quarta-feira, 23 de maio de 2018

DISFUNCIONALIDADES DO ESTADO VS DISFUNCIONALIDADES DA REGIÃO


FACTO

"A questão da mobilidade aérea é uma questão que urge resolver por parte do Estado dentro das suas obrigações constitucionais" (...) a minha obrigação é a de "remeter para quem de direito a solução do problema das disfuncionalidades do Estado" (...) "Enquanto eu for Presidente do Governo, nós não vamos assumir nunca a limitação do princípio da continuidade territorial dos madeirenses e porto-santenses (...) Não vão ser os madeirenses e os porto-santenses que vão pagar do seu bolso as disfuncionalidades do Estado". Fonte: DN-Madeira.


COMENTÁRIO

O Senhor presidente do governo regional da Madeira parece irritado. Quase todos os dias dispara, de semblante carregado, como se todo o mundo estivesse contra ele. Esquisito? Não, não é. Talvez esteja perturbado com o "negócio" da governação. É difícil, pois é, quando o passado pesa, e de que maneira! Ora, naquelas declarações, excluindo o direito constitucional da "continuidade territorial", inalienável, sublinho, porque somos tão portugueses quantos os que vivem no espaço continental, existem várias questões que se colocam. Desde logo, quem negociou a última portaria sobre a mobilidade aérea? Quem a aceitou? Quem enalteceu as virtudes de tal disposição, (quando tantas vozes se levantaram), inclusive, quem salientou que os "madeirenses nunca viajaram tanto a preços tão baratos"? Se esse tem sido o discurso da maioria, para quê tanta vozearia?
As incoerências discursivas são, portanto, evidentes, para não falar da novela hospital, pelo que me parece, então, muito pouco assertivo o presidente falar das disfuncionalidades do Estado. Que existem, obviamente. Ademais, por aqui, pergunto, quantas disfuncionalidades abundam em todos os sectores e áreas da governação? Depois, a função de presidente de um governo AUTÓNOMO é muito maior que a de simples "sinaleiro". Não basta "remeter para quem de direito", mas a de antecipar os problemas e a de os resolver. Certo estou eu que não se resolve com má disposição e com fúrias descredibilizadoras, seguindo as mesmíssimas linhas do histórico combate por palavras que, se nunca resolveram, hoje, pior ainda. Vivemos tempos de vacas magras, pelo que só através do diálogo institucional, sem chapéu na mão, convém salientar, é possível ultrapassar os graves desequilíbrios criados ao longo de quatro décadas.
Isto não significa capitulação perante os direitos constitucionais, ausência de reivindicação, cumprimento de acordos e defesa da Autonomia, difícil é aceitar o discurso de tom ofensivo, como se do outro lado estivessem os malandros e aqui os anjos imaculados! Tenha o presidente do governo presente os reconhecidos disparates por opções políticas erradas, as megalomanias, a dimensão institucional de uma região, pobre e assimétrica, equivalente a um Estado dentro do Estado, o dinheiro que por aí se esvai, os grupos económicos muito pouco sadios e transparentes, a teia de cumplicidades e a incapacidade de dizer não, a inversão das prioridades estruturais, ora tudo isto merece adequada reflexão, não sendo com paleio político superficial, cara de poucos amigos e "chutando para as bananeiras" que os problemas se resolvem. Aliás, a atitude que vem sendo seguida, de forma insistente e concertada, apenas denuncia descontrolo, aflição, angústia, pouca segurança e sobretudo esperança. E na política, a melhor defesa dos interesses de todos, nunca é o ataque! Até porque os madeirenses e os porto-santenses desde há muito estão a pagar do seu bolso as disfuncionalidades da Região.
Ilustração: Arquivo próprio.

terça-feira, 22 de maio de 2018

INSANÁVEIS INCOERÊNCIAS POLÍTICAS

FACTO
 
Francisco Assis, Eurodeputado do PS:


"Estou disponível para participar na vida do PS desde que, para isso, não tenha de renegar as minhas convicções mais profundas, dar o dito por não dito, pôr em causa aquilo que eu penso de mais profundo. Imaginemos que o PS, de facto, enfatiza nos próximos tempos a necessidade de projectar esta solução governativa no futuro. Nesse caso, é evidente que eu tenho de me afastar de tudo. É óbvio que não vou andar a fazer uma campanha eleitoral a dizer “votem no PS” sabendo de antemão que o PS tem uma linha de orientação que não é aquela que eu preconizo."

Pablo Iglésias, líder do "Podemos" (Espanha):

"Entregarias a política económica de um país a alguém que gasta 600 mil euros num apartamento de luxo?" Esta foi a mensagem que Pablo Iglesias, líder do Podemos, escreveu no Twitter em 2012, para criticar o facto de Luis de Guindos, então ministro da Economia espanhol e atual vice-presidente do Banco Central Europeu, ter comprado uma casa desse valor. O problema é que agora foi Iglesias que, junto com a companheira Irene Monteiro, porta-voz do Podemos no Congresso, comprou uma vivenda com piscina no norte de Madrid por 600 mil euros."

COMENTÁRIO

No primeiro caso, se a posição do PS, parece-me, ainda, que é a do centro-esquerda, não faz sentido que Francisco Assis ainda continue como eurodeputado, quando defende que a actual solução governativa "é como os yogurtes: tem um prazo de validade" e, politicamente, é um liberal-social. Se discorda já deveria ter saído, abstendo-se de qualquer comentário de carácter ideológico. Pessoalmente, rejeito soluções políticas do tipo bloco central. Cheira-me a interesses!
No segundo caso, trata-se de um problema de coerência. Quem defende os princípios e os valores do "Podemos" tem o dever de cautela. Não é que tenha de fazer votos de pobreza, mas convenhamos que é necessário não permitir que os tiros façam ricochete de morte política. 
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 19 de maio de 2018

UMA ESPÉCIE DE "DELAÇÃO PREMIADA"

Nota prévia
Não tenho provas, daí que, infelizmente, tenha de escrever em abstracto, ocultando instituições e pessoas. Não gosto, mas a situação impõe. Trata-se de uma intenção que serve, apenas, de alerta. Tarde ou cedo, confirmando-se, este texto constituirá um ponto de partida para outras considerações. Porque, lá diz a sabedoria popular, a verdade é como o azeite (...). Por outro lado, que fique claro, este texto nada tem a ver comigo. 


Gosto de pessoas que assumam os seus actos. Aprecio a frontalidade e detesto zonas cinzentas. Embirro com as subtis manobras de bastidores ao jeito de levar a água ao seu moinho. Nutro consideração por aqueles que demonstram ou fazem da transparência um caminho e, quando discordam, dizem-no de viva voz, assumem e, em último caso, afastam-se. Reverencio-me perante aqueles que não se vendem a troco de nada, de um lugar ou de uma promoção, quando sabem que podem estar a prejudicar terceiros. Antipatizo com os que têm medo e os facilmente pressionáveis. Irritam-me aqueles que não se importam de, por portas travessas, maldizer um amigo, deixando-o no pelourinho e, logo a seguir, com ele conviver como se nada tivesse acontecido. Ah sim, fizeram-te isso? Que cambada! Fico embasbacado quando vejo gente embriagada pela concessão de alguma putativa facilidade na vida, como se o vil metal fosse mais importante que a consciência. Não suporto troca-tintas e vira-casacas. Mas isto é o que, infelizmente, tropeçamos a cada esquina. 
É tão reconfortante não capitular, ceder, trair, renegar e perjurar. É arrasante descobrir que ao nosso lado existe um "infiltrado", um manhoso, que em tempos que lá vão, se designava por bufo. É triste descobrir, com a paciência de um puzzle, que, afinal, no convívio diário, há gentinha com uma dupla face, os camaleões, os travestidos de uma coisa que, efectivamente, não são. Pessoas que não se ralam consigo próprias e que semeiam a tristeza e frustração no semelhante. Para sobreviverem, tal como os irracionais. Vergonhosamente camuflados, uns corrompem, outros, deixam-se corromper a troco de migalhas. Qual defesa da dignidade?! Como se olham ao espelho, não sei. Apenas sei que é bom sair a uma porta e não estar quinze minutos a enrolar o rabo!
Se se trata de uma espécie de "delação premiada", situação que abomino, inclusive, na Justiça, a seu tempo se concluirá. Escrevo para memória futura.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

FUTEBOL - UMA INDÚSTRIA CANIBAL


Raramente, muito raramente, escrevo sobre assuntos relacionados com o futebol profissional. E quando resolvo juntar umas palavras, mor das vezes, é no quadro de uma política educativa através do desporto. O resto, desde há muito, passa-me ao lado. Apenas observo. Pelo menos há trinta anos que não assisto, ao vivo, a uma partida de futebol. Refastelo-me no sofá, de quando em vez, para seguir um jogo de altíssimo rendimento, pela qualidade a todos os níveis. Desinteressei-me, talvez depois de ler um extraordinário artigo no Le Monde Diplomatique, assinado por Eduardo Galeano (1940/2015), a que deu o título: “Football, une industrie cannibale”. Desde esse tempo, premonitoriamente, o autor, antecipou aquilo que hoje corre debaixo dos nossos olhos de actores/espectadores: salários absolutamente pornográficos, corrupção de arrepiar os mais insensíveis, tráfico de influências, violência e até morte. Aprendi com o grande Mestre, o Filósofo do desporto, Manuel Sérgio, um dos maiores pensadores mundiais, que o desporto deveria ser “jogo, humor e festa”. Ora, essa pureza parece estar irremediavelmente perdida. 


O futebol profissional não é desporto. Existe, sim, uma modalidade desportiva (existem outras) que é utilizada com fins empresariais. As Sociedades Anónimas Desportivas pertencem ao domínio empresarial. Não confundamos, portanto, com os princípios que enformam a “Ode ao Desporto” de Pierre de Coubertin: "Ó Desporto, prazer dos Deuses! Essência da vida (...) Ó Desporto, tu és a beleza! És o arquitecto deste edifício que é o corpo, que pode tornar-se abjecto ou sublime, se degrada na vileza das paixões, ou saudavelmente se cultiva no esforço. (...) Ó Desporto, tu és a Justiça! A equidade perfeita, em vão perseguida pelos Homens nas instituições sociais (...) Ó Desporto, tu és a audácia! Todo o sentido do esforço muscular se resume numa única palavra: ousar. (...) Ó Desporto, tu és a Honra! Os títulos que tu conferes não têm qualquer valor se adquiridos por meios diferentes da lealdade absoluta. (...). Por aí fora. Portanto, não confundamos estes princípios com outras finalidades que consubstanciam a sua prática profissional. 
Tratando-se de uma indústria que fabrica exacerbadas paixões, ódios, fúria e espaços de comportamento irracional, aliás, basta ter presente, sobretudo nos encontros de risco elevado, as massas adeptas serem conduzidas pelas forças de segurança para dentro dos estádios, para concluir desse “canibalismo” que, grosso modo, tal indústria configura e potencia. Ora, o que aconteceu na Academia de Alcochete, que não é situação única no futebol por esse mundo fora, não é mais do que o corolário de uma construção, eu diria, com boa vontade, inconsciente, de múltiplos factores, desde a escola à comunicação social. De facto, entre nós, a Escola, genericamente, não tem despertado e não tem incutido o desporto para a vida, segundo valores humanistas, fundamentalmente pela sua organização, porque está presa no plano curricular a uma Educação Física que, ao querer ser tudo no plano pedagógico, acaba por deixar um rasto de desilusão; associado a isto, a comunicação social e o dirigismo. Todos os dias, são intermináveis horas, em quase todos os canais, de forma repetitiva, agressiva, doentia e muito pouco normal, painéis de comentadores, com dirigentes desportivos, ex-árbitros, jornalistas, empresários e até políticos que de tudo sabem, com intervenções que formatam frágeis consciências geradoras dos pressupostos da violência. Em alguns casos chega a ser degradante, tal a fúria demonstrada entre uns e outros. Até vejo gente com excesso de peso (!) que muito dificilmente são capazes de correr para uma paragem de autocarro, falando de “desporto” como se fossem exemplo de uma prática entendida, no mínimo, como bem cultural. Um paradoxo, que só ajuda a compreender o tal “canibalismo”. 
De que estávamos à espera? De um futebol vivido com paixão, com enorme entusiasmo, mas com moderação e respeito? De um espectáculo vivido pela beleza do movimento, pela emoção, pela técnica e táctica? De uma competição séria, dirimida com audácia, ousadia, justiça, honra e absoluta lealdade? Dificilmente podíamos esperar um quadro destes. Pelo contrário. E quando ouço o primeiro-ministro falar da necessidade de uma nova “autoridade contra a violência” questiono-me, para quê? Já existe lei que chegue e são vários os organismos com essa missão e vocação. Daí que, o que falta é EDUCAR para os valores, o que falta é bom senso na generalidade dos órgãos de comunicação social. O que falta, mesmo no inalienável direito constitucional ao associativismo, é a existência de rastreio nos candidatos a dirigentes. Isto não significa que, por esta via, se eliminem todos os casos. A marginalidade andará sempre à espreita, mas estou certo que jamais atingirá a vergonha que está instalada. 
Regresso ao meu Amigo Doutor Manuel Sérgio: "(…) O interesse do capitalismo vigente é querer democratizar na medida em que quer vender. O desporto como mercadoria, a cultura como produto vendável, segundo as leis do mercado, é tudo quanto o capitalismo sabe de cultura e desporto (…)". Pensemos nisto em conjugação com a vergonha de Alcochete.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 15 de maio de 2018

ESTÃO A VENDER FUMO


Obviamente que não é de bom senso colocar em causa quem, legitimamente, ganhou as eleições legislativas regionais e que, por força dessa circunstância, governa. Outra coisa é a apreciação ao comportamento da governação. Pessoalmente, nunca tive grandes expectativas, porque apesar da palavra "renovação" a matriz consolidada ao longo de quarenta anos muito dificilmente poderia ser alterada. E não foi. E tanto assim é que, nas últimas semanas, por um lado, os sinais de descontrolo, consubstanciado no tom agressivo com a República, por outro, a atitude musculada na relação com as instituições regionais parceiras, transmitem que a tal matriz deu cabo da tal pretensa "renovação". 


Tenho presente as sistemáticas declarações, com palavras muitas vezes azedas, por parte do presidente do governo regional, relativamente ao tal Terreiro do Paço, atitude que, se nunca constituiu boa estratégia, hoje, está definitivamente condenada. Por exemplo, a próxima reunião com o Primeiro-Ministro ser realizada no Palácio de S. Lourenço ou em qualquer outro lugar, deveria ser acertada pelos canais internos, através de um simples telefonema, nunca através de atitudes de alguma grosseria que a nada conduzem; como tenho presente o contínuo desacerto do secretário da Educação que conseguiu atingir o patamar da ex-ministra de má memória, Maria de Lurdes Rodrigues, tal a fúria existente entre professores e sindicatos. Ainda hoje uma carta do leitor, publicada no DN disso dá conta; como tenho presente as atitudes da secretária do Ambiente e Recursos Naturais, naquela trágica intenção de paralisar a Câmara do Funchal ou a de colocar a Câmara de Santa Cruz em Tribunal; como tenho presente o vice-presidente, entre várias histórias, como a mal contada do ferry (vide FB de Márcio Serrado Fernandes, em 10 de Maio, onde um cidadão coloca preto no branco); como tenho presente a secretária da Inclusão e Assuntos Sociais que, em um sector tão importante e complexo, nada se vê no quadro intergovernamental na perspectiva de políticas que possam ir de encontro aos desequilíbrios mais sentidos; como tenho presente o secretário da saúde, com os trágicos números que envergonham a Autonomia; como tenho presente os comunicados que saem da Rua dos Netos, qual tentativa de fazer do ataque a melhor defesa! São tantos os factos. A política, pelo menos para mim,  é muito mais que isto. 
Todos os dias os madeirenses são confrontados com situações que não abonam em favor de uma governação serena, de rigor, não casuística, portanto, apostada no futuro de uma Região que salte das assimetrias que a enforma. Fico com a ideia de um "vira o disco e toca o mesmo", onde não se antecipa o futuro nem se demonstram os passos para lá chegar. A comunicação social comanda a actividade política e não é o exercício da política que os trás a reboque. O que daqui resulta é o continuado desencanto, que, infelizmente, não fica pela governação. Há outros, em outros domínios, porventura tão ou mais graves, porque de Democracia se fala. Estão a "vender" fumo.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 12 de maio de 2018

O PRESIDENTE DO GOVERNO DA MADEIRA ADEPTO DA VIA TOTALITÁRIA



FACTO

Título da primeira página do DN-Madeira: "Governo manda executar Câmara do Funchal em 15 milhões". Causa (em síntese): existe um contencioso, de longa data, em curso na via judicial, que opõe a Câmara do Funchal à empresa Águas e Resíduos da Madeira (ARM). Desde o tempo do Dr. Miguel Albuquerque, que, enquanto presidente da autarquia, fez, e julgo que bem, clara oposição às taxas praticadas. No seu tempo, consta (ver DN), que o Dr. Miguel Albuquerque deixou a dívida crescer até aos 30 milhões de euros à Valor Ambiente (IGA), hoje, Águas e Resíduos da Madeira (ARM).

COMENTÁRIO

Fui, durante doze anos, vereador da Câmara do Funchal no tempo do Dr. Miguel Albuquerque. Conheço essas lutas. Sei quantas instituições públicas deviam e continuam a dever à autarquia pelo fornecimento de serviços. Por exemplo, hospitais, centros de saúde, estabelecimentos de educação e ensino, entre muitos outros, sempre deveram elevados montantes. Por outro lado, enquanto a Câmara sempre foi tolerante com as dívidas do governo, porque se tratavam de serviços muito complexos, no caso dos munícipes, qualquer atraso foi sempre penalizado. 
Entretanto, o Dr. Miguel Albuquerque venceu as eleições legislativas e, consequência disso, tornou-se presidente do governo. Foi o quanto baste para se esquecer da administração por onde passou e dos dossiês face aos quais manteve aceso combate. Daí que, o mesmo que ajudou a criar uma dívida é, agora, o mesmo que mexe todos os cordelinhos judiciais no sentido de bloquear o funcionamento da principal autarquia da Madeira. Seguir-se-á, certamente, Santa Cruz e Machico!
Quinze milhões são suficientes para colocar em causa todo o funcionamento da autarquia, inclusive, os salários. Isto não é uma brincadeira de Carnaval!
Os leitores que me perdoem a expressão, mas estou-me nas tintas para as angústias em redor das próximas legislativas regionais, sobre quem serão os protagonistas, se o povo vai votar assim ou assado, porém, já não fico indiferente quando, uma atitude tresloucada, coloca em causa o normal funcionamento das instituições de serviço público.

PERGUNTAS

Primeira: Em uma Região tão pequenina farão algum sentido estas lutas intestinas? 
Segunda: Quais as razões que movem e de que padece politicamente o presidente do governo para no passado ter tido a atitude x e, hoje, a atitude y?
Terceira: Já agora, enquanto ex-presidente da Câmara do Funchal, tendo beneficiado de muitos milhões de euros, através de contratos-programa com o governo do Dr. Alberto João Jardim, facto que lhe permitiu a realização de algumas obras, porque não os assina com o Funchal? Porque prefere bloquear o seu funcionamento?
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

CONTRADIÇÕES


FACTO

O presidente do governo regional, Dr. Miguel Albuquerque, referiu que, na próxima época "desportiva", irá reforçar os valores canalizados para o futebol profissional da Madeira. 
Sensivelmente na mesma data, no decorrer da cerimónia dos 30 anos da UMa, o senhor reitor da Universidade da Madeira, Doutor José Carmo, disse que era “fundamental” o Governo Regional e as autarquias apoiarem a instituição “sem complexos”, em um momento em que os gastos se situam nos 17,5 milhões de euros anuais. Simplesmente porque, as consequências do trabalho da instituição na região é “inegável” e com “reflexos imediatos” ao nível social e na preparação dos jovens.

COMENTÁRIO

Sei, todos sabemos, das dificuldades orçamentais da Região para resolver problemas de uma indiscutível premência. Sendo certo que o recurso financeiro é sempre escasso e que o futuro colectivo depende de um rigoroso investimento na formação académica.

PERGUNTAS

As questões que se colocam, entre outras, é a de saber se as Sociedades Anónimas Desportivas (SAD's), devem ou não ser vistas como qualquer outra empresa de qualquer ramo? O que justifica as diferenças de tratamento? Concomitantemente, da formação de base à universitária, onde deverá residir a prioridade em uma Região com um défice a esse nível?
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

OH MINHA SENHORA, NESTE CONTEXTO VOU DIZER COCÓ?


FACTO

A secretária Regional do Ambiente e Recursos Naturais, Drª Susana Prada foi ao Palácio da Justiça entregar ao Procurador do Ministério Público uma queixa-crime contra o Presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz, Filipe Sousa. Motivo: ter sido alvo de ofensas. Quais? A secretária regional teve uma “atitude desonesta e de clara falta de vergonha (...) A senhora secretária mentiu descaradamente à opinião pública aqui de Santa Cruz e madeirense (...)", isto a propósito das obras realizadas pelo Governo Regional para abastecimento à população da Eira da Cruz. "Como em política não pode valer tudo, em defesa do seu bom nome e honra, Susana Prada entendeu tomar prontamente uma acção de firme repulsa relativamente a este tipo de comportamentos e assim apresentar a devida queixa crime". Fonte: DN-Madeira.

COMENTÁRIO

Obviamente que não sou advogado de defesa dos "Juntos pelo Povo", mas sou cidadão e leitor. Este comentário parte do princípio que o jornalista publicou as partes mais "ofensivas" e que levaram a Senhora secretária a ficar abespinhada (furiosa).
Ora bem, no exercício da política não pode valer tudo. Concordo. O problema está em saber o que significa "valer tudo". A Senhora secretária tem estado na Assembleia Legislativa, enquanto membro do governo, portanto, tem escutado algumas, essas sim, ofensas da dignidade, "da honra e do bom nome" daqueles que foram eleitos pelo Povo. Algumas vezes, de forma reles e a roçar o ordinário. Para não falar dos enxovalhos que muitos sofreram ao longo de quase quarenta anos. Basta uma consulta junto do "Dr. Google" ou do Youtube.
Pois bem, a palavra desonesto pertence ao léxico português. Pode significar falseamento da verdade; falta de vergonha pode significar capricho; tal como a palavra mentir que pode significar, também, falsidade, engano, embuste. E sendo assim, estou certo que a queixa não se daria, se o referido partido tivesse dito (repito, segundo o que li), que "a sua atitude falseou, politicamente, a verdade, traduzido em um capricho, o que levou ao engano os eleitores, pelo que, na nossa opinião se tratou de um embuste político". Com sinónimos e floreados tudo teria passado sem mácula. Era um ramo de flores para a secretária colocar na secretária!
Tive um Amigo, já falecido, que, às vezes, referindo-se a uma determinada situação que, politicamente, o contrariava, dizia, expressivamente, a palavra "merda" (porcaria, sujidade, excremento). A sua mulher quase o repreendia, dizendo: "Oh menino!" E ele respondia: querida, neste contexto vou dizer "cocó?" 
Ora, comparado com o que se ouve, as expressões publicadas nem "piropo" político são! Mas deu origem a uma queixa que só vai dar trabalho, para no final ser arquivado. 
Ai se todos começam a fazer queixa do que ouvem!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 6 de maio de 2018

POEMAS IGUAIS AOS DIAS DESIGUAIS


Esta tarde, na feira do livro de Machico, foi apresentado o livro de poesia do Padre José Martins Júnior. Deixo aqui a dedicatória:

"Às coisas
Ao chão delas
Ao que as rodeia e ao que as povoa
Às mãos que as tocam
À luz que as sobredoira
E ao ar que as sustenta

Às árvores onde habito
E ao vento
Ai, ao vento, compositor e maestro
De toda a Poesia

Deixem-me só ficar no ramo verde,
Lira lâmina tuba ou flauta
À espera que ele passe, o Vento
À espera que ela fique, a Poesia"

Padre Martins, parabéns com um abraço muito Amigo.
Estou feliz com a sua mensagem:

"Aos sonhos, lutas e ideais, ainda por alcançar.
Vamos a caminho!"

sábado, 5 de maio de 2018

POLITICAMENTE UM VOTO ININTELIGÍVEL


FACTO

O ex-presidente do governo da Madeira, Dr. Alberto João Jardim será agraciado com a mais alta insígnia da Região Autónoma da Madeira, depois de quase quatro décadas à frente do executivo. A proposta partiu do PSD e contou com o apoio do actual governo. A proposta foi aprovada na comissão permanente da Assembleia Legislativa da Madeira com os votos favoráveis do PSD, PS e CDS-PP. O Bloco de Esquerda e o Partido Trabalhista Português votaram contra e o Juntos Pelo Povo absteve-se. Segundo a comunicação social o PCP não esteve presente.

COMENTÁRIO

O voto favorável do Partido Socialista é inenarrável. Que o PSD queira distinguir um dos seus, porque tem maioria parlamentar ou porque dá jeito no confronto interno, enfim, é compreensível. Já o sentido de voto do PS é muito estranho. Em breves instantes, escrevo no plano da análise POLÍTICA, deu-se o mais completo apagão em uma memória de 40 anos, feita de ofensas muito graves a dirigentes e simpatizantes, de ataques políticos miseráveis e muitos com natureza ordinária, de aviltamento de pessoas credíveis e socialmente reconhecidas, de perseguições a variadíssimos níveis, para não falar das atitudes musculadas, do autoritarismo, da violação dos deveres de neutralidade, da exclusão de pessoas dos espaços que deveriam primar pela representação democrática, da ausência de debate, do desrespeito pelos órgãos da República, da dívida contraída, dos "monopólios" gerados, das públicas cumplicidades, da utilização do Jornal da Madeira, das ofensas à comunicação social, da criação de uma sociedade assimétrica, enfim, é longo, muito extenso o historial. E o PS-Madeira pegou no apagador e em um ápice fez desaparecer tudo o que durante anos criticou e, POLITICAMENTE, deu o seu voto favorável. Um completo apagão, quando o PS sempre disse que, com o mesmo dinheiro disponível teria feito muito mais e melhor. Trata-se de uma contradição insanável, quando o "reconhecimento" tem uma natureza política. Nem presente tiveram o que um dia foi dito e que explica muita coisa: "temos de ser uma máfia no bom sentido e ajudar-nos sempre uns aos outros".
Ora bem, no exercício da política, como em tudo na vida, é necessário dar-se ao respeito, até porque "quem não se sente, não é filho e boa gente". Só falta agora, no dia da cerimónia, o PS aplaudir e abraçar, POLITICAMENTE, o condecorado, na lógica de "quanto mais me bates, mais eu gosto de ti". 
Nunca imaginei, confesso!
Finalmente, talvez agora compreenda o que o Dr. Jardim disse, em 10 de Abril de 2012: "(...) os amigos dos meus inimigos, meus inimigos são, os inimigos dos meus inimigos meus amigos são". Fico por aqui.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

A COMUNICAÇÃO SOCIAL É A ÁGORA, NÃO É O PELOURINHO


Daniel Oliveira, in Expresso Diário 
02/05/2018) 

Chego do estrangeiro e aterro atrasado num debate cheio de equívocos sobre a divulgação das imagens dos interrogatórios a Sócrates. O que se discute é a relevância jornalística do julgamento do antigo primeiro-ministro. Só um idiota negaria a importância desta investigação e deste julgamento e mesmo havendo muitos idiotas não dei por que algum deles o tenha feito. O que se discute é o comprometimento de cada um no combate à corrupção. O que fez a divulgação destas imagens por esse combate? Não será no julgamento que a justiça se fará? Os juízes acompanharam o interrogatório pela SIC? O debate não é sobre a relevância do caso, não é sobre corrupção, não é sequer sobre Sócrates. O debate é sobre valores fundamentais que, como acontece muitas vezes, entram em conflito. No caso, os direitos de qualquer cidadão, chame-se José Sócrates, Daniel Oliveira ou tenha qualquer outro nome, e a liberdade de imprensa.

Quem preza a liberdade, lembre-se ou não dos tempos da ditadura, compreende a violência de escutas telefónicas e da violação de correspondência. Em condições muito específicas e limitadas, permitimos que as polícias e o Ministério Público, com a devida autorização judicial, violem o direito sagrado dos cidadãos à sua privacidade. Não é por acaso que não damos esse poder aos jornalistas. O mesmo se aplica à divulgação de imagens de interrogatórios. Estes interrogatórios, é bom recordá-lo, são coercivos.
Como têm de ser, perante a justiça. Não preciso de repetir o que António Barreto (AQUI) já explicou sobre a situação de fragilidade de quem está a ser interrogado. Aquele som e aquelas imagens foram recolhidas para contribuir para a aplicação da justiça, não servem para esclarecer a opinião pública.
O grande argumento é sempre o “interesse público”. Nenhum jornalista o pode esquecer, mas ele não serve para tudo. O “interesse público” pode levar os jornalistas a pôr escutas, a violar correspondência ou a filmar as pessoas nas suas casas sem a sua autorização. O céu é o limite e já tudo isto foi feito com este argumento. A utilização de imagens de um interrogatório é um ato extremo que só poderia ser justificado por uma razão extrema: ser a única forma de denunciar algo muitíssimo relevante que de outra forma seria impossível chegar ao conhecimento público. E mesmo assim seria discutível. Não é o caso: as imagens do interrogatório a José Sócrates não nos forneceram nenhuma informação fundamental que não pudesse ser dada de forma a não pôr em causa outros valores fundamentais. Pior: nem sequer nos deu qualquer informação nova. Não estamos, portanto, perante um conflito entre valores. A divulgação foi gratuita e não visou outra coisa que não fossem as audiências. E isso nada tem a ver com liberdade de imprensa.
Este é um debate sobre o Estado de Direito, a democracia e a liberdade de imprensa. Nenhum destes valores é propriedade dos jornalistas. Quando um jornalista usa escutas ou interrogatórios não é perante os jornalistas que tem de se justificar, é perante todos os cidadãos. Todos os que um dia podem, com ou sem razão, estar naquele lugar. Todos a quem nunca ninguém perguntou se queriam dar a qualquer diretor, editor ou jornalista o poder de decidir se divulga ou não as imagens de um interrogatório. O meu debate com o Ricardo Costa, um dos jornalistas mais preparados que conheço, e com a SIC, uma estação com que colaboro e onde sempre fui livre, não é se fizeram bem ou mal em divulgar estas imagens. Isso seria assumir que ele têm o direito de tomar essa decisão. O meu debate é se o podem fazer. E eu acho que não. Que a comunidade não lhes deu nem lhes podia dar esse poder. Que a comunicação social é a Ágora, não é o Pelourinho. No dia em que quiser ter mais poder do que tem terá de aceitar que a sua liberdade seja mais limitada do que é. E isso não quero eu nem, espero, querem eles.

ENERGIA

domingo, 29 de abril de 2018

AEROPORTO DA MADEIRA - UM PROBLEMA MUITO COMPLEXO DE RESOLVER



Ponto prévio: nada percebo de aviação e de condições de descolagem e aterragem. Apenas sei que, tal como todos, a segurança deve estar em primeiríssimo lugar. 
Posto isto, a resposta que procuro, até agora em vão, é saber, no caso específico do aeroporto, o que é entendido por SEGURANÇA. Leio que há equipamentos que já não respondem ao actual conhecimento, que os limites estabelecidos são ainda anteriores ao aumento da pista e que devem ser indicativos e não limitativos. As convicções do Senhor Comandante Timóteo Costa, madeirense com 25.500 horas de voo e cerca de 8 mil aterragens no Aeroporto da Madeira, são, pelo menos para mim, leitor, claras e persuasivas. Porém, depois de ver este arrepiante vídeo, questiono se não constituirá uma porta aberta para decisões de risco. Não sei. Certo é que, como utente, face, inclusive, ao agravamento das condições climáticas, factor que não é despiciendo, que o debate aconteça de forma idónea, científica e aberta. É que, neste momento, parece-me, duas coisas: primeiro, se existe debate, ele é muito circunscrito; segundo, fico com a ideia que ninguém quer arriscar, porque no caso de uma fatalidade, a responsabilidade seria de uma incalculável dimensão. Portanto, exige-se bom senso e, para já, custe o que custar, a dotação de melhores equipamentos para informações mais precisas por parte dos controladores de tráfego aéreo. O seu trabalho é, também, muito complexo.
Parabéns pelas excelentes imagens (devidamente identificadas) e pela notável capacidade técnica dos pilotos. Mas, sinceramente, não gostaria de estar na pele de passageiro.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O BISPO ANTÓNIO CARRILHO NÃO DORME DESCANSADO


A entrevista ao Padre Martins Júnior, hoje publicada no DN-Madeira, à medida que a fui lendo, levou-me a ter que gerir um conjunto de emoções, pela profunda Amizade e respeito que nutro por esta figura da Igreja, pelos valores que transporta e transmite e, sobretudo, pela imbecilidade de uma hierarquia que o mantém "suspenso a divinis". Há dezenas de anos que nem o julgam em Tribunal Eclesiástico nem lhe pedem perdão, por essa vergonhosa atitude política, repito, política, perpetrada, há 41 anos, pelo então Bispo Francisco Santana. 


Li o livro "O 25 de Abril em Machico - Centro de Intervenção Popular 1974/75", publicado pelo seu irmão Dr. Bernardo Martins, livro editado na sequência da sua Dissertação de Mestrado e que teve o Professor Doutor Nelson Veríssimo como orientador do trabalho de investigação. Vezes várias voltei atrás para melhor compreender a relação entre factos, profusamente documentados em 715 notas de rodapé para além de inúmeros fac-símile que dão força ao texto e que entusiasmam a leitura. Nesse notável documento histórico fica clara a mentira vendida como verdade sobre os acontecimentos de 1974/75, em Machico. E na entrevista de hoje, Martins Júnior, ao assumir que é "naturalmente revolucionário", homem progressista, favorável a transformações no âmbito político e social, homem do povo e pelo povo, no essencial, acaba por explicar as razões de nunca lhe terem pedido perdão pela atitude, marcadamente política, de o afastarem. De facto, na prática, nunca conseguiram. E se aqui trago o livro, é por considerar que o actual Bispo António Carrilho deveria lê-lo com toda a atenção. Se já o leu, então, a sua cumplicidade política ainda é mais flagrante e grave. Seja como for, não devia, por amor à Igreja, melhor dizendo, aos paroquianos da Ribeira Seca, em particular, e ao povo da Madeira, em geral, onze anos depois de aqui ter chegado, acabar por confirmar aquilo que Martins Júnior, em 2012, assumiu em uma entrevista conduzida pelo jornalista Emanuel Silva: a Igreja não pode continuar a "(...) servir a dois Senhores. Ou se serve a Cristo ou se serve o Poder (...)". Ora, na esteira de Santana, Carrilho também escolheu o poder. Nessa entrevista, há seis anos, nas vésperas das "bodas de ouro de ordenação sacerdotal", tendo o Padre Martins falado ao Bispo António Carrilho na possibilidade da cerimónia realizar-se na Igreja Matriz de Machico, obteve como resposta: "(...) seria muito boa essa ideia mas se lhe entregasse as chaves desta igreja [Ribeira Seca]. Regredi a 1974. Francisco Santana também me disse que entregasse as chaves da igreja. Respondi 'Não'. A igreja está sempre aberta. Até de noite (...)". Esta não é, certamente, a Igreja de Cristo. É a igreja que fez e faz a opção pelo poder político. Lamento.
É, por isso, que a entrevista de hoje, feita com pinças, me trouxe outras memórias, sobretudo o livro e a entrevista de Emanuel Silva que guardo "religiosamente". Não resisto a um outro excerto. Pergunta o jornalista: "O seu 'crime', no início, foi ter sido político. Qual o 'crime' que lhe foi imputado? [Dom Francisco Santana] chamou-me ao Paço Episcopal e disse: "Martins, entrega-me as chaves da igreja da Ribeira Seca. Disse-lhe 'as chaves não são minhas, são do Povo. Mas porquê?'. 'Porque estás inscrito no Partido Comunista Português'. Ele atira-me esta. 'Até sei o teu número' [de inscrição no PCP]. Que artista! Nem a PIDE faria um serviço tão mal feito! Foi isto. Depois, disse que as catequistas da Ribeira Seca não poderiam mais ensinar Catequese. Porque eu tinha feito um catecismo (Deus no meio do Povo). Nesse catecismo eu relevava as figuras bíblicas libertadoras. Ensinava a linguagem bíblica libertadora. Sei que esse catecismo foi parar à mesa do brigadeiro Azeredo". 
Já não falo dos outros, mas deste, do Bispo António Carrilho. Presumo que não deve dormir descansado. "Na paz do Senhor", como vulgarmente se diz, quando tem um problema que indigna todos quantos seguem a Palavra. Trata-se de um comportamento que revolta, mas que confirma uma opção: servir o poder político, primeiro, depois, o Senhor. E sendo assim, questiono-me, como pode o Bispo Carrilho falar de "pecado"?
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 22 de abril de 2018

PRAIA DO PORTO SANTO - GOVERNO CORRE ATRÁS DO PREJUÍZO


"A verdade é como o azeite... vem sempre à tona". Ora, o trabalho da jornalista Maria Catarina Nunes (DN-Madeira), independente da oportunidade e importância, vem dar razão a vários especialistas, muito particularmente ao madeirense Engenheiro Doutor João Baptista que, desde 1966, tem equacionado, cientificamente, o drama da praia do Porto Santo. Salienta a jornalista: "Jóia mais antiga de Portugal em risco. Foi galardoada como uma das 7 Maravilhas do Mundo em 2012, um trabalho que a Natureza começou há milhões de anos. O Porto Santo não é só uma praia com reconhecidos poderes terapêuticos, é um tesouro português que guarda memórias da caminhada do planeta. E agora está em risco de se perder". Infelizmente, os múltiplos estudos e avaliações apresentados, programas e declarações públicas, muitas vezes conduziu a grotescos vilipêndios públicos, por parte de senhores que se julgavam e julgam, acima de qualquer crítica. Hoje, existindo documentação e factos, sublinha, com pena, o investigador que, "na prática, nada foi feito".


Como foi possível ignorar os trabalhos das equipas do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e da Universidade de Aveiro, a partir do Centro de Investigação GEOBIOTEC, da Fundação para a Ciência e Tecnologia, quando, enaltece o Engenheiro João Baptista, a praia do Porto Santo "é um legado único"? 
O problema, sublinha o DN, começou há 38 anos, em 1980, quando as retroescavadoras começaram a roubar areias e materiais sólidos do paredão dunar para alimentar a construção do Porto de Abrigo: "(...) Tínhamos uma praia em equilíbrio dinâmico desde a sua formação até esta obra. A construção do Porto de Abrigo no extremo oriental da ilha veio perturbar esse equilíbrio". Ao contrário do que aconteceu quando se levantou a Ponte Cais, na primeira metade do século XX: "Está assente em pilares e nunca interferiu”, explica o investigador.
É caso para concluir que o governo regional  anda agora a correr atrás do prejuízo. Atente-se nesta parte do texto: "O resultado são milhares de euros gastos em dragagens do Porto de Abrigo (pelo menos três, entre 2001 e 2008, de acordo com os dados da Administração de Portos da Madeira, APRAM). E agora, como noticiou o DIÁRIO, vai arrancar nova operação de dragagem nos próximos meses. É que a navegabilidade das embarcações fica comprometida e, sobretudo as de grande dimensão, em risco durante as manobras de atracagem. Em 2016, João Baptista juntou-se ao Comandante João Bela, do Lobo Marinho, para avaliar a que distância o navio navegava das areias profundas: "No mínimo, exigem-se quatro metros de coluna de água entre a quilha do barco e o fundo da bacia portuária. Em 2016 estava a 1,9 metros e agora já está a 1,4 metros", revela o investigador. Solução: engordar a duna com areia do desassoreamento".
Sugiro a leitura de todo este trabalho, nas páginas 2 e 3 da edição de hoje, mas de tantas considerações que, a este propósito, me apeteciam fazer, apenas deixo uma pergunta final: e ninguém é responsabilizado? 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

PELA BOCA MORRE O PEIXE OU COMO LER NÚMEROS E ESTATÍSTICAS



FACTO

"Centro (de saúde) do Bom Jesus parado por falta de pagamento (...) ia custar 4,9 milhões. Quatro anos depois, sem a obra, a previsão já vai em 5,4 milhões" - Fonte: DN-Madeira, edição de 10 de Abril de 2018.

COMENTÁRIO

Há dias gerou-se uma polémica entre os dois governos, regional e nacional, tendo o centro da questão se centrado entre quem tinha culpas no cartório no rigor das contas públicas. De forma célere e de crista levantada, o vice-presidente do governo regional veio dizer que "(...) desde 2013 que a Madeira não tem défice" (...) A Madeira, em termos de contabilidade nacional, a única que conta para a avaliação do défice apresentado à União Europeia, tem tido saldos positivos desde 2013". Muito bem! Independentemente do contexto que justificou a posição do primeiro-ministro, face à posição do vice-presidente do governo regional, qualquer cidadão coloca, obviamente, uma questão: de 2014 para cá, com saldos positivos, como se explica a falta de pagamento de uma obra há muito esperada por médicos, enfermeiros e restante pessoal técnico e administrativo?
Não tenho resposta. Apenas sei que, também na Câmara do Funchal, onde foi vereador com o pelouro das finanças, o actual vice-presidente do governo, enalteceu, vezes várias, que a Câmara apresentava saldos positivos. Mais tarde, confirmou-se uma dívida global superior a 100 milhões. 
Digo eu, depende de como alguns são capazes de olhar para as contas! 
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 8 de abril de 2018

BRASIL - O GOLPE DE ESTADO (consummatun est)


Por Carlos Esperança
07/04/2018

Primeiro usaram artifícios legais para expulsarem Dilma da presidência da República, depois seguiram os passos do Golpe, adrede preparado, até levarem Temer à presidência do Brasil. É um corrupto nas mãos de corruptos, boneco articulado com o grande capital e os latifundiários, que tudo fará para evitar a prisão e se manter no poder, apto a vender a Amazónia, os recursos mineiros, os rios e o mar, as indústrias e as comunicações, num regresso à ditadura dos coronéis à paisana.


Hoje, os coronéis usam toga, a comunicação social funciona a água benta evangélica e o poder é exercido com a repressão, a usura e o gangsterismo. No Brasil, a democracia foi confiscada por juízes e entregue aos 5% que detêm 90% da riqueza.
Ainda houve uns generais que, para não perderem o hábito, ameaçaram os juízes de que interviriam se acaso Lula da Silva não fosse preso. Talvez estivessem combinados. Uns e outros pertencem a esses 5% que acham um exagero os 10% da riqueza desperdiçados com 95% de desgraçados.
O crime de Lula e Dilma foi o de quererem corrigir exageros do capitalismo selvagem, talvez lembrados da dureza da guerrilha e da pobreza da fábrica, ou, quem sabe, moles com a miséria alheia, sem respeito pelos poderosos.
As palavras de um infame, ao votar a destituição de Dilma, ecoarão no futuro do Brasil e no desespero dos torturados de todo o mundo, como paradigma da torpeza: ‘voto em homenagem ao (nome do canalha) que torturou Dilma’, com a exultação da desforra e o rancor do sádico.
O apartamento foi um pretexto. O ódio de classe é o alimento da vingança contra o voto. A democracia é um obstáculo incómodo para os terratenentes, oligarcas, dignitários e banqueiros.
É preciso destruir a ex-guerrilheira e o ex-metalúrgico que se fez sindicalista e é amado pelo seu povo. A prisão de Lula não é o fim do Golpe, é o modo de acabar com ilusões democráticas.
O crime está consumado. As eleições serão a farsa para legalizar o poder de quem o tem e, finalmente, se vinga do inimigo que sonhou um país mais igual, justo e fraterno.
Prendem o homem para o destruir e, com ele, a esperança dos brasileiros. Talvez o mito devolva a esperança que ora se esfuma e, através das grades, brote a força necessária para devolver o poder a quem tem como arma o voto e como projeto a justiça.
Sem estes juízes.
Com a utopia renovada.

terça-feira, 3 de abril de 2018

NO EXERCÍCIO DA POLÍTICA EXIGE-SE PENSAMENTO COM FUTURO


Para tudo é preciso ter competência. No exercício da política, acrescento, jeito! Quando ambas falham, primeiro, começo a torcer o nariz e, depois, começo a interrogar-me. Vem isto a propósito da Senhora secretária regional da Inclusão e Assuntos Sociais. Vejo-a completamente perdida no labirinto do governo. Umas visitas aqui e outras ali, sobretudo de casa do povo em casa do povo, tendencialmente de sorriso aberto, e aquilo que é estrutural no domínio da verdadeira inclusão e dos assuntos sociais, onde há tanto e tanto para fazer, por mais que leia e acompanhe, não consigo descobrir onde quer chegar e que passos está a dar para lá chegar.


Trata-se de um sector muito sensível e de uma complexidade extrema. Por isso, não basta uma política de subsídios, uns discursos razoavelmente bem enfeitados sobre a igual de género, umas declarações sobre a diminuição do desemprego que, registe-se, tem outras causas que não suas, umas tertúlias e uns projectos para empreendedores, dinheiro e palavrinhas contra a violência doméstica, etc., ora  isto não chega para que a Senhora secretária caminhe, de passo firme e assertivo, no sentido de uma mudança sentida pela sociedade. É evidente que qualquer transformação não se opera com um simples estalido de dedos. Leva anos, sabe-se. Pior é não percebermos que caminho está ou quer tomar, mantendo-se na encruzilhada, marcando passo, olhando para os vários caminhos sem saber por onde optar. Enquanto cidadão é isso que me custa aceitar. 
Caminho pela ilha, contacto pessoas, observo-as nos seus estilos de vida e expectativas, reparo na pobreza e exclusão, nos queixumes, nas conversas sobre o nada, e facilmente descubro o quanto há a fazer pelo futuro, que não passa, obviamente, por visitinhas de circunstância. Ah, oiço e leio que o programa de governo está a ser cumprido! E o que é isso, questiono-me. Umas linhas de base eleitoralista, comicieiras, para consumo imediato e que não alteram a substância? Convenhamos que isso é pobre, muito pobre. No exercício da política exige-se mais, muito mais. Exige-se visão, compromisso, inteligência, decisões portadoras de futuro, rigor, absoluta definição de prioridades estruturais, capacidade para uma transformação graduada no tempo, sentido de auto-sustentação do sistema e de participação das comunidades locais, respeito pelos princípios da continuidade funcional, da interacção e da integração, noção da situação real e da configuração da situação ideal. Tudo isto não me parece existir. Vejo uma navegação pelas estrelas, secundarizando os instrumentos. E o tempo passa, célere. O que fica é a espuma dos dias. 

NOTA
Posição meramente política, até porque não conheço pessoalmente a secretária em causa, nem alguma vez com ela, circunstancialmente, me cruzei.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 31 de março de 2018

PEDRO CALADO, O VICE, ASSUME QUE SOMOS PORTUGUESES DE SEGUNDA!


Li e fiquei estupefacto. De uma Portaria considerada e propagandeada pelo governo regional como a melhor e a que mais garantias oferecia a todos os insulanos da Região Autónoma da Madeira (provou-se exactamente o contrário) parece estar em preparação uma revisão que, a se concretizar, coloca-nos, claramente, no patamar de portugueses de segunda. Limitar o número de viagens por ano/passageiro? Não, obrigado. Viajar às 6/7 horas da manhã ou depois das 20 horas para ter direito ao subsídio de mobilidade? Não, obrigado. Esperar dois meses pelo subsídio caso o pagamento seja feito com cartão de crédito? Não, obrigado. Não ter direito à compra de um bilhete corrido (por exemplo, Funchal-Porto-Paris-Porto-Funchal)? Não, obrigado. E mais, e mais e mais!


Nós somos portugueses que residem nas ilhas. Sendo assim, há um preço justo a aplicar, pago no acto da compra e sem mais burocracias empurradas para os correios. E deixem-se dessa treta que o mercado funciona. Para os residentes, de longa data se sabe que NÃO FUNCIONA. As companhias aéreas e não só, andam, claramente, a sacar dinheiro ao Estado. São tantos os exemplos (públicos) de rotas para tão longe da Região que custam menos que uma ligação de Lisboa ou do Porto para as ilhas. 
Será que este anúncio, ainda meio escondido, corresponde, por antecipação, a uma peta de 1 de Abril? Talvez. Porque é mau de mais para ser verdade. E se é verdade, irá dar muita confusão.
Por tabela sofrem os madeirenses e porto-santenses que têm de possuir o dinheiro que exigem no acto de aquisição do bilhete. O trigo é limpinho, sobretudo em determinadas épocas do ano. De seis milhões de subsídios (2014) já vai em 53,7 milhões orçamentados para 2018. Alguém está a aproveitar-se e esses não são os consumidores. 
Ataquem o problema na raiz , porque o tal "despesismo intolerável" tem uma ou mais causas. E na raiz não estão os residentes. Com toda a certeza.
Ilustração: Arquivo próprio.

quinta-feira, 29 de março de 2018

JUÍZES DE GATILHO FÁCIL


Francisco Louçã, in Expresso Diário
27/03/2018
estatuadesal

Não é de hoje, mas talvez nos tempos de caos político que vamos vivendo se torne mais flagrante e mais ameaçador. Em Espanha e no Brasil os juízes, ou alguns juízes, decidiram tornar-se o centro de uma nova república dos profetas, albergada pela monarquia que com eles se vai absolutizando.


Os juízes do Supremo espanhol responderam a uma acusação contra os governantes catalães determinando a sua prisão preventiva, sem direito a fiança e sem julgamento marcado, a pretexto de “sedição”, um crime que desconhecemos no Portugal democrático, mas que tem raízes na ditadura franquista. Manipularam depois os prazos e as formas da acusação, abdicando do mandado internacional contra Puigdemont quando presumiam que as autoridades belgas o rejeitariam, mas relançando-o quando os serviços secretos acompanhavam uma visita à Finlândia que poderia vir a permitir a sua detenção noutro país. O dedo do rei está por todo o lado (para perturbação de Rajoy, que assim pode perder mais uma vez a oportunidade de aprovar o Orçamento para 2018, ainda bloqueado pelos nacionalistas bascos) e estes juízes tornaram-se o braço executivo do Palácio.

Do mesmo modo, os juízes desencadeiam uma ordem de prisão contra o deputado que poderia ser eleito presidente do governo catalão, nas vésperas da sua investidura. No tempo e na forma, o tribunal atuou como um grupo incendiário, não hesitando perante a opção de reverter o resultado das eleições. É isso que define a república dos profetas, os que estão acima da lei, tudo aliás ao serviço dos Bourbons e do seu sonho de uma Espanha que, como no tempo de Franco, esmaga as suas nacionalidades.

No Brasil foi mais fácil. Alguns juízes mobilizaram o engenho de uma lei que permite que quem dirige a investigação seja o mesmo que determine a sentença na primeira instância. Sérgio Moro encarregou-se desse modo do ataque contra Lula. A segunda instância agravou a pena e, esta semana, recusou os recursos. Entretanto, o Supremo Tribunal já tinha determinado que a prisão se torna efetiva com as decisões da Relação e, se reconfirmar essa doutrina, Lula entrará na prisão na próxima semana. Os juízes são neste caso o braço político dos partidos do golpe constitucional que, depois de derrubada a presidente eleita, os levou ao poder, mas sem um candidato presidencial viável para as eleições deste ano – e por isso precisam de afastar o candidato com maior apoio popular.
As repúblicas dos profetas são uma das formas de autoritarismo dos nossos tempos. Na verdade, são uma dispensa da democracia, ou porque ela elege governantes independentistas (como em Espanha, apesar do percurso dos nacionalistas de direita, próximos dos governos de Madrid), ou porque pode eleger governantes que são distintos da elite tradicional (como no Brasil, apesar dos esforços dos governos Lula de manterem os privilégios dessa elite). Assim, o que é criminalizado nem é a alternativa, é somente o menor laivo de diferença. Catalão, pobre, trabalhador, não tem lugar. Pode votar, desde que o voto confirme a elite e a tradição. Se errar, então é punido. A república dos juízes-profetas é a nova violência social do nosso tempo.
Nota final – O Observador, esplêndido exemplo de liberdade artística, escolheu ser o coito da extravagância. Só posso elogiar o seu diretor por isso. Portugal precisa de intriga a ferver, de conspirações penumbrosas e de cronistas assanhados. Em prol dessa virtude, vale a pena destacar um homem que é um monumento a si próprio e que, maçado pelo “barulho selectivo e sonso em volta da sua morte (de Marielle Franco)” e registando com enfado que “o homicídio da dona Marielle provocou rebuliço”, lembra que “a cada ano, mais de 60 mil pessoas são por lá mortas a tiro ou métodos alternativos” e indigna-se portanto pela atenção à morte da “dona Marielle”. Não chega a ser inimputável, é só o senhor Alberto Gonçalves, ele mesmo.

segunda-feira, 26 de março de 2018

A DRª RUBINA LEAL E A FALTA DE MEMÓRIA POLÍTICA


É verdade que há derrames de água. É verdade que a água é um bem escasso. É verdade que a rede de águas para consumo está deteriorada e a necessitar de um grande investimento em todas as freguesias. Em toda a Região, melhor dizendo. Tudo isto é verdade, Drª Rubina Leal. O problema é a memória política que me parece que está a falhar, pois questiono, quem teve maioria absoluta na Câmara do Funchal durante 37 anos consecutivos e quem usufruiu de protocolos de muitos milhões com o governo regional, também de maioria absoluta? 


Será que estes aspectos não contam na análise sobre o que está a acontecer? Será possível investir milhões nessa área prioritária ao mesmo tempo que se torna fundamental reduzir a gigantesca dívida deixada, superior a 100 milhões de euros?
Que houve alguns investimentos no passado, não é mentira. Como não é mentira que, actualmente, aqui e ali, assiste-se a investimentos na melhoria da rede. Daí que se torne importante um apelo à memória. Quando isso não acontece, a crítica acaba por enfiar como uma luva na mão de quem teve seis vezes mais o tempo da actual vereação. É a tal história dos "telhados de vidro"...
Finalmente, é evidente que essa obra tem de ser feita, porque a água é um bem que não pode ser secundarizado, porém, não apenas com os recursos da Câmara, mas em um esforço conjunto entre a autarquia(s) e o governo.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 23 de março de 2018

DR. CALADO "DIXIT"


LEGISLAÇÃO DO TRABALHO "É UM DOS GRANDES IMPEDIMENTOS À NOSSA ECONOMIA"


Trabalho sem regras, talvez de "Sol a Sol" é que é bom. Trabalhinho com remunerações baixas, menos tempo de férias, um banquinho de horas, precariedade, recibos verdinhos, tudo isso é fantástico para a economia. "Hoje, não há horário de trabalho", disse. Família, descanso, tempo de lazer, etc. isso é tudo teoria, ironizo, claro! Está bem, percebo, de onde vem e para onde deseja ir. 
Só existe aqui um pormenor, um, pode pensar assim, só que a maioria entende que não. Simplesmente porque se trata de uma questão cultural e de direitos civilizacionais. O senhor vice-presidente aproveite o 1º de Maio e diga isso aos sindicatos e aos trabalhadores. Isto de comer a carne e deixar os ossos para os outros tem muito que se lhe diga.
Fonte: DN-Madeira
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 19 de março de 2018

A MAIS OCIOSA DAS OCUPAÇÕES


António Guerreiro,
in Público, 16/03/2018)

Durante os dias em que decorreu um congresso partidário, o comentário político jorrou em catadupa dos jornais, da rádio, da televisão. Mesmo em tempos normais, ele é abundante; mas nestes momentos de festa é pletórico e dilata de maneira demagógica os seus atributos. A situação espiritual do nosso tempo — como se dizia outrora — deve muito a este exército de soldados da eloquência, mobilizados para uma marcha fútil e exuberante de frases e frases que, de certo modo, nada dizem. “De certo modo, nada”: esta expressão podia ser um tique de linguagem usado por estas milícias de jornalistas, intelectuais, professores e políticos em reciclagem.

Experimentemos em inglês: somehow nothing. Soa melhor ou, pelo menos, disfarça o vazio. Porquê o modalizador somehow? Para deixar a indicação clara de que o juízo que classifica uma frase como não substancial ou não significativa é subjectivo, é uma questão de perspectiva. A minha perspectiva foi a do leitor, a do ouvinte e a do espectador que quanto mais escutava e olhava de perto as análises e comentários em catadupa, mais eles pareciam olhar-me de longe. Mobilizei-me, compareci e aguentei até soçobrar. Não por dever cívico, mas por uma circunstância especial e irrepetível que me pôs colado aos ecrãs, às colunas de rádio, às páginas dos jornais. Julgava que sabia tudo ou quase tudo sobre o comentário político tal como ele é praticado pelos seus oficiantes. Mas fiquei a saber ainda mais: que o puro vazio, contemplado de olhos abertos, provoca um estado de letargia e encantamento.
O exército de comentadores e analistas é ecléctico: há os histéricos, os teatrais, os circunspectos, os cómicos, os enfáticos e os académicos. Estes últimos não provêm necessariamente da Universidade e podem não pertencer à categoria dos politólogos. De igual modo, professores universitários em missão comentarista podem ser tão cómicos como os profissionais da comédia.
Adiciono um elemento de autocrítica: por mais que me queira vigiar e não cair na caricatura, é difícil resistir. Certamente que muita desta gente faz outras coisas respeitáveis e valiosas, merece consideração quando se dedica a outras actividades. Mas como é que tantos, ao mesmo tempo, aceitam transfigurar-se em representantes da tagarelice, em veículos de comunicação onde tudo é somehow nothing? Presumo que deve haver uma suspensão do pudor e da crítica, tal como eu experimentei a suspensão da credulidade.
Quero dizer: habituámo-nos de tal modo a este discurso que nos é oferecido como análise e comentário políticos que só quando nos colocamos numa atitude de vigilância e de interrogação das regras do jogo é que ele nos parece somehow nothing. “Chatter”, uma palavra inglesa, encontra aqui a sua significação. Como traduzi-la? Conversa vazia ou tagarelice, em português; bavardage, em francês; garrulitas, em espanhol; Geschwätz, em alemão; mataiologos, em grego: aprendo estas e outras traduções possíveis na introdução de um livro de um americano sobre “linguagem e história em Kierkegaard”.
Como é que tanta gente consegue fazer desta tarefa que consiste em produzir um discurso vazio (não tinha necessariamente de ser assim, mas é-o efectivamente) uma actividade prestigiada e considerada de interesse público? Como evitam que chegue o momento em que deveriam sentir aversão pelo papel que desempenham, pelo somehow nothing a que se entregam, às vezes com tanto ênfase que parecem investir naquele vazio a plenitude dos grandes momentos da vida? Como é que gente com reputações a defender e ciência a transmitir aceita fazer o jogo do ócio intelectual? Haverá certamente uma explicação, mas não é bonita de se ver.

domingo, 18 de março de 2018

FALSIFICAR O CURRÍCULO


Mais um que tenta apresentar credenciais académicas que, alegadamente, não as tem. Parece ter virado moda. Como se, para demonstrar competência, neste caso, política, fosse necessário ser Licenciado, Mestre ou Doutor em qualquer coisa. Conheço licenciados com fragilidades e conheço cidadãos de mancheia, com quem se aprende. 


Tive um Amigo, não licenciado, que faleceu com 92 anos, que foi "meu professor" durante mais de 40 anos. Era possuidor de uma cultura muitíssimo acima da média, falava de política, de economia, de jazz, aliás, de cultura em geral, tinha passado a pente fino todos os clássicos da literatura e que fez despertar em mim as lacunas que, enquanto estudante, a minha formação não tinha oferecido. Na esteira de Vinicius, a sua benção Franklim. Quantas viagens fizemos, passando a pente fino a História, a Arquitectura das cidades e todos os locais onde nos sentimos esmagados pela monumentalidade. Adiante. Fica-me a memória.
Este meu Amigo, um dia, quando falávamos de um determinado "Lente" (título que era dado aos professores, sobretudo da Universidade de Coimbra), olhou-me e disse com elegância: sabe, André, o que posso dizer é que "há lentes de aumentar e lentes de diminuir". Percebi que o dito era menos qualificado. 
Pois, é isso, será necessário ser licenciado para ser secretário-geral de um partido? Que raio leva um sujeito a inscrever no seu currículo uma coisa que não é? Confere-lhe mais importância ou é a competência que está em causa? É patético!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 17 de março de 2018

O MEU QUERIDO COMÉRCIO


Por Carlos Pereira
Deputado do PS na Assembleia da República

Tenho observado, com espanto contido, as iniciativas mais ou menos entusiasmadas que, segundo dizem, poderão revitalizar o comércio do Funchal. Seja lá o que isso queira dizer. Na verdade, mais panfleto menos panfleto; mais propaganda menos propaganda; mais animação menos animação; a questão de fundo é sempre a mesma: qual a melhor forma de criar condições adequadas ao dinamismo comercial que assegure mais facturação, mais margem comercial, portanto, mais estímulo ao investimento, mas também mais criação de emprego sem comprometer preços adequados aos consumidores. Tudo isto junto mas com mais qualidade e com a possibilidade de oferecer aos clientes (locais e visitantes) uma panóplia suficientemente abrangente de produtos. 


A minha honesta admiração é que já passamos por isto. Houve momentos em que valeu tudo : debaixo de cada prédio novo aparecia uma loja nova e num qualquer serrado próximo do Funchal emergia um centro comercial. Sabemos bem o que aconteceu a seguir mas, pelos vistos, não aprendemos nada. Mas, acrescento à minha admiração, a perplexidade, porque apesar de observar alguns maçaricos empertigados a falar (muito) do que não sabem, há muita gente que está calejada nestas andanças e podia impedir outro apagão, num sector de enorme relevância para a criação de emprego e para a revitalização e atração da cidade, com contributos excepcionais para a população local mas também para os visitantes.
Vem tudo isto a propósito, não por estar contra os discursos, repetidos à náusea, da revitalização comercial, mas porque nunca saiu da gaveta a absoluta necessidade de ordenar o comércio. De garantir que num centro urbano com limitações da procura, exigências na oferta e com objectivos de qualidade, é imperioso um razoável bom senso nas decisões políticas e nas opções governativas, venham de onde vierem. Esta atenção deve ser o caminho das políticas públicas. É por aqui que marcamos a diferença e passamos a contar no quadro comparativo, não apenas nacional mas também europeu. Sei que me vão atirar à cara rankings a torto e a direito, sempre muito excepcionais e também repetidos à náusea. Mas lembro que essa lenga-lenga de excepcionais resultados também ocorria, amiúde, no tempo da dívida oculta e, como sabem, muitos bancos internacionais emprestaram, a torto e a direito, a uma região cheia de belos rankings mas já completamente falida. Nesse grupo, até o poderoso Deutsche Bank caiu na esparrela. Mas adiante.
Num momento em que está previsto o surgimento de uma nova centralidade comercial a 500 metros do centro do Funchal, debaixo do novo hotel Savoy, onde surgirá um enorme centro comercial a céu aberto com 70 novas lojas (o Centro Comercial La Vie tem 60) que estudos/reflexões/debates acompanharam estas decisões (legítimas, sublinhe-se, por parte do investidor), designadamente em termos de impacto na procura, nos preços, na mobilidade, no trânsito, na capacidade de carga do quarteirão? Que medidas estão a ser tomadas para não canibalizar investimentos efectuados no comércio do centro do Funchal, absolutamente essenciais para a nossa imagem de marca? Que modelos/cenários de ordenamento comercial estão em curso para a defesa do comércio? E se nada disto está em curso, porquê revitalizar o que pode acabar de morte súbita? Afinal, o que é preciso saber é se há alguém que ordena o completo desnorte comercial que se observa a olho nu? E já agora, se alguém ainda se preocupa com isso?

Nota
Artigo de opinião publicado na edição de hoje do DN-Madeira.