terça-feira, 22 de janeiro de 2019

URGE CONTAR A VERDADEIRA HISTÓRIA


Vivemos um tempo de desconfiança e de alguma desesperança. Existe, tenho para mim, uma aparente paz social, talvez, melhor dizendo, onde tudo parece funcionar, apesar dos gritos políticos audíveis por aqui e por ali. O povo anda desconfiado da azáfama que se adivinha por becos e travessas, de promessas que o vento leva, uns que não querem deixar os peitos que alimentaram tantos interesses e bocas, outros que, dizem, para lá se dirigem. Mas não é esse rodopio que aqui me traz. É a História que me fascina.


A verdadeira, aquela que está por se fazer. Não a História dos 600 anos, investigada por quem, de forma séria, a essa área do conhecimento se dedica. Não a História dos 600 anos de alegadas dívidas da Monarquia e da República que, sublinham, constituiu um roubo à Madeira, tratando este espaço por "colónia" e ilha adjacente. Interessa-me muito pouco esses estudos, alguns de oportunidade política convergente com a ideia do "inimigo", de todas as cores, que tem habitado o Terreiro do Paço. Estou mais inclinado em conhecer a História recente, aquela que eu vivi, a História oculta que resulta de um gigantesco labirinto, construído, paulatinamente, por gente de smoking vestido, bem falante em cima dos múltiplos palcos. A História onde todos se conhecem e que vivem de acordo com um código oculto, onde todos sabem e dominam o comportamento esperado. A História dos bastidores concursais, ao jeito de pataca a mim, pataca a ti, dividindo o queijo como querem e entendem. A História das obras que, em percentagem, alimentaram os fundos partidários, através de quem as adjudicou. A História da formação de grupos de interesse pressionante, dos que estando, não estão. A História dos "bons telefones" que cruzam gabinetes distintos, decidem e tentam colocar em sentido desde jornalistas livres a cidadãos de coluna erecta. A História de como passar de falido a rico ou riquíssimo em meia-dúzia de anos, sem rasgos de criatividade e risco. A História de como manter 30% de pobres. A História das razões substantivas (adivinho-as) de 65% da população apenas possuir o 3º ciclo do ensino básico. A História dos actos corruptos de natureza tentacular. A História das facturas escondidas e não condenadas. A História sobre os porquês das obras não prioritárias. A História das perseguições subtis, atirando para a margem quem pie de forma "inconveniente". A História dos bastidores da Justiça. A História da compra das consciências e do medo que coarcta o pensamento livre e fere a democracia. A História das cedências e das contrapartidas. A História da Igreja Católica submissa e que jurou fidelidade aos senhores tidos por benfeitores. A História das atitudes monopolistas que agravam a vida da comunidade insulana. A História, enfim, aquela História que leve a perceber a estrutura que conduziu a doze governos de maioria absolutíssima.
Deixo aqui, ao correr do pensamento, alguns itens de um extenso índice para uma obra de investigação que conduzirá, estou certo, a várias edições e tradução para outras línguas. Uma História narrada, sei lá, em romance, que ligue pessoas a factos e da qual resulte os contornos mais evidentes da política alapada. Devorarei esse livro sem necessitar de uma insónia! Se essa obra já estivesse disponível e fosse eu, ainda, docente, com responsabilidades de direcção de um estabelecimento de aprendizagem, torná-la-ia de leitura obrigatória, enquanto instrumento de capacitação de uma cidadania activa, livre, esclarecedora, actuante e formativa de uma nova e saudável vida, vivência e convivência democráticas. O problema é que essa obra jamais será dada à estampa, porque as pontas soltas seriam muitas e, talvez, entupissem os Tribunais! Penso que devo esperar sentado.  
Ilustração: Google Imagens.

Texto publicado no blogue 
www.gnose.eu

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

COMO É POSSÍVEL?


Ainda estou em choque com as imagens que a televisão apresentou. Protagonista: o Professor Doutor, o Filósofo e Catedrático Manuel Maria Carrilho. Com a filha ao colo, sobe umas escadas, bate à porta e o resto dispenso de narrar em pormenor. Certamente que os leitores acompanharam a tristeza dos comportamentos traduzidos em imagens. Como é possível? Como é possível, um homem com 68 anos, Professor, ex-Ministro da Cultura, autor de variadíssimas obras, "Medalha Picasso-Miró, da UNESCO (1998), o European Archaeological Heritage Prize, da Associação Europeia de Arqueólogos (1999), a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Civil de Espanha, pelo Rei Juan Carlos de Espanha (1996), a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, pelo Presidente da República Federativa do Brasil Fernando Henriques Cardoso (21 de Maio de 1999) e a Légion d’Honneur, pelo Presidente francês Jacques Chirac, que lhe atribui o mais elevado grau que se pode conceder a estrangeiros que não sejam chefes de Estado: o grau de “Grand Officier", como é possível, repito, mostrar ao Mundo o lado oculto da sua personalidade! 

Os livros, "o amor à sabedoria" - Filosofia, nada lhe deram 

Como é  possível um homem com este passado e com aquele reconhecimento público internacional ser condenado com vários anos de prisão (pena suspensa) acusado de uma miserável violência doméstica. Como é possível, entre outras, que tenha agredido um pedopsiquiatra, no intervalo de um julgamento, e que, por isso, tenha sido condenado a oito meses de prisão, substituída por multa. Se o Tribunal condena é que este é um sujeito "doente" de acordo com o conceito da OMS. Trate-se!
Não conheço o(s) processo(s), apenas guio-me pelas condenações e pelas imagens. Porém, mesmo considerando que lhe possam assistir algumas razões (!), nada justifica a violência entre dois seres e as cruas imagens que foram apresentadas em Tribunal. O casamento é um contrato. E os contratos, por vezes não correspondem ao interesse inicial. Ao amor inicial. Chegados aí, ao desencontro, de forma amadurecida, o casal têm o dever de se comportar com respeito, na defesa dos interesses que são comuns (os filhos, por exemplo), manter a amizade, naturalmente dividindo o adquirido sem mágoa de maior e a vida, essa, deve seguir, com absoluta sensatez! 


A vida não é uma linha recta, por vezes surgem situações de alguma tensão, obviamente, mas é aí que a adultez e o bom senso devem predominar. Questiono, complicar, para quê?

É difícil, é.  Existem múltiplas circunstâncias, algumas dramáticas, eu sei, porém, deve a cabecinha funcionar. E mor das vezes, não funciona, também por múltiplas razões. De resto, este é um tema vastíssimo que não pode nem deve ser equacionado em meia dúzia de linhas. Regresso, pois, ao princípio, a Manuel Maria Carrilho.
O problema é que pode um sujeito(a) ser até Catedrático, Ministro, repare o leitor, neste caso, da CULTURA, só que isso não basta(ou) para resolver um problema de formação de base. De carácter. Essa cultura aprende-se e interioriza-se, o que evita quadros litigiosos. Comportar-se de forma ofensiva e provocadora, colocar os filhos no meio das disputas, ao invés de os educar para a liberdade e para responsabilidade, utilizando, até, as situações para que elas sejam pedagógicas relativamente ao futuro (os filhos, mais tarde, poderão passar por um qualquer desencontro), é que é absolutamente lamentável.
Como é possível?
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

40 ANOS DE EXPERIÊNCIA OU UMA EXPERIÊNCIA REPETIDA 40 VEZES?


Dou sempre as devidas reservas quando leio qualquer coisa que coloca em causa, de forma muito contundente, este ou aquele político. Normalmente releio porque, nas entrelinhas, descubro, mor das vezes, algumas pontas que me levam a retirar conclusões, mesmo que apriorísticas. Porém, quando assisto, publicamente, a expressivas manifestações de desagrado na sequência de atitudes políticas, quando, subtraindo alguns casos que, de imediato, não atribuo qualquer relevância, então aí o quadro muda de figura. 


Diz a sabedoria popular que "onde há fumo, existe fogo", daí que, por mais que tentem disfarçar, parece-me óbvio que a conclusão só pode tender, primeiro, para a dúvida, depois, no cruzamento dos dados, para a certeza que o fogo está lá.
Não escrevo sobre sectores que não domino. Para escrever sobre um tema, qualquer pessoa deve fazer "ab initio" um sério esforço de estudo de compreensão das múltiplas faces que o tema pode apresentar. Se assim não for corre-se o risco da superficialidade, de tomar "tomar a nuvem por Juno". E deveria ser assim no exercício da política, porém, o que vejo, não são todos os casos, claro, são pessoas a interpretar papéis para os quais demonstram muitas fragilidades. Há declarações tão infantis, tão desajeitadas, com tanta ausência de seriedade e coerência técnica e até científica que, a quem as assiste com atenção, acaba por ficar incrédulo. Como é possível? Não chegam a ser generalidades, mas banalidades ditas com olhos de cima para baixo.
Um dia, já tem muitos e muitos anos, no decorrer de uma aula, a propósito da necessidade de estudar os problemas, um professor olhou-nos e disse: "a frase não é minha, mas é verdade que há pessoas que dizem boca-cheia que têm 40 anos de experiência, porém, se analisarmos, acabam por ter uma experiência repetida 40 vezes".
O problema é que há jovens que se fazem ao caminho repetindo os erros daqueles que, convencidos estão, de uma "larga experiência". Em linguagem informática: vai dar erro.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

"ASNEIRAS" PRIMEIRO, DEVE-SE OLHAR PARA OS TELHADOS DE VIDRO!


FACTO

"A Secretária Regional do Ambiente e Recursos Naturais, Susana Prada, entregou, hoje, (ontem) ao Procurador do Ministério Público uma nova queixa-crime contra o Presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz, Filipe Sousa. Através de um comunicado de imprensa referiu que em causa está a afirmação do edil, no dia 10 deste mês: “A Secretária do Ambiente sempre que abre a boca só diz asneiras”, em resposta ao facto de a Secretária Regional, como é sua obrigação, face à escassez deste recurso essencial (água) à nossa população e à manutenção de actividade agrícola e industrial, ter uma vez mais alertado para a perda de água em baixa, nomeadamente, no concelho de Santa Cruz, que atinge os 70% daquela que é distribuída em alta pela ARM, quando o razoável seria apenas 40% (...). Fonte: DN-Madeira

COMENTÁRIO

A secretária disse, ainda, que como “na política não pode valer tudo”, como esta é uma “afirmação infundada, descabida, maldosa e proferida de forma inteiramente gratuita, que ultrapassa, largamente, os limites que uma intervenção pública pode conter” (...) pelo que, viu o seu “bom-nome, dignidade e honorabilidade atingidos". Interessante!
Tinha a Senhora secretária 10 aninhos quando se deu o 25 de Abril. Tinha 12 quando o PSD-M começou a liderar, de forma absoluta até aos dias hoje, o governo da Madeira. Portanto, é uma figura que, conhece o passado de ofensas, essas sim, GROTESCAS, aos eleitos da oposição, desde presidentes de Junta de Freguesia, Câmaras, Assembleia Regional, aos investigadores, aos professores universitários, membros das várias associações ambientais, instituições militares e até, primeiros-ministros e Presidentes da República. No actual grupo parlamentar do partido do governo, basta ter em atenção a extensão das ofensas ditas cara-a-cara durante este mandato. Todos levam pela medida grande como soe dizer-se. Pacientemente, a esmagadora maioria dos ofendidos foi tolerante e deixou passar em claro. Não foi a correr ao Ministério Público. Mas outros (governantes) foram visados na Justiça porque, no entender de alguns, foram ofendidos.
Dizer "asneiras" pode ter como significado "desprovido de sentido, gafe ou dizer algo sem refletir". Mesmo assim a secretária sentiu o seu bom-nome colocado em causa!
É verdade que “na política não pode valer tudo”. A Senhora secretária deveria, por isso, ter um felino olhar para dentro e não apenas para fora. Contabilize todas as grosserias ditas, por exemplo, no areal do Porto Santo, aquando da designada "universidade de verão" tendo ao comando um "reitor" implacável. As tais "asneiras", entre tremoços, cerveja e petiscos, arrepiavam os mais insensíveis.
Quer um conselho, senhora secretária, eu que já tinha passado a adolescência quando nasceu, faça o seu trabalho conforme pode ou sabe até ao final do mandato, e deixe as "asneiras" de lado. Quem as não comete? Eu já cometi muitas e a Senhora, pelo que tenho lido, tem cometido várias. Só não as comento porque a sua "não é a minha praia". Cada um no seu galho! Mas sempre adianto uma coisita que me causa espanto: existindo perdas de água significativas em toda a Região, ao longo de 40 anos, não houve capacidade para o governo, interligado com os municípios (durante anos o PSD teve maioria absoluta nas autarquias) investir, resolver ou atenuar este drama da água? Será que o problema das perdas de água só agora são notadas, sobretudo nos concelhos ganhos por outras forças partidárias? Esquisito? Não, apenas politiquice. 
Ilustração: DN-Madeira

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

As atrocidades de Bolsonaro aí estão


Por Estátua de Sal, 
11/01/2019

Recebi o pequeno vídeo abaixo, enviado por alguém do Brasil que é “amigo” deste blog no Facebook, pedindo que o divulgasse.
Pois é, a violência já está a propagar-se pelo Brasil e os mais desprotegidos são os que vão pagar com sangue e lágrimas a perversão mental de Bolsonaro e companhia (Ver aqui).
Os indígenas, os que ainda restam, serão exterminados, em nome da prosperidade do agro-negócio e dos interesses dos grandes fazendeiros que ajudaram a eleger a besta. Minorias, mulheres, gentes LGBT, socialistas e comunistas, para o psicopata eleito não são gente, são apenas escumalha para abater.
É este o “irmão” do nosso Presidente e é esta a sua política que, como se vê, já está em marcha. E não digo mais nada, vejam o vídeo. A voz e o rosto que ele mostra falam melhor que eu.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Deus deve estar zangado


por estatuadesal
Miguel Sousa Tavares, 
in Expresso, 05/01/2019


1 Custa-me muito, como cidadão do país de que Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente, olhar para a fotografia em que ele está em “fraternal confraternização” com o novo Presidente brasileiro, o Messias Bolsonaro. Sim, eu sei... já lá vou, adiante e em baixo. Mas não era preciso exagerar, não era preciso que o nosso Presidente viesse com a lengalenga do “tom fraternal” e do “encontro de irmãos”. Bolsonaro não é meu irmão, o Brasil é que é.

E se bem que ele represente legitimamente o Brasil, visto que foi eleito para tal, não é nesse Brasil que eu encontro o país irmão que me habituei a amar. Assim como o Brasil não reconheceria como país irmão um Portugal presidido por um Mário Machado. Este Presidente brasileiro é o homem que se tornou conhecido porque ao votar o impeachment da sua antecessora, Dilma Rousseff (por uma suposta irregularidade na execução orçamental, transformada pela oposição em crime constitucional), o fez em homenagem ao coronel da polícia política que na ditadura militar a havia torturado. Uma coisa é representar um país, outra coisa é merecer representá-lo. Não foi por acaso que, tirando o fascista húngaro Viktor Orbán, Marcelo foi o único chefe de Estado ou de Governo europeu presente em Brasília, na posse do Presidente do 7º país do mundo.
Não passou assim tanto tempo para que os portugueses não reconheçam um fascista quando o ouvem falar e quando observam os sinais e os rituais de que se rodeia. Honra lhe seja feita, Bolsonaro não disfarçou coisa alguma: no seu discurso de posse disse exactamente ao que vinha, as suas ameaças foram claras, o seu instinto de ódio e perseguição, em nome de Deus e da “cultura judaico-cristã”, foi tão óbvio que não há disfarce possível. Antes assim: mais tarde, num futuro que só por sorte não será tenebroso, ninguém poderá dizer que foi ao engano. 

Não é por ser evangélico, por repetir à exaustão o mantra de “Deus acima de todos”, que o fascismo se torna cristão. Pinochet, Franco, Salazar eram todos devotos católicos e também eles gostavam de invocar o nome de Deus em vão — que, como se sabe, é pecado que brada aos céus. Não é por esgrimir a fé contra as “ideologias” — isto é, contra as ideias, contra a liberdade de pensamento — que o programa político de Bolsonaro deixa de ter a sua própria e sinistra ideologia. E é por isso que o ministro da Educação, indicado directamente pelos evangélicos, tem como tarefa limpar “o lixo ideológico” das escolas e servir às criancinhas a fé evangélica — esse embuste religioso inventado à medida de um país com largas camadas da população semianalfabeta. 

Se isto não é todo um programa político e ideológico, em tudo semelhante ao das madraças islâmicas, é só porque há quem o não queira ver.
2 Quando, na manhã seguinte à posse do Presidente brasileiro, Marcelo se sentou com ele, já Bolsonaro dera andamento, na própria noite da posse, a um dos mais controversos projectos do seu Governo: começar aos poucos a roubar as terras indígenas na Amazónia para as entregar aos fazendeiros de gado e cereais. É parte da política dos três B, que é a essência do seu programa e a raiz da composição do seu Governo. O B da bíblia já acima falei; o B da bala virá já de seguida com a legalização da posse de armas, um grande negócio para os respectivos fabricantes e vendedores; e o B do boi é o projecto de ocupação da Amazónia, liderado pela ministra da Agricultura, saída da bancada dos “ruralistas”. Neste campo, a primeira medida foi a extinção na práctica da FUNAI, a Fundação Nacional do Índio, um organismo governamental que geria há 50 anos todas as terras que a Constituição brasileira reserva para ocupação exclusiva dos povos indígenas e todos os assuntos relativos a eles, passando a integrar as terras e as competências na alçada do Ministério da Agricultura; ou seja, entregando-os na boca do lobo. A justificação do Presidente é que a FUNAI e as ONG presentes no terreno não faziam mais do que roubar. Pois agora, que é de temer que os índios e o próprio ar que respiramos venham a ser roubados a sério, sinto o dever de testemunhar que foi graças à FUNAI que, 30 anos atrás, pude passar uma semana com uma equipa de filmagem da RTP entre uma tribo dos Caiapós, inclusive disponibilizando-nos uma avioneta, que nos depositou e foi buscar no meio da selva. E o tipo da FUNAI que lá estava a roubá-los era um jovem advogado de boas famílias do Rio de Janeiro, que ali vivia, longe de tudo o que era o seu mundo de origem e em condições terríveis, porque se tinha apaixonado pela causa dos índios da Amazónia. Suponho que doravante seja muito difícil, senão impossível, a qualquer jornalista estrangeiro viver a experiência incrível que eu vivi. E isso, temo também, é apenas parte de muitas outras coisas que se podem perder daqui para a frente e sem as quais o Brasil pode ser um país elogiado por Trump, por Orbán ou por Netanyahu. Mas não será o mesmo Brasil.
3 Pois, foi o povo que escolheu. E o povo é soberano — para o bem e para o mal, para meu gosto ou para meu desgosto. Porque a democracia é o único sistema político em que o cavalo de Tróia pode concorrer nas urnas e, eventualmente, destruí-la por dentro e com as suas armas. Mas, por favor, não me venham dizer que de um lado estão os intelectuais, os artistas e a imprensa e do outro lado está o povo. E, então, onde é que isso é motivo para celebrar? Onde é que isso deu bons resultados?
4 É discutível se Marcelo deveria ou não ter ido a Brasília. Consigo perceber e aceitar relutantemente os argumentos a favor da viagem. Relutantemente, mas enfim. O problema está no enfim: porque Marcelo, sem nunca o fazer ostensivamente, conduz uma agenda de visitas externas e convites internos que, mesmo se em concertação ou tacitamente aceite pelo Governo, é demasiado “à Marcelo”, demasiado frenética e às vezes talvez pouco ponderada. Não descansou enquanto não pendurou no cinto os ten big — do Papa a Trump, da Rainha de Inglaterra ao Presidente de França, muitas vezes dando a sensação de que, mais do que esperar por um convite, se fazia convidado. Mas, não contente com isso, ele vai e logo convida, pondo toda a gente — os portugueses, pelo menos — perante o facto consumado. Por isso, quando o vi avançar para Brasília, temi que mais uma vez ele não se contivesse sem convidar Bolsonaro para nos visitar oficialmente. Dito e feito: não resistiu. E, ao fazê-lo, é bem possível que o seu voluntarismo nos tenha arranjado um sarilho diplomático. De facto, há fundadas razões para prever que Bolsonaro seja mal recebido em Portugal, ao nível da rua e ao nível das instituições. Ao nível da rua porque, como disse, passou ainda pouco tempo para que uma parte substancial dos portugueses aceite tranquilamente ver um fascista desfilar com honras de Estado pelas ruas do país. Ao nível institucional porque basta pensar no que poderá suceder na Assembleia da República: se se achar mais prudente não o levar à Assembleia, será um insulto para ele; se for e sair maltratado, insulto será; se for ele a cancelar, vem a dar no mesmo, é o reconhecimento de que não é bem-vindo. Seja qual for o desfecho, não me parece que, como dizem os brasileiros, Bolsonaro seja homem de levar desaforo para casa. E o que acontecerá então às “fraternas” relações luso-brasileiras? Será que Marcelo pensou nisso ou achou que a sua popularidade tudo consegue ultrapassar?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

domingo, 6 de janeiro de 2019

Como branquear um nazi na TV(I)


Fernanda Câncio, 
in Diário de Notícias, 
05/01/2019

Quinta-feira foi um grande dia para Mário Machado. Esteve em dois programas da TVI, um de entretenimento - o de Manuel Luís Goucha - e outro de alegada informação (SOS24), e correu-lhe muito bem. Na página de Facebook do seu movimento, escrevia-se: "Objectivo n.º 1 - Atingido! "Chegar às pessoas!".

Porque, como deveria ser óbvio, o simples facto de convidar um nazi condenado a uma infinidade de anos de prisão - em 2012, as penas consecutivas somavam mais de 19, que resultaram num cúmulo jurídico de dez -, na sua maioria por crimes violentos, para o sofá de um programa de entretenimento, entre uma rubrica que ensina a fazer pastéis e outra em que se impinge vendas aos idosos, é uma forma de o embalar como pessoa "normal", aceitável, até "simpática". Machado sabe isso, claro. Dá para acreditar que Goucha e a TVI não saibam?
Aliás, como ninguém convida um nazi criminoso para um programa destes para dizer: "Caros telespectadores, aqui temos este grandessíssimo nazi criminoso para ficarem cheios de nojo dele e de nós por o termos trazido", Machado foi apresentado, no programa como no Facebook de Goucha - que depois apagou o post, supõe-se que pela enxurrada de críticas (a liberdade de expressão é muito boa, mas) -, como um mero "autor de declarações polémicas." Transformando um criminoso que professa uma ideologia violenta numa pessoa "controversa", que pode e deve, como aliás defende Goucha, ser "contraditada com argumentos": "Ele tem os dele e nós temos os nossos."
Por irresponsabilidade, soberba e ingenuidade, Goucha caiu na armadilha de achar que poderia fazer um brilharete "desmontando" Machado sem sequer saber quem tinha na frente.
Essa é a armadilha em que o apresentador, por irresponsabilidade, soberba e ingenuidade, caiu: a de achar que poderia fazer um brilharete "desmontando" Machado sem sequer saber quem tem na frente, e portanto induzindo os seus espectadores no mesmo erro. É certo que o convidado foi questionado sobre os seus crimes. Mas quem o fez, apresentando-se como "repórter", limitou-se a ouvi-lo afirmar que tinha sido preso preventivamente - e injustamente - em 1995 por suspeitas de envolvimento na morte do português negro Alcindo Monteiro, assassinado à pancada por um grupo de skinheads no 10 de Junho desse ano, e que fora solto em 1997 por ser "absolvido". Deixou-o queixar-se: "É um fardo que carrego, pesadíssimo para mim e a minha família."
Pobre Mário Machado. De facto não foi condenado por essa morte; foi condenado em 1997, pelo Supremo - no mesmo processo em que outros membros do grupo foram condenados pelo homicídio qualificado de Alcindo -, a dois anos e seis meses de prisão, em cúmulo jurídico, por fazer parte desse gangue que foi ao centro de Lisboa com o objetivo de agredir negros e pela autoria material de cinco dessas agressões, duas delas resultando em traumatismos cranianos. Estaria a espancar outros negros quando os amigos mataram Alcindo.
"Denota completa ausência de arrependimento", escreveu o tribunal em 1997. 23 anos depois, Machado apresenta-se como vítima da justiça e repete as mentiras de 1995: que se tratou de "um confronto entre nacionalistas e africanos", quando se provou que foram, armados de soqueiras, tacos e botas de ponta de aço, à caça de negros para agredir.
"Denota completa ausência de arrependimento", lê-se no acórdão. Ausência de arrependimento evidente 23 anos depois ao apresentar-se como vítima do "falhanço da nossa justiça" e repetir a mentira que o grupo apresentou desde o primeiro momento: que se tratou de "um confronto entre nacionalistas e africanos no Bairro Alto", quando, deu-se como provado, Machado e amigos iam armados com soqueiras, tacos e botas de ponta de aço à caça de negros para agredir, querendo "com essa atuação, integrada nos objetivos do grupo de skins, contribuir para a expulsão de Portugal daquele grupo racial."

Nada disso Goucha ou o seu "repórter" souberam ou quiseram evidenciar. Como os escritos racistas e nazis muito mais recentes de Machado, as fotos a fazer a saudação nazi, as tatuagens nazis, a informação sobre as suas condenações, a última das quais, a sete anos e dois meses por roubo, sequestro, coação e posse ilegal de arma, é de 2010 - esteve preso até 2017, quando saiu em condicional. É de resto tal a profusão e a gravidade das condenações que talvez nem o próprio se lembre de todas, quanto mais Goucha. Daí que tenha podido dar-se ao desplante de se dizer "a primeira pessoa em Portugal a ser presa dois anos e nove meses por um texto escrito na internet", coisa que, comentou, "no tempo de Salazar não aconteceu a ninguém" - referindo-se à condenação, em 2016, por uma carta escrita em 2014 a partir da prisão, na qual afiançava a uma mulher, que acusava de o ter "tramado", que se não lhe pagasse 30 mil euros iria ser morta "à frente dos teus filhos", e "encomendava" agressões a outras pessoas.

Após tal performance no programa de Goucha, Machado seguiu para o inominável SOS24, onde debitou a sua cartilha racista e odienta, falando de "africanos", "portugueses brancos" e "da nossa cultura" (para quem precise de um desenho: portugueses são brancos, os não brancos não são portugueses) e afirmando que "hoje em dia o racismo vem sobretudo dos negros contra os próprios brancos, (...) desses grupos de marginais que espalham o terror nas nossas cidades, que perseguem os nossos miúdos nas escolas, que violam as raparigas sempre que têm uma oportunidade, porque o fazem movidos por ódio racial". Também aí, ninguém lhe pediu que apresentasse provas do que disse, ninguém o contraditou com o mínimo de eficácia.
A TVI quis dar "respeitabilidade" e "seriedade" a um criminoso cúmplice de assassinos permitindo-lhe intoxicar milhões com as suas mentiras. E tanto que o conseguiu que está tudo, para variar, a falar de "liberdade de expressão". Parabéns a todos.
Não sei se Machado e a TVI violaram alguma lei; não sei se faz sentido "resolver" isto com queixas à ERC, alimentando a sua estratégia de vitimização. Não se trata, para mim, de o impedir de ser o nazi e o racista repelente que é e de defender essas "ideias" - direito que lhe reconheço, desde que sem apelar à violência (se bem que ser nazi sem apelar à violência seja difícil); sequer de querer impedir alguém de o entrevistar. Trata-se de tornar claro o que a TVI fez: branqueou uma carreira de duas décadas de crime (no programa de Goucha) para a seguir dar tempo de antena, no SOS24, ao discurso de ódio que enforma essas duas décadas de crimes. Quis dar "respeitabilidade" e "seriedade" a um criminoso cúmplice de assassinos permitindo-lhe intoxicar milhões com as suas mentiras. E tanto que o conseguiu que está tudo, para variar, a falar de "liberdade de expressão". Parabéns a todos.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Ano novo problemas velhos


Um artigo do Padre José Luis Rodrigues
Publicado no blogue "O Banquete da Palavra"

2018-2019

A canga é grande de ano para ano. 2017, carregou 2018, este vai enfiar o barrete a 2019 e este também não vai fugir à regra e não terá também tempo suficiente para não sobrecarregar 2020. É assim ano após ano. Estupidamente interminável. Porque nunca será mais foguete ou menos foguete de artifício que vir a pôr cobro a esta fatalidade.




Se eu fosse o ano novo não aceitava senão coisas novas. Porém, felizmente, eu não sou o ano novo e não tenho o poder da solução para todos os problemas. Mas garanto que se eu fosse o ano novo, o ano velho piava baixinho e não me entregaria a carga de problemas velhos, que ele não encontrou tempo e vontade para solucionar.
Para muita boa gente o ainda saudoso Santo Papa João Paulo II, dizia o seguinte, provavelmente, num daqueles momentos de boa disposição, que também o caraterizava: «a estupidez também é um presente de Deus, mas não se pode abusar». Este prisma, que nos inspira sobremaneira, podemos aferir que muitos dos problemas derivam precisamente do abuso na prática da estupidez. Vejamos então…

- A guerra e todo o género de violências físicas e psicológicas que comandam o nosso quotidiano são estupidez (falo das guerras grandes feitas entre os estados, que derivam do negócio das armas que deliciam os capitalistas e os governantes do mundo inteiro, mas também falo daquela violência quotidiana das nossas casas, por exemplo, a disparatada e muito estúpida violência doméstica).
- As desigualdades ou a falta de equidade neste mundo é uma crua estupidez que alimenta o egoísmo e a maldade humana.
- A destruição do nosso serviço de saúde é o máximo da estupidez quando sabemos à partida que todos mais tarde ou mais cedo necessitarão de cuidados de saúde. A politiquice que o norteia também nos envergonha e o muito malabarismo para justifica o injustificável não nos ludibria.
- A irresponsabilidade dos governos que nós temos são a face visível da estupidez quando abusada, porque governam em função de interesses mesquinhos de alguns grupos económicos ou amigos do partido a que pertencem, mesmo que isso hipoteque a vida de toda a sociedade e das gerações vindouras. E a estupidez é tanta que não olha à destruição da «nossa casa comum», a nossa «mãe terra». Mais ainda quando tudo isso implica altos custos para o erário público, sobrecarregando todos os cidadãos com impostos que levam ao sofrimento à morte.


- A estupidez é ainda desmedida perante a bênção dos poderes que se acasalam pornograficamente para conseguirem os seus intentos mesquinhos. Para isso não falta água benta para lavar as vergonhosas «uniões de fato», que a este nível os poderes justificam na troca de favores mútuos. Resta a caridade que alimenta os pobres ainda a serem mais pobres ou então dependentes do beija mão senhorial desta sociedade obcecada por mordomias exclusivamente para alguns, aqueles que tiveram mais certo.
- A fome pelos tachos agudiza-se ano novo adentro. Um problema velho, mas que o famigerado ano de 2019, sobrecarregará devido à abundância de eleições. Já vemos a estupidez a marcar passo em função desse eldorado do emprego para os incompetentes, os lambe botas do costume que até venderão a alma se para tal for necessário, mesmo até antes de terem vendido a sua progenitora.
- A beatice patética perdurará ano novo adentro, qual problema velho, que se alimenta estupidamente do fundamentalismo, do anacronismo, da hipocrisia para combater quem eventualmente lembre que precisamos de respostas novas para os problemas sempre novos que todos os dias a diversificada humanidade coloca diante dos olhos. O Papa Francisco deve saber bem do que falo!
- A estupidez não terá limites na aplicação das leis e dos critérios para ajuizar e agir perante cada uma das pessoas. Porque, problema sobejamente velho, é que uns são filhos de Deus e outros, mesmo que esperneiem serão sempre filhos da outra... Enfim, as discrepâncias continuarão a existir, uns a acreditar que Maria de Nazaré é Virgem espiritualmente e fisicamente. Mas pode haver que alguns, mesmo assim, duvidem, mas logo serão metidos na ordem, porque o santo dogma do discurso não pode ser violado, a santa tradição não tolera inteligência e a ousada da criatividade. A abusada estupidez não tolera que os contextos tragam também sinais de Deus nos tempos que correm, Deus é estático, a acção de Deus não muda… Ah, perversa estupidez!
Enfim, a lista poderia ainda ser mais preenchida. Mas fiquemos com estes elementos, só para vermos como a passagem de um ano para o outro vem carregada de sofrimento para quem vem. Lutemos, para que o ano de 2019 seja bom.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A extrema-direita ressuscitou e floresce


Carlos Esperança, 
01/01/2019)



A posse de Bolsonaro, um primata abrutalhado que, após a expulsão do exército, correu como deputado, por numerosos partidos brasileiros, sem atividade legislativa, a recolher benefícios do cargo, é a cereja no bolo da demência que grassa no continente americano.

As democracias são aí exóticas, residuais ou em vias de extinção, a sul do Canadá. Basta um segundo mandato de Trump para acabar com veleidades de eleições livres em países da América Central e do Sul.
É evidente que Jair Bolsonaro não quer, não pode e não sabe governar em democracia. O Senado e o Congresso dos deputados, onde muitos estão habituados a trocar o voto por benefícios pessoais, sem ideologia e sem entusiasmo na defesa do interesse público, não lhe vão facilitar a vida.
Quem conhece a cultura de caserna do cavernícola que as redes sociais, as televisões e a influente lepra evangélica levaram ao poder, facilmente adivinha que as botas cardadas serão o seu modelo e as espingardas o apoio que solicitará. Resta saber se a tropa, com que conta, estará disposta a aventuras e terá por ele a afeição do bispo Edir Macedo.
Deixar 200 milhões de brasileiros nas mãos de um boçal sem experiência governativa, sensatez ou projeto é um perigo para a sobrevivência dos mais pobres e um incentivo à violência que a liberalização do uso de armas não deixará de estimular.
Jair Bolsonaro considera-se um enviado de Deus e tem o apoio de Trump, as orações de Duterte, o assassino das Filipinas, e ainda a ajuda de toda a extrema-direita mundial e de Israel, para além dos que pretendem a Amazónia e deter os recursos do subsolo, o que garante o aumento do PIB que o ajudará a endurecer o poder.

Francis Fukuyama enganou-se rotundamente quando previu o fim da História. Está em marcha um retrocesso que não brota apenas no continente americano, é uma mancha de óleo que alastra a todo o Planeta e já contaminou a Europa. Os inimigos da democracia e dos direitos humanos, paradoxalmente, alcançam o poder pela via democrática. Hoje, são eleitos indivíduos que eram casos de polícia e agora se tornam líderes políticos.

A tomada de posse de Bolsonaro, com coreografia pífia e desajeitada, parecia mais uma parada militar do que a substituição de um PR em democracia. A faixa presidencial lá passou do corrupto golpista, Michel Temer, para Messias Bolsonaro, que hesitou em entrar de cabeça ou com o braço à frente.
“O Brasil acima de tudo [Deutschland über alles] e Deus acima de todos”. Bolsonaro dixit.
Depois, foi o sombrio desfilar de figuras menores onde o abraço sionista de Netanyahu foi o mais demorado, e o de Marcelo, o único PR da Europa, parecia uma ida mais a um velório onde, despachados os pêsames, fugiu a ver os netos ou a esconder a vergonha.
O juiz que prendeu, investigou e condenou Lula da Silva lá fará companhia a Bolsonaro e a vários generais, indiferente à humilhação que infligiu à Justiça com a sede de poder que o devorou.
Não é um governo que o ex-capitão comanda, é uma companhia de tropa sem vergonha.

domingo, 30 de dezembro de 2018

HAVERÁ MOTIVOS PARA UMA ACÇÃO DE GRAÇAS?


Não faz o meu jeito retirar frases do contexto que as encerra. É perigoso, desonesto para além de induzir os leitores em erro. Portanto, não vou pegar nas palavras do Senhor Bispo Carrilho e conduzi-las ao meu moinho de escrita. O que está em causa é mais profundo, é a Mensagem de quase nulo significado. E tanto que há para dizer, do ponto de vista social, económico, financeiro e cultural de forma contextualizada com a Palavra. Fixei esta frase: "(...) importa, sem dúvida, conservar e renovar no seu verdadeiro espírito e significado as belas tradições natalícias (...)". Pois, em abstracto, qualquer pessoa concordará, mas não podia e não deveria ter ficado por aí e por mais algumas coisitas de somenos importância. Lamento dizê-lo, mas já não consigo aceitar generalidades, muito menos banalidades das hierarquias políticas e religiosas. Continuo a querer aprender! Quando repetem, das duas uma, ou não têm nada para dizer ou tentam esconder alguma coisa. Porque não interessa, certamente.


Devia o Senhor Bispo António Carrilho ter lido os últimos dois textos do Senhor Padre José Martins Júnior, publicados no blogue "senso&consenso" e aí encontraria o fio condutor de uma intervenção com a qualidade necessária aos tempos conturbados que estamos a viver. Deliciei-me a ler tais textos e, certamente, a muitos teria sido importante escutar a Palavra cheia de Mensagem. Eis um excerto: "(...) É de ver e pasmar a atenção dos mirones para as originalidades e ‘originalidezes’ de cada espécime de presépio, do mais rude ao mais pintado. E ninguém se lembra de interpelar aquela Criança, para fazer a única e necessária pergunta: “Que vens fazer aqui, Menino?.. Que é que te fez nascer por estas bandas?... Qual é o teu projecto de vida”?. (...)" E a partir daqui tanto, mas tanto teria para dizer aos fiéis. 
O Senhor Bispo prefere a repetição que, de uma forma exemplar, o DN-Madeira, tem já algum tempo, publicou, comparando, julgo que dez anos de homilias, de onde concluiu que elas são "repetitivas". Percebo que não tenha tempo nem queira ler o Padre José Martins Júnior. Nem esse nem o Padre José Luís, nem outros que com exímia coragem e frontalidade escrevem e falam do exemplo de Cristo. Ainda por cima, o Padre da Ribeira Seca continua, com a "benção" do Senhor Bispo António Carrilho, vergonhosamente suspenso "a divinis". Percebo a dificuldade de pedir o perdão reconciliador, mas se a tal Justiça Divina existe, o Senhor Bispo Carrilho e os que o antecederam têm continhas a ajustar. E percebo também o porquê de, subtilmente, naquela frase inicial que deu o mote a este texto, ter falado em "conservar e renovar". Repito, não quero descontextualizar, mas, eu diria que, politicamente, fugiu-lhe a língua para a sua verdade: manter os que vieram em nome da "renovação" e, por isso, subliminarmente, que Deus os "conserve". As palavras são traiçoeiras e exprimem, muitas vezes, aquilo que trazemos em pensamento. As palavras não são neutras. 

Seja como for, amanhã, no Te-Deum de Acção de Graças, com os eleitos perfilados frente ao altar, agradeça, Senhor Bispo, aos governantes, o facto deste povo catalogado de "superior", constituir a segunda região mais pobre do País. Agradeça-lhes um Sistema de Saúde que mantém 60.000 actos médicos em lista de espera (DN de hoje). Agradeça-lhes o facto da Madeira apresentar taxas que nos envergonham no abandono e insucesso escolar (65% da população da Madeira, com 15 ou mais anos, tem apenas até o 9º ano de escolaridade). Agradeça-lhes o facto de, passados tantos anos, não ser possível pagar, através do Orçamento Regional, um complemento de pensão a quem dispõe de prestações geradoras de pobreza. Agradeça-lhes terem produzido gente que enriqueceu à custa da Autonomia e da degradação dos direitos de quem trabalha. Agradeça-lhes a existência de quase 30% de pobres. Agradeça-lhes a produção em massa de gente deprimida. Fale disso e, por favor, não fale de fé e caridade! Até porque Cristo não tem nada a ver com os desmandos políticos. 

Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Endereços dos artigos do Padre José Martins Júnior:
http://sensoconsenso.blogspot.com/2018/12/natal-da-decepcao.html
http://sensoconsenso.blogspot.com/2018/12/devotos-destruidores-de-todos-os.html

sábado, 29 de dezembro de 2018

UM ABRAÇO PARA 2019


Tenho andado arredado de tudo. Intencionalmente, por vários motivos, parei. Tenho razões para isso. Afinal, o ano, apesar de passar cada vez mais rápido, ainda assim comporta muitos dias para escrever as múltiplas preocupações que o dia-a-dia vai suscitando. Umas, absolutamente banais, outras que a todos nos toca e preocupa.
Estamos a poucas horas de um novo ano. Não faz o meu jeito enunciar, transcrevendo, a lengalenga dos habituais votos. Deixo aqui apenas um: que a saúde acompanhe todos quantos por aqui passarem. Isso é o melhor que se pode aspirar e desejar. E a todos envolvo em um ABRAÇO fraterno, tal como exprime esta fotografia que fiz no final de ano de 2016. Como foi tirada ficou. Quis aquele momento do disparo que ficasse registada uma espécie de abraço a uma figura indefinida. Designei-a por "abraço de anjo", embora não o seja, muito menos com as asas que o fogo se encarregou de colocar! 
Ilustração: Arquivo próprio.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL PARA TODOS


Quando chego a este período do calendário, sinto um misto de alegria e de profundo desencanto pela humanidade. Todos, certamente, sentirão o mesmo pelas mais variadas razões. Desde a falta de quase tudo até à doença; desde as múltiplas desestruturações à vida fútil até à violência gratuita. Vivo na incompreensão de uma dialética onde a inteligência, a descoberta e as necessidades estão em permanente oposição sem uma saída plausível. No meio disto, sinto a alegria por um Cristo que deixou uma Mensagem que me invade e que se os Homens tomassem à letra as Palavras então ditas, não teríamos tantas assimetrias locais, regionais e mundiais. Dos conflitos à fome, da guerra aos refugiados. 



Disse o Papa Francisco: "O Natal é a desforra da humanidade sobre a arrogância, da simplicidade sobre a abundância, do silêncio sobre o tumulto". É, sem a menor dúvida. Para quê tanta arrogância e para quê tanto dinheiro nas mãos de tão poucos, quando incontáveis milhões vivem excluídos nas margens da sociedade. De uma ponta à outra do planeta, convenhamos! 
É este desencanto que me prostra. Essa inteligência ao serviço do mal, o paradoxo da incapacidade para não querer entender as pessoas e os benefícios da paz, os incríveis jogos de política subterrânea, a busca incontrolável da riqueza à custa do trabalho escravo ou a paulatina destruição do planeta pela ganância imediata que impede de ver a sustentabilidade ambiental. Tudo isto, quando a vida é finita e a morte espreita ao virar da esquina, ficando tudo aí.
Não sou uma pessoa sem esperança. Acredito no conflito e na reprodução, isto é, que ao tempo turbulento poderá se seguir uma nova ordem mundial, através do grito dos povos, que conduza a uma nova Economia, uma Economia do povo para o povo, a uma justa distribuição da riqueza assente em novos equilíbrios políticos. Difícil, muito difícil, é certo, mas pior será embarcar nesta onda que tudo varre e que não permite uma faísca que ilumine um novo olhar sobre um caminho que não assente na caridade. 
Neste Natal, mais do que as palavras ditas em um qualquer Te-Deum, dos rotineiros votos expedidos aos amigos porque são de bom tom, mais do que os almoços e jantares tradicionais, mais do que visitas de apresentação de cumprimentos entre entidades públicas, mais do que Missas do Parto, ponchas, licores, broas, bolos de mel e de tantas iguarias em todo o Mundo, finalmente, mais que o fogo que ilumina os céus de todos os espaços, entre passas e promessas, fica a minha renovada esperança no Homem enquanto centro de todas as preocupações.
Feliz Natal para todos os Amigos que por aqui passarem e que 2019 valha a pena em todos os sentidos.
Ilustração: Arquivo próprio.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

BATER EM QUEM ESTÁ KO!


Nota prévia
Não conheço, pessoalmente, o Dr. Armando Vara. Apenas sei que teve um percurso no PS e que a Justiça condenou-o a uns anos de prisão efectiva. Que esgotou todos os recursos e com a sentença transitada em julgado, provavelmente, dará entrada em um estabelecimento prisional.

Obviamente que se diz inocente. Não sei e não me interessa saber. Se todos os patamares da Justiça consideraram-no culpado, então aí o problema é de consciência do próprio. De resto não conheço o processo, tampouco sou jurista para, permitam-me a expressão, mandar aqui uns palpites. Porém, anteontem, a "procuradora" da SIC, Manuela Moura Guedes, confesso que não a tenho como jornalista de excelência, ao comentar a figura do cidadão Armando Vara disse que se tratava de uma figura "sinistra". 


Quero admitir que se tratou de um exagero ou deslize de linguagem. Não lhe ficou bem. Eu não conseguiria dizer aquilo de um cidadão mesmo com o grau de culpabilidade a que o Tribunal chegou. A palavra tem uma carga, pelo menos para mim, tão negativa que a coloca junto de um inveterado criminoso, muito para além do quadro da corrupção. A palavra transporta um grau de perversidade, de pavor, de uma maldição e de uma propensão para o mal assustador, que julgo de todo inadequada. Manuela Moura Guedes não o classificou de figura "sinistra" por ter lateralidade "esquerda" ou por ter mau aspecto, outrossim, quis maltratar, amesquinhar e aviltar publicamente. Deveria ter-se circunscrito ao acórdão judicial, divulgando-o e comentando-o, aspecto totalmente diferente de entrar em comentários grosseiros de cidadã para cidadão. Já há dias, referindo-se à Assembleia da República, a comentadora da SIC defendeu que os deputados são como rebanhos: "tudo vota em rebanho, mesmo quanto não estão lá". Ela sabe porque por lá passou no grupo parlamentar do CDS! Para além de uma outra situação, ali para os lados de Belém, aquando de uma prova de atletismo, tendo deixado registado na sua página de facebook: “(…) Só me apetece atropelar estes bandos de viciados (…)”.
No caso Vara cheirou-me a vingança pelos maus momentos que efectivamente passou (e também provocou com o seu ar altivo), quando era pivot do Jornal Nacional. Só que uma pessoa não se enaltece e se torna reconhecida quando regressa ao ecrã e sente o "poder" de pensar "agora é a minha vez... estão fritos". Alguns comentadores são assim. Que mal existe nisso, perguntar-me-ão alguns. Pois, apenas digo, tenho bom remédio, mudo de canal, porque não gosto da agressividade, sobretudo quando um sujeito está no chão, irremediavelmente KO e continuam a lhe bater!
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

VOLTA DIABO ESTÁ PERDOADO


In blog, O Jumento, 17/12/2018) 

Durante algum tempo a extrema-direita fina apostou tudo na vinda do diabo, Passos Coelho meteu na sua grande e brilhante cabecinha que o mafarrico vinha em setembro de 2016 e os seus crentes andaram um ano em regime de sabática política, convencidos de que voltariam aos gabinetes governamentais em finais desse ano, para depois pedirem mais um resgate que lhes permitiria governar mais uma legislatura sem respeitar regras.



O mafarrico não veio e durante muitos meses ficaram convencidos que de era uma questão de tempo. Para se entreterem enquanto o dito não aparecia foram-se entretendo com incêndios ou, na falta de melhor, com o Metro de Lisboa. O disparate chegou ao ponto de a Assunção Cristas propor que Lisboa tivesse mais estações de Metro do que paragens de elétricos.
Mas o mafarrico não apareceu. O Passos Coelho percebeu que o melhor seria procurar emprego porque para esperar pelo regresso ao governo o melhor seria ter onde se sentar, logo alguém achou que o seu brilhantismo intelectual não merecia menos do que uma cátedra e o pobre homem lá foi dar cabo da credibilidade académica do currículo dos alunos do ISCSP.
Sem diabo a alternativa acabou por ser ficarem com o diabo no corpo e apareceu então a destingida bastonária dos Enfermeiros, rapariga próxima do agora catedrático. Começou com greves por tudo e por nada, mas como tanta greve estava a ir ao bolso dos enfermeiros teve uma brilhante ideia: porque não uma greve paga que matasse dois coelhos, (o catedrático do ISCSP e o deputado do PAN que me perdoem), com uma cajadada? Dá-se cabo do SNS e mandam-se centenas de clientes para os privados ao mesmo tempo que os enfermeiros das cirurgias metem férias pagas generosamente por gente anónima!
Tem sido um regabofe. Os enfermeiros fazem greve, os juízes vão pelo mesmo caminho e agora é o Marta Soares, que depois de ter traído o seu amigo Bruno de Carvalho aparece a exigir o apuramento de responsabilidades políticas num acidente com que nada tem que ver. Pelo meio ainda houve um assalto a um paiol que até deu direito a um memorando sobre o mesmo, devidamente enviado por gentis militares.
Durão Barroso chegou ao poder ajudado pela queda de uma ponte. Passos Coelho foi ajudado por uma crise financeira. O PSD parece estar a ficar viciado em empurrões para chegar ao poder.

SÓ SE FOR PARA UMA RESSACA...



Passei por uma superfície comercial que integra uma farmácia de qualidade indiscutível, se considerarmos o espaço e o atendimento. Só que, no "pórtico" de entrada, dei com esta preciosidade: "A receita certa para este Natal". Por baixo uma jovem que me parece ter dores de cabeça! Achei interessante e desajustado. Mas a pergunta que me assaltou, talvez com algum humor, sendo um local particularmente destinado a medicamentos, portanto, a quem está menos bem de saúde, interroguei-me se existe alguma receita certa para o Natal? Só se for para uma ressaca.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

HIPOCRISIA SERVIDA AOS IDOSOS


Bem gostaria que não existisse, no Natal, qualquer tipo de refeição, para novos e anciãos, para pobres e excluídos e para todos os que lá aparecem porque desempenham funções políticas. Seria sinal que a sociedade, mesmo com as suas margens, tinha muitos dos seus dramas solucionados. Ficaria, apenas, o convívio, a Festa! Infelizmente, a sopa e o pratinho são servidos para matar por um dia as carências sentidas nos outros dias do ano. É claro que existem o Banco Alimentar, a Cáritas, a Cruz Vermelha, as paróquias e tantas instituições que vão colmatando a pobreza sentida em uma região que é a segunda mais pobre do país. O que me leva a este desabafo é o sentimento de quadros ridículos e enervantes, porque ofende a dignidade das pessoas, ao oferecerem um convívio com uma mão e aproveitá-lo para saltar para o palco e realizar um comício político. Repugna-me.


Na Calheta/Madeira, como habitualmente, a Câmara Municipal reuniu 1200 idosos e a páginas tantas ouve-se uma voz a falar  em nome dos presentes: "(...) Não vamos atrás de ilusões, não vamos atrás de fotografias e imagens bonitas, queremos pessoas sérias, competentes, responsáveis, que façam aquilo que se comprometeram com a população”. Pegando nas palavras, o presidente do governo, não perdeu a oportunidade: "temos alguma folga orçamental" em 2019, por isso, em Janeiro ou Fevereiro "vamos anunciar medidas de apoio à população mais idosa, seja a nível dos apoios para medicamentos e para óculos seja para o suplemento às reformas". Repugna-me. 
E porquê? Pela proximidade de eleições. Fico pelos medicamentos e pelo complemento de reforma ou pensão. Há que anos, mais de vinte, que o PCP na Assembleia Legislativa e, muito mais tarde, o PS, apresentam propostas no sentido de contemplar as pensões mais baixas e todos os mais vulneráveis, com um complemento regional. No início do século começou, salvo erro, por € 50,00. Todas essas propostas, sucessivamente apresentadas, de orçamento em orçamento, foram chumbadas pelo PSD-Madeira. Porque não havia necessidade e porque o governo, a Segurança Social e tantas instituições colmatavam algumas situações precárias. Pela oposição chegou a ser apresentado o exemplo da Região Autónoma dos Açores, não apenas relativamente ao complemento de pensão, mas também o COMPAMID (Complemento para a Aquisição de Medicamentos pelos Idosos), proposta de 2008, julgo do CDS, aprovada nos Açores, por unanimidade, e que garante "50% da retribuição mínima mensal garantida em vigor na Região".
Isto é, o governo da Madeira levou mais de vinte anos para aceitar a pobreza na Região e a necessidade de esbater as necessidades sentidas por mais de 70.000 pessoas. E agora, com os calos a doer face ao descrédito em que anda, resolveu abrir os cordões à bolsa e prometer, prometer e prometer, até óculos,  talvez, para que não se enganem no quadradinho da seta! Repugna-me.

A política não é isto. Cumpram o dever para com os mais vulneráveis, ofereçam, comemorem o Natal, mas não utilizem o palco para promoção pessoal e de grupo. Distribuam os cabazes com discrição, sem fanfarronices. Fica feio. Evitem a presença física como quem dá uma esmola a troco de um voto. Deixem a hipocrisia sentada a um canto da porta, entrem com dignidade e saiam ligeiros distantes dos holofotes, porque não lhes fica bem. Lembrem-se que a solidariedade não tem dias nem épocas, é todo o ano, através de actos e não de atitudes caritativas. Fujam do Banco Alimentar, instituição que, durante anos, nunca aceitaram como uma necessidade, mas também porque se trata de uma instituição independente da Igreja e dos partidos. 

A partidarite desmiolada é tal que, na mesma semana que apelam à participação (regresso) de Alberto João Jardim, o presidente da Câmara da Calheta falou da "grave crise" que este governo herdou, mas que o presidente do Governo, Miguel Albuquerque "recuperou financeiramente a nossa Região, encetando um programa de governo e uma série de compromissos para com população", pedindo, por isso, um aplauso aos 1.200 idosos que estiveram no pavilhão dos Prazeres - Fonte DN-Madeira. 
Ora, perante tanta hipocrisia, repugna-me!
Ilustração: DN/Madeira.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Pela dignificação do exercício da política


É um erro generalizar tomando o todo por alguns que se comportam de uma forma que a sociedade não aceita. Há sempre bom trigo e joio. Aliás, todos nós estamos sujeitos a convenções e códigos sociais que determinam o comportamento certo do errado. E aqui não pode, em circunstância alguma, haver lugar a subterfúgios ou fugas às situações praticadas. Ademais, a sociedade não aceita que se mascarem as situações para que tudo fique na mesma. O problema de tudo isto é que há uma evidente degradação dos comportamentos éticos, isto é, dos princípios e dos valores, os tais que não se divulgam, sublinho, mas que influenciam o colectivo. O resvalar tem sido suave mas contínuo e, por isso mesmo, cada vez mais sensível aos olhos da população. Há uma significativa perda de credibilidade, porque tem sido concedido espaço à desmedida ambição de pessoas, cultural e socialmente, medíocres. A qualidade anda fugidia e quem a tem, perante o quadro que se vive, foge a sete pés, mantém-se no silêncio, na reserva e até distante do comentário, entenda-se exposição pública, com algum receio de ser menos bem aceite e até medo que a perseguição surja na primeira esquina. 

Resultado de imagem para caciquismo

É notória uma ausência de cidadania plenamente assumida, independente de posicionamentos de base ideológica, que, pela qualidade das pessoas, a mediocridade política seja colocada no seu devido patamar. Não se trata de uma questão elitista, pois nutro tanto respeito pelo trabalhador mais humilde, indiferenciado, como tenho por quem se apresente com altas graduações académicas e profissionais. Não é isso que está em causa, até porque há bons e maus em ambos os blocos. A questão é outra, é a de, pela participação activa dos cidadãos, não seja permitido o caciquismo, os jogos de interesse pessoal, a corrupção dos valores e que os patamares mais altos da hierarquia política possam ser atingidos por pessoas, a quem lhes falta tudo ou quase tudo, o conhecimento, não me refiro apenas aquele derivado do percurso académico, mas sobretudo a credibilidade política nos planos da economia, das finanças, dos vários sistemas, inclusive, o cultural e, por via disso, a aceitação social.
Há pessoas que têm um qualquer curso e utilizam-o como recurso! Outras, têm o nome de família e pouco mais e vão longe por isso mesmo. Outras, fazem o percurso sinuoso das organizações partidárias, que conhecem os militantes como as suas mãos e que utilizam esse facto para atingir lugares que, no quadro de uma democracia adulta e exigente, jamais teriam hipóteses de lá chegar. Ainda outros, movidos por desmedidas ambições tentam subir os degraus quatro a quatro e mor das vezes espalham-se. Outros, finalmente, tornam-se reféns da teia. Desta forma sumária, o poder está pejado de instalados que se tornam senhores da "tabanca", até porque, entre um emprego de € 800,00 e um de € 3.000,00 fica a ideia que vale tudo por uma robusta folha de salário. A competência, essa é outra história.
Portanto, nada de estranhar que os que se encontram no vértice estratégico da pirâmide hierárquica, em situação extrema, sintam que, afinal, o poder não está nas suas mãos. Ele está capturado por uma espécie de "bandoleiros" com peso no interior da estrutura. Já não digo que sejam aves com a mesma plumagem (no plano político, muitas vezes são), mas o líder fica sujeito e obrigado aos comportamentos impostos pelos sequestradores políticos. Quando isto acontece é o fim de uma organização/instituição.
Um recente caso político pode servir de exemplo à reflexão que aqui estou a discorrer. A prova que a hierarquia está capturada, é o facto de transformar um caso político e público, provado pela apresentação de "desculpas", em um caso de natureza privada. Não é. Se assim fosse, generalizando, o crime por violência doméstica seria, também, um caso privado. E não é. Se, neste hipotético caso, a sociedade critica e os Tribunais podem, até, como medida de coação, afastar o criminoso da vítima, no primeiro, politicamente, o mais correcto seria determinar o seu afastamento da instituição pelos danos de imagem que dos actos resultaram. Só que a hierarquia não pode quando está aprisionada por uma história de largas cumplicidades. Imagine-se se a situação em causa envolvia um deputado na República?
Ora, o sentido mais puro do exercício da actividade política não é o de servir-se ao invés de servir uma causa. E o povo está farto dessa promiscuidade, de ser enganado, de assistir a golpes palacianos, de observar jogos de poder que interferem com as políticas que desejam ver implementadas, de presenciar que uma  coisa é o que dizem, outra o que fazem, o povo está farto de conflitos estéreis e de ver que os seus representantes se comportam de uma forma absolutamente desprezível. Não é que deles, políticos, esperem a imagem de anjos com asas, mas que transmitam segurança, qualidade, palavra e assunção dos erros quando os cometem. E, na política, quando as situações são publicamente graves só há um caminho: o regresso ao emprego de origem. Não basta um pedido de desculpas.
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Reflexão, da minha autoria, publicada no blogue www.gnose.eu

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

NÃO PODE HAVER CONTEMPLAÇÕES. INQUÉRITO E DEMISSÃO


Ontem, teci, aqui, considerações negativas sobre um deputado do PSD-M que teve um comportamento inadequado, face à responsabilidade que advém da sua função para a qual foi eleito. Passadas umas horas recebi um vídeo, onde é mostrado um deputado do PS-M simultaneamente, vice-presidente do partido, em imagens que apenas digo serem chocantes quando tornadas públicas. Não vou aqui descrevê-las. O próprio youtube suspendeu tal vídeo.

Ora, face a um caso destes, não há desculpas. O presidente do PS-M só tem um caminho possível: abrir um inquérito sumário, averiguar, levar o assunto à Comissão de Jurisdição propondo a sua demissão. Entretanto, deve o deputado em causa deixar a Assembleia Legislativa da Madeira e todos os cargos que ocupa.
Da minha parte, hoje mesmo, expedirei para o PS-M o meu cartão de militante, com quotas pagas até Dezembro de 2018, solicitando a sua anulação, enquanto não forem tomadas as devidas atitudes por parte da direcção do partido, ao abrigo, entre outros, do nº 2 do Artigo 13º dos Estatutos "(...) conduta que acarrete sério prejuízo ao prestígio e bom nome do partido".
O exercício da política tem de ser pautado pelo rigor, pela decência e por comportamentos adequados. E por aqui fico.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O PÉSSIMO EXEMPLO DE UM DEPUTADO


Há situações que não sei como defini-las: se se trata de um acto de momentânea irresponsabilidade, se de arrogância pela função que desempenham ou de duvidosa formação pessoal. Pior ainda quando um acto é cometido por um deputado que deveria ser o exemplo máximo de conduta irrepreensível. Só que isto é nacional, tantos os casos já julgados ou em curso que envolvem políticos que desonram a democracia representativa e, portanto, a dignidade das funções que desempenham(ram). 

Agora foi um deputado que fugiu a uma operação stop, mas foi apanhado e detido com "1,87 gramas de álcool por litro de sangue", segundo o DN-Madeira.
As perguntas que desde logo emergem são estas: como é possível uma figura destas manter-se na Assembleia após aquele acto? Como pode ser representante do povo que o elegeu? Como poderá, doravante, falar sobre o que for? 
Para além da mancha, conhecida a forma como muitas vezes os debates ocorrem, no mínimo, pode ouvir de uma bancada: "tás com os copos?".
É que não basta pedir o levantamento da imunidade parlamentar, quando está em causa o péssimo exemplo dado. Ser deputado não é um emprego, é sim um temporário serviço público à comunidade, é ser exemplo para os demais quando fala ou se comporta na sua vida social. Ou não será assim?
O exercício da política está muito abaixo dos patamares comportamentais exigíveis. Do passado ao presente, embora com contornos e níveis diversos e são tantos os maus exemplos de arrepiar, a Assembleia Legislativa da Madeira tem sido um feudo, uma propriedade para alguns ali colocarem os amigos a quem não podem dizer NÃO, os cúmplices, aqueles a quem devem favores políticos, os facilmente subjugáveis, os medíocres, os caciques locais, gente que a maioria do povo não os conhece e que, depois, recebem em troco do voto as atitudes que essa mesma maioria repudia.
Julgo necessário uma transformação no sentido da dignificação do primeiro órgão de governo próprio. É preciso que a Assembleia seja composta por pessoas impolutas, socialmente credíveis, respeitáveis e de qualidade. Assim, NÃO!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

MEMÓRIA SÓ APARENTEMENTE CURTA A DA SENHORA DEPUTADA


"(...) Cada orçamento diz muito sobre a visão do proponente do orçamento e das suas propostas de alteração, sobre o país, a região e a cidade. Sobre as suas prioridades para a nossa sociedade (...)" - Rubina Berardo, deputada do PSD/Assembleia da República. Vale a pena ler o artigo da Senhora Deputada, publicado na edição de Sexta-feira do DN-Madeira, se fizermos um esforço de trazer em memória o que foram, por um lado, os anos de governação de Pedro Passos Coelho, por outro, os anos de governação de Alberto João Jardim que deixou os madeirenses a pagar uma dívida inicial superior a seis mil milhões de euros. 


De Pedro Passos Coelho fica a nota que todos os orçamentos apresentados foram, por esta ou aquela razão, considerados inconstitucionais. E que o povo sofreu, emigrou, deixou a formação académica e ficou mais pobre. Foram anos de bebedeira política ao serviço de outros interesses que não os do País. Só mais tarde, ficou a certeza que havia uma alternativa a esse tipo de governação tresloucada baseada na austeridade imposta externamente. Gente que vendeu o país, privatizando quase tudo, esquecendo-se que fomos vítimas, mais do que os erros de governação interna, de uma significativa crise internacional, de origem externa, que varreu tantos países. Não fomos só nós que ficámos em sérias dificuldades. Até fizeram vingar a ideia que "vivíamos acima das nossas possibilidades". 
E assim, no caso português, foram anos de roubo e de saque às pobres carteiras dos portugueses que, aliás, ninguém esquece. E nessa altura, que eu tenha presente, não me lembro de qualquer atitude da Senhora Deputada contra o esvaziamento do país, o pavoroso medo de seguir a primeira notícia de um telejornal, tantas vezes de anúncio de mais uma taxa, mais um imposto, mais um corte nos salários e pensões, ou, então, contra essa tenebrosa troika. Pois, eu sei, a memória de alguns é curta. De onde concluo que poderia eu agora escrever exactamente a síntese da Senhora Deputada: "cada orçamento diz muito sobre a visão do proponente do orçamento (...)". 
A Senhora Deputada sabe, porque estou certo que tem memória de elefante, que um espremeu os portugueses até ao tutano, não admitindo qualquer alteração ao percurso definido; o outro, por aqui, fez o que quis e entendeu não ouvindo ninguém, esbanjou em obras de prioridade duvidosa, ao ponto da corda continuar no pescoço dos madeirenses. Ainda assim, a Senhora Deputada fala de "palavra dada, palavra honrada"? Dá jeito dizer isso, compreendo. Dá jeito passar ao lado do que prometeu Pedro Passos Coelho durante a campanha eleitoral e o que veio a fazer na prática (ouvir aqui)E dá jeito comparar algumas decisões aqui tomadas com outras no plano da República, escondendo tantas que os governos da República tomam com reflexos bem positivos para a população local. Dá jeito! 
E hoje, como se isso fosse possível, os mesmos que não se opuseram às políticas de Pedro Passos Coelho/Paulo Portas, que pouco se ralaram com o sofrimento do povo, integram a orquestra que aplaude e exige ao actual governo, rapidamente, a reposição de todos os direitos perdidos. Querem tudo de um país que se tenta reerguer dos erros do passado e das políticas da dupla Passos/Portas. Discursam e ou escrevem julgando que a oportunidade política assim exige. Mais parecem sindicalistas e não deputados!
Oh coerência, por onde andarás? 
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 9 de dezembro de 2018

HÁ QUEM NÃO APRECIE O CONTRAPONTO



FACTO

O Pedro Ramos, secretário regional da Saúde disse, ontem, que “a Ordem dos Médicos politizou-se e descredibilizou-se”. 


COMENTÁRIO

Quanto enganado está. Todos os organismos que servem os cidadãos são POLÍTICAS. Podem é não ser partidárias. Relativamente à OM ainda bem que faz política, pois significa que tem pensamento acerca do direito constitucional à Saúde. Todas as suas opções são políticas, caso contrário a instituição não cumpriria o seu mister. Não se trata de estar com ou contra, mas a de estudar, analisar e propor caminhos. É isto que a credibiliza, que a torna não uma instituição amorfa, mas uma parceira que persegue o seu fim último constante na Lei: "Contribuir para a defesa da saúde dos cidadãos e dos direitos dos doentes". E se assim é, a sua natureza é POLÍTICA. 
O problema é que o Dr. Pedro Ramos, certamente, gostaria de não sentir o "desconforto" de outros pensarem de forma diferente. Não sei, mas parece que o irrita. Do meu ponto de vista, não se trata da OM fazer oposição partidária a um cargo desempenhado por um médico de profissão, mas de assumir posições diferentes e livres que só poderão ajudar a que o sistema, de norte a sul, do Minho ao Corvo, funcione melhor. É um problema de DEMOCRACIA, não se trata de um problema partidário. E se alguém é político e partidário é o secretário regional da Saúde. Quanto à Ordem dos Médicos apenas é POLÍTICA, como qualquer outra instituição que toma opções; não é, com toda a certeza, partidária. Nem aqui nem lá! Até por Estatuto.