sábado, 13 de fevereiro de 2016

"AJUSTAMENTOS NO GOVERNO" OU "CRISE NO GOVERNO"?



Do meu ponto de vista, ressalvando o meu desconhecimento sobre as razões mais profundas que conduziram às demissões de membros do governo regional, o que existe é uma "crise no governo" da Região Autónoma da Madeira. Começou na secretaria da Saúde, nunca devidamente explicado, e continua, entre outros casos de claro desconforto vividos em silêncio. Não há "ajustamentos", há sim sinais de crise política. Os ajustamentos acontecem a partir da tomada de posse do governo; depois, parece-me óbvio, que as saídas, mesmo a pedido dos próprios, politicamente, espelham ou podem espelhar muitas outras coisas. O que se passou e o que se passa não constitui motivo de análise, quando é muito estranho este dito "ajustamento". Ou será que estamos em presença de "ajustamento de contas"?
Olho para esta foto e, individualmente, encontro várias debilidades que têm sido do domínio público. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA - O MINISTRO TEM RAZÃO


O Conselho de Escolas, órgão de consulta do Ministério de Educação, posicionou-se, favoravelmente, à existência de exames no ensino básico. Não aceita o novo modelo de avaliação dos alunos aprovado na Assembleia da República. Isto é, o dito Conselho quer exames e o ministro quer uma avaliação rigorosa mas de base contínua. Assunto, aliás, sobre o qual várias vezes me pronunciei. Trata-se de uma posição, a do Conselho, absolutamente abstrusa, tendo em consideração o que a investigação científica já produziu sobre esta matéria. E a verdade é que, no mesmo dia (ontem) foi publicada a posição do Conselho, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) veio aconselhar Portugal a mudar a sua política educativa no sentido de uma substancial redução do número de retenções dos alunos. 


Ora, como facilmente se prova, não é pelo exames que se melhora o sistema, mas sim alterando, estruturalmente, a orientação de todo o sistema. O Ensino Básico é de abertura ao conhecimento e não só de resposta, alegadamente, correcta à pergunta do professor e de acordo com o manual. Diz-nos Luis Etevaldo da Silva: "(...) O conceito de “conhecimento poderoso” para M. Yong significa aquele que possibilita ao indivíduo, a partir de objectivos claros, atingir níveis de compreensão mais amplos do mundo. Implica apresentar hipóteses e instigar a discussão, repensar as próprias ideias, sob a luz das teorias. Deste modo, aprender a constituir representações sociais, culturais e políticas. Segundo ele, esse conceito não se refere a quem tem mais acesso ao conhecimento ou quem legitima, embora ambas sejam questões importantes, mas se refere ao que o conhecimento pode fazer, como, por exemplo, fornecer explicações confiáveis ou novas formas de se pensar a respeito do mundo. Em face de tal concepção, conhecimento poderoso se entende por conhecimento teórico, aquele que capaz de configurar múltiplos aspectos e argumentar o suficiente para o entendimento do tema em estudo (...)". É exactamente isto que é inviável no actual sistema educativo. Tal como há duzentos anos, salvo raras excepções, hoje, o professor continua a transmitir, o aluno a receber um dado conteúdo e, no dia x, obrigado a debitá-lo ou em um teste ou em um exame formal. Este tipo de ensino está, genericamente, desadequado, é pobre e inconsequente. Neste quadro o Conselho de Escolas não percebeu que há duas grandes mudanças a operacionalizar: a primeira, a montante da escola (espaço físico) ao nível da sociedade, reorganizando-a e tornando-a mais equilibrada a todos os níveis de análise; a segunda, ao nível do sistema educativo capaz de dar resposta a gerações que de todo não são as de ontem, consequência até, da proliferação dos meios tecnológicos e da informação que corre ao segundo. O Conselho de Escolas se não enquadra o seu pensamento nestes dois vectores, obviamente que não constitui bom conselheiro do ministério. Parece-me óbvio que o problema é muito mais profundo do que curricular e programático. É de pensamento, é organizacional, e pedagógico!  
Mas há aqui um dado marginal e muito curioso: o presidente do Conselho de Escolas, Professor José Eduardo Lemos de Sousa, foi o docente que, em 2011, em audição parlamentar na Assembleia da República, se mostrou contra a avaliação de desempenho dos professores e hoje, mostra-se favorável à avaliação dos alunos através de exames. Não é que a avaliação de desempenho dos docentes não deva ser outra, claramente que sim, de base formativa e não classificativa e punitiva, mas o que está aqui em causa é a dualidade da sua posição. Para nós uma coisa; para os outros... Não estou em condições de assumir que a atitude do Conselho de Escolas tenha pendor partidário, mas deixa transparecer isso, à luz do que foi a política de Nuno Crato e do que agora o governo pretende, no quadro de um sistema educativo portador de futuro. 
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

ULTRA TRAIL E A PRESERVAÇÃO DA SAÚDE


Ultimamente, a Madeira, tal como está a acontecer por todo o lado, tem sido palco de provas de longa distância. A "moda" do trail pegou e a superação individual parece não conhecer limites. Nada tenho contra esse tipo de desafio individual, apenas muitas reservas. Não vou aqui comentar ou expressar o que penso sobre este tipo de provas no quadro da prática do desporto, bem cultural, mesmo considerando distâncias (percursos) adequadas às idades, à preparação atempada e aos ritmos diferenciados de participação, mas quero deixar uma preocupação, sobretudo aos madeirenses, praticantes e organizadores: cuidado, muito cuidado, não apenas com a preparação, mas com o acompanhamento médico. Os "aparentemente saudáveis" e sem "factores de risco" podem não o ser e lá vem o dia que qualquer circunstância inesperada se torna fatal. Oxalá nunca aconteça. E em defesa de todos não basta, aos participantes, assinar um "documento de responsabilidade" por qualquer situação inesperada. 

Chamonix e Mont Blanc (fotos do mês de Agosto)

Constou-me que alguns madeirenses vão participar no ultra trail do Mont Blanc. Conheço Chamonix, o Mont Blanc e toda a zona envolvente. De Chamonix subi até aos três mil e setecentos metros através do teleférico. Absolutamente, deslumbrante. Só que uma coisa é ver toda a envolvência enquanto turista, outra é participar. Leiam isto, por favor:
"A sigla UTMB é das que mais faz sonhar o corredor de trail amador. Só o nome da prova que representa, em si mesmo, já impõe respeito: Ultra Trail du Mont Blanc. Do ponto de vista técnico, o UTMB é uma prova de carácter competitivo, com um percurso circular de 168 Kms a partir de Chamonix (França) e que passa por três países à volta da montanha mais alta da Europa ocidental, tendo cerca de 9.800 m de acumulado positivo. A prova tem um tempo limite de 46 horas, mais do dobro do tempo tipicamente realizado pelo primeiro (20 horas e alguns minutos) e quem chegar a meio do pelotão demorará cerca de 41 horas" (ler aqui). 
Para lá se dirigem milhares que experimentam esse desafio. E quando ouvi a notícia, logo a minha pergunta, que há muito faço, sublinho, mesmo no quadro das provas locais, que acompanhamento médico têm todos aqueles que se submetem a esforços de uma intensidade que de forma alguma pode ser considerada moderada? Estarão todos os aspectos salvaguardados? De alguns contactos fiquei com o sentimento que não, que existe muita aventura e ausência de cuidados que são basilares para quem se predispõe, porque gosta, a este tipo de actividade. Não estou a dizer que é nula a preocupação por parte de todos, mas que o provável rigor de uns não corresponde ao da generalidade. Repito: cuidado, muito cuidado, porque tudo decorre com normalidade até um dia! 
Sei do que falo por formação académica. Que ninguém brinque com a vida.
Ilustração: Arquivo pessoal (primeira foto) e Google Imagens (segunda foto).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

REGIÃO DA MADEIRA COM A MAIOR TAXA DE DESEMPREGO ENTRE AS SETE REGIÕES DE PORTUGAL



FACTO:
"Situa-se, agora, nos 14,7%! Os Açores conseguiu baixar a taxa de desemprego para 12,8%. Há três trimestres consecutivos que a Madeira tem a mais alta taxa de desemprego das regiões". Para além dos que emigraram, os enquadrados em acções de formação, os estágios profissionais e os que "desistiram" de procurar emprego, sublinho eu.
COMENTÁRIO E PERGUNTAS:
Curiosamente, quase todos os dias, a propaganda política, dá conta de milhões para o empreendedorismo e para as empresas ("o Instituto de Desenvolvimento Regional (IDR) concedeu mais de 6,3 milhões de euros em subvenções e benefícios públicos a várias entidades madeirenses em 2015" - fonte: DN-Madeira de hoje. Na edição de Segunda-feira, a secretária regional Drª Rubina Leal assumiu que, em 2015, o Instituto de Emprego da Madeira, IP-RAM (IEM, IP-RAM) aprovou um “total de 695 Prémios” de Emprego no âmbito de “13 programas” do género, tendo pago mais de “3,2 milhões de euros” (...) "criadores líquidos de postos de trabalho destacando-se os programas de Incentivos à Contratação, de Estímulo ao Empreendedorismo de Desempregados e os Estágios Profissionais”). 
Há aqui qualquer coisa que não bate certo. Várias perguntas podem e devem ser colocadas. Entre outras, os estímulos à empregabilidade por que não funcionam em termos reais? 
Há que dar explicações políticas sobre esta situação, sob pena de tudo não passar de mera propaganda.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

"QUANDO OS JORNALISTAS SÃO O CENTRO DO PROBLEMA"


José Vítor Malheiros assina, na edição de hoje do "Público", um artigo que eu subscrevo na íntegra. De facto, chega a ser penoso e angustiante, sobretudo para quem acompanha, faz um esforço de estudo e de cruzamento dos vários aspectos das situações políticas, escutar tanta mediocridade, superficialidade e descarada preferência política. Ressalvo que há gente (jornalistas e comentadores) de muito bom conhecimento, profundos, de manifesta independência e que são capazes de nos fazerem reflectir sobre dados que nos escapam. Deixo aqui um excerto desse artigo:


"(...) Entendamo-nos: a imprensa, seja um jornal ou uma televisão, tem espaços de opinião e espaços de informação. Nos espaços de opinião, existem pessoas que são livres de defender as suas opiniões, quaisquer que elas sejam. Nos espaços de informação, da responsabilidade de jornalistas, espera-se uma abordagem isenta. Repare-se: isenta. Não uma abordagem que mostre “os dois lados da história” - porque uma história tanto pode ter dois lados como dez e porque dois sectarismos não são a mesma coisa que isenção - mas uma abordagem que explique o que está a acontecer, as consequências do que está a acontecer e que desmonte a propaganda.
Para desgraça de todos nós, o jornalismo é caro e o bom jornalismo mais caro ainda (porque exige profissionais de qualidade, equipas multidisciplinares com meios e tempo) e, por isso, a informação tem vindo a ser substituída com prejuízo por espaços com opinadores. O problema é que, não só a cobertura jornalística da política em geral é de um enorme sectarismo (muitos jornalistas são de direita e fazem propaganda das suas preferências políticas ou são maus e limitam-se a repetir o discurso hegemónico do poder, de direita) como os espaços de opinião estão invadidos por comentadores de direita ou do “centro” - alguns apresentados sob uma roupagem técnica como “economistas”, “politólogos” ou mesmo “jornalistas” - e estão praticamente desprovidos de uma visão alternativa. Qualquer jornalista sabe isto e sabe que isto é desonesto. (...)"
O texto pode ser lido neste endereço:
https://www.publico.pt/politica/noticia/quando-os-jornalistas-sao-o-centro-do-problema-1722761?frm=opi

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A "ESCOLA NOVA" DA RIBEIRA BRAVA E A NECESSIDADE DE UMA "NOVA ESCOLA"!


Facto:
Foi anunciada a construção de uma escola nova cujo investimento rondará os sete milhões de euros, beneficiando de uma comparticipação comunitária de 85%. Há muito identificada a necessidade, depois de várias polémicas, finalmente, os decisores políticos da Região Autónoma da Madeira decidiram-se. Ainda bem.
Comentário e perguntas:
Os sistemas educativos estão em mudança. É irreversível, apesar das resistências que as mudanças de paradigma sempre transportam. Tendo origem na ignorância de muitos políticos, onde se incluem os decisores, é sintomático que o mundo que estamos a viver, em todos os aspectos, como escreveu Alvin Toffler há muitos anos, já não cabe nos cubículos convencionais de ontem. É óbvio que só resta ao sistema educativo mudar de paradigma. E a propósito da construção de uma escola nova (Ribeira Brava) a questão que, desde logo, deve ser colocada é se o edifício está projectado de acordo com a tipologia do passado ou se acompanha a mudança que está a acontecer. Este aspecto não é de somenos importância. Ele é fulcral.


Na Catalunha, por exemplo, nos colégios jesuítas estão a transformar os edifícios, deitando paredes abaixo para implementar uma nova dimensão do processo ensino-aprendizagem. "Educar não é só transmitir conhecimentos", disse o director-geral do FJE, Josep Menendez. Hoje, estão em causa projectos que promovam "as inteligências múltiplas e extrair todo o potencial" dos alunos (...) "nós transformamos a educação para que o aluno seja o protagonista, para que haja verdadeiro trabalho de equipa e os alunos a descubram qual é o seu projecto de vida, o que querem fazer na vida e ensiná-los a reflectir, porque vão viver numa época que os vai desconcertar". "O problema do ensino é que é muito aborrecido. Nós mudámos o olhar" disse, em entrevista Pepe Menéndez, director adjunto da Fundació Jesuïtes Educació, da Catalunha. "A dificuldade essencial é o aborrecimento, a falta de ligação. "Isto não me interessa." A escola é uma obrigação, não é um sítio que me apaixone. Os adolescentes não têm de estar sempre a divertir-se, mas a escola estava a tornar-se uma prisão. Eu ainda fiz o serviço militar obrigatório e digo que a escola obrigatória é igual. Igual! Todos têm de ir porque os pais trabalham, porque a lei obriga, mas o direito à educação não é fechar os miúdos numa escola. É provocar as suas emoções, as suas paixões, potenciar os seus talentos tão diferentes... os talentos dos alunos são muito maiores do que o currículo. (...) A mudança está em olhar para as coisas de forma diferente: o que queremos? Nós, jesuítas, dizemos: queremos alunos competentes, compassivos, conscientes, comprometidos e criativos. Que sejam capazes de construir o seu projecto de vida, é esse o centro do nosso projecto educativo. É preciso fazer coisas no colégio para que o aluno se vá construindo, e todos os conhecimentos têm de ser metidos dentro do projecto. Não é: "A minha vida é isto e os meus conhecimentos estão noutro lado (...) Tenho de integrá-los!"
Sendo assim e estando o paradigma educativo em mudança, pergunto, qual a posição do governo regional? Manter as tipologias dos edifícios que já não se adequam às necessidades? No caso da Ribeira Brava, questionaram os professores sobre como é que desejam o edifício? Pediram algum estudo, por exemplo, ao Departamento das Ciências da Educação, da Universidade da Madeira? Oxalá esteja enganado, mas pressuponho que o projecto de arquitectura nasce do actual conceito de escola (há uma diferença entre "escola nova" e "nova escola") e não assente em um conceito de inovação portadora de futuro. E tem uma razão de ser. Este governo regional, tal como os anteriores, nunca, repito, nunca, manifestou, publicamente, uma preocupação de mudança do sistema educativo. Perguntarão, pressuponho, para si próprios: eles dizem que a escola é uma seca? Que seja! Eles (crianças e jovens) têm de adaptar-se ao que queremos e nunca o contrário. O erro reside aqui e em uma nova e adequada leitura do Mundo!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

A LATA DE PEDRO PASSOS COELHO


"O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, acusou ontem o Governo socialista de promover um grande aumento de impostos para "dar com uma mão a uns aquilo que está a tirar a todos os outros" (...) Espero não ser chamado outra vez com a casa em chamas". Sinceramente, se a política é isto, vou ali e já volto. Quem assim age manifesta ausência de vergonha, de sensatez e de respeito por si próprio. Pedro Passos Coelho esquece-se que aconteceu uma crise, fabricada externamente, e que arrastou quase toda a Europa. Países que chegaram a apresentar superavit (caso da Espanha) mergulharam em uma profunda crise. A crise não ficou a dever-se apenas aos erros de governação, mas às ondas de choque externas. Pedro Passos Coelho sabe que assim foi, mas continua a apresentar-se como o "salvador da Pátria" e a julgar-se como homem providencial.

Há uma comunicação social que já se esqueceu!
Ou será que não se esqueceu?

E sabe que assim foi e é, por isso mesmo, relembro, que na campanha eleitoral de 2011 prometeu mundos e fundos e, durante quatro anos bateu forte e feio nos portugueses. Ou não estava preparado, como chegou a dizer Marcelo Rebelo de Sousa, ou aldrabou sabendo ao que vinha. Não há uma terceira hipótese. 
Deixo aqui algumas frases ditas por Pedro Passos Coelho que contrastam com o seu comportamento: (...) o orçamento apresentado na Assembleia na República este ano (2010), de alguma maneira vai buscar a quem não pode fugir que são os funcionários públicos e, portanto, precisamos de um governo não socialista em Portugal (...) não faz sentido andar a pedir às pessoas, às famílias portuguesas para pagarem mais a crise (...) na prática estão a preparar-se (anterior governo) para aumentar a carga fiscal. Como? Reduzindo as deduções que podemos fazer em sede de IRS (...) significa sempre o mesmo esforço de tratar os portugueses à bruta (...) os sacrifícios não têm sido distribuídos com justiça e equidade (...) não contarão (comigo) com mais ataques à classe média em nome dos problemas externos (...) nós não olhamos para as classes de rendimento a partir dos mil euros dizendo aqui estão os ricos de Portugal que paguem a crise (...) nós hoje obrigamos as pessoas a pagarem com aquilo que não têm (...) para que o caminho que têm pela frente não seja ainda de mais impostos, mais desemprego e mais falências de empresas (...) não dizemos hoje uma coisa e amanhã outra (...) não basta a austeridade (...) não se pode cortar cegamente (...) as medidas agora anunciadas traduzem uma incompreensível insistência no erro, porque se volta a lançar exigências adicionais sobre aqueles que sempre são sacrificados, porque se atacam alicerces básicos do estado social (...) se eu fosse primeiro-ministro não estávamos hoje com as calças na mão, a pedir e a impor um plano de austeridade (...) o que o país precisa para superar esta situação de dificuldade não é de mais austeridade (...) o IVA, já ontem o referi, não é para subir (...) temos hoje pessoas que deixaram de ter subsídio de desemprego (...) eu não quero ser primeiro-ministro para dar empregos ao PSD e para proteger os que são mais ricos em Portugal" (...) "(...) Estar desempregado não pode ser um sinal negativo (...)".
Por tudo isto e pela sua prática política, da qual destaco o substancial aumento da pobreza e da emigração forçada, Pedro Passos Coelho deveria estar a passar um momento de grande contenção nas palavras. Só que o desejo de ir ao "pote" é muito grande. Lamentável, pelo menos do meu ponto de vista. Respeito quem tenha uma outra leitura do processo.
Ilustração: Arquivo próprio.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

POLÍTICA DE SAÚDE: 40 ANOS DEPOIS DE ABRIL OS NÚMEROS SÃO ARRASADORES E CONFIRMAM QUE A POLÍTICA BRINCA COM O SOFRIMENTO


A edição de hoje do DN-Madeira apresenta um conjunto de números absolutamente dramáticos. O Sistema de Saúde está em um caos. Quarenta anos depois de Abril, com o sistema regionalizado, nesta região com Estatuto próprio, Assembleia Legislativa própria, governo próprio e orçamento próprio, as perguntas que se colocam, entre outras, são estas: como foi possível chegar a esta situação, apesar da Madeira ter cerca de 250.000 habitantes (menos 100.000 que o concelho de Sintra)? Quais as causas e respectivos responsáveis pelo dramatismo da situação a que se chegou? 


Afinal, a tal "renovação" política não passou de paleio, uma vez que se verifica um exponencial aumento mensal de doentes em lista de espera? Os números hoje apresentados envergonham o sistema, direito constitucional inalienável, e colocam em causa todas as políticas seguidas. Concluo: há muito que os madeirenses deveriam ter procurado uma alternativa política. É o que se chama continuar a apostar no cavalo errado, manco, magro e velho. Também será caso para dizer, qual metáfora, que o sistema de Saúde precisa de "cuidados paliativos" para alívio do sofrimento, compaixão pelo doente e seus familiares.
Ficam os números para reflexão:
"19.200 - Número de doentes na lista de espera para a realização de uma cirurgia no sistema de saúde público da Região, no final de 2015.
16 - Anos que aguardam os doentes há mais tempo nas listas de espera de Ortopedia e Neurocirurgia.
150 - Ritmo médio do crescimento mensal do número de doentes nas listas de espera para cirurgia, em 2015."
Ilustração: Google Imagens.

A DEPUTADA NO PARLAMENTO EUROPEU LILIANA RODRIGUES(PS) DÁ A CONHECER A SUA IMPORTANTE ACTIVIDADE



A Press News representa mais um instrumento para dar a conhecer aos cidadãos o trabalho da Eurodeputada Liliana Rodrigues, no âmbito das comissões e delegações que integra no Parlamento Europeu. Neste espaço, todos os meses, os cidadãos poderão acompanhar todos os projetos desenvolvidos possibilitando uma maior aproximação com os assuntos europeus.

Consultar aqui
http://www.gabineteeuropeudamadeira.com/files/Press%20News/PRESS%20NEWS%20Liliana%20Rodrigues_n01%20(1)%20Final.pdf

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA E A OBSESSÃO PELA AVALIAÇÃO DOS ALUNOS



Curiosamente, os finlandeses, que se apresentam no topo, dizem: "É possível prepará-los ou para as provas ou para a vida. Escolhemos a segunda opção". Pois é, a grande diferença talvez esteja no facto de andarmos à procura do que os alunos não sabem e não do que sabem! Enquanto uns ensinam a PENSAR e educam para a independência (os alunos finlandeses são os que mais lêem no planeta) por aqui a preocupação tem sido a obsessão pelos exames e não pelo verdadeiro conhecimento. Volto a citar Ana Benavente: “A favor dos exames basta o senso comum e a ignorância”.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

"A FAVOR DOS EXAMES BASTA O SENSO COMUM E A IGNORÂNCIA" - ANA BENAVENTE


Por: Daniel Lousada
"Ouço Medina Carreira (1) chegado à educação por influência, talvez, das conversas com Nuno Crato [ex-ministro da educação], no tempo do “Plano inclinado da TVI24”, a defender do alto da sua sabedoria os exames, e dou por mim a citar Ana Benavente: “A favor dos exames basta o senso comum e a ignorância”. (2) “Uma dona de casa sabe – diz Medina Carreira – que a criança espontaneamente não vai trabalhar, não vai estudar. E se não vai estudar não vai aprender. E para que haja «pretexto» [a indicação das aspas é dele] para que a pessoa estude, há um exame”! [a exclamação é minha]. Não sou “dona de casa”. Não sabia que, tratando-se de estudo ou de trabalho, a espontaneidade não existe na criança! − azar meu. Mas sei que há duas coisas que podem levar uma criança a estudar: a curiosidade que lhe é inata e a leva, espontaneamente [Ah! afinal consegue ser espontânea], a procurar saber “o que é”, “porque é”... e por aí adiante; ou a promessa de um prémio ou castigo, a única forma de levá-la a estudar, contrariada, coisas que considera aborrecidas. E sei ainda que, se não vier a gostar do objecto que considera aborrecido e no qual não vê qualquer utilidade, dificilmente este virará assunto de que venha a saber o bastante. 


É por isso que António Nóvoa, parafraseando Alain, (3) diz que os “melhores professores são aqueles que conseguem que, no fim, o aluno goste daquilo que, no princípio, não gostava nada”. Um aluno até pode estudar apenas porque há exames, a fugir do castigo ou atrás da recompensa,(4) mas se não encontrar um sentido maior no decurso do trabalho de aprendizagem, esquecerá tudo na primeira oportunidade.
Eu domino um determinado conhecimento a partir do momento em que consigo demonstrar a mim mesmo e aos outros que domino, através dos usos que faço dele, falando e escrevendo sobre ele. A avaliação dos alunos, colocada nestes termos, é apenas e tão só a verificação de um facto: o aluno sabe [e ele e os outros sabem que sabe] ou não sabe. É claro que os testes [tipo de provas com que se fazem os exames] podem ser úteis para ajudar verificar este facto [para ajudar, insisto]. E podem igualmente ser úteis no desenvolvimento de competências que necessitam de treino para serem dominadas – como é que um aluno aprende a dominar o algoritmo da multiplicação? Treinando, testando a sua habilidade. (5) Mas se eu juntar estes testes a outros testes num exame, para saber quem responde acertadamente a mais perguntas num determinado espaço de tempo, não é saber, se o aluno sabe ou não, que eu quero: quero é saber quem consegue fazer melhor o percurso, nas condições que eu imponho! Colocado desta o forma, o exame assemelha-se a um concurso onde o “rigor”, expresso em pontos, se mede com o cronómetro na mão. E qual é o mal? Nenhum. As crianças até gostam de concursos. Gostam de comparar, com colegas e amigos, algumas das suas habilidades. Aliás, os professores das “classes” dos mais pequenos tiram partido do gosto que as crianças têm por estes jogos, e ensinam-nas a jogá-los, a superar os seus limites, colocando-lhes desafios. Mas ver quem consegue dar rapidamente a resposta ou chegar ao resultado mais depressa, não é o mesmo que querer saber se sabem ou não sabem, para ajudá-las a superar as dificuldades que, eventualmente, sintam.
António Nóvoa, em entrevista concedida a “Carta Educação” [www.cartaeducacao.com.br] defende que as avaliações padronizadas, aplicadas para que os conhecimentos entre estudantes, ou os resultados das escolas, ou países, possam ser comparados, “são instrumentos muito pobres que pouco dizem sobre a vida escolar e o trabalho dos alunos. Mas não os podemos ignorar, por duas razões. Primeira, porque apesar da sua pobreza, têm uma grande visibilidade e podem ajudar a desencadear uma reflexão útil. Segunda, porque influenciam profundamente a maneira como a sociedade e os próprios alunos, vêem a escola e os professores, o que é importante para a criação de um melhor ambiente educativo”. Contudo, desencadear uma reflexão útil e promover um melhor ambiente educativo, não significa promover a separação de uns quantos, quando não é útil fazê-lo.
Os primeiros anos de escolaridade correspondem a uma fase muito exigente – é verdade! E decisiva, também, para o êxito das aprendizagens futuras. Daqui o rigor que deve acompanhar o ensino nesta fase [acompanhar o ensino – insisto], só possível com uma avaliação que se aproxime o mais possível do retrato das aprendizagens dos alunos. Quer dizer, avaliação serve a aprendizagem e o ensino; quando não, apenas serve para fazer comparações ao serviço de falsos conceitos de exigência. À avaliação basta-lhe ser o que é: verificação de factos, como ficou dito atrás. E quando se ouve falar de rigor, igualdade, justiça... [tudo termos que o senso comum gosta de associar aos exames e seus instrumentos de medida!], o mais certo é porque alguém quer saber quem está na frente e merece chegar aos lugares que dão direito a taças e medalhas! A exigência de rigor, do ponto de vista do exame de avaliação, não é determinada pela necessidade de saber o que o aluno sabe, mas pela necessidade de impor barreiras. E eu só encontro uma situação em que este tipo de avaliação pode ser útil: quando é preciso seleccionar [porque as vagas naquela faculdade não dão para todos e é preciso fazer escolhas] e não temos outro instrumento para fazê-lo com critérios mínimos de justiça. (6) Ora, nada disto é necessário com as crianças mais novas. E seleccionar ou excluir não serve a sua educação, bem pelo contrário. Não coloquemos barreiras num tempo em que o que importa é abrir horizontes.
Sabemos que é nestas idades que as crianças estão mais despertas para aprender. Só temos, então, que aproveitar essa disponibilidade para fazê-las crescer, não contaminando o seu trabalho de aprendizagem com repelentes, como penalizar os seus erros com “avaliações” de que nada aproveitam [apenas ensinam que errar é errado e o melhor é não arriscar], em vez de aproveitar os seus erros para fazê-las avançar no conhecimento. “Imagine-se uma mãe a sujeitar o seu filho a um exame de linguagem, que castigasse as suas dificuldades de pronúncia... Com medo de arriscar, que criança aprenderia a falar?”(7)
Não sou dos que embarcam no argumento de que as crianças stressam com exames. “Os miúdos de hoje, salvo algumas exceções que confirmam a regra, não stressam com estas coisas. Mas stressam os seus professores, qual treinador que se sente responsável pelos ‘desaires’ da sua equipa. Vai daí, corre o risco de se comportar como tal: vai atrás de saber como joga a equipa contrária (informa-se sobre a história das perguntas de exame) para treinar os seus jogadores (alunos) a marcar e a fugir das marcações (a responder à letra). Ensina a jogar, é certo, mas ensina a jogar daquela forma que o adversário lhe impõe que jogue. Ensina a responder a perguntas mas, pressionado pelos ‘resultados’, relega para segundo plano o desenvolvimento da capacidade de fazê-las”, (7) e com as quais desenvolve o seu sentido crítico e espírito inventivo. Sejamos exigentes, não neste ou aquele saber, mas na apresentação da criança ao mundo, iniciando-a no que o mundo tem para lhe oferecer: na pintura, na música, nas ciências, nas artes dramáticas, na leitura e na escrita por prazer. Sejamos exigentes sim, mas não condicionemos a aprendizagem das crianças com perguntas de exame, que dizem muito pouco do aluno e do trabalho da escola, num tempo em que o que mais importa é não deixar morrer o prazer de aprender. Mas isto, como defende Ana Benavente, exige-nos que pensemos um outro tipo de escola, e que tardamos em pensar.
NOTAS:
1. Programa “Olhos nos olhos” de 19.01.2016, da TVI24, so- bre “Avaliações no ensino bá- sico”, com a presença do ex- ministro da educação e presi- dente do CNE, David JUSTINO.
2. in “Exames para que te quero” [www.Publico.pt] Estou ten- tado em defender que o senso comum anda ao arrepio da opinião pública [hoje tenden- cialmente a única publicada] e vice-versa.
3. Diz ALAIN que “difícil é conduzir os homens a agradarem-se no fim com aquilo que no princípio não lhes agradava nada” [citado por António NÓVOA em “Pedagogia: a terceira margem do rio”. CNE 2010
4. Será este o efeito mobilizador dos exames, de que fala o ex- ministro da educação, e presidente do CNE, David JUSTINO, no debate com Medina CARREIRA?
5. Neste caso, estes testes não são apresentados apenas como testes: testam a nossa habilidade neste ou naquele tipo de conhecimento, ao mesmo tempo que nos ensinam, pelo treino, a dominá-lo.
7. Daniel LOUSADA, “Exame da 4a Classe: evitar um debate armadilhado”. https://sites.google.com/site/agoragaia/opiniao-artigos/sobre-a-escola-da-nossa-saudade 2 www.agoragaia.blogspot.pt

Artigo de opinião publicado por Daniel Lousada no blogue "agoragaia", aqui transcrito pela importância da sua reflexão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

EUROPA FORTE COM OS FRACOS E OS "MUROS" POR DERRUBAR


Querem cada vez mais medidas de austeridade. A cartilha dessa gentalha europeia, que usa e abusa do seu quase infinito poder, perdida no labirinto do dinheiro, humilha, claramente, os mais fracos e ajoelha-se perante quem lhe faz frente. Os "ingleses" não se puseram com meias medidas, colocaram sobre a mesa as regras e fortaleceram as suas convicções. Porque a Europa "tem medo, como o diabo da Cruz", do referendo que vem a caminho na Grã-Bretanha sobre a manutenção ou saída da União. Seria o início do descalabro. De um outro modo, mas tendencialmente convergente, anda essa gentalha a "piar fininho" com a Itália e até mesmo com a França. Relativamente a Portugal e outras economias mais débeis, ficam enfurecidos porque a exploração tem de continuar. De todo, não é nesta Europa que acredito. Esse é o caminho que, paulatinamente, me conduz a situar-me no campo dos eurocépticos. Mas, porque raio um país tem de, antecipadamente, subordinar-se ao controlo externo, perdendo a sua independência e autoridade? 


Apeteceu-me escrever umas linhas sobre esta matéria e sobre alguns "socialistas" do topo europeu rendidos ou, melhor, vendidos nas suas convicções. Mas não. Não sou economista e, portanto, julgo de bom senso guiar-me por aqueles que admiro pelas suas sustentadas posições. Li o artigo do Dr. João Abel de Freitas, economista, (http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/566259-orcamento-de-estado-2016) hoje publicado e que aconselho a sua leitura. Aqui fica um excerto:
"(...) Pode-se questionar, mas vai “gerar” o diferencial de 0,4%?
Penso que o montante a injectar é de tal maneira vigoroso (acima de 1000 milhões de euros) que até pode gerar mais. A resposta precisa é, no entanto, mais complexa. Só mesmo na posse de ensaios em modelo robusto se poderá dar uma resposta aproximada: os “tais ensaios de sensibilidade”.
Mas a minha resposta de tanta contestação às projecções do Governo não decorre destes graus de incerteza. Não há fundamentação técnica para isso. A situação é bem outra. Este governo é mal visto. Não é da cor dominante. Saiu dos padrões da Troika. E, mesmo após o “chumbo” pelo Tribunal de Contas Europeu de que a austeridade em Portugal e outros países foi mal gerida, de que a Troika não só não soube detectar as razões da crise como não soube lidar com ela, ainda assim continua arrogante e na mesma linha de actuação - a da austeridade e empobrecimento.
Outras propostas orçamentais como as de França e Itália não cumpriram o que está nos tratados e a UE fechou os olhos. Em 2015 e nos anteriores o Governo Passos/Portas não cumpriu e não foi apertado. Só mesmo uma razão estritamente política leva a tanto alarido e alarme".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A SENHORA DEPUTADA VÂNIA DE JESUS (PSD) TEM MUITA PIADA...



Esta manhã, no parlamento regional, arengou: "(...) O Carnaval começou bem mais cedo no cenário político nacional" (...) o documento (Orçamento de Estado) parece uma cópia das propostas socialistas que "sempre geraram défice e endividamento público". Ora bem, a piada está no facto de ela própria, durante vários anos, com o seu voto, ter ajudado a viabilizar os orçamentos da Madeira que geraram, exactamente, "défice eendividamento público", ao ponto de ter sido necessária uma dupla austeridade face a uma dívida de mais de seis mil milhões de euros! Baseado no pressuposto que os "indígenas" têm memória curta, deu o tiro político, o paleio fez ricochete e "matou-a" no plano político. 
Estão as câmaras municipais a pagar monstruosas dívidas do passado, está o governo regional hipotecado até ao pescoço e a população assiste à continuidade de uma guerrilha que não ajuda nada a pacificar as relações entre a Madeira e o governo da República, com vários dossiês pendentes. Daqui a dias, não me admira nada, que o tiro seja para os Açores.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

ISTO NÃO VAI COM "REZAS" NEM COM COLUNAS DE PLASTICINA


"A Europa é gerida por uma ideologia dominante que não aceita alternativas" (...) Porfírio Silva (PS) ao Jornal I. A questão é saber como operacionalizar as mudanças políticas, com sensatez, equilíbrio e responsabilidade, quando os grandes meios de comunicação social se encontram nas mãos de quem não deseja a mudança ("os gestores dos media tornaram-se gestores das mentes"). A questão é saber, também, como chegar ao povo esclarecendo-o que não pode continuar a dar o chicote (entenda-se voto) àqueles que o maltratam com voz aparentemente doce. Novos equilíbrios são necessários.
Assunção Cristas, candidata a líder do CDS/PP, assumiu: "Rezo todos os dias, mais do que uma vez por dia". A declaração, absolutamente respeitável, que tem uma óbvia componente política (não havia necessidade, porque as convicções desta natureza devem ficar com cada um), espero que não seja no sentido da escravização a que temos vindo a assistir. É que a família europeia a que o CDS/PP pertence também "reza" para que nada mude.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 31 de janeiro de 2016

A IRRACIONALIDADE DA GANÂNCIA


Há muito que me é doloroso seguir um telejornal. Angustia-me uma grande parte das notícias e sobretudo aquelas acompanhadas de imagens. Vivemos um mundo em ruptura, em permanente guerra, não apenas com armas convencionais de destruição e matança indiscriminada, mas também de outras situações que ofendem a dignidade do ser humano. Normalmente coincide com a hora de jantar e aí ainda mais penosa se torna a situação. O conflito, a bomba que explode, o negócio das armas, o drama dos refugiados, as crianças famintas e desorientadas, a morte semeada sem piedade, a violência gratuita, a riqueza de uns poucos à custa da extrema pobreza de quase todos os seres humanos, os donos da engrenagem financeira que consideram "lixo" um país quase milenar, a sistemática mentira política, dita sem pejo algum, que ofende, quando estamos a ver o filme da aldrabice, a permanente submissão a "Tratados" pacientemente armadilhados para que, a prazo, não possamos fugir do esmagamento (Berlim já avisou que "as regras são para se cumprir"), enfim, para onde caminhamos, é a pergunta.


Caminhamos, a maioria sem rumo, vivendo o dia-a-dia, enquanto alguns, marcham seguros dos seus passos que a ganância lhes impõe. Tornaram-se insaciáveis e escravos de si próprios. Que lhes interessa saber da morte de tanto inocente, se falta água potável, alimentos e escola para milhões, que só em Portugal, em 2014, 1218 pessoas, por desespero e crise, se suicidaram (números que pecam por defeito, sabe-se, afora os casos de tentativa), isto é, a cada oito horas há um ser humano que põe termo à vida, repito, que lhes interessa as causas desta dura realidade, quando nadam em um oceano de milhões. Um grande Amigo meu, há uns anos, integrou uma missão profissional ao Brasil. Foi recebido e jantou na casa de um magnata. Uma casa de revista, mas de onde se avistava uma das grandes favelas. A páginas tantas, a sensibilidade social desse meu Amigo, levou a questionar, com natural elegância, a situação dos que vivem na margem social. Respondeu-lhe de forma seca: "eu não sei nada de pobreza". E a conversa ficou por ali. Esta narrativa, muito localizada e específica, é certo, diz bem do sentimento de muitos que ainda não perceberam que para estarem bem e seguros, necessitam que todos os demais têm de gozar de um mínimo de dignidade. 
Vamos acabar muito mal. É uma mera convicção. Desde logo, esta nossa Europa, cada vez mais doente e desnorteada, sem força e sem soluções, sem lideranças fiáveis, prisioneira dos interesses, submissa aos "mercados" e vergonhosas agências de rating, irá claudicar mais cedo do que se possa pensar. Não há quem aguente tanta incompetência, actos contraditórios e tanta insegurança nas decisões. E por tudo isto e muito mais, o receio invade-me porque da evidente instabilidade e desconfiança generalizada podem resultar indesejáveis situações de conflito. A teia está cada vez mais complexa e cada vez mais preocupante.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 30 de janeiro de 2016

CONTRADIÇÕES OU COMO GASTAR SEM SER RESPONSABILIZADO



Factos:
1. "Maria João Monte (presidente da Sociedade Metropolitana de Desenvolvimento (SMD) recordou, na comissão de inquérito à obra da Marina do Lugar de Baixo, que estudos feitos depois de várias intempéries que levaram à destruição do quebra-mar revelaram que a onda real, no local, é de 8 a 9 metros e de 20 segundos de frequência, muito superior ao do projecto inicial." Segundo o governo aquele espaço é para ser definitivamente encerrado (abandonado). (DN-Madeira)
2. "O antigo presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, afirmou, esta manhã, no Funchal, que a Madeira "nunca mais consegue ir em frente" e criar emprego se continuar "sobrecarregada com a dívida" pública, pelo que defendeu que a dívida regional deve ser paga pelo Governo de Lisboa. "O Estado deve assumir dívida da Madeira, porque a Madeira é parte do Estado português (...)".
Perguntas (entre outras):
1. Quem fez os estudos visando a construção da Marina do Lugar de Baixo, não é responsabilizado?
2. Quem autorizou não fica sob a alçada da Justiça uma vez que estão em causa dinheiros públicos?
3. É lícito e natural que outros paguem os gravíssimos erros de planeamento, adjudicação e construção, só pelo facto da Região ser parte integrante do Estado português?
4. O que significa possuir um Estatuto de Região Autónoma dotada de órgãos de governo próprio? Ser autónomo não significará ser responsável?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

POLÍTICA SOCIAL ENTRE A REALIDADE E A ALDRABICE DO DISCURSO POLÍTICO



O debate de ontem na Assembleia Legislativa da Madeira, sobre a problemática da protecção às pessoas idosas e indefesas, não passou de um paleio gasto, requentado e sobretudo irritante pela clara ausência de soluções políticas. O que ouvi e li assemelha-se a um disco muito antigo, um vinil riscado de tanto tocar sem um mínimo cuidado, uma melodia que fere os tímpanos, uma letra gasta, mentirosa, aldrabona que devia ser expedida para a Meia-Serra. Lançaram números, o habitual, e generalidades do tipo "a vocação natural do apoio aos idosos é reforçar o apoio domiciliário. É indiscutível que a melhor forma de apoiar os idosos é mantê-los no seu ambiente". Obviamente que não seria necessário um debate para esta tão "brilhante" conclusão. Da mesma forma assumir que "temos de ser realistas e não podemos dizer que vamos resolver isto de um dia para o outro". Pois, apenas com um pormenor, é que já lá vão quarenta anos de responsabilidades que não podem ser divididas com outros protagonistas políticos, imputadas a erros de estratégia política de partidos que nunca ocuparam a cadeira do poder. 


E tantos que foram e têm sido os alertas. Basta consultar o "Diário das Sessões" da Assembleia para verificar quantos analisaram, quantos apresentaram propostas consistentes, quantos textos foram produzidos no sentido de gerar uma sociedade menos desequilibrada e dependente. Ninguém pode dizer que a oposição política não fez o seu trabalho de alerta, não de bota abaixo, mas propositivo e de uma forma necessariamente integrada. Não me refiro, apenas, ao complemento solidário no quadro das pensões mais baixas que, na Região Autónoma dos Açores é pago, mensalmente, há vários anos e integrado no Orçamento Regional. E não me refiro, sequer, ao apoio que é prestado aos mais vulneráveis para que não deixem no balcão das farmácias os medicamentos que mais necessitam. Falo, sobretudo, de políticas laborais, das políticas de emprego, das políticas de família, das políticas de mentalidade, das políticas educativas e dos direitos sociais sucessivamente usurpados que conduziram à degradação. Quarenta anos são, grosso modo, 14.600 dias de opções políticas que transformaram a paisagem, é verdade, mas que não transformaram o ser humano que aqui habita. As margens da sociedade aumentaram na mesma proporção de muita aparência de "gente feliz... com lágrimas", a fome aumentou e a fuga para longe retornou, os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais na miséria, os que mais têm sabem como fugir às responsabilidades tributárias, enquanto os outros são esmifrados e batem à porta das paróquias e das instituições de solidariedade social. Pais e avós aguentam filhos e netos, as dívidas dispararam, as insolvências individuais também, enfim, assiste-se a uma degradação social e a uma violência (de etiologia vária) sem fim à vista. E perante esta realidade ouve-se a conversa de treta do presidente do governo. Um exemplo: segundo um deputado do CDS, são 463 os casos de alta problemática entre idosos (...) o que significa um valor superior a 60% relativamente ao de 2012. A este propósito disse o presidente que há famílias que "vão de férias para Canárias e deixam os idosos nos hospitais", levianamente, generalizando o que é do domínio certamente pontual, para além de provar a ausência de controlo institucional. Mas não falou de um sistema de saúde onde falta de tudo um pouco. Há dias um médico denunciou tudo o que o sistema padece. E há dias, também, soube-se do encerramento do bloco operatório (não é a primeira vez) devido "à ruptura do stock de componentes de aspiração" (DN). Apenas um exemplo da degradação dos serviços que cada vez mais denuncia estar fora de controlo político.
Se há sector ou área social que o governo deveria andar com o rabinho entre as pernas, em penitência permanente, é, exactamente, na política do idoso. Oh diacho, não se lembraram que as obras megalómanas seriam finitas, até pela própria dimensão das ilhas e que outras prioridades sustentáveis se justificavam no quadro de uma sociedade mais equilibrada, justa e tendencialmente feliz? Não era óbvio que outras teriam de ser as políticas, quando a pergunta central de um qualquer planeamento é a de perceber quais os efeitos futuros de uma decisão tomada hoje? Entre outros, quais os seus custos e quais os seus benefícios! Quantos milhares de milhões foram gastos, inutilmente, para gáudio dos presentes nas inaugurações e que, sabendo, deixaram tantos na mais profunda miséria? Sinceramente, choca-me quando os políticos não assumem o erro (coisa cada vez mais impossível) mas pior, ainda, quando não apresentam saídas políticas e de natureza orçamental capazes de visualizarmos uma solução. Mesmo que a prazo longo.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO


Afirma John Dewey com muita propriedade e autenticidade: "(...) Cem gramas de experiência valem mais que uma tonelada de teorias, porque só com a experiência uma teoria tem um significado vital e verificável. Uma experiência, mesmo que uma experiência muito humilde, é capaz de gerar e de conduzir qualquer quantidade de teoria (ou conteúdo intelectual), mas uma teoria separada de uma experiência não pode ser definitivamente compreendida nem como teoria. Tende a tornar-se numa mera fórmula verbal, um conjunto de palavras-chave utilizadas para tornar o pensamento ou a teoria genuína desnecessário e impossível. Devido à nossa educação, empregamos as palavras pensando que são ideias para colocar questões e ao fazê-lo, estamos, na realidade, simplesmente a obscurecer a percepção que nos impede de ver a dificuldade mais aprofundadamente" - in, Democracia e Educação, Plátano Editora, 2007), citado por Emanuel Oliveira Medeiros, em um artigo publicado na Página da Educação, edição de Inverno.


Pois, "cem gramas de experiência valem mais que uma tonelada de teorias". Trago isto à colação porque face a tantas, nobres e verificáveis experiências em políticas de educação, inclusive, em Portugal, os governantes continuam a transportar e a acreditar em toneladas de teorias que nada valem na prática. Tenhamos presente a polémica gerada com a abolição dos exames no ensino básico, com muita gente contra, desde os partidos da oposição, a pais e até alguns professores! São "toneladas" de insustentáveis teorias. Da mesma forma, e aqui está o fulcro da questão, é a teimosa manutenção das características que enformam o actual sistema educativo, como se nenhuma alternativa existisse. Como se as tais "cem gramas" de experiência de nada valessem. A persistência no erro, as tais "toneladas" irracionais e infundamentadas, conduzem a que essa "teoria separada de uma experiência não possa ser definitivamente compreendida nem como teoria".
Ontem, por exemplo, o secretário regional da Educação foi a uma escola entregar livros, levou a comunicação social atrás de si, produziu declarações, cumpriu o número político para que conste que está a fazer alguma coisa (!), todavia, aquilo que seria fundamental, isto é, colocar em causa a teoria que enquadra o sistema, isso aí, não, pois se sempre foi assim, por que raio é que havemos de fazer diferente? Entregou livros diversos. Logo livros! Mais valia que entregasse apenas um que colocasse todos a reflectir sobre o sistema que temos e o sistema que deverá ser projectado. 
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

PARAFRASEANDO... PRÉMIOS HÁ MUITOS!



O secretário regional da Educação mostrou-se muito feliz pelo facto de alguns alunos (e escolas) arrecadarem prémios nacionais. Segundo o governante tal advém da "qualidade dos nossos projectos e do empenho das nossas escolas e dos nossos professores". Há prémios na "ciência", no desporto, em textos literários, no canto, no teatro, o que não faltam são prémios na sequência de uma prova ou concurso. Há que felicitar, obviamente que sim. Só que isso, porque são excepções, não deve servir para apagar ou tornar translúcido o pobre sistema educativo que dispomos. É porque ao lado desses louváveis e naturais destaques, a Madeira regista, também, taxas de abandono escolar e de insucesso que a todos nos envergonham. Um "pódium" de "medalhas" pela negativa! Da mesma forma que existe uma ausência de financiamento do sistema educativo e uma acção social educativa que continua a ser indecorosa. Ao lado dos "prémios", orgulho do governo, a fome existe, face à qual, tantas direcções executivas desdobram-se para esbater as privações com efeitos extremamente negativos no processo ensino-aprendizagem. Mas isso  parece que pouco interessa!


O secretário disto não fala, nem programa político de combate apresenta. Fica-se pela visita a uma escola que obteve um prémio! Se eu fosse um dos professores envolvidos dispensava esses elogios envenenados. Só pessoas distraídas ou governantes com manifestos desejos políticos de aparecerem por algum motivo é que ligam às palavras que traduzem uma mão sobre o pêlo dos professores, quando, em tantas e tantas situações, não só não são ouvidos como são ostracizados. Há professores, há que dizê-lo, que fazem das tripas coração para terem algum sucesso. 
Ainda anteontem aqui deixei uma entrevista ao Professor Joaquim Azevedo, Doutorado em Ciências da Educação. Pessoalmente e, estou certo, milhares de professores ficariam felizes por saber que o secretário pretendia mudar este sistema educativo que é anterior ao Século XVIII. Os "prémios", esses, atravessaram estes três séculos. Provavelmente, ficariam muito mais entusiasmados pelo anúncio de uma mudança de paradigma susceptível de garantir, não mais um prémio, mas o grande prémio de uma Escola concordante com as necessidades deste novo tempo. Este governo fica-se pela "terminação", não almeja o prémio maior. Infelizmente. É que, depois de mais de quarenta anos de luta por um sistema que torne feliz toda a comunidade educativa, dou comigo a ler um texto sobre um "prémio" que, no máximo, deveria contar com a comunidade educativa daquela escola e não com a presença do principal governante do sistema. Ao governante estão cometidas outras funções, bem mais importantes do que a fotografia da sua promoção.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A EXCELÊNCIA DO PENSAMENTO PARA A EDUCAÇÃO


"Se há mais de 20 anos se concluiu, a nível internacional, que o modelo escolar está esgotado, por que não se faz uma reforma profunda em vez de mudar pormenores, instabilizando alunos, professores e famílias? O especialista cita os exemplos do ensino na Finlândia e nos jesuítas catalães. - Entrevista com Joaquim Azevedo, investigador e professor da Universidade Católica, doutorado em Ciências da Educação.


Tem havido discussão à volta da questão dos anos dos exames. Essa questão é central na educação?
A questão central da educação, de facto, não é essa, não passa por aí. É ser capaz de fazer que as novas gerações adquiram o conhecimento codificado que vem do passado e ajudá-las a desenvolver-se e a tomar conta do seu destino e da comunidade. Hoje, isso é feito cada vez com mais dificuldades, não cá em Portugal mas em todo o mundo. O modelo escolar vem do século XVIII - até vem de antes, mas desenvolveu-se mais a partir de então - e tem imensas dificuldades em adaptar-se à nova realidade. O mundo mudou muito.
Porque é global e todos temos acesso a informações de todos os lados?
Exatamente. E um acesso a conhecimento muito mais organizado, por causa de todo o investimento em inteligência artificial. É um mundo onde a tecnologia permite às crianças manipularem artefactos técnicos muito evoluídos, desenvolvendo uma capacidade mental diferente da das gerações anteriores. Mas quando se chega ao 1.º ano, a escola age mais ou menos como há 30 ou 40 anos. A cabeça com que as crianças vêm está moldada segundo outros modelos, já não é a mesma coisa. As dificuldades de ensino e aprendizagem são muito mais vastas do que as do passado. Há uma inadaptação da escola ao novo. Trabalho muito com escolas e no dia-a-dia. Até recentemente, os professores atribuíam o insucesso às famílias. Ainda ocorre muito essa justificação.
E é verdade?
Isso é uma premissa. O trabalho da escola tem de ser feito a partir daí, seja lá qual for o contexto. E isso é difícil, claro. Agora as queixas são sobre a desmotivação e a indisciplina, dois aspetos que estão associados. Por outro lado, revelam que a capacidade de captação da atenção que a escola antes produzia hoje é muito difícil. Os miúdos estão profundamente dispersos, com a atenção captada por realidades fora do contexto escolar que os motivam mais. A motivação, que é uma função escolar por excelência, tornou-se um pré-requisito. E isso é revelador da dificuldade da educação escolar em lidar com os tempos novos. Se esse pré-requisito existisse, a desigualdade social ainda seria maior. Se as crianças têm de chegar motivadas à escola para poderem aprender, se isso não é um trabalho escolar...
Que tipo de decisão é necessário que o Ministério da Educação tome para combater esse problema? Não estamos a falar de decisores e professores que não têm o mesmo tipo de "cabeça" que os alunos trazem?
Sim.
O que significa que é preciso intervir, primeiro, nos professores?
Sim.
É preciso fazer uma reforma a sério em vez de alterações pontuais? Rever todo o modelo?
Como, não sei, mas que o modelo precisa de revisão profunda, isso está claro. Nos anos 1990, quando representei Portugal num organismo da OCDE que trata da inovação e educação, ano após ano dávamo-nos conta de que o caminho não pode ser este. Este modelo está esgotado. Há um bloqueio, não avança. Como nós - de 31 ou 32 países - nos dedicávamos à inovação e educação, percebíamos que no mundo iam surgindo dinâmicas de mudança. Ao fim dos cinco anos em que lá estive, uma das perguntas que mais me fazia era: se toda a gente percebe, por que é que isto não muda?
E porquê?
Vivemos ambientes democráticos e é muito difícil que um partido se disponha a propor mudar o modelo escolar. Ninguém aceitaria, seria uma ótima forma de perder as eleições dizer, por exemplo, que queria mudar as disciplinas, os horários, os grupos de turma e os professores e a forma de trabalhar dos professores. Porque o que está em causa é que todo o modelo de organização pedagógica da escola tem de ser mudado. E isso não sei se vem de cima ou se vem de baixo.
É necessário um acordo de regime?
Sim. Pelo menos um entendimento entre algumas forças sociais e políticas. Aliás, o que revela esta geringonça da avaliação, por exemplo - para usar um termo na moda - é que tem muito que ver com isso. Vamos às escolas, trabalhamos com as famílias e o que mais pedem é: "Entendam-se, por favor!" O povo quer que os dirigentes políticos se entendam e os dirigentes políticos preferem fazer da educação um campo de batalha política. Isto é dramático!
É pôr pensos rápidos nos sítios onde a pessoa tem uma doença grave?
Exatamente. Há um sintoma. Mas nunca se ataca a doença.
As experiências inovadoras, na Finlândia e na Catalunha, mudam o quê?
Mudam a forma de organizar o ensino e a aprendizagem. O modelo escolar tradicional é alterado. É muito importante o passo que está a ser dado na Finlândia.
Por ser aplicado a nível nacional?
Por isso e porque é fruto de uma decisão política nacional. É a primeira vez. Há um país que dá o primeiro passo para aquilo por que há 20 anos ansiávamos.
No caso da Catalunha, não é o ensino do Estado, é particular. O Estado tem mais dificuldade, pela necessidade de um acordo entre os vários partidos?
Exatamente. Mas a Finlândia veio abrir caminho, já é possível recorrer a uma externalização para justificar. É a Finlândia, o centro do mundo neste campo, que faz a mudança, e isso faz toda a diferença.
E na Fundación Jesuitas Educación, uma rede de colégios da Catalunha?
Ainda não estão todos os colégios envolvidos, porque tiveram de fazer alterações físicas brutais. A dinâmica que está em curso na Catalunha demorou 15 anos a ser preparada. Desde a primeira reflexão, a primeira estruturação, até à questão dos recursos. Criaram um fundo entre as escolas todas para construir.
E é seguro?
É muito seguro porque já está a ser experimentado. Como o modelo é muito descentralizado e municipalizado, a cidade de Helsínquia já o tem aplicado em larga escala. Quando a decisão foi tomada já estava trabalhada e consensualizada, em termos políticos. As instâncias que refletem sobre estes temas já produziram muitos documentos. Quando, no próximo ano letivo, o modelo tiver aplicação nacional, já há muito trabalho feito e há segurança. É um passo importantíssimo. Tenho um texto sobre os casos da Catalunha e da Finlândia, que se chama Há uma brecha no dique. Essa brecha só pode alargar.
É irreversível?
Nunca mais se vai voltar para trás.
O que é diferente no novo modelo?
Na Finlândia, a mudança é ao nível da organização do trabalho escolar, que tem repercussões muito idênticas à Catalunha. O ensino passa a ser organizado por projetos... chamam-lhes fenómenos ou temas. Os professores, antes do início do ano letivo, organizam-se e estruturam uma boa parte do currículo - não é necessariamente a totalidade do currículo, porque é muito difícil fazer isso. Mas, por exemplo, 60% do currículo, é estruturado em torno de grandes temas agregadores, tendo em conta os interesses dos miúdos nas idades respetivas e a experiência que os professores têm com eles.
E que tipo de tema pode ser esse?
Por exemplo, há um problema da comunidade, uma necessidade que é preciso estudar, ou um tema que interessa aos alunos, ou um assunto em torno da natureza que mobilize conhecimentos nesses domínios. Os saberes de todos os anos letivos, organizados por pequenas unidades curriculares - de ciências, de língua materna, de matemática, de inglês - são mobilizados para os projetos. E há conteúdos que são dados em aulas tradicionais. Isto permite que os pro- fessores trabalhem interdisciplinarmente e em equipa.
Há diferenças entre os dois modelos, o finlandês e o jesuíta?
Os jesuítas da Catalunha vão mais longe porque agregam duas a três turmas. Isto obriga a deitar abaixo as paredes das escolas. As nossas escolas, incluindo as acabadas de construir pela Parque Escolar, onde se investiram centenas de milhões de euros, são para a educação escolar do século XVIII. Ninguém pensou em perguntar: "O futuro é este?" Estamos a construir hoje escolas que dentro de 5, 10, 15, 20 anos vão ter de ser alteradas, porque não é possível mais lecionar e organizar a escola em termos de grupos de 25 ou 30 alunos. Organizam-se grupos de 75, por exemplo, há dois ou três professores na sala que exploram os temas com diferentes grupos, com diferentes dinâmicas. E há uma mudança profunda na organização dos horários. Porque os alunos, numa parte importante da sua vida, vêm para a escola para continuar a pesquisa para o projeto. Até desse ponto de vista o vir à escola ganha outra...
...motivação?
Exato. E assim estamos a responder às questões de fundo: motivação, interesse, ser capaz de captar a atenção dos miúdos. Os professores queixam-se imenso, hoje, da dificuldade de ter os miúdos concentrados no que estão a fazer.
Há um grande medo da mudança. É preciso preparar um país para uma reforma destas?
Cada escola tem de ir criando condições para dar este salto. Aí temos muito a percorrer, porque pode haver também redes de escolas a fazer cooperativamente as mudanças. Em Portugal, temos uma grande experiência de trabalhar com projetos integradores, sobretudo nas escolas profissionais do ensino secundário em imensos sítios. São casos exemplares. Nós já fazemos o que a Finlândia quer fazer. Constroem mesmo um projeto integrador. Por exemplo, existe um problema para resolver na comunidade e os professores juntam-se. O ensino aí funciona por módulos. E então os professores verificam que módulos podem ser mobilizados. Desenvolvem o projeto em conjunto e aplicam--no. Na minha universidade, vamos fazer um um e-book só com exemplos destes. Trabalha-se muito bem a esse nível, em Portugal.
Portanto, é perfeitamente possível?
É possível em qualquer sítio.
Porque é que, no ensino básico, as pessoas têm medo?
Mas também têm no secundário. Isto faz-se minoritariamente. Têm medo porque este passo não é simples. Estamos a tentar fazer isso no interior norte do país, numa escola TEIP [programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária] com muitas dificuldades e está a ser muito difícil. Há muita resistência porque é uma nova metodologia que obriga os professores a trabalhar mais cooperativamente. Para uns é pacífico, para outros não. Implica, um modo de ensinar e uma forma de aprender que não são tradicionais. No contexto de algumas escolas profissionais, desde a raiz, isso conseguiu-se, mas é mais difícil passar à generalidade do sistema, porque nunca houve uma perspetiva integradora e flexível para trabalhar em projetos. A questão é passar de um sistema rígido a um sistema flexível. E não há nada na lei que diga que isso não pode ser feito.
Com a nossa legislação, seria possível começar?
Perfeitamente possível! É uma questão de organizar a escola. A principal dificuldade que encontramos, no caso que referi, é nos professores, na capacidade de formular a nova maneira de trabalhar. "Como vou integrar este saber com aquele?" Também há mil problemas com o facto de trabalharem em conjunto uns com os outros. Propomos esta dinâmica e muitos professores ficam motivados, porque sabem que isto vai motivar imenso os alunos. Mas depois: "Como avalio? Numa dinâmica de grupo, como traduzo isto em avaliação individual?" São estas as questões que emperram...
E como se faz a avaliação nesse novo modelo?
A avaliação pode ser mobilizada quer em termos individuais, quer em termos de equipa. Isso tem é de ser clarificado antes. Na formulação do projeto, têm de estar os objetivos a atingir, a maneira de lá chegar e as regras de avaliação: como é que cada um deles vai ser avaliado. E há imensas formas de fazer isso numa dinâmica formativa e não só. Para produzir a classificação, é mais simples. Mas é uma lógica de avaliação formativa: "aprendeste, não aprendeste", "se não aprendeste, porquê? Como dar a volta?" Essa dinâmica, como implica o processo de avaliação formativa, mexe mais com os professores. Diz-se muito agora: "Nós não queremos exames, queremos é avaliação formativa." Eu trabalho nas escolas, os professores classificam. Os professores sabem é classificar. O governo pode dizer que vai, sobretudo, haver avaliação formativa, mas isso não diz nada. O grande trabalho a fazer em Portugal é escola a escola, a tentar dar estes passos com consistência, com tempo. Isto demora muito a mudar. Na escola de que falei, estamos a caminhar há meses e há uma vontade enorme de fazer melhor. Os professores têm uma dedicação que, em muitos casos, é desmesuradíssima. Por vezes estão a fazer o que está provado que não resulta, mas trabalham loucamente, do ponto de vista profissional.
É preciso parar para olhar?
Pois. Refletir. Isto não pode ser assim.
As escolas superiores de educação não devem também espelhar isto tudo?
Deviam. Uma das coisas mais em causa é a formação inicial dos professores e a formação contínua, porque uma grande parte dos professores já está no sistema. Dentro de 10 ou 15 anos haverá uma grande oportunidade porque vão sair muitos milhares. Vem aí uma nova vaga que já devia chegar à esco-la com esta nova mentalidade. É também um problema político, porque está em causa o acesso à profissão. Eu tenho-me batido por isso e publicado pequenas coisas: é preciso dignificar mais a profissão docente, do ponto de vista da sociedade em geral. Tenho sugerido que a média de acesso aos cursos de formação inicial de professores tenha o mínimo de 16. E isto é uma decisão política.
Para que os melhores sejam professores?
É uma medida política! Não custa nada! É só publicar um decreto-lei, não tem interferência em coisa nenhuma a não ser nos cálculos para o acesso, que se podem colocar no computador. E pode dizer imenso. Se fizéssemos isso e revíssemos as regras de acesso à profissão docente e a formação inicial e contínua, podíamos estar a preparar os verdadeiros alicerces de uma educação diferente daqui a 20, 30 anos. Era isso que devíamos fazer. O que é que estamos a verificar? Nos últimos 20, 30 anos, acede à profissão docente um número razoável de jovens competentes mas também um número enorme de jovens que têm péssimas notas. E são professores. Entram com médias de 10, 11 ou 12... são pessoas com muitas dificuldades. A disputa que aqui se faz em torno da medicina, na Finlândia é em torno de ser professor, e o acesso à medicina fica a anos-luz do acesso à profissão docente.
Isso é estruturante?
É um trabalho que a Finlândia faz há 30 anos. Começou a investir na profissão docente, a mudar a formação inicial, a mudar as regras de funcionamento da profissão. E a pedir muito em troca. Por cada coisa que se dá, tem de se pedir muito em troca, do ponto de vista profissional e de exercício de responsabilidade: muita autonomia, mas muita responsabilidade. A realidade da Finlândia é essa. Nós temos agora essa oportunidade. Como temos um nível etário muito elevado, uma média de mais de 40 anos, dentro de 15 anos, no máximo, vamos ter a possibilidade de substituir um volume muito importante da geração dos professores.
A questão não se coloca, como dizem muitas pessoas, entre a permissividade e a disciplina?
Isso é uma conversa estafada. Essas tensões existem mas o problema não é esse. É uma mistificação, porque um sistema com exames pode ser altamente permissivo. Ficam bem os que ficam bem no exame. E os outros? Em Portugal, aumentou imenso, nos últimos anos, a retenção no 2.º ano. Porquê? Pelo efeito do exame. Mas aprende-se melhor? Temos de ir um bocadinho mais atrás, mais longe. Esse tipo de discussão cansa-me, não conduz a nada. Vivemos num mundo de faz de conta: faz de conta que escola funciona bem; faz de conta que os exames são bons para os alunos aprenderem; faz de conta que os professores ensinam bem; faz de conta que a legislação que o ministério põe cá fora é eficaz e que os professores e as escolas a seguem, faz de conta que existe avaliação formativa.
E depois trata-se o ranking das escolas como se fosse o grande objetivo?
Ou como se fosse tudo. E não é. Eu coordenei a equipa que pôs os exames em Portugal no 12.º, em 1993. Pela primeira vez, depois do 25 de Abril, criámos exames. Duvidámos e discutimos muito se se devia fazer. Porque sabemos o lado positivo e o lado negativo dos exames. Mas no caso do 12.º ano, creio que era mais ou menos inevitável. E tinha que ver também com o modelo da certificação e com a desigualdade de critérios de avaliação, porque havia escolas que davam notas inflacionadas internas. Foi preciso calibrar para ter a certificação final do percurso escolar antes do ensino superior. No 9.º ano, pode fazer sentido ter exames para avaliar o percurso de todo o ensino básico. Mas o investimento tem de ser no processo do ensino e aprendizagem. O problema está ali. Em educação, o processo é o produto, é o processo que conta. A avaliação externa e os exames são importantes, têm o seu papel. Mas isso não invalida que a questão central tenha de ser outra. Ter mais uma prova disto ou daquilo é irrelevante.
Qual é o caminho, então?
Nas escolas onde trabalho, a minha preocupação é se os professores estão a perceber os processos pedagógicos que eles próprios mobilizam. Refletem sobre isso? Sabem os que são eficazes e os que não são? Otimizam os que são eficazes? Estes é que são os núcleos. "Então sugerem-nos metodologias novas?" "Sim, com certeza. Há estas, estas, estas, vamos por este caminho, vamos por aquele". E as escolas mudam. E as pessoas, depois, agarram-se e prendem-se. Há aqui um problema de software, claramente. Hoje o problema é de software".
Ilustração: LEONARDO NEGRÃO / GLOBAL IMAGENS.
NOTA
Entrevista publicada na edição de hoje do DN-Lisboa, conduzida pela jornalista Ana Sousa Dias.