sexta-feira, 22 de abril de 2016

SÓ FALTA QUESTIONAR-SE SE ALGUMA VEZ FOI PRESIDENTE DO GOVERNO!


O jornalista Élvio Passos (DN-Madeira) publicou, na edição de hoje, uma peça que a todos nos deveria fazer reflectir: a designada "Cota 500". Ficou-se a saber que de "uma obra fundamental para a melhoria da qualidade de vida" (2009 - Dr. Miguel Albuquerque) nas zonas altas do Funchal, que permitia, até, "a coesão social" (!), passou a obra dispensável. Refere a peça que "(...) a primeira fase da obra, com uma extensão de 1.300 metros, custou 42 milhões de euros (mais do que 32 mil euros por cada metro linear) foi apresentada por Santos Costa, então secretário do Equipamento Social, como obra que iria "revolucionar as acessibilidades no Funchal". Entretanto, foram gastos quatro milhões de euros em expropriações, alguns para parcelas da última fase, que fica pelo caminho". Razão invocada para o cancelamento da obra: "Face às disponibilidades financeiras e às prioridades definidas, não se perspectiva a execução da totalidade da referida obra." Este o facto noticiado.


Estou completamente à vontade sobre esta obra porque, enquanto vereador da Câmara, opus-me a qualquer parecer positivo, uma vez que tal obra iria, no futuro, ao invés de uma necessária e urgente requalificação integrada a norte do Funchal, exercer uma natural pressão urbanística nas zonas mais altas que de todo deveria ser evitada. O então Presidente da Câmara, Miguel Albuquerque, não considerou, nem os encargos da obra nem as razões mais substantivas que a desaconselhavam, e optou por considerá-la de "fundamental". E assim, hoje, segundo a peça do DN, confrontamo-nos com 1.300 metros de percurso e o abandono  da "segunda fase da via que teria um custo a rondar os 60 milhões de euros, deveria prolongar-se por aproximadamente 2.500 metros e incluir 5 túneis, 4 viadutos e 3 rotundas". 
Curiosamente, esta semana, a propósito de um processo designado (de forma infeliz) por "Cuba Livre", o ex-presidente do governo, Dr. Alberto João Jardim, face à acusação dos crimes de abuso de poder, violação de normas de execução orçamental e prevaricação, terá garantido "nada ter a ver com os esquemas que permitiram esconder 1.100 milhões de euros de dívidas nas contas do seu executivo" (aqui). Portanto, dir-se-á que não teve nada a ver com a Cota 500, com a marina do Lugar de Baixo ou com o "cais 8", onde os comandantes dos navios não querem atracar, entre tantas obras inacabadas ou megalómanas em função das reais necessidades. Só falta questionar-se se alguma vez foi presidente do governo! Da mesma forma que o actual presidente do governo, Dr. Miguel Albuquerque, encolhe os ombros à dívida superior a 100 milhões de euros deixada  na Câmara do Funchal e que os actuais dignitários tentam liquidar. E foi eleito.
O que mais me preocupa é que tudo isto continue a passar impune aos olhos e na decisão do povo no momento do voto. Impune, veremos, na Justiça, muito embora a Procuradora Auristela Pereira (Lisboa), em um primeiro momento, tivesse decidido pelo arquivamento do processo, apesar de deixar claro que os membros do Governo Regional cometeram “uma série de ilegalidades”, “agiram de modo ilegítimo”, “violando uma série de princípios relativos à elaboração do orçamento”, reconhecendo, também, que “a actuação dos arguidos é censurável”. Embora a Procuradora tivesse entendido que tal actuação não possa merecer castigo penal à luz dos requisitos exigidos pela lei, a magistrada apontou a possibilidade de penalizar os responsáveis “no âmbito do direito administrativo e em sede de responsabilidade financeira" (aqui). A abertura de instrução torna-se, portanto, uma incógnita. Veremos.
O que é lamentável é que um cidadão incumpridor, ao nível empresarial ou pessoal, se confronte com problemas até ao céu da boca, mas quando se trata de políticos que assumem a responsabilidade de bem governar aquilo que constitui o esforço da comunidade através dos impostos, não sejam culpabilizados pelos desvios no rigor e respeito pelas prioridades. Pelo contrário, à porta do Tribunal, limitam-se a citar "Finis Patriae" de Guerra Junqueiro, a "A Eneida" de Virgílio e "Os Lusíadas" de Camões. 
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A POLÍTICA EDUCATIVA PARECE NÃO INTERESSAR AOS MADEIRENSES


Não apenas a política educativa, é certo, mas tenho a sensação que este sector, absolutamente determinante na construção do nosso futuro colectivo, por ausência de conhecimento ou por um simples encolher de ombros, não merece grande preocupação por parte dos órgãos fiscalizadores de natureza institucional. Tampouco por parte das diversas comunidades educativas e pela população em geral. Salvo raríssimas excepções, constato uma falta de debate e de preocupação, quando em causa estão processos complexos que vão determinar, a prazo, o êxito dos agora mais jovens. 


Indiscutivelmente que há professores preocupados e mal seria que tal não acontecesse em mais de seis mil docentes que trabalham na Região. Há Conselhos Directivos de estabelecimentos de educação e ensino que fazem valer os seus pontos de vista. Da mesma forma que, aqui ou ali, se constatam opções pedagógicas de relevante interesse e contra a corrente. É verdade que sim. Todavia, são poucos, muito poucos, aqueles que, publicamente, assumem o debate como pressuposto vital para a melhoria da educação em geral e do sistema educativo em particular. E há tanto para reflectir e para propor! Os silêncios, tenhamos consciência, são sempre péssimos, pois traduzem-se em um deixa andar de consequências muito negativas. Quando os profissionais de um sector, seja qual for, se resignam às circunstâncias, não podem esperar que as suas preocupações sejam audíveis, discutidas e, eventualmente implementadas. Vale, portanto, zero, desabafar no pequeno grupo de amigos, criticar formatos, exprimir angústias ou viver no silêncio doloroso a inquietude que oprime. Devemos soltar o pensamento e não confinar-se a uma espécie de "o meu está feito", cumpri o horário, "dei as aulas" e por aqui fico! Mais, não me parece vantajoso para ninguém, esse alívio de consciência que se consubstancia no cumprimento das horas de formação obrigatória, na entrega dos certificados de presença e mais não me peçam porque as mudanças não dependem de mim! 
Há um princípio do desenvolvimento que aprendi e que me acompanha: "ou as pessoas participam ou os processos morrem". Este princípio deveria ser estimulado e deveria acompanhar as nossas vidas, sob pena de laborarmos no campo das lamúrias e não no espaço da transformação. É a democracia e o desenvolvimento que assim exigem.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

"ALUNOS COM HISTÓRIA" E SERÁ QUE "PODEMOS MEDIR O SUCESSO ESCOLAR"?


As últimas duas edições do DN-Madeira trouxeram-nos dois artigos de opinião que, sinceramente, me escorregam garganta abaixo como mel. O primeiro subordinado ao título "Alunos com história"; o segundo, sob a forma interrogativa, "Podemos medir o sucesso escolar?". A autoria pertence, respectivamente, ao Dr. Rui Caetano, Presidente do Conselho Directivo da Escola B+S Gonçalves Zarco, e à Drª Catarina Homem Costa, Psicóloga Clínica. Dois textos que se compaginam, que voltam a trazer para o primeiro plano do debate do sistema educativo, aquilo que deve merecer reflexão e não as questões marginais, repetitivas, ocas, de circunstância e sem sentido. 


Rui Caetano começa por salientar que os "alunos chegam às escolas com uma história de vida e mesmo que nos custe aceitar, apesar de não justificarem tudo, não devemos desvalorizá-las" porque "(...) a génese destas problemáticas não tem nada a ver com as escolas, vêm de fora para dentro. Talvez por esta razão, de modo inconsciente, olhamos para este grupo de alunos sem nos lembrarmos dos seus contextos pessoais e, como é natural, exigimos deles o mesmo ser, estar e aprender dos outros que assumem atitudes dentro dos parâmetros normais da idade. (...) Muitos destes alunos são personagens de histórias de vida complexas, algumas de um dramatismo comovente, membros de famílias desestruturadas, com carências de habitação condigna e subsistência básica. Alguns nasceram em berços de conflitos, deram os primeiros passos abraçados ao cheiro forte do álcool, das drogas ou sobreviveram em atmosferas de promiscuidade. Foram crescendo em ambientes de agressões físicas e psicológicas contínuas, sempre agarrados ao estômago vazio, formando a sua personalidade distantes de um colo afetivo. (...)". São vidas tenras, mas sofridas, cheias de vivências que privilegiam o vazio de expetativas, de sonhos e de utopias, onde a escola nunca é assumida como uma prioridade, embora, paradoxalmente, a procurem como o único porto de abrigo". Mais palavras para quê?
E assim surge, naturalmente, a pergunta da Psicóloga Clínica Catarina Homem Costa: "podemos medir o sucesso escolar?". Inicia o seu texto: "Entrada no 3º período. Começam as preocupações com as notas num processo enlouquecedor de medir as crianças por meio de números, médias, comparando-as com os colegas, distribuindo culpas, procurando soluções mágicas (como explicações intensivas ou medicamentos milagrosos). Parece que todos os problemas e soluções se resumem aos números da pauta. Parte-se do pressuposto que o objetivo na infância é ser bom aluno, como se a vida se medisse pelos se resultados escolares. Mas será que o sucesso mede em números? Serão esses números preditores de conquistas e bons desempenhos? Um aluno de 5 é mais inteligente que um de 2? Terá um melhor futuro? Será mais feliz?. Termina, sublinhando: "(...) Tantos alunos “nota 5” a quem o facto de não ter sucesso nas outras áreas impede de avançar, de se relacionar com o mundo, de criar relações. Tantas crianças “medíocres” ou com insucesso que farão diferença positiva no mundo e naqueles que as rodeiam. O que é então uma criança bem sucedida? Por que damos tanta importância aos números e desvalorizamos outras competências? Temos um sistema de ensino que cada vez valoriza mais os números… e menos as pessoas".
Dois artigos que deveriam ser lidos várias vezes, em voz alta, por secretários, directores regionais e por toda a comunidade educativa. Dois textos que, uma vez mais, deveriam implicar uma profunda reflexão no plano social, da escola organizacional que deveríamos ter e do sistema educativo pelo qual deveríamos pautar a formação das crianças e jovens. Fico com uma enorme pena que existindo, nesta Região, uma Universidade, profissionais de várias áreas, no activo, que pensam as causas do abandono e do insucesso, enfim, profissionais que não tratam nem a Educação nem o Sistema Educativo tendo por base a repetição do passado, sejam pura e simplesmente ignorados. Leiam em voz alta. Ainda hoje li uma notícia que dá conta de um "batalhão" de pessoas de fora da Região que aí virá debitar o que muitos cá dentro dominam. Para quê? Será que santos da casa não fazem milagres? Leiam em voz alta!
NOTA
Os textos poderão ser lidos nestes endereços:
http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/582093-alunos-com-a-sua-historia
http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/582296-podemos-medir-o-sucesso-escolar
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 19 de abril de 2016

DISCORDO DO MINISTRO DA EDUCAÇÃO


Discordo, em absoluto, do Ministro da Educação. Tiago Brandão Rodrigues, "quer alargar o ensino pré-escolar para as crianças de quatro anos de idade e, a partir de 2018/2019, para as de três anos", isto no pressuposto que "(...) a frequência de crianças no ensino pré-escolar é estimuladora de percursos escolares com maior sucesso". Errado. Tanto assim é que a "escola a tempo inteiro" e um pré-escolar com uma clara vocação escolarizadora dos tempos que deveriam ser destinados ao lazer e ao jogo, próprio das diferentes idades, não redundou em melhoria dos resultados finais. O eixo "Qualificar os Portugueses", do Programa Nacional de Reformas (PNR), não passa por aí. Melhor escola e, consequentemente, melhor preparação, não exige mais escola. 


Correcto, com uma visão de futuro, a partir do que tantos investigadores de diferentes áreas assumem, seria cuidar, a diversos  níveis, da pobreza na sociedade, aquela  que se esconde a montante da escola. Correcto seria mudar o figurino organizacional da escola. Correcto seria não confundir currículos e programas com as necessidades das etapas do crescimento, do desenvolvimento motor e cognitivo. Correcto seria a reorganização dos tempos de trabalho, possibilitando mais tempo para a família. Correcto seria, paulatinamente, gerar a mudança  de mentalidade e o gosto pelo conhecimento. Correcto é não querer apanhar frutos muito antes do seu amadurecimento. 
Por este andar, o pré-escolar chegará aos dois anos de idade em uma espécie de leilão semelhante ao "quem dá mais". Com este formato a criança deixa, definitivamente, de estar no centro das preocupações, mas sim o trabalho dos pais que passa a ocupar, cada vez mais, importância vital. Enquanto os pais trabalham horas a fio, muitos com horários disparatados e de sensível exploração, os meninos ficam enclausurados e seguros, pressupostamente, a aprender, cada vez mais cedo, as regras de uma vida imposta e de contranatura. Hoje, as crianças já "trabalham", isto é, já se encontram ocupadas 40 a 50 horas por semana, entre a escola, as actividades fora da escola e os malditos "trabalhos para casa". Aos trabalhadores exige-se menos. É espantoso. Portanto, por isto e muito mais que tenho vindo a escrever, discordo, Senhor Ministro, porque tais medidas, ao contrário do que pensa, a prazo, a factura será enorme.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

CONFERÊNCIAS DO CASINO


A iniciativa "Conferências do Casino" tem, obviamente, um enorme mérito. Quanto mais se discutir, neste caso, a Educação e o Sistema Educativo, melhor para o futuro de todos nós. Só através deste pressuposto poder-se-á romper o círculo vicioso da pobreza. E só assim pode a região almejar empresas mais consistentes, competitivas, de boa e estável empregabilidade, crescimento e desenvolvimento económico. É óbvio e não será necessário um grande conhecimento do sector educativo para entender isso. Portanto, parabéns ao Diário pela iniciativa. Mas uma coisa é a iniciativa, outra o que lá foi dito. Confesso que não tive a oportunidade de assistir, uma vez que, à mesma hora, encontrava-me envolvido em um debate do Gabinete Estratégico do PS-Madeira sobre o interesse ou não de um Representante da República na Madeira. Mas li o trabalho apresentado pelo DN que, julgo eu, traduziu a síntese dos aspectos mais relevantes assumidos pelos protagonistas desta primeira sessão das "Conferências do Casino". Se o objectivo foi gerar, à semelhança das Conferências do Casino (1871) a afirmação de um movimento de ideias que venha a contribuir para que os governantes não continuem surdos à investigação sobre os caminhos da sociedade, digo eu, então, que tal não me parece que tenha sido conseguido. É pena.


Ao ler a reportagem fiquei com a sensação que o Diário abriu o jogo e os convidados, qual metáfora, de baliza escancarada, ao invés de fazerem golos, acabaram por enviar bolas à trave e bolas claramente para fora. Sublinho isto porque a questão da educação e do sistema educativo, constituindo um processo com vertentes múltiplas e complexas, não se esgota na escola. Tem início na família, nos diversos constrangimentos geradores de pobreza, mentalidade, abandono e insucesso, os quais entram escola adentro, invadindo-a com esse conjunto de circunstâncias negativas. A questão central é, portanto, perceber e determinar como romper este círculo vicioso de forma integrada. E pasmo quando o secretário da Educação coloca o acento tónico na "empregabilidade que está relacionada com os resultados da educação". Pergunto, com a educação (qual educação?) ou com o sistema educativo compaginado com todos os outros sistemas? Disse mais, que não tem uma "varinha de condão". Digo eu, ao contrário do que sublinhou, que tem e que todos os antecessores tiveram esse poder da "varinha", mas não quiseram ou não souberam operacionalizar as mudanças transversais necessárias ao desenvolvimento. 
Mudanças que não se circunscrevem ao "desajustamento existente entre a oferta formativa dos estabelecimentos de ensino e as necessidades do mercado de trabalho", como terá sublinhado Rui Bettencourt, director territorial e líder de projectos do Conselho Regional d’Île de France. O sistema educativo, caro Senhor, não prepara para as empresas e para muito trabalho escravo que por aí anda, antes prepara para a vida que é multifacetada. E assim sendo, constitui um erro político grosseiro o secretário pretender ajustar o sistema educativo às necessidades do mercado, com o tal "currículo formativo perfeito". Estes posicionamentos revelam alguma falta de esclarecimento sobre a compaginação entre as questões da Educação e as do Sistema Educativo. E a prova está no posicionamento de "Jaime Morais Sarmento, director de Recursos Humanos do Grupo Pestana que garantiu que muitos não estão preparados para aquelas que são as necessidades reais das empresas (...) e que caberá também aos estabelecimentos de ensino dotar os seus estudantes das ferramentas e noções necessárias para colmatar essa questão". Parece-me óbvio, uma vez mais, o desacerto conceptual sobre esta delicada matéria. 
Se a sociedade está mal, meus senhores, a escola não pode estar melhor. O que realmente gostaria de ter lido, sobretudo por parte do secretário, era o seu projecto para o sistema educativo, em simultâneo, com as preocupações do governo para a educação que é muito mais do que a Escola. Simplesmente porque, pergunto, de que vale falar do fim de linha, quando os factores que estão a montante (económicos, financeiros, sociais e culturais) são, sistematicamente, ignorados, porém determinantes no êxito do sistema? Ora, se o sistema repete o passado, e se a organização social permanece nesse passado, o que podemos esperar no futuro? Apenas os mesmos resultados de ontem e de hoje. Em conclusão, é o sistema educativo que exige mudanças, a par de um profundo trabalho que terá de ser realizado a montante da escola. Um trabalho que, face à sua complexidade, é para muitos anos. Mas que terá de ser feito.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 17 de abril de 2016

PAPA FRANCISCO EM LESBOS



Segui as imagens da presenta do Papa Francisco em Lesbos (Grécia), de onde regressou a Roma acompanhado de "três famílias de refugiados da Síria, doze pessoas no total, incluindo seis crianças". Deu um exemplo de solidariedade e de “coragem” face à “colossal crise humanitária”. Mas o que mais me comoveu até às lágrimas foram as imagens do desespero de adultos e de crianças, algumas ajoelhadas aos pés de Francisco, absolutamente emocionado, como se estivesse a questionar: porquê isto? Deus, por onde andarás?
Foi mais um sinal ao Mundo, particularmente, para esta Europa dos muros e do descalabro político, económico, social e cultural, onde apenas conta o dinheiro e, muito raramente, a política de solidariedade entre os povos e de irmandade entre as nações.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 16 de abril de 2016

REPRESENTANTE DA REPÚBLICA: PARA QUE SERVE?


“(…) A descentralização não aliena a qualidade de português, mas dá à região descentralizada foros de se governar por si mesma, sem tutela de governos que nem sempre estão a par das necessidades das diversas regiões”. Em Outubro de 1922, Pestana Reis escreveu no Diário de Notícias: “(…) No dia em que for decretada a completa autonomia, ter-se-á descoberto a Madeira pela segunda vez”. Estes dois excertos de textos entre muitos que pertencem à nossa História de povo insulano e que só os historiadores, e não eu, estão em condições de integrar e de conjugar com muitos outros factos, traduzem, quando a mim, uma mensagem que Portugal crescerá e será dignificado quanto maior for o respeito que nutrir pelos povos insulanos. E neste quadro, onde “não se aliena a qualidade de português”, saliento e pergunto, passados mais de cem anos, que razões conduzem a que tenhamos uma autonomia política e administrativa que se apresenta vestida de smoking, mas descalça?


Obviamente que melhor do que eu, que de questões jurídico-constitucionais sou muito limitado, os convidados desta iniciativa deixaram os seus posicionamentos. Portanto, não venho aqui com a minha opinião nesses domínios. Interessa-me, sobretudo, uma abordagem eminentemente política. E para não entrar em divagações, por óbvia incapacidade minha, resolvi escrever este documento. Permitam-me que o leia.
Começo por uma breve história que já tem uns anos. Antes de prestar provas públicas académicas de defesa de uma investigação, assisti a alguns momentos congéneres para familiarizar-me com o ambiente, o cerimonial e as arguências. Lembro-me de um momento que me marcou. Um catedrático, depois de cumprimentar o candidato, tomando na mão e levantando o trabalho de investigação, olhou o candidato nos olhos e dirigiu-lhe a primeira pergunta: Senhor Dr… para que é que isto serve?
Uma pergunta, disparada à queima-roupa que me causou, na altura, sentado no anfiteatro, um arrepio. Mais serenamente percebi que a questão tanto dava para ir longe na defesa da sua investigação como por ali ficar embaraçado, por não descortinar o posicionamento do arguente face à investigação. É exactamente essa pergunta que, hoje, no plano político, coloco: em um exercício de imaginação, levanto a instituição “Representante da República” e pergunto: para serve? Qual a sua utilidade política? Qual a sua justificação?
Nem o Senhor Presidente da República nem o Senhor Representante aqui estão para justificar a importância da instituição, quando um nomeia e outro aceita no estricto cumprimento da Constituição. Mas posso argumentar, politicamente, para além dos dados constitucionais, sem cair em qualquer leviandade ou ignorância atrevida, no sentido de sublinhar que se trata de uma instituição falha de qualquer sentido político. 
Aliás, a pergunta que julgo se poder colocar, sempre na esteira do tal arguente que questionava “para que serve isto”, prende-se com o verdadeiro sentido da Autonomia da Região. Não se pode falar do Representante da República sem trazer à colação a questão autonómica, pese embora seja possível questionar se, nos tempos que correm, Portugal é verdadeiramente autónomo e, se não é, no quadro das instituições europeias, como equacionar a autonomia das regiões? 
Porém, do ponto de vista histórico, entre políticos abertamente assumidos e outros, corajosos lutadores pela Autonomia, com posições muito firmes sobretudo a partir dos finais do Século XIX e primórdios do Século XX, sempre de forma crescente e convicta das vantagens do processo autonómico, se lhes fosse feita a pergunta, nessa altura, de por aqui dispormos uma espécie de fiscal da nossa actividade política, todos eles certamente diriam, pelo que tenho lido, não, obrigado! Há um texto, publicado na Madeira a 19 de Novembro de 1917, que enaltece: “(…) A descentralização não aliena a qualidade de português, mas dá à região descentralizada foros de se governar por si mesma, sem tutela de governos que nem sempre estão a par das necessidades das diversas regiões”. Em Outubro de 1922, Pestana Reis escreveu no Diário de Notícias: “(…) No dia em que for decretada a completa autonomia, ter-se-á descoberto a Madeira pela segunda vez” (História da Madeira, Doutor Alberto Vieira, 2001, pág. 278 e seguintes). 
Estes dois excertos de textos entre muitos que pertencem à nossa História de povo insulano e que só os historiadores, e não eu, estão em condições de integrar e de conjugar com muitos outros factos, traduzem, quando a mim, uma mensagem que Portugal crescerá e será dignificado quanto maior for o respeito que nutrir pelos povos insulanos. E neste quadro, onde “não se aliena a qualidade de português”, saliento e pergunto, passados mais de cem anos, que razões conduzem a que tenhamos uma autonomia política e administrativa que se apresenta vestida de smoking, mas descalça? 
Pois, compreendo, houve muitos erros estratégicos, de permeio um estrangulador Estado Novo, uma aurora criada em 1976 que, infelizmente, não foi arquitectada nos melhores propósitos, assistiu-se à febre muito alta da multiplicação das estruturas orgânicas, desnecessários confrontos políticos e a prioridades não respeitadas que terminaram em uma dramática e constrangedora situação financeira. Tudo isso é verdade, mas mesmo assim, com a presença e residência permanente de um Ministro e, mais tarde, de um Representante, com a presença de um big-brother, pergunto, uma vez mais, para que serviu e serve aquela figura? Evitaram-se os exageros, não; evitaram-se os “negócios”, alguns ruinosos, não; evitaram-se desvios na vivência e convivência democráticas, também não. Não serviu para nada. E se a História nos alerta, quarenta anos depois, que o seu papel, o papel de alegado elo de ligação com a República é nulo ou perfeitamente dispensável, entre outros aspectos, no quadro da verificação da constitucionalidade dos diplomas produzidos na Assembleia da Madeira, então é sensato, deduzo eu, que se questione e coloque um ponto final à sua existência. 
Está aqui em causa a palavra Autonomia e em síntese, aqui chegados, das duas, uma: ou a Autonomia é levada a sério, com responsabilidade, por parte de todos os parceiros e interventores políticos ou o próprio sentido autonómico ficará sempre em causa. A Autonomia não necessita de “olheiros” residentes ou de pretensos fiscalizadores da acção legislativa e governativa. Não precisa de alguém, escudado em um palácio, que leia a comunicação social, o Diário das Sessões da Assembleia, receba os representantes dos partidos e todo o associativismo e, finalmente, produza relatórios para conhecimento do Senhor Presidente da República. Não precisa de uma figura que, mesmo no quadro das instituições locais da responsabilidade da República, funcione ao jeito timex, passe a publicidade, que não adianta nem atrasa. Tudo o que depende da República e dos seus Órgãos de Soberania continua, genericamente, na mesma. Não precisa, enquanto Região Autónoma, com Estatuto Político-Administrativo próprio, de alguém que nos controle ou que tenha como missão receber umas pessoas ou, protocolarmente, aparecer aqui ou ali. Precisamos, isso sim, de governos que respeitem e que sejam respeitados, que não se atropelem, que não se ofendam, que não se olhem de forma enviesada, governos sérios e honestos, para que ela, a Região, como sublinhei, “se governe por si mesma, sem tutela de governos que nem sempre estão a par das necessidades” e das prioridades. Até para a República, independentemente do presidente ou do governo em exercício, é deselegante porque traduz uma imagem de manifesta desconfiança e porque traduz aquilo que li em Licínio Lima, embora em um outro contexto: “sejam autónomos naquilo que já decidimos por vós”.
Defendo uma Autonomia com responsabilidade e intransigente rigor o que me leva a defender a existência futura de um país e três sistemas. Não deixamos de ser portugueses pelo facto de procurarmos caminhos diferentes para um mesmo desígnio nacional. Há sectores, áreas e domínios da governação que implicam, óbvia e necessariamente, uma interligação assumida com bom senso. Mas do que não precisamos, de todo, é de uma subordinação a orientações heterónomas que coarctam a nossa capacidade de construirmos uma terra com identidade própria. É na diferença que Portugal se afirmará e não pela via de uma ridícula centralização, por mais subtil que seja.
Finalmente, percorro a Lei Fundamental e o Estatuto do Representante e em nenhum artigo, salvo melhor e mais abalizada opinião, deduzo da sua inquestionável necessidade. Mesmo considerando o actual quadro constitucional, para todas as atribuições do Representante, umas deveriam ser completamente ignoradas, para outras existe alternativa. Por outro lado, não entro no comezinho de saber quanto custa, anualmente, a existência e manutenção dos gabinetes do Representante. Isso parece-me de somenos importância, muito embora, em tempo de sérios constrangimentos, pudesse constituir um sinal de respeito para todos os contribuintes. Para já, fundamental, repito, como olhou o arguente para o candidato, é pegar na instituição, levantá-la e questionar: “para que serve isto?”. E assim regresso a Pestana Reis: “A Madeira precisa de ser pela segunda vez descoberta”. Eu diria, redescoberta no processo autonómico e redescoberta a partir da práxis política. Uma e outra conjugam-se, interligam-se, possibilitam uma argamassa feita de confiança, entre poderes e oposições, e de respeito mútuo no quadro da mesma bandeira. Esse é o grande desafio que não passa, apenas, por uma revisão constitucional, mas por uma política superior, uma mentalidade superior, alicerçada na inteligência e no bom senso. 
Há muito trabalho a ser realizado, até na mudança de mentalidade, de governantes e de governados, antes de uma próxima e desejável revisão constitucional que, entre outras, pondere e reveja todo o “regime político-administrativo da Região”, a sua estrutura orgânica porque não faz sentido que aqui tenhamos um país institucional dentro do país, quando a Região tem menos população que, por exemplo, o concelho de Sintra. Há que repensar as matérias, dificilmente entendidas como “reserva absoluta de competência legislativa” da Assembleia da República, tudo sem dramatismos, sem olhares pesados, desconfiados e sem mãozinhas protectoras. É difícil, eu sei, mas é o caminho. Não é com contas de “deve e haver” dos últimos quinhentos anos que lá se chega, mas com convicção bi-lateral, muita negociação, força e firmeza de todas as partes. Não somos, nunca fomos e não existem povos superiores, mas precisamos, desde há muito, de uma política superior. Resolvido este princípio orientador, pergunto, o que restará à instituição Representante da República? Rigorosamente nada. 
Obrigado.
NOTA
Intervenção, da minha autoria, apresentada, esta manhã, no debate sobre a Reforma do Sistema Político - O Representante da República, organizado pelo Gabinete Estratégico do PS-Madeira.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

SISTEMA REGIONAL DE SAÚDE. QUE PORCA POLÍTICA ESTA!


Não segui o debate, daí que me socorra da peça jornalística do DN. No decorrer do debate sobre Saúde, a deputada do PSD, Vânia de Jesus, olhou, apontou e disparou contra toda a política do Sistema Regional de Saúde até à chegada do governo liderado pelo Dr. Miguel Albuquerque: quando o actual governo tomou posse, há um ano, a situação era de quase caos. Falta de medicamentos, de pessoal, organização deficiente, insatisfação dos profissionais de saúde, grande dívida do SESARAM e pressão dos credores, foi a radiografia apresentada. Disse a verdade que, aliás, permanece em crescendo, passado um ano de governação. Só que a verdade da deputada cruza-se com uma claríssima falta de vergonha e de pudor, quando, por um lado, foi a mesma família política que liderou o processo nos últimos 40 anos e, por outro, naquela mesma Assembleia Legislativa, o sistema regional de saúde foi sempre trazido à colação como o melhor de Portugal, com rasgados elogios em contraponto às análises de todos os partidos da oposição. Que porca política esta!


Obviamente que picado pela falta de solidariedade política, o anterior secretário, Dr. Francisco Jardim Ramos veio a terreiro chamando-a de "renovadinha" e de pretender "escamotear o falhanço completo que a renovação tem constituído no campo da saúde, através da sofismável crítica ao sistema de saúde que vigorou até aí, obnubilando que se tratou do mesmo partido que suportava o Governo de então e cuja memória histórica e luta em prol da população da Madeira devia honrar" (...) que o que Jardinismo "deixou à Região e à sua população foi um sistema de saúde modelar e amplamente elogiado, quer no país, quer no estrangeiro" (...) que o "resultado está à vista. Uma completa ausência de estratégia política e uma total desorganização funcional ditadas por razões meramente economicistas e orçamentais e por uma inversão de valores de organização, onde os conselhos de administração mandam mais que os secretários e onde falta sobretudo o rumo e o norte político".
Enfim, ontem, foi um fartote de palavras como há quarenta anos não se via por estas bandas, espelhando um sério mal-estar nas hostes social-democratas, entre pessoas que negam o seu passado de apoio incondicional e a nova lógica de funcionamento onde parece tudo prevalecer para garantia dos lugares que ocupam e do poder que almejam. Que porca política esta!
Ai se isto se passasse com um partido da oposição? Tenho memória e lembro-me do passado de destruição dos partidos de oposição quando algumas desinteligências internas aconteciam. Os leitores que por aqui passarem que façam as suas leituras.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

PROFESSOR É A ÚNICA PROFISSÃO EM QUE O ESTÁGIO É FEITO ANTES DE TIRAR O CURSO. FAZEM 12 ANOS A OUVIR AULAS, ENTRAM NA FACULDADE, OUVEM AULAS E VÃO DAR AULAS"


"(...) Mais exames não vão melhorar o sistema porque não é a preocupação com o termómetro que faz baixar a temperatura. Mais exames para quê? Os exames não avaliam nada. (...) Injeta-se nas escolas áreas que não faz sentido algum. Por exemplo, criar uma aula de área de projeto? Projeto é o projeto da escola, é o projeto educativo. Educação para a cidadania? Nós não ensinamos para a cidadania, nós educamos na cidadania. Cidadania não é uma hora por semana, é todo o tempo de escola. Andamos a brincar com coisas sérias. Está tudo errado. 


(...) A reprovação é a prova de que realmente a escola não funciona como deveria. Muitas vezes se diz que os professores são exigentes quando reprovam. A pergunta que eu faço é: se a escola melhor é a que mais alunos reprova, o melhor hospital é o que mais doentes mata? Quando as pessoas nem sequer refletem sobre isso… Quanto às classes de apoio, planos de recuperação, isso é tudo um enfeite que não resulta, porque aquilo que não se ensina em oito meses, não é em um mês de plano com mais do mesmo que se vai ensinar. Não é com mais horas de aula que se vai ensinar mais, é com outro tipo de aprendizagem".
NOTA
Excertos de uma entrevista ao Professor José Pacheco, conduzida pela jornalista Marlene Carriço, que pode ser lida AQUI

terça-feira, 12 de abril de 2016

HOJE VOU ENTRAR EM CONTRADIÇÃO COMIGO MESMO


Poucas palavras para não desvirtuar o título. E também para fazer esse higiénico mergulho, difícil e necessário, dentro do cérebro até tocar o nosso consciente latente activo - se é que o podemos localizar – e aí conquistarmos o espaço do pensamento livre. Descodificando o preâmbulo, refiro-me à tumultuosa agitação das ondas comunicacionais que, à superfície, gravitam em nosso redor e nos estrangulam sem darmos por isso. Nunca foi tão activa, obsessiva e opressiva a informação que, de fora, bombardeia olhos, orelhas e neurónios. E com tal subtileza que nem chegamos a levar as mãos à cabeça para abrigá-la de tamanho furacão. Pelo contrário. A pretexto de actualização de dados, somos nós que lhe franqueamos as portas e as janelas. E se ela não vem à hora certa (que é toda a hora) lá vamos a correr atrás da gritaria, nos jornais, nas TV’s, nas rádios, nos face’s, até mesmo na bisbilhotice caseira dos comentadores de cordel. Recordando o hino da extinta (em 1974) Mocidade Portuguesa do regime fascista que formatou na escola da ditadura os jovens de então, nossos pais e avós, também cantamos de braços abertos: “Lá vamos cantando e rindo, levados – levados, sim”.


Permitam-me este desabafo, mas (à maneira de F.Pessoa “trago a cabeça doente de sonhos”) apetece dizer: trago a cabeça doente, escaqueirada de informações. Não sei se convosco o mesmo se passa, mas caio em mim, mergulho no oceano fundo de mim próprio e pergunto: Ainda não te saturaste desse turbilhão em fúria que ronda à tua volta? Bebeste a informação, sim, mas provaste-a suficientemente nas papilas do pensamento crítico? Seleccionaste-a, saboreaste-a, interiorizaste-a naquilo que de verdadeiro e útil te pode enriquecer?
Na praça pública da informação somos, tantas vezes, taxistas de serviço gratuito à espera do primeiro cliente que se nos atira porta adentro sem controlo nem critério. E sem ferir susceptibilidades, chego ao extremo de nos compararmos a vazadouros públicos que aceitam indiscriminadamente todo o lixo que os donos da comunicação entendem despejar em cima do nosso consciente. Que ridícula atracção esta de apanha-bolas em que muita gente se torna no estádio do quotidiano. São os “spots” publicitários, são as subreptícias campanhas políticas, as encenações pseudo-religiosas, os ataques bombistas, os milionáriosoffshores, erotismos mórbidos, enfadonhos comentadores dos futebóis, já sem falar nos escândalos apetitosos aos paladares podridos – tudo nos chutam à cara e nós, bobos da feira, aceitamos e até agradecemos. “Lá vamos… levados, levados sim”.
Sem dúvida, precisamos de estar vigilantes, nada de humano nos deve ser alheio, já nos educava Aristóteles. Mas, como de água para a nossa sede, precisamos de liberdade interior para avaliarmos da química das fontes. Conforme o filósofo francês Michel de Montaigne (1533), não basta uma cabeça abundantemente mobilada; preciso é ter une tête bien rangée, uma cabeça bem arrumada. 
Perdoem-me este expirar nocturno de um estado de alma. Mas acho-o necessário ao equilíbrio neuro-vegetativo do ser humano e ao verdadeiro espírito da cultura. Assistimos hoje àquele paradoxo que o jornal El Paístitulava assim: “A solidão, epidemia da era da comunicação”, em comentário ao livro The Lonely City, da escritora britânica Olivia Laing. E justifica: ”Neste mundo hiperconectado, grande parte da população sente-se só e isolada. Estar presente a todas as horas nas redes sociais, recebendo uma maré cheia de informação permite disfarçar um sentimento real de desamparo que o mundo virtual paradoxalmente acentua”. 
É um tónico que a nossa saúde física e mental não dispensa: mergulhar para dentro de nós mesmos. E aí descobrir tesouros desde sempre escondidos.
Tudo certo. Mas, afinal, feitas bem as contas, acabo por entrar em rotunda contradição. Pela lógica que descrevo, eu não tenho sequer o direito de sobrecarregar os meus amigos nos dias ímpares com este SENSO&CONSENSO...
11.Abr.16
Martins Júnior
NOTA
Artigo publicado no blogue Senso&Consenso assinado pelo Padre Martins Júnior

segunda-feira, 11 de abril de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA - ANTES DE FALAR, POR FAVOR, PENSE!


Há governantes que, em um outro espaço territorial, já não o seriam. Porque a Educação é mais escrutinada. Há quem tenha competência para exercer a docência e bem, mas por aí ficar, porque ser governante implica muito mais que o conhecimento específico e científico de uma determinada área. A contrária também é verdadeira: há quem, embora com conhecimento, por razões várias, não se ajeite à função docente, porém, enquanto gestor denuncie visão dos problemas e acrescentada capacidade de mobilização e concretização dos projectos. Perguntará o leitor, mas a que propósito vem este texto? Pois, é que li mais uma daquelas declarações do secretário da Educação da Madeira e fiquei na mesma. Ou não fiquei! Disse: "(...) aquilo que devemos ter presente são as nossas opções em termos de futuro e não as condições que são oferecidas (…)".


Ora, às dificuldades enunciadas e bem pelo presidente do Conselho Executivo da Escola Francisco Barreto, na Fajã de Ovelha, que, segundo o DN, criticou "as reformas do sector educativo e as políticas de natalidade e de emprego existentes", respondeu o secretário com uma posição de certa forma enigmática e de interpretação contraditória. Pergunto, a construção do futuro colectivo não dependerá das "condições que são oferecidas", as de natureza geral e as específicas? É óbvio que sim. Mas podemos ir mais longe, questionando, ainda: quais são as opções portadoras de futuro que o secretário defende? Alguém as conhecerá? Existirá algum plano integrado, envolvendo vários sectores, a partir do qual se possa concluir que, a prazo, os resultados serão diferentes dos de hoje? Eu que sigo a política educativa não vejo moita de onde saia coelho! Um ano de governação e a estrutura do pensamento político mantém-se. "Tudo como dantes, no quartel general em Abrantes" pode ser o aforismo que melhor caracteriza a situação da política educativa na Madeira.
Seria compreensível que o secretário sobrevalorizasse as opções em termos de futuro ao mesmo tempo que pedisse paciência para as circunstâncias, leia-se constrangimentos, do presente, sejam quais forem, mas para isso tinha de ser conhecido o caminho escolhido pelo governo na construção desse futuro. E isso não só não é conhecido, como pelo andar da carruagem durante o último ano, facilmente se depreende que a repetição do passado é preferível a qualquer paulatina mudança. É pena, porque continuam a brincar com o sector educativo. 
Nota
Ler texto do DN neste endereço: 
http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/580159/madeira/580187-faja-de-ovelha-lanca-criticas-a-educacao
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 9 de abril de 2016

"GOVERNO DE ANGOLA COMBATE OS POBRES, NÃO A POBREZA"


Rafael Marques, jornalista angolano e considerado activista dos direitos humanos, concedeu uma entrevista à jornalista Sandra Cardoso (DN-Madeira) na qual escalpeliza a situação política angolana. Um texto para ler e, a partir das suas declarações, mergulhar no inferno dos interesses de uma clique angolana que luta pela sua riqueza enquanto o povo definha. Não conheço em toda a sua extensão a pouca-vergonha da governação angolana, mas há muitos e muitos anos que transporto o sentimento de uma ditadura disfarçada.    


Pergunta a jornalista: "Li recentemente uma reportagem sua na morgue de um hospital em Luanda, onde dava conta de uma mortalidade assustadora. A situação social no país degradou-se em relação ao ano passado, por exemplo? Rafael Marques: "Um jornal dava conta de 500 enterros nos cemitérios de Luanda só num dia, eu passei cinco horas e vi 235 corpos a sair da principal morgue de Luanda. Temos neste momento mais mortes do que no Afeganistão, no Iraque e na Síria por dia. Estamos a voltar aos tempos da guerra, que foi muito violenta. Depois de 14 anos de paz e depois de Angola ser projectada como a economia que mais crescia no Mundo durante seis anos, temos uma catástrofe humana. O problema não é para quem vem gastar o dinheiro nas lojas da Avenida da Liberdade, é para pessoas sem acesso a tratamento básico para a malária.
O país precisa mais de ajuda humanitária para acudir à emergência do que monetária? Como se pode dar ajuda humanitária a um país onde o Governo negligencia o seu povo, abandona-o. Tem de haver reformas profundas e aqueles que são responsáveis pela situação têm de ser responsabilizados criminalmente. Sou contra este empréstimo do FMI, que só vem dar legitimidade ao poder. Todos os que vieram esconder o dinheiro em Portugal é que deviam estar a fazer o resgate. O dinheiro é para os angolanos pagarem enquanto quem guardou aqui o dinheiro, um dia vem para Portugal como se nada fosse, como se fossem gente de bem (...)".
Enquanto isto acontece, li, recentemente, no "Negócios" que Isabel dos Santos (filha do Presidente Eduardo dos Santos) ocupa a 408ª posição na lista dos mais ricos do mundo, compilada pela Forbes, este ano. (...) Isabel dos Santos surgiu, pela primeira vez, na lista dos mais ricos do mundo da Forbes em 2013, ocupando a 736ª posição. Doze meses passados e a empresária passou a ocupar a 408ª posição, com uma fortuna avaliada em 3,7 mil milhões de dólares (2,7 mil milhões de euros), 1,7 mil milhões de dólares a mais do que no ano passado".
Como é que isto é possível em um país com assimetrias tão evidentes? Percebe-se! 
De uma edição do Jornal de Notícias, de 2013, reproduzo: "(...) Filha do presidente angolano José Eduardo dos Santos, a história de Isabel é considerada "uma janela rara para a mesma e trágica narrativa cleptocrática que estrangula os países ricos em recursos em todo o mundo".
Ilustração: Google Imagens. 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

UMA SECRETÁRIA QUE CORRE, CORRE MUITO, PARA ONDE, NÃO SE SABE!


No governo anterior e alguns outros mais para trás era o secretário do Ambiente e dos Recursos Naturais que, politicamente, fazia questão de estar em todas. Distribuía acenos de simpatia e muitos milhões para os "senhores agricultores". Ele era festa da anona, do pero, do limão, da cebola, da banana, eu sei lá, não havia fruta, bolbo ou cabeça de gado que escapasse para poder falar ao povo. Mudou o governo,  a agricultura anda discreta, mas emergiu uma secretária da dita Inclusão e dos Assuntos Sociais que não fala de milhões, mas todos os dias tem qualquer coisita para acrescentar. A agenda é meticulosamente decomposta de tal maneira que um mesmo assunto ou a ele relacionado dá pano para mangas no plano político. Enche a semana. Nem conta se dá que tal exposição mediática e muitas vezes oca, por um lado, cansa e torna-se insuportável (e de que maneira!); por outro, fica à mercê das fragilidades da governação, quando a atenção é dirigida para as margens e não para o fundamental. 


O tal ex-secretário, desaparecido do combate político (não apenas ele), prometia milhões e acredito que muitos chegaram aos "senhores agricultores"; a secretária da Inclusão e da Segurança Social, todos os dias, ilumina o céu político com uma girândola de iniciativas, desde conferências a encontros aqui e ali, mas de concreto, isto é, aquelas medidas com repercussão directa nas pessoas não são nem visíveis nem sensíveis. 
Qualquer um é capaz de assumir: "Coesão social, um desígnio regional"; "Temos consciência que existem dificuldades e que a pobreza chega a muitas famílias"; "a inclusão e a igualdade de oportunidades decorrem forçosamente de uma aproximação à realidade e do conhecimento. Sem estas sobra a ignorância"; "Vamos valorizar e proteger a população menos jovem". Ora bem, qualquer pessoa, repito, diria o mesmo. Trata-se de um tipo de discurso politicamente correcto, o problema é que tantos disseram o mesmo ou coisa semelhante ao longo de quarenta anos de uma tal "estabilidade política". Não obstante, o número de pobres aumentou, o número de instituições de solidariedade social disparou, o desemprego descambou, a emigração é aquilo que se sabe, os jovens saem da Região e os que por aqui ficam andam desesperados, os idosos pensionistas perderam a esperança, enfim, quero eu dizer com isto que basta de palavras e mais palavras, basta de encontros e conferências que nada adiantam, apenas repisam posições centenas de vezes assumidas na Assembleia, quer no plenário quer na Comissão Especializada de Assuntos Sociais e, sucessivamente, chumbadas pela maioria PSD. Basta de espavento e de protagonismo sem mérito, pois aquilo que as pessoas desejam são as definições políticas claras, rigorosas, transversais, profundas e estruturantes que consigam resolver, a prazo, os vários défices sentidos pelas pessoas. A secretária da Inclusão, após um ano de mandato, o que denuncia é que a exclusão continuará a ser, infelizmente, o caminho para uma significativa parte do nosso povo. Não é com uma política de aparências, de palavras e de fotografia que os dramas sociais se resolvem. 
Aliás, sendo a questão social transversal a vários sectores da governação, o que seria óbvio esperar era uma dinâmica que aglutinasse sectores, áreas e domínios em uma convergência programática. Mas isso não está a acontecer. É perceptível que a secretaria da Inclusão e dos Assuntos Sociais corre, alegremente, na sua própria pista, sem uma preocupação integradora. Corre, corre muito, para onde, não se sabe. Mas corre! E é lamentável, porque se há sector da governação, que a par da Educação e da Saúde, deveria merecer grande preocupação, menos paleio e mais acção, parece-me indiscutível que a Inclusão e os Assuntos Sociais deveria estar no topo.  
NOTA
A propósito de um texto que aqui publiquei sobre o Banco Alimentar e o Laboratório Social, recebi um comentário que aqui deixo. Agradeço, uma vez que a minha leitura dos acontecimentos é partilhada por outros que, sem qualquer jogo partidário, apenas pretendem o melhor para a nossa comunidade. 
"Anónimo disse...
Concordo totalmente com o teor do seu texto. Sem dúvida que há uma sede enorme de tudo controlar. Parceria? Cooperação? Pelas ruas da amargura... Oxalá esteja a ver mal e a entender pior, mas estamos a retroceder. Vale tudo para aparecer, é a corrida, a feira, os grupo de trabalhos de tanta coisa, a conferência, o workshop, o cabaz, os ranchos das casas do povo, a formação para voluntários, etc. É só acompanhar diariamente a comunicação social. Um frenesim estonteante. Não deixando de valorizar muitas destas iniciativas a pergunta é, o essencial está a ser cuidado? A pobreza continua a aumentar, os maus tratos também, há cada vez mais idosos sós e dependentes,o desemprego é grande, o trabalho precário veio para ficar, etc. (...)".
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O MUNDO AO CONTRÁRIO


"Leio num jornal que o exército do Sudão do Sul e as milícias suas aliadas estão autorizados a "violar mulheres" como forma de pagamento "pelos serviços prestados". Di-lo um relatório das Nações Unidas. Que as ordens são para destruir propriedades, pilhar bens, matar e esquartejar os homens e raptar e violar mulheres e crianças. Chama-se isto "política de terra queimada", dizem, embora nada tenha a ver com política. É apenas barbárie calculada. Não interessa neste conflito de que lado estará a razão, se na maioria Dinka do Norte ou nos Nuer do Sul. Não interessa se as potências ocidentais colonizadoras e exploradoras terão também aqui alguns pecados a expiar. Não interessa. Ninguém saberá já apontar a ofensa primordial. Há muito que esta é uma guerra que se herda. Uma guerra "porque sim", porque algo se perdeu na construção destes seres humanos e fez deles menos que animais. 


Zeid Ra'ad Al Hussein, o Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos, diz que apenas conhecemos "um fragmento da realidade". Tememos a totalidade dessa "realidade" que escapa à nossa compreensão. Aquela em que os nossos familiares e amigos são mortos à catanada e as nossas filhas violadas por dezenas de homens. É precisamente este desespero que leva homens, mulheres e crianças, seres humanos que recusam ser a "recompensa" de uma qualquer milícia ou os "danos colaterais" de uma qualquer guerra, a procurar abrigo na Europa. São estas pessoas que abandonamos em campos que fazem lembrar esses outros de má memória. 14 mil amontoam-se por agora no campo de refugiados de Idomeni, entre a Grécia e a Macedónia, um campo igual a tantos outros onde se depositam famílias inteiras, onde se adoece e passa fome, onde tudo está frio, molhado e pintado de lama. Onde pais descalços e desesperados com crianças ao colo tentam a travessia de um rio que teima em levar-lhes as vidas. Tudo vale menos voltar para trás. Uma dessas crianças dizia há dias para uma câmara de televisão que queria "voltar amanhã para a Síria", que não tinha "tido tempo para trazer os brinquedos e eles ficaram todos lá". Não podemos deixar que os muros nos contagiem a consciência e despertem em nós os instintos e preconceitos mais primitivos. São muros que se propagam à nossa volta e nos levam a empatia. Esta é uma crise de humanidade. Precisamos reconquistar a memória que a traga de volta".
NOTA
Texto da Eurodeputada Doutora Liliana Rodrigues (PS), publicado no Press News de Março que pode ser lido aqui.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O BANCO ALIMENTAR CONTRA A FOME NÃO DEPENDE NEM DA IGREJA NEM DO GOVERNO, MAS HÁ QUEM DESEJE CONTROLAR A INSTITUIÇÃO


A 10 de Março de 2011, depois de largos meses de propostas sempre chumbadas (algumas com muitos anos protagonizadas inúmeras vezes pelo PCP, mas também pelo PS), eu, enquanto líder parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da Madeira, e o Dr. Bernardo Martins, da Comissão de Assuntos Sociais e Saúde, tivemos uma reunião, na sede do Banco Alimentar, com a Drª Isabel Jonet, Presidente da Federação dos Bancos Alimentares. Um encontro esclarecedor onde ficou muito claro: primeiro, a inexistência de um Banco Alimentar na Madeira (dedução nossa) ficava a dever-se a constrangimentos regionais de natureza política; segundo, que qualquer Banco Alimentar Contra a Fome assenta em um quadro de rigorosa independência estatutária, que NÃO DEPENDE NEM DA IGREJA NEM DO(S) GOVERNO(S), porque é gerido de forma totalmente independente. 


Certo é que, perante o aumento da pobreza e não podendo mais o governo do PSD esconder essa realidade, optou por recuar, apadrinhar e apanhar a onda. Daí que continuem a não respeitar a instituição que, repito, não depende nem da Igreja nem do governo. Um princípio que a secretária da Inclusão e dos Assuntos Sociais não entende, ou não quer entender, isto é, a necessária separação institucional. E assim, ora aparece no Banco Alimentar em um dia de recolha de produtos alimentares, como agora chamou a Drª Fátima Aveiro, responsável pelo Banco Alimentar na Madeira para exercer funções no Laboratório Social, criado pela Secretaria Regional da Inclusão e dos Assuntos Sociais (SRIAS).
Tenho a maior consideração pelo trabalho da Drª Fátima Aveiro, que não tem procurado protagonismos bacocos, não procura, diariamente, as páginas dos diários, desempenha apenas a sua função e bem no âmbito da solidariedade social. Do meu ponto de vista assim deveria continuar. Não tinha necessidade de abraçar este Laboratório Social, para mais, ainda, porque está na história do processo, o facto do PSD ter chumbado, no Parlamento, todas as iniciativas para que se procedesse a um estudo sobre a pobreza na Madeira. 
Depois, parece que, na Região, não existem outras pessoas qualificadas e com sensibilidade social para tal função. O que deduzo, volto ao princípio, é que o governo quer, subtilmente, controlar e retirar dividendos políticos de uma missão que compete à sociedade e aos voluntários desenvolver. O problema é que esta secretaria da Inclusão e dos Assuntos Sociais, parece que todos os dias tem descobrir uma qualquer coisita para aparecer. É notória essa sede. Não existe discrição no trabalho em favor dos mais vulneráveis. Existe sim uma necessidade de protagonismo político e pelas vias menos correctas. Repito, o Banco Alimentar não depende nem da Igreja nem do governo, é independente, e assim deverá continuar a sua notável Missão. Misturar funções não fica nada, rigorosamente nada, bem!

terça-feira, 5 de abril de 2016

UMA UNIÃO EUROPEIA QUE IMPÕE O SILÊNCIO É UMA COMUNIDADE A CAMINHO DA SUA DESAGREGAÇÃO


Na audição ao Governador do Banco de Portugal, a propósito do caso BANIF, o Dr. Carlos Costa assumiu: "(...) O Banco de Portugal tem avaliações ao seu próprio trabalho. Mas a legalidade e sigilo da matéria" impedem que partilhe esses documentos com os deputados. Uma vez mais, as implicações europeias. Eles dizem e nós obedecemos. Pergunta-se, porque é assim? Obviamente que a resposta conjuga-se com o jogo da monumental engrenagem montada. Há coisas que o povo e os eleitos do povo (os Deputados da Nação) não podem saber.


E sendo assim, a independência nacional é uma treta. A transparência dos actos políticos é outra treta. A lógica da engrenagem política assenta nos carimbos "reservado" e "confidencial". E depois, alguns, estranham os "panamás papers" espalhados por todo o Mundo, particularmente na Europa, onde só através da coragem de um alargado grupo de jornalistas foi possível pegar o fio à meada.
Não é esta Europa que defendo. Não é esta subserviência de Portugal às regras europeias que me faz ser europeísta. Esta Europa não me interessa quando impõe o silêncio e a incapacidade dos Deputados escrutinarem as alegadas leviandades que se escondem por detrás dos vários cenários.
Ilustração: Google Imagens.

SER OPOSIÇÃO É MUITO MAIS QUE ANDAR ATRÁS DOS "CASOS DO DIA"


Os vereadores do PSD na Câmara Municipal do Funchal dão a entender que andam aos papéis. Ou não têm tempo para estudar os dossiês e a sua história ou desistiram de ser oposição. Há uma terceira hipótese, pois ao criticarem a actual maioria ("Mudança"), decidiram dar um tiro em Miguel Albuquerque que foi presidente da autarquia quase vinte anos. Isto é, ao apontarem as baterias para uns, no essencial decidiram atacar os antecessores do seu partido. Por questões de mal-estar interno? Talvez. O que é certo é que não faz sentido que os executivos do PSD, tal como ainda hoje referiu o Engº Miguel Gouveia, "(...) conhecendo desde 2000 a necessidade de dar cumprimento às directivas comunitárias, nunca desenvolveram qualquer projecto para a ETAR que satisfizesse o cumprimento das mesmas (...)". Desde 1999 que a ETAR do Funchal está a violar as normas comunitárias relativamente ao tratamento de resíduos. "E Portugal foi condenado, em 2011, ao pagamento de uma multa, com pena suspensa, com o compromisso de que até 2013 a situação estaria resolvida" (DN). Não ficou!


Pergunta-se, então, qual o fundamento da crítica do Dr. Paulo Atouguia, face ao desempenho da actual equipa camarária no sentido de resolver uma questão da maior relevância para a cidade? Chamar-se-á a isto "(...) alimentar querelas políticas perfeitamente artificiais"? como sublinhou o vereador Paulo Atouguia? Segundo o que foi publicado, o PSD "desperdiçou uma oportunidade de candidatar a obra aos 739 milhões do III QCA (2000-2006) e aos 320 milhões do INTERVIR+ (2007-2013), quando, simultaneamente, faziam ascender a dívida da Câmara Municipal do Funchal até aos 111 milhões de euros" e, agora, critica porque há quem queira dar um passo no sentido da solução. Esquisito!
Ser oposição é muito mais do que andar atrás dos "casos do dia". Neste caso, existindo um "rabo de palha" político muito extenso, que razões justificam o sentido desta crítica? Não sei.
Ilustração: Google Imagens.
Outros textos:
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/06/no-dia-mundial-ele-fala-de-ambiente.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2010/08/um-problema-de-incompetencia.html

segunda-feira, 4 de abril de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA ÀS AVESSAS


Tenho pelo pedagogo Sérgio Niza e pelo neuropediatra Luís Borges uma enorme consideração. Por razões diferentes. Pelo Professor une-me os laços do seu pensamento sobre os caminhos da Escola Moderna, luta baseada na investigação vai para 50 anos; pelo Médico, o facto de ter, há muitos anos, diagnosticado e, por extensão, invalidado, em Coimbra, de forma certeira, uma primeira avaliação de um alegado problema saúde de uma filha. Por ambos, nutro consideração e muita estima pelos seus percursos, para mais, ainda, tratando-se de duas pessoas de fino trato, humildes e de rara inteligência. Ontem, dediquei algum tempo a ler assuntos de política educativa. E dei com duas entrevistas que me encheram de entusiasmo, simplesmente porque, quando o erro político permanece, há pensadores que vêm dizer, cuidado, vamos no sentido errado. Deixo aqui duas passagens das entrevistas que li. 


"A escola já não perde tempo a fazer aprender"

Alerta o professor e pedagogo Sérgio Niza. "Alunos sem esperança, professores ansiosos, ensino bafiento e uma escola que não serve os interesses das crianças e jovens nem os do país. Sérgio Niza dedicou a vida à educação e não se conforma com o estado a que a escola portuguesa chegou. Professores insatisfeitos, pais preocupados e alunos que acham as aulas uma maçada. O que é que se passa com a nossa escola?
Esse é o retrato da escola portuguesa e da generalidade das escolas dos países ocidentais devido à forma de organização do trabalho. A estrutura de ensino simultâneo – todos a aprender a mesma coisa ao mesmo tempo – vem do século XVII e ainda perdura apesar de se saber desde os anos vinte do século XX que é um modelo esgotado. O professor dá uma lição, depois faz uma pergunta, escolhe um aluno para responder e avalia o trabalho substancial que é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não-comunicação em que o professor usa mais de três quartos do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo possível. Poderá algum jovem ou criança suportar isto?

Encurtava as aulas, multiplicava os intervalos, mudava as metas curriculares, dava aos professores mais formação na área das neurociências e garantia aos miúdos mais tempo para brincar. 

"Se pudesse, o neuropediatra Luís Borges mudava a escola. E medicava muito menos. (...) Há coisas que não estão de acordo com as capacidades das crianças. Eles conseguem, mas com grande esforço, grande stress e sem alegria. Ao nível do cérebro, quando a criança faz uma conta bem feita e tem sucesso, é libertada uma substância que gera bem-estar, a dopamina. Já o insucesso liberta as hormonas de stress, a adrenalina, que muitas vezes bloqueiam a capacidade de raciocínio. Se a criança tem medo de errar, não está em boas condições para aprender. Depois, o stress acumula-se e a motivação que é o motor para aprender não existe, a escola torna-se uma seca".
A Secretaria Regional da Educação que pense nisto!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 3 de abril de 2016

OS VAMPIROS ESTÃO DE VOLTA


O Fundo Monetário Internacional, depois de, por diversas vezes, ter assumido que a austeridade foi longe demais, vem agora, através de Christine Lagarde, duvidar da capacidade de Portugal cumprir metas. Défice inferior a 2,9% só com Plano B, diz o FMI. E o que tal plano b) significa é, apenas, mais austeridade, mais constrangimento para as famílias e continuidade do empobrecimento. O resto é conversa fiada em que se especializaram as instituições porta-vozes dos grandes interesses financeiros. Montaram, paciente e obstinadamente, uma complexa engrenagem onde necessário se torna uma inteligência capaz de poder escapar ao redemoinho. Há quanto tempo a direita política fala de um plano b)? No essencial, estão todos umbilicalmente interligados, FMI, União Europeia, agências de rating e seus sequazes.



Christine Lagarde, leio, "não acredita nas metas orçamentais que António Costa traçou para Portugal e pede mais esforço e menos generosidade. Adiar a reposição integral dos salários dos funcionários públicos, manter a sobretaxa do IRS e preparar um plano B que permita cumprir as metas do défice são algumas das recomendações do FMI". Ora, esbater a pobreza, dinamizar a economia assente em um outro paradigma é coisa que não lhes interessa. A receita que definiram é a que se ajusta ao pensamento dominante. Austeridade, privatizações a eito, emprego precário, substancial redução dos apoios sociais, tudo para defesa dos "investidores" e nada em defesa do bem-estar mínimo das populações. Nem se coíbem de "invadir" os países, remetendo, de longe, o discurso desestabilizador de qualquer dinâmica alternativa. Uma vergonha! Tenhamos presente quando o grego Varoufakis quis, na UE, discutir economia, teve como resposta: "você até tem razão mas vamos esmagar-vos mesma". A UE discute Tratados (porquê e com que interesse!) os povos querem que se discuta Economia. Li em uma entrevista a Varoufakis: "O Eurogrupo toma decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém” (...) "Afinal o que temos é um grupo inexistente que tem o maior poder para determinar as vidas dos europeus. Não presta contas a ninguém, dado que não existe na lei; não há minutas das reuniões; e é confidencial. Por isso nenhum cidadão sabe o que lá é dito… São decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém" (...) "Quando falava nas reuniões, com argumentos económicos preparados, "as pessoas ficavam a olhar para mim, como se não tivesse falado (…) Bem podia estar ali a cantar o hino da Suécia que ia receber a mesma resposta (…) Nem sequer havia mal-estar, era como se ninguém tivesse dito nada", revelou Varoufakis. (...) O que mais impressionou Varoufakis nas reuniões a que assistiu foi a "completa ausência de qualquer escrúpulo democrático por parte dos supostos defensores da democracia". O ex-ministro da Grécia dá um exemplo: "Ter várias figuras muito poderosas a olharem-me nos olhos e dizerem ‘Você até tem razão no que está a dizer, mas vamos esmagar-vos à mesma".
É esta Europa que temos e é neste mundo que o FMI funciona. Entretanto, porque tudo tem um limite começam a surgir alguns movimentos contra esta lógica própria de sanguessugas. "Mário Centeno, ministro das Finanças de Portugal, faz parte de um grupo de oito ministros das Finanças europeus que escreveram uma carta à Comissão Europeia a contestar a fórmula de cálculo do défice estrutural, que serve de base à definição do esforço orçamental que os países têm de fazer todos os anos, para cumprir os tratados europeus. A carta está ser avançada pelo jornal espanhol Expansión, numa notícia sobre um movimento de “rebelião” liderado por Espanha e por Itália. Além destes dois países e de Portugal, assinam a carta Luxemburgo, Lituânia, Letónia, Eslovénia e Eslováquia. A carta é dirigida ao vice-presidente da Comissão, Valdis Dombrovskis e ao comissário Pierre Moscovici, com conhecimento do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. Os governantes apontam para "incoerência" no atual sistema. O principal argumento é que o défice estrutural é calculado em função do PIB potencial – um indicador "desconhecido” e que portanto gera estimativas com “um elevado grau de incerteza”. A utilização do défice estrutural produz assim "diferenças significativas" entre diferentes Estados membros quando se avalia se há ou não cumprimento dos objectivos do défice estabelecidos pela União Europeia. Mário Centeno assina a carta depois de um Orçamento do Estado para 2016 marcado por intensas discussões com a Comissão Europeia sobre o esforço de ajustamento orçamental necessário para este ano. Bruxelas impôs mil milhões de euros de medidas adicionais, face às intenções iniciais do Governo, precisamente com o argumento de que seria necessário reduzir o défice estrutural em linha com as regras europeias" (ionline).
E assim andamos nós nesta embrulhada!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 2 de abril de 2016

A OFENSA GRATUITA NO DEBATE POLÍTICO


Pela segunda vez foi adiado o julgamento do ex-presidente do governo regional da Madeira, arguido em um caso de difamação e injúrias ao seu opositor político, o socialista Dr. António Loja. O caso passou-se em 1994 e só agora entrou na fase de julgamento. A imunidade parlamentar justificou tantos anos a aguardar Justiça. Segundo o DN o arguido desancou no Dr. António Loja designando-o por “pirado”, “criatura” e “ordinarote” (...) “tão pirado que não vê as próprias grosserias e descobre-as nos outros”; “a criatura endoidou”; “ordinarote” e “o homenzinho, ao ler isto, caem-lhe mais três dentes, dois de raiva e um de senilidade”.


Em um outro caso, este em fase de instrução, processo também com muitos anos devido à tal imunidade, disponibilizei-me para ser testemunha contra um outro "pirómano" político que resolveu chamar de "filho da...", entre outros mimos grosseiros, a um deputado da oposição. 
Ora bem, assume a defesa destes arguidos, que as expressões utilizadas "foram empregues no âmbito do debate político". E é aqui quero chegar através de uma simples pergunta: o que tem a ver o debate político com a deliberada ofensa à dignidade dos opositores. Tantas vezes estive envolvido em acalorados debates com figuras da maioria política na Assembleia, mas nunca, nunca, ofendi fosse quem fosse. Para já porque a ofensa é indigna no plano do debate democrático, depois, porque quem ofende, demonstra uma baixeza comportamental, sobranceria relativamente aos outros para além de colocar em causa a dignidade das instituições. 
Obviamente que é admissível que o debate, em função dos posicionamentos políticos, seja intenso e vigoroso, todavia, em circunstância alguma pode descambar na grosseria e na ofensa directa à dignidade dos outros. Quando tal acontece só há um caminho a seguir pelo prevaricador: apresentar públicas desculpas, redimindo-se das atitudes assumidas. Esconder-se na imunidade parlamentar ou provocar sucessivos adiamentos, quando é possível dirimir os argumentos em sede própria, na Justiça, parece-me próprio dos fracos e intolerantes. Retratem-se, por favor.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

TERNI - ITÁLIA CASCATA DELLE MARMORE


Fica a poucos quilómetros de Roma. Trata-se de uma obra iniciada pelos romanos como forma de corrigir o curso do Rio Velino. É a mais alta da Europa com 165 metros, divididas em três quedas. Às 11 horas começa o ruído pela abertura das comportas. Aí assiste-se a um impressionante espectáculo pelo volume de água em sucessivas quedas, que corre mesmo ali ao nosso pé. Uma visita a não perder por quem por aquelas paragens ande.
Arquivo próprio.