Terça-feira, 14 de Julho de 2009

DEMISSÃO PARA O MAIS FRACO...

Através de comunicado, a Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais, liderada pelo Dr. Manuel António, explicou, hoje, que o Dr. Paulo Rodrigues não foi demitido, apenas não foi renovada a Comissão de Serviço enquanto presidente do Instituto do Vinho e do Bordado e do Artesanato da Madeira.
Ora bem, o Dr. Manuel António é dos tais que ainda pensa que toda a população é mentecapta e incapaz de não perceber o que se passou ou o que se está a passar. É evidente que o problema é dele e do governo, o que não pode é dissimular a situação dizendo que não foi demitido, antes a sua Comissão de Serviço chegou ao fim. No mínimo é um eufemismo.
Seja claro: a questão chama-se "Vinho Seco", Senhor Secretário, e uma Portaria que, tendencialmente, ponha ponto final na venda a retalho dessa "espécie de vinho" originou muitas, complicadas e azedas ondas tal como essa "espécie de vinho" provoca nos estômagos mais sensíveis. E ninguém acredita, Senhor Secretário, que tal Portaria tivesse sido produzida exclusivamente pelo Instituto. Essa Portaria teve, obviamente, o aval do Secretário Regional, até porque corresponde a normas europeias. Só que, em tempo de eleições, esta questão, tarde ou cedo, colidiria com muitos interesses espalhados pela Região e daí que a parte mais fraca, o presidente do IVBAM, tivesse sido posto a andar.
Abordo esta questão apenas porque me irrita a falta de transparência, de honestidade e de verdade. Este Senhor Secretário Regional que passa todo o tempo a falar de milhões a distribuir "aos senhores agricultores" mas que, infelizmente, estão cada vez mais pobres, deveria levar mais a sério aquelas três palavras, repito, transparência, honestidade e verdade. Três palavras fundamentais no exercício da política. Porque, no caso em apreço, se a comissão de serviço tinha terminado no dia 01 de Julho, suposto era, antes de terminada a respectiva comissão, até por razões administrativas, ter sido substituído ou renovada a contratualização. Ademais, no dia seguinte à publicação da história do "vinho seco" sabia-se que que o Dr. Paulo Rodrigues seria afastado. Até em Canárias já se falava nisso!
Obviamente que se trata de um problema do governo e do PSD, mas seria bom que este exemplo não fosse esquecido, como mais uma história demonstrativa da obediência cega a um só homem. Quando assim acontece, diz-nos a História, que se tornam num Homem só!

MAIS UM QUE PARTE...

Morreu o médico, o político e o dirigente desportivo. Num espaço de quinze dias partiram deste Mundo duas pessoas por quem eu nutria admiração e que, entre elas, marcaram a sua passagem pela vida através de uma profunda amizade. Refiro-me ao Professor Fernando Ferreira e, agora, ao Dr. Nélio Mendonça. Duas figuras de topo quer nas funções profissionais quer nos domínios do contributo político à sociedade.
Conheci o Dr. Nélio Mendonça em 1974. Foi o médico que assistiu ao nascimento das minhas duas filhas. Da segunda, nascida em 1978, tenho um fantástico registo em "Super 8", mais tarde montado e sonorizado em vídeo, de um parto pélvico que ele costumava dizer que constituía um documento comovente e importante do ponto de vista médico pela técnica utilizada.
Falámos muitas vezes da política desportiva e, curiosamente, deixámos sempre à margem as outras questões de âmbito político-partidário. Todavia, pressenti sempre, sobretudo através da sua intervenção política, é minha plena convicção, que o Dr. Nélio era um Homem apostado no bem comum, discreto mas eficaz na sua intervenção e pouco dado às tricas internas do seu partido. Como médico, político e dirigente desportivo curvo-me perante a sua morte.
Nota:
O Presidente da República far-se-á representar no funeral pelo Senhor Juiz Conselheiro Monteiro Diniz. São do Representante da República as seguintes palavras relativamente à figura do Dr. Nélio Mendonça: "teve uma acção política notável, era um homem com grande cultura democrática, defensor intransigente do sistema autonómico, num quadro rigoroso de portugalidade e inserção dos valores democráticos do país e teve papel importante ao nível da Assembleia Legislativa da Madeira e do Parlamento Europeu".

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

MAIS UM ANO PERDIDO: CONTINUAM A PADRONIZAR DO SISTEMA EDUCATIVO

A Revolução Industrial centrou-se, na feliz síntese de A. Toffler, em seis princípios: concentração, centralização, especialização, estandardização, maximização e sincronização. Podemos dizer que estes princípios entraram, também, na escola e, passados mais de duzentos anos (basta ler a ideia expressa por Adam Smith, em Pesquisa Sobre a Noção e as Causas da Riqueza das Nações), embora pintados de fresco, continuam a constituir a sua matriz orientadora.
F. Taylor, H. Fayol, Elton Mayo, Max Werber e Von Bertalanfy, entre outros, desenvolveram várias teorias da organização, gestão e administração, todavia, a Escola, ou melhor dizendo, o sistema educativo, manteve-se, grosso modo, condicionado a esse código da Civilização Industrial consubstanciado naquelas seis palavras-chave:
CONCENTRAÇÃO
O século XIX e a primeira metade do século XX foram caracterizados por grandes concentrações, provocadoras de grandes enclausuramentos. O princípio concentracionário que foi determinado pela divisão do trabalho o que possibilitou padrões de eficiência mais elevados. Foi o tempo da construção de grandes escolas; dos grandes estádios construídos para milhares de espectadores; foi o tempo da macrocefalia dos grandes centros.
Comentário: por aqui continuam a apostar em estabelecimentos de ensino para 1.000, 1.500 e mais de 2.000 alunos, numa lógica contrária às exigências gestionárias dos novos tempos.
CENTRALIZAÇÃO
A Centralização do poder dominou toda a Sociedade Industrial. Refiro-me à centralização do comando e da informação. O sistema era simples pois processava-se da unidade de comando à descentralização da execução. Há autores que designam essa centralização como uma espécie de “psicomotricidade organizacional”, em que existe um órgão que pensa e vários que executam.
Comentário: A Escola continua como há muitos anos. Tome-se em consideração, por exemplo, a configuração dos organigramas que se desenvolvem mais no sentido vertical do que no sentido horizontal. O Doutor Licínio Lima, da Universidade do Porto, tem uma síntese que ilustra esta situação: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". Enfim, continuamos com processos centralizados e pesados de gestão sendo sensível a ausência de coragem para encetar novos processos organizacionais através dos quais se procure a eficiência e a eficácia no quadro da liberdade de agir, com responsabilidade, claro.
ESPECIALIZAÇÃO
A especialização, no essencial, determina o grau em que o trabalho é dividido (Chievenato, 1979). Mas isto pode conduzir e conduziu à completa desumanização. Henry Fayol observou que em 7882 postos de trabalho: 944 requeriam homens fortes; 3338 homens vulgares; 670 por homens sem pernas;2637 por homens só com uma perna; 2 por homens sem braços; 10 por homens cegos. Este princípio também foi aplicado a tantas áreas profissionais quer ao nível micro como ao nível da macro das organizações. Trata-se do trabalho triturador e racionalizado. Digamos que correspondeu ao indivíduo hiper-especializado mas esmigalhado, agente passivo e exclusivo de uma operação que visa o alto rendimento (Brohm, 1972).

Comentário: Riccardo Petrella, Conselheiro na Comissão Europeia e Professor na Universidade Católica de Louvain (Bélgica), fala das cinco armadilhas para a educação e de uma cultura de guerra, a saber:
1. Primeira armadilha: “A crescente instrumentalização da educação ao serviço da formação dos recursos humanos”. Isto é, o recurso humano, habilmente, passou a ser considerado como uma mercadoria económica. Melhor dizendo, direitos a um canto, porque o que interessa é o rendimento do Homem ao serviço da economia;
2. Segunda armadilha: “A passagem da educação do campo do não mercador para o do mercador”. É a educação considerada como um grande mercado;
3. Terceira armadilha: a educação “é apresentada como um instrumento-chave da sobrevivência de cada indivíduo” (...) nesta era de competitividade mundial. No essencial, dir-se-á que a escola está transformada no lugar onde, subtilmente, se aprende uma cultura de guerra;
4. Quarta armadilha: a da “subordinação da educação à tecnologia”. Ora, a mundialização é filha do processo tecnológico pelo que resta à educação fornecer os instrumentos de adaptação ao pensamento único;
5. Quinta armadilha: “a utilização do sistema educativo enquanto meio de legitimação de novas formas de divisão social”, isto é, uma sociedade dividida entre qualificados e não qualificados, entre os que dominam o conhecimento e os excluídos desse acesso.
ESTANDARDIZAÇÃO

A Sociedade Industrial estandardizou tudo: os salários, benefícios, horas de trabalho, tempo de repouso, inquéritos, livro de reclamações, currículos, testes de inteligência, normas de admissão, padrões de conhecimento, línguas, pesos, medidas, etc. Também a Escola foi estandardizada. Há elementos que o provam: os sistemas de valores, insígnias, regras, normas, distintivos, emblemas, rituais, cerimónias e crenças que motivam e projectam as actividades escolares. É, podemos dizer, o próprio quadro normativo (o regulamento interno) que, em última análise, acaba por configurar o envolvimento cultural do sistema educativo. A questão que se coloca é a de saber até que ponto se deve estardardizar.
Comentário: Continuam a padronizar as funções, com a consequente formalização consubstanciada em rígidos documentos, manuais, instruções, procedimentos e regras, limitadores da autonomia das escolas e do exercício da função docente, que vão ao ponto de quererem todas as escolas a cumprir o que é ditado por uma pressuposta "cúpula pensante".
MAXIMIZAÇÃO
A Sociedade Industrial deixou-nos a ideia que o grande é belo. Hoje sabe-se que o grande levanta graves problemas de gestão. Grande significa complexidade que em termos organizacionais resulta em ineficiência, burocracia e comunicações estranguladas. Tofller avança com a ideia que a sociedade da 2ª Vaga é portadora de uma macrofilia obsessiva.

Comentário: O grande e se possível o maior tornou-se sinónimo de êxito, de eficiência, de sucesso, de utilidade e de prestígio. Hoje já não pode ser assim. As pequenas unidades destinadas a uma comunidade educativa numericamente pouco expressiva apresentam incalculáveis vantagens. A Escola deixa de ser números para centrar-se nas pessoas, enfim, as relações e o sentido de pertença aumentam.
SINCRONIZAÇÃO
Na Sociedade Agrícola, a sincronia necessária ao trabalho era determinada pelos ritmos da natureza e pelos cantares populares durante as horas de trabalho. O sistema estava ligado à noção de tempo, nas suas diversas categorias, a partir das quais se organizava a vida dos homens e das sociedades. O mundo industrial, esse, passou a ser dominado pela máquina e pelo cronómetro, isto é, um tempo associado ao dinheiro, portanto, a um custo de utilização do tempo. Hoje, assiste-se a uma nova perspectiva do tempo: o desenvolvimento do sector dos serviços; a entrada das mulheres no mundo do trabalho; as novas estruturas familiares; os novos hábitos recreativos e o impacto das novas tecnologias. Tudo isto implicou e implica que, de facto, tenhamos de estruturar a organização do sistema educativo para tempos que são obviamente de mudança contínua.
Comentário: Ora a Escola não está preparada para este novo tempo, pois continua livresca e de "manual de instruções" quando deve ser permeável e situar-se, defendo eu, na teoria da Escola Organizacional Sistémica que tem por mentor Von Bertalanfy (1950/1968). É uma escola que considera mecanismos de retroacção, de imput e output. Estamos, portanto, na Teoria Geral dos Sistemas que considera a organização como um ente vivo que processa informação. Sistema aqui entendido como um conjunto de unidades reciprocamente relacionadas que envolve os conceitos de: propósito ou objectivo a atingir; globalismo, isto é, o sistema com uma natureza orgânica onde qualquer estimulação em qualquer unidade afecte as demais; entropia, isto é, uma tendência para o desgaste, desintegração e aumento do aleatório, o que significa a necessidade de uma permanente alimentação informativa; homeostasia, estabelecido no equilíbrio dinâmico entre as partes do sistema. Significa isto que a Escola deveria constituir-se n
um Sistema Aberto onde se verifiquem relações de intercâmbio com o ambiente. Um sistema destes é adaptativo, não vive no isolamento. Porém, o que hoje se constata é que a Escola está isolada, não consegue adaptar-se pois segue as lógicas em que se fundaram os princípios da Sociedade Industrial.
CONCLUSÃO:
Este Sistema e esta Escola NÃO TÊM FUTURO, pois, globalmente, é uma Escola para dar respostas aos problemas do passado. Nós precisamos de uma Escola que antecipe e de respostas ao futuro!

Domingo, 12 de Julho de 2009

UM GOVERNO QUE NÃO GOVERNA

Três notas retiradas da comunicação social independente (DN) e respectivos comentários:
1ª Esta Secretaria Regional da Educação é uma lástima. Desde há muito que venho a dizer, inclusive no plenário da Assembleia Legislativa Regional, que os apoios da Acção Social Escolar são "verdadeiramente indecorosos". Ainda recentemente apresentei um projecto de Decreto Legislativo Regional sobre esta matéria o qual foi chumbado. Nem baixou à Comissão Especializada para discussão. Dizem ter agora uma nova Portaria a qual, no essencial, vem dar razão ao que então denunciei. Só que fizeram as tabelas de tal forma que as famílias ficavam penalizadas em relação à anterior.
Sublinha o DN: "Tal como o DIÁRIO já havia avançado, e como com o novo sistema algumas famílias iriam pagar um valor mais elevado nas mensalidades das creches, a SREC decidiu rectificar os valores tabelados para cada escalão. Assim, e respectivamente para jardins de infância e creches, as famílias no 1º escalão do AF vão pagar 16 e 19 euros, no 2º escalão 43 e 50 euros (seria 65 e 70), no 3º escalão 71 e 81 euros (seria 107 e 116), no 4º escalão 104 e 120 euros (seria 147 e 163), no 5º escalão 153 e 178 euros (seria 188 e 209) e, finalmente, no 6 e último escalão as famílias vão pagar 200 e 229 euros, quando estava previsto pagarem 208 e 232 euros por mês".
Ora, significa que andam aos papéis, olhando mais para os aspectos economicistas do que preocupados em enfrentar o problema das carências das famílias a braços com extremas dificuldades para manterem os encargos mensais da educação.

2ª O Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa aceitou a providência cautelar que a Associação dos Armadores da Marinha de Comércio e as empresas Vieira e Silveira-Transportes Marítimos e Box-Lines-Navegação apresentaram contra a Naviera Armas, Administração de Portos da Região Autónoma da Madeira (APRAM) e Instituto Portuário dos Transportes Marítimos (IPTM).
No essencial, dois aspectos, entre outros, estão aqui em causa: primeiro, a crónica incapacidade de negociação da Secretaria Regional de Turismo e Transportes para lidar e solucionar o problema do porto do Funchal e dos respectivos transportes; segundo, uma orquestrada movimentação no sentido dos mesmos de sempre continuarem a ganhar fortunas com o porto e em nítido prejuízo dos madeirenses. A este propósito, li um interessante comentário de um leitor do DN: "Está tudo certinho ... Tudo a bater certinho para o Armas ir embora e voltarmos ao monopólio explorador que tinhamos antes! Mais um voto em branco para a urna".

3ª Uma peça jornalística inserta na edição de hoje do DN dá-nos conta que "há mais de oito anos que não nascia um bebé nas Achadas da Cruz, até que a Vitória Sofia, agora com quatro meses, veio quebrar a ausência de natalidade na freguesia.
Com uma população extremamente envelhecida, nas Achadas vive-se o drama da desertificação".

A pergunta que se coloca é esta: afinal, o que andou o governo a fazer durante trinta e três anos para que, hoje, não dispunhamos de uma Região equilibrada aos níveis do desenvolvimento económico, social e cultural?
As vias rápidas, expresso, os túneis, etc. são, de facto, pontos de partida e de chegada mais rápidos. Que tipo de economia econtece nas pequenas localidades e nas freguesias, isso não tem constituído preocupação. E assim vamos envelhecendo, vamos matando o nosso interior, enquanto na Assembleia matam todas as propostas que lá são apresentadas no sentido de corrigir estas insuficiências do planeamento.

A NOVA CENSURA

Vale a pena ler o texto "Análise da Semana" publicado na edição de hoje do DN-M e da autoria do Jornalista Luís Calisto.

(...) A terminar a semana, sexta-feira, já com os acordes do 'baila que baila' e da 'chamarrita' perdidos entre as maçarocas e as varas de feijão, o presidente renascia do próprio cansaço para condenar, aos microfones da RJM a "campanha reles, rafeira e pirosa" do DIÁRIO e da Televisão. Fê-lo durante a inauguração da ExpoMadeira, onde também implorou pela enésima vez aos distraídos empresários que não apoiem "certa comunicação social". Ou seja, que não anunciem no DN. Pouco antes de subir ao Tecnopólo, anunciara a "queixinha" à CNE e à ERC contra a RTP-M. Porque há programas com gente a dar opinião própria, em vez de defender a Madeira (vulgo Jardim). Para a ERC já tinha sido anunciado um pedido: verificar se o DN cumpre o seu estatuto editorial. Sem dúvida que há jornalistas doentes, obcecados, que não largam o homem, que acordam a pensar na arara da Quinta Vigia e adormecem a sonhar que retoiçam numa suite do Sheraton de Bruxelas... sem pagar nada e com ajudas de custos. "As pessoas não podem andar aqui neste clima de tensão permanente, neste clima de boatos, de ofensas, de calúnias, desconfianças", ergueu a voz Jardim, esta semana, temeroso do regime de crápula compressora que o envolve. Ciente de que "isto vai ser três meses de inferno!" Muito custa defender a Madeira jardineira. (...)

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

DIZ A VOZ DO POVO: O QUE TU QUERES SEI EU!

O Presidente do Governo disse que está errado o povo ser impedido de se manifestar sobre matérias constitucionais. E sublinhou que "se há quem tenha medo da expressão da vontade do povo, esse não é democrata. Eu não tenho medo da vontade do povo, porque foi graças à vontade do povo que eu soube o que estava a fazer".
Interessantes estas declarações do Senhor Presidente do Governo Regional, simplesmente porque enquadram-se numa lógica de "com a verdade me enganas" ou, como ouvi num comercial através do You Tube: "é possível contar um monte de mentiras, dizendo só a verdade".
Ora bem, nessas declarações, segundo me apercebi, meteu, pelo meio, a questão do referendo para dissimular a sua primeira preocupação, isto é, que as próximas legislativas nacionais se transformem num "referendo" à Constituição da República. Melhor dizendo, tal como aconteceu em 2007, quando provocou eleições antecipadas, quer agora dar a volta à cabeça do povinho e transformar as legislativas num hipotético "acto referendário" à Constituição, cujo verdadeiro cenário corresponde à sua perpetuação no poder. O "referendo", isto é, a questão de mais autonomia para a Região, serve apenas de mote para levar uma maioria mal informada a mergulhar na onda.
Estou mesmo a ver no próximo Chão da Lagoa, perante trinta ou quarenta mil, a lavagem de cérebro que não será. Diz a voz do povo: o que tu queres sei eu!

A INTERVENÇÃO DA DEPUTADA JÚLIA CARÉ

Como soe dizer-se, clarinho como água. O Dr. Jaime Gama adivinhou o que a Drª Júlia Caré iria dizer ao plenário da Assembleia da República naqueles dez minutos regimentais a que tem direito. Aqui fica o texto da sua excelente intervenção.
SENHOR PRESIDENTE
SENHORAS E SENHORES DEPUTADOS
Invocando a dupla celebração, ocorrida no passado dia 1 de Julho, dia da Região Autónoma da Madeira e da sua descoberta, quero em primeiro lugar, prestar homenagem aos cidadãos Madeirenses e Portosantenses, o povo “humilde, estóico e valente” cantado no Hino Oficial da Região, os que enfrentando as “vagas procelosas” da miséria, “se fizeram ao mar” e têm afirmado a gesta portuguesa e insular “por esse mundo além”.
Quero aqui render-me aos primeiros povoadores. Partindo dos confins ocidentais da Europa, dali de onde “a terra acaba e o mar começa”, rumo ao desconhecido, eles aportaram à primeira terra descoberta, e, à custa de muitas vidas, sangue, suor e esforço humano conquistaram e domaram a orografia do terreno, “do vale à montanha e do mar à serra”, de degrau em degrau, à semelhança dos “passos de gigante” do Douro de Miguel Torga.
A História do povoamento da ilha simboliza-se no contraste entre a beleza extrema da paisagem e o processo doloroso da sua humanização. O agricultor madeirense, antes de o ser, foi cabouqueiro e arquitecto. Foi vítima da prepotência de certos senhorios, mártir e escravo da terra, de onde lhe advém uma certa atitude servil, moldada por séculos de colonia, um sistema agrário de regulação da propriedade rural, que se manteve na Madeira até ao 25 de Abril!
O romance de reivindicação social “A Canga” do escritor madeirense Horácio Bento de Gouveia, denuncia bem a problemática social e humana que subjaz a este regime de exploração da terra.
A colonia foi um dos quadros reguladores da sociedade, condicionou a vida da esmagadora maioria da população, marcada por profundas assimetrias. É natural que os seus efeitos ainda permaneçam no inconsciente colectivo. Talvez seja preciso falar mais da colonia, exorcizá-la.
Um quadro comum marcou durante séculos a vida madeirense em ciclos de monoculturas agrícolas para exportação, épocas de crise, fome, sublevação popular, emigração, morte. Em consequência, desde o século XVII, muitos foram forçados a fugir do arquipélago, em busca de sobrevivência, iniciando a epopeia da diáspora madeirense pelo mundo.
O desejo de autonomia, contra o centralismo do Governo em Lisboa surgiu sempre no corolário de graves crises sociais e económicas. A promulgação do Monopólio Cerealífero em Fevereiro de 1931, deu origem à Revolta da Farinha, a 4 de Abril, a primeira sublevação nacional contra a Ditadura. Tivesse tido o desejado apoio por parte de forças políticas da oposição de então no resto do país, bem como de solidariedade do exterior e talvez tivesse alterado o rumo da nossa História recente!
Salazar nunca perdoou aquela revolta, cobrando um punitivo imposto de guerra e impondo à Madeira outros dois monopólios: em 1934, o monopólio da cana sacarina à fábrica do Torreão, dominada pela família Hinton e em 1936 o monopólio do leite, através da Junta dos Lacticínios, dando origem à revolta do leite, ignorada pela imprensa nacional de então. Falta ainda verdade histórica ao contexto das revoltas dos anos 30 do século XX na Madeira, episódios da nossa História comum, de que falam os escritos de muitos intelectuais madeirenses.
A autonomia não aliena a qualidade de ser português, mas dá à região regionalizada foros de se governar por si mesma. Esta ideia de auto-governo remonta a antes do séc. XVIII, aprofunda-se com o liberalismo ao longo dos sécs. XIX e XX, balançando sempre entre o desejo de Autonomia Administrativa e Política. Teses que ganharam força política, após a Revolução do 25 de Abril, defendidas por todas as forças partidárias da esquerda à direita, concretizadas com a conquista da democracia.
Beneficiando de apropriadas condições políticas, económicas e financeiras nas últimas décadas, a Madeira tem sido objecto de notório desenvolvimento visível nas muitas estradas, escolas, centros de saúde, complexos culturais, desportivos e turísticos, rede eléctrica, saneamento básico, rede de transportes, progresso infra-estrutural que tem libertado a Madeira do estado de subdesenvolvimento extremo a que esteve votada durante séculos.
Esta vaga de desenvolvimento não tem todavia nada de estranho; é uma consequência do processo de regionalização e da conquista da Autonomia. É o resultado da legitimidade democrática adquirida em processos eleitorais, de ter orçamento próprio, beneficiar de verbas comunitárias, transferências orçamentais, ter capacidade de endividamento. Em toda a sua história, nunca a Madeira dispôs de tantos recursos! Foi para isto que aconteceu Abril e se implantou a Democracia em Portugal!
Resta saber, é se esse desenvolvimento representa para todos os madeirenses, a tal medida desejada durante anos, que iria permitir potencializar as riquezas e recursos naturais desta terra. Ou se não se trata de mais um ciclo semelhante a outros caracterizados pelo império de monopólios, a contento do poder de certas classes sociais da ilha; foi assim com o açúcar, o vinho, o monopólio cerealífero, lacticínio.
Será que estamos perante o ciclo do monopólio do betão? É que às grandes obras do litoral madeirense, os enrocamentos, as promenades, a profusão de túneis, as marinas tecnicamente mal concebidas, sem condições de utilização (Lugar de Baixo – Ponta de Sol) há que adicionar o caos urbanístico, a construção anárquica, inquietantes manchas negativas na nossa bela paisagem e atentados ao equilíbrio natural, enfim tudo o que constitui a orgulhosa marca do modelo de desenvolvimento da chamada Madeira Nova.
A Madeira hoje, passados três décadas de governação autónoma, com maioria absoluta, sempre do mesmo partido, continua a caracterizar-se por uma sociedade marcadamente desigual. Em época de crise, apresenta uma indústria turística a perder mercado, desemprego galopante, na ordem dos 12%, alarmante pobreza, recessão económica e emigração como resposta, sendo quase sempre as mesmas classes sociais a terem que abandonar a ilha em busca de sobrevivência. Dir-se-ia que por um sortilégio qualquer de um Deus zangado, só há oportunidades na ilha para uns quantos, numa injusta dicotomia de filhos e deserdados da sorte. Como entender isto em democracia?
É incontornável um balanço a esta legislatura, no que à acção do governo na esfera de competência do Estado para as regiões diz respeito. Cabe aqui abrir um parêntesis sobre a Lei das Finanças Regionais, que consagra a legítima aspiração autonomista madeirense de gerir todas as receitas fiscais próprias em seu benefício, bem como as responsabilidades do Estado, no quadro constitucional vigente, designadamente os custos de insularidade.
O PIB, indicador utilizado para o cálculo das transferências orçamentais do Estado penalizou duplamente os Madeirenses: nas verbas comunitárias e na actual Lei de Finanças provocando um “corte” nas verbas disponibilizadas, argumento utilizado como “roubo” nas eleições regionais antecipadas de 2007.
Sabia-se ser este PIB (21%) não a realidade do bem-estar madeirense, mas a consequência da existência da praça financeira da Zona Franca off-shore, ou a sua feira de vaidades. Discute-se hoje a nível internacional a utilização deste indicador, como índice de riqueza de um país. Veja-se as directivas europeias sobre as ultraperiferias.
É censurável o seu uso no cálculo das verbas do Orçamento de Estado a que a Madeira tem direito, em prejuízo de todos os cidadãos madeirenses e portosantenses. Poder-se-ia ter usado outro indicador, o índice do poder de compra ou o produto nacional. Mas quem foram ou são os responsáveis por esta mistificação financeira? Quem é que andou a apregoar aos quatro ventos que a Madeira era a Região mais rica do país, usando este argumento embuste como bandeira para ganhar eleições e afirmar-se no poder?
O Centro Educativo da Madeira é um equipamento dependente do Ministério da Justiça, há demasiado tempo desejado, pensado, criado. Concluída a sua instalação física na freguesia do Santo da Serra, em Setembro de 2005, ainda não entrou em funcionamento, quatro anos decorridos.
O Governo Regional sempre se manteve à margem desta questão, recusando propostas de tutela conjunta que permitissem o arranque desta importante infra-estrutura, da responsabilidade do Estado, na recuperação e reintegração social de jovens delinquentes. Não houve acordo entre as autoridades regionais e nacionais e o equipamento referido, concluído, faltando apenas a componente técnica humana, está a degradar-se, enquanto os jovens delinquentes oriundos da Região continuam a ser enviados pelos tribunais para Centros Educativos do Continente, com todos os inconvenientes sociais.
A liberalização do transporte aéreo, reivindicada pelas autoridades regionais como um indispensável factor de competitividade para a indústria turística da Região, apresenta novos condicionalismos, não acautelados previamente, para os cidadãos da Madeira e Porto Santo: a questão das épocas altas, o estatuto de residente, o pagamento de penalizações, arbitrariamente impostas pela transportadora, em caso de alteração do bilhete emitido e ainda o não reembolso do bilhete quando há cancelamento da viagem. Qualquer coisa que parece chocar com os direitos do consumidor.
Toda esta questão afecta de uma maneira muito especial os estudantes universitários, da Madeira e não só. Desapareceu a anterior tarifa de estudante e a situação difere, consoante a viagem se realiza entre a Madeira e Lisboa, ou o Porto, havendo famílias a terem de pagar viagens dos filhos sempre acima dos 300 euros. É isto “low cost”?
SENHOR PRESIDENTE,
SENHORAS E SENHORES DEPUTADOS:
A situação actual da Madeira é – para o bem e para o mal – o resultado da governação de trinta anos de Autonomia, pelo mesmo partido, sempre com maioria absoluta. Mais do que a disputa financeira entre a Madeira e o Continente, mais do que a reivindicação de infinitas revisões constitucionais, exerça-se as competências consagradas no Estatuto Político Administrativo da Região Autónoma da Madeira, à semelhança dos Açores. Já não cola o esbracejar contra “os colonialistas de Lisboa”; os Madeirenses sabem que eles (se ainda existem) estão a mais de 900Km de distância. Têm todavia no seu inconsciente colectivo as marcas de um outro colonialismo de séculos, próximo, humilhante, o dos senhorios, do qual precisam libertar-se para, então sim, usufruírem de uma verdadeira Autonomia.
Deputada
Maria Júlia Gomes Henriques Caré

JAIME GAMA - PARTE III

Mais uma do Dr. Jaime Gama. Melhor dizendo, mais um jeitinho do Dr. Jaime Gama à maioria que governa a Madeira. Primeiro, foram as declarações no decorrer do Congresso da ANAFRE onde classificou o presidente do governo regional de "notável" e, entre outras coisas, responsável por uma "conquista extraordinária" e por "feito ímpar". Depois, foi a sua visita oficial à Madeira a pretexto de nada mas, novamente, custa-me assumir isto, numa claríssima colagem ao poder regional. Agora, em fim de mandato, depois de confirmado, nega uma intervenção à Deputada Júlia Caré, solicitada há mais de dois meses.
Uma intervenção onde iria falar da Madeira e da Autonomia, daquilo que muitos não sabem ou preferem ignorar. Uma intervenção que seria porventura incómoda porque a Deputada sempre se deixou guiar pela sua consciência, pelos princípios e valores que defende e não pelos interesses de grupo. A sua proximidade ao Deputado Manuel Alegre terá também pesado na decisão. Talvez.
A verdade é que o "socialista" Jaime Gama preferiu calar a voz que, eventual e indirectamente, poderia colocar em causa as suas declarações feitas na Madeira de evidente branqueamento da acção política do governo regional, depois de, muitos anos antes, ter classificado o presidente do governo regional de "Bokassa". De facto, há aqui qualquer coisa de mais profundo que, na falta de elementos, não consigo entender. Mas que é esquisito, lá isso é.
Fica por esclarecer se a situação fosse ao contrário, se fosse um Deputado do PSD a solicitar a palavra para falar da Madeira, se não lhe teria concedido a palavra! Não sei. O exercício da política, com todos os seus contornos e jogos criam-me repulsa.
Nota:
A entrevista (22.03.09) concedida ao DN-Madeira pela Drª Júlia Caré à qual ontem se referiu do Dr. Jaime Gama, pode ser lida aqui.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

TRÊS "AVC" POR DIA

São cerca de 1.200 casos por ano. Uma média de três pessoas por dia sofrem um "acidente vascular cerebral", número que torna a Região da Madeira líder, pela negativa, relativamente à estatística nacional. Aliás, constitui a principal causa de morte em Portugal e não só. Nos Estados Unidos verifica-se um AVC a cada quarenta segundos. Pelas estatísticas verifica-se que estes acidentes estão entre as três causas de morte em todo o mundo. Ora, isto tem razões mais profundas para além do conhecimento empírico traduzido nos valores da pressão alta, na deficiente alimentação, na diabetes, altos valores de colesterol e triglicéridos, consumo de tabaco, álcool e na falta de exercício físico, factores estes que, genericamente, todos dominam. Interessa, pois, independentemente até, de eventuais causas de natureza genética, entre muitas outras, perceber as razões que subjazem nos factores predisponentes ou catalizadores dos AVC.
Da leitura cruzada que faço da imensa documentação existente e dos muitos autores que sobre estas matérias se debruçam, um traço comum os une: uma larguíssima percentagem poderia ser evitada se outra fosse a organização social e a correspondente responsabilidade política. E podemos começar pelo mundo do trabalho e pelas leis laborais. Pelo trabalho cada vez com maiores deveres e cada vez com menos direitos, onde floresce o emprego instável e uma cega exigência pela rentabilidade sem pagamento das horas extraordinárias, com baixas remunerações face aos altos custos de vida. Podemos começar por aí e pela peregrina frase de Tom Peters, um guru da gestão: "nada haverá mais certo no futuro que o emprego incerto". Cruzemos a profundidade desta síntese com as consequências que daí derivam: o stress, as angústias, o refúgio nas dependências.
Depois, esta desmesurada sociedade de consumo, a lógica em que se funda, onde o ter se sobrepõe ao ser. Ben H. Baddikian, citado por Jorge de Campos, in A Caixa Negra, pág. 106, sublinha que "os senhores da aldeia global têm a sua própria agenda política e resistem a quaisquer mudanças económicas e sociais que não se ajustem aos seus interesses financeiros. Juntos eles exercem um poder homogeneizante sobre as ideias, a cultura e o comércio que afectam as maiores populações de que se tem conhecimento desde sempre. Nem César, nem Hitler, nem Roosevelt nem qualquer Papa tiveram tanto poder como eles para moldar a informação da qual tantas pessoas dependem para tomar decisões sobre as mais variadas matérias: desde em quem votar até ao que comer".
Na verdade hoje somos vítimas da gestão das mentes e isto acaba por ter influência directa no comportamento colectivo. A sociedade é conduzida e nem disso se dá conta. Não se trava o consumo do tabaco, porque o imposto rende e muito aos cofres públicos; não se acaba com o "vinho seco" ainda na lógica de Salazar que disse: "beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses"; gasta-se milhões do desporto profissional para alimentar alguns egos e estupidificar a população, mas não se desenvolve a mentalidade que o desporto é cultura e que deve fazer parte dos nossos hábitos; trazem mais automóveis para dentro das cidades e criam parques de estacionamento ao contrário de as libertar através de ciclovias e do Park & Ride.
E, no meio de tudo isto, o excesso de peso. Por exemplo, segundo um estudo da IOT (Internacional Obesity Task-Force) o excesso de peso “é a doença infantil mais comum na Europa com uma prevalência assustadora em crianças com idades próximas dos dez anos”. Em Portugal “uma em cada três crianças já sofre de obesidade, o que coloca Portugal entre os primeiros lugares da lista de países europeus com maior incidência da doença”. Mas o problema não se coloca apenas ao nível do 1º ciclo do Ensino Básico. Um estudo de investigadores dinamarqueses, que abrangeu perto de 30 mil jovens de 15 países, revelou que os Estados Unidos são o país com mais adolescentes com excesso de peso. Portugal, Grécia e Irlanda estão logo a seguir dos valores norte-americanos, nos jovens entre 13 e 15 anos. A obesidade foi declarada uma ameaça global pela Organização Mundial de Saúde, podendo originar doenças cardiovasculares e diabetes, entre outras. Entre 50 a 80 por cento dos adolescentes obesos tornam-se adultos obesos. Daqui se pode inferir que a saúde não pode ficar à margem da escola. Só que, neste momento, salvo raras excepções, os projectos educativos não contemplam substantivas preocupações daquela natureza, não fomentam estilos de vida activos saudáveis, nem vinculam os alunos a práticas regulares de actividade física durante o crescimento. Estas crianças que andam aí correm sérios perigos, são estes os potenciais candidatos a um AVC. E quem tem a responsabilidade de governar não tem demonstrado sensibilidade e responsabilidade para atacar as verdadeiras causas que subjazem ao facto de liderarmos tão assustadora estatística.

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O AUMENTO DA VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS REFLECTE A CRISE DE AUTORIDADE FAMILIAR

Basta acompanhar os investigadores em Educação ou, então, viver o dia-a-dia do sistema educativo, particularmente, o que se passa rotineiramente nos estabelecimentos de ensino, para apercebermo-nos que a indisciplina e a violência estão em crescendo. Tenho feito sentir isso mesmo nas minhas intervenções no plenário da Assembleia Legislativa da Madeira. Em vão, porque, do outro lado, uma maioria cega apenas tem como missão defender o governo que suporta. São dezenas de intervenções no sentido de fazer ver a necessidade de uma séria actuação a montante do sistema (na família, isto é, na sociedade) e a jusante, na Escola, através da reinvenção do sistema educativo no plano organizacional, curricular e programático. O problema, infelizmente, é que este governo regional em matéria de política educativa, já demonstrou que não tem unhas para tocar o instrumento da Educação. Mas fiquemos por este interessante comentário:
Especialistas em educação reunidos na cidade espanhola de Valência defenderam ontem que o aumento da violência escolar deve-se, em parte, a uma crise de autoridade familiar, pelo facto de os pais renunciarem a impor disciplina aos filhos, remetendo essa responsabilidade para os professores. Os participantes no encontro "Família e Escola: um espaço de convivência", dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas. "As crianças não encontram em casa a figura de autoridade", que é um elemento fundamental para o seu crescimento, disse o filósofo Fernando Savater. "As famílias não são o que eram antes e hoje o único meio com que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa", sublinhou. Para Savater, os pais continuam "a não querer assumir qualquer autoridade", preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos "seja alegre" e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinador quase exclusivamente para os professores. No entanto, e quando os professores tentam exercer esse papel disciplinador, "são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os", acusou. "O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente, não tem razão para depois se ir queixar", sublinhou o filósofo. Há professores que são "vítimas nas mãos dos alunos". Savater acusa igualmente as famílias de pensarem que "ao pagar uma escola" deixa de ser necessário impor responsabilidade, alertando para a situação de muitos professores que estão "psicologicamente esgotados" e que se transformam "em autênticas vítimas nas mãos dos alunos". A liberdade, afirmou, "exige uma componente de disciplina" que obriga a que os docentes não estejam desamparados e sem apoio, nomeadamente das famílias e da sociedade. "A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara", afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, "uma oportunidade e um privilégio". "Em algum momento das suas vidas, as crianças vão confrontar-se com a disciplina", frisou Fernando Savater.Em conversa com jornalistas, o filósofo explicou que é essencial perceber que as crianças não são hoje mais violentas ou mais indisciplinadas do que antes; o problema é que "têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos". "Deixaram de ver os adultos como fontes de experiência e de ensinamento para os passarem a ver como uma fonte de incómodo. Isso leva-os à rebeldia", afirmou.Daí que, mais do que reformas dos códigos legislativos ou das normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade, admitindo Savater que "mais vale dar uma palmada, no momento certo" do que permitir as situações que depois se criam. Como alternativa à palmada, o filósofo recomenda a supressão de privilégios e o alargamento dos deveres.
NOTA:
Texto enviado por e.mail por Helder Melim, Colega de profissão.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

CONTA-NOS LÁ OS TEUS FEITOS...

Não há decoro, bom senso, humildade e respeito pela História. Entrámos no domínio do vale tudo, do lambotismo político e da subserviência. Ontem, pela televisão, assisti ao descerramento de uma placa toponímica que identifica a Rua Engº Santos Costa. Foi em Machico. Comovido, com as lágrimas nos olhos, o Secretário Regional do Equipamento Social agradeceu.
A situação, confesso, não me deixou boquiaberto mas, sinceramente, não esperava que o desplante fosse tão longe. Afinal, o que fez o Engº Santos Costa para tamanha distinção? Que contributos distintos e ímpares, que méritos lhe são reconhecidos para figurar para todo o sempre entre os mais ilustres madeirenses, mesmo entre aqueles nascidos em Machico? A resposta a estas perguntas é que me deixa perplexo. Ou talvez não!
Pode ser por ignorância minha, isto é, pelo desconhecimento do seu currículo de vida. Terá sido, até agora, um Homem defensor de causas nobres, um Homem com vida de doação à sociedade para além da intervenção política, um Homem que deixa obra nas ciências, nas letras ou nas artes, enfim, qualquer coisa que nos leve a curvar perante a sua relevância entre todos nós que por aqui andamos? Desconheço. Se sim, numa terra tão pequena há muito que, certamente, se conheceria o seu eventual brilhantismo.
Continuo por isso a sublinhar, talvez por ignorância minha, repito, o que sei do Engº Santos Costa é que ele desempenha um cargo político e, nessa qualidade, injectou milhões de euros em Machico para a realização de obras que nunca foram possíveis operacionalizar pelas administrações socialistas, por negação de financiamento e, muito lá para trás, pelo estrangulamento que impuseram no âmbito do Protocolo de Reequilíbrio Financeiro, devido ao sobreendividamento causado pelas administrações do PSD. E hoje, o que se verifica é que as obras da responsabilidade da autarquia continuam a ser poucas mas as obras da responsabilidade do governo são algumas, apenas para fazer crer à população que com o PSD Machico não estagnou!
Só que o dinheiro é de todos nós, dos nossos impostos, não é pertença do Engº Santos Costa ou do governo regional. E ele, enquanto político ou o governo no seu todo, não fazem mais do que o seu dever de proceder a aplicações que garantam crescimento, desenvolvimento e bem-estar. Só que, obviamente, isso não chega como elementos curriculares determinantes para a perpetuação de um nome nas gerações vindouras.
E atenção, este meu texto não tem nada de pessoal, tem apenas de constatação de factos e de, enquanto cidadão, entender que deve existir um rigoroso critério na atribuição de distinções desta e de outra natureza.

A PROPÓSITO DE OFENSAS E DE CALÚNIAS

Sublinhou o Senhor Presidente do Governo Regional: “Eu não admito que me ofendam, não admito que me caluniem (...) se pensam que vão utilizar a comunicação social para uma espécie de vale tudo, para pôr em causa e perturbar a vida da Região, garanto-lhes que vão ter de se defrontar com os tribunais”.
Desde logo, ninguém tem o direito de ofender e caluniar seja lá quem for. O confronto das ideias, as posições que se assumem, o direito à diferença e até à indignação perante situações e factos devem ser geridos de uma forma contundente mas com dignidade, respeito institucional e sobretudo elevação no que sai boca fora. Rejeito, liminarmente, a ofensa, a calúnia, a palavra dita com subtileza mas eivada de maldade e de espezinhamento do adversário. Eu sei isso o que significa!
O curioso da posição do Senhor Presidente do Governo é que, demonstra todo o historial, é precisamente ele o político que mais tem ofendido e gerado situações muito desagradáveis junto dos visados. Todas essas ofensas estão documentadas e, por decoro, evito aqui a sua publicação. Mas muitos foram visados, desde Órgãos de Soberania e respectivos titulares, figuras partidárias de relevo nacional e regional, enfim, a listagem construída ao longo de trinta anos é longa e muito pouco abonatória para quem agora vem ameaçar com os Tribunais todos aqueles que ofendam e caluniem.
Depois, questiono, sobre o que significará para o Senhor Presidente do Governo a expressão "(...) perturbar a vida da Região". Será ter uma opinião diferente e por ela, democraticamente, lutar? Será esta uma forma, também subtil, de ameaça, de fazer calar os adversários políticos e até a própria sociedade evitando"chatices". No essencial o que me parece que está aqui em causa é a razão da força contra a força da razão; o que está em causa é, num momento cada vez mais difícil para a Administração Regional Autónoma, as atitudes de velado condicionamento dos livres-pensadores. É isto que está em causa, porque qualquer pessoa tem noção das suas atitudes e dos seus actos. No caso em apreço é evidente que o Presidente do Governo tem espelho e memória suficiente sobre o seu passado de sistemática agressão aos adversários políticos e a todos aqueles que se lhe opuseram em termos políticos. O aperto pela sobrevivência política é já tão significativo que, julgo eu, isto acaba mal. Ninguém suporta tanto constrangimento porque a liberdade e a democracia são determinantes na nossa vida, eu diria que fazem parte do ADN do ser humano.

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

CUIDADO, OS CANDIDATOS NÃO SÃO PEÇAS DESCARTÁVEIS

Discordo da decisão do PS Nacional relativamente às designadas candidaturas em duplicado, isto é, candidatos que se disponibilizam para uma autarquia e, simultaneamente, para as legislativas nacionais.
Discordo, sobretudo, pelo timing em que esta decisão foi tomada. Não é o princípio que está em causa mas o momento em que a decisão foi tomada. Não é a três meses das eleições que se definem ou alteram as regras do jogo. Simplesmente porque houve pessoas, sobretudo independentes, que foram convidadas, que assumiram esse compromisso e essa responsabilidade de corpo inteiro e que agora podem ser atiradas para situações muito particulares e difíceis de gerir.
Na política há um aspecto que há muito defendo e que constitui um princípio basilar na relação de confiança e de segurança que devem nortear os convites: antes do exercício da política activa os convidados a integrarem o mundo da política têm profissão e têm família. E estes dois aspectos devem estar sempre presentes sob pena dos candidatos ao exercício da política serem transformados em peças descartáveis, com as consequências que daí normalmente derivam. Sei o que isso representa e tenho aconselhado alguns a medirem os passos que dão.
Até porque, sobretudo na Madeira, quem, com toda a generosidade e convicção faz uma opção não concordante com o pensamento maioritário, sabe que o fracasso eleitoral poderá determinar um duríssimo revés na carreira profissional, empresarial ou outra com evidentes prejuízos na família. Este poder regional, enquanto permanecer, não desculpa nem perdoa. A "prateleira" e a subtil perseguição existem. Aliás, na expressão do presidente do governo, esse comportamento designa-se por perseguição "raffiné". É o tal "défice democrático" que alguns não entendem ou fazem por não entender.
Por isso, cuidado, as pessoas não são peças descartáveis e devem merecer o máximo de respeito. E aquilo que sei da história dos processos, inclusive, recentes, elas não têm sido respeitadas.

Domingo, 5 de Julho de 2009

GESTOS E ATITUDES

Leio no PÚBLICO que a publicação de fotos de Berlusconi poderão vir a ensombrar a próxima reunião do G8 que terá lugar que de 8 a 10 de Julho em L'Acquila.
"Decorre uma autêntica corrida ao trabalho de Antonello Zappadu, que fez 5.000 fotografias dos convidados do actual primeiro-ministro em Villa Certosa, na Sardenha, durante os anos de 2007 e 2008, quando ele era chefe da oposição, noticia hoje "The Sunday Times", segundo o qual esta documentação poderá embaraçar Berlusconi nos dias que antecedem a cimeira dos principais países industrializados". Algumas dessas fotos são conhecidas pois circulam na Net.
Este meu post tem apenas a ver com os últimos acontecimentos na Assembleia da República e que ditaram o afastamento, por idêntico gesto, do ex-ministro da Economia Manuel Pinho. Sobre esta lamentável atitude já me pronunciei. Considero-a lamentável. Como são lamentáveis os que acontecem, rotineiramente, na Assembleia Legislativa da Madeira e que passam sem a mínima crítica, repúdio e consequências políticas. Manuel Pinho não é o "rei dos gestos". Prova-se.
Agora, o que me parece claro é que um político, seja qual for o seu patamar de intervenção no processo político, tem de constituir um exemplo.
Eu sei que é difícil o debate político e que, muitas vezes, exige "nervos de aço" perante a maldade das palavras ditas, a baixeza do significado, ter de ouvir ofensas do mais reles e ordinário, suportar comentários sobre a vida privada das pessoas, enfim, é difícil aguentar quando a mentira e a deturpação dos factos constitui, vezes sem conta, a primeira linha da argumentação política. Mas mesmo assim necessário se torna uma atitude de elevação seguindo o princípio que as palavras e os gestos ficam com quem as diz e os pratica. Este é um aspecto. O outro é que, um pouco por todo o lado, para além dos gestos, das palavras e das atitudes, são os próprios políticos que estão a dar cabo da sua própria imagem, não só pelo que dizem e fazem mas também pelas indecorosas ligações corruptas num salve-se quem puder que conduz à sua total descredibilização. Olhemos em redor e tenhamos consciência do que por aí, há muito, acontece. Eu sou adepto de umas "MÃOS LIMPAS", custe o que custar e doa a quem doer.

VINHO SECO E ELEIÇÕES

O governante seguindo orientações da União Europeia e, certamente, vozes de especialistas, decidiu elaborar uma Portaria que, a prazo, colocaria um ponto final no designado Vinho Seco.
De imediato levantaram-se os homens do negócio fácil e a Portaria foi colocada na gaveta. Dizem as "más línguas" (serão?) que o facto de se aproximarem eleições este não seria o melhor momento para acabar com tal vinho a retalho. Apenas sei e retenho o que dizem os especialistas desde há muitos anos. Pela sua importância transcrevo uma parte de uma peça jornalística inserta na edição de ontem do DN-M:

"O enólogo Francisco Albuquerque explica que "as castas americanas vendidas ao produtor directo estão condenadas pela UE devido à sua fermentação, já que são muito ricas em tectinas. Quer isto dizer que, durante a fermentação das uvas, estas sofrem uma acção enzimática que produz muitos tipos de álcool superior, nomeadamente o metanol." Mas há outros problemas. Francisco Albuquerque observa que as mesmas castas "têm um pigmento corante chamado malvidina, que é altamente tóxico e que ataca o sistema nervoso central, inclusive com características genéticas". Face a isso, o enólogo considera que a venda a retalho "deveria ser suspensa porque não há controlo". (...) O médico psiquiatra Saturnino Silva fez estudos sobre o alcoolismo na Madeira. Instado pelo DIÁRIO a opinar, considera que "o vinho seco faz parte de determinadas castas com uma percentagem maior de malvidina, substância tóxica para o cérebro, pelo que não é aconselhável que se beba muito." Além disso, sublinha, "quanto mais barato for o preço das bebidas alcoólicas mais são consumidas." De resto, afirma que "todas as medidas destinadas a reduzir o consumo de álcool são sempre bem acolhidas".

O governo assim não entende. Não respeita e, por isso não acerta com os ensinamentos técnico-científicos relativamente ao consumo de bebidas alcoólicas, mas também não acerta com o consumo do tabaco. A lógica parece filiar-se no princípio: tabaco, vinho seco, bolo do caco e baile pesado. Os dois primeiros intoxicam e, a prazo, impossibilitam o raciocínio; o bolo do caco enche e o baile pesado convém pela postura curvada!
Vá lá saber-se porquê e se isto tem ou não a ver com eleições!
Nota:
Na foto, o Enólogo Engº Francisco Albuquerque.

Sábado, 4 de Julho de 2009

ACÇÃO SOCIAL ESCOLAR: PRIMEIRO CHUMBAM E, DEPOIS, APRESENTAM COMO NOVIDADE SUA!

São sempre os mesmos comportamentos.
Em 28 de Outubro de 2008 apresentei na Assembleia Legislativa da Madeira um Projecto de Decreto Legislativo Regional que instituia um novo regime da Acção Social Escolar na Madeira, para entrar em vigor no ano lectivo de 2009/10. Transcrevo aqui os dois primeiros Artigos do citado projecto que contemplava vinte e dois Artigos:
Artigo 1º
Objecto

O presente diploma enquadra as condições de concessão dos apoios integrados no sistema de acção social escolar às crianças que frequentem a valência de creches e de educação pré-escolar, ensino básico e secundário, recorrente e ensino profissional e artístico, do sistema público e, com as necessárias adaptações, aos alunos dos estabelecimentos de ensino particular e cooperativo em regime de associação com o sistema público.
Artigo 2º
Princípios orientadores

1. Como forma de garantia da justiça social na distribuição dos apoios da acção social escolar, os montantes a atribuir a cada aluno são determinados em função da situação sócio-económica do agregado familiar.
2. Para efeitos de comparticipação, os alunos são integrados de acordo com os escalões de abono de família em vigor, apenas sendo necessária, no acto de candidatura, a prova do escalão a que pertence passada pela entidade respectiva.
3. Os rendimentos visando a atribuição do escalão, resultam da soma dos rendimentos anuais ilíquidos de cada elemento do agregado familiar, baseado no seguinte critério:
a) Ao primeiro e segundo escalões acresce uma bonificação de 20%;
b) Ao terceiro e quarto escalões acresce uma bonificação de 10%;
4. Os escalões a que se refere os números anteriores, a respectiva caracterização e desenvolvimento regulamentar são fixados por Portaria da Secretaria Regional da Educação.
5. Para além das comparticipações das famílias, não podem ser exigidas ou solicitadas contribuições pontuais ou outras, a qualquer título, inclusive, pela realização de actividades curriculares de qualquer natureza.
6. Têm direito a beneficiar dos apoios previstos no presente diploma, os alunos oriundos de agregados familiares que se encontrem na Madeira e em processo de legalização, matriculados condicionalmente, desde que, através dos recibos de vencimento, comprovem que se encontram nas condições de ser integrados nos escalões 1 ou 2 do abono de família.
7. A componente educativa de todas as áreas constantes do Artigo 1º é gratuita.
8. A componente social é gratuita no 1º e 2º escalões da Acção Social Escolar e comparticipada nos restantes e em todas as áreas constantes do Artigo 1º.

O PSD-M chumbou liminarmente este Projecto que se baseava, precisamente, nos escalões do Abono de Família. Leio hoje no DN (não constituiu novidade porque já se sabia que isto iria acontecer) que o governo regional vai implementar um novo regime baseado no Abono de Família pois, sublinha, "trará um maior rigor no apuramento das mensalidades". Ao invés de terem aprovado na generalidade e discutido, em sede de Comissão Especializada, os pormenores do projecto apresentado pelo PS-M, não, CHUMBARAM e, agora, nove meses depois, apresentam uma proposta no mesmo sentido. Eu, por aquilo que sou jamais faria trapaças políticas desta natureza. É por estas e outras que o Povo se diz farto dos políticos e dos pseudo-políticos. Este é mais um exemplo da Democracia à moda da Madeira. Como alguém já referiu é caso para continuar a dizer: "vão gozando a "guerra" que quando houver paz será muito difícil sobreviverem".

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

"O RESPEITO PELAS INSTITUIÇÕES É UM PRINCÍPIO SAGRADO DA DEMOCRACIA"

O Tribunal de Contas acaba de divulgar uma auditoria à Empresa Jornal da Madeira e relativa a 2007. O Tribunal concluiu que, nesse ano, os prejuízos acumulados foram de 33 milhões de Euros (29,2 milhões de resultados transitados mais 3,8 milhões de resultados líquidos, o que conduziu a Região a um apoio acumulado de 23,4 milhões. Vale a pena ler o relatório.
Não se trata de assunto novo. O tema Jornal da Madeira é conhecido e constitui uma vergonha relativamente à gestão dos dinheiros públicos, por um lado, porque contraria toda a lógica de mercado, isto é, a livre concorrência, onde todas as empresas de comunicação social devem funcionar em igualdade de circunstâncias e sem protecção do orçamento da região, por outro, porque as prioridades da Madeira e do Porto-Santo são tantas que andar a gastar, há dezasseis anos, salvo erro, num órgão de propaganda do governo e de um partido, não tem qualquer qualquer justificação e perdão político.
Ainda hoje, a propósito do que ontem se passou na Assembleia da República, o Presidente da República foi muito claro numa declaração que se aplica a múltiplas situações, inclusive, à relação do governo regional com o Jornal da Madeira: "O RESPEITO PELAS INSTITUIÇÕES É UM PRINCÍPIO SAGRADO DA DEMOCRACIA". Ora, o governo ao manter um Jornal para a sua própria propaganda, obviamente que está a faltar ao respeito pela instituição governo e está, por extensão, a fazer tábua rasa dos princípios que devem enformar a Democracia. Considero, por isso, o caso Jornal da Madeira, um acto de continuada ausência de bom senso e de falta de respeito na gestão dos dinheiros públicos que têm origem nos impostos que pagamos.
Só a verba de 3,8 milhões aplicada em 2007, dividida por 10.000 madeirenses que auferem pensões de miséria, daria para um apoio mensal suplementar de cerca de € 31,60 a cada um. E se formos a juntar tanto desperdício que por aí acontece, é óbvio que podia o governo chegar a um apoio aos 30.000 que auferem pensões abaixo do salário mínimo. Mas é preciso que se recorde que, na Assembleia, propostas no sentido de um apoio aos mais carenciados têm sido, sucessivamente, chumbadas, mas para a propaganda nunca falta. Depois queixam-se que o Cónego Manuel Martins fale de pobreza!

QUEM MAIS INSTRUMENTALIZA!

Acabo de escutar uma declaração do Senhor Presidente do Governo Regional na qual sublinhou o facto do Estado encontrar-se "instrumentalizado" pelo governo da República. Interessante o desplante com que se diz isto para consumo político interno, obviamente, como se todos fossemos uns mentecaptos e que não soubéssemos, por incapacidade, de imediato, olhar para o que por aqui se passa. Mas haverá região do País onde a instrumentalização da sociedade e das instituições públicas e até privadas seja absoluta, não se sabendo onde termina o partido e começa o governo e vice-versa, naturalmente? Onde o controlo seja total?
Comecemos pelas instituições do Estado na Região onde quase todas são lideradas por pessoas afectas ao partido maioritário; passemos aos meios de comunicação social do Estado com responsabilidade de serviço público na Região; tenhamos presente a quem pertencem as rádios locais e o Jornal da Madeira; e as casas do povo, clubes, associações diversas desportivo-culturais e bandas de música; e o que é que acontece, no interior do partido maioritário, a todos aqueles que têm uma opinião diferente ou exprimem uma ou outra atitude não consentânea com o rigor ditado pelo livrinho de capa laranja; quantos, gente com valor, têm sido ostracizados e colocados numa "prateleira"; e a evidente segregação social de que são vítimas aqueles que pensam pela sua cabeça embora mantenham uma irrepreensível conduta de respeito para com os outros; e os que são protegidos e fizeram fortuna pela proximidade aos corredores do poder?
Estado instrumentalizado(?) não digo que aqui e ali não se verifiquem situações abusivas e condenáveis. Só que lá, no espaço continental, na Assembleia da República, as Comissões de Inquérito funcionam e o Primeiro-Ministro e todo o governo, quinzenalmente, responde perante os Deputados. Aqui, pelo contrário, o Senhor Presidente do Governo não responde perante a Assembleia, não comparece aos debates e, raramente, os Secretários aceitam participar nas diversas Comissões Especializadas onde se discutem os assuntos da maior importância para a Região. Ainda esta manhã o PSD chumbou dois pedidos de audição ao Secretário Regional da Educação. No fundo, impediu que a pedido de um partido da oposição ele se deslocasse à Assembleia para debater e esclarecer os Deputados.
Por estas e outras, porque faltam muitos espelhos aos políticos, porque o nariz cresce e cresce desmesuradamente, porque continuam a falar de coisas que o povo não só não entende como se está borrifando para elas, que cada vez mais cresce a desconfiança e a desacreditação nos políticos, quando esta deveria ser uma actividade por todos respeitada porque considerada NOBRE.

A FRONTEIRA ENTRE O HUMOR E A MÁ EDUCAÇÃO

O que ontem se passou na Assembleia da República e que veio a ditar o pedido de demissão do Ministro Manuel Pinho, constitui um exemplo do dever de respeito entre parlamentares, melhor ainda, entre a maioria e as oposições. A história é conhecida e não valerá a pena tecer repetitivos comentários. Desde o Presidente da Assembleia, ao Primeiro-Ministro, passando pelo próprio Dr. Manuel Pinho, todos lamentaram o acto com palavras, algumas muito pouco simpáticas para com o autor do gesto.
Mas estava eu a seguir as imagens e na minha cabeça passou um turbilhão de situações absolutamente desagradáveis e ofensivas da dignidade, que tenho vindo a assistir na impune e inconsequente Assembleia Legislativa da Madeira. Para não falar dos incontáveis disparates ditos da boca para fora, em cima do palco comicieiro e em outras situações que o formalismo, o decoro, a etiqueta, a educação, o protocolo e a respeitabilidade pelos outros, deveria constituir irrepreensível norma. E nesta levada de ofensas têm sido verbalmente agredidos Órgãos de Soberania, titulares das mais altas instituições do Estado, ministros, secretários de Estado, líderes de partidos, enfim, as ofensas estão por aí espalhadas e constam de uma enorme listagem. Tudo passou em vão e tudo passa sem uma crítica veemente. O Senhor Presidente do Governo Regional, ouviu-o dizer que, por aqui, se trata de situações de "humor". Bom, cada um tem a dimensão da fronteira entre o humor e a má educação, entre o humor e a ofensa. Pessoalmente entendo que a Democracia implica o respeito pela diferença de opinião, dirimida com entusiasmo, convicção e de forma acalorada. Mas tem um limite, isto é, quando as palavras ou os gestos têm a intencionalidade de ferir, magoar e espezinhar o interlocutor. Aí não existe humor, há apenas má educação.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

DAS 25 FONTES AOS MOINHOS DE ÁGUA

Gosto de viajar. Quem não gosta! Não o faço com a frequência que desejaria mas, uma vez por ano, não prescindo de definir um local e a partir daí, num raio de 200 quilómetros meter os olhos em tudo o que de importante existe. Interessa-me o património, os centros históricos, os cantos e recantos das grandes cidades até aos sítios mais recônditos onde se descobrem preciosidades. Desde a monumentalidade que nos enche até à mais respeitada e protegida obra que a marca a História do Homem. Em quinze dias normalmente percorro entre quatro a seis mil quilómetros. É um dos melhores momentos da vida. Pena tenho que tal não seja possível à maioria das pessoas.
Ainda ontem, através de uma estação de rádio, numa aldeia recôndita de Portugal, vários idosos diziam ao repórter que nunca tinham ido a Lisboa e, à pergunta, como pensa que Lisboa é, a resposta veio célere: não sei, nunca lá fui! Dei comigo a pensar na felicidade de outros, na minha felicidade, de conhecer e apreciar alguma coisa. Já aqui escrevi, em tempos, uma passagem curiosa de Jorge de Sena, numa entrevista à BBC, citada por Leonel Cosme, in Os Portugueses - Portugal a Descoberto: "os portugueses deviam ser obrigados a viajar para fora das fronteiras nacionais. Não para chegarem a Paris ou a Bruxelas e aí se comprazerem numa tasca tipicamente portuguesa ouvindo fados e comendo sardinhas assadas. Mas para verem como era a Europa além fronteiras e adquirirem assim a consciência real do povo que eram (...)". Não posso estar mais de acordo. Irrita-me mas, obviamente, não comento, quando oiço que foram aqui e ali, comeram no restaurante x e y, divertiram-se à grande e à francesa e quando se pergunta se visitaram isto ou aquilo, esta catedral ou aquele museu, a resposta é não. Somos assim, o que fazer! Mas, alto, há muita gente na nossa terra que tem o gosto da viagem, o gosto da aprendizagem e o gosto da comparação. Tenho aprendido com muitos, fico a ouvi-los, e quase obrigado a meter em fila de espera cidades e locais a não perder. Pela originalidade e pela marca da diferença. Ainda ontem, no canal Travel, acompanhei um trabalho sobre Saragoça, aqui mesmo ao lado, a pouco mais de duzentos quilómetros de Barcelona. Não conheço mas sei, pelas imagens, que é um espanto. Ficou na lista.
Ora bem, mas tudo isto a propósito do teleférico do Rabaçal e dos Moinhos de Água da Fajã da Ovelha que foram destruídos por causa de uma estrada. Desviei-me do essencial porque senti essa necessidade. A questão do Rabaçal é uma questão de cultura, de sensibilidade e de capacidade para perceber que a oferta turística não se compadece de intervenções abusivas.
A propósito, escutei o Dr. Raimundo Quintal e o Engº João Correia, Director Regional de Ambiente, num debate incluído no Telejornal. Para mim foi muito evidente o sério embaraço do Director Regional às perguntas do jornalista, como que a dizer aos espectadores... eu não acredito naquela obra mas não posso dizer! O seu semblante e a pouca convicção demonstraram precisamente isso. Ora, quando milhares de pessoas, da Região e sobretudo fora dela, defendem aquele quase santuário da natureza, lindíssimo para ser percorrido serena e contemplativamente, vem o homem, o político, a força do dinheiro, a conta bancária, falar mais alto e determinar que ali tem de acontecer "obra".
Por diversas vezes, com os meus alunos, percorri aquele espaço, no meio de silêncios entrecortados com o som dos passos, das aves, da brisa e das leituras sobre a Laurissilva. Um dia levei comigo uma Colega Bióloga. Soberbo. Querem, agora, "sujar" essa paisagem de sonho. Apenas vão retirar o prazer da caminhada e destruir aquilo que nos deve identificar pela diferença e não pelas "modernices". Mas é assim. Também ali para os lados da Fajã da Ovelha, a construção da Via Expresso, levou dois moinhos de água. Nem sabem onde foram parar as pedras. Tenho passado por locais onde se paga e muito para ver pequenos fragmentos da História. Por aqui abandona-se, deixa-se degradar, não se recupera, permite-se o desaparecimento das pedras e, depois, sem valor histórico, coloca-se uma memória no parque temático de Santana e ficam todos felizes. Os moinhos desapareceram mas sabe-se que algumas estradas desviaram o seu percurso porque colidiam com os interesses dos influentes senhores A ou B.
É assim! O que fazer? Eles, os decisores políticos, que também viajam será que apenas vão fora, como diz Jorge de Sena, para se comprazerem de manjares e nada vêem ou será que o dinheiro fala mais alto? Sinto pena.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

DIA DA REGIÃO OU DA MISTIFICAÇÃO?

Acompanhei as intervenções unilaterais, sem contraponto, a solo, que acabaram de ter lugar no Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos, a propósito do Dia da Região e das Comunidades Madeirenses. Com o devido respeito pelas figuras institucionais palestrantes eu diria que, uma vez mais, foi três em um, que corresponde, no essencial dos textos lidos, ao pensamento de uma parte, ínfima, talvez, da população da Região Autónoma da Madeira. O mote foi, como não podia deixar de ser, a Constituição da República, essa Lei fundamental "centralista", "dominadora", "burlona", que impede "reclamados direitos da Madeira".
Curiosamente, o contraponto destes inflamados e retóricos discursos por uma "autonomia que deve ser reequacionada", veio precisamente das palavras do Presidente da Câmara de Câmara de Lobos. Ao seu jeito dissertou sobre a longa lista de obras feitas, consubstanciada em vias de comunicação, escolas, centros de saúde, de uma "Madeira Nova", de uma "Madeira Contemporânea", de uma "nova geração" e de um "capital intelectual" capaz de enfrentar os desafios do futuro. Pergunto, afinal, em que ficamos? Não terá sido a Autonomia e o texto Constitucional que possibilitaram o crescimento e o desenvolvimento que, em muitos momentos tem servido de bandeira e de ode às políticas do governo da Região? Afinal, questiono, no actual contexto, o que estará por detrás da tese que configura a luta por um Estado Regional?
Mas ainda mais. Ficou por explicar (nunca explicam) o cerne da questão, isto é, se com mais Autonomia ou Autonomia total o desemprego nunca teria chegado aos valores atingidos, se a pobreza seria por aqui residual, se o investimento em inovação e desenvolvimento teria sido outro, se o tecido empresarial não andaria com a corda no pescoço, se se respiraria um ambiente verdadeiramente democrático na Região, se o controlo sobre as pessoas não existiria, se o governo, como é seu dever, compareceria na Assembleia para debater os grandes dossiês da governação, se com mais Autonomia teríamos outro empenhamento na luta contra a toxicodependência que está a corroer a juventude, se, com Autonomia total, teríamos os instrumentos de planeamento (POTRAM, PDM'S, POT, entre todos os outros) devidamente respeitados, se, com mais Autonomia, teríamos outra protecção à população idosa, se, com Autonomia total, teríamos uma população mais culta, menos emigrante, mais predisposta a ganhar, na sua própria terra, através do abnegado trabalho, a estabilidade e a felicidade que não tem. É isto que não explicam. Não explicam, por extensão, onde e como, no caso de um Estado Federal, com Autonomia total, iriam descobrir o dinheirinho para cumprir as promessas de um Céu em pleno Atlântico! Não explicam e, pressuponho, que não sabem explicar.
Ora bem, sejamos claros, o que está em causa não é, verdadeiramente, a Constituição da República. O que está em causa, em primeiríssimo lugar, é a mistificação e criação de um formato político para ganhar eleições e assim um grupo perpetuar-se no poder. Apenas isto e nada mais.
É evidente e aí não me restam dúvidas que, aqui e ali, pontualmente, determinados Artigos da Constituição possam e devam merecer oportuna reflexão. Parece-me pacífico. Por exemplo, em matéria de política educativa, a clarificação do texto que determina que as bases do sistema educativo constituem reserva da República. E como esta, outras. Todavia, não é isso que está em causa e que se depreende das preocupações discursivas de hoje. Há outros interesses muito mais profundos e de verdade escondida, enfim, coexistem muitas sombras que deveriam ser clarificadas. E nesse aspecto, os jogadores mantêm as suas cartas bem escondidas. Mas sabem quando e porquê os trunfos serão colocados em cima da mesa. Ao contrário deste tipo de jogo escondido e de toques por debaixo da mesa, eu prefiro a transparência política. Até porque, no caso em apreço, a mentira é uma arma de destruição massiva!
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Terça-feira, 30 de Junho de 2009

ACTUAL... SEM TIRAR UMA PALAVRA!



MARTIN LUTHER KING

I Have a Dream... (Março de 1963)

"O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem carácter, nem dos sem ética...

O que mais preocupa é o silêncio dos bons"

FESTEJAR O NADA

Amanhã, é Dia da Região e das Comunidades Madeirenses. Um dia teoricamente festivo mas onde não há razões substantivas para contentamentos. Pelo contrário. Porém, a chama aos pés do símbolo da autonomia, por horas, estará flamejante, a fanfarra tocará, as forças armadas perfilarão, os aplausos vão ecoar e a “valsinha das medalhas” do Rui Veloso não tocará mas soará no ouvido de alguns: “(…) quem és tu donde vens, conta-nos lá os teus feitos, que eu nunca vi “região” assim, pequena e com tantos peitos”.
Comemora-se o nada, ou melhor, a normal anormalidade. Em tempos idos de má memória, lembram-se os menos jovens, também foi assim. Filas de gente que acreditavam no que viam e ouviam. Um dia tudo se esfumou. Estou certo, os de hoje, um dia dirão que nunca tiveram nada a ver com aquela gente! Adiante.
Amanhã, politicamente, deveria assemelhar-se a uma “quarta-feira de cinzas” enquanto momento de reflexão sobre o dever de mudança de vida. Mas não, será de louvor, de enaltecimento e estupidificação, de discursos laudatórios à obra edificada, majestosa mas inamovível, rica mas impenetrável, porque a outra, a grande obra de celebração do ser humano, enquanto projecto de cariz social, essa, não pode ser inaugurada e motivo de discurso, simplesmente porque não existe. A legião de pobres e de novos pobres, o dramatismo do desemprego, as dependências, a venda do corpo por necessidade, a micro-violência em aceleração, o zarpar para outros destinos porque a terra é madrasta, o estádio cultural, o fosso entre ricos e pobres, a incivilidade, enfim, essa montanha de obras prioritárias mas esquecidas por insensibilidade e razões múltiplas, não terão espaço para a respectiva contextualização no Dia da Região e das Comunidades.
Um manto de silêncios cúmplices abafarão a realidade política, económica, social e cultural porque importante é discursar sobre o supérfluo, o marginal, o inimigo externo, essa Lisboa sufocadora, a revisão constitucional e a obsessiva visão federalista a caminho da independência, como se tal fosse a mezinha para as verdadeiras doenças de que padece a organização política, económica e social. Na esteira de Shakespeare: “words, words, words, nothing but words”.
É por isso que impõem o silêncio, que apenas um partido tenha direito à palavra, para anunciar o evangelho do poder cristalizado, a cartilha do pensamento único vendida de concelho em concelho, o que significa que uma parte do Povo, no seu próprio Dia, não tenha direito a ser escutado nas suas reais angústias e padecimentos. É a Democracia no seu pior, transformada numa espécie de ignorância altifalante, uma Autonomia que esconde a sociedade desequilibrada que produziu e que apenas sabe festejar o betão à custa de um Povo resignado, distante de uma correcta leitura do sentido das prioridades e de um projecto colectivo aglutinador e dinamizador do corpo social.
Essa Autonomia, libertadora e responsável, pela qual tantos ao longo da História lutaram, acabou às mãos de novos, refinados e sofisticados senhorios que usam e abusam da menoridade do Povo, hoje vítima de uma escola com trinta anos que, pacientemente, o anestesiou, tornando-o incapaz de um grito de indignação. Tolera, aplaude e engole tudo e, portanto, quer lá saber o que diz o Tribunal de Contas, quem paga o quê e porquê, quem recebe e porque recebe! Essas não são contas do seu rosário. Só que, esse mesmo Povo também sentencia que “não há bem que sempre dure nem mal que ature” e daí, não me admirar que, sentindo-se traído, volte a descer à cidade, de foice ao ombro, não pela farinha, mas para dizer, tão-somente, BASTA!
Nota:
Artigo de opinião, da minha autoria, publicado na edição de hoje do DN-M. Posted by Picasa
Recebi, de uma Amiga que muito estimo e considero, este texto, a propósito do meu arrtigo de opinião:
"A nossa liberdade parece estar reduzida à escolha entre marcas e bugigangas. O pior aconteceu: a liberdade foi instrumentalizada. Até podemos eleger livremente os senhores, mas isso não suprime nem os senhores nem os escravos. Vivemos uma liberdade planeada. Porquê? Por quem? Ainda é cedo para apontarmos possibilidades. Mas sabemos que há uma indústria cultural cujo poder manipulador soluciona o conflito entre a impulsividade e a consciência. O seu objectivo é a adesão acrítica aos valores impostos".
Obrigado, Caríssima Professora.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

QUE FIQUEM OS DEDOS...

A notícia só peca por atraso. Há muito que se sabe que as pessoas, aflitas com as crescentes dificuldades da vida, discretamente, andam a vender os objectos de valor, muitos com incalculável valor afectivo. A situação agravou-se em relação ao ano passado.
Li que, junto das lojas de penhores "trazem de tudo. Ouro, prata, peças grandes e pequenas, chegam mesmo a trazer linhos e às vezes a própria roupa que trazem no corpo querem vender. É uma situação mesmo muito aflitiva". Um pouco por todo o lado é isto que está a acontecer, consequência da progressiva degradação do poder de compra, do desemprego e das responsabilidades assumidas. Aliás, dados vindos a público dão conta que a economia regional perdeu 14,8 milhões em 5 meses de pagamentos automáticos, o que significa, obviamente, uma clara acentuação das dificuldades.
Constrange-me esta situação. E constrange-me quando se sabe que as pessoas que sentem esta necessidade de se despojarem dos valores afectivos têm mais de 50 anos, são do sexo feminino e reconhecem que a venda se destina a pagar encargos, inclusive, os medicamentos que necessitam.
E perante isto diz o "inteligente" que se vive com normalidade, que as pessoas não querem é trabalhar e que os números do desemprego estão inflaccionados. Dói ouvir declarações políticas deste jaez que, no mínimo, roçam a insensibilidade social e uma claríssima ausência de conhecimento da realidade.
Li, em tempos um texto de Hélio Bacha que sublinhava que "(...) a normalidade institucional política convive hoje com as desigualdades económicas e sociais de uma maneira que muitos de nós não poderíamos prever como viável, quando lutávamos pela democratização". E é verdade. Ao ciclo da pobreza (a todos os níveis) que perdurou durante 48 anos do Estado Novo, passados 35 anos de democracia, entrámos num novo ciclo de acentuadas e preocupantes desigualdades. E isto só fica a dever-se à pobre acção dos políticos com responsabilidades governativas. Entre nós, nesta terra de espaço geográfico limitado e dependente, é curioso verficar-se que nestes 35 anos pressupostamente "democráticos", não despontou um ESTADISTA, alguém que pensasse na geração seguinte e não na eleição seguinte. Foram todos políticos, numa lógica de sobrevivência pessoal e dos amigos em redor, o que implicou sempre vencer os actos eleitorais. Pelo contrário, repensar o modelo económico, criar barreiras contra o desemprego, desenvolver o sentido de responsabilidade, apostar no rigor e na inovação, criar um sistema educativo portador de futuro, desenvolver o nível cultural das pessoas, gerar condições empresariais equilibradas em defesa do comércio tradicional enquanto principal gerador de emprego estável, enfim, essa panóplia de tarefas, entre milhares que competem à governação, não constituiu tarefa prioritária para o "inteligente".
Eu bem gostaria de saber e dominar a origem das "barras de ouro" (não as da foto!), isto é, como é que foi adquirida a riqueza acumulada de muitos da nossa praça! Terá sido à custa do suor do rosto, do trabalho, da criatividade, da inovação e do risco ou existirá muito pó que abafa as situações deixando-as translúcidas? Enquanto isto acontece, a verdade é que uns depositam na Suíça e outros contam os cêntimos. Isto revolta-me porque entendo que a VIDA, melhor, a dignidade humana deveria impor aos governos a seriedade e a honestidade que cada vez mais anda ausente.
Oxalá a pobreza não se transforme em paisagem!

ELEMENTAR, MEU CARO DOM TAPSCOTT!

A história é conhecida. Sherlock Holmes e o Dr. Watson vão acampar e armam sua barraca sob as estrelas. Durante a noite, Holmes acorda o seu acompanhante e diz: "Watson, olhe para as estrelas, e diga-me o que pode deduzir."Watson diz: "Vejo milhões de astros, e se alguns poucos daqueles são planetas, é bem provável que haja alguns como a Terra, e se há alguns planetas como a Terra, é bem possível que haja também vida.
Espere. Antes de ler a resposta de Holmes, leia novamente desde o início e adivinhe o que Holmes respondeu.
Já pensou na resposta?
Agora leia:
Holmes responde: "Watson, seu idiota. Alguém roubou nossa barraca..."


CONCLUSÃO:
É sempre mais fácil ver aquilo que está à nossa frente do que perceber aquilo que está a faltar.

Vem isto a propósito do especialista canadiano em tecnologia Don Tapscott apontar para Portugal como um exemplo a seguir na educação, elogiando o investimento em computadores individuais nas salas de aulas. Num artigo de opinião publicado no blogue Huffington Post - onde já escreveu Barack Obama, Tapscott dirige-se directamente ao presidente dos Estados Unidos da América: "Quer resolver os problemas das escolas? Olhe para Portugal!". Na opinião de Tapscott, o "modesto país para lá do Atlântico", que em 2005 via a sua economia "abater-se", está a tornar-se no "líder mundial a repensar a educação para o século XXI". A presença de computadores nas escolas é "só uma parte" dessa "campanha de reinvenção (...)" - Agência LUSA.
Li alguns livros e muitos textos de Dom Tapscott sobretudo na Executiv Digest e Exame aquando do meu Mestrado. Dele e de tantos outros gurus em gestão e administração. Eu compreendo as preocupações de Tapscott. Mas Tapscoot, apesar dos seus treze livros publicados e com grande procura, é um palestrante e consultor especializado em estratégia corporativa e transformação organizacional. Apenas isso. Olhou para Portugal, teve a percepção dos milhares de computadores que andam a ser distribuídos, mas não olhou, certamente, para a sociedade que temos, os níveis de pobreza que temos, a mentalidade que temos, o insucesso e abandono escolar que temos, a iliteracia que temos, o sistema organizacional, curricular e programático que temos, tudo aspectos que a tecnologia, por si só, não resolve, isto é, Portugal e particularmente a Região da Madeira não estão à beira de um clik ou de um "enter" para o sucesso. Não estão.
Daí que não baste criar novos estabelecimentos de ensino, tampouco multiplicar as salas de informática ou substituir o quadro preto e o giz por quadros interactivos e multicolores. Tony Bates é claro sobre esta matéria: “O bom ensino supera uma escolha tecnológica pobre, mas a tecnologia nunca salvará o mau ensino”. Por outras palavras, defende que o desafio da Educação, para já, não é tecnológico. Há uma base que terá de ser construída e essa base é de natureza organizacional, é de conquistas ao nível do desenho curricular e correspondentes programas, trilogia à qual se juntam, de forma indispensável e inquestionável as políticas de família no quadro das políticas sociais. O sucesso, ou melhor, o futuro da nossa Escola depende do rigor, do trabalho que integre todas estas variáveis. Dom Tapscott não conhece o sistema e, portanto, porque não basta comprar computadores e colocá-los nas salas, enquanto o País e a Região não manifestarem coragem para intervir na profundidade dos problemas, esta escola não terá futuro e os problemas agravar-se-ão. Este modelo está condenado e não será a tecnologia a salvá-lo. O sistema precisa que se rompa com as rotinas, precisa de inteligência, necessita de humildade governativa, precisa de coragem para implodir os pilares da velha escola, construindo novos alicerces que sustentem uma educação para o futuro. Se se fizer isso, obviamente, que em simultâneo a tecnologia terá, inevitavelmente, de estar na escola com todo o seu poder. Elementar, meu caro Tapscott!

Domingo, 28 de Junho de 2009

A MORTE, A FRIEZA DOS COMPORTAMENTOS E A PERPETUAÇÃO DO NOME

Estive presente no funeral do Senhor Professor Fernando Ferreira. Independentemente da tristeza que envolve momentos como aquele, neste caso pela partida de um Homem que todos devemos respeito e consideração pelo que ele significou em vida, a essa tristeza juntou-se, pelo menos para mim, a mágoa por ali não ter assistido à homenagem ao decano entre os professores de Educação Física e Desporto da Madeira, através da presença, das centenas de colegas da classe. Poucos, muito poucos, talvez os mais próximos e mais antigos por lá passaram. Também poucos professores de todas as outras áreas. Isto leva-me à interpretação de como a vida, as relações e as memórias são hoje vividas. É a frieza e o distanciamento que domina, infelizmente.
Mas para além deste pormenor, aqueles momentos de recolhimento proporcionam-me, sempre, uma leitura mais profunda sobre a efemeridade da vida. Hoje, voltou a acontecer-me o mesmo, com dezenas de perguntas a me correrem no pensamento ao mesmo tempo que os olhos se fixavam no féretro, numas flores e em tudo o que se passa na nossa terra: para quê tanta maldade, para quê tanta bazófia, para quê tanta arrogância, para quê tanto dinheiro, para quê tanta perseguição, para quê tanto ódio, para quê tanto negócio obscuro, para quê tanta jogada e tantos interesses maquiavélicos, para quê tanto offshore, para quê tanto poder, para quê tanto stresse, para quê tanta angústia, para quê...? Tarde ou cedo tudo se resume a quatro tábuas, uma cerimónia religiosa e uma despedida até sempre. Se nada podemos fazer por quem parte, pelo menos que fique para nós as interrogações sobre o significado da VIDA.
Curvo-me em memória do Homem bom que foi o Senhor Professor Fernando Ferreira e deixo uma proposta à Câmara Municipal do Funchal: inscrevam o nome do Professor na toponímia funchalense. Ele merece.

TUDO TEM UM COMEÇO

MUDANÇA DE MENTALIDADE

Uma das tarefas políticas que reputo da maior importância é a da revolução das mentalidades. Sem isso nada feito. Penso que a indiferença pela cultura é um dos primeiros problemas a resolver se não quisermos hipotecar o futuro. Recupero, por isso e a propósito, um texto que publiquei em 2006, no qual destaquei uma passagem de um artigo de opinião publicado no Expresso, imaginem, treze anos antes: "(...) o nosso espírito, o nosso moral, incultivado, está ao nível da comidinha, da roupinha mais os copos. A sociedade não se alterou em substância nos últimos dez anos. Nem nos últimos vinte. Os valores da sociedade actual são em tudo idênticos aos do marcelismo (...) há um enorme desenvolvimento do mercado mas um acentuado empobrecimento cultural. E isto não é o preço do desenvolvimento, é sim um desenvolvimento desequilibrado (...)" - José Cunha. Perigoso e rasca, digo eu. Qualquer pessoa minimamente atenta percebe a existência de uma mentalidade submissa, de crenças, de tendência para o isolamento, de desconhecimento e de arrepiante indiferença perante o que o rodeia. Jardim "dixit" e ponto final. Compaginado com o braço amigo da Igreja, que manda, com resignação, carregar a cruz, compaginado, ainda, com uma Escola fechada sobre si própria e amedrontada, que não semeia os verdadeiros conceitos de democracia, liberdade e de cidadania, uma Escola tendencialmente livresca e de manual que ensina o conhecimento para debitar num teste e logo esquercer, mas não desenvolve os princípios e os valores da condição humana, não explica o significado da expressão "ser humano", não explica a ética e a moral, as regras de conduta social, a civilidade, o sentido de responsabilidade, a pontualidade, o trabalho, o esforço, a ambição com auto-controlo, o sentido da autonomia e do inconformismo, a própria auto-estima, ora, quando a Escola e muitas e muitas famílias não educam neste sentido, no sentido das competências, da valorização e da cultura geral, obviamente que só nos podemos confrontar com uma população, no sentido político, abúlica e despersonalizada, e, no sentido social, plena de carências e frágil. É por isso que o Professor José Cunha, autor daquele excerto, sublinha que o essencial se mantém. Mudámos o aspecto exterior, cruzamo-nos com pessoas bem vestidas e calçadas, mas a mentalidade parou, sobretudo no que aos grandes valores diz respeito. O fundador do conselho ético World Future Council, Jakob von Uexküll, referiu há algum tempo: "não podemos continuar a viver como se não houvesse amanhã. Sem uma mudança de perspectiva, não poderão se alimentar as gerações futuras. Devemos assumir essa responsabilidade”. Obviamente que sim. O problema é político, é de governação e está identificado desde 1536 (Francesco Guicciardini, estadista italiano): "Sabei que quem governa ao acaso acabará por se encontrar nas mãos do acaso”. É o que está a acontecer. Por isso, sairá caro a todos nós e aos vindouros!

Sábado, 27 de Junho de 2009

FALECEU O PROFESSOR FERNANDO FERREIRA

Faleceu um meu antigo Professor. Morreu um Amigo. Morreu um Homem a quem devo muitos traços da minha formação pessoal e profissional. Com ele aprendi o rigor e a determinação enquanto aluno e, mais tarde, enquanto seu Colega. Com ele aprendi a essência da acção docente que me guiou ao longo de muitos anos de actividade profissional. Fomos cúmplices de muitas e gratificantes acções logo a seguir a 1974 que recordo com saudade.
Profissionalmente, é verdade que sim, nem sempre estivemos de acordo, o que sempre foi salutar nas nossas relações. Descobrimo-nos um ao outro. Uma coisa é certa, o Professor, pela sua atitude fugiu sempre da mediocridade, impunha respeito, defendia intransigentemente a qualidade, era um educador na verdadeira acepção da palavra e isso, da nossa convivência profissional de muitos anos, marcou-me definitivamente. Duas frases guardo da sua sabedoria ditas em momentos de algum desânimo: "por pior que te façam... sempre em pé"; "tenta ver sempre para além do horizonte visual". OBRIGADO PROFESSOR.
Nota:
Foto de quando eu era seu aluno, numa sessão no antigo campo do Liceu. O Professor Fernando Ferreira é o que se encontra no primeiro plano protegendo o salto.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

DROGA: ONDE ESTÃO OS PAIS, A FISCALIZAÇÃO E AS POLÍTICAS?

Esta manhã, cerca das onze horas, estava eu em amena cavaqueira sentado numa esplanada do centro da cidade e fui confrontado com um jovem, apresentando, julgo eu, entre os dezasseis e os dezoito anos. Arengou qualquer coisa de forma imperceptível com o objectivo de pedir umas moedas. Um jovem bem parecido, vestido de forma agradável mas deixando transparecer pelos olhos e por um certo cambalear, que o seu estado não era normal. Estava, na gíria, "pedrado". Foi a leitura que fiz, talvez abusiva, confesso, mas a verdade é que fiquei com essa percepção. Dirigiu-se à mesa do lado e pediu um cigarro e umas moedas. E lá continuou. Uma cena, ao fim e ao cabo, rotineira no Funchal.
Ocorreram-me três pensamentos:
1º Os pais, coitados, que dimensão não terá o seu sofrimento;
2º Qual o futuro deste jovem;
3º Que políticas de prevenção primária e secundária existem.
Lembro-me, em meados dos anos 90, na Assembleia Legislativa, quantas vozes se levantaram no sentido de chamar à atenção para a necessidade de uma actuação séria e integrada, na raíz deste problema e no sentido de esbater este fenómeno que se apresentava em acelerado crescimento. A maioria política, sempre preocupada em varrer para debaixo do tapete, negava, justificava, secundarizava o dramatismo dos que então eram apelidados de "profetas da desgraça". Lembro-me de situações discursivas absolutamente inauditas. Passaram-se doze anos e diz-nos o DN de hoje que, nos últimos três anos e até 23 de Junho, tinham sido apreendidas 196.057 doses de cocaína; 78.885 doses de heroína e 235.420 doses de haxixe. E sabe-se que para uma apreensão desta dimensão quanta droga por aí andou e anda e que, infelizmente, escapou ao controlo das polícias. E quanta infelicidade gerou.
Embora este seja um problema com uma dimensão planetária, que envolve muito dinheiro e muita lavagem de dinheiro, a percepção que tenho é que este fenómeno nunca foi devidamente estudado na Região e do conhecimento e domínio das pessoas. Fala-se de apreensão, de um ou de outro julgamento, de umas condenações mas, aquilo que é essencial, aquilo que é fundamental se saber visando uma actuação integrada, não tem constituído matéria de interesse relevante. A sensibilização para o conhecimento dos circuitos, as características que sustentam a entrada dos diversos produtos nas ilhas, o que acontece na noite madeirense, a pedagogia a ser feita no meio escolar e junto das famílias, o combate ao tráfico e ao consumo e, entre outros aspectos, as preocupações relativamente ao tratamento constituem aspectos que poucos dominam. Há como que um abafar da realidade, uma tendência para esconder como se ganhássemos alguma coisa com o silêncio. Não se discute, não se contextualiza e não se debate um assunto muito sério que, para os do fim da linha, invariavelmente, termina numa prisão ou numa morte prematura.
Todos sabemos que o mundo do tráfico é extremamente complexo. Em Janeiro deste ano li: "(...) Em um mercado financeiro em crise e carente de liquidez o narcotráfico serviu para resgatar alguns bancos do colapso ao actuar como fonte de capital líquido, afirmou o director do Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (UNODC), o italiano António Maria Costa. Em entrevista publicada pelo semanário austríaco "Profil", Costa afirma que o dinheiro da droga se introduz no circuito da economia legal até tal ponto que "há indícios de que alguns bancos se salvaram desta forma" do colapso provocado pela crise financeira mundial". Ora bem, quando isto acontece e este é apenas um exemplo, obviamente que temos de considerar que o narcotráfico envolve uma complexidade que nos escapa face à sua dimensão. Mas é possível fazer muito mais do que tem sido feito. É possível prevenir e actuar de forma integrada. Apenas um breve exemplo porque este desabafo, que consubstancia uma preocupação e escrito ao correr do pensamento, já vai longo: onde estão os pais e encarregados de educação que permitem que jovens pré-adolescentes e adolescentes vagueiam pelas discotecas e ruas do Funchal, madrugada fora em clara exposição aos perigos que andam por aí à solta? E onde pára a fiscalização?
Nota:
A edição de hoje do DN (26.06.09) refere que o Serviço de Prevenção da Toxicodependência (SPT) está a "alterar a forma de trabalhar". Quem é o diz é o director do SPT, Nélson Carvalho, que explicou que a nova aposta é a de criar planos municipais de prevenção. "Vamos formar os municípios, as comunidades locais e elas próprias replicarão a prevenção junto dos seus agentes". Ora quem se der à maçada de ler o programa de candidatura da coligação PS/CDS para a Câmara Municipal do Funchal, de 2001, poderá ler, nos dez objectivos prioritários: "Combater, através da prevenção primária, o alcoolismo e a toxicodepemdência".
Conclusão: oito anos de atraso!

A MAIOR POBREZA DO PAÍS

O Deputado Carlos Pereira assina, hoje, um artigo de opinião no DN que vale a pena ler. Aqui fica um excerto.
"(...) Os factos são claros: a pobreza é a maior do pais, os dados da educação revelam o fracasso do governo de Alberto João Jardim naquele que é o sector mais estratégico para o futuro da Madeira (temos o mais elevado abandono escolar, por exemplo), os índices de conforto são os mais baixos de Portugal, o rendimento das famílias é o 4º em 7 regiões portuguesas e, mesmo assim, os mensageiros falam só, e sempre, do crescimento do PIB e seus derivados. Ou seja, falam de onde se gera a riqueza numa região (PIB) mas nunca a quem pertence essa riqueza, (PNB). Pior, na mais absurda simplicidade perversa insistem que não querem saber com quem fica a riqueza produzida na Região. Sabemos que não são os madeirenses, porque esses são os mais pobres, os que menos poder de compra têm, e os com usufruem de menos índices de conforto. Mas esta simplicidade gratuita e deliberada, que alguns fazem gala de ostentar, perverte o rumo da Região e destrói, paulatinamente as bases de um desenvolvimento sério e auspicioso. No fim de tudo isto, e mesmo por tudo isto, ficaremos livres rapidamente de simplistas e dissimulados e resta-nos esperar pelo exército da mudança: com homens bons, de pensamento simples!"

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

LEGISLATIVAS NACIONAIS E A BANHA DA COBRA

Lamentavelmente, por vezes, o que por aqui acontece revela alguma semelhança com o humor de "Curral de Moinas". Não é que não se trate de assunto recorrente, até porque já se sabia que a lengalenga viria a bater nisto, mas não deixa de ser hilariante e simultaneamente triste ver um presidente decadente, sem mais nada para dizer ao Povo que não seja que a prioridade está na utilização das eleições legislativas nacionais para referendar a Constituição da República. No essencial, se os madeirenses e porto-santenses querem ou não mais Autonomia. E foi mais longe nas suas declarações, ao sublinhar que constitui uma questão menor o debate em redor do futuro do País, isto é, se esta nau será governada nos próximos quatro anos pelo Engº José Sócrates ou pela Drª Manuela Ferreira Leite.
Bom, isto, mais do que hilariante e triste é sobretudo penoso assistirmos ao desvio das atenções sobre tudo o que é fundamental para a Região. Aliás, depois de vários anos a castigar com palavras o governo socialista na República, depois de sistemáticas ofensas de natureza pessoal, o presidente resolveu inverter o discurso das preocupações centrando-o, agora, no pressuposto que só com a alteração da Constituição da República a Região poderá resolver os seus problemas.
Estou a ver, estamos todos a ver que os desempregados vão ter emprego depois da proposta de revisão constitucional do PSD-M, os pobres vão beneficiar de melhores enquadramentos sociais, a classe média recuperará os níveis aceitáveis de bem-estar que já teve, os idosos irão beneficiar de um apoio suplementar às magras pensões, deixarão de existir "altas problemáticas" nos hospitais e os oitocentos idosos em fila de espera terão lares à sua disposição, o consumo de estupefacientes cairá para níveis residuais e será criada uma unidade terapêutica, o consumo de tabaco e de bebidas alcoólicas que tantas mortes geram será regulamentado, as empresas ficarão financeiramente desafogadas e empreendedoras, o ordenamento do território será respeitado, os instrumentos de planeamento, entre outros, os Planos Directores Municipais, finalmente, serão retirados da gaveta porque hoje são considerados "limitadores do desenvolvimento", o património natural e os elementos identificadores da nossa História ficarão salvaguardados dos grandes interesses dos grupos económicos e facilidades criadas pelas entidades com responsabilidades de governação, enfim, teremos por aqui, consequência da revisão Constitucional, o paraíso e um exemplo para o País e para a Europa. Assim parece defender o Presidente do Governo. Estou mesmo a ver, quando, em campanha eleitoral, abordar um cidadão, onde lhe fale, por exemplo, de um conjunto de medidas para melhorar o seu estado de pobreza, ele me referia que não está interessado nisso porque o que o preocupa é a revisão Constitucional!!!
Ora bem, esta é mais uma mistificação, mais uma forma de utilização das fragilidades do Povo para instrumentalizá-lo e conduzi-lo, sem perceber o que está em causa, para os desígnios partidários de um homem para quem o poder é tudo. Definitivamente, não há qualquer seriedade nem honestidade política na proposta do Senhor Presidente do Governo. Nas Legislativas Nacionais o que está em causa não é um referendo à Constituição mas uma avaliação de todos os portugueses à governação do País e, consequentemente, na "constituição" de uma nova Assembleia da República. É tão-somente isso que está em causa. Mais nada. A revisão Constitucional é um outro espaço de debate que a seu tempo será dirimido. Tudo o resto é paleio, são palavras ao jeito dos antigos vendedores de banha da cobra. Pare com isso, com essa conversa da treta, Senhor Presidente! Passe ao ponto seguinte, isto é, governe, cumpra o seu mandato mas solucionando os verdadeiros dramas da Região. Não invente artifícios para mascarar a verdade e as incompetências. Utilize as competências que estão atribuídas através do Estatuto Político-Administrativo da RAM e, por aí, muito poderá ser resolvido.
Nota:
Foto publicada no DN-Madeira de 24.06.2002 e da autoria de Agostinho Spínola.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

REESTRUTURAÇÃO DO INSTITUTO DO DESPORTO DA RAM... A CONTINUAÇÃO DE UM DESPORTO AO SERVIÇO DA POLÍTICA E NÃO AO SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO

Na Assembleia Legislativa da Madeira foi, esta manhã, discutida a "reestruturação" do Instituto do Desporto da Região Autónoma da Madeira. Na oportunidade, apresentei a seguinte intervenção:
Senhor Presidente
Senhoras e Senhores Deputados,
Quando os parceiros sociais quer na generalidade quer na especialidade entendem que nada têm a opor de substantivo, obviamente que no quadro da estrita legalidade de funcionamento deste Instituto, a situação não nos merece, também, qualquer reparo em função do que realmente é o IDRAM.
Mas que fique claro que nós entendemos que não há aqui qualquer reestruturação mas apenas o cumprimento de uma adaptação à realidade regional decorrente do Decreto Legislativo Regional 17/2007/M de 12 de Novembro.
Chamar-se a este diploma um documento reestruturador não faz qualquer sentido. Porque a palavra reestruturação, no contexto do desporto regional, implicava uma actuação no âmago do Instituto, concretamente na sua vocação e missão. E aqui nada disso acontece. Apenas adapta. É o que se chama virar o disco e tocar o mesmo.
E isso, apesar de legalmente necessário em função da legislação vigente, não resolve, nem minimamente, os males de que padece o IDRAM e, portanto, o desporto na Região Autónoma da Madeira.
Em nossa opinião, não só por aquilo que aqui já dissemos ao longo desta legislatura, inclusive, entre outros, através da apresentação de um Projecto de Decreto Legislativo Regional, esse sim, que reestruturava todo o sistema, esta teria sido uma oportunidade para o governo mergulhar na profundeza do problema e alterar as lógicas de funcionamento do actual instituto, agora no quadro da legislação que está em vigor. Mas não houve essa coragem ou então o governo, a tutela do Instituto, não sabe como corrigir o monstro que, entretanto, criou.
E assim pensamos e defendemos porque a verdade é que através dos meios de comunicação social, com muita regularidade lemos e escutamos análises dos vários operadores do desporto que provam a latente insatisfação relativamente ao modelo em curso. Um modelo sustentado numa excessiva e incompreensível subsidiodependência; um modelo que nem nos países e regiões que dispõem de incomparáveis meios orçamentais encontra qualquer semelhança.
Uma exaustiva análise à política desportiva desenvolvida na Região Autónoma da Madeira desde 1976, (há estudos sobre essa realidade) determinaria, Senhoras e Senhores Deputados, a necessidade de correcção de orientações que ao longo do tempo não se mostraram eficazes e eficientes. É por isso que há um crescendo ruído de fundo vindo do associativismo em geral, é por isso que há clubes e associações tecnicamente falidas, é por isso que há monstruosas dívidas por pagar e transferências protocoladas mas com atrasos de muitos e muitos meses, é por isso que continuamos com uma taxa de participação desportiva muito baixa, é por isso que temos um desporto educativo escolar muito pobre e sem resultados.
Mais do que adaptar o Instituto ao quadro legal vigente, primeiro, é para nós muito claro, que há uma imprescindível necessidade de alterar a estrutura, o pensamento estratégico, as prioridades atribuídas a cada sector, mormente, ao sector educativo escolar e ao sector desportivo, isto é, ao de natureza federada. É por aí que deveria o governo começar.
Senhor Presidente
Senhoras e Senhores Deputados,
Só nos últimos oito anos foram aplicados no sistema desportivo 242,2 milhões de euros. E no sector educativo escolar, cerca de 4 milhões de euros. Só por aqui se vê a disparidade do investimento. E o que resultou destas aplicações?
Para além do investimento no parque infra-estrutural e de uns quantos resultados desportivos de topo, o que resultou foi a triste constatação que continuamos com 77% da população, com todas as letras se pode dizer, desportivamente analfabeta. Esta é a realidade estatística que não pode ser negada. Porque aparte as infra-estruturas tudo o resto é efémero, os títulos são efémeros, portanto, numa Região que todos reconhecem ser pobre nos seus recursos, depreende-se do estudo das variáveis em causa, que teria sido preferível uma política de menos desporto de rendimento, sobretudo pelas limitações da própria Região, e de mais educação e cultura desportivas que, a prazo, tornasse esta população, caracteristicamente sedentária, numa população fisicamente activa. Com todos os benefícios daí resultantes.
Passadas três décadas é sensível a necessidade de uma ruptura com certas premissas que demonstraram ser insustentáveis do ponto de vista do financiamento. E V. Exas. sabem que assim é. Falta-lhes é a coragem. Era por aqui que deveriam ter aproveitado esta oportunidade e não apenas pela simples adaptação às novas disposições legais. Este é um problema de inteligência, de bom senso, de respeito pelas prioridades, de respeito pelos princípios do desenvolvimento, de respeito, até, pela sustentabilidade da Região e, particularmente, pelo direito constitucional à prática física e ao desporto.
Vamo-nos abster e entendemos não dispensar este comentário, este continuado alerta que o desporto, aqui, nesta nossa Região, pobre e dependente, deveria, acima de tudo, ser interpretado como um bem cultural, deveria, acima de tudo, ser interpretado como um investimento ao serviço do desenvolvimento e não ao serviço da política.

MUDAR O MODELO ECONÓMICO

Duas notas:
1ª Mas há quanto tempo anda o Deputado Carlos Pereira (PS) a dizer na Assembleia Legislativa da Madeira que é necessário mudar de modelo económico? E quantos projectos foram apresentados nesse sentido, projectos sustentados e integrados, apresentados numa visão global do desenvolvimento da Região Autónoma da Madeira?. E tal necessidade não deriva, que fique claro, da lei da Finanças Regionais mas de um "modelo", sustentado na perspectiva Keynesiana, defendida pelo Presidente do Governo que arruinou, completamente, a economia regional. Em contraponto a essa tese, foram dezenas de projectos apresentados nos últimos dois anos, infelizmente, todos chumbados pela maioria PSD. Nem um passou! Quando agora um estudo vem ditar a necessidade de uma mudança de paradigma, apenas peca por tardia, mas seria bom que todos, mas todos, tivessem presente o conteúdo dos projectos apresentados. É intelectualmente desonesto não considerar este aspecto.
2ª São mais de 12.000 os desempregados inscritos no Centro de Emprego. São dados reais que têm origem nos serviços do próprio governo, tutelado pelo Secretário Regional dos Recursos Humanos. No entanto, aparece o Presidente do Governo a dizer que não acredita naqueles números. Trata-se de uma declaração grave, uma vez que constitui uma clara ofensa aos trabalhadores que se encontram nessa situação, um claro desconhecimento da realidade, mas também um acto de total desconfiança sobre o Instituto do Emprego. Curioso desta situação é que, no mesmo dia em que aquela declaração foi produzida, o governo anunciou um reforço de três milhões de euros, através do Programa de Apoio à Criação de Emprego. Interessante, não é?

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

E CRISTO NÃO FOI POLÍTICO?

Sinceramente, não entendo, ou se calhar entendo, o teor dos comentários a propósito das palavras ditas pelo Senhor Cónego Manuel Martins, pároco da Sé, relativamente à pobreza.
Com que então... o Senhor Cónego deve mas é preocupar-se com outras coisas que não aquelas. Começo a ouvir por aí, inclusive, na Assembleia, que a política é para os políticos e não para os Senhores Padres.
Ora bem, mas mais político do que foi Cristo? E haverá algum livro mais político do que a Bíblia Sagrada? "A Bíblia está cheia de "política", salienta Gary deMar. Oh meus senhores, tudo, mas tudo o que se faz tem uma intenção ou um pressuposto político. E o Senhor Cónego foi e é político enquanto Homem que conhece e domina a Palavra, contextualiza-a, o que o leva a denunciar os atropelos dos Homens a essa mesma mensagem da Igreja. O que o Senhor Cónego Manuel Martins não tem sido é partidário. Porque quando o for cá estarei eu para dizer... assim não! Agora, político, isto é, pegar na Palavra, pregá-la através da sua contextualização, contando a verdade sobre o que se passa à sua beira, questionar os comportamentos dos Homens (políticos), daqueles que batem com a mão no peito mas que precisam de alguns minutos para enrolar o rabo à saída de uma porta, todos esses comportamentos são bem-vindos. O que é inaceitável é utilizar o púlpito para, subtilmente, fazer a propaganda do poder. Isso, sim, é inaceitável.
Curiosamente, este Senhor Cónego tem o mesmo nome que o Bispo Manuel Martins, um Bispo Resignatário mas não resignado, que a todo o tempo defendeu os que não têm voz. O Bispo ficou conhecido, em Setúbal como o "bispo vermelho". Penso que querem colar esse rótulo ao Cónego Manuel Martins. Mas que o seja, simplesmente porque a pobreza não é uma fatalidade. A História o dirá.

JUSTIÇA, BALANÇA E OLHOS VENDADOS!

Por princípio não gosto, evito, falar de coisas que não sei, que não domino e porque não são da minha área de estudo e intervenção. Daí que este texto apenas constitua um desabafo ou, melhor ainda, uma atitude de verdadeiro espanto.
E a pergunta é esta: como pode uma pena nove anos, aplicada pelo Tribunal de Vara Mista do Funchal, ser reduzida para cinco pelo Tribunal de Relação de Lisboa?
Há qualquer coisa aqui que não bate certo. Dir-se-á que, por isso mesmo, há sempre a possibilidade de apelo para uma outra instância que, eventualmente, possa corrigir interpretações distintas dos factos. Obviamente. Mas o que está aqui em causa penso que não é apenas isso. Há leituras de processo e interpretações que quase atingem o dobro do tempo de condenação. E se o condenado não tivesse apelado?
Ora bem, este como outros casos semelhantes deveriam ser bem explicados sobretudo porque está em causa acreditar ou não na Justiça e no que esta palavra significa.

E O DESEMPREGO AUMENTA...

Foi triste, eu diria, patético, assistir ao comentário do Senhor Secretário Regional dos Recursos Humanos relativamente ao aumento do número de desempregados na Região. De um mês para o outro foram mais 343 pessoas que deixaram de poder contar com o seu salário. Uma média de onze por dia deixaram o seu posto de trabalho. E perante isto, perante esta calamidade social que atinge, globalmente, mais de 12.000 pessoas, vem o Secretário ler um papel com justificações esfarrapadas, com comparações com outras regiões do País, quando o problema está, em primeiríssimo lugar, no quadro da Autonomia política e administrativa da Região, na forma como se justifica a grandeza dos números e na apresentação das medidas de combate ao flagelo que se abate sobre a população de toda a Região. Teria sido melhor não ter falado, teria sido mais sensato o silêncio.
Estabelecer comparações despropositadas nada adianta junto daqueles que precisam de soluções, até pelo efeito dominó que a falta de emprego opera no seio do agregado familiar. Só que, a realidade assim o demonstra, não há soluções para este governo porque é sensível que esgotaram a sua capacidade de intervenção, de inovação, de criatividade e de projecto. E como assim é, parece-me evidente que não pode o Secretário dos Recursos Humanos, compaginado com a Vice-Presidência com a tutela da área económica, dar a cara aos madeirenses e porto-santenses e falar-lhes de medidas concretas e de esperança. Nem estes dois, tampouco o presidente do governo que sobre esta dramática situação não se lhe ouve uma qualquer declaração no quadro das políticas susceptíveis de modificarem a situação. Prefere o folclore das inaugurações e os habituais disparos contra a República, como se nada do que está a acontecer tivesse a ver com as responsabilidades que incumbem a um Presidente do Governo.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

PDM DE SANTA CRUZ: A PROVA QUE O OBJECTIVO NÃO FOI O PLANEAMENTO MAS SACAR DINHEIRO À UNIÃO EUROPEIA

Fugiu-lhe a boca para a verdade. Refiro-me ao Senhor Presidente da Câmara de Santa Cruz, quando sublinhou que perante tantos erros detectadas no relatório de avaliação da execução PDM, que tal situação é consequência deste instrumento de planeamento ter sido feito a "correr (...) para que a Região pudesse estar em condições de receber fundos comunitários". Se calhar é verdade porque, para o governo, o princípio nunca foi o do planeamento mas sim o de sacar dinheiro aos fundos da União Europeia. Para além disso não deixa de constituir uma declaração curiosa porque coloca em causa, no mínimo, dois aspectos:
  • Desde logo, julgo que em 1990 (há 19 anos), o PDM de Santa Cruz foi adjudicado a uma empresa qualificada sob a responsabilidade técnica do Arq. José Paradela. Em 1994/95 houve discussão pública do PDM e, a partir daí (com excepção do Funchal e, posteriormente do Porto Santo) os planos foram todos suspensos e ficado à responsabilidade da Secretaria Regional do Equipamento Social e, naturalmente, dos seus técnicos. Desde então, a Secretaria andou às voltas com todos os Planos Directores Municipais. A própria alusão à desactualização da cartografia não colhe pois tiveram tempo mais do que suficiente para investir e proceder à sua actualização. Fica, portanto, em causa a responsabilidade e credibilidade do Equipamento Social e dos técnicos que se envolveram nesse processo;
  • A própria Câmara Municipal de Santa Cruz que o colocou à discussão pública e que o aprovou.
Ora, se, porventura, o PDM foi realizado em cima do joelho, como soe dizer-se, quem o elaborou tem o dever de esclarecer tudo quanto se passou sob pena daquele PDM ser considerado uma fraude com eventuais consequências criminais. Foi o erário público que o pagou e foi o ordenamento territorial que ficou em causa. Depois, há a questão da autarquia e aqui importa detectar, politicamente, a (i)responsabilidade de homologação de um documento da maior relevância na gestão territorial do concelho, para agora vir dizer-se que foi elaborado "a correr".

É evidente que se sabe, porque é público e notório, que na Região os instrumentos de planeamento pouco interessam ao poder político. Eles existem porque a lei assim o determina mas, ao virar da esquina, são muitos os exemplos em que se ultrapassa, suspende e ignora aquilo que, técnica e politicamente foi assumido. Porque outros interesses sempre estiveram em jogo e porque nunca souberam definir exactamente o que significa o conceito que a palavra desenvolvimento encerra. Os anos que os PDM's andaram por aí denunciam, claramente, que ao governo nunca lhe interessou ter instrumentos condicionadores das "obras". Junta-se a este facto as enormes pressões dos designados lóbis do betão. Alguns ganharam, certamente, com isso. A Madeira, perdeu.

Consequência de tudo isto, àquilo que designam por desenvolvimento, em muitíssimos casos, ao longo de toda a Região, corresponde à descaracterização da identidade de uma terra que tem no Turismo a sua principal fonte de receita. Relegando os PDM's para plano secundário, fizeram e continuam a criar uma Região toda igual com evidente prejuízo no plano económico. Simplesmente porque as correntes turísticas, cada vez mais, procuram o diferente e não o igual; procuram a serenidade, o bom clima, mas também os elementos identificadores distintivos. Poucos turistas aqui se deslocam à procura de praia. O que lhes vendem é, sobretudo, a marca que deveria corresponder à excelência do património natural, a tranquilidade, a hospitalidade e a qualidade. Não vêm à Madeira para verem os edifícios e os centros comerciais. Vêm para ficarem deslumbrados com os elementos distintivos. E são esses elementos que estão a matar, lentamente, mas estão! Se houvesse rigor no PDM de Santa Cruz, por exemplo, o Caniço não seria aquilo que é e, na Região, um pouco por todos os concelhos, não teriam sido apagadas as marcas culturais importantes para competir com outros destinos.

OIÇAM O CÓNEGO MANUEL MARTINS!

A edição do DN-M de hoje é arrepiante para quem tem um mínimo de sensibilidade social. Uma peça equaciona o facto das mulheres e crianças estarem a "pagar a factura da crise"; uma outra, coloca o Senhor Cónego Manuel Martins, da Sé Catedral, no centro das atenções face à sua homilia de Domingo, na qual, uma vez mais, se indignou perante os silêncios e a maldade em relação aos que passam fome.
Aliás, o tema pobreza é recorrente na Assembleia Legislativa da Madeira mas, perante uma maioria que se nega a ouvir e a tomar como sérias as medidas que a oposição apresenta, pergunto, o que fazer? Todos os alertas são contrariados com os mais esfarrapados argumentos, simplesmente porque há uma absoluta necessidade política do poder regional em esconder a realidade, como se as famílias vivessem numa situação de absoluto conforto. Melhor do que qualquer outro comentário da minha parte são as palavras do Cónego da Sé Catedral, insertas na edição de hoje do DN num trabalho do jornalista Raul Caires:
"(...) Ouvi notícias esta semana (passada) que o parlamento regional recusou medidas de combate à pobreza, afirmando haver organismos onde podem dirigir-se os pobres", começou por recordar para depois perguntar aos que defendem "tal posição": "Conhecendo como conheço a falsidade de tantas medidas anunciadas de combate à pobreza e situações de miséria e de fome de tantas famílias (...), onde estão esses organismos de ajuda para que eu possa indicá-los aos muitos pobres que diariamente na igreja pedem ajuda". Segundo o sacerdote, existem casos sociais que precisam de ajuda por causa do "desemprego, alcoolismo, droga" e de "famílias jovens que não podem pagar o crédito à habitação" ou o "pão para os filhos". Há também "famílias que têm idosos acamados e doentes, casais que esperam e desesperam meses à espera de uma reunião com os agentes da Segurança Social para pedir ajuda - e são sempre adiadas ou quase sempre", acrescentou. A classe médica também não escapou ao olhar crítico do cónego da Sé, já que este denunciou casos de "reformados que continuam a não receber qualquer ajuda para os medicamentos porque na receita vem a cruzinha da não autorização da troca por genéricos". O Cónego da Sé continuou, afirmando que "há hoje situações dramáticas de injustiças sociais gritantes que causam tanta indignação que muitas vezes levam-nos à revolta". E esta, explicou, nasce naturalmente "da compaixão do sofrimento dos pobres e do cinismo dos insensíveis". Para Manuel Martins, face a este cenário é preciso "uma grande dose de bom-senso e de caridade para não nos tornarmos amargos perante tantos anúncios de ajuda aos necessitados que não passam de mentiras descaradas". "Conheço pessoalmente situações de pobreza extrema e de fome", afirmou, apontando casos de "mães que para enganar a fome dos filhos recorreram a fazer chá porque já não têm pão".
Mais palavras para quê? Não me consta que o Senhor Cónego seja militante de um qualquer partido da oposição. Por isso, OIÇAM O CÓNEGO MANUEL MARTINS e trabalhem na solução destes problemas gravíssimos. A fome não pode esperar nem é uma fatalidade.

Domingo, 21 de Junho de 2009

A URGÊNCIA DA REDEFINIÇÃO

Excelente, porque lúcida e profunda, a análise da semana desenvolvida pelo Jornalista Luis Calisto na edição de hoje do DN-M. Não vou tecer comentários àquilo que o Jornalista, do meu ponto de vista, equacionou e bem no que concerne aos principais actores da cena política regional, mormente, no que ao presidente do governo regional diz respeito. Mas há uma passagem que me parece fundamental em defesa dos madeirenses e portosantenses e sobretudo da DEMOCRACIA: "(...) O PS precisa de urgente redefinição. Um congresso, uma convenção, uns estados gerais, seja o que for onde todos debatam e escolham uma linha de rumo, com os actuais e/ou novos dirigentes, que traga alguma dignidade à tão maltratada vida pública regional".
É a voz de fora e independente que surge e não a voz de dentro. Nem mais. Em poucas linhas está tudo dito. Aliás, ainda ontem, publiquei aqui um texto que chamava à atenção para as preocupações que, neste momento, deveriam constituir a ideia central de quem tem esse dever e responsabilidade de OLHAR e OUVIR a realidade externa, não apenas a do Partido. O partido deve é reflectir sobre os sinais da sociedade, pelo que não ter consciência ou ignorar o que se passa para além dos muros partidários, do grupo restrito que o orienta, como se fosse possível impor uma vontade, uma ideia, uma estratégia ou um projecto(?) que não encontra eco, obviamente que tal significará, por mera comparação, estar a malhar, inconsequentemente, no ferro frio. Aliás, ninguém compra um produto ou porque não lhe atribui valor ou porque tem dúvidas.
Por aproximação às regras básicas do "marketing" sabe-se que gestão do processo deve ser determinada por objectivos específicos dentro de cada segmento e área de actuação, através de um planeamento onde deverá haver uma preocupação com o desenho estratégico, a análise, o exame e a orientação para o consumidor (o eleitor). Mas para isso torna-se necessário: conhecer e dominar os segmentos da sociedade em todas as suas variáveis, identificar o tipo de necessidades, o comportamento do eleitor em função dos traços da sua personalidade e da sua própria história, os centros de interesse, as expectativas, as crenças, os índices sócio-económicos e os estilos de vida e de valores. Daqui se poderá concluir que a adesão a um projecto implica, assim, um conjunto de etapas interligadas e sequentes, com eventuais recuos e avanços até à decisão final. Bernard Dubois, fala de quatro grandes fases: a do despertar que leva à ideia de adesão, a fase da recolha e tratamento da informação e, só depois, a formulação e tomada de decisão.
Ora, bastará que um líder se situe neste quadro para perceber que há fases imprescindíveis e que estão interligadas às quais se juntam o discurso de liderança, o discurso da convicção, o discurso que baseado no conhecimento atinge e conduz, neste caso o eleitor, para a sua adesão. Como tudo isto tem andado a ser feito com muito amadorismo, obviamente, que o produto tem ficado na prateleira e retirado por perda de limite de prazo. Os resultados dos actos eleitorais espelham isso. Mas estou em crer que melhores dias virão. Espero pela "redefinição".

Sábado, 20 de Junho de 2009

LÍDERES E LIDERANÇAS

Confesso a minha crescente preocupação no quadro da actividade à qual, em exclusivo, me dedico. Trata-se de uma actividade nobre, a política, mas para que ela assim possa ser caracterizada, há princípios, valores e competências que são determinantes, sem as quais a participação fica enfraquecida e sem sentido. Nunca gostei de me sentir mais um, muito menos um conivente, mais um que ali está, acomodado, tipo "timex" que não adianta nem atrasa. Ora, a lógica em que se fundam os partidos eu sei que é complexa, só que, sinceramente, começo a não ter paciência para aturar comportamentos estranhos, atitudes de prepotência e a mais completa ausência de humildade política.
Ainda ontem, alguém referia-me, insistentemente, "os militantes... os militantes... os militantes", como se pudéssemos entregar o partido à lógica do pensamento muitas vezes sectário e arrebanhado do militante, quando o que está em causa é a SOCIEDADE NÃO MILITANTE, são os milhares de eleitores que olham para um partido como INSTRUMENTO, como meio e não como fim, como esperança para uma vida colectiva melhor. Os militantes (e eu sou um militante) devem ter essa percepção, a percepção que estão ao serviço dos outros e que da sua desinteressada colaboração ao Partido poderá resultar o bem-estar da maioria. E a dele próprio, claro! Portanto, compete ao militante ter uma visão alargada do processo, possuir essa humildade e essa capacidade para perceber que um Partido não se esgota em 3, 4 ou 5 mil pessoas que constituem a sua base interna de apoio. Porque há muito mais POVO para além do Partido.
E isto envolve o mais humilde militante, do sítio mais recôndito da Região, até ao topo da hierarquia. E, neste caso, entre os do topo, há uma diferença substancial entre ser líder e ser chefe. Por essa razão, sigo, entre outros, Katzenbach que diz que o atributo mais comum que une os Verdadeiros Líderes é o facto de saberem como alcançar altos padrões de desempenho através da alteração dos comportamentos e das competências das pessoas. Um líder assume um compromisso com a mudança; evidencia coragem para desafiar as bases do poder e as normas; gera a auto-motivação e a motivação dos outros; demonstra capacidade de iniciativa para se mover para lá dos limites definidos. Enfim, um líder “acaba por ser uma pessoa que pela sua palavra ou pelo seu exemplo pessoal, influencia os pensamentos, comportamentos e/ou sentimentos de um número significativo de pessoas”.
Um líder não ofende, apenas elabora e comunica, de forma convincente, um caminho claro, adaptado e persuasivo; não exclui, une porque sabe apreciar a natureza da audiência; investe a sua energia ou canaliza a energia dos outros para a construção da instituição; exerce a liderança de uma forma directa ou, indirectamente, descobre uma forma de influenciar os outros pela verdade, pelo seu exemplo, pela respeitabilidade, pela tolerância e pela segurança, através de um discurso que demonstra profundo conhecimento sobre o que está a falar. Um líder não diz hoje uma coisa e amanhã outra. É por isso que há uma substancial diferença entre ser líder e ser chefe!

Aqui, sim, os militantes têm uma palavra a dizer. Porque o Partido é apenas um instrumento para chegar ao poder e implementar uma política. De resto, um partido não pode confinar-se a meia-dúzia de interesses pessoais. É por isso que estou cansado. Assim, NÃO!
Nota:
Os blogues, há sempre quem ataque os autores dos blogues, porque escrevem e dizem coisas que não são do agrado. O problema que nunca é equacionado é se um blogue é funcional ou disfuncional. O funcional ajuda a reflectir e parecendo destrutivo não é. A discordância funcional ajuda a instituição. O disfuncional é que é perigoso, porque, lentamente, vai corroendo os alicerces da instituição. Os conflitos têm estas características. O que é preciso é saber diferenciá-los, compreender e retirar as ilações necessárias.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

DIA DA REGIÃO E DAS COMUNIDADES

No próximo dia 01 de Julho comemora-se mais um DIA DA REGIÃO E DAS COMUNIDADES. A efeméride terá lugar no Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos com um programa que inclui uma intervenção do Presidente da Câmara Municipal de Câmara de Lobos, uma conferência pelo açoriano Doutor Guilherme Reis Leite (Secretário Regional de governos liderados pelo Dr. Mota Amaral - PSD) e Presidente da Assembleia Legislativa dos Açores) e, finalmente, uma intervenção do Presidente da Assembleia Legislativa da Madeira.
Ora bem, num quadro destes, tal como aconteceu no ano anterior, não participarei nesta comemoração. Por uma razão muito simples: porque nutro um profundo respeito pelos princípios da DEMOCRACIA e do que a Assembleia representa ou deveria representar nesse campo.
Se entendo, por louvável, que o Dia da Região e das Comunidades seja comemorado de forma itinerante, levando a todos os concelhos tal solenidade, o mesmo não posso dizer do formato que, há muito, o PSD na Madeira estipulou e impôs. Um formato onde os partidos são silenciados, os problemas da Região e da governação ocultados, ficando assim uma via aberta para os discursos do pensamento único, com os elogios ao que por aqui se faz e, complementarmente, as sempre repetidas baterias apontadas para Lisboa. Lá pelo meio, para disfarçar a coisa metem uma conferência sobre "Autonomia e Federalismo" que, houvesse capacidade de iniciativa da Assembleia, bem poderia ter lugar em outra data no quadro de um ciclo de conferências anuais que não deveriam ser esquecidas.
No dia da Região todos, mas todos, com o respeito e a solenidade do próprio dia, deveriam ter direito à palavra, isto é, os grupos parlamentares e os partidos com representação parlamentar. Não faz qualquer sentido engendrar formatos que apenas têm por objectivo silenciar o direito à palavra. O Dia da Região e das Comunidades deveria servir como mais um momento de profunda reflexão, de análise apaixonada sobre a Autonomia e, inevitavelmente, sobre a governação nos planos económico, social e cultural. No respeito pelos princípios e pelos valores que enformam a DEMOCRACIA assim deveriam proceder. Preferem falar a solo, pelo que, pelo menos da minha parte, na qualidade de Deputado, não contam comigo. Não deixo de lembrar o provérbio hindu aos senhores que usarão da palavra: "Quando falares procura que as tuas palavras sejam melhores que o silêncio".

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

FINALMENTE, O PRESIDENTE DO GOVERNO RECONHECE A POBREZA

São palavras do Presidente do Governo: Ronaldo é a síntese do povo madeirense.
Ora bem, tal como outras intervenções, do meu ponto de vista, trata-se de uma declaração oca e vazia de sentido, assumida apenas para consumo externo, desde logo porque, quando fala de um cidadão que teve de "emigrar", sublinho eu, aos onze anos, o presidente, porventura distraído, acabou por assumir a falência das políticas susceptíveis de garantirem o sucesso dentro de portas, sobretudo ao nível da formação inicial. Ronaldo era uma criança. Aos onze anos zarpou daqui para fora porque alguém, com visão, arrancou-o à ilha para lhe dar futuro. O presidente,repito, certamente distraído, comparou Ronaldo a um emigrante adulto que segue o rumo das ilhas do Canal, da Venezuela ou da África do Sul, porque ele, presidente, foi incapaz de criar condições na Região, a cujo governo lidera, para garantir felicidade aos demais. É por isso que, para o presidente, Ronaldo é a síntese do Povo madeirense. Mas também é a síntese a um outro nível que o presidente não disse mas sublinho eu: é a síntese de uns quantos que têm tudo e são riquíssimos e fazem o que querem e entendem da Região, face a uma maioria que nada tem. Basta olhar para as grandes assimetrias económicas, sociais e culturais que nos rodeiam. Significa, também, repito, porventura por distracção, que o presidente acabou por reconhecer a pobreza das suas políticas e das gentes desta terra madrasta que não dá futuro aos seus filhos. É caso para dizer que "pela boca morre o peixe".

EDUCAÇÃO: DE MAL A PIOR

Desde há muito que defendo a necessidade de uma profundíssima reflexão sobre o sistema educativo. Há melhorias, como não podia deixar de acontecer, consequência da própria escolarização, só que essas melhorias apresentam-se lentas e quase irrelevantes no contexto regional, nacional e europeu.
Os dados publicados esta semana pelo Instituto Nacional de Estatística são de facto muito preocupantes. Deixo aqui alguns:

Proporção da população activa com e sem escolaridade obrigatória
Com escolaridade: 43,5% - Média Nacional 47,7%
Sem escolaridade: 56,6% - Média Nacional 52,3%
Taxa de abandono escolar precoce (18/24 anos)
R. A. Madeira: 48,1% - último lugar do País. Trata-se de um indicador seleccionado pela Comissão Europeia como indicador estrutural.
Taxa de escolaridade do nível de ensino secundário (20/24 anos)
R. A. Madeira: 38,7% - penúltima região do País.
Média do País: 53,4%. Valor abaixo da taxa da média nacional de 1997 que era de 39,7%. A taxa da União Europeia (27): 78,1%.
Taxa de aprendizagem ao longo da vida (25/64 anos)
R. A. Madeira: 2,6% (igual aos Açores)
Média Europeia: 9,7%
Média Nacional: 4,4%
Taxa de escolarização no ensino superior
R. A. Madeira: 9,3% (penúltimo lugar)
Média nacional: 28,1%
Taxa de escolaridade do nível de ensino superior (25/34 anos)
R. A. Madeira: 18,2% (apesar de uma melhoria nos últimos dez anos)
Média Nacional: 21,4%
A Madeira regista o menor número de diplomados do Ensino Superior por 1000 habitantes (20/29 anos)

O problema é que se sabe que assim é mas não se vislumbra qualquer atitude estrutural por parte do governo no sentido de inverter esta triste realidade. Os ganhos ou melhorias que se registam são pobres e muito distantes dos valores que poderiam prognosticar um futuro melhor para a população da Madeira e do Porto-Santo. É que hoje, mais do que nunca, o investimento em Educação é fundamental e, por isso mesmo, prioritário. O próprio relatório do INE salienta que "a educação e a formação ao longo da vida constituem um requisito fundamental para a empre­gabilidade dos indivíduos". E o governo não se dá conta disso. Trata o sector educativo da mesma forma que adjudica uma qualquer obra que, passados uns meses, é inaugurada com fanfarra e discursos. Ora, a obra na EDUCAÇÃO, a obra na valorização das pessoas leva anos, é contínua, multifactorial e só com muita competência e com políticas assertivas pode ser "inaugurada" e trazer ganhos reais na economia.
Sinceramente, eu não sei o que fazem no plenário do governo, se contam anedotas ou se falam do supérfluo. A verdade é que dali não têm saído medidas estruturantes do sistema, todos os anos viram o disco e tocam o mesmo, repetem e repetem até à exaustão as políticas que já provaram estar marcadas pelo insucesso. Da Secretaria e da Direcção Regional de Educação o que as caracteriza é a rotina, é a trapalhada, são os discursos sem sentido e cheio de frases feitas, quando nós precisamos de políticas que, com segurança, garantam avanços consistentes e portadores de futuro.
Podem ler as estatísticas como quiserem, podem dar a volta que entenderem para uma vez mais disfarçar a realidade mas não se esqueçam que os valores agora apresentados (e estes são apenas alguns) compaginam-se com os resultados dos "ranking's" nacionais e das provas PISA, neste caso um estudo lançado, em 1997, pela OCDE - Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Económico), que monitoriza, de uma forma regular, os sistemas educativos em termos do desempenho dos alunos, no contexto de um enquadramento conceptual aceite internacionalmente e que mede a capacidade dos jovens de 15 anos para usarem os conhecimentos que têm de forma a enfrentarem os desafios da vida real. Comparem e confrontem esses resultados com os encargos da Educação ao longo destes trinta e três anos de Autonomia e quase tantos de regionalização do sistema. Qualquer madeirense tem razões objectivas para estar preocupado, simplesmente porque andam a brincar com a EDUCAÇÃO!
Nota:
Vale a pena ler aqui a intervenção desta manhã, na Assembleia, do Deputado Carlos Pereira. Aqui fica um excerto no que à Educação diz respeito: "(...) O sonho de uma região como a Madeira em criar riqueza baseada no conhecimento fica desfeito por completo, apesar de discursos ocos e suspeitos, nos magros resultados da I&D em percentagem do PIB, a região é só a pior do pais. Mas também o penúltimo lugar no nº de trabalhadores com profissões intelectuais e científicas (...)".

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

UM DIA EM CHEIO MAS PARA REPENSAR

Hoje, confesso, tive um dia em cheio. Abordei um assunto muito sério na Assembleia Legislativa da Madeira perante, infelizmente, uma maioria pouco sensibilizada para as questões da Educação, mantive uma interessante troca de impressões com dois leitores deste meu blogue e quase terminei o dia com um longo encontro com uma pessoa que já não a via há muitos anos e que, sinceramente, pela sua postura serena, inteligente, sincera, franca e aberta, ajudou-me a compor algumas peças do "puzzle" político regional. Pensava eu que dominava alguns "dossiês" mas não, há muita coisa escondida, trancada a sete chaves, mas que pelo caminho vai produzindo o sofrimento de muitas pessoas. Uns, agacham-se, curvam-se, deixam-se enlear na lama, outros(as) sofrem porque a coluna falou mais alto. Percebi melhor este pequeno mundo onde vivemos. Uma conversa que me escorreu garganta abaixo como mel e que terá continuidade um dia. Não se trata de bilhardices, não se trata de invejas mas de questões muito sérias, profundas e que marcam, negativamente, esta terra que amamos.
A páginas tantas, inevitavelmente, veio à colação o PS, os insucessos, a alternativa que não surge, os conflitos, as desinteligências em contraponto à necessidade sentida de uma mudança que se torna imprescindível. Respondi, vagamente, que isto vai melhorar. Perguntou-me de imediato: acredita? Respondi que sim, que tem de melhorar e que tenho a certeza que o PS será poder nesta Região mais cedo do que muitos julgam.
Regressei a casa com um turbilhão de coisas na cabeça: com o teor da nossa amena, profunda e interessante conversa e com a história do PS a bailar entre os temas. E fico boquiaberto quando é este o sentimento de uma pessoa, livre, aberta, cansada mas desejosa de querer um bom futuro para os netos, que espelha, certamente, a vontade de uma extensa classe média e de uma extensa população que vive com muitas dificuldades, como é que o PS-M se deixa enredar em paixões internas que nada, rigorosamente nada, dizem às pessoas. As pessoas querem um partido com qualidade, um partido com propostas, um partido profissional que olhe para fora e não para dentro. As pessoas querem ver um Partido de excelência para o qual o Povo olhe e diga: esses senhores podem ir embora que há quem os substitua para melhor. Enquanto falava com essa pessoa, eu que conheço a história, embora o contexto seja outro, lembrei-me de um quadro que vi num museu em Oslo: o GRITO de Edvard Munch. De facto, apetece gritar!

OBSERVATÓRIO DA VIOLÊNCIA ESCOLAR

O CDS/PP apresentou, esta manhã, um projecto que visava a criação de "Um observatório da violência escolar". Na circunstância produzi a seguinte intervenção:
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,
Este não é assunto novo. Por proposta do CDS/PP este tema já aqui foi motivo de debate perante uma clara indiferença da maioria parlamentar. Mas vale a pena regressar a este assunto. E vale a pena por dois motivos: desde logo porque ele compagina-se com a proposta aqui apresentada sobre o Estatuto do Aluno e que não teve a concordância do CDS/PP; por outro, porque, permita-me Senhor Deputado e Amigo José Manuel Rodrigues que, humildemente, esclareça melhor a sua bancada se, porventura, a minha intervenção sobre o Estatuto do Aluno não foi suficientemente clara.
Senhores Deputados, o ambiente social da escola, antes considerado como espaço se socialização, espaço protegido, privilegiado e seguro, deixou de ter essa característica um pouco por todo o lado. Mas também parece-me normal que pela ausência de pro-actividade relativamente aos fenómenos, a indisciplina e a violência tivessem chegado à Escola. Foi uma questão de tempo. De resto, a violência sempre existiu. Surpreendente e preocupante é o facto de, nos últimos tempos, ela ter passado a se manifestar nos estabelecimentos de ensino.
De uma forma crescente e embora com particularidades próprias, aquilo que é sensível mostra que, na Madeira, já há muito sofrimento nas vítimas consequência das atitudes a que são submetidas. Por isso mesmo, coloca-se a urgência de se abrir uma nova frente de trabalho, dizem vários investigadores, para melhor estudar os factos, não com punhos de renda, mas através de uma actuação que assegure um bem inestimável à paz e ao desenvolvimento: a escolaridade e a educação sem sobressaltos.
Senhores Deputados, relembro aqui uma passagem de uma minha intervenção quando este projecto esteve aqui em debate:
“Há que diferenciar dois conceitos: indisciplina é uma coisa; violência é outra. Os actos de indisciplina estão ligados à infracção de regras que a escola estabelece bem como os conflitos entre alunos, auxiliares de acção educativa e até as atitudes de obstrução ao trabalho dos professores; já a violência tem outros contornos, tem a ver com agressões, roubos, opressão sobre o outro, humilhação e até destruição dos espaços e equipamentos.
A violência é muito preocupante; a indisciplina tem outra configuração pois até pode enquadrar-se no âmbito da irreverência própria da idade.
É necessário separar estes conceitos para que saibamos do que estamos a falar. E neste aspecto da indisciplina e da violência, a Madeira não está imune. Pelo contrário. Os casos não se resumem a dois, conforme, infelizmente, sublinhou, em tempos, o Senhor Secretário Regional da Educação. Trata-se de uma falsa estatística do governo ou então, tal como aconteceu com a toxicodependência, nos anos 90, o discurso político, primeiro negou, para depois deitar as mãos à cabeça e com soluções tardias e inconsequentes. Basta conhecer as escolas e ser docente para verificar que todos os dias os conselhos executivos, para além do trabalho normal de gestão e administração, têm de atender a casos de indisciplina e de violência.
Este é, portanto, um tema que deveria ser assumido com uma grande preocupação por parte do governo. E não foi e não está a ser acompanhado com a devida responsabilidade.
Quando, Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados, insisto, dispomos de uma rede escolar com estabelecimentos de ensino maximizados, com 1000, 1500 e mais de 2000 alunos, mais de 7.200 professores por aí distribuídos, administrativos e auxiliares de educação, quando as escolas se tornaram, pela ausência de um verdadeiro e actual conceito de Escola, espaços impessoais e sem alma, quando a sociedade está profundamente doente e fragilizada a Escola não poderá estar melhor.
A Escola é hoje a consequência dos erros estratégicos da política social e de educação, mormente ao nível da tipologia dos edifícios, do número de alunos por cada estabelecimento e do número de alunos por turma, é a consequência da sua própria organização interna, da infernal burocracia e, sobretudo de uma sociedade desequilibrada, marcada pela pobreza e onde faltam verdadeiras e consequentes políticas de família.
Quando isto acontece, dizem os relatórios da UNESCO não há espaço nem tempo para pensar como “lidar e evitar os comportamentos anti-sociais dos alunos” e como “promover comportamentos pró-sociais entre os alunos”. É a montante que temos de actuar.
Mas atenção: não se trata de gerar uma espécie de “totalitarismo brando”, que não abre espaço para as diferenças, para a liberdade por imposição de um modelo único de comportamentos aceitáveis. Não é isso que está em causa. Mas está em causa a promoção das “boas práticas”, a assunção de responsabilidades e de novas mentalidades compaginadas com novos paradigmas de inovação pedagógica que responda aos desafios da nova sociedade.
É por isso, Senhores Deputados, que a Escola é hoje consequência também de uma formação inicial de docentes que terá de ser revista, porque os professores deverão possuir formação, e não têm, para actuar em ambientes que não são apenas de transmissão de conhecimentos. Eles são formados para a normalidade e não para aquilo que a Escola realmente é.
A Escola é hoje, também, consequência de atirarem para a sua responsabilidade missões e tarefas que não lhe competem, é a consequência de planos curriculares e programáticos desajustados da realidade, é a consequência de, ao querer responder a todas as solicitações externas à sua vocação e missão, acaba por não responder eficazmente a nada. A escola é hoje a consequência de políticas que a tornaram remediadora social, é a consequência, finalmente, de não haver uma ideia central e integrada que consubstancie o caminho de sucesso pelo qual nos devemos guiar.
Edgar Morin esteve em Portugal. Ele defendeu uma mudança radical do ensino. É ele que questiona e lamenta, a par de muitos outros livres-pensadores, que a "condição humana esteja totalmente ausente do ensino” e, neste pressuposto perguntou: “o que significa ser humano?”. As crianças não estão a ser ensinadas", disse Edgar Morin.
Neste pressuposto, e olhando para a política regional, o diálogo entre o gato e a Alice no País das Maravilhas ou na Região das Maravilhas, julgo poder ser trazido à colação: para quem não sabe para onde vai qualquer caminho serve. É isto que está a acontecer. Há um desnorte na política educativa, pelo que o acumular de erros ao longo dos anos está a gerar uma situação em que o governo denuncia não saber qual o melhor caminho para solucionar os problemas.
E como não consegue descortinar o caminho, pois bem, segue a solução mais fácil para a indisciplina e para a violência: contratualiza empresas privadas de segurança, coloca equipamentos de videovigilância, cria o cartão electrónico e, sabe-se lá, mais tarde, perante a gravidade dos problemas, senão colocará nas escolas um qualquer equipamento de detecção de metais. É o que está em curso, Senhores Deputados.
Tudo porque não há coragem de ir ao fundo das questões. Só que essas opções não atenuarão o problema, e na sequência do que aqui foi dito aquando do debate sobre o Estatuto do Aluno, Senhor Deputado e Amigo José Manuel Rodrigues, a punição pela punição, a expulsão pela expulsão apenas aliviará o pau nas costas do Secretário.
O problema de fundo permanecerá, enquanto não decidirmos sobre uma actuação na génese dos problemas, tendencialmente, a Região confrontar-se-á, por um lado, com a indisciplina, com essa incivilidade, isto é, com os relacionamentos ofensivos, com as linguagens agressivas, a atmosfera hostil e a humilhação, por outro, com a violência cujos sinais estão aí de forma crescente e preocupante.
Senhores Deputados não sou portador de uma visão inflacionista da violência mas há na Madeira, inegavelmente, aquilo que posso designar por uma micro-violência em aceleração constante. A solução destes problemas encontra-se no combate na génese dos mesmos, está no que dissemos, repito, na organização escolar, no número de alunos por cada estabelecimento de ensino, tornando mais fácil o controlo, está no apelativo conforto das escolas, na aceitação das regras de conduta e na co-responsabilização e, em alguns casos, na criminalização dos pais e encarregados de educação quando esse for o caso.
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,
Nunca me ouviram falar de facilitismo. Falo de rigor, de disciplina, de qualidade e de excelência do sistema educativo. O que procuro é demonstrar que o sistema não se resolve com pensos rápidos porque a inflamação é profunda e necessita de outro tipo de cuidados.
Volto aqui a sublinhar o que disse o Professor Lemos Damião: “(…) Urge aprendermos com o que se ensaiou na Europa e nos Estados Unidos e concluirmos que o problema não é de conjuntura mas de fundo. Afigura-se-nos indispensável a criação de um observatório especializado que forneça informação tratada aos decisores” – concluiu o Professor.
Só através do estudo, da monitorização dos factos, da existência de um banco de dados, com muita formação e com políticas integradas poderemos isolar o que é relevante e entendível como elementos causadores de perturbação.
Não aceitar esta indicação de quem estudou estes problemas, não querer aceitar que o problema da indisciplina e da violência está em crescendo, que se trata de uma situação que está a gerar graves incómodos na gestão do espaço da sala de aula, que há professores agastados e que sofrem com as atitudes de muitos alunos, continuar a pensar, romanticamente, que a escola funciona porque há edifícios, alunos, professores e outros funcionários, desresponsabilizando-se pelo que lá acontece, se há sucesso ou não, se há projecto educativo ou não, se se educa ou não, tudo isto corresponde a uma política que não tem em devida conta as múltiplas variáveis da Escola e do sistema educativo.
Senhor Presidente, eu sei, minimamente, do que vos falo. Tenho a vivência da escola, das reuniões de conselho pedagógico, das reuniões de grupo, das reuniões de conselho de turma por motivos disciplinares, dos projectos em que me envolvi. Não estou a falar de cor, falo com o conhecimento da realidade.
Mas há mais. Era bom que todos tivéssemos consciência que a sociedade que se teima em construir é uma sociedade violenta em todos os aspectos. É a sociedade do ter antes do ser, é a sociedade da competição feroz, é a sociedade que não valoriza o saber, o papel da escola e dos professores, é a sociedade que se aproveita da Escola para festas e rituais de propaganda que pouco têm a ver com a Educação, é a sociedade de muitas famílias atoladas na miséria, nas dependências e nos ambientes de maus tratos. Uma parcela da sociedade obviamente que escapa, mas muitos são empurrados para os comportamentos inapropriados.
Daí que se possa dizer que a indisciplina e a violência na escola são uma emanação da sociedade.
A Escola não constitui uma ilha na sociedade. Portanto, a indisciplina e a micro violência, têm implicações profundas e essas residem nos princípios e valores da organização social e nas políticas globais e sectoriais promovidas pelo governo.
As iniciativas do governo e da escola nesta matéria têm sido incipientes pois não têm ajudado os jovens a “terem consciência das suas sensações, sentimentos e necessidades; não têm desenvolvido a consciência dos seus talentos e a confiança na capacidade de usá-los; não têm incentivado o respeito próprio e o respeito pelos demais; a escola não tem ensinado a tolerância, a capacidade de comunicação e as maneiras de lidar com conflitos”. Isto mesmo salienta recentes estudos da UNESCO.
Por tudo isto, porque entendemos que alguma coisa terá de ser feita, apoiamos sem reservas esta iniciativa do CDS/PP na convicção que este é um passo importantíssimo para compreendermos as causas, a dimensão do problema e as possíveis soluções. Esperamos que todas as bancadas se unam, finalmente, às finalidades que este projecto do CDS/PP contempla, pois ele traz no seu âmago o essencial para que, Senhor Deputado e Amigo José Manuel Rodrigues, não tenham de continuar a expulsar alunos engrossando a fila dos condenados desta sociedade.

AINDA A PETIÇÃO DOS PROFESSORES E A PROPÓSITO DE UM COMENTÁRIO

Um leitor deste espaço de comunicação, a propósito de um texto que ontem publiquei relativamente à Petição dos Professores comentou:

"Miguel Cunha na RTP ontem teve uma intervenção lúcida. Com os problemas que o Sr. Deputado faz tanta questão a salientar (pobreza e desemprego) estar a lutar por subidas posicionais na carreira que nem são de (ou por) mérito (congeladas devido às dificuldades económicas) são minuências e egoísmo de uma classe que faz-se valor da sua dimensão para "sacar" (sim, sacar) recursos originários de todos os contribuintes. Como se não bastasse a segurança do emprego público que usufruem, em relação aos outros com desemprego à porta. Da sua parte, é muita contradição o que só se justifica pelo corporativismo latente" - Rui Miguel Jasmins.

Incluo-me, tal como o meu Caro, no grupo dos cidadãos com sensibilidade social. Sei o que é ser pobre e sei identificar as múltiplas carências da nossa sociedade. A pobreza e as dificuldades seja de que natureza for e de quem for, perturba-me, choca-me. Por isso, sempre lutei por uma sociedade mais equilibrada, mais justa, que cresça e se desenvolva de uma forma sustentável. Tenho provas dadas que não sou corporativista e isso fica absoluta e inequivocamente demonstrado nos textos escritos, nas publicações que fiz e nas minhas intervenções, por exemplo, no Parlamento Regional. Dentro das minhas limitações, primeiro analiso, dialogo com outras pessoas e só finalmente tomo posição. Não existe, creia, qualquer egoísmo da minha parte, tampouco oportunismo em função da classe profissional a que pertenço, até porque subi na carreira docente até ao topo, sempre avaliado e fazendo a formação contínua e as formações complementares de melhoria dos graus académicos, os quais custaram-me muito dinheiro. Mas este é, apenas um desabafo, porque, muito sinceramente, a única palavra que não gostei do seu interessante comentário foi a de uma classe que gera situações desta natureza para "sacar" recursos de todos os contribuintes e com a concordância de quem não deveria embarcar nessas perversas situações. Ora bem, partindo do pressuposto que o meu Caro não é docente, vamos então a algumas situações concretas:

  • Para o exercício da docência é necessário o grau académico mínimo de Licenciado (4 ou 5 anos de curso mais estágio pedagógico não remunerado.
  • O salário de um docente (líquido) no primeiro escalão, no caso de não casado e sem filhos é de € 1.170,26; se se tratar de um casal, com 2 filhos, o vencimento ascende a € 1.183, 62.
  • Ao fim de 15 anos de trabalho, nas mesmas circunstâncias, o salário é de, respectivamente,
    € 1.387,33 e € 1.403,73.
  • Para atingir o topo da carreira são necessários 35 anos de bom e efectivo serviço, sujeito a uma rigorosa avaliação, de dois em dois anos e com uma prova pública selectiva de passagem do 5º para o 6º escalão, após 23 anos de serviço, que incide sobre toda a actividade profissional do professor desde o início de funções docentes. Actividade, sublinhe-se, já avaliada para progressão nos escalões anteriores.
  • Após agravamento, os módulos de tempo de serviço têm a seguinte duração: 1º escalão – 5 anos; 2º escalão – 5 anos; 3º escalão - 5 anos; 4º escalão - 4 anos; 5º escalão – 4 anos; 6º escalão - 6 anos; 7º escalão – 6 anos.
  • Perante a actual disposição legal e devido ao congelamento da carreira, há docentes que para atingir o 8º escalão (último) terão de perfazer 37 anos de trabalho, isto é, praticamente quando atingem a idade de 60 anos.
  • Fruto da legislação em vigor foi extremamente agravada a redução da componente lectiva (que não significa ausência da escola e trabalho a outros níveis) hoje são necessários 50 anos de idade e 15 anos de serviço docente para dispor de 2 horas de redução; 55 de idade e 20 anos de serviço docente – 4 horas; 60 de idade e 25 anos de serviço docente – 8 horas. Os educadores de infância e os docentes do 1.º ciclo do ensino básico, aos 60 anos de idade, podem requerer a redução de cinco horas da respectiva componente lectiva semanal.
  • O número de horas de trabalho situa-se nas 35 horas semanais e aqui não estão contabilizadas as horas destinadas à preparação das aulas e correcção de trabalhos. Um docente com 4/5 turmas significa que tem 100 a 125 alunos à sua responsabilidade. E aqui pode acrescer o facto de ter dois níveis diferentes o que implica preparação de aulas e correcção de trabalhos diferenciados.
  • Mais, ainda: nos últimos oito anos verificou-se uma perda dos salários reais de, aproximadamente, 10%.
  • Comparando as tabelas salariais anteriores com a actual, verifica-se que há diferenças que se situam num prejuízo para o docente que varia entre € 3.200,00 nos primeiros escalões e os € 19.916,00 nos escalões mais altos. Simplesmente porque o tempo de serviço em cada escalão foi substancialmente alterado. Antes atingia-se o topo da carreira aos 26 anos de serviço, agora, aos 35 anos de serviço.
  • E o que dizer da indisciplina, má educação e de uma micro-violência em crescendo que os docentes têm de suportar! São centenas os professores acompanhados psicológica e psiquiatricamente.

Ora bem, não abdico de uma grande exigência profissional face à importância da Educação. Não abdico do rigor, da disciplina, da qualidade e da excelência. Não há outro caminho para o nosso sucesso colectivo. Mas a par dessa exigência, desse rigor e dessa responsabilidade, os docentes têm de ser dignificados a vários níveis, sendo um dos quais a retribuição salarial. E neste caso, não está sequer em causa qualquer reivindicação sindical no sentido de pagamentos retroactivos durante os 28 meses de congelamento, mas apenas o reposicionamento nos novos escalões (passou de dez para oito). E este reposicionamento podia e pode ser escalonado no tempo, a partir de uma data futura e para toda a função pública e não apenas para os que exercem a docência.

É por isso que digo que esta é uma questão da Autonomia e do exercício pleno de uma Região que tem Órgãos de Governo próprios. Os Açores fizeram assim e melhoram 18.600 funcionários públicos que não têm vencimentos altos. E se formos a considerar as referidas "dificuldades económicas", os milhões que por aí se gastam de forma supérflua, aqui trata-se, do meu ponto de vista, de um investimento num sector que é vital para o nosso futuro. Sem professores relativamente bem remunerados e sem uma grande exigência na qualidade do serviço por eles prestado, não atingiremos os níveis de sucesso que tanto ambicionamos. Só que isto implica, como é óbvio, de um grande e profícuo trabalho a montante da Escola, na sociedade e, portanto, nas famílias.

Meu Caro, é o que eu penso sobre esta matéria, distante de qualquer corporativismo, mas respeito outros posicionamentos, como é óbvio. E os educadores e professores também pagam impostos!

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

PSD NEGA A CONTAGEM DO TEMPO DE SERVIÇO CONGELADO

De acordo com o Regimento da Assembleia Legislativa da Madeira subiu hoje a plenário a designada PETIÇÃO, assinada por 4000 educadores e professores, que reivindicavam a contagem do tempo de serviço, congelado durante 28 meses, apenas para efeitos de reposicionamento nos novos escalões configurados no Estatuto da Carreira Docente.
Se do PSD nada a havia a esperar, do meu ponto de vista, não deixa de ser estranha a posição de alguns partidos que se mostraram ambíguos na sua argumentação relativamente a posições anteriores sobre esta matéria. Aqui fica a posição que assumi no decorrer dos trabalhos:
Senhor Presidente
Senhoras e Senhores Deputados,
Quero, em primeiro lugar, cumprimentar a Senhora Deputada Isabel Cardoso, do PCP, uma ilustre Colega por quem tenho muita estima e desejar-lhe as maiores felicidades nesta sua nova tarefa. A Educação fica muito a beneficiar com a sua presença nesta Assembleia.
Quando quatro mil educadores e professores assinaram uma Petição solicitando a contagem integral do serviço docente prestado, mas congelada 28 meses, não foi por oportunismo muito menos por sentido corporativo. Assinaram porque sentiram que lhes assistia razão e na plena consciência que estão a ser vítimas de uma injustiça. Nós estamos certos que qualquer um de nós neste parlamento faria o mesmo se se sentisse espoliado dos seus direitos.
E o curioso é que todos os grupos parlamentares e partidos perceberam a injustiça que estava a ser cometida; só o grupo parlamentar do PSD não quis entender.
E esta história não nasce no momento em que os educadores e professores assinaram a petição que hoje debatemos. Já muito antes, entre outras intervenções sensibilizadoras para o problema, dois projectos de Decreto Legislativo Regional tinham sido apresentados pelo grupo parlamentar do PS e recordo que ambos foram chumbados pela maioria: o primeiro, especificamente sobre a contagem do tempo de serviço prestado pelos docentes; o segundo, na adaptação à Região do Decreto-Lei sobre os Vínculos Carreiras e Remunerações, no qual propusemos a contagem do tempo de serviço mas, desta feita, abrangendo toda a função pública.
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,
Empurram Vossas Excelências este assunto para o governo da República, misturando aqui aspectos orçamentais, com vantagens para uns docentes em relação a outros dentro do espaço nacional. O Senhor Deputado Jorge Moreira chegou até a falar de implicações na mobilidade dos docentes. Tudo argumentos sem qualquer sentido. Até porque o governo sabe, o Senhor Secretário da Educação sabe, o Senhor Deputado Jorge Moreira sabe que para efeitos de concurso e de aposentação todo o tempo de serviço conta. O que está aqui em causa é o reposicionamento na carreira de acordo com esse tempo de serviço.
Senhores Deputados, tenham presente que o governo dos Açores, através de negociação com os parceiros sociais, há muito que resolveu este problema. Simplesmente porque a Região Autónoma dos Açores entendeu e bem resolver esta situação no quadro da sua Autonomia política e administrativa. Porque o entendimento que tem da Autonomia é que ela só se justifica se souber marcar a diferença.
Os professores, Senhores Deputados, porque estamos aqui exclusivamente a falar da Petição apresentada pelos professores, não estão a pedir o pagamento de retroactivos durante os 28 meses de congelamento. Apenas estão a solicitar que o tempo de serviço prestado conte para o reposicionamento nos novos escalões da carreira docente. Não há aqui qualquer sentido de oportunismo ou de uma mera luta sindical, apenas está em cima da mesa, não um favor do governo, mas o cumprimento de um elementar direito de justiça.
Não basta, Senhores Deputados, dizer-se por aí que o governo está ao lado dos professores. Que nada será feito nas costas dos professores. O importante é face às situações concretas de correcção de processos mal conduzidos, sejam da responsabilidade de quem for, concretizar, na prática, esse sentimento. E em muitas matérias é por demais evidente que o governo tem uma prática que não acompanha o discurso político. Este é um dos casos mais flagrantes.
Pode o Senhor Deputado Jorge Moreira argumentar como quiser e entender, pode, por momentos meter a Autonomia na gaveta, mas não conseguirá enganar todos os parceiros sociais e, por extensão toda a classe docente. O tempo de serviço foi prestado e, portanto, nada mais natural do que, no plano administrativo, se reponha essa injustiça sob pena desta situação ser considerada um roubo.
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,
Soube o governo, através de um acto administrativo impróprio, atribuir a todos os professores, em dois anos consecutivos, uma avaliação de bom desempenho docente à revelia do próprio Estatuto da Carreira Docente. Estão lembrados, certamente dessa situação. Só que esse processo não implicava com o orçamento. Mas agora, quando está em causa a justiça do reposicionamento nos novos escalões, o governo recua, foge, diz que nada é com ele, que a República resolva. E no meio disto nem coragem tem para olhar para o comportamento do governo açoriano.
Os educadores e professores têm razão. Não há nesta matéria qualquer justificação que impossibilite a concretização deste direito. Eu tenho aqui uma tabela que demonstra os prejuízos resultantes das novas tabelas salariais. Há diferenças, na globalidade dos escalões, se compararmos a antiga tabela com a que se encontra em vigor, que se situam num prejuízo para o docente que varia entre € 3.200,00 nos primeiros escalões e os € 19.916,00 nos escalões mais altos. Porque o tempo de serviço em cada escalão foi substancialmente alterado. Não bastasse este agravamento, ainda por cima, não querem reposicionar os docentes nos escalões a que têm direito.
Nos Açores, o Governo, no pressuposto da unidade na diversidade, passou das palavras aos actos. Não se ficou por discursos laudatórios à função docente. Passou das palavras aos actos, restabelecendo a justiça e dignificando, do ponto de vista salarial, a função social da classe docente. Nos Açores, o PS e o CDS/PP votaram favoravelmente um projecto idêntico ao que o PS apresentou nesta Assembleia. Nos Açores, o PSD absteve-se. Na Madeira, o PSD votou contra. Nos Açores, os 18.600 funcionários públicos viram todo o tempo de serviço contado para efeitos de reposicionamento nas carreiras. Na Madeira, todos ficaram lesados na progressão profissional.
Esperamos que o PSD reponha a verdade sobre este processo. Fica desde já assumido que na próxima sessão legislativa apresentaremos, na decorrência desta Petição, um novo projecto no sentido da contagem do tempo de serviço. Porque, repetimos, está em causa um acto de justiça e porque o sentido de voto do PSD que tem sido negativo é, para nós, absurdo por dois motivos: primeiro, porque nega a Autonomia nos planos teórico, prático e da própria capacidade legislativa da Assembleia; segundo, porque constitui uma traição aos professores em função das promessas globais feitas na campanha eleitoral de 2007.
Hoje, pelo Regimento, não poderemos ir mais além nas palavras. Mas fica a promessa que vamos regressar a este assunto.
Nota:
Há comentários que por aí se fazem sem um mínimo de consistência ao nível do conhecimento dos processos. Ainda ontem, sobre esta matéria, ouvi os comentadores da RTP-M e, sinceramente, discordo, em absoluto, do que foi salientado relativamente à contagem do tempo de serviço. O problema é que, distorcidamente, assim se promove uma opinião pública. E isso é mau. Alguns dados constam do texto acima, mas outros existem e que seria muito interessante os comentadores conhecerem antes de se pronunciarem sobre esta matéria.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

NÃO HÁ QUALQUER INTERESSE NACIONAL NA NOMEAÇÃO DE DURÃO BARROSO PARA A COMISSÃO EUROPEIA. ESSA É UMA HISTÓRIA COM MUITOS E DUVIDOSOS CONTORNOS!

Há vários meses aqui escrevi sobre a minha clara e frontal discordância sobre a liderança do Dr. José Manuel Durão Barroso na Comissão Europeia. Do meu ponto de vista não há, em função de múltiplos factores, qualquer interesse nacional na defesa do ex-primeiro ministro para aquele alto cargo europeu. Desde logo pela defesa das suas teses face às quais me distancio, depois, porque não esqueço aquele encontro de má memória na Base das Lages, nos Açores, onde, em espaço nacional, ficou decidida a guerra no Iraque, finalmente, porque em entrevista ao "SEMANÁRIO, em 02.01.2006, Daniel Estulin, que investiga há treze anos o Clube de Bilderberg, fala dos portugueses que têm participado nas suas reuniões, na crise política de 2004 em Portugal e da influência de Bilderberg na escolha de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia. Estulin diz que as suas fontes lhe confirmaram que Henry Kissinger, um membro permanente de Bilderberg, terá dito o seguinte sobre Durão: é "indiscutivelmente o pior primeiro-ministro na recente história política. Mas será o nosso homem na Europa". Daniel Estulin lançou recentemente em Portugal o livro "Clube Bilderberg, os Senhores do Mundo", com chancela da Temas e Debates.
José Manuel Durão Barroso é tido - nas altas esferas da governação europeia e mundial - como o perfeito instrumento do Clube Bilderberg. Este clube promove uma conferência anual não-oficial cuja participação é restrita a um número de 130 convidados, muitos dos quais são personalidades influentes no mundo empresarial, académico, mediático ou político. Reúne-se, anualmente, sempre em segredo, em hotéis de cinco estrelas reservados para a ocasião, geralmente na Europa, embora algumas vezes tenha ocorrido nos Estados Unidos e Canadá. A intenção inicial do Clube de Bilderberg era promover um consenso entre a Europa Ocidental e a América do Norte através de reuniões informais entre indivíduos poderosos. A localização da reunião anual não é secreta, e a agenda e a lista de participantes são facilmente encontradas pelo público; mas os temas das reuniões são mantidos em segredo e os participantes assumem um compromisso de não divulgar o que foi discutido. A alegação oficial do Clube de Bilderberg é de que o sigilo preveniria que os temas discutidos, e a respectiva vinculação das declarações a cada membro participante, estaria a salvo da manipulação pelos principais órgãos de imprensa e do repúdio generalizado que seria causado na população. A teoria que mais se opõe à estratégia oficial diz que o Clube Bilderberg tem o propósito de criar um governo totalitário mundial. Onde é que, especificamente, Durão Barroso entra no meio deste esquema? A entrevista concedida há cerca de três anos ao Semanário por Daniel Estulin, um dos principais activistas e denunciadores do Clube Bilderberg não pode ser mais clara. Para os que não acompanharam o meu último registo sobre esta matéria, aqui fica o essencial dessa entrevista. Factos que nos levam a uma profunda reflexão:
"- Quais os portugueses que participaram na reunião de Bilderberg de Stresa, em 2004?
Francisco Pinto Balsemão, Pedro Santana Lopes, José Sócrates. A lista de participantes portugueses ao longo dos anos é bastante extensa, se considerarmos o tamanho do país.
- Nessa reunião, face ao poderio e influência de Bilderberg e ao facto de ser um clube predominantemente europeu e americano, alguém defendeu Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia?
Recordo-lhe que Durão foi escolhido para a Comissão dias depois da reunião de Bilderberg. Torna-se importante compreender que é irrelevante quem ocupa a cadeira de presidente da Comissão Europeia. Durão Barroso representa os interesses do "governo mundial". Tanto Kissinger como Rockefeller apoiaram energicamente a candidatura de Durão Barroso para aquele posto. Barroso também foi amplamente apoiado pelos bilderbergers americanos em Stresa, por este ter apoiado a intervenção americana no Iraque. No entanto, Durão foi resguardado.
- Recorda-se da tão criticada cimeira dos Açores, justamente antes da Guerra do Iraque?
O consenso na altura foi no sentido de não considerar Durão Barroso um verdadeiro participante na cimeira. Agora, começa tudo a fazer sentido. Ele foi afastado para tornar a sua nomeação para a Comissão Europeia mais apelativa. Desta forma, ele não fica ligado ao fiasco iraquiano. Outro dos apoiantes de Barroso foi John Edwards, candidato a vice-presidente dos EUA, com John Kerry, que também esteve presente nas reuniões de Bilderberg. Como nota de referência, tenho relatórios de várias fontes internas da reunião de Bilderberg que referem a fraca capacidade oral e a fraca personalidade de Barroso. Decidiu-se mesmo limitar as suas aparições em público ao mínimo. Kissinger, um membro permanente de Bilderberg, chegou ao ponto de o chamar, "off the record", "indiscutivelmente o pior primeiro ministro na recente história política. Mas será o nosso homem na Europa".
- Santana Lopes esteve presente em Stresa e um mês depois era primeiro-ministro. Há alguma relação nestes dois factos?
Aprendi ao longo dos anos a seguir de perto todos os passos dos bilderbergers nas semanas que se seguem à sua reunião anual. Por exemplo, logo a seguir à reunião anual de Stresa, Itália (3-6 de Junho), gerou-se uma crise política em Portugal, que teve o seu fim no final do mês. Durão Barroso, primeiro-ministro (agora presidente da Comissão Europeia), demitiu-se oficialmente a 29 de Junho. O rumor à volta do nome de Santana Lopes como futuro primeiro-ministro é lançado por volta de 28 de Junho. Curiosamente, é nesse dia que ele afirma não ser verdade que tenha sido convidado para participar na reunião anual de Bilderberg. Isso foi até alguém mostrar-lhe uma foto que eu tirei em Stresa. Muito tem sido dito acerca de Barroso ter escolhido o seu companheiro do PSD, Santana Lopes, para seu sucessor. Essa escolha foi intencional, como toda a confusão que se seguiu. O que as pessoas não sabem é que a falsa noção de democracia é suposto ser isso mesmo - um truque. A esquerda e a direita são propriedade dos bilderbergers, não só em Portugal como em todos os países. Barroso é um bilderberger, assim como Sampaio, Lopes, Sócrates, etc. Na Alemanha, tanto Merkel como Schroeder, estavam presentes na conferência deste ano. Da Espanha, Rato, presidente do FMI e ex-ministro das Finanças de Aznar, esteve presente em Rottach-Egern, este ano. O conselheiro económico-chave de Zapatero, Miguel de Sebastian, também lá esteve. Blair é um bilderberger, assim como Kenneth Clarke, um dos membros-chave dos conservadores britânicos e, supostamente, um dos seus maiores inimigos. Em relação a Santana Lopes, pude confirmar junto de três fontes independentes que a conversa de final de tarde a 4 de Junho de 2004 (durante a reunião de Bilderberger em Stresa), andou à volta do plano de Santana em mudar a Constituição portuguesa, para criar um nova instituição de poder, um Senado, em que o governo poderia nomear senadores vitalícios. O que conduziu à resposta sarcástica de Richard Haass, presidente da CFR (Trilateral): "Não soa muito a uma tentativa genuína de reforma democrática." À semelhança de Santana, Sócrates também participou na reunião de Stresa e menos de um ano depois também era primeiro-ministro... Tive acesso a informação contraditória pelas minhas fontes, algumas delas a dizer que Sócrates foi colocado para criar ainda mais descontentamento dentro das suas próprias fileiras. Outros dizem que o seu verdadeiro propósito ainda está por ser determinado.
- Quem levou Santana e Sócrates para a reunião de Bilderberg de 2004?
Pinto Balsemão, o homem mais poderoso em Portugal e um membro-chave do todo poderoso comité de decisão da Bilderberg. Pinto Balsemão é o mais importante bilderberger português. Desde o início dos anos noventa que é um um membro permanente do comité de decisão (steering) de Bilderberger, significando que pertence a um grupo de pessoas que tomam as decisões finais acerca dos proponentes, temas de agenda, etc. Ele é o "homem bilderberger em Portugal". Nenhuma decisão pode ser tomada sem o seu selo de aprovação. Presidentes e primeiros-ministros vão e vêm, mas Balsemão permanece. É a solitária sombra do poder.
- O ex-ministro Morais Sarmento participou na reunião deste ano de Bilderberg. Também foi Balsemão quem o convidou?
Também foi Pinto Balsemão quem o levou.
- Paulo Portas, um ex-ministro do Partido Popular, nunca esteve em Bilderberg?
Portas nunca esteve presente em nenhuma reunião de Bilderberg. Não sei porquê. Balsemão nunca me disse (irónico). No entanto, pelo que pude apurar das minhas fontes, Portas não oferece garantias aos próprios bilderbergs.
- O clube tem mesmo influência política a nível mundial ou foi já um mito que se criou?
Para além do que já referi, até sobre Portugal, gostaria de usar como exemplo da influência de Bilderberg as eleições alemãs de 2005. Na conferência de Bilderberger em Rottach-Egern, os bilderbergers queriam mudar a imagem enfadonha de Angela Merkel, a "futura líder" da Alemanha nas eleições alemãs a 18 de Setembro. Um homem bilderberger deu a opinião que para que os eleitores alemães pudessem aceitar Merkel como chanceler seria importante dar uma nova definição do termo valores de família. Bilderbergers alemães bem versados na psique colectiva bavariana acreditavam que a imagem de Merkel, uma divorciada com um doutoramento em física, não seria considerada de "confiança", por forma a atrair votos suficientes nesta firme área conservadora do país. Seria, então, importante enfatizar a importância do conceito de família. E esta estratégia foi aplicada nas eleições. Sobre Merkel, recordo, ainda, que com os Bilderbergers a colocar de parte Schroeder a favor de um novo candidato, isto poderia significar que após três anos de guerrilha entre bilderbergers americanos e europeus em torno da guerra do Iraque, o clube estaria pronto para colocar em marcha uma política mais coesa. Lembre-se que Schroeder, assim como o Presidente Chirac, eram dos mais vociferantes críticos da intervenção americana no Iraque. Schroeder, representando a esquerda, e Merkel, representando a direita, são propriedade dos Bilderbergers. Apesar de Bush junior não estar presente pessoalmente na reunião secreta em Rottach-Egern, o governo americano estava bem representado por William Luti, Richard Perle e Dennis Ross do Instituto de Washington de Near East Policy. Os participantes de Bilderberg não falam que estiveram presentes nas reuniões e muitas vezes desmentem mesmo que tenham lá estado...Os participantes do clube estão explicitamente proibidos de discutir Bilderberg em público.
- O que foi discutido em Stresa, em 2004?
Para além do que já disse, outro dos items de Stresa esteve relacionado com a "liberalização dos mercados mundiais". Os bilderbergers sempre estiveram a favor de extremo liberalismo. Estamos a chegar a um nível profundo de liberalismo com tendência a ser restaurado em máxima força nas suas crenças e credo. Historicamente, o liberalismo sempre reivindicou três liberdades: liberdade de mão de obra. Isso não significa que os trabalhadores serão livres, mas que o povo será livre de se mover de um país para o outro, uma região para outra. Para os bilderbergers isso é muito importante. Significa que os patrões terão um livre acesso a uma grande massa de mão-de-obra. Quanto mais global for, melhor. Liberdade de solo: significando que o solo é tão importante como qualquer outra mercadoria. Liberdade de moeda. Em que o dinheiro também é uma mercadoria como qualquer outra. Recordo que a primeira vaga de liberalismo desvaneceu-se entre 1920-1930, após ter feitos muitos estragos nas sociedades americanas e europeias. O seu sistema afirmava que se tudo for livre e as empresas não efectuarem cartéis ou monopólios, com nenhum trabalhador a pertencer às centrais sindicais, o sistema irá enriquecer toda a gente. Isto é uma perfeita utopia, mas baseados nas obras de economistas laureados com o Prémio Nobel da Economia, bem como desenvolvimentos matemáticos, isto parece aos seus olhos verdade. O sistema exige que cada país do mundo seja incluído, e que cada indivíduo seja eficaz. É por isto que o liberalismo e a globalização trabalham tão bem juntos. Como é por isto que existe o grupo Bilderberg.
- Portugal recebeu, em 1999, uma primeira reunião de Bilderberg, que teve lugar em Sintra. O que foi aí discutido?
Um dos itens principais teve a ver com o comércio de ouro e a posição da Inglaterra na União Europeia. Em Sintra os bilderbergers decidiram castigar a Inglaterra pela sua contínua resistência em relação ao espírito federal europeu. O método que estavam preparados a utilizar contra os inocentes britânicos seria o de um ataque frontal ao comércio de barras de ouro. Um grupo restrito de Bilderberg, onde estavam Rockefeller, Kissinger, Victor Halberstadt, professor de economia da Universidade de Leiden, Etienne Davignon e Umberto Agnelli, reuniu com os governadores dos Bancos Centrais da Europa. A seguir à reunião de Sintra, a maioria dos Bancos Centrais, em Setembro de 1999, fizeram uma supreendente declaração em que estariam a adiar, por cinco anos, o dumping de ouro, que previamente teriam feito, supostamente porque já não gostavam de ter ouro nas suas reservas. O anúncio causou um tendência de subida nas barras de ouro. O Banco de Inglaterra organizou um leilão de ouro de algumas supostas reservas. O mais impressionante para alguns de nós, não familiarizados com o comércio do ouro e a sua realidade, é que, na realidade, uma barra de ouro quase nunca é comercializada. Dessa forma o Banco de Inglaterra estaria a oferecer ouro "teórico" (apenas em papel), não o verdadeiro ouro que tinha em sua posse. Quando o bilderberger George Soros descobriu, lançou um ataque ao Banco de Inglaterra, causando que o preço do ouro aumentasse para quase 330 dólares a onça".

Domingo, 14 de Junho de 2009

NÃO BASTA SABER LER... É PRECISO PENSAR!

Quando tantas vezes aqui escrevo e assumo a necesidade de um novo sistema educativo, quando refiro, sistematicamente, a importância de rever a escola do ponto de vista organizacional, curricular e programático, enquadro-me na mudança, quase radical, de um "modelo" que há muito se mostra desadequado. Há, para quem estuda estas áreas, um claro divórcio entre a escola e a sociedade. Há anos que os políticos com responsabilidades governativas "mexem" nas margens dos problemas mas denunciam falta de coragem para ir ao âmago das situações que possam tornar a Escola em um espaço agradável, apetecido e de grande rigor no processo ensino-aprendizagem. Por este caminho dificilmente teremos uma escola de sucesso, porque a preocupação não tem ido muito além da preocupação da escolarização. E escolarizar é uma coisa, educar é outra.
Daí que me tivesse agradado a entrevista da Drª Paula Moura Pinheiro, jornalista e sub-directora, hoje publicada no DN-M. A páginas tantas refere:
"(...) Não basta saber ler, é preciso pensar, mas os portugueses já interiorizaram isso? Acho que temos uma longa história de iliteracia que nos distingue pela negativa dos restantes países europeus. Há 40 anos ler era entendido pela maioria das pessoas como algo ocioso e inútil. Há imensas passagens na literatura portuguesa, no século XIX, em que se fazem piadas sobre isso. O Eça, o Camilo brincaram com essa desconfiança estrutural que este povo muito iletrado tem com tudo o que seja actividade intelectual, cujo resultado prático não se vê imediatamente".
Ora aí está: é preciso pensar. Esta escola, muito preocupada com a avaliação dos docentes, mas não preocupada com o conteúdo da própria escola, isto é, com aquilo que andamos lá a fazer, é uma escola que, grosso modo, não obriga a pensar. Já aqui o referi e é por isso que considero ser uma síntese muito profunda e interessante, o que um professor me disse, em 1970, no decorrer de uma aula de psicopedagogia: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente? O desencontro é inevitável". O desencontro, portanto, está aí, desde uma sociedade profundamente assimétrica, pobre e cheia de carências até aos governantes que não sabem como tornar a escola uma instituição de qualidade e excelência. Vamos pagar bem caro o desleixo e a falta consistência política.