segunda-feira, 12 de março de 2018

O QUE É QUE DEU ÀS GRANDES EMPRESAS?


Francisco Louçã, in Expresso, 10/03/2018
por estatuadesal

Passa-se alguma coisa de esquisito, mas infelizmente é a normalidade: o mercado está nervoso, como agora se diz com leveza, e algumas grandes empresas estão a tomar posições políticas, constituindo-se em oposição ameaçante. Os exemplos são eloquentes.


O mercado está confuso

Os CTT anunciaram esta semana que os seus resultados tinham caído 56%, para 27 milhões de euros, mas que mantinham o plano de distribuição de dividendos e iriam sacar reservas para poderem entregar aos acionistas 57 milhões de euros. A estratégia é esta: administração em dificuldades seduz acionistas carentes. A empresa fica sem fundos para investir, a não ser que se endivide, e é o segundo ano consecutivo. O mercado, evidentemente, gostou desta estratégia e da promessa de despedir mais ainda. A empresa é descapitalizada, mas se há dividendos as ações são reconfortadas — e a cotação subiu. Os maus resultados foram a boa notícia.
Tudo lógico? Na Galp, há duas semanas, foi ao contrário. A empresa anunciou um crescimento dos lucros e dos dividendos, mas a cotação caiu. Os bons resultados foram a má notícia.

Quanto mais dívida mais gritaria

O mercado não percebe o que são bons e maus resultados, mas pelo menos uma empresa, a Altice, sabe o que quer. E ameaça: se até 13 de abril não tiver luz verde para comprar a TVI, desiste do negócio. Ora, duvido. A Altice precisa da TVI, aliás precisa de muitos negócios destes, comprar uma empresa com acionistas aflitos, como a Prisa espanhola, para logo depois a vender ou, entretanto, a utilizar para criar mais dívida para reciclar a própria dívida.
Para a PT, a joia da coroa da tecnologia em Portugal, nem sequer é novidade. A longa história da sua destruição começou há muitos anos. Aliás, cumpre tradição: como tantas vezes em Portugal, foi um Governo em véspera de eleições que precipitou os primeiros passos. Foi Cavaco Silva, a 1 de junho de 1995, quem disparou o tiro de partida, com a primeira fase da privatização (de 27,26%). Já se sabia que Cavaco não se recandidatava, estava designado Fernando Nogueira contra António Guterres, chegava ao fim o consulado cavaquista. Guterres ganhou e tomou posse a 28 de outubro. Escusado será dizê-lo, a privatização prosseguiu e foram mais 21,74% em 1996, ficavam vendidos 49% da empresa. Com o PS no governo houve mesmo um ministro que abria uma garrafa de champanhe quando concluía a venda de uma das empresas públicas. E seguiram-se mais três fases de privatização, até restarem nas mãos do Estado só 500 ações, a golden share, com um poder especial de controlo e cuja liquidação foi das primeiras medidas de Passos Coelho.
A PT tornou-se uma das caixas registadoras do grupo BES, o que deu no que se sabe: queda da empresa, que há uma década valia em Bolsa 11 mil milhões de euros e que agora está a ser desmantelada. A estratégia da Altice, que a adquiriu em 2015, é a mesma, conseguiu que a PT ficasse abaixo da linha dos prejuízos.
Ao comprar a PT, a Altice, um gigante de pés de barro com uma dívida de mais de 50 mil milhões de euros, assegurou que pagaria 5600 milhões de euros à Oi, empresa falida, para que esta pagasse as dívidas acumuladas na PT. A Altice contabilizou então 5600 milhões de euros como dívida da PT à própria Altice e a PT passou a dívida para a MEO, que é onde estão os lucros. A esforçada MEO, que é da Altice, emprestou então 536 milhões de euros ao dono, que registou adiantamento de pagamento. Eis como a Altice comprou a PT gerando dívida e prejuízos e poupando-se a pagar a compra.

O truque é velho

Não é a primeira nem será a última vez que a compra de uma grande empresa se faz com a utilização dos seus recursos. Em 1992, António Champalimaud comprou desta forma o Banco Pinto & Sotto Mayor, pagando com um cheque careca sobre o próprio banco. Explicava ele: “Não regateei a quantia, mandei vir um cheque avulso e preenchi-o logo ali, sacando sobre a minha conta e fechando assim o negócio. Fiquei só a dever, para pagar daí a trinta dias, uma percentagem pequena.” Quando o cheque foi descontado, já Champalimaud estava sentado na presidência da administração.
Mais recentemente, a Fosun comprou a Fidelidade por 1100 milhões de euros, fazendo-se pagar com a venda de ativos da própria seguradora. A Altice está a fazer o mesmo com a PT, será que a TVI quer passar por essa praxe?

Quando se deve ao Fisco, é pedir ao Estado

Outro exemplo deste ambiente empresarial é a guerra judicial da EDP, REN e Galp contra a contribuição extraordinária sobre as rendas da energia. Devem 338 milhões de euros e o conflito é estritamente político: nenhuma dessas empresas contestou o pagamento enquanto o governo era do PSD e CDS. No Novo Banco, fala-se agora de mais milhões que o Estado teria que entregar à Lone Star, que comprou mas não paga, parece sina.
Está bom de ver, este normal é estranho. A novidade é que algumas empresas agem agora como partidos, para fazerem o que sempre fizeram: ou dívida ou mão estendida ao Estado.

Uma empresa generosa para o CDS

De 27 a 30 de dezembro de 2004 foi muita a azáfama de fim de ano, mas mesmo assim notou-se, no balcão do BES da Rua do Comércio, que os funcionários do CDS vinham com minutos de intervalo, um atrás do outro. Cada um depositava uma quantia inferior a 12.500 euros, o limiar para a comunicação às autoridades, e voltava. Fizeram assim 105 depósitos, num total de mais de um milhão de euros. Para justificar a operação foram passados 4216 recibos e foi aí que apareceu o notório Jacinto Capelo Leite Rego, logo chamado Capelo Jacinto Rego Leite, coisas da imaginação.
O Ministério Público acusou o tesoureiro e três funcionários, argumentava que este milhão pagava a autorização dada ao Grupo Espírito Santo para uma operação imobiliária no Ribatejo, e extraiu certidão para outra investigação sobre os submarinos. O Tribunal da Relação entendeu que não havia prova, assunto encerrado.
De facto, a lei não permite o financiamento de partidos por empresas. Mas, por vezes, o escrutínio sempre atento das autoridades de contas, honra lhes seja feita, é contornado por subterfúgios. A página semanal de publicidade do CDS no “Correio da Manhã”, publicada desde outubro de 2016, é o caso mais surpreendente.
Foi uma opção arriscada, por colocar no centro da operação a própria presidente do partido. Assunção Cristas, dentro da linha editorial do jornal, é certamente uma cronista bem escolhida. Seria interessante conhecer a opinião dela sobre temas relevantes, Trump ou as eleições italianas, o emprego, a saúde, os grandes debates. Mas o que Cristas assina todas as semanas é uma exposição cândida sobre a agenda do partido, as suas reuniões, os comícios convocados ou as leis que apresenta. Inclui também a sua ida a espetáculos e eventos sociais, com uma tocante profusão de fotos de si própria: nas últimas seis semanas, foram 14 e já chegou a publicar cinco numa página.
Anuncia-se que ela esteve numa procissão ou “com o nosso deputado Nuno Melo, com o presidente da Comissão Europeia”, que vai a uma sessão do partido num café em Coimbra para “ouvir Portugal” com “cinco oradores independentes, notáveis”, outra em Montalegre, “a ouvir Portugal e a trazer maravilhosas alheiras para jantar”. Elogiando a sua Convenção Autárquica, Cristas garante que “o CDS está a crescer”. Noutro dia apresenta a sua moção ao congresso e a evidente recandidatura, pois “fizemos muito trabalho”. Explica que “acredito que o trabalho sistemático e bem fundamentado trará resultados e proponho que o partido continue este caminho de trabalho”. E é trabalho: “esta tarde apresentamos no parlamento 12 diplomas na área da justiça” e segue o cadastro. Folheie-se outra edição qualquer: anúncio de reuniões, listas de leis, agenda da líder, as suas fotografias a ilustrar. Isto chama-se publicidade, que pena não ser um comentário argumentado para ajudar ao debate público.
Só que a publicidade tem um preço. No “Correio da Manhã”, é 15.070 euros por página, mais IVA. Assim, ao chegar às eleições de 2019, Cristas terá recebido o favor de 2,351 milhões de euros em publicidade não paga, mais os 541 mil euros de IVA que poupou, num total de 2,892 milhões.
Não sei se a decisão partiu da Altri, a gigante da pasta de papel que é proprietária do jornal e que conhece bem a ex-ministra, que se destacou enquanto esteve no governo pela proteção ao sector dos eucaliptos, ou da direção do “Correio da Manhã”. Mas que todos trocaram publicidade mal disfarçada pela oportunidade de um debate interessante, isso é facto.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 7 de março de 2018

PASSOS COELHO - O ACADÉMICO PRECÁRIO

«Passos vai dar aulas de Administração Pública e Economia (…) no ISCSP, onde deverá ser professor convidado catedrático.»

Quando Passos Coelho, ainda com o pin da bandeira de Portugal ao peito, anunciou que ia dedicar-se à vida académica, pensou-se que ia fazer uma pós-graduação ou tentar um mestrado, numa escola prestigiada, para valorizar a tardia licenciatura.
A surpresa surgiu quando afirmou que ia dar aulas em três universidades, surpresa que se transformou em estupefação quando a comunicação social informou que ia dar aulas em mestrados e doutoramentos; e a estupefação virou pasmo quando uma Universidade pública o contratou como “professor convidado catedrático”, até agora sem desmentido a repor o bom nome da instituição pública.
O seu currículo podia igualmente dar-lhe acesso a general de 4 estrelas nas FA, por ter nomeado o ministro da Defesa; a juiz, do Tribunal de Contas, pela forma como geriu as contas do Estado; do Constitucional, pela experiência de chumbos dos OE; do STJ, pela ignorância de que era preciso pagar à Segurança Social e usar na Tecnoforma os fundos europeus que a UE reclama de volta; a diretor do SIS, pelas relações com Relvas, Marco António e Marques Mendes, excelentes informadores; etc.; etc...
Não censuro Passos Coelho por aceitar o lugar para o qual não tem condições mínimas, tal como sucedeu com o de PM, mas exijo, como cidadão, que a direção do ISCSP diga qual o critério que presidiu ao aviltamento do Ensino Superior Público. A instituição está em causa e, com ela, todos os que tiveram longo e exigente percurso para chegarem a professores catedráticos. O facto de o diretor, Manuel Meirinho, ter sido convidado em 2010, como deputado independente do PSD, por Passos Coelho, pode não ser alheio ao convite e à distinção académica como retribuição.
Por mais ex-dirigentes do PS que se apressem a defender o novo catedrático, com igual entusiasmo ao que usaram no combate ao atual governo, não há um módico de decoro ou de suporte legal na leviandade da contratação e na apreciação do mérito de quem já sabia ter a cátedra à espera. Só surpreende que estivesse vaga e sem concorrentes.
Se é nepotismo, não é um problema académico, é um caso de polícia, mas o ministro da tutela e o reitor da Universidade de Lisboa não podem alhear-se, por maior autonomia de que o ISCSP goze.
Finalmente, Marcelo Rebelo de Sousa, que tem opinião sobre tudo, que opinião terá do novo académico, ora seu colega?

Por Carlos Esperança
in Estátua de Sal

domingo, 4 de março de 2018

AS PREOCUPAÇÕES DO PROFESSOR JOÃO FERREIRA DO AMARAL. UMA ENTREVISTA A LER COM ATENÇÃO


Depois de sabermos que Passos Coelho vai ser contratado para leccionar como catedrático de economia, vem mesmo a propósito esta entrevista a um VERDADEIRO professor catedrático de economia. Leiam e avaliem se Passos alguma vez teria gabarito para dar uma entrevista com o substracto que esta encerra. É como comparar um vinho Barca Velha com uma vulgar água-pé. - Comentário da Estátua, 03/03/2018

In Expresso, 03/03/2018


João Ferreira do Amaral é peremptório: “Nos últimos 20 anos a nossa evolução foi um desastre completo. Não vejo razão alguma para os próximos 20 anos serem melhores. Pelo contrário, acho que vão ser ainda piores”. Muito crítico da adesão portuguesa ao euro, em entrevista ao Expresso, o economista e professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) renova os alertas: o crescimento em 2017 foi “bom”, mas “a questão está em saber se temos condições a prazo para progredir. E continuo a achar que não temos. Não nos enganemos”.
Foi das primeiras vozes a opor-se à adesão portuguesa à moeda única e em 2013 disse ao Expresso que “só a saída do euro evita décadas de estagnação em Portugal”. Continua a defender o mesmo? 
Sim, e com maioria de razão. Hoje, o PIB é apenas 15% superior ao que era há 20 anos. Nunca houve um período tão longo de quase estagnação. A dívida pública multiplicou por duas vezes e meia e a dívida externa líquida, que era praticamente zero, hoje é mais de 100% do PIB. Além do desemprego ser maior. Nos últimos 20 anos — grosso modo, o período do euro — a nossa evolução foi um desastre completo. Não vejo razão alguma para os próximos 20 anos serem melhores. Pelo contrário, acho que vão ser ainda piores. Vamos atravessar uma nova fase, com uma situação muito pior à partida do que tínhamos em 1999, quando o euro foi criado.
Mas a situação económica melhorou desde 2013... 
Claro que temos uma situação económica melhor. Este Governo procedeu bem. Hoje, já se esqueceu o que foram as tentativas de pressão europeia sobre o Governo para mudar a política no início do mandato. Houve coragem em seguir uma política que, a meu ver, faz todo o sentido, impulsionando a economia através dos rendimentos, o que permitiu criar mais postos de trabalho, reduzir o desemprego, aumentar as contribuições para a Segurança Social e ir equilibrando as finanças públicas. Agora, isto é um efeito de curto prazo, que terá tendência a não se prolongar, porque as condições são muito adversas ao crescimento.
Os alertas sobre a acumulação de défices externos, gerando uma dívida insustentável, continuam válidos? Com um crescimento de 2,7% e as exportações em alta, já ninguém fala sobre isso. 
O problema de Portugal é que esquecemos rapidamente as coisas! Houve um ano bom em 2017, espero que 2018 também seja. O crescimento tem sido bom nas exportações, há equilibro da balança de pagamentos, o que é importante. O crescimento é saudável. Agora, é um crescimento dentro de um ambiente muito bom, nomeadamente ao nível financeiro, com as taxas de juro muito baixas. Se houver uma crise financeira, tudo se altera. A questão está em saber se temos condições a prazo para progredir. E continuo a achar que não temos. Não nos enganemos. Praticamente continuámos a não convergir para a média europeia. Tivemos um crescimento bom, mas, antes da moeda única, 2,7% teria sido considerado um mau ano. Isto não tira mérito ao governo. Agora, está muito longe de resolver os problemas.

OS PAÍSES ENDIVIDADOS ESTÃO MUITO MAIS VULNERÁVEIS DO QUE EM 2007. ACHO EXTRAORDINÁRIO QUE HAJA QUEM ACHE QUE OS PROBLEMAS ESTÃO RESOLVIDOS. NÃO ESTÃO.

Em 2013 também disse que não é possível fazer a reestruturação necessária da economia portuguesa dentro da moeda única. Não foi feita? 
Não foi. Temos de investir muito mais em capital físico e capital humano. Ora, isso não será possível com as condicionantes financeiras de pertencermos à zona euro. Temos uma dívida pública de mais de 120% do PIB e, de acordo com o Tratado Orçamental, temos de reduzir para 60% no prazo de 20 anos. É impossível. Obrigaria a excedentes das finanças públicas que não são possíveis. Só tentar esse impossível — e o Tratado Orçamental obriga-nos a isso — será suficiente para não se investir o que é necessário. Portanto, ou se altera o Tratado e, provavelmente, teremos outra discussão terrível na zona euro, ou então, não faremos esse investimento.
Em 2016, já com este Governo, o investimento público caiu para mínimos históricos. 
Sim. É certo que também se juntou a questão do calendário dos fundos estruturais. Mas, é nítido. Normalmente, e isso é tradição há muitos anos, quando é preciso cortar nas finanças públicas, corta-se no investimento, porque é aquilo que dá origem a menos protestos. Temos de investir muito. Fala-se nas infraestruturas e equipamentos, mas acho que é no capital humano que temos de investir mais. E isso é caro. Estamos muito atrasados nesta matéria.
Podemos não cumprir o Tratado? 
O Tratado implica objetivos de défice e de dívida. No défice estamos lá perto, não é difícil cumprir 0,5% do PIB em termos estruturais. Mas, na dívida, se não cumprirmos a trajetória de redução para 60% do PIB no prazo de 20 anos, ficamos sujeitos a ter de aplicar as políticas que a Comissão Europeia achar por bem impor. E isso é inaceitável.
A dívida é a maior ameaça sobre a economia portuguesa? 
Penso que sim. O défice é mais gerível. O nosso défice podia até ter sido corrigido de forma mais gradual. O problema do programa da troika é que quis fazer tudo ao mesmo tempo, criando um desequilíbrio tremendo e um impacto social inaceitável. Penso que os programas da troika vão ficar nos anais como um disparate de política económica. Há outro aspeto que é hoje quase ultrajante: estamos dependentes das agências de rating. Isso é inaceitável e foi fruto da moeda única.
Como assim? 
Para um país da moeda única se financiar está todos os dias a olhar para o que as agências de rating dizem. Não é o caso do momento atual, porque as taxas de juro estão muito baixas. Mas, a prazo é inaceitável, significa um completo condicionamento. Isto acontece porque a única fonte que um país do euro tem hoje para se financiar é o acesso aos mercados financeiros, como uma entidade ou empresa qualquer. Nem sempre foi assim. Quando os países dispõem de emissão monetária própria, podem dosear com a utilização de financiamento monetário em situações de dificuldade. O Reino Unido fartou-se de usar e os Estados Unidos também têm usado.
Portugal tem beneficiado de juros muito baixos, também fruto da política do Banco Central Europeu. O que acontece se subirem? 
Um país que tem cento e vinte e muitos por cento de dívida pública e mais de 100% de dívida externa líquida não pode estar descansado. Qualquer problema nos mercados financeiros que implique um aumento da taxa de juro é sempre penalizador. E é evidente que o período relativamente prolongado de taxa de juro quase zero leva a uma sobrevalorização dos ativos financeiros que vai ter de ser ajustada mais cedo ou mais tarde. Isso significará uma crise e estamos singularmente mal preparados, pior preparados do que estávamos em 2007.
Aí, coloca-se de novo um cenário de crise do euro? 
Sim. Se as instituições da moeda única se mantiverem como estão, é evidente que se coloca. Até porque os países endividados estão muito mais endividados do que em 2007, logo, muito mais vulneráveis. Acho extraordinário que haja quem ache os problemas estão resolvidos. Não estão.

A voz no deserto contra o euro 

Foi uma das primeiras vozes em Portugal a manifestar oposição à adesão nacional ao projeto da moeda única europeia. Desde os finais dos anos 90 do século passado que João Ferreira do Amaral nunca mais parou de alertar para os problemas que a pertença à zona euro implicam para a economia portuguesa. Natural de Lisboa, onde nasceu em 1948, licenciou-se e doutorou-se em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade de Lisboa, onde é professor catedrático desde 1995. Entre outras publicações, é autor dos livros “Contra o Centralismo Europeu — Um Manifesto Autonomista” (2002), “Porque Devemos Sair do Euro” (2013), “Em defesa da independência nacional” (2014) e “A Solução Novo Escudo” (2014, em coautoria com Francisco Louçã). Também se tem dedicado à investigação histórica. É coautor do livro “Povos Antigos em Portugal” (2ª edição, 2000) e autor da obra “Celtas e Indianos em Portugal — Áreas Etno-Culturais em Portugal no I Milénio a.C.” (2017).

OUTROS ASSUNTOS 

EXPORTAÇÕES 

“As exportações beneficiaram muito com a descida do euro. Mas é inegável que houve um esforço interno importante a nível empresarial. A capacidade para aproveitar as oportunidades foi boa”

INVESTIMENTO PÚBLICO 

“A variável investimento é difícil de perceber nos Orçamentos do Estado. Antes, a informação era melhor, mais detalhada. Agora, é muito reduzida. Sabemos pouco sobre o que está a acontecer com o investimento público e era útil saber mais”

GERINGONÇA 

“Foi uma inovação, que está a funcionar. Penso que pouca gente acreditaria que desse resultado, mas a verdade é que deu. E tem contribuído para a alteração da política. Isso deve-se, de facto, ao António Costa”

ESTADOS DO LESTE EUROPEU 

“Temos autoridades com ações duvidosas do ponto de vista das próprias leis comunitárias e com um conceito de democracia muito sui generis. É o mínimo que se pode dizer”

BREXIT 

“Foi uma surpresa. Acaba por fazer tomar a consciência que o projeto europeu está a patinar”
“O euro é uma tentativa de forçar a criação de um Estado europeu”
“A Europa da União Europeia é ultracentralista e de criação tendencial de um superestado europeu”, considera João Ferreira do Amaral. O professor do ISEG diz que “gostava” da Europa das comunidades, mas “não gosta” da União Europeia.

Há consciência na zona euro de que há problemas por resolver? 
Penso que há consciência de que isto não funciona. Daí a pressão para tentar encontrar dentro da zona euro mecanismos que melhorem as perspetivas de crescimento para as economias menos competitivas.
Que mecanismos são esses? 
Há tentativas de criar o tal ministro das Finanças europeu, que não percebo bem o que é. E, também, de completar a união bancária, o que teria alguns efeitos positivos, mas penso que não sucederá facilmente, porque a Alemanha se opõe a alguns aspetos. Depois, fala-se na criação de um Fundo Monetário Europeu, que penso que será para apoiar os países endividados em termos de dívida pública. Mas são ideias ainda muito vagas.
Essas mudanças vão avançar? 
Sou muito cético. Penso que o mal da moeda única é o projeto em si. É uma quadratura do círculo tentar ter uma política monetária única e, praticamente, uma política macroeconómica única, para economias muito diferentes. Não funciona. E há grande possibilidade de não haver mudanças efetivas, porque os interesses são muito divergentes. Nomeadamente entre a Alemanha e os seus aliados próximos — que têm determinado o funcionamento da zona euro — e os países em dificuldades e mais endividados. Temos cinco países do sul da Europa — França, Itália, Espanha, Portugal e Grécia — que têm cerca de 50% do PIB da zona euro, com uma má performance em termos de crescimento e em que três deles têm dívidas públicas acima dos 100% do PIB (Portugal, Itália e Grécia) e os outros dois estão praticamente nos 100% (Espanha e França). Acho que os interesses da Alemanha irão prevalecer. Portanto, o futuro da zona euro é ainda mais incerto hoje do que no passado.
Em 2014 publicou o livro “Em Defesa da Independência Nacional”, onde diz que a União Europeia está condenada a desaparecer se não for reformada. Continua a achar o mesmo? 
Sem dúvida. E na altura ainda não sabia do ‘Brexit’.
Há um divórcio entre as pessoas e o projeto europeu? 
Exatamente. A emergência dos populismos tem a ver com o projeto europeu ter descambado com a União Europeia. Eu distingo o processo de integração europeia entre a Europa das comunidades, até 1992, e depois de 1992, com o Tratado de Maastricht e a fundação da União Europeia. São dois projetos diferentes. Eu gostava da Europa das Comunidades, não gosto da Europa da União Europeia. E há muita gente que pensa assim.
Porquê? 
A Europa da União Europeia é ultracentralista e de criação tendencial de um superestado europeu. E grande parte do eleitorado europeu não aceita isto. Portanto, o projeto está condenado ao fracasso. Quando se entra numa fuga para a frente federalista, sucede este tipo de coisas.
É o que tem acontecido, essa fuga para a frente? 
Sim, com base na moeda única. Penso que o euro é um projeto muito perigoso, porque é uma tentativa de forçar a criação de um Estado europeu usando a economia e a moeda. Deu mau resultado, como não podia deixar de ser. Não havia nenhuma razão económica a justificar a criação da moeda única. A Europa não era uma zona monetária ótima, longe disso, e hoje ainda é menos do que na altura.
Como viu a eleição de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo? 
É bom para o país e principalmente para ele. Mas tenho muitas dúvidas de que leve a resultados na zona euro. Poderá haver alguma cosmética, mas o essencial da zona euro vai manter-se como está.

O lado B do aumento do emprego 

O crescimento do emprego surpreendeu João Ferreira do Amaral. A vertente negativa foi a fraca evolução da produtividade...
“Surpreendido.” É desta forma que João Ferreira do Amaral, economista e professor do ISEG, confessa ter ficado com o crescimento do emprego em Portugal no último ano. Uma surpresa “agradável, porque é mais gente que se empregou, mais rendimentos que as pessoas recebem”. Mas que também teve uma vertente negativa. “O outro lado da questão é que significou um aumento muito pequeno da produtividade, se é que não diminuiu mesmo. E isso não é saudável”, alerta.
Explicação? João Ferreira do Amaral diz que “ainda ninguém sabe muito bem” e considera que o tema “merece um estudo”. Mas, deixa pistas: pode ser o resultado do “aumento do emprego em sectores onde a produtividade — que é um conceito mais aplicável à produção física — não seja tão evidente, como é o caso dos serviços”.
O economista destaca a redução do desemprego de longa duração, “normalmente o mais difícil de reduzir”. Queda que pode estar relacionada com “o tipo de emprego criado, em sectores como a construção civil e os serviços, retomando o padrão de antes da crise”. Destacando que “ainda bem que há este emprego e as pessoas voltam a trabalhar”, alerta que “é preciso criar condições para que o emprego se vá alterando no futuro. E isso só se faz com investimento”.
Já no que toca ao desemprego jovem, embora tenha descido, ainda está nos 23,5%. “É um problema duplamente complicado. Primeiro, como em todos os outros países, porque é uma geração que passa anos na indecisão do que fazer pois não tem emprego. Segundo, em Portugal isto é agravado pela nossa situação periférica”, frisa João Ferreira do Amaral. E deixa um aviso: “Um dos meus receios em relação ao futuro é que a nossa periferia se agrave em termos económicos.” Isto porque “os jovens quando não encontram emprego emigram, nomeadamente os de maiores qualificações. É isso que leva a que uma região se degrade e se agrave o seu carácter periférico”. Um risco que “foi muito claro durante a fase da troika, mas que continuará se o desemprego jovem se mantiver elevado”.
O desafio demográfico é incontornável. Para João Ferreira do Amaral, “Portugal tem de fazer um estudo sério, assumido por toda a gente a nível político, encarando as projeções sobre a evolução da população. E começar a ter uma política de imigração. Vamos ter de recorrer à imigração, necessariamente”. E remata: “O importante é que isso se faça de forma a que os imigrantes sejam bem integrados na sociedade portuguesa. Tem de se evitar a criação de guetos e temos as experiências negativas de outros países para saber o que devemos evitar.”

sábado, 3 de março de 2018

NOMEAÇÕES E A EXIGÊNCIA DE UM TOTAL ESCLARECIMENTO


"Governo já fez 760 nomeações" desde que tomou posse. Tendo decorrido 35 meses da presente legislatura, a média mensal cifra-se em redor das 21 nomeações.


A pergunta central que se coloca é esta: todas as nomeações destinaram-se a lugares de "confiança política"? À partida duvido. Se é verdade, penso estarmos perante um escândalo. E porque razão duvido? Simplesmente porque a frieza dos números podem não corresponder à verdade. Na Educação, por exemplo, que apresenta 120 nomeações, o maior número de todas as secretarias, estarão contabilizados professores destinados a substituir colegas com baixa médica? Portanto, necessário se torna que o governo explique, pormenorizadamente, secretaria a secretaria, este volume de nomeações, desde onde vieram, o que fazem, que concursos foram realizados e se não existia outras formas de mobilidade que evitasse o provável aumento da despesa Neste aspecto, a Assembleia Legislativa da Madeira, a quem compete fiscalizar o governo, deve actuar no sentido de um exemplar esclarecimento. O dinheiro é público e a sua utilização tem de ser racional. Obviamente.   

NOTA
Fonte: DN-Madeira, edição de hoje, em função de um estudo do JPP. 

quinta-feira, 1 de março de 2018

HIPOCRISIA


Nota prévia
O que a seguir escrevo não se fundamenta em qualquer posicionamento de natureza partidária, antes a minha total repulsa pela hipocrisia. Detesto o fingimento. 

O Dr. Pedro Passos Coelho, ex-primeiro-ministro, deixou o lugar de Deputado na Assembleia da República. Lá terá as suas razões políticas e, sobretudo, profissionais. Em idade de trabalhar, certamente, que outra janela já estará aberta para que possa respirar o ar da prosperidade. Tem sido assim com todos. O último, julgo eu, foi Durão Barroso. Mas isso, apesar da minha leitura de processo, é para o lado que melhor durmo. Que seja feliz.


O que já me custa a engolir é o elogio na hora da partida. Que as bancadas do PSD e do CDS, partidos que estiveram juntos no governo, tenham dedicado alguns minutos de reconhecimento, compreendo. Já considero pintada de hipocrisia as manifestações do Senhor Presidente da Assembleia da República, do primeiro-ministro e do líder do grupo parlamentar do PS. Questiono, que relevantes serviços fez ao País, dignos de um aceno de simpatia política, um Deputado que chumbou o PEC IV, negociado ao mais alto nível europeu (semelhante ao da vizinha Espanha) que evitaria a "troika"; que anunciou em campanha (ver https://www.youtube.com/watch?v=gNu5BBAdQec)
um rumo que, depois, renegou, completamente; retirou direitos e "roubou" salários e pensões; impôs um brutal aumento de impostos; fez disparar o desemprego, a pobreza e aumentar, assustadoramente, a emigração? Isto, quando hoje se prova que, politicamente, o caminho não foi o melhor. Com outras políticas económicas, o desemprego recuou, a emigração estancou, está em curso a devolução dos rendimentos perdidos, o crescimento económico está a um nível esperançoso, enfim, dizem que somos um caso de sucesso, o qual, depois de algum cepticismo pelo modelo político adoptado, inclusive, vergou desde o FMI até à Comissão Europeia, passando pelo ministro alemão das Finanças, sempre de língua afiada contra Portugal, que fez vénia ao seu homólogo português, catalogando-o por "Ronaldo das Finanças". 
Portanto, tratou-se do elogio do erro político. E isso tem um nome: hipocrisia. Pessoalmente, convivo muito mal com isso! Seja à direita, seja à esquerda.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

DEPRESSÃO PÓS-DAVOS


Por 
estatuadesal
(Joseph E. Stiglitz*, in Expresso, 
24/02/2018)

Os CEO em Davos lamberam os beiços face ao corte de impostos aprovado por Trump e pelo Congresso. Trata-se de um mundo em que o materialismo é rei.


DAVOS — Tenho assistido à conferência anual do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça — onde a chamada elite global se reúne para discutir os problemas do mundo — desde 1995. Nunca saí tão desalentado como este ano.
O mundo está a ser assolado por problemas quase incontroláveis. A desigualdade está em ascensão, especialmente nas economias avançadas. A revolução digital, apesar do seu potencial, também implica riscos sérios para a privacidade, a segurança, os empregos e a democracia — desafios que são agravados pelo crescente poder monopolístico de uns poucos gigantes de dados americanos e chineses, que incluem o Facebook e o Google. As mudanças climáticas representam uma ameaça existencial para a economia global como a conhecemos.
Talvez mais desanimadoras que estes problemas, contudo, sejam as respostas. Na verdade, aqui em Davos, CEO provenientes de todo o mundo começam a maioria dos seus discursos reafirmando a importância dos valores. As suas atividades, proclamam, visam não só a maximização dos lucros para os acionistas, mas também a criação de um futuro melhor para os seus trabalhadores, para as comunidades em que trabalham e para o mundo de um modo geral. Podem até referir os riscos colocados pelas mudanças climáticas e pela desigualdade.
Mas quando os discursos terminaram este ano despedaçou-se qualquer ilusão que restasse sobre os valores que motivam os CEO de Davos. O risco que mais parecia preocupar estes CEO era a reação populista contra o tipo de globalização que construíram — e com a qual beneficiaram imensamente.
Não surpreende que estas elites económicas tenham dificuldade em compreender a extensão com que este sistema falhou a grandes faixas da população na Europa e nos Estados Unidos, fazendo estagnar os rendimentos reais da maior parte das famílias e com que a parte do trabalho no rendimento baixasse substancialmente. Nos EUA, a esperança de vida desceu pelo segundo ano consecutivo; para as pessoas com uma educação apenas de nível secundário, o declínio verifica-se há muito mais tempo.
Nem um dos CEO dos EUA cujos discursos ouvi (ou ouvi falar) mencionou o fanatismo, a misoginia ou o racismo do Presidente dos EUA, Donald Trump, que estava presente no evento. Nem um deles mencionou o fluxo imparável de declarações ignorantes, mentiras deslavadas e ações impetuosas que erodiram a posição do Presidente dos EUA — e, portanto, dos EUA — no mundo. Nenhum mencionou o abandono de sistemas para a determinação da verdade, e da própria verdade.
Desde 1995 que vou ao Fórum de Davos mas nunca saí tão desalentado como este ano. Na verdade, nenhum dos titãs corporativos da América mencionou as reduções governamentais no financiamento para a ciência, tão importantes para o fortalecimento da vantagem comparativa da economia dos EUA e para a sustentação dos ganhos no nível de vida dos americanos. Nenhum mencionou a rejeição a que a administração Trump votou as instituições internacionais, ou os ataques à imprensa ou à justiça nacional — que correspondem a um assalto ao sistema de controlo que sustenta a democracia dos EUA.
Não, os CEO em Davos lamberam os beiços face à legislação fiscal recentemente aprovada por Trump e pelos republicanos do Congresso, e que entregará centenas de milhares de milhões de dólares às grandes empresas e às pessoas abastadas que as detêm e as gerem — pessoas como o próprio Trump. Estão imperturbados pelo facto de que a mesma legislação levará, quando for completamente implementada, a um aumento de impostos para a maioria da classe média — um grupo cujas fortunas têm vindo a declinar durante os últimos 30 anos.
Mesmo no seu mundo tacanhamente materialista, onde o crescimento importa mais que tudo o resto, a legislação fiscal de Trump não deveria ser celebrada. Afinal, diminui os impostos sobre a especulação imobiliária — uma atividade que em nenhum lugar produziu prosperidade sustentável, mas que contribuiu para o aumento das desigualdades em todo o mundo.
A legislação também aplica um imposto sobre universidades como Harvard e Princeton — onde foram originadas várias ideias e inovações importantes — e levará a uma diminuição da despesa pública ao nível local, em partes do país que se desenvolveram precisamente porque fizeram investimentos públicos na educação e nas infraestruturas. A administração Trump está claramente disposta a ignorar o facto óbvio de que, no século XXI, o êxito na verdade exige mais investimento na educação.
Para os CEO de Davos, parece que os cortes fiscais para os ricos e para as suas corporações, juntamente com a desregulamentação, são a resposta para todos os problemas do país. A economia do gotejamento (trickle-down economics), defendem, acabará por garantir que toda a população retire benefícios económicos. E os bons corações dos CEO são aparentemente tudo o que é necessário para assegurar que o ambiente fica protegido, mesmo sem regulamentação relevante.
Porém, as lições da história são bem claras. A economia do gotejamento não funciona. E uma das principais razões pela qual o nosso ambiente se encontra num estado tão precário é que as empresas, por si só, não cumpriram as suas responsabilidades sociais. Sem regulamentação eficaz e sem um preço real a pagar pela poluição, não existem quaisquer motivos para acreditar que se portarão de forma diferente do que já fizeram.
Os CEO de Davos estavam eufóricos com o retorno ao crescimento, com os seus lucros e salários crescentes. Os economistas relembraram-lhes que este crescimento não é sustentável, e que nunca foi inclusivo. Mas estes argumentos têm pouco impacto num mundo em que o materialismo é rei.
Por isso, esqueçam os lugares-comuns sobre valores, recitados pelos CEO nos parágrafos de abertura dos seus discursos. Pode faltar-lhes a fraqueza do personagem de Michael Douglas no filme, de 1987, “Wall Street”, mas a mensagem não mudou: “A cobiça é boa.” O que me deprime é que, embora a mensagem seja obviamente falsa, tanta gente que ocupa o poder acredite que é verdadeira.

*Prémio Nobel da Economia, professor universitário na Universidade de Columbia. 
© Project Syndicate 1995-2018)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

UM DISCURSO PARA TER PIEDADE!


Li e lembrei-me dos tempos da guerra colonial, na Guiné, daqueles tempos de Guiléje, do célebre "corredor de Guiléje", ali mesmo junto à fronteira com a Guiné Conacry. Quando éramos atacados, nas cercanias do arame, despejávamos fogo, muitas peças de artilharia, porque a superioridade de fogo tentava esmorecer aqueles que eram tidos por "inimigos", ao mesmo tempo que a superioridade estridente, tendencialmente, atenuava a nossa própria tensão. Esta realidade que vivi cola-se ao discurso político do senhor deputado Dr. Carlos Rodrigues (PSD), figura que não tinha nascido aquando do auge da guerra e apenas dois aninhos à data do 25 de Abril. Certo é que, ao longo de muitos anos, ouvi discursos absolutamente descabelados, porém, este, está entre os mais grosseiros e grotescos de um passado de 42 anos de Autonomia. 

Foto ASPRESS/DN-Madeira

O senhor deputado, depois de uma despropositada citação de António de Oliveira Salazar, dirigiu-se ao Primeiro-Ministro e a Carlos César líder parlamentar do PS na Assembleia da República. 
Do Dr. António Costa falou de "oportunismo e desfaçatez (...) que a sua verdadeira natureza é ardilosa, manipuladora, conspirativa, manhosa e matreira (...) é a personificação da esperteza fugaz e saloia que glorifica o embuste e a artimanha como formas de vida e de acção (...) um usurpador inveterado, um oportunista sem paralelo (...) é um divisionista, segregacionista, com um discurso perigoso (...) recorrendo a mentiras, falsidades, manipulações e aleivosias. É a perfídia em todo o seu esplendor (...) é grosseiro, presunçoso e ainda vem exigir que nos retratemos pela mais do que acertada reacção à sua desengonçada e trôpega atitude. (...) é o descaramento descontrolado, a desfaçatez despudorada e o cinismo desavergonhado (...) é um verdadeiro prestidigitador, um mágico de feira popular". (...) E teve, nesta investida, a colaboração do seu sátrapa de estimação. O mais notável alpinista social e político da história democrática portuguesa. O seu líder parlamentar, Carlos César. (...) Madeirenses e açorianos sabem muito bem qual o tratamento correcto a aplicar a traidores desbocados e sem princípio. (...) Foram quase 600 anos de extorsão contínua, de exploração intensiva, em que a Região Autónoma da Madeira foi, sistematicamente, espoliada e saqueada pela metrópole insensível que jamais demonstrou qualquer tipo de consideração pela grave situação e pelas miseráveis condições de vida dos madeirenses (...). Os senhores devem-nos não um pedido de desculpas, mas um abandono imediato e definitivo da vida pública, pelo menos no que à Madeira diz respeito".

Alguns colegas de bancada esboçaram sorrisos à medida que o fogo saía, outros, pelas imagens, estou certo, sentiram-se politicamente envergonhados. E se esta é a minha convicção, não estarei longe que milhares de madeirenses e porto-santenses não assinam por baixo intervenções desta natureza. Simplesmente porque no exercício da política não vale tudo. Li e guardei um texto de Eugénio Guerreiro (imaginem, do Jornal de Angola) que se questionava: "Será mesmo que não há limites para a acção política e o discurso dos nossos actores políticos? E que limites são estes para além do que é apregoado pela Lei? A Ética, certamente. A História também". Nem mais. Necessário se torna conhecer a História, assumir um comportamento ético e demonstrar elevação, eu diria EDUCAÇÃO. Porque, por maiores e mais sustentáveis que sejam as razões que assistam a um dos lados, o político tudo perde quando entra pela via da língua suja, da ofensa, do metralhar de palavras acintosas, intencionalmente procuradas no dicionário vilipendiador.  
Sinceramente, não sei o que alguns pretendem com aquele tipo de provocação. Inclino-me para uma leitura enquadrada em um certo desespero político, onde, perdidos a remos e a velas, a língua afiada dos velhos tempos tende para pior, exactamente, como na guerra, na tentativa de uma superioridade de fogo que atenue a tensão. Só pode ser isto. E no meio dos "morteiros" que, certamente, passam por cima de S. Bento ou rebentam por perto do soldado de artilharia, quem sofre é a toda a Região. Não por represálias, porque acima do governo da República estão outros Órgãos de Soberania para além do escrutínio diário da comunicação social, mas porque não ajudam na negociação de dossiês que ultrapassam a esfera de competências dos órgãos de governo próprio da Madeira. Aquele tipo de discurso foi um chão que deu uvas (se alguma vez deu!), ou, melhor dizendo, de tanto repetido, muitos sabem o que gasta a dita casa. Uma casa que, muitas vezes desprestigia a Democracia, e que não se dá ao respeito, daí que, questione, poderá merecer um olhar de aceitação? Quanto muito de comiseração. 
Escreveu Alexandre Cristo, Observador: "A qualidade de uma democracia republicana mede-se, entre outras vias, pelo comportamento dos seus representantes, tanto governantes como parlamentares. Isto porque os nossos regimes liberais não são apenas compostos de regras, leis, instituições, freios e contrapesos. O cumprimento da lei não chega – de nada servem as regras e as instituições se umas não forem cumpridas e outras não forem respeitadas, mesmo quando assim a lei o permite. Os regimes liberais distinguem-se, para além da forma de governo, pela sua dimensão moral. Estão suportados em pilares éticos e são mantidos por quem acredita nos valores da liberdade, igualdade, justiça, dignidade humana, diversidade, tolerância. E, como tal, a credibilidade de um sistema político perante os cidadãos assenta, também, no reconhecimento do respeito por esses valores por parte dos seus representantes – e não, somente, no cumprimento da lei e das regras, pois algo ser legal não significa que seja ético". 
Por aqui fico.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O ACORDO MORTOGRÁFICO


A petição “Cidadãos contra o ‘Acordo Ortográfico’ de 1990” é amanhã (hoje) debatida na AR, bem como um louvável projecto de Resolução do PCP. A petição “Cidadãos contra o ‘Acordo Ortográfico’ de 1990” é amanhã debatida na AR, bem como um louvável projecto de Resolução do PCP, o único que recomenda o recesso de Portugal do AO, outras medidas de acompanhamento e uma nova negociação das bases e termos de um eventual Acordo Ortográfico.

Dr. António Bagão Félix, in Público
Com base nesta amálgama ortográfica, no que leio e no que até já vi ensinado (!), ficcionei um texto-caricatura para ilustrar este absurdo na nossa língua escrita. A bold assinalei as aberrações endógenas e toda a gama de facultatividades do AO e, em itálico, realcei erros resultantes da total confusão do “pós-acordismo” e todos os dias vistos nos jornais e televisões. Ei-lo:
A receção do hotel estava cheia e o recetor não tinha mãos a medir. Agora que a recessão já não é um fato, ninguém para o turismo. A fila era de egípcios do Egito que não têm o “p” no nome do país porque lhes disseram que a concessão do visto dependia da conceção do mesmo. Entre eles, alguns eram cristãos coptas, perdão cotas.
O hotel tinha dois restaurantes tão suntuosos quanto untuosos: o cor-de-rosa e o cor de laranja (este sem direito a hífens), porque o diretor mandou adotar o AO. Quer dizer, foi uma adoção sem adoçar o citrino. Os coutentes não ficaram contentes.
Um dos egípcios (um ator atormentado) perguntou se havia produtos lácteos dos nossos laticínios. Tudo isto por causa de um “c” que tanto faz parte, como não faz parte do leite.
Outro dos turistas que se havia zangado quis retratar-se e, para isso, resolveu retratar os amigos com uma “selfie”. Um outro rececionista (semi-interno e semiletrado) e que mais parecia um espetador, distraiu-se e picou-se num cato que, esse sim, era um doloroso espetador. Ficou com as calças semirrotas que lhe levariam parte do salário semilíquido.
Outro, por acaso um cocomandante – que tinha sido corréu porque correu no Cairo que era corruto – estava com um problema ótico e queria um médico. Tinha uma infeção que, mesmo sem o “c”, teimava em ser infecciosa. Foi-lhe sugerido ir a um hospital. O turista lá foi e, num dos corredores em forma de semirreta onde cruzou com um marreta, depois de passar pelas zonas infantojuvenil e materno-infantil (outra vez os hífens…), viu uma seta para a esquerda com “doenças óticas” e outra para a direita também com “doenças óticas”. Coisas de arquitetos ou arquitetas. Baralhado, virou para a direita. Foi visto por um oftalmologista quando precisava de um otorrino para o ouvido. Lá está: caiu o “p” ocular, que já tinha sido dispensado no auricular!”. O melhor é o míope ser surdo e vice-versa.
Por causa do facto transformado erradamente em fato, aumentou a gama dos fatos: há o fato tributário que assenta que nem uma luva. Há a união de fato mesmo que sem ele. Há o fato consumado que leva a que a Crimeia seja russa de fato. Os turistas ficaram encantados com tantos fatos no Verão.
Entretanto, foi desligado o interrutor do elevador porque precisava de uma interrupção para uma inspeção.
O diretor do hotel, preocupado, fez uma reunião e ficou de elaborar uma ata que nem ata nem desata. É que o seu corretor ortográfico também não ajudou e por isso pensou pedir ajuda a um amigo corretor da Bolsa. Acontece que, mesmo com tato, não encontrou logo o contato dele. Quando o conseguiu, o corretor ficou zangado dizendo-lhe “eu cá não me pelo pelo pelo de quem para para desistir”. Houve uma grande deceção na secção e, perentoriamente, falou-se numa rutura. No fim, porém, feita a arimética das contas, tudo acabou num pato de afetos.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

OBRIGADO










O Mundo é cada vez mais pequeno e o leque de amizades, virtuais ou não, é cada vez maior. Ao longo do dia de ontem, via FB, tive essa sensação muito agradável. A tecnologia aproximou-nos de tal forma que, qual paradoxo, acabamos por estar juntos embora distantes. O meu OBRIGADO a todos quantos me felicitaram. Afinal, apesar de adolescente (6+9=15), tenho muitos Amigos, com A maiúsculo, que andam por aí e, no dia certo, batem à porta. Uma adolescência, como prova a fotografia (!), que continua cheia de entusiasmo na perspectiva de uma nossa terra onde a verdadeira felicidade não seja medida, apenas, pelo número de toneladas de cimento, de areia ou de carros. Que os jovens, os adolescentes, de facto, persigam a UTOPIA, enquanto caminho sem fim. Que tenham presente que no meio desta ilusória abundância, por entre becos e veredas, há "Gente Feliz com Lágimas" - João de Melo, 1988. A todos os meus Amigos, repito, OBRIGADO. E peço-lhes desculpa, por dever social, nem sempre corresponder no vosso dia, com um aceno de simpatia. Coisas de "adolescente", como compreenderão. Finalmente, retribuo-lhes os votos com uma breve frase: que a saúde vos acompanhe e que a força interior esbata todas as vicissitudes da vida.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

COMO SE FAZ UM CANALHA


Por José Soeiro, in Expresso Diário 
16/02/2018)

No mais recente filme de João Salaviza, um dos mais reconhecidos e brilhantes realizadores portugueses da nova geração, chama-se “Russa” e acontece no bairro do Aleixo, no Porto. Ao mesmo tempo que o filme estará em competição em Berlim, bem acompanhado por outras obras portuguesas, 948 delegados e delegadas juntam-se no Congresso do PSD que consagrará Rui Rio como novo líder do partido.


Há imagens que não se esquecem e que definem as pessoas. Uma delas é a de Rui Rio num barco, no Rio Douro, a abrir uma garrafa de champanhe com os seus convivas enquanto assiste à demolição de uma das torres do Bairro do Aleixo. No bairro – sei-o porque estava lá – o clima era de desespero, com um enorme aparato policial montado, mulheres que gritavam de raiva ao ver a sua casa ser implodida, homens a chorar junto ao gradeado enquanto o pó dos destroços se espalhava, crianças atónitas junto ao lugar onde até há poucos dias brincavam e que parecia, agora, um cenário de guerra. Se acaso a demolição daquelas torres tivesse sido negociada com a população, talvez um Presidente da Câmara estivesse junto aos moradores naquele momento, de consciência tranquila por ter cumprido o seu dever e garantido uma alternativa para a vida daquela gente. Se não fosse esse o caso, uma pessoa normal que tivesse tomado convictamente aquela decisão teria ao menos o pudor de se remeter ao silêncio perante o sofrimento dos outros. Rui Rio não fez uma coisa nem outra. Foi para a frente do bairro, no aconchego de um barco no meio do rio, juntou os amigos e celebrou, frente aos cidadãos desesperados da sua cidade, o momento em que as suas casas a vinham a baixo. Perante o sofrimento dos outros, Rui Rio sorriu e brindou. Independentemente do que cada um possa pensar sobre as soluções para o Aleixo – e há muitas opiniões – uma coisa parece-me estar para além das discordâncias políticas: quem faz isto é um canalha. E eu, como muitos outros, não esqueço.
Talvez por isso as palavras de Salaviza, que não é do Porto mas esteve pelo Aleixo para fazer o seu novo filme, sejam tão contundentes: “Rui Rio é uma espécie de papão, de pesadelo que assombra a memória dos moradores do Aleixo.Trata-se de um tipo tenebroso e sinistro que decidiu brincar com a vida de centenas de pessoas para ceder aos interesses da especulação imobiliária. Há uma imagem dele muito paradigmática quando, na demolição da torre, o vemos no Douro, num barco de luxo a fazer uma pequena celebração com champanhe e abrindar à demolição. Ele transforma aquele momento de aniquilação de uma comunidade numa celebração. E é este tipo que tem esta forma de estar na política e de jogar com a vida das pessoas que quer ser primeiro-ministro de Portugal…”.
Não é a primeira vez, aliás, que o caso é tratado por um filme. Quem quiser perceber o processo do Aleixo deve ver “Ruído ou As Troianas”, do realizador portuense Tiago Afonso. Está lá tudo: a origem do bairro e de quem foi para lá, a explicação cristalina – através de uma imagem da marginal do Porto – para o apetite imobiliário por aqueles terrenos, a revolta contra o modo como o poder autárquico tratou aquelas pessoas, a dignidade das mulheres que resistem, o modo como as crianças representam aquele espaço, o ambiente vivido no dia da demolição, a relação de tudo isso com a cidade. Num registo diferente, é também no Aleixo que se passa Bicicleta, um filme de Luís Vieira Campos, com argumento de valter hugo mãe, do qual guardo a imagem de umas intermináveis escadas, num bairro em que, propositadamente, a Câmara deixou de consertar o elevador, condenando as pessoas a terem de viver como um sacrifício as mais singelas necessidades do dia-a-dia.
Sobre o mal que Rui Rio fez ao Porto e sobre os mitos acerca da sua governação no Porto, não repetirei o eloquente resumo feito por Adriano Campos. Também não tenho grande esperança que Rui Rio vá alguma vez ver algum destes filmes – ou que se deixasse transformar por eles, caso os visse. Direi apenas isto: ninguém deve querer para o seu país aquilo que Rui Rio fez com quem mais sofria no Porto. E este é um bom fim-de-semana para o lembrar.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

TAMBÉM NA CÂMARA DO FUNCHAL O DR. PEDRO CALADO APRESENTAVA LUCROS!!!


Não entro nessa polémica Madeira vs Açores. Quando dá jeito, a Madeira é apresentada como região singular; em outros momentos, na mó de baixo, os governantes tentam, das duas, uma: ou desviar as atenções ou, então, chutar para Lisboa as responsabilidades. Já não há pachorra para este entranhado formato de fazer política. Libertem-se, por favor.


Ontem, o primeiro-ministro lamentou o facto do défice da Madeira ter agravado em uma décima o défice do sector público administrativo. Hoje, o vice-presidente do governo regional da Madeira, Dr. Pedro Calado, veio exigir um pedido de desculpas de António Costa aos madeirenses. Atirou-se como se a casa local não tivesse telhados de vidro. Pedido de desculpas, porquê? Compulsando a história do processo, não será verdade que o défice da Madeira é sete vezes superior ao dos Açores? Não é verdade que, ao contrário dos Açores, os madeirenses e porto-santenses estão a pagar impostos sem um diferencial que poderia chegar aos 30%? É falso ou verdadeiro que a Região escondeu mais mil milhões de dívidas e que o valor global da dívida chegou aos 6.3 mil milhões? Pedir desculpas porquê? 
Mas tudo isto, embora preocupante, porque influenciará, por muitos anos, a vida colectiva da Região, não teria uma dimensão política relevante, quando a agressividade discursiva pode colocar em causa a solução de vários dossiês. Pessoalmente, entendo que a Madeira deve discutir de igual para igual, sem qualquer vénia de chapéu na mão, porém, nunca com as mãos cheias de pedras. Essa forma de actuação não é facilitadora de nada. As negociações tornam-se mais difíceis, todos compreendemos.
E quanto às contas... quando o Dr. Pedro Calado foi vereador da Câmara do Funchal, a autarquia dava lucro! Li várias vezes declarações nesse sentido. Eram as suas contas. Porém, em 2013, verificou-se que a dívida da Câmara do Funchal, afinal, era superior a 100 milhões de euros! Enquanto cidadão, leio as suas declarações e fico, agora no governo, com o mesmo pressentimento. 
Finalmente, talvez fosse preferível uma certa contenção discursiva. Ainda esta semana o DN deu conta, que em apenas três meses, o vice-presidente do governo contratualizou 19 funcionários políticos para o seu gabinete. Ficou-se também a saber que o vice-presidente dos Açores, para nove ilhas, nomeou, apenas, sete para o seu gabinete. São os tais telhados de vidro que deveriam exigir outro tipo de comportamento. Porque uma coisa é, eventualmente, dizer, com números, que a apreciação do governo da República não é correcta; outra é a forma e o tom agressivo como se equaciona. Uma é o saudável combate político; outra, é regressar aos tempos de Jardim.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O QUE SE PASSARÁ COM A CABEÇA DO CARDEAL?


O argumento posto a circular, a propósito da proposta de continência sexual sugerida aos “casais irregulares”, pelo cardeal patriarca de Lisboa é o de que se trata de um assunto interno da Igreja Católica Apostólica Romana, que só diz respeito aos seus membros. Este argumento defendido por algumas vozes que vieram em defesa do cardeal, faria algum sentido se a Igreja não se sentisse no direito de considerar os seus valores como devendo ser de todos, tentando impor as suas regras em matéria como divórcio, homossexualidade, adoções, eutanásia, interrupção voluntária da gravidez a católicos e não católicos, sob a forma de código penal, impondo a todos o seu próprio código moral. Mal estaria o mundo se os valores só pudessem ser questionados pelos membros de cada clube.


Não há na nossa sociedade duas escalas de valores e, a Igreja, que se sente no direito de condicionar toda a sociedade não pode levantar muitos em sua defesa, quando tenta evitar que a sociedade a influencie.
Seria interessante conhecer em que circunstâncias a Igreja admite o divórcio ou, para ser mais preciso, a nulidade do casamento, excluindo, é claro, a cunha, coisa que também existe nos divórcios da Igreja. No passado houve mesmo um ex-embaixador junto do Vaticano que já depois de reformado ainda ocupou um alto cargo no Estado, nomeação feita por um ministro agradecido pela ajuda que recebeu do embaixador na anulação do seu casamento.
A verdade é que os motivos que levam quase 100% dos casais a divorciarem-se não são contemplados no direito canónico. A partir do momento em que um casamento se realiza em condições normais e seja consumado quase nada é aceite como motivo de divórcio. Seria interessante se o cardeal apresentasse estatísticas de divórcios canónicos, por exemplo, em casos de violência doméstica. Aliás, todos sabemos qual a posição dos padres em relação a uma mulher que se queixe de violência doméstica, não é certamente a proteção da vítima.
Uma mulher que se divorcie por ser violentada ou mesmo violada pelo marido e volte a casar dificilmente conseguirá anular o seu casamento celebrado pela Igreja Católica, por aquilo agora ficámos a saber ou a mulher continua a aceitar a violação e a violência santificada pelo sacramento do casamento ou é forçada à abstinência sexual, sob pena de ficar excluída da Igreja, isto é, fica condenada a uma exclusão que não sendo equivalente à excomunhão corresponde a uma marginalização caluniosa no seio da Igreja.
Na telenovela “Tieta do Agreste”, baseada num romance de Jorge Amado, há uma personagem que se chama Modesto Pires que sendo casado mantinha uma “teúda e manteúda”. A determinada altura a amante e a esposa decidiram fazer uma greve de sexo que levou o Modesto Pires ao desespero. O desespero era tanto que o Modesto perguntava aos amigos se não havia o risco de “aquela coisa” lhe subir à cabeça.
Começo a achar que os receios do Modesto Pires tinham alguma razão de ser, a obsessão dos padres da Igreja Católica em relação ao sexo marca tanto a Igreja, estando no centro de tantas das suas decisões, que a explicação só pode corresponder aos receio do Modesto Pires, aquela coisa não sai por via das relações sexuais e sobe à cabeça dos nossos padres ciosos da sua castidade.

NOTA
por estatuadesal (In Blog O Jumento, 12/02/2018)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ORA BEM... POLÍTICAS "INCONSEQUENTES"


É óbvio que, para quem desempenha o papel de vereador da oposição, tem de olhar para as situações e denunciá-las, ao mesmo tempo que, espera-se, em contraponto, uma posição propositiva. O "jogo" democrático assim o exige. Porém, há um aspecto que deve ser tido em conta e que se exprime em uma só palavra: memória. Se, no tempo certo, um político não levanta a sua voz, mesmo estando no poder o partido com o qual se identifica, parece-me falho de credibilidade quando, mais tarde, se apresenta em tom crítico relativamente a situações face às quais deixou o marfim correr. 


Ora, o desordenamento das zonas altas do Funchal tem uma paternidade, exactamente quem o permitiu durante trinta e sete anos consecutivos de maiorias absolutas. O silêncio que perdurou, os remendos introduzidos, as cumplicidades das Juntas de Freguesia que não alertaram, a ausência de coragem política para travar a construção de génese ilegal, os ouvidos de mercador perante tantos que solicitaram um plano integrado de desenvolvimento, faz parte de um rosário de muitas contas. Por isso, vir agora falar de políticas "inconsequentes" quando essas partiram de um partido, hoje na oposição, parece-me desajustado e à revelia de um mínimo de respeito político por si próprios.
Corrigir o desordenamento das zonas altas do Funchal levará tantos anos quantos aqueles que temos de democracia.Não sei se chegarão. E se houver muito dinheiro disponível!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

SAÚDE - "A MUDANÇA DE PROTAGONISTAS VAI MESMO ACONTECER"


"O Dr. Duarte Nuno Dória foi afastado da Comissão de Dissuasão da Toxicodependência. A saída, que não resulta da vontade própria, acontece três dias depois ter dado uma opinião muito crítica, no DIÁRIO, do último domingo, sobre o que se passa na área da Saúde e dos Assuntos Sociais". Fonte: DN-Madeira. Perante uma fotografia de um corredor cheio de macas, o gestor falou de "caos",  da inexistência de planos de contingência, questionou: "o que faz o secretário da Saúde e a sua colega da Inclusão e Assuntos Sociais", reflectiu sobre as "altas problemáticas" que parecem ser um terreno de ninguém, e terminou com frontalidade: "a renovação falhou. A fase das reciclagens falhadas já acabou e a mudança de protagonistas vai mesmo acontecer". Posto isto: rua!

Pois é, o Dr. Duarte Dória foi verdadeiro, para além daquilo que quem está lá em cima aceita ou tolera como desabafo. Não disse nada que o comum dos cidadãos não saiba e que, aliás, é notícia ou motivo de peças jornalísticas quase todas as semanas. Leu, apenas, a fotografia e foi sincero, repetindo por suas palavras o desastre do sistema de saúde. 
Ao gestor, a hierarquia política não concede direitos de cidadania e de verdade. Por isso foi afastado ou convidado a sair da Comissão de Dissuasão da Toxicodependência. Isto depois de ter sido, em 2015, um fervoroso apoiante do Dr. Miguel Albuquerque. Nessa altura de campanha disse: "O dr. Miguel Albuquerque é claramente o político madeirense que tem o discurso sobre a Saúde mais bem estruturado. E tem tido uma sensibilidade muito especial para todos os problemas que tem tido conhecimento." Enganou-se. O tempo determinou que a sua leitura estava errada ou, então, há aqui dois aspectos, em alternativa, que deveriam ser politicamente esclarecidos: ou a iniciativa de afastamento partiu do Dr. Miguel Albuquerque, ou, o secretário regional da Saúde não gosta de quem o confronte com a realidade. Seja como for, tratando-se de uma figura com responsabilidades no SESARAM, há que aguardar por uma posição do grupo parlamentar do PSD, para ouvi-lo sobre os contornos desta situação que, julgo eu, está muito para além da aparência, grupo que tantas vezes é célere em procurar as razões de tudo e mais alguma coisa. Então, quando se trata da oposição...!
Ilustração: Dnotícias e Youtube

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PARABÉNS, CARLOS PEREIRA


Na política há duas palavras que me fazem sair do sério: interesses e ingratidão. Os partidos políticos estão muito à mercê de ambas. O jogo nos bastidores, as artimanhas meticulosamente construídas, os interesses em afastar e matar politicamente quem, eventualmente, faz sombra ou, simplesmente, de quem não se gosta, toda a engrenagem que se encontra por detrás do palco, mais complexo que um tabuleiro com peças de xadrez, que conduz a muitos venderem a sua consciência aos bocados, porque estão em causa interesses empresariais e ou obediências por favores ou posições atribuídas, tudo isto me repugna. Da mesma forma a ingratidão, como consequência. Quem não se vende, os intelectualmente sabedores e honestos, aqueles que pautam a vida pelo rigor e pelo conhecimento, que não têm medo de enfrentar o futuro, porque conhecem o terreno e os escolhos, que não andam com o  nariz colado ao joelho, que constroem e deixam a sua marca alicerçada na qualidade que rejeita os medíocres e interesseiros, estes são, implacavelmente, afastados. Como vulgarmente se diz, fazem-lhe a folha, devagarinho, com tempo, semeando e regando a mentira, criando o ambiente até o golpe final.

O último dos preferidos pelo povo é que ganhou. Por que será?

Na "primeira oitava" do recente congresso socialista, não posso conter as palavras em favor de um Amigo que muito estimo e considero. Não apenas no plano político. Mesmo distante da Região, segui o desenrolar dos trabalhos. E tenho que o dizer: parabéns, Amigo Carlos Pereira. 
Dirijo-me a si. Sabe, Carlos, tão bem quanto eu, que "não ofende quem quer, mas quem pode", não é assim? Pois, a consciência do trabalho realizado, a luta pela não ingerência nas questões internas e regionais do partido, a ausência de qualquer referência, com substância elogiosa ao anterior presidente e restante direcção do PS-M, (absolutamente deselegante, mas percebo, ora se percebo que não foi um deslize!) no decorrer da intervenção de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS Nacional, sei lá, braço direito ou esquerdo de António Costa, toda esta mixórdia conduz-me à leitura, Amigo Carlos, que tudo foi pensado ao pormenor. António Costa não teve coragem de vir ao Congresso. Ele lá saberá as razões políticas do que terá gizado com outras conivências. 

E tudo isto porquê? Pelo facto do Carlos, em 2015, ter assumido um claro NÃO à oportunista candidatura de Bernardo Trindade como cabeça de lista pela Madeira. A autonomia estatutária venceu a decisão unilateral de António Costa. O Carlos sabe que nesse momento assinou o documento da guerra e não um tratado de paz. E a bomba deflagrou agora. Há muito que ela vinha a caminho à velocidade dos interesses e do "afastamento" pela via "democrática". 

Retomo o meu pensamento. Esse foi o momento-chave da "condenação" de Carlos Pereira, de sempre um dos mais brilhantes parlamentares da Madeira. Manobraram, sentaram-se à porta e esperaram que o funeral passasse. E já passou! Seria bom que alguns tomassem consciência de um outro provérbio bem português: "o acerto de hoje é o erro de amanhã". 
Frequentemente, interrogo-me, se não será estranho que um dos melhores, o mais bem preparado em assuntos de economia e finanças, de onde depende tudo ou quase tudo, presença quase diária na comunicação social pelo seu sentido propositivo e sustentado técnica e politicamente, aquele que trouxe o PS de uma situação muito complexa para um patamar de credibilidade e notoriedade política e social, seja afastado e até, pasmo, pedido por uma alminha pequenina, a sua expulsão do partido. Isto leva-me a pensar na pequenez desde as alminhas de paróquia até aos engravatados, tidos por referências sebastiânicas e que agora surgem entre o denso nevoeiro. Que não se esqueçam, uns e outros, a figura triste que fizeram (que estão a fazer) e que "onde comem, deixam migalhas". E são esses sobejos que permitem diversas leituras, desde o porquê de agora surgirem até ao que lhes move(u). O tempo, grande mestre que é (o PS-M tem a obrigação de ganhar em 2019), estou certo, devolverá ao Dr. Carlos Pereira a dignidade e o reconhecimento político pelo trabalho realizado que abriu portas à vontade de mudança. Dignidade e reconhecimento que o povo reconheceu (vide sondagem), independentemente dos enquadramentos políticos de quem se pronunciou. Saiba o António Costa, a Ana Catarina e outros que "há mais marés que marinheiros". 

NOTA

A minha crítica ao Dr. António Costa enquadra-se enquanto secretário-geral do PS. Nada tem a ver com o trabalho que está a realizar enquanto Primeiro-Ministro em prol de Portugal.

Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

QUEM PAGA A CORRUPÇÃO? O POBRE!


Este vídeo é de 27 de Janeiro. Ontem, Francisco voltou a falar da corrupção, insistindo que quem a paga é o pobre. Trata-se de um recado, oportuno, para a toda a sociedade e, subtilmente, também para o interior da Igreja. Talvez, por isso, por aí se levantem vozes contra Francisco.