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quinta-feira, 22 de maio de 2025

O discurso da infâmia


Por
Nuno Morna, 
in Facebook, 19/05/2025), 
Revisão da Estátua

Num domingo à noite, febril, deitado de lado, com o coração aos gritos e a televisão ligada no volume errado.



Ontem à noite, o país sentou-se a ver o circo. Um circo de uma só figura, de um homem só, de um espetáculo monológico onde o palhaço também era domador, diretor, macaco amestrado, leão faminto e criança perdida que grita da plateia para que olhem para ele, só para ele, sempre para ele.

André Ventura falou. Falou como quem cospe. Falou como quem bate. Falou como quem quer ser amado mas só sabe odiar. E parte do país, a parte do país fatigada de esperar por Deus, ouviu. Ouviu como se ouve o padre numa missa a que se vai por obrigação, como se ouve a mulher que já não se ama ou o pai que já não se respeita. Ouviu com raiva, com cansaço, com culpa.

Disse que acabara o bipartidarismo. Disse-o como quem anuncia a queda de Roma, o fim dos tempos, a libertação do povo escolhido. E ali estava ele, o Moisés do populismo, de microfone à frente e a azia no bolso como quem esconde a vergonha, prometendo terra prometida a quem nunca teve jardim. Disse que a história tinha mudado, que agora o país era outro, um país dele, feito por ele, para ele, com ele ao leme e os outros calados, de joelhos, em silêncio. Ventura quer o país em silêncio. O país de joelhos. O país em medo. Ventura não quer governar. Ventura quer mandar. E o que há de mais grave é que há quem deseje ser mandado. Há quem precise.

O Chega não é um partido. É uma carência. Um sintoma. É o vómito do país que nunca curou a sua tristeza. Que finge que é alegre no São João, no Santo António, nas bifanas do domingo, nos copos do sábado, nas sardinhas do Junho. Mas que sangra por dentro. Que odeia por dentro. Que tem raiva de si, de tudo, de todos.

Ventura oferece isso: um inimigo. Um sentido. Um alvo. Se há um culpado, já não sou eu. Já não é o meu fracasso, o meu salário, a minha solidão. É o cigano, o negro, o comunista, o assistente social, o jornalista, o juiz, o reformado, o artista, o pobre, o estranho. Ventura dá um nome à frustração. E isso consola. E isso vicia. E isso mata.

O seu discurso foi uma lista de cadáveres simbólicos. “Matei o partido de Álvaro Cunhal”, disse, como se estivesse a caçar fantasmas no sótão. “Varreram o Bloco de Esquerda do mapa”, gritou, com o orgulho de quem limpa sangue do chão, e chama a isso arrumação.
Para Ventura, política é isso: uma limpeza. Uma desinfeção. Uma purga. Como se o país estivesse sujo e só ele, com a sua verdade puríssima, o pudesse lavar. E lavar com quê? Com insultos. Com medo. Com castigos. Com prisões perpétuas. Com castrações químicas. Com multas. Com violência.


E depois, claro, o momento cómico, se a comédia ainda tivesse graça. Atacou as sondagens. Sempre as sondagens. Sempre o mesmo coro: que o queriam calar, que o queriam derrubar, que lhe mentem, que lhe fazem armadilhas. Ventura não percebe que as pessoas votaram no seu partido com vergonha de o fazer, de o dizer às sondagens.

Ventura é o miúdo que jogava mal à bola e que ninguém quis na equipa e passou o resto da vida a sonhar ser capitão. E agora que lhe deram um apito, anda a expulsar todos os que correram mais depressa do que ele. Ventura não acredita em instituições. Acredita em si. Ventura não acredita em regras. Acredita no seu instinto. Ventura não acredita no país. Acredita no seu espelho.

E depois aquela frase. Aquela frase que soa a taverna com vinho barato e gritaria ao fundo. “A mama vai mesmo acabar”. Disse-o com o orgulho de quem faz justiça, mas com o tom de quem está habituado a mentir e a justificar-se com o cansaço. A mama vai acabar. A mama, quer dizer, o Estado. Os apoios. Os direitos. A solidariedade. Os serviços. A dignidade.

Ventura quer um país onde só os fortes sobrevivem. Onde quem não consegue, morre. Onde quem chora, se cala. Onde quem precisa, se esconde. Porque, para ele, a vida é uma luta de cães. E ele é o dono da trela.

Mas Ventura não quer que a mama acabe. Ventura quer ser ele a mamar. Quer o lugar do outro. Quer mandar nos subsídios. Quer mandar na televisão. Quer mandar na escola. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. E o país, esse país magoado, esse país velho que já não acredita em ninguém, esse país que se esqueceu como é que se luta, esse país votou nele como quem diz: “Toma, faz tu melhor”. E ele fará. Mas não será melhor. Será só mais triste. Mais cruel. Mais pequeno.

O que me espanta não é Ventura. Ventura é uma personagem de novela das seis: previsível, mal escrita, exagerada. O que me espanta é o silêncio. O silêncio dos outros. O silêncio dos bons. O silêncio dos sérios. Dos que deviam estar ali, naquele exato momento, a dizer: basta. Mas estavam calados. Com medo de perder votos. Com medo de serem insultados. Com medo de não parecerem “populares”. E assim se mata uma democracia: não com balas. Com medos. Com cobardias. Com silêncios.

Este discurso, o de 18 de maio, de ontem, não foi um discurso. Foi uma bofetada. Foi uma noite de gritos num quarto fechado. Foi o início de qualquer coisa escura. E se não gritarmos agora, se não dissermos agora, alto e claro, que isto não é normal, que isto não é aceitável, que isto não é o país que queremos, amanhã já não poderemos falar.

E depois? Depois virá o silêncio. O grande silêncio. O silêncio dos cemitérios. E Ventura sorrirá. Porque não há nada mais cómodo para quem quer mandar do que um povo sem voz. E nós estamos perigosamente perto disso. Perto de calar. Perto de baixar a cabeça. Perto de desistir.

E quando isso acontecer, será tarde. Será sempre tarde.

Post scriptum: 
Estarei sempre do outro lado da barricada. Com todos os que são, efetivamente, pessoas de bem, não os que se dizem, mas os que o demonstram, com os que amam a liberdade sem adjetivos e a democracia sem asteriscos. No combate a todos os radicalismos, venham eles mascarados de justiça ou de ordem, de povo ou de nação.

No combate aos que aparecem para dividir, para semear o ódio, para apagar a pluralidade, para transformar o medo em política. No combate, sempre, à intolerância, a intolerância dos gritos e a dos silêncios cúmplices. Quero viver com a noção de que "Combati o bom combate", (2 Timóteo 4:7). Da minha parte, não esperem outra coisa. Nem agora, nem nunca.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

O Estado da Região - Carta aberta


Por
Nuno Morna

Exmo. Sr. Presidente do
Governo Regional da Madeira



Esperando que se encontre tudo bem com a sua saúde e a dos seus, escrevo-lhe com toda a frontalidade, sobre vários assuntos que me mexem com a inteligência que, sendo pouca ou muita, é a que tenho. Como V. Exa. bem sabe, não me move qualquer questão pessoal, mas tão só o posicionamento político que tenho, de clara oposição ao seu governo.

Para muitos madeirenses, dos quais me excluo, V. Exa. representou esperança. Uma ruptura com o passado, mudando o paradigma do modo de fazer política, de nela estar, no modo de a viver. Repare que ali, num instante, mesmo no início até parecia ser o que íamos ter. Cordialidade, respeito pela diferença, procura de consensos. Sol de pouca dura.

Ouvi-o a falar no último debate mensal na Assembleia Regional. Tentei criar alguma empatia com o seu discurso. Tão marcante foi, que já nem me lembro sobre o que era. Fui-me concentrando e consegui chegar a uma espécie de Nirvana, onde só estávamos os dois. Fiquei por ali até que terminou de falar. Foi aí que me veio uma epifania: um de nós dois está errado. E pela primeira vez na vida tive a certeza de que não era eu.

Nos seus mandatos como Presidente do Governo, a cada quatro anos, penso que a coisa não pode piorar. Mas piora.

Nas últimas regionais, por um muito breve momento, pensei que V. Exa., e o seu partido, iriam ter que aprender a governar em minoria. O bem que isso vos faria. E a todos nós. O momento durou até a RTP passar para a sede do CDS e mostrar a festa que lá ia, por perderem milhares de votos e metade dos deputados, sobrando os suficientes para um casamento pecaminoso, contranatura. Aquilo não era uma sede partidária, era um prostíbulo.

Ao fim destes quase dois mandatos, os seus governos nada fizeram que proporcione desenvolvimento e criação de riqueza. A pandemia não serve como desculpa. Somos a região do país com maior risco de pobreza. Continua o predomínio da monocultura do turismo.

Em quase 8 anos teria tido mais do que tempo para avançar com o estudo e implementação de um sistema fiscal próprio de fiscalidade reduzida. Teve mais do que tempo de aplicar o que a lei já prevê, baixando todos os impostos em 30%.

Anunciou com pompa e circunstância o fim do PAEF, no final de 2015, mas manteve a canga sobre o pescoço dos contribuintes.

Mostrou um quero, mando e posso inaceitável durante a pandemia, pondo em causa as liberdades de cada um e “marimbando-se” para o que a constituição, mãe de todas as leis, determina. Tudo baseado em “achismos”, sem qualquer tipo de cientificidade. “Essa história dos direitos individuais é uma palermice”, lembra-se?

A agricultura empobrece quem a pratica e são cada vez mais os terrenos ao abandono.

Nas pescas, o panorama é tão mau, que me reservo para um escrito só sobre isso.

Manteve a estratégia, que vinha do seu antecessor, que tanto criticou, de manter a desigualdade económica para estabelecer uma base firme de apoio, baseada na dependência. As pessoas ficam agradecidas ao seu poder pífio, por este lhes dar o que é seu de direito. Isto é assim porque, infelizmente, muitos dependem do cabaz da Junta e/ou da Câmara, da Casa do Povo, dos subsídios do Estado, da habitação social. Desta amálgama que os convence da gratidão que têm de demonstrar, aderindo a valores impostos pela dependência, aceitando de cabeça baixa um código de hierarquia e visão de mundo, fruto de uma vil propaganda que os convence da caridade, da bondade de quem os aguenta pobres e sem perspectivas. Isto é socialismo.

Na educação, salvo raras e honrosas excepções, que se devem ao esforço das comunidades educativas (alunos, país, professores, funcionários), reina um vazio de ideias, um protagonismo autofágico.

Na saúde aumentaram as listas de espera em todas as valências. A pandemia não pode ser usada, outra vez, como desculpa. Não se pode fechar a saúde devido a uma doença. V. Exa. fê-lo.

Os apoios às empresas foram um poço de burocracia onde ainda, muitas delas, andam enroladas. A banca executou empréstimos que cumpriam critérios de fundo perdido, porque o Governo Regional, não lhes transpira confiança. Tanto assim é, que exigiram garantias pessoais aos empresários.

A região vive um enorme problema de drogas sintéticas que levará, no futuro, a uma geração de inúteis. Os números não mentem e os casos de saúde mental irreversíveis, internados em instituições, por causa destas drogas, são cada vez mais.

A “construção a custos controlados”, que V. Exa. pomposamente anuncia, só pode ser um gozo. Que raio de “custos controlados” são esses que apresentam preços correntes de mercado? Numa terra com um enorme déficit de equilíbrio populacional “achar” que a tipologia T1 dá para as pessoas iniciarem a sua vida, é de uma falta de sentido de governação a toda a prova.

Permita-me que lhe diga que “passear” pelas páginas das redes sociais do Governo Regional não difere em nada das páginas de um qualquer influencer, a debitar informação sobre produtos que promove. É triste, para não dizer ridículo.

V. Exa., como responsável máximo do Governo, permitiu que a administração pública se tivesse transformado numa verdadeira agência de emprego, onde prevalece o nepotismo, o amiguismo e os cartões partidários. A nomeação indiscriminada de pessoas sem qualificação para lugares de conselho técnico e a duvidosa qualidade dos dirigentes é prática corrente.

O seu Governo é forte com os fracos e agachado com os fortes. Os exemplos são mais que muitos, desde a palhaçada com o ferry, até ao pseudoacordo de operação do Porto do Caniçal, passando pela falta de fiscalização e acção na extração de inertes. Entre outros.

Já uma vez falei dos seus entusiasmos: o Toco, o Brava Valley, o Centro de Inteligência Artificial, as criptomoedas. E agora o túnel, o túnel que esventrará a cidade, com saídas para todos os lados. Deixou-se hiperpovoar uma zona do Funchal, sem acautelar a rede de entradas e saídas, e depois lá vem um entusiasmo que nunca será feito, mas que dará pano para mangas durante este aninho e picos que faltam para as regionais.

Ninguém tem responsabilidade por nada. É o inimigo externo, é o outro, é a natureza, são factores indeterminados, há sempre desculpa para tudo. V. Exa., e os que o rodeiam, nunca saberão o bem que sabe assumir o erro, aprendendo com isso.

Uma coisa lhe concedo, V. Exa. não é jardinista. Falta-lhe o empenho porque mais preguiçoso. Merece ser albuquerquista, que é um modo de estar na política com ar enfadado, falar de tudo “achando” sempre qualquer coisa, não fazer quase nada porque dá trabalho, e olhar para os outros com o desprezo de quem “acha” que tudo sabe. O Sr. Presidente, é um fruto de azar. Do azar que tivemos, e temos, em o ter como presidente. São muitos os caminhos trilhados pela falta de sorte. Alguns submetem-se-lhe e não reagem; outros conformam-se e alheiam-se; há mesmo os que encontram em variadas formas de misticismo a válvula de escape e o sossego da consciência; os que desesperam, vivem em estado de frustração negacionista; os invejosos arrastam-se na maledicência do entre boca; os que se humilham hipocritamente; a desconfiança tornou-se o centro de tudo, ninguém diz, nem faz nada, sem olhar por cima do ombro; os que o seguem cegamente, mergulham nas suas megalomanias entusiásticas esfregando-se histericamente; os vaidosos da proximidade babam-se com tanto conhecimento; e há os que vêem na mentira e no banditismo político o clímax do vale tudo até tirar olhos.


Muitas vezes os perdedores também ganham, e o Sr. Presidente é um perdedor que nos arrasta para o fundo. As suas, muito poucas, vitórias (a esmagadora maioria delas eleitorais), exprimem bem o dito: “de vitória em vitória, até à derrota final”. Energia tem V. Exa., mas aparenta deixar que esta seja devorada por uma enorme vaidade e por um inexplicável desprezo por quem não partilha consigo esse “brilhantismo”.

V. Exa., Sr. Presidente, é o gestor de um governo descompassado. Máquinas dessincronizadas, a destempo, engrenagens que não encaixam umas nas outras, levando a um resultado de soma zero. O que nos oferece é uma estatolatria digna de um vulgar socialismo, do qual é evidente o resultado.

Fique descansado, não tenho a ilusão de que vá mudar alguma coisa num futuro próximo, mas, ainda assim, permita-me a ousadia de um conselho: pense mais e “ache” menos.

Atenciosamente,
Nuno Morna

Ilustração: Google Imagens/Funchal Notícias