira em função das conhecidas variações ou, de estatística e contas estamos conversados.
Honesto teria sido o silêncio. E ainda desejam uma negociação para se manterem no poder...
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 25 de outubro de 2015

"ANATOMIA DE UM GOLPE" - UM ARTIGO DE ISABEL MOREIRA


"A comunicação que o Presidente da República (PR) fez ao país, a 22 de julho, sobre a marcação das eleições legislativas, expunha claramente o seguinte critério político: “É extremamente desejável que o próximo Governo disponha de apoio maioritário e consistente na Assembleia da República”. O exemplo europeu era invocado em apoio desse critério: “Os governos de 26 países da União Europeia dispõem de apoio parlamentar maioritário. Não há nenhum motivo para que Portugal seja uma exceção àquilo que acontece em todos os Estados-membros da União Europeia.” Com esse critério político, o PR impõe uma tarefa aos partidos: “Alcançar um governo estável é uma tarefa que compete inteiramente às forças partidárias, como se verifica em todas as democracias europeias.” E sublinha o mecanismo essencial dessa tarefa: “Este é o tempo do compromisso.”


Perante os resultados eleitorais, que não elegem maiorias de governo, nem primeiros-ministros, mas deputados, ficou claro que ocorreu um caso único na nossa história de 40 anos que não admite a invocação de tradições: o partido mais votado não corresponde ao maior grupo parlamentar; teve a segunda maior derrota da sua história; PS, PCP, PEV e BE formaram uma maioria parlamentar correspondente à gigantesca maioria de votos que expressaram uma vontade inequívoca de mudança de política em Portugal; e o PR não pode dissolver a AR.
Na linha dos critérios de Cavaco, e tendo em conta os resultados eleitorais, perante um caso inédito, António Costa, mandatado democraticamente pelo PS e pelo que anunciara no seu programa e nas eleições, trabalhou para um compromisso entre partidos, visando um apoio parlamentar maioritário a uma solução de governo consistente e estável. Fê-lo num quadro de democracia parlamentar, na qual o Governo responde politicamente perante a AR e não perante o PR.
O PS, PCP, o PEV e o BE informaram o PR que tinham construído um acordo sólido e duradouro e de que não deixariam passar na AR o programa de governo de Passos, caso este fosse indigitado. É por isso, de resto, que o PR é obrigado a ouvir os partidos.
É para isso: para saber das suas propostas e intenções e não para tomar chá. Cavaco não solicitou ao PS a apresentação do conteúdo desse acordo, nem indicou nenhum prazo dentro do qual quereria conhecer esse acordo. De resto, o advogado de uma solução rápida e estável, olhou para as eleições a 4 de Outubro e teve o primeiro contacto formal com o PS sobre a formação do novo governo 16 dias depois.
Já escrevi acerca da total legitimidade e da lógica intrínseca dentro do sistema da indigitação da solução mais estável, a de um Governo de esquerda com maioria parlamentar.
Releva no entanto do carácter de quem diz o contrário ser quem defendeu isto mesmo.
O agora indignado Paulo Portas - “ignorante” de que a circunstância da eleição democrática de Ferro Rodrigues para Presidente da AR tem dois precedentes -, em debate televisivo com Passos Coelho, defendeu a tese de que a direita coligada governaria se PSD e CDS tivessem maioria absoluta no Parlamento, mesmo que o PS tivesse ganho. Dizia: “o que interessa é quem apresenta uma maioria parlamentar ao Presidente da República”.
Nuno Morais Sarmento, em entrevista à Rádio Renascença, declarava perentoriamente que o Presidente da República não devia dar posse ao partido mais votado se este não assegurasse um governo de maioria absoluta.
Bagão Félix, em entrevista ao jornal “i”, dizia: “há uma solução, que é um governo PSD, CDS e PCP”.  E acrescentava: “Não me repugnava que, num governo deste tipo, o PCP tivesse uma pasta social ou do trabalho. Jerónimo de Sousa é um homem sincero, um homem autêntico, um político sério. A certa altura sinto-me asfixiado pelas soluções equacionáveis. Precisamos de abrir o horizonte teórico das soluções. Sendo absolutamente não comunista, respeito o atual PCP e não o ponho no gueto.”
Portanto: a direita ataca agora o que não lhe convém, em contradição com o que defendeu por sua conveniência, ela sim, de sede despudorada de poder.
Cavaco, perante os critérios que definiu e perante, repito, a configuração única na nossa história parlamentar, começou por chamar apenas o líder do seu Partido. Começaram nesse momento os sinais de uma política de seita.
Na quinta-feira, porém, Cavaco esmagou o regime. Da seita deu um salto para o golpe. E fez isto:
- confundiu propositadamente programas legítimos de partidos políticos com programas de governo;
- discursou em tom de alarme como se estivéssemos em estado de sítio;
- tentou sequestrar a casa da democracia onde se formam as possibilidades de governo;
- coagiu o PS e os seus deputados;
- discursivamente ilegalizou três partidos políticos;
- vetou à indigência um milhão de portugueses.
Ontem, uma mulher na rua, chorando de raiva, dizia que descobrira que para Cavaco ela não existia. E com razão. Porque para um golpista nem toda a gente é gente.
Não há memória de um político ter envergonhado tanto a República, o Estado de direito democrático, a Constituição e a sua própria função.
Ontem, ao ser eleito como Presidente da AR Ferro Rodrigues, por expressíssima maioria parlamentar, por voto secreto, ficou demonstrado que cada voto é um voto, cada deputado tem igual dignidade, não há partidos de primeira e de segunda e que a esquerda é a garantia de estabilidade.
Cavaco, no entanto, lançou, não a vida política, mas primeiro a vida de cada portuguesa e de cada português, numa situação de instabilidade patética e dolosa.
E agora, Cavaco? Cai Passos Coelho e não indigita um Governo com maioria parlamentar porque tem lá comunistas? Vai um governo de iniciativa presidencial que é chumbado no dia seguinte na AR? Vai um governo de gestão que não foi a opção de quinta-feira, para ser uma opção de um outro demitido, em violação da Constituição, entrando imediatamente em vigor todas as normas suspensas, vivendo o país em duodécimos e com uma maioria de esquerda parlamentar a inviabilizar com toda a legitimidade tamanho absurdo?
Não somos nós que não merecemos Cavaco. É Cavaco que não nos merece."
Ilustração: Google Imagens.
NOTA
Artigo de opinião da autoria da Deputada Isabel Moreira (PS), publicado na edição online do EXPRESSO, aqui reproduzido com a devida vénia.

sábado, 24 de outubro de 2015

ROUBO NO PREÇO DAS PASSAGENS COM A CUMPLICIDADE DO GOVERNO DA MADEIRA


O problema das tarifas nas ligações aéreas da Madeira para o exterior é um escândalo político. Só o secretário regional da Economia teima em não compreender. Ontem, desta vez o grupo parlamentar do CDS/PP, trouxe a público o caso de um estudante que, "a dois meses do Natal, vai pagar € 649,98 para se deslocar à Madeira no dia 18 de Dezembro e voltar a Lisboa no dia 3 de Janeiro de 2016. Para o secretário os problemas relacionados com os elevados custos das viagens na altura do Natal não são novos, sempre foi assim! Espantoso. No online do DN uma senhora que assina "Revoltada", comentou: "Ir a Paris no dia 18 de Dezembro e regressar no dia 2 e Janeiro/2016 com o percurso Lisboa/Paris/Lisboa custa apenas € 149,00. Outro que assina "Novas Velhas Politicas", salientou: "É verdade que os preços não são novos mas porque é que não se previu isso na tão famosa e tão detestada lei do subsídio de mobilidade? Se os preços não são novos, era de esperar desta nova geração de políticos novas soluções. O que aconteceu? Aumentou-se o problema. Nem estudantes a vir à casa no Natal e o Turismo quero ver como se irá comportar. Um voo para a Madeira de Lisboa ou Porto passou a ter preços que dá para ir à África do Sul, Venezuela, Brasil, Moçambique, Dubai, Índia". De novo a "Revoltada": "(...) Falta de rigor e seriedade foi o que não tiveram, quando criaram a Portaria que regula esse subsídio de mobilidade. Deveriam ter salvaguardado, pelo menos os estudantes. Eu não quero receber esses € 335,00 porque eu não tenho € 558,00 para comprar a passagem. Qual é a parte que o Sr. Secretário ainda não percebeu ? (...)" 


O comunicado do secretário regional da Economia, li no DN-Madeira: "(...) reforça, ainda, que querer insistir na confusão destas realidades não contribui para o esclarecimento da população e revela falta de rigor e seriedade". Quer dizer, a população é que é burra ou pouco inteligente. É precisamente aqui que me quero situar. É que há muita gente que está farta deste tipo de governantes que julgam ser portadores da verdade, que não admitem o erro e que teimam em persistir naquilo que julgam ser um posicionamento correcto. Do meu ponto de vista, tem razão o Deputado António Lopes da Fonseca, quando exige que o Dr. Eduardo Jesus apresente aos madeirenses "um pedido de desculpas pela sua imprudência". 
Sendo uma questão POLÍTICA ficaria bem ao governante a humildade de assumir que o assunto é complexo, que tem múltiplas variáveis e que tudo está a fazer para corrigir aquilo que a prática veio a determinar constituir um erro. Só que isso é difícil, não é? Mas é por aí que os Homens se distinguem: "A humildade é a única base sólida de todas as virtudes" - Confúcio
Li, também, esta pérola extraída do comunicado: "(...) se é certo que uma vinda a 18 de Dezembro e uma ida a 3 de Janeiro custará, no caso referenciado pelo líder parlamentar do CDS, 649,98 euros, uma simulação feita já esta tarde revela que a alteração de um dia na vinda e de um dia no regresso (17 de Dezembro e 4 de Janeiro) faz o custo da passagem diminuir para 421,98 euros (valor a que acresce 50 euros para bagagem de porão)". E o governante saberá, por exemplo, que em qualquer caso, estudantes, consultas médicas, profissionais de qualquer ramo ou mesmo férias, poderão ter compromissos assumidos no dia 17 de Dezembro e no dia 04 de Janeiro? Politicamente, repito, politicamente, só posso considerar uma infantilidade.
Esta Portaria é um desastre para os madeirenses, todos o dizem, porque o roubo no preço das passagens é evidente, com a agravante do governo regional ser cúmplice. Suspendam a Portaria, rapidamente, e enquanto não produzirem um documento que salvaguarde quem vive na Região, mantenham a anterior que, face a esta apresentava outras vantagens para o residente. 
Ilustração: Arquivo próprio.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, A FALTA DE INTELIGÊNCIA E AUSÊNCIA DE RESPEITO


A decisão já era aguardada. O que não era previsível foi o tom odioso e crispado, a divisão entre bons e maus portugueses, a ofensa e mesmo humilhação ao PCP e BE que, somados, juntam mais de 20% dos eleitores, como salienta o jornal Público, até a voz de “apelo à rebelião dos deputados do PS”, o desrespeito pela Constituição da República e os deveres de isenção do Chefe de Estado. 


A indigitação do Dr. Passos Coelho não surpreende, grave é a sua atitude mesquinha e até rancorosa. Um Presidente que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição e que deveria ser reconhecido como o Presidente de todos os portugueses, acabou, uma vez mais, por denunciar o seu facciosismo através de um discurso concordante com as suas convicções partidárias e secundarizando outras leituras políticas sobre a construção do nosso futuro colectivo. O Presidente demonstrou, assim, a raiz do seu pensamento, onde a convivência democrática suscita dúvidas sem fim. 
Escolheu um caminho, mas podia-nos ter poupado a um certo vómito político; escolheu e está no seu pleno direito, mas poderia, também, evitado que o país se arraste em uma crise política. Os próximos tempos serão, politicamente, da sua inteira responsabilidade. Uma coisa é certa, se não desejava, agora, sim, reforçou a posição do PS e a união de toda a esquerda. Entretanto, três moções de rejeição ao Programa de Governo estão a caminho e este próximo governo terá, apenas, umas semanas. Resta saber quem irá aceitar ser ministro por uns dias. Dir-se-á que o Presidente foi à caça e foi caçado! Que irritante e péssimo político este.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O PRESIDENTE CAVACO É UM POLÍTICO DE DIREITA, NÃO ESQUEÇAMOS ISSO!


A decisão do Presidente da República, parece-me óbvia, corresponderá à indigitação do Dr. Passos Coelho para formar governo. Se outra for a sua decisão, pela primeira vez, o Presidente não será previsível. Tenho como assumido que a costela partidária será absolutamente determinante, por teimosia, mesmo que, presumo que tenha consciência, o próximo governo tenha, no invólucro, um curto prazo de validade. Se assim for, perguntar-se-á, que necessidade teve em deixar o processo se arrastar? Pura perda de tempo. 

Há muito que a decisão está tomada!

A sua decisão fundamentar-se-á em alegadas situações anteriores, mas mais do que isso, na posição dos seus partidários assessores, na generalidade dos comentadores, pseudo-analistas, jornalistas e outros que, de forma cega, remam a favor de uma situação minoritária no parlamento. Estou convicto que o Presidente passará ao lado do facto de ser o Parlamento a base do nosso sistema político, que é dali que emerge o governo e que a ele se subordina durante a legislatura, portanto, que à ausência de uma maioria parlamentar acrescem dificuldades na governação. Talvez acredite que essa clara fragilidade será a melhor "oportunidade" para o seu partido, porventura a pior para o povo, uma vez que da pressão internacional (tal como fizeram à Grécia) possa vir a resultar em 2016 novas eleições e a possibilidade de uma nova maioria de direita. Não sei se assim pensa e será, apenas este é um cenário de um filme, quando também reconheço não ter dotes de realizador.
É evidente que não me é indiferente um governo de direita ou de esquerda. A direita conheço-a bem. Acena, sempre, com o futuro, o bem-estar e a felicidade que só os mercados nos poderão trazer e que está ali mesmo ao virar da esquina; na prática, o que tenho constatado, é o crescimento do número de pobres, o desemprego, o trabalho precário, a emigração, a diminuição dos direitos sociais ao mesmo tempo que dispara o número de milionários. A esquerda de que falo e que defendo, é a esquerda dos princípios e dos valores humanistas, a esquerda que incomoda os poderes de raiz absoluta e nefasta, a esquerda que nutre sensibilidade pelos mais vulneráveis, que não rouba nos direitos do Homem, não pratica o esbulho nem permite que se intrometam na administração e gestão na Nação Portuguesa com uma História quase milenar. Diálogo e concertação sim, imposições e subordinações, não! É nessa esquerda moderada, de bom senso, que respeita e que exige respeito no quadro internacional que eu acredito e  defendo. O Presidente, certamente, não caminhará por aí. Ele é um político de direita que até disse, algures no tempo, lamentavelmente, que a sua(s) reforma(s) "não chega(m) para pagar as suas despesas". E as dos outros?
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

ENTRE FIGURAS ÍNTEGRAS E POLÍTICOS TRAVESTIDOS


A 11 de Agosto de 2012 escrevi um texto sobre os 50 anos de sacerdócio do Padre Martins Junior. Entretanto, passaram-se mais três anos e o Bispo António Carrilho, nomeado para a Diocese do Funchal a 8 de Março de 2007, há oito anos, continua em um ensurdecedor silêncio sobre a vergonhosa suspensão "ad Divinis" do Padre Martins, história muito bem desenvolvida e documentada no livro "Olhares múltiplos sobre um Homem de Causas". Uma suspensão que conta já com quase 40 longos anos. Nem o julgam em Tribunal Eclesiástico nem lhe pedem públicas desculpas pela situação criada que não abona, rigorosamente nada, a favor da Igreja de Cristo. 


Foi o Bispo Francisco Santana que o suspendeu. Por vingança política, sabe-se hoje. Um Bispo mais político e de perfil ideológico que o próprio PPD-Madeira da altura. Em um texto do Dr. Gregório Gouveia, no qual faz a resenha dos acontecimentos, li: "(...) As homilias de D. Francisco Santana promoveram mais polémica política separatista do que, propriamente, a divulgação dos ensinamenros de fé da Igreja Católica Apostólica Romana. Na mensagem de Ano Novo de 1975 foi peremptório ao questionar: “o povo madeirense, agitado durante este último ano por aventureiros manipulados contra a vontade do Povo, estará condenado a ser uma província do novo «ultramar português», para ficar reduzido a uma colónia que pouco ou nada conta para a Mãe Pátria, a não ser para lhe fornecer muito do seu sangue e trabalho?" Neste contexto, o Padre Martins Junior era um homem a abater, pela postura que evidenciava. Francisco Santana perseguiu-o, salienta Gregório Gouveia: "(...) A acção política do padre Martins levou o Bispo, em 5 de Novembro de 1974, a intimá-lo a entregar a chave da Igreja da Ribeira Seca, onde era pároco. Mandou polícias cercarem a igreja durante 18 dias. Os paroquianos não cederam, nem concordaram com a ordem do Bispo. Uma manifestação junto do Paço Episcopal foi a forma mais visível de apoio ao pároco. Francisco Santana não hesita em suspender o padre Martins "ad Divinis" (...)".
E assim a Diocese mantém a situação. O Povo da Ribeira Seca continua de mãos dadas com o Padre Martins, porque intuiu que "o sangue do padre é o povo". Do lado da hierarquia, Francisco Santana há muito faleceu, sucedeu-lhe o Bispo Teodoro Faria e o Bispo António Cavaco Carrilho. E vergonhosa suspensão continua. Repito, nem o julgam nem lhe pedem perdão. Será que o Papa Francisco conhece esta pouca-vergonha?
Em Agosto de 2011, (aqui) o Padre Martins concedeu uma entrevista ao DIÁRIO onde foi muito claro: "(...) Que amarras estão a segurar essa revogação da suspensão? Tenho estado calado durante cinco anos. Prometi-lhe que nunca levaria a comunicação social lá [ao Paço Episcopal] como ele me pediu. Pediu-me que não fizesse declarações públicas. Cumpri escrupulosamente. Terminou o interregno. Acabou-se. Agora vou falar. Esta Igreja que me fez sentar no banco dos réus, num processo que é só do foro eclesiástico. Esta Igreja que pede ao poder político para me sentar no banco dos réus. Ninguém pode servir a dois Senhores. Ou se serve a Cristo ou se serve o Poder. A Igreja é sempre aliada do Poder vigente, mormente na Madeira. Há alguma dúvida? Disse-o ao Sr. Bispo numa das muitas conversas que tenho tido no Paço Episcopal. Disse-lhe uma vez 'Já estou cansado de conhecer estas pedrinhas' [alusão ao empedrado do Paço Episcopal]. Mas, não ata nem desata, não se chega a nada. A população já me disse 'não vá lá mais, não é preciso, não precisamos nada disso para nos salvarmos. Qual é a solução? É a revogação do despacho de D. Francisco Santana ou um julgamento através do Tribunal Eclesiástico? A solução é que me julguem. O Tribunal Eclesiástico é a sede própria. Digam qual foi o meu crime. Fui retirado da Ribeira Seca pelo Sr Bispo Dom Francisco Santana. Digo Dom em tom de ultraje, mesmo para enxovalhar. Um Bispo chamar-se Dom, francamente. São representantes de Cristo mas arrogam-se. Querem ser reis. (...)"
Sinto uma profunda tristeza pelo comportamento de algumas figuras que deveriam ser ÍNTEGRAS. E não são. São políticos travestidos. Lamento.
Ilustração: Google Imagens.