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terça-feira, 7 de julho de 2026

A competição tecnológica China-EUA



Por

Economistas conceituados terão razão quando afirmam que o Ocidente está à beira do abismo. Quanto menos permeável for às mudanças, maior e mais rápida será a sua quebra de hegemonia, sobretudo na Europa, que não está a saber “divorciar-se” dos EUA, em tempo, de forma a construir o seu rumo.



A China avança, a passos largos, por este caminho da competição tecnológica. Até onde?

Múltiplos cenários dizem-nos que, a prazo, a China sairá vencedora. Aliás, é tema quase assente que o Ocidente, sob a batuta dos EUA, está em perda progressiva de poder no Mundo. Há até quem (especialistas altamente qualificados e de elevado prestígio) aponte datas para o país, líder do Ocidente, deixar de o ser (2035), transformando-se, num país banal, cujo sinal forte seria o dólar passar a ter um peso correspondente à dimensão da economia americana. Muitos desses especialistas dizem que o barco já se move em águas do século da Ásia. Tudo dito e alicerçado em estudos de grandes bancos e companhias de seguros desse mesmo Ocidente.

Para bem da Humanidade, seria bom que se pudesse dizer que, desta competição, o Mundo seria o vencedor. Os resultados seriam mais bem repartidos e chegariam com maior rapidez às pessoas. Mas, nada disso passa ainda de uma utopia! A estruturação política e económica existente, as estruturas de poder ainda dominantes, decorrentes de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial, …), criadas pelo Ocidente, que tudo faz para as preservar, não o permitem.

Nem sei, se tão cedo teremos, como desafio, um outro tipo de competição de finalidades mais humanas!

O Sul Global, com os BRICS à cabeça, apesar das múltiplas contradições que enfrentam entre si e dentro de si, vão a passo e passo construindo e colocando degraus na escada do poder, para um poder novo, certamente, estruturado, de forma bem diverso e melhor repartido, em termos de interesses, na base de polos mundiais que se articularão, de maneiras bem diferentes, das que, hoje, vigoram.

Em que pé se encontra este combate competitivo?

Neste artigo de opinião, procurar-se-á uma ideia geral sobre esta problemática, aproveitando a última versão do trabalho do Critical Technology Tracker do Australian Strategic Policy Institute (ASPI), instituição de carácter misto, tipo Think Tank, financiada pela Austrália, complementado por elementos retirados de uma entrevista a Charu Chanana, especialista de estratégia da Saxo Bank, na revista Allnews de 07/05/2026, ligada a bancos suíços.

Nesta entrevista pode ler-se: “Em chips, a NVidia está em competição com a SMIC (chinesa). A Microsoft está sendo substituída pela Alibaba e Tecent (chinesas). Nos veículos eléctricos, BYD e Xpeng, rivalizam com a Tesla (Musk – EUA)”.

A China possui, assim, segundo Charu Chanana, empresas, em todas as áreas, prontas a competir, com as grandes tecnológicas (TECS) dos EUA.

A revista observa ainda que a China não procura, forçosamente, as soluções de modelos de IA mais inovadores, mas concentra-se nas soluções e produtos mais eficientes, procurando obter uma autonomia completa do estrangeiro no desenvolvimento da IA, a fim de não depender das restrições dos EUA sobre exportações como os chips, topo de gama, da NVidia, com proibição absoluta de venda pelo governo dos EUA ou, como, muito recentemente, também sucedeu com a suspensão total da venda de dois produtos(alta gama) da Anthropic a estrangeiros, por alegadas razões de segurança nacional, quando o que se pretende é preservar a vantagem tecnológica americana, no campo da IA.

Por seu lado, o lançamento do modelo chinês de IA, Deep Seek, em finais de Janeiro de 2025, causou tanto abalo sobre a NVidia que, na bolsa de Nova Yorque, teve uma queda nas acções, nunca vista, “eliminando cerca de 600 mil milhões de dólares em valor de mercado”, num só dia. Mas, a razão da queda não foi a surpresa do aparecimento, mas a quebra do mito (a perda do monopólio) de que a IA era um feudo das grandes TECS dos EUA pelos orçamentos ilimitados que requeriam. E a Deep Seek aparece na base de custos muito mais baixos e com uma performance de qualidade.

Avançando um pouco. O estudo da ASPI identifica 74 tecnologias críticas [áreas de inovação e investigação estratégicas para a soberania e competitividade dos países, como a IA, a Biotecnologia, Semicondutores(chips), entre outras], nas quais a China lidera 66 e os EUA as restantes 8 (finais 2025). Informações recentes da ASPI apontam que a China está a aproximar-se dos EUA em três áreas críticas destas oito, sendo a IA uma delas.

Situação passada e futuro

No passado, a competição tecnológica pode ser entendida como assente numa lógica de “guerra comercial”, ou seja, os EUA, na tentativa de bloquear os avanços tecnológicos da China, usaram todos os mecanismos, desde as sanções, proibições e fortes controlos de exportação de produções de alta tecnologia, procurando impor a empresas associadas não americanas a mesma conduta (proibir exportar). É conhecida a situação do forte controlo de exportação dos semicondutores (chips de alta tecnologia) imposta à NVidia e a duas empresas não americanas TSMC (Taiwan) e ASML (Holanda) tentando, desta forma, impedir o acesso da China a esses chips e tentando impingir-lhe outra gama tecnológica, menos avançada, até com falhas tecnológicas, facilmente identificadas pelas empresas chinesas que recusaram a sua compra, procurando desta forma retardar os avanços tecnológicos na China.

Todas estas medidas criaram um efeito “boomerang”, levando a China a acelerar a sua investigação e produção no caminho da autonomia, tendo, em vários casos, avançado com a apresentação de produtos bem menos caros, penetrando em mercados, cativos dos EUA. Uma perda para os EUA, a dois níveis.

No futuro, o que seria desejável, a nível da IA, embora com avanços e recuos, é uma transição para uma fase de maturidade competitiva, até porque começam a descortinar-se campos diferentes de especialização. Os EUA a liderarem modelos nas fronteiras da inovação original e a China a liderar a implementação prática industrial e a escala comercial. Por outro, constata-se que a China não disputa o lugar dos EUA. Procura antes liderar, de forma independente, as tecnologias de futuro, reduzindo, assim, as dependências externas, nomeadamente nos campos da computação quântica e dos chips alternativos.

No campo da IA, sem dúvida, a área que dominará a sociedade mundial e a economia nos próximos anos – com o aparecimento da Deep Seek, deu-se um processo de encolhimento da distância, entre os dois países, pelo que a estratégia de competição tende a diferenciar-se e a consolidar-se.

O que poderá resultar, se não se caminhar no sentido de uma competição minimamente cooperante, é que se formem dois ecossistemas tecnológicos, desconectados e de padrões globais, com alicerces diferentes.

Isto levará a uma partição e a um alinhamento dos países em que o Sul Global e os BRICS tenderão a alinhar com a China, até porque as condições de cooperação experimentadas do passado são mais favoráveis ao desenvolvimento dos países, não de imposição de modelos, nem de dependência.

Conjugando estas diversas dinâmicas, com a perda lenta do dólar na participação do mundo financeiro, somos levados a concluir que economistas conceituados, como Jeffrey Sachs e vários prémios Nobel terão razão, quando afirmam que o Ocidente está à beira do abismo e que quanto menos permeável for às mudanças, maior e mais rápida será a sua quebra de hegemonia e maiores os estilhaços, sobretudo na Europa, que não está a saber “divorciar-se” dos EUA, em tempo, de forma a construir o seu rumo.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

As curvas que a soja tem dado… e continua a dar


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

Para a China, a soberania alimentar constitui uma peça basilar da sua política, construída na conjugação de relações intersectoriais concretas. Neste sentido, a soja, pelo desempenho nessas múltiplas relações, tornou-se um eixo extremamente importante.



A soja começou a ser cultivada na China para consumo humano, há 5000 anos, tendo dominado a produção mundial até à década de 1930. Desde aí, deu tantas voltas com dinâmicas tão variadas, passando a China, em tempo relâmpago, de maior produtor a maior importador mundial. Alterações, como estas, não acontecem, sem profunda mossa (económica, política e social) e sem choques de estratégias (ou até guerras) entre países, sobretudo, quando o “domínio do mando político” é ou pode ser muito “beliscado”.

Em menos de um século e, designadamente, após a Segunda Guerra Mundial, a soja rompe com os usos tradicionais, seguindo caminhos para além da alimentação, integrando-se como input (matéria prima) em fileiras complexas de produção, onde se destacam o óleo e lubrificantes, as farinhas alimentares, os alimentos compostos para animais, a indústria farmacêutica, …, tornando-se, assim, uma das commodities agrícolas de maior “folego” e, neste contexto, desencadeando rivalidades e mudanças geopolíticas entre as grandes potências mundiais, com destaque para a China e Estados Unidos, mas não deixando de atingir países como o Brasil, a Argentina e alguns estados europeus, debilitados na Segunda Grande Guerra.

Estas alterações tão rápidas da geopolítica da soja iniciaram-se, no essencial, com os EUA que, com a Segunda Grande Guerra, reforçaram ainda mais o seu papel motor na economia mundial, que, de forma pronunciada, já se tornava notória desde os anos 30.

Japão captura a Manchúria

Era a zona da Manchúria quem dominava a produção e as exportações de soja. Mas, no período antes da Segunda Guerra, com a invasão e ocupação pelo Japão começa a saga da mudança do circuito da soja, primeiro desviada para os interesses japoneses, privando os EUA do acesso privilegiado que tinha até então e, neste contexto, um processo de deslocalização da produção veio a colocar o continente americano em primeiro plano, com destaque para os Estados Unidos.

Por outro lado, a industrialização da China, integrada numa vasta reforma económica, vem acelerar esta dinâmica. O processo de industrialização absorve muitas áreas do campo chinês, subtraindo muitos hectares para urbanismo (implantação de cidades), implantação de zonas industriais, desenvolvimentos de infraestruturas (aeroportos, estradas, caminhos de ferro, portos), não podemos esquecer as zonas económicas especiais “um só país, dois sistemas” e o seu forte impacto nestas alterações. Não podemos deixar, ainda, de referir que, desde meados dos anos 1980, a China construiu mais de 50 grandes aeroportos pelo país todo.

Mas, o campo chinês não só perde superfície agrícola cultivável, perde sobretudo pessoas. Durante um certo período, as perdas para as cidades e zonas económicas especiais foram da ordem dos 15 milhões de camponeses por ano, mudando os seus hábitos sociais, onde o tipo de alimentação se transforma, a pouco e pouco, numa outra realidade, mais exigente e diversificada, onde a procura de carne, por exemplo, começa a ter um aumento fortíssimo.

A China de país de camponeses passa, num período curtíssimo, a país de trabalhadores de indústria, serviços e de trabalhadores intelectuais.

Estados Unidos, o maior produtor de soja

Tudo isto conjugado, leva a que os EUA se transformassem no maior produtor mundial de soja para satisfazer as suas necessidades e exportação, com a China a abandonar cada vez mais a produção e a abastecer-se no estrangeiro, por razões várias, entre elas, a produtividade.

Com a redução da área de terras de cultivo, houve que fazer opções e a China escolheu produzir trigo e milho, por a produção por hectare ser mais elevada e rentável até pela água que se tornava escassa, reduzindo a produção de soja, apesar do aumento do consumo. Neste processo acelerado de industrialização, deslocalizar a produção de soja era a solução mais indicada.

Porém, por volta do ano 2000, com a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC), o mercado agroalimentar chinês torna-se ainda bem mais aberto e deficitário. A soberania alimentar começou a acusar indícios de fragilidade, devido à elevada dependência no abastecimento de soja para alimentação da sua pecuária exigente devido ao alto consumo de carne sobretudo de porco. O défice da balança alimentar atinge níveis preocupantes e a estratégia entra em revisão, não só pelos valores importados, mas sobretudo pelos perigos da elevada concentração de fornecedores, em que os EUA assumem um lugar de destaque.

É evidente que a China soube “jogar”, sobretudo, nestes últimos tempos, com a importação de soja para responder às tarifas de Trump, desviando drasticamente as importações para o Brasil, afectando, de forma contundente, os produtores de soja americanos, na sua maioria republicanos, criando desta forma sérios problemas políticos a Trump, que teve de entrar na subsidiação e na negociação com a China, sendo o desbloqueamento um dos temas cruciais da recente visita a Pequim.

Afinal, não foi só com o argumento das Terras Raras que a China avançou para o terreno da “guerra económica”, levando ao recuo de Trump nas tarifas. E, nestas guerras, ganha quem é ousado e mais preparado.

De novo, a China em mudança

A China defende que as indústrias Agro, encaradas em termos de soberania alimentar, estão ao mesmo nível da soberania da defesa do país. Nesse contexto, há que posicioná-las na situação da menor dependência possível ou num grau de dependência controlável.

A situação presente oferece fragilidades. Por exemplo, o défice actual da balança comercial agrícola é da ordem dos 124 mil milhões de dólares, sendo as empresas fornecedoras demasiado concentradas num leque reduzido de países. Um problema básico de soberania alimentar a resolver.

O governo avança por dois caminhos para a sua solução, estando já a implementá-los.

Um, o desenvolvimento de estufas para a redução de produtos vegetais importados, sobretudo os provenientes dos trópicos como, por exemplo a banana, estufas estas geridas, mediante o recurso a instrumentos de inteligência artificial.

O outro e o mais determinante consiste na redução da sua dependência das proteínas vegetais de origem do Continente americano, designadamente dos Estados Unidos e Brasil, onde a importação de soja tem um peso muito específico.

Como pensa a China resolver esta questão? Já está em linha o lançamento de um processo para a produção de proteínas microbianas em que a China domina, hoje, 70% do mercado mundial. Ora, isto leva a que, num prazo de 15 anos, as importações chinesas dos EUA se reduzam de 86% e do Brasil 36%.

Esta estratégia leva a uma grande revolução do mundo da soja, designadamente ao nível dos países fornecedores, para além de acicatar a sempre presente disputa tecnológica entre China e EUA, uma das questões de maior confronto competitivo no presente e em que a China, em vários domínios, está a conquistar terreno.

Para a China, a soberania alimentar constitui uma peça basilar da sua política, construída na conjugação de relações intersectoriais concretas, (logísticas, comerciais, financeiras, tecnológicas e políticas), pelo que a soja, pelo desempenho nessas múltiplas relações, se tornou um eixo deveras importante a nível interno e com efeitos estruturantes ou desestruturantes (consoante o ângulo da análise) na economia mundial.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

TV BRICS – um pouco da sua história


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

Sendo o Brasil um dos países fundadores, primeiro na versão BRIC, depois BRICS e agora BRICS+, é natural que as relações no mundo lusófono tenham como ponto de partida este país.



No último artigo de opinião, publicado no JE, abordei o tema dos Rankings de Universidades, a partir da leitura de um artigo na TV BRICS, com uma nota final sobre o posicionamento de Portugal, a partir de informação IA.

Nele, se constatava que a TV BRICS era pouco referida no Ocidente, por razões ideológicas. Por isso, apontei para umas breves anotações, num escrito posterior, sobre o seu papel na comunicação social no Mundo.

Aqui estamos. A TV BRICS, criada aquando da 9ª Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo dos países membros, que se realizou em Xiamen/China, em 2017, dias 3 a 5 de Setembro, surgiu de uma proposta do presidente da Rússia, Vladimir Putin, apoiada pelos líderes dos países fundadores dos BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Esta decisão vem referida na Declaração Final da Cimeira que decorreu sob o lema estratégico “BRICS: Parceria mais Forte para um Futuro mais Brilhante”, embora, ainda não mencionada com a sigla comercial de TV BRICS.

A TV BRICS

Esta rede de comunicação social, um HUB de criação e análise da informação para explicar ao Mundo os BRICS e a sua acção relevante, orientada, em especial, para os países do “Sul Global”, que corresponde à maior fatia de países da ONU, representando mais de 80% da população mundial, visa desenvolver e consolidar um espaço de informação unificado. Nesse contexto, o seu papel determinante é trabalhar a informação e produzir conhecimento no sentido de explicar o que são os BRICS, como

e porque se constituíram, como procuram influenciar a governação mundial (modelo de governação), o que pretendem e, como tomam, entre si, as decisões. Uma tarefa deveras complexa.

Algumas observações sobre estas questões/interrogações. Os BRICS são uma aliança de países que pugna por uma ordem multipolar, onde o “Sul Global” tenha voz e influência, um contraponto à visão unipolar do Ocidente, que pugna por uma profunda reforma das Instituições Internacionais, onde FMI, Banco Mundial, ONU sejam profundamente alterados, porque não reflectem, há muito, o Mundo de hoje e estão ao serviço do Ocidente. Defendem um novo modelo de governação mundial, onde a

soberania nacional e a não ingerência nos assuntos de cada país se transformem uma realidade. E, nas suas decisões, enquanto grupo de países, funciona o consenso.

Funcionamento

A TV BRICS é uma rede internacional de Media com sede em Moscovo. Distribui conteúdos em sete línguas – português, russo, inglês, chinês, espanhol, árabe e hindi, a principal língua, entre as 22 faladas na Índia, desdobrando por vezes, em casos regionais, para outras línguas ou dialectos secundários, através de um portal multilingue e um canal com transmissão 24 horas/dia.

O seu funcionamento implica múltiplas parcerias que, de momento, abarcam mais de 100 órgãos de comunicação, em cerca de 80 países.

A TV BRICS distingue-se das agências noticiosas do Ocidente, que vendem conteúdos. Esta recolhe conteúdos dos parceiros e redistribui-os para os outros países da rede, incitando a que cada país conte a sua história, produzindo os seus conteúdos.

Para além de noticiar factos, como se referiu antes, troca informação entre parceiros, funcionando de instrumento de diplomacia mediática, promove projectos dos países membros como festivais de cinemas, fóruns vários, de forma a criar, desenvolver e fortalecer os laços institucionais entre si.

Em toda esta actividade, a rede segue uma linha dominante. Trata a informação numa visão de Multipolaridade, contrariando a visão euro-centrista ocidental e, sobretudo, norte americana. Carrega, pois, no desenvolvimento económico, na perspectiva da solidariedade e cooperação humanitárias e nas tradições culturais dos países membros.

Conteúdos

Num dos últimos números da Newsletter semanal da TV BRICS, a que tive acesso, a programação vinha organizada em 5 grupos/capítulos:

• Principais Notícias dos Países BRICS,
• BRICS Bloggers Team,
• Materiais Exclusivos da TV BRICS,
• Projectos da TV BRICS,
• Vídeos da TV BRICS.

Dos números que visualizei, não foram muitos, fiquei com a sensação de que a arrumação pouco varia. Desta newsletter para a anterior, a diferença de arrumação passava apenas pelo BRICS Bloggers Team. O que varia bastante é a quantidade de artigos, estudos ou as informações por grupo.

A título de exemplo refira-se que no capítulo Materiais Exclusivos da TV BRICS vem a referência desenvolvida ao Festival Internacional de Cinema Estudantil dos BRICS que se realizou no Egipto no corrente mês de Maio, entre 10 e 14, com a Índia como convidada de honra e foco na inovação cinematográfica. Trata-se da primeira edição do festival que incluiu sessões especiais e seminários temáticos.

Na Newsletter anterior havia referência a um trabalho exclusivo “Encantos de Moçambique” muito desenvolvido com vários itinerários, como a viagem à ilha de Inhaca a partir da capital, Maputo.

A TV BRICS no mundo lusófono

No mundo lusófono, a TV BRICS assenta num modelo de parcerias que procura desenvolver e não num canal clássico de TV.

Como HUB internacional de conteúdos de comunicação social distribui materiais em língua portuguesa por acordo com órgãos de comunicação locais.

Sendo o Brasil um dos países fundadores, primeiro na versão BRIC, depois BRICS e agora BRICS+, é natural que as relações no mundo lusófono tenham como ponto de partida este país.

O Grupo Bandeirantes é o principal parceiro estratégico, tendo a cooperação início em 2020, com o intercâmbio de conteúdos no sentido Brasil-Rússia, conteúdos sobre o tema do agronegócio adaptado para o público russo, tradução na própria língua. A rede, por seu lado, com uma redacção internacional, tem vindo a adaptar conteúdos dos outros países membros para português, tendo como foco a CPLP, no sentido de alargar a influência em Angola e Moçambique, funcionando o Brasil de ponte cultural e mediática.

Temos informação de uma parceria com a TV Moçambique, tendo a TV BRICS já feito rodar na sua rede internacional o documentário “Encantos de Moçambique”, produzido pela TVM em colaboração com a rede BRICS, referido antes.

Com Angola, a situação avança a bom ritmo. Existem contactos com a Televisão Pública de Angola que tem acompanhado muito de perto a realização das Cimeiras mais recentes dos BRICS e mostrado interesse em integrar os mecanismos de comunicação, tendo o governo angolano dado o seu apoio. Por outro lado, a TV BRICS tem vindo a integrar na sua agenda vários conteúdos em português, sobretudo relativos a economia e infraestruturas, o que tem mostrado Angola aos países parceiros.

Como perspectivas, estão em curso negociações com Cabo Verde, Guiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe, sendo a imagem da TV BRICS bastante positiva nestes países e está a ser oferecida uma alternativa mediática, ligar directamente as capitais lusófonas africanas a Brasília, Moscovo, Nova Deli e Pequim.

OS BRICS não estão a passar um bom momento, sobretudo, os países membros do Golfo que se têm guerreado entre si. A TV BRICS tem abordado o assunto com o máximo cuidado, pois o maior interesse está em unir e não desagregar.

Melhores dias se aguardam para que o projecto se desenvolva e avance na diferença, mas com menos sobressaltos.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Ainda os rankings de Universidades


Por

Hoje, os rankings já extravasaram as portas das Universidades, sendo frequentemente usados na definição de estratégias dos sistemas de educação dos países e influenciam empresas importantes e grupos económicos.



Recentemente, li na rede TV BRICS, um artigo sobre os Rankings de Universidades, referenciando questões de relevo:
Para que servem?
Como são criados e que entidades os elaboram?
Que metodologias usam, critérios e enviesamento dos resultados?
Será possível confiar “plenamente” nesses Rankings?
Quem acompanha de perto, todos os anos, os Rankings de Universidades?

Um mundo de questões, nada fáceis. Mas outras mais, técnicas ou de índole global, poderiam ser elencadas, a partir da leitura do artigo.

Antes de esboçar algumas respostas seguindo de perto a informação e o teor do artigo, surgiu-me a ideia de, posteriormente, abordar a história da TV BRICS. Ouvimos tão pouco falar da sua existência, nos meios de comunicação do Ocidente e, muito, nos do Sul Global, apesar da TV BRICS ser parceira oficial da ONU e, já ter uma presença substantiva no mundo dos Media, ao atingir mais de 1,5 mil milhões de pessoas por mês, em cerca de 80 países.

As razões de poucas referências, no Ocidente, acerca deste meio de comunicação social, são bem conhecidas e dariam, certamente, matéria para muitos e variados artigos. Informação não “conveniente”, ou mesmo quando neutra, é assunto que não interessa ao Ocidente e, por isso, torna-se um tema pouco falado, quando não pior, distorcido, o que quer dizer, manipulado.

Rankings, produto recente

Os Rankings de Universidades são produto recente. O primeiro surgiu, em 2003, por uma necessidade real da China. Ao pretender preparar/elevar as suas Universidades para um nível global superior (nacional e internacionalmente), a China deparou-se com a inexistência de uma ferramenta de medida de comparação das suas universidades no Mundo. Essa ferramenta consistiu na construção de um Ranking, hoje bastante aceite e conhecido no meio académico mundial por Ranking de Xangai. Porquê? Precisamente, foi a Universidade Jiao Tong de Xangai que o elaborou.

Entretanto, foram surgindo outros, cada um com as suas finalidades próprias.

O que ressalta desta dinâmica é que os Rankings se transformaram numa ferramenta de tomada de decisões. Como diz o artigo “ajudam candidatos e estudantes a fazer escolhas ao mostrar a posição de uma universidade em relação às demais”. Por outro, servem de referência das próprias instituições, ao produzirem informações valiosas sobre o “seu status” e também despertam interesse entre investigadores e especialistas em educação, pois a sua própria análise se transforma, ela própria, em elemento de trabalho e de reflexão do sistema na sua globalidade.

Hoje, os rankings já extravasaram as portas das Universidades, sendo frequentemente usados na definição de estratégias dos sistemas de educação dos países e influenciam empresas importantes e grupos económicos, sobretudo, no tocante ao recrutamento dos seus quadros técnicos.

“Entre os rankings mais reconhecidos e respeitados estão o QS World University Rankings, o Times Higher Education World University Rankings (THE) e o Academic Ranking of World Universities (ARWU). Essas classificações são consideradas de referência por sua cobertura global, metodologias consistentes e ampla variedade de indicadores. Além disso, são amplamente utilizadas por governos, instituições e estudantes em todo o mundo”, afirmou Raymond Matlala, especialista em negócios, educação e Sul Global, além de fundador e presidente da Associação Sul-Africana da Juventude dos BRICS, em entrevista à TV BRICS.

A leitura dos rankings – Complexidade

Segundo a TV BRICS, os Rankings de Universidades são uma espécie de “tabela de classificação”.

No entanto, prestígio não corresponde a uma aceitação acrítica. Aliás, numerosos especialistas recomendam que, antes de comparar essas classificações, deve haver uma análise cuidada dos critérios de avaliação e da sua ponderação.

A experiência diz-nos, porém, que há uma aceitação quase “cega” das tabelas de classificações destes Rankings, em todo o mundo, secundarizando, deste modo, os alertas dos especialistas. E, descendo à terra, será que há capacidade e tempo em cada um de nós (mesmo os mais interessados!) para ter em conta esse alerta?!

Os especialistas, também, nos dizem que os critérios de avaliação estão, em constante evolução, seguindo um pouco o sabor/moda dos tempos. Nos últimos anos, tem-se dado maior atenção ao desenvolvimento sustentável e à responsabilidade ambiental, temas na ordem do dia, mais que não seja, em teoria. O nível de digitalização da educação e até o equilíbrio de género na Academia estão, também, a assumir uma importância cada vez mais relevante.

Tipos de rankings universitários

“O foco, as características e até o público-alvo de um ranking dependem dos critérios e das metodologias de avaliação que ele adota”. Por exemplo, rankings como o QS World University Rankings atribuem grande peso à reputação dos empregadores. Já o Times Higher Education (THE) tem um enfoque maior na agenda de pesquisa, O Ranking de Xangai (ARWU), por sua vez, não utiliza pesquisas, baseia-se exclusivamente em indicadores mensuráveis, como publicações nas revistas Nature e Science e o número de investigadores referenciados. “Segundo especialistas, essa abordagem oferece a avaliação mais rigorosa e transparente da força de pesquisa de uma universidade”.

Em resumo, dispor de instrumentos como estes Rankings são, sem dúvida, de grande utilidade, mas tem de haver o cuidado de os relativizar, até porque cada vez mais a concorrência e o marketing de “venda” do produto final tendem a enviesar, aqui e ali, a comparabilidade, com algum exagero.

Como relativizar os rankings?

Muitos especialistas sugerem que, em comparações mais aprofundadas, consoante a sua finalidade, se recorra a indicadores complementares de comparação, como os curricula dos cursos, a competência dos orientadores e professores e investigadores ou quaisquer outros meios disponíveis.

Hoje em dia, há facilidade em ir além dos Rankings, pois as redes sociais, apesar das suas limitações, dão acesso a muita informação.

Quanto ao acesso aos resultados, todos os anos, estudantes, investigadores, especialistas em educação e cultura, gestores das grandes empresas e grupos económicos, sobretudo, os mais ligados à gestão de quadros técnicos, políticos, também os mais ligados a instituições de ensino superior, assistem com atenção aos resultados que os principais Rankings globais publicam, pois constituem para todos uma excelente base de informação e trabalho.

Universidades portuguesas

Uma nota final, breve e muito preliminar, sobre a sua inserção nos Rankings Mundiais (2025/2026), na base da IA.
Ranking de Xangai (produção científica e prémios): Universidades de Lisboa e Porto lideram nacionalmente, posicionadas entre as 300 melhores do mundo e cinco outras entre as 1000 melhores.
Ranking QS (reputação académica e credibilidade): UL (230.ª), UP (237.ª), UN (327ª), UC (347ª), estão entre as 200 e 350 melhores do mundo. Há a destacar, nesta edição, outras cinco Universidades, situando-se quatro entre as 1000 melhores.
Ranking THE (ensino, investigação e projecção internacional): UL (301-350), UP (351-400), UN (401-500), UC 501-600). A UCP aparece também frequentemente classificada num intervalo mais alargado 301-400.

Portugal tem, assim, uma presença significativa das suas Universidades, nos principais Rankings académicos mundiais, com tendências de melhoria de posicionamento, nestes últimos anos.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Como um país de 9,5 milhões de habitantes se tornou, por uns dias, “o centro” do mundo


Por

A derrota de Viktor Orbán significa, acima de tudo, um grande abalo nas fileiras do movimento MAGA de Donald Trump que, até ao último momento, lhe concedeu o máximo apoio.



No domingo, dia 12/04/2026, houve eleições parlamentares na Hungria, onde Viktor Orbán, o líder europeu que mais tempo serviu –16 anos – na União Europeia, averbou uma pesada derrota, saindo vencedor, com uma vitória expressiva, o conservador pró-europeu, Péter Magyar, que militara, durante anos, nas fileiras do partido de Orbán.

A derrota de Viktor Orbán significa, acima de tudo, um grande abalo nas fileiras do movimento MAGA de Donald Trump que, até ao último momento, lhe concedeu o máximo apoio, enviando inclusive o seu vice-presidente J.D. Vance, para participar e intervir na campanha, levando promessas de financiamento e apoio económico à Hungria, caso Orbán ganhasse, ou seja, a “receita” antes oferecida a Javier Milei da Argentina não surtiu efeito na Europa, tanto que agrupamentos extremistas europeus já se interrogam das vantagens das ligações ao Maga. Não será que as constantes “errâncias” de Trump descredibilizam aquilo em que se mete?!

Na realidade, segundo o jornal “Politico”, Orbán era tido nas hostes do Maga como “figura de destaque e precursor do seu movimento nacionalista cristão e anti-imigração”. Para Trump, um herói super-inspirador dos movimentos da extrema-direita mundial de que ele (Trump) se arroga líder supremo, o “Trump antes de Trump”, na designação de Steve Bannon, o primeiro guru ideológico do Presidente, o homem que, na Europa, tentou montar uma Universidade, para formar “dirigentes” para a máquina populista de extrema-direita, chegando a estar prevista arrancar em Itália, mas caiu por não autorizada.

A derrota de Orbán provocou, assim, fortes arrepios e sobressaltos por todo o mundo da extrema-direita e direita radical, daí o foco posto nos resultados destas eleições.

Os resultados eleitorais mostraram, da parte do povo húngaro, uma grande rejeição a Orbán. Essa, a grande questão que urge analisar. A corrupção continuada, visível, a concessão escandalosa de privilégios, institucionais e económicos, a familiares e gente amiga (empresários e novos empresários) dos membros dos governos terá, certamente, pesado mais que, propriamente, a gestão da política húngara, embora as duas muito se cruzem.

A vitória de Magyar foi saudada por grande parte dos dirigentes europeus, mas sobretudo com grande euforia da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Não se apreende bem o que isto significa, a não ser a expectativa de maiores facilidades quanto à Ucrânia.

Sem dúvida, algum desanuviamento soprará em Bruxelas, mas as relações tensas com Kiev irão permanecer, no imediato, pois Péter Magyar reconhece que não tenciona deixar de se abastecer do petróleo e gás russos, mais baratos, pois é necessário, diz, ter uma política pragmática que garanta o abastecimento das empresas e famílias húngaras. Deste modo, boicotes aos oleodutos que transportam energia da Rússia para a Hungria, através do território da Ucrânia, não serão aceites, pois apenas alimentam a insegurança interna no país. Aliás, nesta matéria sucederam-se grandes conflitos entre Bruxelas, Budapeste e Kiev não facilmente resolúveis, com dificuldades de intermediação de Bruxelas, sobretudo no caso recente do oleoduto Druzhba, ainda por resolver.

Esta posição de Magyar contrasta, em muito, com as sanções económicas que a UE tentou aplicar, desde os princípios da guerra da Ucrânia, hoje reconhecidas como erro, por grande número de analistas, pelos efeitos nefastos nas economias dos países europeus, designadamente, fazendo-os entrar em perda de competitividade (aumentos dos custos energéticos) e reflexos no custo de vida das famílias e na transição energética, pois fizeram activar centrais a carvão, por exemplo, na Alemanha. E, pior ainda, muitas destas sanções económicas não foram pensadas, tendo em conta os interesses globais da UE, mas em completa submissão aos EUA e, em seu benefício, ao substituírem grande parte do fornecimento da energia russa, a preços bem mais altos. Uma dependência por outra, com prejuízos para a Europa em toda a linha (desemprego e fecho ou deslocalização de empresas).

O que traz esta mudança política na Hungria à União Europeia?

Fora algum desanuviamento nos relacionamentos com Bruxelas e entre dirigentes, como antes se referiu, não é muito expectável que Péter Magyar vá trazer ideias novas de fundo, que venham dinamizar a União Europeia. Sabemos apenas que nas políticas de imigração em nada se distingue de Orbán. Vai tentar, certamente, animar a economia húngara, até porque Bruxelas terá de levantar a suspensão da entrega de fundos comunitários suspensos com Orbán, cuja aplicação dará alguma dinâmica à economia.

Mas, pouco acrescentará quanto a ideias em áreas estruturantes, a começar pela energia, sem dúvida, a mais determinante de todas, até pelas transformações de fundo de que a União Europeia precisa, para tornar-se a prazo uma potência mundial. É evidente que outras áreas importantes como a defesa, a IA, a digitalização, a política externa, o sistema financeiro, necessitam de ser repensadas nesse sentido.

A União Europeia para ser respeitada e credibilizar-se junto do Sul Global, que representa o mundo não Ocidente, a fatia mais substancial do Mundo Global e de maior futuro e, deste modo, ganhar prestígio e lugar de primeiro nível num mundo multipolar, precisa de ganhar posições próprias, corajosas e de enfrentar os EUA, sempre que necessário, pela diferença. Não é o que tem acontecido.

Em termos de política externa, faz falta acrescentar à UE vozes como a de Pedro Sánchez, com posições próprias, claras e independentes dos EUA. E não será isso que Magyar vai acrescentar. É apenas mais um a engrossar a corrente.

Pedro Sánchez tem sido, recentemente, o único dirigente europeu que condena, de forma clara, o genocídio levado a cabo por Israel em Gaza e agora no Líbano. Foi a única voz europeia que não se encolheu, condenando frontalmente a guerra que Trump e Netanyahu, a 28 de Fevereiro último, lançaram contra o Irão, a meio de negociações em curso.

A Europa ficou nas meias tintas, como sempre, quando não mesmo se apresenta como “várias” Europas. Não vou afirmar que a Europa apoiou a guerra contra o Irão, uma guerra que, segundo tudo indica, apenas serve a estratégia de Netanyahu no caminho para a sua Grande Israel.

A União Europeia teria sido consequente se tivesse denunciado a guerra e tomado medidas dificultando-a, como suspendendo os acordos comerciais com Israel e defesa como fez agora Meloni e, não endossar culpas ao Irão por ter atacado alguns países do Golfo, designadamente as bases americanas existentes nesses países, que começam a ser questionadas, em termos de eficiência, nos próprios EUA.

Por outro lado, a Espanha e a China estão a desenvolver uma aproximação estratégica e diplomática, com vista ao fomento de parcerias, com Pedro Sánchez nas suas intervenções a incentivar a Europa a caminhar nesse sentido, o que aos EUA não agrada, daí as ameaças das taxas com os dirigentes europeus, e estes sempre a encolherem-se, apesar de dizer que desejam autonomizar-se, nunca indo além das palavras.

À China, que pensa a prazo, agrada que este ambiente de clareza e confiança com a Espanha se consolide. Mas, não tenho dúvidas, que lhe agradaria bem mais, se tudo isto se processasse a nível da União Europeia – um caminho ainda muito longe e mais, se se imaginar estender a uma colaboração com os BRICS.

quarta-feira, 11 de março de 2026

A dívida americana, um risco acrescido para o Ocidente Global


Por
Economista

Será que Paul Krugman tem razão quando diz, face à guerra no Golfo, que o maior problema pode até ser uma grave crise financeira global e, menos, uma crise energética, porque, hoje, o Golfo mudou e é muito mais um centro financeiro, de viagens e turismo…?



Muitos especialistas, comentadores, jornais, revistas especializadas andam a debruçar-se, desde algum tempo, sobre o montante e a evolução da dívida dos EUA e seu impacto na queda da Hegemonia do país e, por arrasto do Ocidente global.

Em concreto, a dívida pública americana tem vindo a crescer de forma galopante. Em finais de 2020, o seu montante ascendia a 23,2 biliões de dólares (unidade 1*12 zeros), enquanto, em Fevereiro de 2026 (5 anos e dois meses depois), atingia 38,6 biliões, com a relação Dívida/PIB (nesta data) em 124,28%. Agora, que as condicionantes da dívida futura americana se alterarão com o esforço da guerra do Irão, muita água vai correr sobre esta temática que já andava a abalar as contas dos EUA.

Para 2026, a previsão, antes do esforço da guerra, só com o pagamento dos juros líquidos da dívida, era bem acima de um bilião de dólares. Agora, impossível avançar um valor. O que se sabe é que o esforço financeiro da guerra vai parar todo à dívida pública, devido a falta de cabimento orçamental.

Por outro lado, vários especialistas colocam a questão de que serão os BRICS e a China, os grandes beneficiários deste andamento da dívida, na medida em que cada vez estão a ser reunidas as condições para um Mundo Financeiro Multipolar e Descentralizado.

Aliás, nada de novo, pois caminhar para esse outro Mundo ou para uma nova Ordem financeira sempre foi um dos desígnios do grupo BRICS, pois sempre viram, nesta forma de organização financeira, uma resposta de equilíbrio contra o domínio dos EUA, que decorre do acordo de Bretton Woods de 1944.

Mas uma nova questão se coloca agora. Este esforço, que vem aumentar o montante da dívida, não tenderá a acelerar e a desequilibrar de forma perigosa a já débil situação dos EUA?! Num país, com uma moeda normal, seria sinal de default/não pagamento.

Convém, anotar, também, que grassam grandes equívocos sobre o mundo dos BRICS, designadamente a ideia de que “aquilo que os separa é bem maior do que aquilo que os une”.

Esta visão tem, na raiz, uma premissa falsa, pois assenta num equívoco ideológico, que nunca foi a causa agregadora dos países BRICS.

Na sua associação, a grande causa de aproximação assentou muito pouco numa escolha ideológica e muito na experiência vivida de que as estruturas da Governação mundial existentes (FMI, Banco Mundial, ONU…) não eram ajustáveis à realidade social e económica do Mundo, ou seja, os países (depois BRICS) começaram a cooperar entre si por uma comunidade de interesses variada, no sentido de os tentar articular no terreno, pois a situação real encontrava-se e continua muito distorcida, em benefício exclusivo dos países do Ocidente global e dos EUA em particular, que nunca deram espaço a qualquer negociação, a não ser como diz Trump: “privilegiamos a diplomacia na gestão dos conflitos”, desde que, “o lado contrário aceite aceitar o que se quer, nem que seja pelo uso da força” ou seja, “a diplomacia do canhão”.

No debate sobre os BRICS, é útil perceber ainda que não se está perante um grupo de países “homogéneos”. Coexistem objectivos estratégicos diferentes, tensões consideráveis, rivalidades geopolíticas, choque de prioridades e alinhamentos políticos diversos. Basta olhar para os países BRICS do Médio Oriente, mas não só.

Mas, as iniciativas desenvolvidas anualmente, algumas já com estatuto de carácter permanente que atravessam as Presidências, embora pouco divulgadas, por barreiras colocadas aos Media, não pelos BRICS, como é evidente, mas por entraves de países adversários críticos, designadamente do Ocidente, têm tido um papel muito agregador na criação de laços profundos entre os países-membros e estas iniciativas, que se desenvolvem em áreas muito diversas, ultrapassam, em cada ano, mais de uma centena, envolvendo muitos milhares de pessoas.

Esta falta de uniformidade imprime, por outro lado, aos BRICS um espírito de coexistência, bem diferente de num instrumento clássico de poder onde tudo é muito regrado e levou a que as decisões sejam tomadas por Consenso e os Compromissos deliberadamente amplos.

Voltando à dívida pública dos EUA

A dívida, como se referiu, tem vindo a acusar uma trajectória de crescimento acelerado e agora tudo indica, acelerará, ainda mais, mesmo que provisoriamente.

Até o próprio FMI está “assustado”, pois já apontava para a insustentabilidade deste ritmo, para além de que o “privilégio exorbitante” do dólar americano, de que Giscard d’Estaing, enquanto Ministro das Finanças, fazia referência em 1965, está em perda de potencialidades no contexto do sistema financeiro mundial.

Na realidade, a vantagem única que dava aos EUA ter um dólar como a principal moeda de reserva a financiar défices sem custos, imprimir moeda sem efeitos imediatos na inflação e uma certa imunidade cambial está com perda de efeitos de forma acelerada, pois os países, sobretudo os grandes credores mundiais dos EUA estão a reduzir a exposição ao dólar de forma sustentada.

Os custos com a dívida de hoje atingem valores que pesam e limitam o funcionamento e acção da economia americana, apesar de Trump, no discurso de Estado da Nação “ter desencantado” uns quantos valores fenomenais para a situação da economia dos EUA. Esses números fantásticos não resolveram as incertezas criadas pela anulação pelo Supremo Tribunal de muitas das taxas aduaneiras e, sobretudo, pelo caos administrativo que a sua devolução coloca, agravada pelo desentendimento Tribunal/Administração Trump, em termos de calendário da mesma.

O esforço de gastos públicos com a guerra no Médio Oriente, esta telecomandada completamente pelo governo de Israel, é de difícil avaliação, pois dependerá muito do tempo de duração, só vem empolar, complicar e agravar ainda mais a situação da dívida pública americana no curto prazo.

Por outro lado, assiste-se cada vez a uma economia “ensanduichada” num colete de fragmentação do domínio do dólar. As diversas formas que a Desdolarização está a tomar, as iniciativas em curso que grupos de países como os BRICS estão a desenvolver para se desligarem dos sistemas ocidentais, trazem complicações maiores à situação da economia dos EUA que vai ter de avançar com medidas restritivas, a partir de 2026, em que se pensa que o custo da dívida vai disparar a ritmos muito mais elevados que o da economia que tenderá a cair.

Este embate já está a afectar toda a economia mundial, onde a zona europeia não fica ausente nem isenta de consequências negativas, pois está já a apanhar os efeitos da crise energética sobretudo pelo lado do gás natural.

E será que Krugman terá razão (artigo de 2 de Março 2026) quando diz, face à guerra do Golfo, o maior problema pode até ser uma grave crise financeira global e, menos, uma crise energética, porque, hoje, o Golfo mudou e é muito mais um centro financeiro, de viagens e turismo…?

Esperemos que tudo não passe de uns abalos, infelizmente, já com muitos mortos. Mas, se Trump continuar a deixar-se comandar por Netanyahu, tudo é possível, com consequências imprevisíveis, embora diferenciadas, para toda a economia mundial.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

BRICS 2026: Índia sucede ao Brasil na Presidência


Por

Tudo o que seja unir, dialogar e apontar pistas para a solução dos problemas complexos que atravessam o Mundo de hoje e, certamente, o de amanhã, são sempre de experimentar e com alguma garra, programação e organização, desenvolver.



BRICS – breve nota

BRIC, BRICS, agora BRICS+ são, presentemente, um conjunto de 11 países heterogéneos, com um passado já significativo, influente, curto ainda e, nem sempre, de evolução linear. Estão a impor-se como força de transformação do xadrez geopolítico e económico do Mundo em que, de uma maneira geral, o “Sul Global” se revê e o “Ocidente” se sente incomodado, tentando por todos os meios contrariar a sua acção. Hoje, com Trump, o conceito de “Ocidente”, com os EUA ao comando, anda bem mais problemático e, segundo vários analistas em queda acelerada, como Emmanuel Todd (um intelectual francês de renome) demonstra, na sua mais recente obra, La Défaite de l’Occident, com edição em português.

A primeira Cimeira BRIC, realizada em 16 de Junho de 2009, em Yekaterinburg/ Rússia, constitui o marco da sua institucionalização como bloco, sobretudo de natureza económica. Nela, se estabeleceu uma espécie de roteiro/baliza com os seus princípios e finalidades. Antes, porém, houve encontros informais entre os 4 países fundadores (Brasil, Rússia, India e China), em New York, à margem das reuniões das Assembleias Gerais da ONU.

Assim, os princípios correspondem a normas de relacionamento entre os países-membros, uma espécie de “código de conduta”, como a não interferência na vida interna de cada um, a igualdade de tratamento e o benefício mútuo. Os fins, uma espécie de estratégia com múltiplas variáveis e variantes como baliza, poderão arrumar-se segundo três domínios:
O tipo de reformas que preconizam defender junto das Instituições Financeiras Internacionais (BM, FMI …), porque entendem que as existentes apenas beneficiam o Ocidente.
A aposta no desenvolvimento sucessivo das trocas comerciais e de serviços entre os países constituintes do grupo.

A promoção de um crescimento económico sustentado, inclusivo e justo.

Os resultados, segundo a declaração final da Cimeira, foram encorajadores, os compromissos assumidos claros, designadamente o arranque e a intensificação da cooperação entre os países-membros. Foi ainda lançada a discussão sobre mecanismos a criar no seio do grupo sobre um problema muito sentido e limitador do seu progresso: o das dificuldades de acesso ao financiamento de projectos na área das infraestruturas, ou seja, nesta Cimeira, iniciou-se o diálogo sobre o futuro banco de desenvolvimento, criado depois na 6ª. Cimeira dos BRICS, que teve lugar em Fortaleza/Brasil (2014).

Até hoje, realizaram-se 17 Cimeiras, uma por cada ano de Presidência. A décima oitava será na Índia em 2026.

Na última reunião dos Sherpas[1], em 12/12/2025, para além da análise do trabalho realizado pela Presidência do Brasil, a nova Presidência apresentou as prioridades para 2026, assentes em quatro eixos: resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade, estando sempre subjacente em cada Cimeira a linha global que se prende com a governação mundial: a reforma profunda do Conselho de Segurança da ONU que permita uma representatividade condigna deste grupo de países que corresponde a cerca de 50% da população mundial e 40% do PIB em paridades de poder de compra.

Ao longo do ano da Presidência da Índia tentar-se-á dar nota, aqui, dos trabalhos que vão sendo desenvolvidos, com realce para as conclusões da Cimeira, geralmente traduzidas e divulgadas, em documento final.

Refira-se que cada Presidência realiza, ao longo do ano, uma multiplicidade de iniciativas oficiais, muitas de aprofundamento de temas anteriores, outras de sua responsabilidade contribuindo, desta forma, para o aprofundamento e projecção dos BRICS+, sobretudo junto dos países do Sul Global.

Fórum BRICS – EUROPA

O “Fórum BRICS – EUROPA” é uma iniciativa recente, que não integra a estrutura do grupo BRICS, surgido, em 2024, à margem da Presidência da Rússia. Pretende estabelecer-se como plataforma de diálogo e cooperação, visando discutir assuntos económicos e geopolíticos com vista a um Mundo Multipolar, em que Europa e BRICS venham a ter papel relevante.

A Rússia deu acolhimento à primeira reunião, que se realizou em Sochi/Rússia, no mês de Novembro de 2024. A segunda teve lugar, um ano depois, nos dias 14 e 15 de Novembro de 2025, também em Sochi e veio confirmar que, num contexto de profunda transformação do sistema político mundial, se começa a caminhar, com dificuldades embora, num processo de interacção da Europa com o bloco BRICS. Este evento, organizado, sobretudo, pelo Instituto da Europa da Academia de Ciências da Rússia, contou com a participação de representantes de partidos políticos e grupos académicos da Rússia, dos países BRICS e de Estados do Sul Global e de cerca de 30 políticos europeus de algumas organizações ou mesmo deputados parlamentares.

O foco deste segundo simpósio incidiu no contributo dos BRICS na construção de um modelo inclusivo e justo de relações internacionais. Nas intervenções dos participantes russos, foi repetidamente sublinhado que “os BRICS não são um projeto exclusivo ou antiocidental, mas sim uma união de Estados soberanos orientados para a igualdade, os interesses nacionais e a rejeição de políticas de pressão e sanções coercivas”. São precisamente estes princípios, no entendimento da parte russa, que tornam os BRICS atraentes, não só para os países do Sul Global, mas também para forças políticas europeias.

Este segundo simpósio teve um convidado especial: a participação do Presidente da “Fundação De Gaulle”, Pierre de Gaulle, neto de Charles de Gaulle, primeiro Presidente da Quinta República Francesa. A sua intervenção no encontro teve um duplo impacto: na qualidade de cidadão europeu, confirmou quão relevante é a construção de um Mundo Multipolar, tese muito cara aos BRICS e apontou a necessidade do Ocidente renunciar às suas ambições de domínio do Mundo, afirmando que há vantagens mútuas no desenvolvimento de uma cooperação mais estreita entre a Europa e os BRICS.

Por outro lado, o Fórum permitiu um debate aberto e multitemático sobre a agenda dos BRICS, as perspectivas de um mundo multipolar e a necessidade de romper com o impasse nas relações Rússia-UE.

Este Fórum tende a tornar-se permanente. Até está na mesa uma proposta para a sua realização anual, o que, para além do trabalho a produzir, pode servir de inspiração para à margem de outras Cimeiras nascerem outros Fóruns e que todos, em conjunto, venham aproximar e dinamizar transformações no sentido do enriquecimento do papel dos BRICS e dos parceiros correspondentes.

Tudo o que seja unir, dialogar e apontar pistas para a solução dos problemas complexos que atravessam o Mundo de hoje e, certamente, o de amanhã, são sempre de experimentar e com alguma garra, programação e organização, desenvolver.

Tudo o que seja contribuir para a instituição de um Mundo Multipolar é caminhar para a criação dum sistema universal em que cada nação, independente da sua dimensão ou grau de riqueza, tenha oportunidade de participar e de ter sucesso e os BRICS, independentemente da sua heterogeneidade, pelos seus princípios e finalidades, têm capacidade de dar um enorme impulso a essa mudança por um Mundo mais equilibrado e cooperante, para bem da Humanidade.

[1]Nota sobre o significado dos Sherpas. São os negociadores de Alto Nível. Cada país tem o seu Sherpa cuja missão principal consiste em orientar os trabalhos no sentido de garantir a eficácia e coesão dos BRICS, ou seja, compete-lhes desbravar o caminho para as decisões dos líderes (análises e propostas).

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Dois mundos com bússolas trocadas

 

Por
Economista

Todos os dirigentes políticos da União Europeia no poder, incluindo o governo português, tiveram um comportamento deplorável de submissão [a Trump], excepção feita a Pedro Sánchez, primeiro-ministro de Espanha, o único capaz de dizer não aos EUA.



O mundo da Ásia

A visita oficial de 4 dias à China de Lee Jae-Myung, desde junho de 2025 chefe de Estado da Coreia do Sul, teve início a 4 de Janeiro de 2026 (nenhuma outra houve desde 2019).

Lee e Xi Jinping já se tinham encontrado 2 meses antes, precisamente em Novembro, na Coreia do Sul, à margem da Cimeira de líderes da APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico), onde publicamente mostraram uma troca pública de boa disposição.

O que a experiência nos ensina é que se torna difícil navegar nos meandros destas iniciativas. Há aspectos visíveis e formais, quase nunca os mais importantes, quer para um lado quer para outro, por vezes tão diferentes, a influência, a empatia, o prestígio, o abrir portas de cooperação e entendimentos futuros… e, nem sempre, os acordos assinados revelam muito do que se passou.

Acontece que, nesta zona do mundo, há, presentemente, relações muito tensas por exemplo, entre a China e o Japão, pois a primeira-ministra japonesa, Sanae Taikachi, resolveu subir ao palco com uma “coreografia” pouco própria e um texto ainda pior, onde dizia que as forças armadas do seu país poderiam envolver-se com as de Pequim, caso a China tomasse medidas contra Taiwan. Tão a despropósito, que até Trump (apesar da proximidade das suas ideias políticas) lhe sugeriu maior contenção de palavras. Sabe-se que Trump, nem os seus amigos, respeita. Pense-se no que se passou com Corina Machado da Venezuela. Lá no íntimo, Corina deve ter pensado. Tão amigos que nós éramos, até lhe dediquei o prémio nobel da paz e, agora, tão desrespeitada!

Antes da viagem oficial a Pequim, Lee Jae-Myung concedeu uma entrevista à TV estatal chinesa (CCTV), a primeira entrevista de Lee, na residência oficial da Presidência, transmitida na sexta-feira, dia 2 de Janeiro.

Os temas abordados foram de enorme significado e alguns muito clarificadores “politicamente”, aliás, no polo oposto da PM japonesa.

Lee, nesta sua entrevista, disse esperar que o povo sul coreano compreendesse o seu Governo nas relações com Pequim e clarificou que vai praticar “a política de uma só China”, coerente, aliás, com a campanha eleitoral, na qual expressou: um eventual conflito China/Taiwan não diz respeito à Coreia do Sul. E acrescentou, sendo os EUA, o principal aliado militar da Coreia do Sul, esta situação em nada tem de interferir nas relações Seul/Pequim.

O que significa a “política de uma só China”?

Este princípio, definido em 1992, significa a existência de uma China apenas, ou seja, Taiwan faz parte da China, embora com especificidades próprias de organização política.

Esta visita oficial de 4 dias recaiu sobre a normalização das relações entre os dois países, tornadas muito tensas no mandato do anterior Presidente e a partir daí estruturar uma parceria estratégica de cooperação e de paz.

Na cimeira entre Presidentes, que teve lugar, dia 5, segunda-feira, foram estabelecidas as grandes bases de cooperação, sabendo-se que a China solicitou apoio à Coreia na reconstituição histórica da problemática de Taiwan (tema antes abordado entre os ministros dos negócios estrangeiros) e a Coreia do Sul a intervenção da China junto da Coreia do Norte sobre a problemática dos mísseis.

Depreende-se que os avanços satisfizeram os dois lados, pois em termos económicos, os países têm diversas áreas de complementaridade e, em termos tecnológicos, uma cooperação sólida torna-se importante ao desenvolvimento económico de cada um dos países. Foram assinados 24 contratos de exportação, totalizando cerca de 44 milhões de dólares.

A cimeira deu um passo significativo na normalização das relações e na reconfiguração do “ambiente asiático” de cooperação e pela paz, consignada esta última, nas seguintes frases: “interesse comum pela paz na península coreana” e “a importância de retomar o diálogo com a Coreia do Norte”.

O mundo das Américas

Sobre o mundo das Américas reina a grande complicação. Os analistas/comentadores e os políticos no poder, sobretudo os europeus, falam muito a medo de direito internacional não cumprido, mas, de um modo geral, avalisando a agressão militar da Venezuela pelos EUA, onde destaco a ridícula e triste figura de Macron, que primeiro condena e depois elogia e o chanceler Merz muito preocupado em encontrar uma justificação “de jure” para a situação. Com esta preocupação, melhor seria ter enviado uma “douta” equipa de juristas a Trump!!

Acho tudo isto uma enorme falácia. Direito internacional se o há, os EUA nunca o respeitaram em toda a sua história. E com Trump, menos ainda. Agem pela força, segundo os seus interesses.

Na invasão da Venezuela e captura de Maduro e de sua mulher, os EUA marcam um ponto de não retorno nas relações internacionais em termos de soberania política dos países. O “reconhecimento” da soberania política esvaiu-se e a sua conceptualização, apesar da grande flexibilidade, tornou muito incerta a vivência “nessa ordem internacional baseada em regras”.

Ora, isto ultrapassa a tão apregoada doutrina Monroe. Há até quem já lhe tenha atribuído outra sigla Donroe (o D sabe-se de onde vem), que me parece mais ajustada.

Na sigla Donroe, sou levado a ver uma mistura de Faroeste americano com métodos mafiosos de gangsterismo. Neste caso, há uma clareza total de que o móbil central foi o assenhorear-se das reservas do petróleo (e outras) do país Venezuela, a favor dos grandes grupos petrolíferos de raiz americana. Vamos saber se eles o querem, pois segundo os especialistas, a situação não é convidativa. O lucro não está à mão de semear. Os investimentos exigidos atingem valores exorbitantes, recuperáveis só a prazos muito longos que chocam com os interesses das grandes companhias e, num ambiente político de grande incerteza, o risco pode ser excessivo. Campo aberto para os grandes facilitadores de negócios.

Esta situação vai dar ainda muito que contar.

O filme mais interessante será aquele que alguém vai produzir um dia. O da triste e vil tristeza que lançou a manta do fazer passar manhosamente ou a apoiar a acção trumpista na Venezuela com promessa de não ficar por aqui, quer na América Latina, quer na constituição do Hemisfério Ocidental. Todos os dirigentes políticos da União Europeia no poder, incluindo o governo português, tiveram um comportamento deplorável de submissão, excepção feita a Pedro Sánchez, primeiro-ministro de Espanha, o único capaz de dizer não aos EUA.

Como diz o ditado, a “missa ainda vai no adro”. Imagine-se agora Trump a ocupar a Gronelândia. Será que também vai raptar a PM do reino da Dinamarca?! Não chegará a tanto. Mas que a Gronelândia vai cair nas mãos de Trump, parece-me líquido. Trump anda cego por terras raras, embora não domine as tecnologias da fileira e a China, de certeza, que não as vai “ceder” neste contexto turbulento em que anda o mundo. Sem domínio da tecnologia pouco lhe serve.

Mas o mote está dado. Barcos russos e chineses já são vistos pelos binóculos de Trump em águas da Gronelândia!

A quem vai o reino da Dinamarca pedir protecção? A Trump, como principal país da Nato, para que este não demore muito na captura da Ilha! À União Europeia, para quê?! É um filme surreal… ficamos cá para ver.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A pior crise da economia alemã no pós-guerra

Por
João Abel de Freitas, 
Economista

O tecido económico alemão é carente em energia. Com os preços vigentes e o modelo energético existente, nada a fazer. A desindustrialização entrou em processo sucessivo, com perdas significativas de emprego a vários níveis.



“A economia alemã está em queda livre e o governo não está, ainda, a reagir com a firmeza necessária”, palavras de Peter Leibinger, Presidente da Federação das Indústrias Alemãs (comunicado de 2/12/2025), a maior Federação Patronal. “Aguardamos uma queda de 2% na produção deste ano, ou seja, a produção industrial encontra-se em queda pelo quarto ano consecutivo” e, em sua opinião, esta crise não é pontual, nem temporária. Decorre de um impasse estrutural.

A Federação das Indústrias Alemãs exige, então, do governo de Friedrich Merz: “políticas económicas com prioridades claras para a competitividade e crescimento”, sob pena, subentende-se, de um mergulho da economia alemã e, por arrasto da europeia, por tempo indeterminado e problemático.

Como se referiu no artigo de opinião da última quinzena, “a falência da política energética alemã”, não se vislumbra qualquer luz ao fundo do túnel, que indicie uma mudança substancial, consequente e robusta, neste domínio, na Alemanha (nem na União Europeia), a causa principal de tamanho descalabro. Remendos, como a electricidade subsidiada às empresas, que Merz decretou, não são solução e, deste modo, a economia alemã não conseguirá recuperar a competitividade perdida.

O tecido económico alemão é carente em energia. Com os preços vigentes e o modelo energético existente, nada a fazer. A desindustrialização entrou em processo sucessivo, com perdas significativas de emprego a vários níveis. A título de exemplo, refira-se que a produção no sector automóvel caiu 20%, (desde 2019), equivalente a 150 000 desempregos e, a indústria química, na sua globalidade, encontra-se no pior nível dos últimos 30 anos.

Acrescento que alguns segmentos acusam reduções na produção, superiores a 50% e outros enfrentam o seu desaparecimento. Na indústria química, uma das fortalezas anteriores da indústria alemã (líder mundial em grande parte dos segmentos produtivos), continua a transferência de unidades empresariais para a Índia, China, Estados Unidos, na mira de aproveitamento da energia bem mais barata, na relação de 3 para 1.

Aquando das sanções à Rússia, associações empresariais e sindicatos, em exposições conjuntas, alertaram e questionaram o governo alemão para quão errado e prejudicial era o tipo de sanções na calha e, opuseram-se veementemente, de formas diversas, porque sentiam, com razão, que essas sanções (corte nos abastecimentos de gás) afectariam fortemente, em primeiro lugar, as indústrias intensivas em energia, mas os políticos europeus, levianamente, deixaram-se ir na onda das decisões de Joe Biden, esquecendo as profundas diferenças Europa/EUA, em matéria energética. Alguns dirigentes políticos ainda mostraram relutância, mas, não foram consequentes, deixando a Comissão Europeia de mãos livres!

O Governo alemão tem plena consciência da grave situação em que o país está mergulhado. Mas não encontra saída, porque continua preso politicamente à não aposta na energia nuclear e a prosseguir caminhos nada inteligentes, como a substituição de energia fóssil (carvão) por energia fóssil (gás natural), para alimentar as 40 centrais a gás, que decidiu instalar, tornando-se até ao final da década o quarto maior importador mundial de GNL, só atrás da China, Coreia do Sul e Japão. Para isto, tem de apostar em terminais GNL (5, no mínimo) o que acarreta um elevado nível de investimento e um aumento da emissão líquida de CO2, contrariando o que diz defender, em termos de transição climática.

Estas decisões errantes denotam um desnorte.

E, se a isto se acrescentar que Grécia, Itália e Reino Unido vão recomeçar, em 2026, as perfurações na procura de petróleo e sobretudo de gás nas suas águas marítimas, a dose de hipocrisia não pode ser maior. Outros países europeus, como a Polónia (esta em onshore) e a Noruega, vão pelo mesmo caminho.

Compreende-se a necessidade europeia de baixar os preços da energia, mas não pode é jogar em tabuleiros contraditórios, de forma um tanto quanto clandestina e com exigências do cumprimento de abandono da energia fóssil a países emergentes, quando estes pretendem explorar os seus recursos! E menos ainda aparecer em fóruns internacionais, como aconteceu recentemente na COP 30, em Belém/Brasil, com a União Europeia arvorada em campeã da mudança climática?!

Recuando à década de 2010, a economia alemã apresentava um ambiente de prosperidade, com uma saúde excelente, a operar na base de um modelo exportador de produtos de elevado valor acrescentado e qualidade, sobretudo nos sectores de bens de equipamento e da química, onde detinha os maiores grupos mundiais na química de base e produtos farmacêuticos, com uma elevada taxa de ocupação das empresas, usando gás russo de baixo preço e, assim, era tida como o grande motor da União Europeia.

O que mudou desde então?

Quase tudo. Menos o pensamento retrógrado e subserviente aos EUA. Várias condicionantes se conjugaram na década de 2020, pondo a nu a fragilidade dos modelos económicos alemão e europeu (demasiada dependência da energia russa), aliadas a decisões erradas dos órgãos comunitários como no ramo automóvel ou o não avanço na construção de mercados únicos (áreas financeira e energia designadamente) como bem apontam Draghi e Letta nos seus relatórios, a burocracia complexa em crescendo que emperra o regular funcionamento da máquina comunitária, atrasos tecnológicos, a falta de diplomacia internacional apropriada e, recentemente, as tarifas Trump, a que se submeteram sem resposta própria e dignidade, corroendo, tudo isto, ainda mais os alicerces da economia europeia.

E agora com Trump, a situação veio complicar-se ainda mais porque Trump privilegia os negócios querendo o fim da guerra a qualquer preço e a União Europeia desarticulada, decadente e sem rumo, vai flutuando, completamente aos papéis.

Tanto assim é que, no terreno, está a ser substituída por um Triunvirato (Macron, Merz e Starmer, primeiro-ministro inglês, que nem comunitário é). Não se percebe o rodopio de reuniões de capital em capital com Zelensky sempre atrás que, penso, já pouco neles “acredita”, mas não pode descolar.

Neste rodopio, a União Europeia “desapareceu”. Ursula von der Leyen e António Costa são, de vez em quando, convidados para o chá das cinco pelo referido Triunvirato. Os restantes países da União, uma vez ou outra, correm para umas pretensas reuniões que não levam a conclusões de jeito.

O Triunvirato teme ser marginalizado, posto de lado nas decisões sobre a guerra da Ucrânia. Daí a “coligação da boa vontade” andar sempre a girar, digamos, encenou em permanência a peça do “rodopio/corrupio”, infelizmente, com actores de péssimo desempenho. Aparece ainda a rebaixar o nível, o sr. Rutte da Nato, que mais não é que um pau mandado dos EUA. Fala grosso, tenta provocar alarme. Ninguém o leva a sério. Bem pode irmanar-se com a sra. Kallas, a comissária europeia das relações externas.

A acabar, bem andou o “Media” Político, que, neste Ocidente “zombi”, escolheu Trump, a personalidade mais importante da Europa, em 2025!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A falência da política energética alemã


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O “chavão” Energiewende não passou de uma moda perigosa, em profunda falência, mas que “afundou” a União Europeia, em especial, a Alemanha, devido ao seu perfil produtivo específico.



Energiewende é a denominação usada para identificar a “revolução da energia” na Alemanha. Esta “revolução” arrancou em força, a partir de 2000 com o governo do chanceler Schroder que incentivou e favoreceu o desenvolvimento das energias renováveis (eólica, solar, …), associadas ao gás natural, proveniente da Rússia, e tentou banir a energia nuclear, com o fecho da última central em 2023, reabrindo algumas a carvão em sua substituição.

Esta política, muito acarinhada pela Senhora Merkel, após 2011, tomou força pelos efeitos nefastos, nomeadamente o elevado número de mortes do Tsunami, em Fukushima/ Japão, transformado em grave acidente nuclear, hoje corrigido, pois os factos analisados vieram comprovar que os problemas com a central de produção de energia nuclear foram decorrentes do Tsunami e não consequência do funcionamento da central. Se, ali, estivesse outra unidade de produção energética, em vez da nuclear, as consequências teriam sido de natureza semelhante. Refira-se que o número de mortes atribuídas à central foi corrigido para zero, contrariando o que, então, diziam os antinuclear.

Este entusiasmo da Chancelar Merkel não se limitou apenas à Alemanha. Estendeu-se, ou melhor, impôs-se à União Europeia onde nenhum país escapou. Mesmo a França não ficou impune, tendo inclusive feito arrastar alguns dos seus governos (Lionel Jospin p.e.) a priorizar o investimento nas renováveis contra a matriz instalada de base nuclear. Macron, enquanto ministro da economia, entrou “na moda”, só corrigindo a rota, aquando da sua candidatura à Presidência da República.

A Alemanha serviu-se das ONG, para minar as estruturas e os meandros da União Europeia, no sentido da promoção das renováveis contra a nuclear. Muitas dessas estruturas, ainda hoje, continuam oleadas e a emperrar processos relativos à nuclear, apesar da Aliança Europeia Nuclear – o grupo de países que agrega mais de metade dos da União Europeia – defender que a nuclear é uma energia limpa, base de uma política energética soberana e, da própria União Europeia, a custo, ter reconhecido o contributo seguro da nuclear no consumo equilibrado, quer das pessoas, quer das empresas, quer ainda de uma maior prevenção contra os apagões.

Resumindo, o “chavão” Energiewende não passou de uma moda perigosa, em profunda falência, mas que “afundou” a União Europeia, em especial, a Alemanha, devido ao seu perfil produtivo específico, que nunca mais se segurou, desde que perdeu o acesso (contratado) que tinha ao abastecimento de gás russo, no decorrer da Guerra na Ucrânia (Fevereiro2022).

Em artigos de opinião, aqui divulgados, chamou-se a atenção para algumas ideias/causa da crise profunda (política e económica) que estava/está a corroer a União Europeia e, essa crise, cito: “pode levar a que, em 2050, represente apenas 15% do PIB real mundial contra 22,8% hoje, enquanto os EUA pouco mudarão, continuando em torno dos 35,4%. Estes valores constam de um livro conjunto de Patrick Artus, economista francês de renome e da jornalista Marie-Paule Virard, onde se admite que esta queda se deve a bloqueios estruturais existentes que é urgente ensaiar como os ultrapassar, sob pena da UE continuar em definhamento, a maior ou menor velocidade”.

Há um ano, Draghi acentuou que um dos grandes bloqueios do progresso é a energia que, dado o seu elevado custo, retira competitividade aos países da União Europeia, tornando-se urgente formular uma estratégia para remover “o alto custo da energia que se havia tornado o principal obstáculo da economia europeia”, obstáculo esse que se repercute, de forma desigual, consoante os países.

A “grande solução” por parte da União Europeia foi acomodar o relatório de Draghi, bem no fundo da gaveta e [continuar a viver “num mundo de fantasias”, estabelecendo metas intangíveis, sem antes ter preparado “as ferramentas” para enfrentar o novo mundo decorrente da necessária transição energética e da redução das emissões de gases com efeito de estufa – como se disse em outro escrito].

O novo Pacto Verde e propostas da União Europeia levadas à COP30 em Belém no Brasil, recentemente realizada, são bem exemplos desse “lirismo”. Pretender estar na vanguarda do combate às energias fósseis, continuando a investir nelas é um contrassenso. Mas é o que acontece na Alemanha que tem uma linha de investimento para centrais a gás para equilibrar a intermitência das energias solar e eólica.

A Alemanha

Os preços da electricidade na Alemanha mais que duplicaram nos últimos anos. Em Outubro (2025) atingiu mesmo, em média, o preço mais elevado da Europa.

Comparando a França com a Alemanha, em termos de preço, temos: €40,35 por MWh na Alemanha contra €25,24 em França (cerca de 60% mais elevado). Face aos EUA e China, em média, é o triplo. Como competir em indústrias electro intensivas com estas disparidades?!

Sendo a energia um dos factores críticos da competitividade europeia, difícil se torna carregar mais no botão! Ou se muda ou se afunda. Não se auguram bons percursos para a energia na União Europeia. O desentendimento continua muito forte entre os países por divergências de interesses entre lóbis que funcionam nos meandros das máquinas europeias. E, por correlação, a perda de competitividade continuará por muito tempo e a desindustrialização é uma saga.

Subsidiação à electricidade

Perante a desindustrialização continuada, perante centenas de milhares de cortes no emprego em sectores industriais, perante deslocalizações e encerramento de empresas, sobretudo nas áreas da química, metalurgia e electromecânica, o governo alemão decidiu tomar medidas de emergência para tentar “restaurar” a competitividade de suas empresas.

Essas medidas traduzem-se numa elevada subsidiação às tarifas da electricidade, orientadas para os grupos industriais. Segundo li, nos Media da especialidade, o governo do chanceler Friedrich Merz anunciou em finais de Outubro a introdução de uma tarifa de eletricidade fortemente subsidiada para os fabricantes. A medida, que não passa de um paliativo, deverá traduzir-se num montante da ordem de €3 mil milhões a €5 mil milhões por ano. Merz acrescentou ainda que “as discussões com a Comissão Europeia estão em grande parte encerradas“.

É de perguntar: quanto tempo durarão estes subsídios? Porque não se encontrou referência a medidas que poderão corrigir a situação para a retirada dos subsídios.

Tudo isto prova que a Energiewende faliu. A situação em nada está diferente de quando arrancou. O enquadramento europeu mudou e tudo ficou na mesma. Medidas como as sanções económicas só aprofundaram a situação.

O que vai a União Europeia oferecer?

O seu novo Pacto Verde, que continuará a aumentar os preços da energia. Não sou eu a dizê-lo, mas especialistas europeus. “O próximo passo, que promete ser perigoso, é a entrada em vigor, adiada de 2026 para 2027, do novo sistema europeu de permissões negociáveis. Uma verdadeira bomba-relógio. Isso resultará num aumento vertiginoso dos custos de energia para as pessoas e empresas. Trata-se de fornecedores de energia comprarem permissões no mercado de carbono que lhes permitam ir além da redução de emissões imposta pela Comissão Europeia”.

Com remendos que nem chegam a ser, nunca mais construiremos uma política de energia sustentável, base de uma competitividade a sério a contribuir para a criação de riqueza e bem-estar das pessoas europeias.

Esta União Europeia, cada vez mais em perda, caminha para onde?