Por
Carlos João Pereira
Economista
Deputado do PS na Assembleia da República
O secretário regional do Turismo, decidiu recorrer à economia para explicar o turismo madeirense. Falou de elasticidades com a convicção de quem acabou de descobrir o Santo Graal da estabilidade económica. Concluiu, assim, o turismo vai bem: os preços sobem, a procura não cai e o destino continua sólido.
Seria uma demonstração irrepreensível, mas era preciso que o mundo fosse um manual de microeconomia de bolso. Mas a realidade, como a própria economia, tem nuances que o otimismo político não costuma ler.
A elasticidade, esse conceito que o secretário regional cita com fervor, não é uma medalha de mérito. É mesmo um termómetro de risco. Quando o preço sobe e a procura não cede, a teoria económica não recomenda celebrações. Na verdade, está mesmo a alertar para o planeamento, a diversificação e a regulação. É o momento de intervir antes que a pressão se transforme numa rutura incontrolável.
O Secretário da elasticidade devia fazer um exercício rudimentar de comparação com outros destinos. Eu dou dois exemplos, mas há bastantes mais. As Ilhas Baleares, por exemplo, tiveram um ciclo vertiginoso de crescimento do turismo. Entre 2014 e 2018 podemos dizer que viveram um período quase idêntico ao da Madeira: os preços do alojamento dispararam, as dormidas cresceram e a procura manteve-se inelástica. E foi precisamente por isso que o governo balear não se congratulou. Pelo contrário, agiu. Impôs moratórias à criação de novas camas turísticas, limitou o alojamento local, criou uma taxa de turismo sustentável e reorganizou o modelo antes de atingir o ponto de saturação. Em boa verdade, as autoridades, não esperaram pela queda da procura nem pela descida dos preços. Agiram prontamente porque o sucesso era tão grande que ameaçava destruir o próprio sucesso. O turismo já valia em 2018 40% do PIB!
Mas não foi o único caso. A Suíça fez o mesmo, com o rigor e a frieza que a caracteriza. Nos anos 2010, quando os Alpes se encheram de segundas residências e o turismo parecia imparável, o país aprovou a famosa Lex Weber, limitando a 20% o número de casas de férias por município. Nessa altura, tal como na Madeira, a procura continuava forte, os preços em alta. Contudo, o governo helvético percebeu que, sem regulação, o mercado acabaria por implodir com graves consequências para a população que já estava confrontada com os problemas da saturação
Não houve recessão nem crise. E, sobretudo, ninguém ficou sentadinho à espera de que o gráfico caísse a pique! Houve, isso sim, bom senso e, sobretudo, visão. Enquanto uns veem “elasticidade” como sinal de glória, a Suíça viu nela um alerta silencioso e soube travar a tempo.
Quero sublinhar isto diretamente ao Secretário responsável. Em ambos os casos, Baleares e Suíça, a procura não caía e os preços estavam a subir. Mas as autoridades entenderam que o crescimento não é um estado permanente e estava a provocar sérios constrangimentos aos cidadãos. Na prática compreenderam o que qualquer político sensato devia compreender: é um ciclo que exige gestão e por isso responderam com política, não com estatísticas ou “elásticos” triunfalistas”!
Infelizmente, o Governo Regional confunde resiliência com eternidade e inelasticidade com imunidade. A interpretação do responsável madeirense é o retrato fiel de uma governação que se habituou a confundir ausência de crise com prova de competência. O raciocínio é simples e perigoso: se nada caiu, é porque tudo vai bem; se a procura resiste, é porque o modelo é perfeitinho. Mesmo que nada tenham a ver com os bons resultados e o que se esperava da sua atuação era que fossem parceiros ativos do setor para regular e manter a confiança. Não têm sido!
Enquanto isso, a realidade acumula sintomas que não cabem nas tabelas do secretário regional: trilhos sobrecarregados, estradas e miradouros congestionados, preços da habitação a subir em flecha e serviços públicos muito pressionados. Deviam saber que o turismo madeirense não desafia a gravidade. Ele apenas está a testar os limites do elástico. Na verdade, falta à governação regional a elasticidade essencial da boa política. No fundo, a capacidade de ajustar a estratégia, ler os sinais e antecipar o futuro. Um governo que interpreta a ausência de queda nas dormidas como prova de sucesso é um governo que deixou de compreender o que é desenvolvimento e do que precisam os seus cidadãos.
A promessa de uma nova estratégia turística para 2026 ou 2027 é um expediente inaceitável. O turismo não espera por planos tardios e a “mata cavalos”. O turismo da Madeira exige visão, prudência e coragem. Não para amanhã, mas agora! Foi exatamente o que Baleares e Suíça tiveram quando o crescimento parecia inquebrável.
A Madeira precisa de cuidar do turismo antes que o turismo deixe de cuidar dela. E para isso não bastam leis de mercado mal citadas. É preciso compreender a verdadeira elasticidade. No fundo, aquela que um político deve ser capaz de empreender. A da política que se adapta, que planeia e, principalmente, protege o futuro. Quando um governo se torna inelástico à crítica e impermeável à evidência, o que se parte primeiro já não é o elástico é a confiança.
Carlos João Pereira
Ilustração: Google Imagens

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