quarta-feira, 14 de novembro de 2018

TRIBUNAL TRANSFORMADO EM ARENA CIRCENSE


Não entendo, talvez muitos não entendam, este circo no qual se transformou (em alguns casos) o Ministério Público e o Tribunal. É ininteligível a forma como, desde há muito, a Justiça funciona. E não estou, sequer, a escrever sobre a lentidão da dita, os custos da mesma ou a abusiva divulgação de gravações em vídeo e áudio que deveriam ser mantidas sob reserva. Também, de difícil compreensão, as manhãs, tardes e noites dos canais de televisão e rádio a acompanharem, em directo, repetindo até à exaustação o que já é do domínio público, ou a discutirem o nada. Autêntica pescadinha de rabo-na-boca inconsequente. Há uma lamentável e doentia espécie de "voyerismo" que acompanha alguns e incentiva outros, acicatando paixões, já de si exacerbadas e, agora, até, com novas "claques" à porta do Tribunal. Pessoalmente, preferiria o essencial da notícia, o que não se compagina com todo o folclore mediático que não vale um chavo!


Não sou jurista, mas sou cidadão. Tenho o sentido da justiça, mas não me acompanha o sentido do espectáculo no qual, muitas vezes, a Justiça se transforma. 
Se o essencial da Lei deve ser do conhecimento de todos, todos devem saber que as leis produzidas na Assembleia da República, têm de ser aplicadas a qualquer cidadão que as infrinja. O essencial é isto. O resto é espectáculo, muitas vezes grosseiramente encenado para consumo. 
Tenho dificuldade em perceber como é que se prende para investigar, como é que se explica a "especial complexidade de um processo" (há casos, muito específicos, que sim) para manter em prisão preventiva pessoas que, posteriormente, podem ser ilibadas, em um claro desrespeito pelo cidadão que, tenhamos presente, até prova em contrário é inocente. Quem paga ou reabilita à posteriori a imagem, isso parece não constituir preocupação primeira. Mais, ainda, apenas como exemplo, questiono, será o caso de Alcochete "terrorismo" ou um caso de puro "hooliganismo"? Não conviria ler "Em busca da excitação" de Norbert Elias e Dunning? 
Dir-me-ão que há casos e casos! Obviamente que sim. Porém, esta mobilização de centenas de recursos humanos para alguns casos de Justiça, a especulação que é feita sem o conhecimento concreto dos processos e os "debates" organizados em horário nobre e não só, para discutir o zero, causa-me um enorme desconforto. Denunciam que, na Justiça, parece existir desnorte e uma espécie de feira de vaidades entre Magistraturas. Concomitantemente, uma óbvia excitação entre a comunicação social.
O curioso e lamentável é que, enquanto isto acontece, passa ao lado a discussão do Orçamento de Estado, verdadeiramente importante para a vida de todos os cidadãos; passa ao lado o trabalho apaixonado dos cientistas; passam ao lado os grandes dramas sociais; passam ao lado alguns "milagres" diários no campo da saúde, consequência do trabalho de médicos e enfermeiros, apesar de todas as dificuldades; passam ao lado, enfim, tanto de bom que acontece no país. Decididamente, os desmandos do futebol, o "anormal" e a busca de sangue fresco, tomou conta do nosso dia-a-dia. Sinais dos tempos. Quando a Lei, doa a quem doer, é para ser aplicada, mas dispensando a transformação do Tribunal em arena circense.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

FUTEBOL - UMA INDÚSTRIA CANIBAL. O CASO DE ALCOCHETE.


De que estávamos à espera? De um futebol vivido com paixão, com enorme entusiasmo, mas com moderação e respeito? De um espectáculo vivido pela beleza do movimento, pela emoção, pela técnica e táctica? De uma competição séria, dirimida com audácia, ousadia, justiça, honra e absoluta lealdade? Dificilmente podíamos esperar um quadro destes… 


Raramente escrevo sobre assuntos relacionados com o futebol profissional. E quando resolvo juntar umas palavras, mor das vezes, é no quadro de uma política educativa através do desporto. O resto, desde há muito, passa-me ao lado. Apenas observo. Pelo menos há 30 anos que não assisto, ao vivo, a uma partida de futebol. Refastelo-me no sofá, de quando em vez, para seguir um jogo de altíssimo rendimento, pela qualidade a todos os níveis. Desinteressei-me, talvez, depois de ler um extraordinário artigo no Le Monde Diplomatique, assinado por Eduardo Galeano (1940/2015), a que deu o título: “Football, une industrie cannibale”. Desde esse tempo, premonitoriamente, o autor, antecipou aquilo que hoje corre debaixo dos nossos olhos de actores/espectadores: salários absolutamente pornográficos, corrupção de arrepiar os mais insensíveis, tráfico de influências, violência e até morte. Aprendi com o grande Mestre, o filósofo do desporto, Manuel Sérgio, um dos maiores pensadores mundiais, que o desporto deveria ser “jogo, humor e festa”. Ora, essa pureza parece estar irremediavelmente perdida. 
Desporto vs indústria. O futebol profissional não é desporto. Existe, sim, uma modalidade desportiva (existem outras) que é utilizada com fins empresariais. As Sociedades Anónimas Desportivas pertencem ao domínio empresarial. Não confundamos, portanto, com os princípios que enformam a “Ode ao Desporto” de Pierre de Coubertin: "Ó Desporto, prazer dos Deuses! Essência da vida (...) Ó Desporto, tu és a beleza! És o arquitecto deste edifício que é o corpo, que pode tornar-se abjecto ou sublime, se degrada na vileza das paixões, ou saudavelmente se cultiva no esforço. (...) Ó Desporto, tu és a Justiça! A equidade perfeita, em vão perseguida pelos Homens nas instituições sociais (...) Ó Desporto, tu és a audácia! Todo o sentido do esforço muscular se resume numa única palavra: ousar. (...) Ó Desporto, tu és a Honra! Os títulos que tu conferes não têm qualquer valor se adquiridos por meios diferentes da lealdade absoluta. (...). 


Portanto, não confundamos estes princípios com outras finalidades que consubstanciam a sua prática profissional. Tratando-se de uma indústria que fabrica exacerbadas paixões, ódios, fúria e espaços de comportamento irracional, aliás, basta ter presente, sobretudo nos encontros de risco elevado, as massas adeptas serem conduzidas pelas forças de segurança para dentro dos estádios, para concluir desse “canibalismo” que, grosso modo, tal indústria configura e potencia. 


Ora, o que aconteceu na Academia de Alcochete, que não é situação única no futebol por esse mundo fora, não é mais do que o corolário de uma construção, eu diria, com boa vontade, inconsciente, de múltiplos factores, desde a escola à comunicação social. De facto, entre nós, a Escola, genericamente, não tem despertado e não tem incutido o desporto para a vida, segundo valores humanistas, fundamentalmente pela sua organização, porque está presa ao nível curricular a uma Educação Física que, ao querer ser tudo no plano pedagógico, acaba por deixar um rasto de desilusão.
Educar para os valores. Associado a isto, a comunicação social e o dirigismo. Todos os dias, são intermináveis horas, em quase todos os canais, de forma repetitiva, agressiva, doentia e muito pouco normal, painéis de comentadores, com dirigentes desportivos, ex-árbitros, jornalistas, empresários e até políticos que de tudo sabem, com intervenções que formatam frágeis consciências geradoras dos pressupostos da violência. Em alguns casos chega a ser degradante, tal a fúria demonstrada entre uns e outros. Até vejo gente com excesso de peso (!) que muito dificilmente são capazes de correr para uma paragem de autocarro, falando de “desporto” como se fossem exemplo de uma prática entendida, no mínimo, como bem cultural. Um paradoxo, que só ajuda a compreender o tal “canibalismo”. 
De que estávamos à espera? De um futebol vivido com paixão, com enorme entusiasmo, mas com moderação e respeito? De um espectáculo vivido pela beleza do movimento, pela emoção, pela técnica e táctica? De uma competição séria, dirimida com audácia, ousadia, justiça, honra e absoluta lealdade? Dificilmente podíamos esperar um quadro destes. Pelo contrário. E quando ouço o primeiro-ministro falar da necessidade de uma nova “autoridade contra a violência” questiono-me, para quê? Já existe lei que chegue e são vários os organismos com essa missão e vocação. Daí que, o que falta é educar para os valores, o que falta é bom senso na generalidade dos órgãos de comunicação social. O que falta, mesmo no inalienável direito constitucional ao associativismo, é a existência de rastreio nos candidatos a dirigentes. Isto não significa que, por esta via, se eliminem todos os casos. A marginalidade andará sempre à espreita, mas estou certo que jamais atingirá a vergonha que está instalada.
Regresso ao meu Amigo Doutor Manuel Sérgio: "(…) O interesse do capitalismo vigente é querer democratizar na medida em que quer vender. O desporto como mercadoria, a cultura como produto vendável, segundo as leis do mercado, é tudo quanto o capitalismo sabe de cultura e desporto (…)". Pensemos nisto em conjugação com a vergonha de Alcochete.

NOTA
Artigo publicado na edição de Verão 2018 de A Página da Educação.
Também, no blogue www.gnose.eu

sábado, 10 de novembro de 2018

BRINCAR COM OS EMIGRANTES


O vice-presidente do governo da Região da Madeira visitou a África do Sul, cidade do Cabo. Acabei de ler, no DN-Madeira, que, segundo o governante, os objectivos foram "plenamente cumpridos". E quais foram, em síntese: "ouvir as preocupações", "contacto com as gerações mais novas", "envolvimento da comunidade com a Região", "reunião com o Deputado Many Freitas", "verificação da actividade empresarial dos madeirenses", "aferir a necessidade de valorizar o ensino do Português", "transmitir a proximidade entre o governo regional e a comunidade abrindo a porta aos problemas dos emigrantes", "necessidades dos mais carenciados" e "contacto com o Cônsul Geral". Perante isto, só me ocorre concluir que continuam a brincar com os emigrantes.

Só faltou o habitual ramo de flores
junto de Bartolomeu Dias.
Revisitei os textos deste meu blogue (em parte são um pouco da história da minha vida) porque todos aqueles objectivos assumidos como "plenamente conseguidos", faz agora 20 ANOS (regressei no dia da abertura da Expo-98) foram todos, um por um, aqueles e muitos mais, motivo de uma visita partidária à África do Sul. Naquele texto (2016) refiro: "Não concedo o benefício da dúvida, tantas foram as promessas ao longo de quarenta anos. Os emigrantes têm dado jeito para deles se falar, para reunir e manter uma agenda de preocupações, todavia, por aí ficam as boas intenções e as palavras circunstancialmente ditas. Aliás, pergunto, quantos congressos foram realizados, quantas actas escritas e rubricadas, quantas visitas o presidente do governo da Madeira empreendeu às comunidades (até para se despedir...), quantos jantares e discursos foram realizados com mil e uma promessas, quantos secretários andaram pelas comunidades visitando clubes, associações de caridade, academias, paróquias e participando em festas populares? Resultado? Zero respostas aos problemas (...)". 
E de que valeu o Encontro das Comunidades Madeirenses realizado, no Funchal, em 2015? Zero! Mas, na altura, foi salientado pelo secretário que tutelava as comunidades: "(...) este encontro visa, em primeiro lugar, vos ouvir" (...) porque é importante "ouvir as vossas opiniões e sobretudo as vossas sugestões no que diz respeito ao futuro da Região e a sua relação com as nossas comunidades". Perguntar-se-à quais as consequências práticas desse encontro e de tudo o que está lá para trás? É caso para dizer que andam a brincar com os emigrantes. Só ouvem. Chega. Se não têm meios para resolver os problemas, alguns graves e profundos, julgo que ao contrário do que disse, o governante é que deveria ouvir os emigrantes dizerem: "não aceitamos que nos ponham os pés em cima". Por educação, não o disseram!
Regresso ao texto que publiquei em 2016: "(...) Fico por aqui porque me invade um sentimento de tristeza face a tanto folclore realizado (encontros e congressos) mas sem um fio condutor e uma consequência visível. E conto-vos uma brevíssima história que espelha o abandono. Estávamos em Valência (desta feita em uma visita à Venezuela) onde fomos recebidos no Centro Social Madeirense. À hora de almoço esperava-nos toda a direcção. Vieram os discursos e à despedida, um dos directores olhou-nos e disse de forma amiga mas directa: "não façam como muitos que aqui vêm mamar um almocinho e depois nada feito"! 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

QUALQUER POLÍTICO COM BOM SENSO E RESPEITO PELOS PROFESSORES JÁ TINHA IDO EMBORA.


Já tinha ido embora, pedindo desculpa aos professores da Região, ao Professor Joaquim José Sousa e, particularmente, a toda a comunidade educativa do Curral das Freiras. É triste verificar que o assunto é tema nacional pelas piores razões políticas.

Fica aqui um excerto de um texto do PÚBLICO, assinado por Bárbara Reis.


"(...) a história de uma escola pública que era a melhor do mundo, mas afinal é a pior — ou assim o dizem —, tão má que o director teve de ser afastado e a escola extinta.
Confuso?
Em 2009, o Governo Regional da Madeira abriu uma escola no Curral das Freiras, a freguesia mais pobre da ilha, num vale isolado de onde não se vê o mar. As crianças dos “sítios” do vale precisavam de uma escola ao pé de casa. Seria meio caminho para reduzir os chumbos e o abandono escolar. Joaquim Sousa, um professor de Geografia de Lisboa, foi nomeado director. Em 2010, quando a Escola Básica do Curral das Freiras ficou em 1207.º no ranking nacional das escolas, ninguém ficou espantado.
O espanto veio depois. Em 2015, o Curral ficou em terceiro lugar no exame nacional de Português do 9.º ano e no top 10 de Matemática, e foi a 12.ª melhor escola pública do país. O único aluno da Madeira que teve 100% no exame nacional de Matemática foi Dina Ascenção, aluna do Curral, e a melhor nota a Geografia da ilha foi de Albany Rodrigues, aluna do Curral.
Em cinco anos, a escola subiu 1000 posições.
Foram perguntar ao professor Joaquim Sousa o que tinha feito para conseguir isto. O que contou tornou o Curral uma inspiração nacional. Joaquim Sousa apareceu nos jornais, numa revista anual, num debate na Feira do Livro, na RTP. Quando quiseram saber se alguém, na Madeira, lhe dera os parabéns ou quisera conhecer os “truques” para uma mudança tão grande num lugar tão difícil e em tão pouco tempo, respondeu que “nem por isso”.(...)
É o retrato da Secretaria Regional da Educação. 
Enquanto professor sinto vergonha do que estão a fazer a um Colega.

NOTA

Ler o texto publicado AQUI.

VÁ LÁ...

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

"GOVERNO QUER FILÓSOFO PARA DIRECTOR DAS COMUNIDADES"



O título é do DN-Madeira a toda a largura da página. A primeira pergunta que emerge é esta: qual a razão dos candidatos possuírem uma Licenciatura em Filosofia? Da leitura da peça depreende-se que o secretário da Educação, que tutela o sector, despachou no quadro de um "fatinho à medida" de alguém.
Com muita boa vontade, pessoalmente, ainda poderia admitir a opção preferencial por uma formação em História, se bem que não seja a formação académica absolutamente determinante para um excelente desempenho político.
Neste caso, vem à colação a velhinha frase que nos diz que "em política o que parece é". Parece um fatinho à medida dos interesses e protecção de alguém. Logo, é!
A "coisa pública" está assim e é isso que irrita qualquer cidadão livre e adepto da transparência. São estas jogadas de bastidores, como se nada conseguíssemos ver para além da cortina, que torna ridícula e enervante as posições dos decisores políticos. São estas e tantas e tantas atitudes que ajudam a corroer e a desacreditar o nobre exercício da política. Falta integridade, independência e transparência e tudo isso pagam na imagem que transmitem. Que pobreza! Preferem a opacidade e as situações difusas como se todos andassem distraídos. Chegou-se a um ponto, são tantos os casos, que já não é sequer importante "parecer honesto". Lamento, pois tratar da vidinha pessoal dos "seus" demonstra o calibre dos governantes. Seja em que latitude for! 
Ilustração: Google Imagens.

E SE OS PROMOTORES DA JUSTIÇA MEDIÁTICA FOSSEM JULGADOS PELOS SEUS CRIMES


Daniel Oliveira, 
in Expresso Diário, 06/11/2018

Muitos terão ouvido na televisão o interrogatórios a Rosa Grilo e António Joaquim, dois suspeitos da morte do atleta Luís Grilo. A primeira frase deste texto faria, há uns anos, qualquer pessoa parar e perguntar-se: “Como assim, a televisão passou um interrogatório de uma investigação em curso? Mas isso é possível?” Legalmente, não. Primeiro, porque quem seleciona o que é relevante num interrogatório, onde as pessoas não estão de livre vontade, é a Justiça, não são jornalistas. Depois, talvez ainda mais importante, porque uma investigação feita em direto, com todos os suspeitos a terem acesso ao que o outro diz, está condenada ao fracasso.

A banalização de coisas absurdas parece ser a marca do nosso tempo. Talvez isso explique, aliás, como Jair Bolsonaro pode ser eleito Presidente e tantos brasileiros não fiquem atónitos ao ver Sérgio Moro aceitar ser ministro. Há uma torrente de irregularidades que parecem empurrar o dique que defende o Estado de Direito. O facto de recorrentemente ouvirmos áudios de interrogatórios de investigações em curso e já ninguém reagir tem um efeito corrosivo no sistema. Cada passo que se dá sem consequências é um degrau para o seguinte. Talvez a transmissão em direto.
Ao que parece, Débora Carvalho, Tânia Laranjo e Mónica Palma, três jornalistas da CMTV, vão a julgamento pela divulgação do registo audiovisual dos interrogatórios de Miguel Macedo, em 2015, por violação do artigo 88º do Código do Processo Penal. As jornalistas em causa acharão que esta processo é uma medalha. Como se perante o entretenimento mediático a que abusivamente chamam jornalismo não existissem direitos dos cidadãos.
A divulgação de interrogatórios de investigações em curso é um crime. De repetido tantas vezes já ninguém o leva a sério. Até que um dia alguém que ilegalmente entregou a terceiros uma gravação de um interrogatório judicial e o jornalista que a recebeu sejam detidos, interrogados, julgados e presos.
Não participo na desresponsabilização dos jornalistas. Não acho que o papel da comunicação social seja o de violar a lei. Pode ter de o fazer em nome de princípios fundamentais, como o controlo democrático do poder político. Não o pode fazer como se ser jornalista fosse uma espécie de garantia geral de impunidade. Sobretudo quando as vítimas do abuso são mais frágeis do que os próprios jornalistas, como é o caso de que agora falamos. Mas a responsabilidade é mesmo do sistema judicial. A divulgação destas escutas são um boicote de uma investigação em nome de uma justiça mediática sem qualquer validade.
Há de chegar o dia em que alguém terá coragem de levar a sério o que está na lei. A divulgação deste interrogatório é um crime. É um crime contra os suspeitos, é um crime contra a investigação, é um crime contra a Justiça e contra o Estado de Direito. De repetido tantas vezes já ninguém o leva a sério. Até que um dia, finalmente alguém que ilegalmente entregou a terceiros uma gravação de um interrogatório judicial e o jornalista que a recebeu sejam detidos, interrogados, julgados e presos. Vendo respeitados os direitos constitucionais que negam aos outros.
Estou a defender a prisão de agentes da justiça e de jornalistas? Mas onde raio está escrito que a liberdade de imprensa não está, como todas as liberdades, limitada pela lei? E que ela não se aplica a jornalistas? Na verdade, a liberdade de imprensa é a maior vítima deste crime. Porque é em nome dela que comerciantes de entretenimento voyeurista boicotam a Justiça. Retirando valor a esta liberdade constitucional e deixando-a à mercê de quem um dia, com argumentos que irão parecer razoáveis, a queira suprimir. Com tudo o que está a acontecer, não está chegada a altura do Estado de Direito se defender de quem o ataca?

sábado, 3 de novembro de 2018

ENTRE FANTOCHES E VIGARISTAS


Entre vários disparos políticos recentes contra o governo da República, destaco dois: "fantoches de Lisboa" e "vigaristas". Imagino a linguagem de caserna distante dos microfones da comunicação social! Palavras ditas por membros do governo a que se juntam tantas outras expressões, absolutamente desagradáveis, no decorrer de assembleias. Ao classificar as pessoas daquela forma, no fundo, denunciam o estado de menoridade da democracia e a ausência de princípios na educação de base no que concerne ao relacionamento com os outros. Dirão, alguns, é política! Não, não é política, é falta de educação. Porque no exercício da política, a arma, não é a da ofensa gratuita, mesmo no calor do debate, é, simplesmente, o argumento sério, honesto, frontal e determinado. Há políticos que me fazem lembrar alguns automobilistas, por estarem ao volante, sentem que têm um incomensurável poder nas mãos e, vai daí, o insulto janela fora ou pelo retrovisor. 


Os comportamentos, é óbvio, ficam com quem os pratica. Mas isto explica um outro aspecto, mais preocupante, que se prende com a ascensão de pessoas a lugares de responsabilidade ou de representação pública, sem que para eles estejam preparados. Falta-lhes maturidade, aspecto onde não basta anos de vida, cabelos brancos ou um qualquer percurso, mas capacidade para saber lidar com situações de maior complexidade. Então, isso normalmente conduz para a zona que se designa por tercialização das responsabilidades. Os outros acabam, mor das vezes, como os culpados das situações que não souberam antecipar e gerir. No seu curto campo de visão proliferam "fantasmas" por todos os lados, cujo contraponto, ao contrário do argumento consistente e convincente, é resolvido com uma intolerável arrogância. Humildade é palavra que não trazem em memória activa. E isso é muito mau, enquanto vivência democrática e, muito mau, enquanto exemplo para as novas gerações.
Falta-lhes lucidez, saber estar (na recente presença do Presidente da República na Madeira isso foi evidente), sobriedade, controlo emocional, formação técnica e política e domínio de técnicas cognitivas. Ora bem, sem qualquer olhar saudoso para o passado, eu diria que nos faltam boas referências face às quais nos possamos rever e acreditar. É pena, porque os maus exemplos andam a proliferar, já existindo "filhos" dessa grotesca mentalidade que não augura nada de bom.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

GUIÃO PARA A DIREITA SEGUIR O EXEMPLO DE BOLSONARO


Francisco Louçã, in Expresso Diário,
30/10/2018

Que entusiasmo, o homem ganhou, tudo é possível, o mundo é nosso, Portugal ainda há de ser um imenso Brasil, afinal só nos faltam as milícias na rua, o ódio aos homossexuais, o fervor evangélico, uma multidão de vendedores de rua a gritar pela ditadura militar, pois mulheres a ganharem menos do que os homens já temos, negros espancados nas esquadras também, jovens precarizados a saltar de biscate em biscate é o pão nosso de cada dia.


Só que não basta querer, é preciso saber. Deixem-me por isso, caro dirigentes da direita, que vos apresente alguns conselhos, obviamente desinteressados, para vos ajudar por esse caminho em que, imitando Bolsonaro, ascenderão aos píncaros da glória e arrematarão as eleições. Não é fácil, é preciso é tenacidade e total falta de escrúpulos, de que timidamente já deram provas.
O primeiro problema da direita que quer imitar Bolsonaro (ou Trump) é que a condição da sua vitória é virem de fora. Não é bem de fora, na verdade, Trump já por lá andava e Bolsonaro foi um deputado medíocre durante quase trinta anos, mas tem de parecer que não são “do sistema”, que irrompem, que desprezam os “políticos”, que têm notícias espantosas a dar. Má onda para Cristas ou Santana, ela e ele são tudo menos caras novas (Rui Rio, como é bom de ver, não entraria neste filme). Não basta mudar de fato e ensaiar um discurso mais agressivo para lá chegar, fica algo ridículo e parece cambalhota política. Se querem trumpizar, melhor dar a vez a Nuno Melo ou substituir a liderança unipessoal da novel Aliança, talvez recrutando algum colunista ou youtuber atrevido, é aí que está o mercado. Não é fácil, os dirigentes de sempre querem parecer novos e não querem sair do seu lugar.
O segundo problema é que é preciso criminalizar o adversário, é preciso que uma parte do eleitorado deteste o PS e os partidos de esquerda e repita “geringonça nunca”. Há várias formas de lá chegar. Um caminho são as centrais de ódio nas redes sociais, alugar uns trolls e contratar uns robôs frenéticos, mobilizar uns bolsominions repetitivos. A Catarina passeia-se com um relógio de 21 milhões de euros, deve ter sido o pagamento da corrupção no contrato dos submarinos. Seria bem apanhado, mas nada bate certo, é melhor tentar outra vez, ponham-lhe a fotografia com um helicóptero privado ou, melhor ainda, um jato, ela vai para casa de jato privado, aterra em Gaia, e leva o relógio.
Ou, o Costa é amigo dos venezuelanos, quer impor o socialismo em Portugal, confiscar os supermercados e impor senhas de racionamento do arroz. Que aborrecimento, o último Governo a negociar com Chávez e Maduro foi o do PSD-CDS e, para azar dos Távoras, ficaram as imagens desses abraços amigos. Mas não importa, é preciso é inventar, estou certo de que o Costa vai com o relógio dos milhões da Catarina e no seu jato privado passar férias com Maduro e conspirar sobre o socialismo.
Outra forma de mostrar como o adversário é detestável é usar a justiça. É sempre mais solene. Mas já houve duas oportunidades, a da Casa Pia, em que os entusiastas pensavam envolver o então secretário-geral do PS, e falhou, e a do processo de Sócrates, em que ninguém se lembrou de aproveitar para pedir que Mário Soares e António Costa fossem postos a “apodrecer na prisão”, assim à Bolsonaro, uma versão do “ponham-na atrás das grades” que se cantava nos comícios de Trump. Com franqueza, se os imitadores portugueses não têm topete para seguir o augusto exemplo dos Presidentes dos EUA ou do Brasil, como querem colher os mesmos resultados?
Resumindo, não é fácil. O pessoal disponível está gasto e não se atreve muito nos temas. A religião está acima da Constituição, mulher que aborte é presa, é proibido comer camarão, o ensino do criacionismo substituirá as aulas pagãs sobre Darwin e a evolução, nada disso entusiasma o povo. O programa económico é outro problema: vamos vender a floresta, vamos privatizar as empresas públicas, os CTT, a Galp e a EDP, são ideias brilhantes, mas está tudo feito. A segurança social, falta a segurança social, mas o Brasil a imitar o Chile de Pinochet é dificultoso, o esquema deu num mar de corrupção, em pagamentos régios a administradores e na falência dos fundos financeiros, que deixaram de pagar as pensões. Alguém vem para a rua em Portugal para exigir a privatização da segurança social de modo a combater este perigoso “socialismo” que paga as pensões?
Não desanime, caro dirigente da direita. Já esteve bem ao afirmar a sua equidistância face aos “candidatos extremistas” no Brasil, cá para o nosso burgo essa atitude parece sensata, mas mostrou que esteve sempre de olho no que iria criar “menos instabilidade”, como nos explicou o “Observador” naquela coça que deu a David Dinis, não é que ele se atreveu a sugerir que a liberdade devia ser levada a sério. Afinal, os mercados aplaudiram e o que seria de nós sem os mercados? Agora, se quer sucesso, vai ter que se esforçar. Isto com umas feiritas e uns comícios não vai lá. Não há notícia. Prometa que manda prender os ciganos, resulta sempre, ou impor aos professores a lei marcial para darem aulas. Lei marcial é boa ideia. Ou que vai distribuir armas para resolver as quezílias na assembleia geral do condomínio. Assim coisas saborosas. Se não sabe criar temas apaixonantes e puxar pela lágrima, dedique-se a outro negócio, há quem queira ocupar o seu lugar.
Tenho mesmo uma candidata, melhor do que o que o mercado agora oferece. Creio que se devia pôr os olhos na Maria Vieira para dirigir a direita. Qual Ventura, esse é um copinho de leite. Qual Melo, é um fidalgote. Quais cromos repetidos, são enfadonhos. É preciso uma figura emergente, devota, impiedosa com os infiéis, amiga de armas, de créditos firmados na luta contra o socialismo pagão. Seria a melhor figura que a direita teria para o cargo de primeira-ministra.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

PRETO, BRANCO... E CINZENTO


27 OUT 2018 - DN-Madeira 

NOTA
Excelente artigo que vale a pena ler.

Nunca foi tão difícil ter 50 anos como agora. Digo-o não por julgar que alguma vez tenha sido fácil para alguém digerir que o início do seu fim começou, mas por hoje acrescer a essa súbita consciência da efemeridade da vida a clara evidência de que nada é estável. Nada. Nem sequer os valores civilizacionais que enformaram a minha geração e a anterior à minha e a anterior a esta. Hoje, é um facto inquestionável, tudo está em processo de mutação, de revisão, o que abala de forma avassaladora a estrutura de qualquer ser que, como eu, julgava ter a vida arrumadinha num confortável preto e branco, sem zonas cinzentas.

Sempre, na verdade, me considerei uma pessoa equilibrada, capaz de relativizar, de me colocar no lugar do outro e, como tal, capaz de discernir objetivamente o bem do mal, o correto do incorreto, o particular do universal. Hoje, no entanto, ao chegar ao tal ponto em que a linha da vida inverte tranquilamente o seu sentido, sinto que o meu edifício de certezas, paulatinamente construído ao longo de décadas, se desintegrou, instaurando a dúvida e, sobretudo, convidando-me a assumir a máxima socrática do “só sei que nada sei”. E o pior é que se, para o filósofo, a consciência da ignorância era a premissa da procura do conhecimento, para mim é apenas a constatação de que o mundo se assemelha a um grande pote de geleia em que tudo pode – e, se calhar, deve – ser questionado. Não há firmeza, apenas pontos de vista e bibliografia, muita bibliografia a sustentá-los. A todos, sem exceção.
Pensei nisto não como quem pensa uma tragédia, mas como quem se sente encalhado entre dois mundos, o velho e o novo, e não sabe de qual gosta mais. Não sei, efetivamente, se preferia o mundo em que beijar os avós em tenra idade era algo inquestionável e sem qualquer rasgo de violência ou o mundo que perdeu a inocência e, sem eufemismos, põe em causa a legimitidade desse beijo enquanto elemento perturbador da autoafirmação afetiva da criança.
Não, não se julgue com isto que estou contra o novo mundo, o actual, em que, sem pejo e doa a quem doer, se é capaz de gritar que o rei vai nu. Nada disso. Reconheço, de facto, a validade dos argumentos que o sustentam, apesar de serem tão diferentes dos que me moldaram. O problema é que é tão, mas tão cansativo perceber que tudo mudou que, por vezes, me sinto uma formiga no meio de um vendaval. É difícil, muito difícil mesmo, reajustar conceitos, reinventar a vida e, sobretudo, “ser” num mundo verdadeiramente flexível e permeável. Hoje tudo, antes de ser melhor ou pior do que antes, é novo. E o novo assusta, intimida, causa estranheza.
Não admira, por isso, que esta “atualização” de valores em marcha coincida com a emersão de uma espécie de cultura de ódio por parte do senso comum que, incapaz de aceitar a mudança, o novo, contra-ataca da pior forma, substituindo a argumentação racional e sólida pela devassa da privacidade, pelo ataque pessoal, na lógica irracional do matar o mensageiro à falta de melhor. Leiam-se, se houver paciência, os comentários que nas redes sociais se seguem às notícias que testemunham o advento deste tempo novo, no qual também a estupidez e a ignorância galgam caminho num verdadeiro atropelo ao conhecimento e à sensatez. Sim, porque se algo se mantém estável neste mundo de mudanças, esse algo é a falta de humildade inteletual de quem ousa contestar fundamentos científicos com argumentação oca que nada questiona, mas apenas insulta e humilha o suposto “adversário”.
Por tudo isto e mais alguma coisa, sou, confesso-o, uma quinquagenária que sabiamente vai resistindo à tentação da teimosia, do lutar contra a inevitabilidade do inevitável. E o inevitável é que o mundo está a mudar. Quer se goste, quer não. O desafio é, portanto, ter a capacidade de escutar, não simplesmente ouvir, o que esse novo mundo tem a dizer. Sem preconceitos, sem radicalizações, sem ódios viscerais E, sobretudo, sem esquecer, que tudo na vida, como dizia o poeta, primeiro se estranha e depois se entranha.

domingo, 28 de outubro de 2018

UMA MORTE QUE ENVERGONHA A POLÍTICA REGIONAL. NÃO VENHAM, AGORA, COM LOUVORES, MANTENHAM-SE IGUAIS A SI PRÓPRIOS!


Milhões, muitos milhões derramados em "obras", por todos os cantos da Região, uns com os olhos focados nas inaugurações em vésperas de actos eleitorais e , outros, sedentos do maná proveniente dos impostos. Todos os meses é enorme a listagem de contratações públicas. Milhões, muitos milhões para alimentar a teia de pequenos e grandes interesses que me fazem trazer à colação Chico Buarque: "Meu Caro Amigo" (Vítor Costa): "Aqui na terra tão jogando futebol / Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll / Uns dias chove, noutros dias bate o sol / Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta (...)". Há cinco milhões para a "cultura do futebol profissional", mas nunca houve duzentos e cinquenta mil Euros para pagar mais de 900 OBRAS que perpetuarão a morte do Maestro. Milhões, muitos milhões dados a fundo perdido ou gastos em obras públicas de duvidoso interesse ou que tivessem sido reclamadas pelos cidadãos. Milhões, muitos milhões, em um permanente "anda a roda" para uns e, para outros, com "OBRA" realizada, dizem, o justo pagamento terá de aguardar por "cabimentação orçamental". E os anos passaram, a doença chegou e com ela um fim de vida na miséria.

Surgirão, agora, hipocritamente, os louvores, o minuto de silêncio e, não me admiro nada, a condecoração como alívio da má consciência. 
Acompanha-me o som do Hino da Região do Maestro João Vítor Costa e a letra do saudoso Professor Ornelas Teixeira. Paro nos versos: "(...) Por esse Mundo além / Madeira, honraremos tua História". Digo eu, qual honra e qual História quando, cá dentro, foram incapazes de honrar uma das suas mais ilustres figuras? 
Chocou-me e comoveu-me ler a declaração de Eugénio Perregil no Diário: o Maestro "vivia com imensas dificuldades (...) Ele era pobre, eu vi o frigorífico da casa todo vazio (...) em várias ocasiões paguei-lhe o almoço e o jantar". E hoje, no cemitério, os que permitiram que tal acontecesse, sem a mínima vergonha, cumprirão o número, desfilando com um ar condoído. Ninguém se sentirá culpado. A lógica sempre foi a de jogar para o lado ou atirar para cima as responsabilidades. Neste caso a de uma OBRA de 250 mil Euros, ter baixado salvo erro para 100 e cujo montante nunca ter sido pago. 
Em 2016, com a voz embargada, disse numa entrevista à RTP-Madeira:

"(...) eu não corro o perigo de ficar rico, mas corro o perigo de ter necessidades... e quem não as tem? É questão de fazer uma contratação, verbal ou por escrito, dizendo, nós vamos dar tanto e eu digo sim senhor. Quanto me dão por mês para viver desafogado? E o resto dou aos dois filhos que tenho (...) O Hino da Região da Madeira, os respectivos direitos de autor nunca me foram pagos (...)".

É revoltante, depois de tantas promessas oriundas do Governo e da Câmara do Funchal, passados tantos anos de insistentes pedidos para que uma instituição ficasse com o espólio, ter-se confirmado, por incúria, o vaticínio do Maestro: "corro o perigo de ter necessidades"Não há desculpa política para uma situação destas. Enquanto madeirense, sinto VERGONHA, pela insensibilidade cultural. Caro Maestro, parafraseando Buarque, esteja onde estiver, saiba que aqui na terra continuam a jogar futebol. Que descanse em PAZ, porque foi um Homem de paz. 
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

OS DEPUTADOS NA REPÚBLICA ESQUECERAM-SE DA SUA FUNÇÃO FISCALIZADORA


Há políticos que dão a entender que avaliam os outros tomando como exemplo os seus próprios comportamentos; e há políticos que não conseguem se libertar dos mesquinhos jogos partidários. O "chefe" manda e a decisão fica tomada. Pouco importa a competência porque, primeiro, está a cega obediência, depois, ou talvez em simultâneo, a guerrilha política de bastidores. Bem fez o Dr. Carlos Pereira renunciar à indigitação do seu nome para vogal da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos. Não deixa de ser curioso o facto da CReSAP, a entidade que assegura a "transparência, isenção, rigor e independência, as funções de recrutamento e seleção de candidatos para cargos de direção superior da Administração Pública e avalia o mérito dos candidatos a gestores públicos", ter confirmado, em todos os itens, o nome proposto pelo governo, após exaustiva análise curricular, porém, uma comissão de parlamentares da Assembleia da República entendeu que não. Isto é, trocado por miúdos: o Dr. Carlos Pereira é competente para desempenhar tais funções, mas alto lá, pertence a um partido! 


O mais caricato desta situação é que todas as entidades reguladoras estão sob o permanente escrutínio político, quer por parte da Assembleia da República quer pela comunicação social. Significa, portanto, que os parlamentares, ao darem parecer negativo à sua indigitação, duvidam ou declinam a sua própria responsabilidade fiscalizadora. Associa-se a isto um outro aspecto: se a responsabilidade pela nomeação parte do governo, seja ele qual for, passará pela cabeça de alguém que qualquer outro indigitado, sem filiação partidária, se não pautar a sua vida pelo rigor e honestidade, não cederá às alegadas e eventuais pressões do governo? Isto não é ingenuidade, é sim "partidarite" em estado avançado.
Há uma outra parte curiosa deste processo. Os mesmos, refiro-me ao PSD e ao CDS, que tiveram responsabilidades na anterior governação, que enxamearam as instituições públicas de muita gente afecta aos seus partidos, são os que hoje têm, perdoem-me a expressão, a lata de chumbar o nome do madeirense Carlos Pereira, apenas pelo facto de ser deputado pelo PS. Interessante. Não é preciso ir muito longe e pergunto, na Madeira, todo o aparelho político não foi, ao longo de anos, tomado de assalto pelo poder maioritário?
Conheço o Dr. Carlos Pereira, trabalhámos juntos e defendemos causas comuns, e não pelo facto de sermos amigos, sublinho, deixo aqui testemunhada a sua competência técnica, a rara inteligência, a rapidez de raciocínio sobre os mais diversos temas da economia e finanças, o seu sentido do rigor e a notável capacidade discursiva e de argumentação. Nunca o vi defender um assunto por razões meramente partidárias, mas assentes no estudo e na defesa do Povo. É o tipo de pessoa que define objectivos e parte. Só que isso, nesta sociedade e no actual enquadramento político paga-se. Eu diria que para ele nada na sua vida é fácil. Tem muitos olhares enviesados em cima. Espero vê-lo, um dia, secretário de Estado ou Ministro, quando, ao longo da minha vida, tenho visto tanto medíocre lá chegar.
Parabéns Amigo Carlos pela atitude que tomou.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

CAVACO SAI MUITO BEM DO LIVRO QUE ESCREVEU SOBRE SI


Ferreira Fernandes, 
in Diário da Notícias, 23/10/2018

A partir de cinquentão, qualquer pessoa sabe que as memórias recentes são menos fiáveis do que as antigas. Como os computadores, apagamos mais depressa a memória RAM, a de agorinha, do que a memória ROM, de longa duração. Infelizmente, Cavaco Silva preferiu escrever sobre seus recentíssimos tempos de Presidente e não os de acionista privilegiado do BPN. 

Caricatura-Cavaco-Silva

No segundo tomo de Quinta-Feira e Outros Dias, de Cavaco Silva, livro apresentado esta quarta-feira ao público, alguns episódios só têm três anos. 
Perdemos, pois, a possibilidade de saber mais sobre um mistério interessante e até hoje inexplicado, o do BPN, onde da antiga memória armazenada se poderia esperar uma sinceridade porque, enfim, o que lá vai, lá vai. Ganhámos, perdendo, o contar de acontecimentos tão demasiado frescos que leva qualquer um a pintá-los de forma gloriosa. Ou, porque um autor não foge à sua idiossincrasia, de forma mesquinha: pintar os outros com sobranceria. 
Assim, ficamos a saber que quando, em Belém, recebeu Passos Coelho, impedido de formar Governo, Cavaco disse ao ex-primeiro-ministro: "Tem boas razões para estar de consciência tranquila e sentir mesmo um certo orgulho pelo trabalho realizado." Leram? Consciência tranquila... Sentir mesmo um certo orgulho... Ficam explicados aqueles cantos de boca descaídos com que Passos Coelho partiu pela vida fora. Comedidos elogios destes fazem suspirar por um pontapé quando se é despedido. 

Partido o macambúzio, entrou António Costa, "um homem de sorriso fácil", decretou Cavaco. O quão fácil ficou explicado assim: "Um artista da arte de nunca dizer não." Reparem, na política comum, não fechar portas, a arte de nunca dizer não, é mais do que uma qualidade, é um ter de ser. Não fossem os leitores supor alguma simpatia, o memorialista acrescentou: "Um artista na arte..." Ganda artista me saíste, Toino, dir-se-ia num balcão do Bairro Alto. E ainda dizem que Cavaco é incapaz de ser coloquial. 

A lenda de que raramente teve dúvidas, frase que o próprio já duvidou que alguma vez tenha dito, fica definitivamente enterrada na Quinta-Feira e Outros Dias: por várias vezes, Cavaco diz ter duvidado da geringonça. Mas, posta ela em andamento, ele não se enganou, teve logo a certeza de que ela "completaria a legislatura." Ao contrário de Passos, que Cavaco diz que ele lhe disse que a geringonça não ia durar. 
Enfim, certezas (acertando, o narrador, errando, o outro) que são para se pegar com pinças: porque se Quinta-Feira e Outros Dias pode ser criticada por sair demasiado cedo, publicada a 24 de outubro de 2018, e a um ano das próximas eleições, é tardio adivinhar que o Governo chegará ao fim. Mas, está bem, saiba-se que Cavaco diz, em 2018, que em 2015 já ele sabia o que todos sabemos em 2018. 
A páginas tantas, Cavaco diz que António Costa, numa das primeiras reuniões deles depois das legislativas de 2015, lhe disse que queria "salvar o PS." E que ele, Cavaco, sobre isso, viu a coisa com desdém: para António Costa "ser primeiro-ministro era uma condição necessária para se salvar a si próprio como líder do PS." Na Quinta-Feira e Outros Dias conhece-se essa firme, venenosa e corajosa resposta do ex-Presidente da República. Se o leitor se apressar a comprar o livro amanhã, terá a oportunidade de conhecer essa resposta antes do primeiro-ministro. É que em 2015 Cavaco Silva só pensou a tal resposta, mas guardou-a para si. Talvez, gentilmente, para nos dar a primazia.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

"QUANDO SE DESCARTA UM PADRE"


Há uma palavra que me acompanha: solidariedade. O grito do Senhor Padre José Luis Rodrigues, por momentos, levou-me ao museu nacional de Oslo onde apreciei a obra do pintor norueguês Edvard Munch. Chamou-lhe "O Grito". Uma obra expressionista que testemunha a angústia do ser humano. O texto que li é também um sentido GRITO perante a ausência de solidariedade. No centro está o Padre Giselo Andrade, aquele que assumiu a paternidade de uma menina, hoje, "literalmente escorraçado por uma autoridade sem tino e sem bom senso". Vive de um "mísero salário que a Diocese lhe concede todos os meses" sem nenhuma "função eclesiástica digna como exige a sua condição de sacerdote da Igreja Católica". O GRITO vai mais longe e atinge os que o abandonaram e ostracizam, colocando a "autoridade máxima à frente do "bullying clerical" contra o padre Giselo para que fosse torrando em lume brando".

Sublinha o seu texto: "(...) o padre Giselo continua descartado, porque procriou, fez ver a luz a uma criança com os olhos da cor do céu. Com isso rebentou o ódio, a vingança e a inveja clerical, que são venenos terríveis dentro das hierarquias. Pois, fez um «pecado mortal» para a hipocrisia dominante da Igreja e da sociedade em geral, que soma séculos de abusos sexuais, prepotência, abuso de poder e o reincidente farisaísmo que impõe leis e mais leis para os outros cumprirem, ostracizando multidões de fiéis que tiveram que carregar fardos pesados impostos por aqueles que nem com a ponta do dedo lhe tocavam. Mas, certo é que o padre Giselo continuará de fora, descartado, porque o «bulling clerical» continua, até ver se aguenta e desiste da feliz dignidade com que assumiu os seus actos, quiçá também um dos gestos, entre outros com certeza, dos mais corajosos destes cinco séculos da história da Igreja da Madeira... É coisa pouca para uma grande parte, mas um passo enorme que devia fazer pensar toda a comunidade católica da Madeira, se tivéssemos uma Igreja iluminada pela luz do Evangelho e com maturidade suficiente para pensar sem preconceitos." 
Comungo, integralmente, das preocupações do Padre José Luis Rodrigues, do seu enorme sentido de SOLIDARIEDADE e da chamada de atenção para o interior de uma Igreja agarrada que está a preconceitos e a discursos bafientos que nada têm a ver com a Palavra. Afinal, questiono-me, que Bispo tem a Diocese do Funchal, incapaz de cumprir o amor solidário de Jesus? Que Bispo é este que apenas fala de "caridade" e de "fé" e passa ao largo dos verdadeiros problemas da sociedade? Que Bispo é este, sem estrutura mental, para ultrapassar entre outros casos, tanto a paternidade do Padre Giselo, como a vergonhosa suspensão ad divinis do Padre Martins Júnior? Que moral tem o Senhor Bispo para subir ao púlpito e pregar a bondade do Evangelho, quando tem uma prática contrária à Palavra? 
É mesmo para um sonoro GRITO. Parabéns Padre José Luís pelo exemplo de frontalidade, dignidade e SOLIDARIEDADE. Senhor Bispo, leia 50 vezes o grito do Padre José Luís.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

AGORA QUE SOUBERAM DEU-LHES PARA CHORAR


In Blog O Jumento, 
17/10/2018



Estávamos em Dezembro de 2015, para ser mais preciso era dia dois, uma quinta-feira. Mário Centeno, um ministro sem qualquer experiência política anterior, um doutorado em Harvard com uma longa carreira no Banco de Portugal, ia falar pela primeira vez na Assembleia da República. Um pobre diabo, hoje promovido a catedrático, que fez uma vida à custa da política e de um emprego dado por um padrinho político montou a encenação do rir até às lágrimas.

Tudo bem montado, vale a pena reler a notícia do Expresso (ver aqui) para vermos como alguns inúteis se fartaram de rir até às lágrimas, pensando estarem a gozar com um pacóvio sem experiência nas pulhices das jotas. Imagino que esses mesmos andem agora a chorar pelos campos pois se vivessem em Las Vegas estariam a esta hora a fazer queixas do Mário Centeno. Não sabiam na altura que o choro do riso iria dar num choro de vontade, como dizia a minha mãe quando achava que eu estava a fazer uma encenação.
O diabo não veio e o país teve quatro anos de estabilidade política, financeira e social, quatro anos sem o credo na boca, sem ter de aturar o Vítor Gaspar e fazer de conta que a Maria Luís era uma grande economista.
Aquele de quem choraram foi um dos poucos ministros das Finanças que aguentaram uma legislatura, foi o ministro das Finanças português com maior projeção internacional, foi o único economista português a liderar uma grande instituição internacional no domínio económico e escolhido pelos seus pares pelo mérito político e económico.
Mas, a esquerda portuguesa deve a Mário Centeno uma outra vitória moral bem importante: ao logo de mais de um século a direita portuguesa fez passar a ideia de que só a direita consegue equilibrar as contas públicas e que tal só é possível com algum autoritarismo. Não admira que alguns ministros das Finanças da direita tenham adotado uma “cara de pau”, sempre a imitar Salazar no elogio das origens humildes, como se a humildade ajudasse a credibilizar os tiques do autoritarismo.
Afinal é possível equilibrar o orçamento sem ser necessários recorrer à ditadura ou ao autoritarismo, sem adotar medidas inconstitucionais ou, como alguém sugeriu, sem suspender a democracia durante um par de meses. É possível fazê-lo e ao mesmo tempo promover a justiça social, implementar medidas de redistribuição do rendimento e em paz social. Não há memória de um OE sem ditadura ou sem conflitos sociais e este é um legado de Centeno. É possível governar à esquerda e promover uma gestão orçamental com mais responsabilidade e competência do que a direita.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

NOBEL MORRE NA MISÉRIA


por estatuadesal
Dieter Dellinger, 15/10/2018

Ledermann teve de vender a sua medalha do Prémio Nobel, adquirida por favor pela sua universidade por 765.000 dólares e foi com essa quantia que se manteve nos últimos dez anos de vida com despesas médicas gigantescas como são as americanas. Enfim, é o segundo Prémio Nobel da Física que morre nos EUA na miséria por via dos sistemas privados de saúde e reforma.

Aos 96 anos de idade morreu, no passado dia 3, Leon Lederman, um dos pais dos Neutrinos, nomeadamente do Myon-Neutrino e também um dos construtores da teoria das partículas elementares.

Ledermann era americano de origem russa e judaica, nascido em Manhattan depois dos pais terem fugido ao bolchevismo russo.
Foi Prémio Nobel em 1988 e morreu com demência senil e na miséria.
O seguro de doença não cobria já as despesas médicas, nem a estadia numa casa para pessoas com a sua doença. Por sua vez, a reforma privada como a de quase todos os americanos sofreu uma forte erosão por via da queda das taxas de juro e, talvez, com a falência de alguns bancos ou seguradoras de reformas..
Ledermann teve de vender a sua medalha do Prémio Nobel, adquirida por favor pela sua universidade por 765.000 dólares e foi com essa quantia que se manteve nos últimos dez anos de vida com despesas médicas gigantescas como são as americanas. Enfim, é o segundo Prémio Nobel da Física que morre nos EUA na miséria por via dos sistemas privados de saúde e reforma.

Saliente-se que isto é conhecido por se tratar de um cientista laureado com o Nobel, porque, ao mesmo tempo, morrem milhares ou milhões de americanos brilhantes ou apenas de classe média ou baixa na indigência porque as entidades privadas que tudo prometem pouco ou nada pagam quando é mesmo necessário e, por vezes, não existem mais quando se chega à idade da reforma.

Não devemos esquecer que o PSD e o CDS sempre lutaram pela chamada redução do Estado com a privatização total ou parcial da Segurança Social e do Serviço Nacional de Saúde.
Imagine-se que milhares de portugueses teriam entregue ao BES o equivalente aos descontos para a reforma. Como estariam agora? Da mesma maneira que os lesados que eram pessoas a quem a propaganda da direita fez não acreditar no Estado, ou julgar que este iria à falência, quando afinal foi o BES que faliu e já engoliu mais de 8 mil milhões de euros para entregar a um fundo carteirista americano.
Ainda há pouco tempo o porta voz para a economia de Rui Rio falava nessa "reforma estrutural" do Estado. Sempre que algum economista fala em "reforma" do Estado é a isso que se refere.
Hoje, temos um Estado com défice praticamente zero, apesar da dívida, que nos dá a garantia de que haverá dinheiro para as reformas de todos os portugueses e para o Serviço Nacional de Saúde.
Mas, há gente dita de esquerda que considera um défice de 0,2 ou 0,3% uma subserviência ao capitalismo quando é precisamente o contrário. O Estado Social não pode ser algo para aumentar eternamente a dívida porque chegaria a uma situação de incapacidade para pagar as reformas, saúde, escola pública e salários dos seus funcionários e os credores são fundos capitalistas.
Há que salientar claramente. O Estado Social tem dois grandes inimigos, um à direita que quer acabar com ele e outro à esquerda que quer despesas tais que significam o seu fim. Contra ambos tem o PS de defender a grande conquista da democracia que é o Estado Social.
A Segurança Social de Portugal tem amplas reservas e consegue aumentá-las todos os anos. O seu orçamento é quase independente e conhecidas as suas contas, não indo dinheiros das reformas para outros fins. Portugal não constrói bombas atómicas, como certos estados que pretendiam e pretendem ser muito sociais, e gastamos pouco em tropas e armas.
Portugal com uma contabilidade equilibrada poderá renacionalizar a ANA, a EDP e a REN, deixando de ser uma colónia de chineses e franceses. Para isso, gastaria menos do já meteu no Novo Banco entregue a larápios americanos.
A ANA foi vendida por três mil milhões de euros, uma ninharia que já embolsaram com os lucros e a EDP/REN não foi por muito mais. Alguém ganhou com estes negócios, mas a Joana não quis investigar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O ININTELIGÍVEL PRESIDENTE DO GOVERNO REGIONAL DA MADEIRA


No plano político, cada vez mais, qualquer personagem com responsabilidades, mesmo os menos bem preparados, quando falam, devem ter noção do ricochete das palavras. É básico. No essencial, devem questionar-se, que fragilidades apresento susceptíveis de ser vítima das palavras ditas. É sinal de vulnerabilidade política, não sei se por uma angústia acumulada devido à pressão, não ter noção do escrutínio que a todo o momento é feito. Em circunstância alguma, por exemplo, um político deve dizer que estamos "preparados" para o Leslie ou outro qualquer furacão, antes ser, apenas, porta-voz dos relatórios fornecidos pelos especialistas da protecção civil. Por mais que seja feito, basta um olhar atento para as imagens devastadoras, ninguém está "preparado" para a violência de um furacão mesmo que o seu grau seja dos mais baixos. Da mesma forma, um político com responsabilidades de governo, sob pena de cair no ridículo, a propósito da recente remodelação ministerial na República, sobre a Saúde, diga que o País estava em uma "situação insustentável". É um tiro que vai, bate e faz um ricochete de morte. 

Das duas, uma, ou se trata de palavreado insensato ou julga que as pessoas são parvas, ou, ainda, estão no tempo que o povo engolia tudo o que vinha dos senhores e dos vários púlpitos! Passaram-se mais de quarenta anos, a comunicação social tornou-se mais profissional, as redes sociais multiplicaram a informação que cai em catadupa nos suportes tecnológicos a uma velocidade estonteante, mas ainda há quem pense que se a estratégia de ontem resultou no plano político, ela continuará a proporcionar os resultados eleitorais que desejam. Infantilidade.
Deixo o Leslie, porque já passou sem deixar marcas preocupantes, e fixo-me no sistema de saúde que não nos larga da mão. A "situação insustentável", com o dedo acusador à República, corresponde, mais ou menos, ao "roto a rir-se do esfarrapado". Não está aqui em causa o que de muito bom se faz, cá e lá, na concretização do direito constitucional à saúde, não está em causa, muitas vezes, o trabalho notável de todos os seus agentes que, com escassos recursos, respondem de forma eficaz. Está em causa, sim, a história do cobertor, que se mostra sempre curto quando abafa o pescoço e destapa os pés ou vice-versa! E aí, independentemente, da inversão de prioridades que, historicamente, o governo regional tem como marca de governação e, ainda, ser bem diferente, as necessidades para dez milhões comparativamente a uma população de 250.000 pessoas, mandaria a prudência, o respeito e sobretudo o saber-se olhar ao espelho, que se há sectores onde o governo regional AUTÓNOMO deveria estar caladinho, um deles é, exactamente, o da saúde. Em termos organizacionais e de prioridades a Madeira não é exemplo. E tanto assim é que, lá, mudaram um ministro, aqui, em três anos, mudaram três vezes de titular da pasta da saúde. E apesar disso os problemas continuam. A história do novo hospital, de lamentáveis avanços e recuos, tem dezoito anos e não é a questão central. Há muito e muito mais no interior do sistema. Ainda hoje o DN-Madeira dá conta que a "farmácia do hospital regista 37% da lista de artigos/medicamentos em falta. Isto é, faltam cerca de 900 em um universo de que se aproxima dos 2.500". Esta é uma fragilidade, quando se observa uma vaga gigantesca de subsídios e de obras em claro desrespeito pelas prioridades estruturais. E lá é que a "situação é insustentável". Sinceramente, já não há pachorra para suportar este tipo de política, como se o povo fosse uma cambada de mentecaptos. É o dizer mal por dizer, sem olhar às consequências das palavras.
Ilustração: DN-Madeira - 1ª página da edição de hoje.

sábado, 13 de outubro de 2018

O ESCRITOR CAVACO E A AZIA DO SALAZARISTA


Por estatuadesal
Carlos Esperança, 12/10/2018

Quando um país elege democraticamente um homem destes, durante dez anos como PM e igual tempo como PR, compreendemos melhor fenómenos assustadores que ameaçam o mundo.


Sem a grandeza ética dos seus antecessores democráticos, nem a inteligência, cultura e sentido de Estado do seu sucessor, continua o mesquinho gestor de rancores e vaidades pessoais, através da prosa que publica e que alguém lhe corrige, para evitar os erros de ortografia e de sintaxe em que é reincidente.
A imaginação que lhe sobrou na acumulação de reformas, na intriga contra um PM, na justificação da ficha da Pide ou na ocultação das ligações à ditadura, sobra-lhe agora na raiva que destila, nos ódios que cultiva e nas intrigas que tece no tempo que lhe sobra da gestão do gordo património, onde pairam sombras, desde as ações da SLN à aquisição da Gaivota Azul.
É surpreendente que o homem que se esqueceu do notário onde fez o melhor negócio da vida, dos que os portugueses sabem (foi preciso a revelação da Visão), se recorde agora das quintas-feiras que evoca para a intriga e a vingança.
Segundo a comunicação social, Cavaco Silva, o único salazarista com o grande colar da Ordem da Liberdade, vai publicar o livro “Quinta-feira e Outros dias – da Coligação à «Geringonça»”, a segunda parte das suas memórias de PR, a lançar no próximo dia 24.
A propaganda antecipa o rol de acusações do escritor que tropeça na ortografia do verbo haver, na conjugação do verbo fazer e no plural da palavra ‘cidadão’, que António Costa lhe disse que “entendimentos” do PS “com o PCP e o BE seriam impossíveis”, além de críticas à “infantilidade” de Paulo Portas.
Na impossibilidade de saber se mente ou não, o seu currículo não é abonatório, há um aspeto que revela a baixeza ética e os sentimentos antidemocráticos do salazarista. A ser verdade que o ora PM lhe disse que “entendimentos” do PS “com o PCP e o BE seriam impossíveis”, era sua obrigação adverti-lo para o desrespeito por esses partidos e a leviandade com que avançava a impossibilidade de entendimento que um democrata tinha obrigação de tentar.
Só um salazarista tentaria impedir os acordos parlamentares que aprovaram o excelente governo de António Costa, depois da patética tentativa de impor um governo PSD/CDS recusado pela AR e com um vice-PM que ora acusa de infantilidade e com quem, não podendo competir na inteligência e cultura, só pode disputar o campeonato da maldade e dissimulação.
Devia explicar aquele ato pífio de dar posse a Maria Luís no governo irrevogavelmente demissionário, sem membros do CDS, numa farsa que a falta de espinha dorsal do CDS se rendeu a um aumento do poder no aparelho de Estado.
Cavaco não percebe que ao afirmar que “José Sócrates e António José Seguro, haviam sido sempre categóricos na afirmação de que o PCP e o BE eram partidos em quem não se podia confiar”, só revela a indigência democrática e, eventualmente, a facilidade com que é capaz de mentir. A difamação grotesca, se fosse credível, exigiria dos visados um veemente repúdio.
Quando um país elege democraticamente um homem destes, durante dez anos como PM e igual tempo como PR, compreendemos melhor fenómenos assustadores que ameaçam o mundo.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

DA AUSÊNCIA DE EXEMPLAR RIGOR


É meu entendimento que todo o País não deve vulgarizar o reconhecimento público. E assim, desde as Ordens Honoríficas do Estado ao Panteão Nacional, passando por esculturas, outros títulos honoríficos, patronos de serviços públicos até à própria toponímia, a todos os níveis, nacional, regional e local, os critérios devem ser extremamente rigorosos, de tal forma que, com patamares distintos de reconhecimento, não suscite qualquer dúvida ao comum dos cidadãos. Basta percorrer centros de saúde, escolas, ruas ou cerimónias do dia disto e daquilo, para que nos confrontemos com reconhecimentos públicos com um rasto de muitas dúvidas sobre as personagens glorificadas para a História. 


Rui Veloso cantou a notável e apropriada "Valsinha das Medalhas" a qual, muito embora específica de um determinado dia, pode aplicar-se a múltiplas situações: "Quem és tu, de onde vens? Conta-nos lá os teus feitos! Que eu nunca vi pátria assim... Pequena e com tantos peitos" (...) "Encosta o teu peito ao meu. Sente a comoção e chora. Ergue o olhar para o céu. Que a gente não se vai embora". É esta vulgarização que merece reparo, porque, mesmo ao lado, a memória pode fazer lembrar aquele nome das letras, das artes, da ciência, o defensor de causas humanitárias, enfim, pessoas que pela sua integridade, altruísmo, idoneidade, tolerância, princípios e valores democráticos e, obviamente, reputação social, sejam merecedoras de uma distinção entre os demais cidadãos, aliás, no quadro da perpetuação do exemplo. Quando se generaliza, banaliza-se! Deixa de ter valor. Quando se atribui uma alta distinção, valorizando um percurso, seja ele qual for, ignorando, por exemplo, os atropelos, as ofensas graves a pessoas e instituições, a falta de transparência, os silêncios ou a perseguição, é caso para cantar "conta-nos lá os teus feitos". O mérito e o exemplo não se medem por toneladas de cimento ou de asfalto, intencionalmente ignorando que, "quando há dinheiro empreiteiros não faltam". O merecimento deve trazer no seu bojo a possibilidade de um ensinamento para os outros e para o futuro. E isso implica rigorosos parâmetros de comparação entre o correto e o incorrecto, isto é, um balanço profundo e sensato à figura a distinguir. 
Ora, o que tenho vindo a constatar, desde há muito, é exactamente a ausência de critérios exigentes e inflexíveis, fazendo assim emergir, bastas vezes, razões, permitam-me uma mera analogia tecnológica, de "banda larga", cuja amplitude vai desde a amizade pessoal até aos que evidenciam um toque de natureza partidária. Por vezes, fica-me a sensação de uma troca de galhardetes, ao  jeito de deste-me algo, agora sou eu que retribuo. É mau para o prestígio das instituições quando entram por esses espaços menores. Alguns, conclui-se, mais tarde, que se tratou de um logro. São tantos os casos.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

DESELEGÂNCIAS


Por razões várias atravesso uma fase que prefiro não saber do que juntar mais uma. O que, por aquilo que sou, se torna quase impossível. Acabo por passar os olhos no DN onde li as declarações do presidente da Assembleia Legislativa da Madeira e as do presidente da Câmara Municipal de Câmara de Lobos, isto por ocasião do Dia do Concelho. Se "um disse mata, outro disse esfola". Ambos de uma deselegância muito perturbadora. Vou por partes. Primeiro, deveria o Senhor presidente do primeiro órgão de governo próprio (ALRAM), manter o distanciamento da política de trazer por casa, eu diria, a conversa de café, colocando-se em um patamar de exemplar elegância. 


Uma coisa é ser contrário à existência (política) de um Representante da República, outra, é desferir um ataque a uma figura com quem tem de conviver no dia-a-dia por força das funções que desempenha. Li, na edição de hoje entre outros mimos, que "criticou os autarcas que "dão palco" ao Represente da República". Ora bem, já escrevi diversas vezes, que sou contra a figura Constitucional de Representante da República, antes Ministro da República. A Madeira Autónoma não precisa, se esse é o caso, de olhos e ouvidos de alguém de fora, e se a justificação radica na verificação da legislação produzida, o Gabinete Jurídico do Senhor Presidente da República bem poderia desempenhar tal tarefa, à semelhança dos diplomas oriundos da Assembleia da República. Portanto, há canais próprios para resolver esta situação, que passa pela necessidade de uma revisão Constitucional. Em Câmara de Lobos não era, certamente, o "palco" para ataques de natureza partidária. Esta a primeira deselegância. Seguir-se-á, dentro de dois meses e tal, a fase da hipocrisia política: a apresentação, por parte do presidente da Assembleia, de cumprimentos protocolares de "Boas Festas" ao Representante da República. São aspectos diferentes? Não, não são! Não concebo que quem ataca a seguir dê um abraço. Foi a brincar que eu disse aquilo, Senhor Representante!!!
Quanto ao Senhor presidente da Câmara, regressou com o velhíssimo e desactualizado discurso de contra Lisboa, marchar, marchar: "sabemos como lidar com o Terreiro do Paço, porque temos o Terreiro da Luta", vangloriando-se pelo facto da Mesa de Honra ser composta apenas por "legítimos representantes democraticamente eleitos e não nomeados". Nova deselegância, face a um ataque, no mesmo sentido, à figura do Representante da República. O trocadilho (paranomásia) relativamente aos "terreiros" já não digo que é de café, mas talvez entre uma poncha e outra! Não é o sítio adequado, porque se trata de uma cerimónia dita solene. O que o Senhor presidente da Câmara se esqueceu de justificar, já que falou de "legítimos representantes democraticamente eleitos" foi o facto desses representantes (CDS/PP e PS) não terem tido o direito democrático à palavra no dia do seu concelho! Nova deselegância. Há pessoas que não aprendem.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

TRÊS GRANDES FERIDAS CONTEMPORÂNEAS


Um artigo 
do Padre Doutor Anselmo Borges*
Diário de Notícias. 28 de Setembro de 2018

Devo este título e alguma inspiração para esta crónica a J. M. Rodríguez Olaizola, no seu livro Bailar con la Soledad, já aqui citado na semana passada. Quais são as três feridas?


Padre Doutor Anselmo Borges*
1. A do amor. O que é que todos procuramos? A felicidade, e elemento constitutivo da felicidade é o amor, um amor sólido, estável e fiel. Mas isso hoje está como se sabe: na sociedade líquida, também o amor é líquido, para ir a Z. Bauman. Só para dar o exemplo do amor conjugal: Portugal é o país da Europa com mais divórcios, 70 por cento dos casamentos terminam em divórcio. Aí está G. Lipovetsky, em Da Leveza: "Publicidade, proliferação de formas de empregar o tempo livre, animações, jogos, modas: todo o nosso mundo quotidiano vibra com cantos à distracção, aos prazeres do corpo e dos sentidos, à ligeireza de viver. Com o culto do bem-estar, da diversão, da felicidade aqui e agora, triunfa um ideal de vida ligeiro, hedonista e lúdico."
Então, a contradição é esta: num tempo de incerteza, do zapping, do provisório, do usar e deitar fora até nas relações humanas, o amor sólido e fiel, inabalável, deveria ser a pedra angular da vida, e é isso que se procura idealmente, mas, ao mesmo tempo, pretende-se viver numa união sem compromisso, na abertura ao consumo do "poliamor", numa liberdade à deriva, incapaz de sacrificar-se pelo que mais vale. E lá está outra vez Z. Bauman, em Amor Líquido: "Automóveis, computadores ou telefones celulares em bom estado e que funcionam relativamente bem vão engrossar o monte de resíduos, com pouco ou nenhum escrúpulo, no momento em que 'versões novas e melhoradas' aparecem no mercado. Há alguma razão para que as relações de casal sejam uma excepção à regra?"

Mas a liberdade sem vínculos e sem enraizamento é um fantasma. Byung-Chul Han, no seu livro admirável, O Aroma do Tempo, mostra-o, inclusive a partir do étimo, no alemão: a raiz indogermânica fri, donde derivam frei (livre), Friede (paz) e Freund (amigo), significa amar. "Assim, originariamente, 'livre' significava 'pertencente aos amigos ou aos amantes'. Sentimo-nos livres numa relação de amor e amizade. O compromisso, e não a ausência dele, é que nos faz livres."

Na falta de um amor comprometido e estável, é-se invadido pela desconfiança em relação a si próprio (o que é que eu valho e para quem e o que é que eu sou?) e pelo medo e a insegurança face ao futuro instável. E pela solidão, como bem viu o Sínodo sobre a Família: "Uma das maiores pobrezas da cultura actual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas e da fragilidade das relações."
2. Na sociedade líquida, a morte é tabu, tabu que, retroactivamente, impulsiona a sociedade líquida, num reforço mútuo. Da morte, que viria desarranjar a lógica da euforia do consumo, do hedonismo e da leveza do viver, pura e simplesmente não se fala. Então, o essencial - o metafísico, a ética, a existência enquanto texto com sentido - cai inevitavelmente no esquecimento. De facto, sem a consciência do limite que a morte impõe, ficam apenas instantes que se dissolvem na fugacidade vazia do tempo. Afinal, é com a consciência da morte que se é convocado para o que verdadeiramente vale, como bem viu M. Heidegger: face à morte, aparece em todo o seu vigor a distinção entre a existência autêntica e a existência inautêntica, entre o que verdadeiramente vale e o que realmente não vale e a urgência de construir uma existência com significado para lá da voragem do tempo. Confessava-me recentemente um colega e amigo, que sofreu um AVC: "Anselmo, desde então tudo ficou com outra perspectiva, num outro horizonte, e tanta coisa por que me batia denodadamente passou a um plano secundário e há outras prioridades e outra força e intensidade no viver do essencial." Sem perder a alegria funda do fulgor do milagre de existir. O pensamento sadio da morte atira-nos para a urgência de viver agora, a cada momento, na intensidade, sem adiar, porque é aqui e agora que se vive.
De repente, a sabedoria. Que confirmo também com uma experiência que no Natal de 2015 se quis fazer sobre percepções, prioridades e valores e de que Rodríguez Olaizola se faz eco. Foi-se perguntando a um conjunto de jovens madrilenos, um a um, que presentes pensavam dar nesse Natal a uma pessoa muito significativa (em princípio, seriam os pais). E as respostas surgiram alegres, com alguma originalidade. Depois de exporem as suas intenções, eram confrontados com outra pergunta: e se soubesses que é o último Natal que vais celebrar com essa pessoa?, se soubesses que ela vai morrer? Aí, de repente, ficaram perplexos, as palavras começaram a falhar e foram surgindo respostas com outro cuidado, emoção, intensidade. A perspectiva agora era outra e o horizonte do fim "enchia de profundidade o presente. E os presentes escolhidos nesse novo cenário ficaram carregados de sentido, significado e ternura".

3. Face à morte, ergue-se, inevitavelmente, lá do mais fundo de nós, a pergunta pelo sentido, o sentido último. Porque, como disse recentemente, numa entrevista ao Expresso, conduzida por Luciana Leiderfarb, o famoso patologista Sobrinho Simões, depois de ter sofrido um AVC e perceber que, na existência, está na fase da descida, a sua grande experiência foi que "as explicações biológicas fazem sentido para muita coisa, mas não para explicar quem sou". E a pergunta, in-finita, é: Para quê? "Para quê".

Essa pergunta leva necessariamente consigo a pergunta por Deus. Mas hoje essa pergunta está obnubilada e a mim, mais do que o ateísmo, o que me preocupa é a indiferença, implicada, também ela, na sociedade líquida.
Aqui, encontramos Nietzsche. Matámos Deus ou constatamos que Deus morreu. Há um júbilo perante o "acto mais grandioso da história", que foi essa morte. Mas, ao mesmo tempo, Nietzsche apercebe-se de que esse júbilo é atravessado por perguntas terríveis e trágicas: "Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima e um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?"
4. Deus desapareceu do nosso mundo? Não; Ele está presente pela sua ausência insuportável, que leva à total desorientação, como anunciam estas perguntas proféticas de Nietzsche. Num tempo em que, como se lê num verso do poeta galego Ramón Cabanillas, parece que avançamos "com o cadáver da esperança às costas".

*Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia.