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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Padre José Luís Rodrigues, uma voz livre que aponta o caminho

 

Parabéns, querido Amigo Padre. Parabéns não apenas pelo facto de hoje celebrar, no seio da sua comunidade, 25 anos como Pároco de S. José. Sublinho, não apenas por isso, mas muito mais. Sabe, meu distinto Amigo, esta Igreja de Leão não o merece. A de Francisco, sim! Porque este soube contextualizar a Palavra com a vida real; pelo contrário, Leão não faz sequer jus ao nome, tampouco aos princípios de Assis, quando, nestes cinco meses na cadeira de Pedro, tem vindo a transmitir a ideia de um conservadorismo que amarra. É por isso que lhe digo que esta Igreja não o merece.



Como o compreendo quando há dias escreveu, sobre os seus medos: "medo dos que não distinguem a diferença entre a dignidade e a chafurdice humana (...) medo daqueles que acham que podem vencer até os mortos, quando está determinado, os únicos invencíveis, são precisamente os que já morreram (...) medo de quem vai morrer sem perceber que deve lutar a todo o custo para sobreviver e nunca permitir ser tratado como um animal". Como o compreendo!

Desde há muitos anos que aprecio a sua frontalidade, assente na sua vasta cultura, a sua liberdade de pensamento, a sua tenacidade, a sua capacidade de transmitir o Evangelho não como qualquer coisa repetitiva e oca, mas plena de Vida, apontando caminhos e chamando os bois pelos nomes. Pois, percebo, que há quem não goste, todos os que se sentem incomodados com as suas posições, mesmo quando é público e notório que não confunde nem mistura, a Palavra com posicionamentos político-partidários. O Senhor é um Homem livre que apenas acredita na importância de uma Igreja de valores humanistas.

Faz, por estes dias, dez anos que escrevi um texto sobre o seu apostolado, baseado no que então escreveu: "(...) A Igreja da Madeira devia alto e bom som, proclamar por justiça e denunciar claramente todas as artimanhas que se vão implementando contra as pessoas indefesas. A coragem do Papa Francisco devia ser inspiradora e animar-nos no mesmo Espírito. Há tanta propaganda a promover gente medíocre contra o bem comum que deve ser denunciada. Se estudarmos os 500 anos da Diocese do Funchal na sua vertente sócio-caritativa não encontraremos nada além daquela ideia do pobrezinho a quem se devia dar esmola para salvar a alminha. Nunca existiu nem existe uma prática forte de denúncia das injustiças, uma rede organizada que ajudasse à criação de emprego, que não fosse além da caridadezinha esporádica, porque se «vendia» com redobrado sucesso a ideia que as paróquias não eram lugar de caridades nem muito menos misericórdias. Por um lado, era promovida a caridade da esmola, mas, por outro, alimentava-se a ideia de que os pobres não resultam da disparidade da distribuição dos bens, da desigualdade social, mas são uns malandros que não querem trabalhar, uns preguiçosos que não fazem nada e vivem à conta da boa vontade alheia. (...)"

Dez anos depois continua tudo igual, porventura, pior. Porque a hierarquia não quer, ela exige obediência cega e silêncios, está dependente, retida na sua torre ou sacristia e tem medo do saudável confronto entre a Palavra e a práxis política. Falavam de Francisco, e ainda o citam, mas sem qualquer convicção social. Prefere surfar as ondas do imobilismo, fazendo-se de morto, pregando aquilo que já não pega. A Igreja de Jesus assenta noutros pressupostos. É a Igreja da solidariedade, do amor, da justiça, da fraternidade entre os povos e da irmandade entre as nações. Estas razões, obviamente, deviam implicar determinação, custasse o que custasse e doesse a quem doesse. 

Caríssimo Padre, o Senhor foi muito Amigo do Padre José Martins Júnior. Para si, ele foi sempre uma inspiração. Eu sei. Isso ficou muito claro na comemoração dos 86 anos de vida e, passados uns meses, na Homilia da Missa de corpo presente. A consideração dele por si, também sei, porque tantas vezes me testemunhou, funcionava como um farol de esperança numa Igreja insubmissa, lutadora e atenta aos direitos humanos. Cerca de um mês antes da sua morte, ali para os lados do Santo da Serra, num rotineiro almoço, onde o que valia era o vendaval de pensamentos, disse-me que a Madeira precisava de "mais alguns como o José Luís". Foi nesse encontro, como que sentindo próxima a sua partida, a páginas tantas, molhando o pão no vinho, disse-me de forma pausada e sentida: "quando morrer quero ter uma conversa com Jesus e sua Mãe". Nele existia, claramente, um sufoco por tanta injustiça e tanta maldade. Ele que preferiu sempre o chão à ostentação. 

Tal como Martins Júnior, o Padre José Luís é um insubmisso, é um Homem que escolheu o sítio certo... ao lado do povo. Só que o lado do povo embaraça a hierarquia, logo, eu não diria que os irreverentes sejam proscritos, mas são tolerados e colocados no adro do sofrimento. Que pena tenho da verdadeira Igreja de si não se lembrar para Bispo da Diocese! Teríamos, com toda a certeza, uma Igreja "aberta ao mundo, a este mundo concreto da nossa vida" (JLR), portanto, próxima do Povo. Até porque, na esteira de Martins Júnior "(...) Ninguém pode servir a dois Senhores. Ou se serve a Cristo ou se serve o Poder (...)".

Querido Padre, passaram-se 25 anos. No seu blogue, "O Banquete da Palavra", assume que "gosta muito do que faz". E pergunta: "Ora bem, e o que se há-de esperar de quem é feliz! Assim, o que mais desejo neste mundo é que os outros também sejam muito felizes". Continue feliz, de sorriso largo, atento e obstinado pela divulgação dos princípios e valores que o Evangelho anuncia. Todos precisamos de si.

Um abraço.

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Homilia do funeral do Padre Martins Júnior - Em dia desigual soubemos do último poema «igual» do Padre Martins Júnior

 

Morreu como desejava. Igual à vida que levou. Morreu de pé como as árvores como comumente dizemos. Uma vida agarrada nas mãos com o pensamento em constante ebulição. No fim, feita a história, a sua história ao jeito do seu pensar e querer, abandonou o corpo e entrou na imensidão cósmica da existência, como defendeu o teólogo Teilhard de Chardin.



Parece coisa pouco. Mas não! É muito num tempo onde quem não abdica de si para se colocar aos pés e mãos dos dominadores parece que não sobrevive e que não tem futuro.

Permitam-me destacar a seguinte coincidência e curiosidade. Em 2020, a 6 de junho, há precisamente 5 anos, sucumbiu ao mundo da morte o Padre Mário Tavares Figueira, o seu indefetível amigo e apoiante, o homem mais humano e humanizante que encontrei em toda a minha vida.

Agora com a diferença de 6 dias e 5 anos, 12 de junho de 2025, o corpo do Padre Martins Júnior, desceu também a esse mesmo mundo inferior que é a morte.

Os dias 6 e 12

Vou fazer uma coisa muito querida ao Padre Martins e que ele frequentemente fazia, relacionando números e datas, com as suas respetivas coincidências e significados.

Dizem os ensinamentos que «O número 6 é frequentemente associado a caraterísticas como amor incondicional, compaixão e responsabilidade. Ele simboliza o lar, a família e a comunidade, enfatizando a importância das relações interpessoais saudáveis e do bem-estar coletivo. Além disso, o número 6 representa a harmonia, a fidelidade e a solidariedade, sendo um símbolo de apoio e nutrição para os outros» ou ainda, «destino, estabilidade, confiança e prestabilidade».

Serve este significado para ambas as figuras que aqui homenageamos combalidos pela tristeza humana, mas com o nosso ser interior em júbilo por termos sido bafejados pela sorte de termos feito parte da amizade e da história destas duas figuras, tão únicas e distintas bem longe do rebanho de tantos iguais.

O significado do nº 12, dia da partida do Padre Martins, adianta seis vezes mais em tudo que há na força das energias do amor, que geralmente influencia os que possuem o dom de amar tudo e todos.

12 meses tem o ano. Jesus teve 12 Apóstolos e Apóstolas. Os ponteiros do relógio passam duas vezes por dia sobre o nº 12. E o dia 12 de junho de 1514, foi o dia da criação da nossa Diocese do Funchal (quem quiser tirar ilações, pois que as tire, porque dá para fazer pensar a coincidência da morte do Padre Martins acontecer precisamente neste dia 12 de junho de 2025).


Enfim, o 6 e o 12, das meias dúzias e das dúzias, fazem parte permanentemente do nosso quotidiano. São a vida de todos nós todos os dias, foram a vida intensa e completa da vida do Padre Martins Júnior.

Perdoem-me esta incursão pelos números, mas serviu-me para aceitar e serenar o meu interior de mais esta perda que veio de chofre como se fosse um murro duro no estâmago.

Esta hora não é, não pode ser, para celebrar a morte. Mas a vida que derramou pela beira pelo Padre Martins Júnior, nos seus vários contornos: religioso como padre e pároco, político, cultural e intervenção social.

Vou destacar três vertentes que me inspiram e pelas quais mais nutro admiração: a liberdade, a cultura e o desalinhamento. Só para destoar de tantos que colocam a obediência e o apagamento de si mesmos à frente destes valores.

A liberdade

A palavra «transubstanciação», que aparece no romance «O Canto do Melro», é o nome dado na Eucaristia ao momento da consagração do Pão e do Vinho em cada Eucaristia que celebramos todos. Esta definição contida no livro definiu toda a ação e obra da investigadora Raquel Varela, acerca do Padre Martins Júnior. Na página 248, resposta dada pelo Ricardo, o amigo admirador da obra do padre Martins Júnior e que é também o narrador do romance, diz: «Aprendi aqui na Ribeira Seca. A transubstanciação das pessoas em pessoas, o reencontro com a própria humanidade, as pessoas a transubstanciarem-se em pessoas. Poderem ser finalmente o que eram, “o rio desaguou, porra!”».


Este é o epicentro da sua vida e da sua história. Este é o olho do furacão chamado Padre Martins Júnior e toda a história da comunidade paroquial da Ribeira Seca.

Nada disto seria possível sem um espírito livre, uma veneração quase «fanática» pela liberdade, a sua e dos outros.

O grande estadista inglês Winston Churchill dizia: «Todas as grandes coisas são simples. E muitas podem ser expressas em uma só palavra: liberdade; justiça; honra; dever; piedade; esperança». Estes valores cantam-se poeticamente e vivem-se convictamente, mesmo que por eles se derrame sangue, suor e lágrimas.

Cito um pensador: «Nem todos podem tirar um curso superior. Mas todos podem ter respeito, alta escala de valores e as qualidades de espírito que são a verdadeira riqueza de qualquer pessoa» disse o autor Alfred Montapert.

O Padre Martins Júnior bem expressou com vida e pela palavra poética esta realidade, com «Poemas Iguais aos Dias Desiguais».

Mas também a sua dimensão profética fez jus ao pensador aqui citado, quando se viu e sentiu a sua profunda incursão profética e sabedoria nas suas riquíssimas homilias que podem ser testemunhadas pelos milhares de pessoas que as saborearam, mas hoje esfaimam-se delas pela falta que fazem e pelo vazio que deixaram.

Um espírito de ideias e pensamento próprio. Uma opção clara pela humanização, a libertação e pelo despertar das mentes que encontrou subjugadas ao espírito do tempo e à conceção completamente descabida de uma coisa chamada «vontade de Deus» para justificar injustiças, opressões e pobrezas miseráveis. Não deu tréguas à «tirania das ficções sociais» como denunciou o nosso querido poeta Fernando Pessoa, em «O Barqueiro Anarquista».
A liberdade foi a sua luz. A liberdade foi a sua primeira causa, como ele sublinhou em 2023 quando deixou a paroquialidade da Ribeira Seca: «Deus respeita a liberdade das pessoas. Depois cada qual tem de aguentar as consequências».


A luta pela liberdade centrou-a na sua comunidade concreta, Ribeira Seca, mas extravasou para o Concelho de Machico, para a Madeira inteira, para o país inteiro, e no dizer da sua biógrafa e amiga Raquel Varela, para o mundo.

A ninguém passou despercebido. Para o bem, que foram muitos a reterem e a saborearem o seu valor. E para poucos, que não o souberam entender e se ficaram no casulo do comodismo de não pensar e ver mais além da curta mediocridade da vida cercada em dogmas, «ficções sociais», no pensamento único e nos condicionamentos das pretensas facilidades que os silêncios estratégicos e o comodismo conferem.

O âmbito cultura

O Padre Martins Júnior era um homem culto. Não era apenas um literato, embevecido pela literalice vaidosa que dá prémios e rende muita fortuna monetária. Era um sábio com uma memória prodigiosa, que citava pensamentos e poemas inteiros de cor com as suas respetivas referências autorais e fontes. Não precisou de gravar nomes na lista do telefone, bastavam-lhe os números apenas que os descobria com a mestria de relacionar datas, acontecimentos e eventos para descobrir os seus respetivos donos.

A música foi umas das suas paixões, que não guardou para si, mas que a transmitiu ao povo, compondo e musicando a poesia do povo, para que o povo dedilhasse e cantasse o seu saber, o seu querer e o seu poder. Não há em Portugal, melhor exemplo, de figura que tenha feito mais e melhor pelo Evangelho inculturado, feito carne de povo na expressão mais rica que é o viver em comunidade experienciado no terreno como dinamismo democrático e sentido evangélico.


Morre o Padre Martins para este mundo nos tempos em que nada se pensa, em que o desrespeito pelo bem comum é motivo de orgulho, a natureza explorada até à saciedade é ato nobre e é «atrasado mental» que não o fizer ou defender a criação. E recrudesce como silvado a indiferença, a descriminação, a aceção de pessoas, o desrespeito pelo trabalho digno e todas as formas de violência que nos torna doentes e desumanos.

O Padre Martins é uma memória, um apelo e um grito contra toda esta desumanidade, esta alienação e todas as injustiças que ainda escurecem os nossos espíritos.

É um lamento que as suas capacidades tão criativas e tão entregues aos outros, não tenham sido reconhecidas e aproveitadas por quem devia reconhecer o seu altíssimo valor. Antes prevaleceu a intriga, a calúnia, maledicência e todas as guerras inúteis que se assistiu na história dos últimos 50 anos da Comunidade Ribeira Seca.

O desalinhamento

Tal como os pagãos dos tempos antigos que, por medo, lançavam os seus primogénitos para o fogo aos pés da estátua de Baal, também nós acreditamos que nos devemos sacrificar para ser agradável ao deus minúsculo. Incapazes de compreender a grandeza, a beleza e o amor infinito de Deus, adoramos assim um ídolo criado apenas por cada um (ou pelas tais «ficções sociais» de Fernando Pessoa) para alienar e não para libertar. Assim sendo, uma vida espiritual adulta e vivificante consiste em resistir e em recusar realizar qualquer prática religiosa cujo fundamento único seja o medo de um deus «deste circo ambulante», refiro-me ao poema da pag. 104 de «Poemas Iguais aos Dias Desiguais».

Morreu de pé e até na hora da morte mostrou mais uma vez que não se encaixava dentro da normalidade como foi sempre a sua vida. Sublinha-se mais esta coerência, o seu inconformismo e a sua postura de resistência face às convenções políticas, sociais e religiosas.

Na vida de qualquer padre, mais tarde ou mais cedo, se verá confrontado entre dois caminhos, um que diz «Caminho da instituição madre igreja» e o outro «caminho do povo, onde estão os teus ossos e a tua carne». Terá que fazer a escolha. Muitos seguem o primeiro, porque é mais fácil, pode dar mais prestígio e ajuda a fazer carreira nas hierarquias, mas perde o caminho da existência e da autonomia. Perde o pensamento próprio, perde a vida própria, numa palavra perde a liberdade, porque deixa de ser o que é para ser o que os outros pretendam que seja. O Deus verdadeiro não quer isto, «vomita» claramente esta tragédia.


O padre Martins, mesmo com condições intelectuais mais que sobejas para seguir o primeiro caminho, recusou-o pensada e deliberadamente. Esteve sempre no caminho que diz: «caminho do povo, onde estão os teus ossos e a tua carne». Como ele várias vezes me confidenciou «a carne, os ossos e o sangue do padre é o povo».

Como é normal daqui vieram os beneficiados, os apoiantes e os admiradores, que foram muitos, milhares de pessoas, várias gerações. Mas também vieram os detratores com o vocabulário de «comunista», «vermelho», «desalinhado», «excomungado» e «suspenso» («ad divinis»)… Como se fosse possível um Deus, sendo Pai/Mãe, alguma vez suspendesse ou dispensasse um filho... Digam-me onde está esse deus para eu dizer-lhe que sou ateu olhos nos olhos.

Só aqui se compreende como é possível manter-se inquebrável durante tantos anos e só pode ser motivo de admiração tal fidelidade às causas, às ideias e ao povo. Os cravos que ostentamos são o símbolo cimeiro daquilo que aqui proferimos e o sinal de que o Padre Martins Júnior, parafraseando a frase que tanto gostava e tantas vezes pronunciou em tantos funerais que realizou dos seus amados paroquianos da Ribeira Seca: «Morrer é só não ser visto, é fazer a curva da estrada».

Conclusão

Termino com o que ele escreveu no seu último post de 18 de março de 2025, no seu riquíssimo e bem escrito «Senso y Consenso», pela ocasião dos «40 anos de libertação». Escreveu, «Faz hoje 40 anos! Foi uma madrugada de abril em março quase primaveril. A Páscoa antecipada» e continuou, «A religião, tantas vezes usada e abusada pelos oligarcas, foi nessa altura um esteio libertador, tendo em conta o êxodo dos hebreus escravizados após 40 anos pelo faraó do Egipto. E no Novo Testamento, a palavra do senador Gamaliel no Sinédrio, cujos juízes se preparavam para mandar matar os apóstolos. Disse Gamaliel:

“Não vale a pena, porque se a mensagem desses homens não vem de Deus, ela vai consumir-se por si mesma. Mas se vem de Deus, não há poder que a destrua”». E continuou, «O povo da Ribeira Seca venceu, porque teve resistência, autodomínio e vigilância sem termo».


Agora continuemos e sigamos o seu exemplo. A sua memória inspira-nos e frutificará das profundezas deste mundo ainda tão falho de humanidade.

Daqui e para aí onde estiver no lugar da plenitude vai o meu sentido obrigado padre Martins Júnior pelo seu exemplo, a sua amizade, por tudo o que me ensinou e por tudo o que me inspirou a ver mais longe para lá das medíocres circunstâncias voláteis do pulsar inconstante daqueles que se limitam a fazer da vida uma redoma, servida por pacotes de fé e de ideias baseadas em «ficções sociais», que alimentam a vã glória de mandar e de dominar.

Não somos uma terra de «abençoados indígenas», como considerou, quiçá desencantado, o nosso gigante poeta Herberto Hélder. Somos uma terra de paz com gente dentro, sedenta do melhor para si e para os outros. Esse sonho e direito não pode ser gorado por nada nem por ninguém, como ensinou com a sua entrega o Padre Martins Júnior.

A vida neste mundo do Padre José Martins Júnior valeu a pena. Muitos têm afirmado de muitas e variadas formas estes dias, precisamente, esse «valeu a pena». Por isso, parafraseando o pensador e filósofo Emanuel Kant que diz, «Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então, morrer também vale a pena». Obrigado e até um dia no festim da eternidade.

22 de junho de 2025
José Luís Rodrigues

terça-feira, 19 de novembro de 2024

A contextualização da Palavra


Domingo 16 de Novembro. Igreja da Paróquia de São José, no Funchal. Ali assisti a um importante momento de contextualização da Palavra. 

Na esteira da Encíclica "Laudato Si" - os cuidados que a todos compete com com a "casa comum" - após as leituras e o Evangelho daquele Domingo, o Padre José Luís Rodrigues deu a palavra ao Engenheiro Doutor João Baptista.

A igreja estava repleta de fiéis e ali falou, num irrepreensível silêncio, sobre as grandes preocupações com o ambiente. Seguiu a linha de pensamento do Papa: "A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudar o seu estilo de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o provocam ou agravam". Daí os desastres que a Madeira tem sofrido, as aluviões, os incêndios, a ausência de planeamento consistente e suas consequências, narrando, por aí, todas as causas que estão a fragilizar estas ilhas atlânticas.

Foi uma lição e um chamamento para a realidade que todos sentimos. O ritual da Missa foi, claramente, enriquecido, pela introdução, repito, da contextualização da Palavra na vida real. 

Parabéns Padre José Luís e ao Engenheiro João Baptista. Que excelente momento de reflexão!

Ilustração: Arquivo próprio.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

"A Igreja perdeu o inferno, o céu vai pelo mesmo caminho" - JLR


Nunca simpatizei com as atitudes de subserviência, porque sempre destrincei o respeito, mesmo o que se prende com a hierarquia, com a atitude de submissão, por bajulação, medo, calculismo e, pior ainda, por demissão relativamente ao mister que desempenhamos. Aquela atitude que configura "o não vale a pena", os braços caídos, a incapacidade de dar voz aos que não a têm, mexe comigo, porque mexe com o meu entendimento do que é a liberdade de pensamento. Não tenho qualquer afinidade pela rotina, pelo marasmo e pelo deixa andar. Serve-se de corpo inteiro, com as convicções que nos alimentam, com os princípios e os valores que nos animam, jamais através dos múltiplos e estratégicos silêncios que conduzem à ausência do poder da reflexão. 



Há momentos que o silêncio se impõe, porque ele próprio pode ser decisivo, em outros, é o Grito de Munch que abana, desconstrói e ajuda a recentrar ou juntar as peças do caos.

Sobre o que aqui me traz, diz-se que "o silêncio ajuda a ouvir a palavra de Deus", mas quando o contexto em que se vive é, deliberadamente ou por omissão, ofensiva da Palavra, daquela Mensagem que emana de Cristo, só há um caminho a seguir, a da reflexão libertadora em alta voz.

É claro que o poder político adora a humilhação da Igreja, trazendo-a pela trela. E a Igreja, ao invés de o colocar em sentido, amocha, faz-lhe vénia, autocensura-se ou assobia para o lado. É, por isso, que do púlpito, muitas vezes vejo braços a se abrirem ao jeito de quem assume: "em verdade vos digo que não acredito no que digo". O que significa negar-se, passando ao lado da desumanidade e dos direitos do Homem. Porque não existe nem interessa debater ou alertar para uma outra dimensão no quadro de um projecto colectivo que aglutine o conjunto do corpo social.

Perguntar-me-ão, mas onde quero chegar com estas palavras? A resposta é simples: aos padres e aos leigos que, batendo no peito, gerem o silêncio cúmplice que ajuda a afundar os princípios e os valores pelos quais Cristo se bateu. Felizmente, não é o caso do Padre José Luís Rodrigues. Eu li a sua "Carta Aberta aos padres e leigos da Diocese do Funchal" . Não é a primeira nem será, certamente, neste contexto e em outros que o meu Amigo Padre levantará a sua voz, contundente, assertiva, provocadora ou melhor, despertadora de almas adormecidas no seio "da casta dos privilegiados".

Eis as suas palavras, qual grito que vem das entranhas ao serviço da sua missão: que saltem os "(...) metidos por aí na betonagem do social da religião e da região (porque) tornamo-nos massa da mesma massa e encaixamo-nos na engrenagem das dependências do poder político e religioso dominantes. Não esclarecemos ninguém, não dizemos não quando a dignidade humana também se faz com a proclamação do dizer não diante do que não serve a justiça e o bem comum. E diante das coisas deitamo-nos à preguiça do pensamento para deixar a obediência cega comandar os nossos passos. (...) Este cancro é um veneno que alimenta o clericalismo. A assunção das diferenças são combatidas e levam ao isolamento, ao descarte e à falta de fraternidade. E são poucos os que resistem a este estatuto. Não devemos aceitar esta lógica. Porque se pregamos que as qualidades do ver, do ouvir e do falar, são dons maravilhosos concedidos por Deus, na realidade, a larga maior se demite de os usar com alegria e entusiasmo corajoso. (...) Que cristãos e que sacerdotes tem Jesus diante de Si neste tempo histórico que vivemos? – Se lhes falta coragem e a ousia, que Reino pode ser vivido e anunciado... A meu ver andamos fora do essencial. E se almejando ser um corpo como se prega, deve implicar sermos todos iguais nas circunstâncias, sem deixar de valorizar a personalidade própria, assumindo sem medo a liberdade de pensar pela sua própria cabeça. (...)"

Pois é, Padre. Vivemos um tempo difícil, de grandes assimetrias, de corrupção, de múltiplas pobrezas, de suicídio, de jovens à nora e de continuadas iliteracias. Um tempo onde olhamos em redor e vemos tanta canga e baile pesado com os narizes quase colados ao joelho. Não basta a tese do "Cristo comunicador perfeito", mas a consequência de uma ruptura com esta vidinha acomodada, porque silenciada, onde as homilias não agregam, antes são geradoras de pena e desalento.

Parabéns meu querido Amigo Padre José Luís Rodrigues. São pessoas como o Senhor que ainda nos fazem acreditar que é possível um mundo melhor nesta nossa curta passagem pela vida. Lembro-me ter escrito que "A Igreja perdeu o inferno e que o céu vai pelo mesmo caminho". A hierarquia certamente que percebeu a sua mensagem, porém, preferiu refugiar-se nos penosos labirintos de um Paço sem pensamento!

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 13 de agosto de 2023

Inferno, purgatório e céu...



Sigo com muita atenção praticamente tudo, e muitas vezes releio, o que escrevem. Refiro-me a dois eminentes Padres madeirenses: Martins Júnior e José Luís Rodrigues. Aprecio a acutilância discursiva de quem serve o seu Povo, que o respeita e o convida a ver o outro lado das coisas. Aprecio quem se furta a lengalengas. Porque há sempre um outro lado, por vezes não descortinável, que só a sabedoria os desvenda com a simplicidade das palavras.



Foi o que me aconteceu esta tarde ao ler o texto do Padre José Luís sobre as Jornadas Mundiais da Juventude. A páginas tantas...

"(...) Enfim, esperava, ainda espero homilias frescas, curtas e incisivas como foram as do Papa Francisco. É tempo de uma vez por todas de se deixar de falar do céu e passarmos a falar da realidade concreta da vida, como disse o Papa Francisco no discurso que fez aos universitários quando citou Santo António. (...)"

Pois é. Sempre preferi ler os dignitários da Igreja à luz da PALAVRA contextualizada com a vida real. Sou do tempo do medo do inferno, do purgatório, do pecado, até através do pensamento, e vivo agora o tempo do Céu! Prefiro que dele não falem, mas que optem pelo discurso simples, construído por palavras fáceis de entender, por palavras libertadoras que coloquem em sentido "todos, todos, todos" os que infernizam a vida de uma imensa legião de pobres e de "remediados" como se dizia no tempo da ditadura.

De facto, não é preciso falar do Céu. Fundamental é fazer cumprir a PALAVRA doa a quem doer.

Obrigado Padre José Luís pela sua reflexão.

sábado, 3 de dezembro de 2022

O pecado - Foi quiçá o maior «negócio» da história


Por
José Luís Rodrigues 
Padre
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Foi quiçá o maior «negócio» da história.
Serviu para sacar enormes fortunas. Serviu para enfeitar altares com peças requintadamente douradas e prateadas. Serviu para vender pedaços de céu com indulgências e outras «graças» que consolavam as almas malévolas, sanguinárias, cruéis e profundamente injustas para os seus semelhantes, mas depois do «milagre» do vil metal, estavam concertadas para entrar no bem bom dos céus.



O pecado tal como nós o concebemos não existe. Muito menos existe aquela ideia tão comum entre as pessoas de que quase tudo é pecado. E muito do que comumente designamos de pecado não interessa nada ao Menino Jesus. A consciência perante as injustiças, a corrupção praticada e a indiferença da maioria perante os praticantes dela, os ódios pessoais e coletivos que levam à morte, o abandono dos frágeis e etc… São talvez os verdadeiros pecados que ninguém se importa e muito menos confessa.

Nas Vinhas da Ira, John Steinbeck, colocou na boca de um dos seus personagens esta frase: «pecado é ter fome e frio» (pag. 386). Nesta fase do livro a reflexão sobre o pecado é magnífica e devia ser afixada nas portas das igrejas.

O «negócio» do pecado levantou basílicas sumptuosas, catedrais requintadamente faustosas, vestes clericais bordadas a ouro e prata, imagens de santos riquíssimas contrastando com a pobreza real enquanto viveram historicamente e objetos para guardar o Senhor Jesus - que foi um pobre de Nazaré. Os bens mais ricos que alguma vez a humanidade criou, serviram para luxos e para voluptuosidades do clericalismo - essa casta privilegiada e autorreferencial que se intitula de os chamados e eleitos Deus para O servirem esplendidamente.


Mas par deste «negócio» astronómico, cujo produto era o pecado e todos os medos e ameaças de condenações eternas às penas do inferno a ele inerentes, o povo na sua larga maioria morria de fome e de frio, e tudo, exatamente, como ainda hoje acontece. Uma larguíssima maioria de pessoas humanas morre de frio. Este pecado, ninguém confessa.

O pecado nos nossos dias tem um sentido mais lato, porque mais social e comunitário, porque é a esse nível que situamos a verdadeira desgraça da humanidade e do planeta. Por exemplo, o pecado dos atentados contra ecologia e o meio ambiente, são graves e afetam todos.

Se concebemos Deus dentro de determinados parâmetros, mais de acordo com o Evangelho do amor e da misericórdia, também devemos encarar de modo distinto a forma como nos relacionamos com o transcendente.

Nunca pode o pecado ser encarado como um negócio, uma arma para meter medos com vista a domesticar e dominar as pessoas. O pecado existe, é um mal corrosivo das sociedades, das famílias e das relações interpessoais. Porém, a ninguém é legítimo servir-se das quedas humanas para enriquecer, incutir medos, tecer condenações e fazer de Deus um justiceiro ou merceeiro que concede dons e graças como moeda de troca.

Muito menos a forma de reconciliação e remedeio do pecado pode ter por uma única via e por uma única entidade. Porque tal seria ilegítimo e pior seria que aceitássemos que pecadores andavam a salvar pecadores, como cegos a conduzir cegos ou cambados a carregar à costas outros cambados.
O pecado para ser remediado, implica arrependimento e o propósito de emenda, depois Deus e a consciência de cada pessoa ditarão e farão o que é preciso fazer. Quanto ao caminho e a forma de lá chegar, cada um procure a melhor forma de se reconstruir interiormente. Não há uma única via e o reino de Deus tem muitas portas.

Por isso, pecados verdadeiros, que devem inquietar o Deus da misericórdia, da paz e do amor, devem ser todas as atitudes desta vida que violentem tais qualidades. Neste sentido, só temos para «confessar» a gravidade que assola este mundo onde tantos ainda morrem de frio e de fome. Por causa da guerra, do negócio das armas e todas as estupidezes que a humanidade teima em fazer valer contra o bom senso e a razão autêntica das coisas.

Ter fé não é ter sossego, é viver desassossegado. Quando há sossego é sinal que deixamos de nos considerar responsáveis do frio e da fome que ainda existe no mundo. O pecado não é mais importante que a fé, a esperança e a caridade.

Um grande pecado é ser escravo de medos. E estragar a felicidade própria e a dos outros, é o caminho certo para cair no inferno. E a Deus só pode interessar que não violentemos a vida de forma nenhuma. JLR

terça-feira, 28 de julho de 2020

Padre, deixe que a caravana passe!


Os espaços que deveriam constituir uma oportunidade para pensar e expressar uma opinião ou um mero desabafo, há muito que se tornaram preocupantes. Os comentários que algumas pessoas fazem na comunicação social e também nas designadas redes sociais (então aí...), tornaram-se para alguns uma possibilidade para vomitar leituras apressadas, ódios e sentimentos que nada têm a ver com os princípios que deveriam nortear a boa educação. Muitas vezes fico com a sensação que coexistem outros interesses, mormente os de natureza político-partidária.  


Desta vez a "vítima" foi o Senhor Padre José Luís Rodrigues. A propósito das recentes nomeações eclesiásticas operadas pelo Senhor Bispo D. Nuno Brás, uma cidadã resolveu tecer considerações desprimorosas e absolutamente ridículas, fazendo notar, entre outras, que o líder da Diocese só "não consegue mudar mercê da inflexibilidade dos mesmos como é o caso do padre de São Roque José Luís Rodrigues". Teve a resposta adequada.

Ora bem, conheço o Padre José Luís de quem sou amigo. Não é militante de um qualquer partido político e apenas prega, de forma militante, a Palavra de Cristo constante do Evangelho. Se a contextualização da Palavra incomoda, se falar da pobreza e dos dramas sociais gera uma espécie de urticária em certas peles sensíveis, mormente de natureza política, mesmo assim manda o bom-senso a guarda de respeito. Depois, democraticamente, há formas de manifestar uma opinião distintiva sem ferir as pessoas e as instituições. Utilizar os espaços de participação para apenas expandir angústias, neste caso, talvez melhor fosse a procura de um psicólogo no sentido da busca das razões que conduzem à agressividade!

Achei interessante o que li no blogue "Vittude": "(...) as redes sociais constituem ferramentas artificiais de bem-estar. Um local de projecção dos nossos sentimentos, angústias, desejos, desabafos e a camuflagem de uma realidade não tão boa quanto a que aparenta ser. Portanto, não desabafe nas redes sociais! Local muitas vezes carregado de um vazio emocional, uma crise existencial colectiva que fomenta uma busca incessante de notoriedade, de atenção e de apego".

É isso. Há pessoas que perdem a serenidade por pouco. Raramente analisam, mas escrevem como se fossem portadoras de um vasto conhecimento, após um esforço de estudo sobre uma dada matéria. Atiram, magoam, desvirtuam a realidade e "fazem a folha" com efeitos multiplicadores junto dos outros. 

Padre José Luís Rodrigues, essa cidadã de cortesia zero, se é cristã, mais cedo que tarde pedir-lhe-á perdão pela sua atitude. Ao meu distinto Amigo, Homem de uma coluna que não é de plasticina, Um Cristão a sério, ser humano feliz com o que faz, peço que se mantenha firme e deixe que a caravana passe. Um abraço solidário.

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 4 de abril de 2020

Novos tempos: O General Ramalho Eanes e o amor puro


Um texto do Padre José Luís Rodrigues, publicado na sua página facebook e que, pela importância da sua reflexão, aqui transcrevo. Obrigado.

1. Ouvi com toda atenção a entrevista do General Ramalho Eanes na RTP1 a Fátima Campos Ferreira. Não vou comentar a estatura moral, a referência extraordinária de um dos melhores portugueses que conheço, muito menos vou atrever-me comentar tanta coisa que ele nos falou sobre o mundo, a humanidade, a Europa e o nosso país e do muito que deverá ser feito na ocasião que nós todos embevecidos almejamos, o fim da tormenta do tsunami coronavírus. Foi bem claro o apelo veemente à conversão da humanidade e o que reacende em nós a esperança de que esta não seja uma oportunidade perdida.

2. Muito bonito e comovente o seu desprendimento à vida. Reparem na dureza das palavras, caso esteja em falta algum ventilador, nós os velhos de mais de 80 anos (o General tem 85 anos) devemos dispensá-lo para alguém mais jovem que tenha filhos para criar. É duro e não tenho dúvidas que o General Ramos Eanes tomaria essa decisão. A sua história confirma esta estatura e coragem moral.

3. Porém, devemos salientar que melhor seria existirem ventiladores para o idoso e para o jovem. E eu gostava muito de ter ouvido esta denúncia do nosso prestigiado General da actualidade. Não é aceitável esta crua eutanásia, se nos lembrarmos da leviandade nos cortes públicos nos sistemas de saúde nestes vários anos que nos precederam. A tragédia maior que o Covid 19 revelou é que, mesmo entre os mais ricos, ninguém está minimamente preparado para acolher vítimas em momentos de tragédia. Serve para pensarmos e não sermos tão irresponsáveis na hora de eleger os nossos representantes políticos. O encolher de ombros e o desinteresse pela participação cívica provavelmente encontrará neste tempo de Covid 19 algum ânimo para se redimir e fazer mudar comportamentos.

4. Voltemos à entrevista. Pretendo destacar para comentar um pouco duas frases que me chamaram à atenção, dado que fazem parte da minha área de ação. Primeira, «A espiritualidade não está no local de culto, está em cada um de nós e na relação de nós com os outros». Segunda, «Cristo é amor puro, ou seja, estar com os outros em todo o lado e qualquer lado de uma maneira solidária».
5. A quarentena do Covid 19 está a ser um grande desafio para a Igreja Católica e para todos os cristãos. Obviamente, que terão que mudar imensas coisas, embora tenha dificuldade em prever quais… Esta que falou o General parece-me óbvia, só lamento ser apenas ele a dizer, a espiritualidade não está restrita ou confinada aos espaços do culto, mas em cada pessoa, quando edifica a sua vida em função da verdade e da justiça para o bem de todos.

6. O confinamento colocou a vida religiosa também em casa. Estamos a fazer jus à expressão tão cara noutros tempos «a família é a Igreja doméstica». É verdade que os cristãos precisam dos sacramentos de forma presencial, mas não esqueçamos, o nosso corpo já é o templo do Espírito Santo, nós somos o corpo de Cristo (São Paulo) Santo Agostinho dizia que cada cristão é outro Cristo. Por isso, aqui se procura dizer tudo em tão poucas palavras.

7. Toda a vida cristã tem uma Sacramentalidade que não depende dos sacramentos em si mesmos. Por isso, no templo espiritual e glória de Deus Vivo que é cada pessoa, pode ser possível a prática religiosa sem intermediários e sem que necessariamente exista um espaço predeterminado para o culto. Poderão dizer, então as igrejas edifícios não servem para nada? – Ninguém diz isso. Serve este espaço igreja edifício para ser o lugar do encontro das várias espiritualidades que cada pessoa transporta, encontro da fraternidade que nós designamos comunidade, lugar da sensibilização para a dimensão família que é a humanidade inteira e lugar da experiência da paz que cada um deve tomar como alimento para levar para a realidade concreta do seu dia adia. Não descurando a dimensão do sagrado e da (re)ligação ritual ao transcendente que a humanidade sempre procurar estabelecer desde a sua origem.
8. A outra frase é a de Cristo, que se revela ser bastante clara e tão reveladora do que é o Cristianismo. A religião cristã é a descoberta de uma pessoa Divina e Humana, Jesus Cristo, que nos mostrou o que é e como é o «amor puro», que pode estar ao alcance de todos nós, basta perceber sempre e não apenas nesta travessia do deserto chamada Covid 19, «estamos todos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho» (Papa Francisco). Ser cristão é pensar nisto, é procurar viver isto. A espiritualidade cristã, vivida por cada um ou na comunidade reunião, se não desperta esta luz, perdeu o rumo e não está centrada no essencial, que é o Evangelho do Cristo de «amor puro». JLR

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Ano novo problemas velhos


Um artigo do Padre José Luis Rodrigues
Publicado no blogue "O Banquete da Palavra"

2018-2019

A canga é grande de ano para ano. 2017, carregou 2018, este vai enfiar o barrete a 2019 e este também não vai fugir à regra e não terá também tempo suficiente para não sobrecarregar 2020. É assim ano após ano. Estupidamente interminável. Porque nunca será mais foguete ou menos foguete de artifício que vir a pôr cobro a esta fatalidade.




Se eu fosse o ano novo não aceitava senão coisas novas. Porém, felizmente, eu não sou o ano novo e não tenho o poder da solução para todos os problemas. Mas garanto que se eu fosse o ano novo, o ano velho piava baixinho e não me entregaria a carga de problemas velhos, que ele não encontrou tempo e vontade para solucionar.
Para muita boa gente o ainda saudoso Santo Papa João Paulo II, dizia o seguinte, provavelmente, num daqueles momentos de boa disposição, que também o caraterizava: «a estupidez também é um presente de Deus, mas não se pode abusar». Este prisma, que nos inspira sobremaneira, podemos aferir que muitos dos problemas derivam precisamente do abuso na prática da estupidez. Vejamos então…

- A guerra e todo o género de violências físicas e psicológicas que comandam o nosso quotidiano são estupidez (falo das guerras grandes feitas entre os estados, que derivam do negócio das armas que deliciam os capitalistas e os governantes do mundo inteiro, mas também falo daquela violência quotidiana das nossas casas, por exemplo, a disparatada e muito estúpida violência doméstica).
- As desigualdades ou a falta de equidade neste mundo é uma crua estupidez que alimenta o egoísmo e a maldade humana.
- A destruição do nosso serviço de saúde é o máximo da estupidez quando sabemos à partida que todos mais tarde ou mais cedo necessitarão de cuidados de saúde. A politiquice que o norteia também nos envergonha e o muito malabarismo para justifica o injustificável não nos ludibria.
- A irresponsabilidade dos governos que nós temos são a face visível da estupidez quando abusada, porque governam em função de interesses mesquinhos de alguns grupos económicos ou amigos do partido a que pertencem, mesmo que isso hipoteque a vida de toda a sociedade e das gerações vindouras. E a estupidez é tanta que não olha à destruição da «nossa casa comum», a nossa «mãe terra». Mais ainda quando tudo isso implica altos custos para o erário público, sobrecarregando todos os cidadãos com impostos que levam ao sofrimento à morte.


- A estupidez é ainda desmedida perante a bênção dos poderes que se acasalam pornograficamente para conseguirem os seus intentos mesquinhos. Para isso não falta água benta para lavar as vergonhosas «uniões de fato», que a este nível os poderes justificam na troca de favores mútuos. Resta a caridade que alimenta os pobres ainda a serem mais pobres ou então dependentes do beija mão senhorial desta sociedade obcecada por mordomias exclusivamente para alguns, aqueles que tiveram mais certo.
- A fome pelos tachos agudiza-se ano novo adentro. Um problema velho, mas que o famigerado ano de 2019, sobrecarregará devido à abundância de eleições. Já vemos a estupidez a marcar passo em função desse eldorado do emprego para os incompetentes, os lambe botas do costume que até venderão a alma se para tal for necessário, mesmo até antes de terem vendido a sua progenitora.
- A beatice patética perdurará ano novo adentro, qual problema velho, que se alimenta estupidamente do fundamentalismo, do anacronismo, da hipocrisia para combater quem eventualmente lembre que precisamos de respostas novas para os problemas sempre novos que todos os dias a diversificada humanidade coloca diante dos olhos. O Papa Francisco deve saber bem do que falo!
- A estupidez não terá limites na aplicação das leis e dos critérios para ajuizar e agir perante cada uma das pessoas. Porque, problema sobejamente velho, é que uns são filhos de Deus e outros, mesmo que esperneiem serão sempre filhos da outra... Enfim, as discrepâncias continuarão a existir, uns a acreditar que Maria de Nazaré é Virgem espiritualmente e fisicamente. Mas pode haver que alguns, mesmo assim, duvidem, mas logo serão metidos na ordem, porque o santo dogma do discurso não pode ser violado, a santa tradição não tolera inteligência e a ousada da criatividade. A abusada estupidez não tolera que os contextos tragam também sinais de Deus nos tempos que correm, Deus é estático, a acção de Deus não muda… Ah, perversa estupidez!
Enfim, a lista poderia ainda ser mais preenchida. Mas fiquemos com estes elementos, só para vermos como a passagem de um ano para o outro vem carregada de sofrimento para quem vem. Lutemos, para que o ano de 2019 seja bom.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

"QUANDO SE DESCARTA UM PADRE"


Há uma palavra que me acompanha: solidariedade. O grito do Senhor Padre José Luis Rodrigues, por momentos, levou-me ao museu nacional de Oslo onde apreciei a obra do pintor norueguês Edvard Munch. Chamou-lhe "O Grito". Uma obra expressionista que testemunha a angústia do ser humano. O texto que li é também um sentido GRITO perante a ausência de solidariedade. No centro está o Padre Giselo Andrade, aquele que assumiu a paternidade de uma menina, hoje, "literalmente escorraçado por uma autoridade sem tino e sem bom senso". Vive de um "mísero salário que a Diocese lhe concede todos os meses" sem nenhuma "função eclesiástica digna como exige a sua condição de sacerdote da Igreja Católica". O GRITO vai mais longe e atinge os que o abandonaram e ostracizam, colocando a "autoridade máxima à frente do "bullying clerical" contra o padre Giselo para que fosse torrando em lume brando".

Sublinha o seu texto: "(...) o padre Giselo continua descartado, porque procriou, fez ver a luz a uma criança com os olhos da cor do céu. Com isso rebentou o ódio, a vingança e a inveja clerical, que são venenos terríveis dentro das hierarquias. Pois, fez um «pecado mortal» para a hipocrisia dominante da Igreja e da sociedade em geral, que soma séculos de abusos sexuais, prepotência, abuso de poder e o reincidente farisaísmo que impõe leis e mais leis para os outros cumprirem, ostracizando multidões de fiéis que tiveram que carregar fardos pesados impostos por aqueles que nem com a ponta do dedo lhe tocavam. Mas, certo é que o padre Giselo continuará de fora, descartado, porque o «bulling clerical» continua, até ver se aguenta e desiste da feliz dignidade com que assumiu os seus actos, quiçá também um dos gestos, entre outros com certeza, dos mais corajosos destes cinco séculos da história da Igreja da Madeira... É coisa pouca para uma grande parte, mas um passo enorme que devia fazer pensar toda a comunidade católica da Madeira, se tivéssemos uma Igreja iluminada pela luz do Evangelho e com maturidade suficiente para pensar sem preconceitos." 
Comungo, integralmente, das preocupações do Padre José Luis Rodrigues, do seu enorme sentido de SOLIDARIEDADE e da chamada de atenção para o interior de uma Igreja agarrada que está a preconceitos e a discursos bafientos que nada têm a ver com a Palavra. Afinal, questiono-me, que Bispo tem a Diocese do Funchal, incapaz de cumprir o amor solidário de Jesus? Que Bispo é este que apenas fala de "caridade" e de "fé" e passa ao largo dos verdadeiros problemas da sociedade? Que Bispo é este, sem estrutura mental, para ultrapassar entre outros casos, tanto a paternidade do Padre Giselo, como a vergonhosa suspensão ad divinis do Padre Martins Júnior? Que moral tem o Senhor Bispo para subir ao púlpito e pregar a bondade do Evangelho, quando tem uma prática contrária à Palavra? 
É mesmo para um sonoro GRITO. Parabéns Padre José Luís pelo exemplo de frontalidade, dignidade e SOLIDARIEDADE. Senhor Bispo, leia 50 vezes o grito do Padre José Luís.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 26 de agosto de 2018

A DIOCESE MANTÉM-SE CALADINHA


O Padre José Luis Rodrigues escreveu, nos últimos dias, dois importantes textos: o primeiro, sugerindo um alargado debate universal sobre o celibato; no segundo, manifestou-se junto do presidente do governo regional da Madeira contra a reconstrução da Capela das Babosas (Monte), levada pelo temporal de 2010. Dois textos, um de interesse universal e outro de interesse local, ambos muito oportunos. Hoje, quero centrar a minha atenção sobre a Capela das Babosas, cuja "carta aberta" ainda ontem aqui reproduzi e que pode ser lida no blogue "O Banquete da Palavra". Quando o presidente do governo regional da Madeira anunciou a disponibilização de uma verba de € 400.000,00 para tal construção, o sentimento que tive foi, exactamente, a do Padre José Luis. Questiona se não seria essa "pipa de massa" mais bem empregue na "saúde e na educação", para logo depois acrescentar: "(...) E a Igreja do Monte que acusa graves necessidades de restauro? O que pensará a chamada população do Monte sobre a sua/nossa emblemática Igreja de Nossa Senhora do Monte? (...)

Foto Rui Marote/Funchal-Notícias.

Diariamente passo frente a uma capela (ver foto) e sinto uma dor por vê-la ao abandono. Não foi destruída pelas cheias de 20 de Fevereiro de 2010. A violência do temporal não a levou. Mas está para ali. Segundo o Professor Nelson Veríssimo "(...) teria sido mandada erguer por João Gonçalves Zarco, o primeiro capitão do donatário do arquipélago da Madeira, na capitania do Funchal. De início, o seu orago era São Pedro. Junto à capela, foi instituído um hospital, o primeiro do Funchal, edificado em terreno doado por Zarco, no ano de 1454. Funcionou durante quinze anos. A freguesia de São Pedro, instituída em 1566, extinta em 1579 e restabelecida em 1587, teve a sua primeira sede na capela com a mesma invocação, e aí se manteve até à edificação da nova igreja, concluída pelos finais do século XVI". Sobre esta Capela, o Professor publicou um artigo no Funchal Notícias subordinado ao título "A propósito do 6.º centenário do «descobrimento» e povoamento da Madeira: recuperar a memória: a Capela de São Paulo".
Capela das Babosas antes de 20 de Fevereiro de 2010
Foto Archais.
Logo a seguir, no percurso que habitualmente faço, está a Capela de Nossa Senhora da Piedade, sempre fechada! Por fora apresenta-se pintada, por dentro, confesso, desconheço o seu estado. Lembro-me, nos anos 70, de ainda ali se fazer a festa de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas. Estará fechada por degradação, por falta de pessoal que exerça a vigilância, uma vez que se encontra no espaço museológico das Cruzes? Não sei! 
Projecto da Capela das Babosas onde o governo
pretende "gastar" € 400.000,00!
Uma espécie de "Casinha de Santana"
Por uma razão especial, a primeira, é-me emblemática, pelo que dói vê-la ao abandono. Em síntese, o governo manda construir uma capela que, segundo li, data de 1906 e esquece-se de uma de meados do Século XV que deveria ser preservada no quadro do património cultural da Região. Com uma agravante, é que aquilo que designam por (re)construção, de acordo com a arquitectura vinda a público, é completamente diferente da anterior (ver fotos). Falo destas duas, porque as conheço, porém, quantas outras por essa Região, precisam de obras de recuperação e restauro onde todo aquele dinheiro seria bem-vindo?
Neste processo, a Diocese mantém-se caladinha. Do Bispo António Carrilho nem um pio relativamente às prioridades. A questão, portanto, parece-me assumir uma natureza POLÍTICA. O Monte está nas "bocas do mundo", pela morte de treze pessoas no fatídico dia 15 de Agosto de 2017, devido à queda de um carvalho. Desde então, o Monte tem sido um filão de combate político (por vezes, rasteiro) que, julgo eu, está para durar. Não há outra leitura possível, se considerarmos a História, a relevância patrimonial e o estabelecimento das prioridades em função das disponibilidades financeiras. E falam das comemorações dos 600 anos da Madeira? 
Mas é assim que alguns fazem política. Até com a morte brincam! Por isso, parabéns Senhor Padre José Luis Rodrigues pelo seu bom senso e frontalidade.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 25 de agosto de 2018

UMA CARTA DO PADRE JOSÉ LUIS RODRIGUES




Exmo Senhor 
Presidente do Governo Regional da Madeira Miguel Albuquerque,

Escrevo-lhe nestes dias estivais de retempero de férias. 
Obviamente que esta informação sobre férias não lhe interessa nada, muito mais lhe será inútil o que anda a fazer cada um nas suas férias. Só partilho consigo este intróito porque, suponho, que Va. Exa. já teve oportunidade de fazer as suas férias e que provavelmente estará de regresso ao trabalho por estes dias. 
Antes de Va. Exa. partir deixou-nos com a notícia de que o Governo Regional, pretende custear na totalidade a reconstrução da Capela das Babosas, na freguesia do Monte e que até ao final do ano corrente se iniciarão as obras. Serão cerca de 400 mil Euros. Uma pipa de massa para um imóvel que não se vê qual a sua necessidade pastoral nos tempos que correm e mais ainda se nos recordamos dos tempos apertados da austeridade, que entre nós não parecem dar-nos tréguas.
Fundamentaram que a construção desta capela é uma aspiração e desejo da população da freguesia do Monte. Tenho dúvidas que assim seja? - Contudo, nada mais fácil de justificar, não se fazendo esta obra, tendo em conta as graves necessidades que existirão noutros domínios, por exemplo, saúde e educação. 

E a Igreja do Monte que acusa graves necessidades de restauro? O que pensará a chamada população do Monte sobre a sua/nossa emblemática Igreja de Nossa Senhora do Monte? Os tempos que correm impõem uma grave e criteriosa gestão dos bens públicos, o Senhor sabe disso melhor do que eu. 

A capela das Babosas até ao momento do aluvião, que a ceifou cerce em 2010, servia de capela mortuária quase exclusivamente. Se a necessidade que apresentam para erigir a capela neste momento é essa das cerimónias fúnebres, é preciso lembrar que a Câmara Municipal do Funchal resolveu o problema com a construção de uma capela mortuária nova de raiz junto ao cemitério do Monte e que está a funcionar em pleno. Por aqui, se vê mais uma razão para inutilidade de se reconstruir a capela das Babosas, só por causa da "baboseira" de alguns ou então só para que se faça mais um mausoléu inútil para degradar-se com o passar do tempo. E como são tantos nesta terra que nos agoniam imenso para os manter, que foram custeados "naquele tempo" pelo Governo Regional sem qualquer critério e sem freio nenhum quanto aos valores investidos em cada um. Uma desgraça que ajudou a sangrar ainda mais o pobre povo madeirense. 
Assim sendo, pode ficar a ideia de que se vai fazer outra vez uma capela sem critério nenhum e sem necessidade pastoral absolutamente nenhuma, para pretexto de mais uma festa de inauguração com pompa e circunstância com fins eleitorais. Esta política para encher egos leva-nos ao porto seguro da banca rota e não haverá nenhuma capela ou Santa ou Santo que nos valha. 
Acredito que não estou sozinho nesta consciência. Muitos mais haverá que pensam assim e como que me imploram que exponha este meu pedido.
Desejo-lhe um bom regresso ao trabalho, mas que pelo meio da montanha de assuntos que terá para resolver pense um pouco neste para reconsiderar e arrepiar caminho. Porque, quanto a capelas, é dito antigo na Madeira: "capelas, fogo com elas". Sr. Presidente, este dito inflamado não encaixa só e unicamente às capelas religiosas...
Ilustração: Google Imagens. 
Transcrito do Blogue Banquete da Palavra.

sábado, 27 de agosto de 2016

INTELIGÊNCIA E SOLIDARIEDADE


Convite à leitura do artigo do Padre Martins Júnior. Aqui fica um excerto:
"(...) À Igreja-Instituição, para não trair a sua essência constitutiva, não lhe resta senão entrar em campo, “sujar as mãos na lama, cheirar ao ‘perfume’ da ovelhas dos currais”, como ordena o seu actual Pastor Universal. A Diocese não pode refugiar-se apenas no pomposo biombo da Caritas “diocesana”, pois esta é fruto exclusivo dos bens públicos e privados. E onde está o contributo efectivo da Diocese? Que tem proventos nossos à sua guarda. E tem casas, prédios rústicos e urbanos que poderia ceder aos filhos seus, refugiados sem abrigo. É agora – é a hora da solidariedade inteligente. E, como se ouve a muita gente, não é com sermões e entrevistas publicitárias à Rádio do Vaticano. Devo aqui manifestar a minha estranheza quando ouvi que do Santuário de Fátima viria o contributo para as vítimas dos incêndios da Madeira: 50.000 euros. Ó senhores da religião mariana, saibam que a igreja do Padre José Luís Rodrigues, só ela, recolheu 10.000 euros. (...)"
Ler AQUI.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 6 de setembro de 2015

A VOZ LIVRE DA IGREJA QUE APONTA O CAMINHO



"(...) A Igreja da Madeira devia alto e bom som, proclamar por justiça e denunciar claramente todas as artimanhas que se vão implementando contra as pessoas indefesas. A coragem do Papa Francisco devia ser inspiradora e animar-nos no mesmo Espírito. Há tanta propaganda a promover gente medíocre contra o bem comum que deve ser denunciada. Se estudarmos os 500 anos da Diocese do Funchal na sua vertente sócio-caritativa não encontraremos nada além daquela ideia do pobrezinho a quem se devia dar esmola para salvar a alminha. Nunca existiu nem existe uma prática forte de denúncia das injustiças, uma rede organizada que ajudasse à criação de emprego, que não fosse além da caridadezinha esporádica, porque se «vendia» com redobrado sucesso a ideia que as paróquias não eram lugar de caridades nem muito menos misericórdias. Por um lado era promovida a caridade da esmola, mas por outro alimentava-se a ideia de que os pobres não resultam da disparidade da distribuição dos bens, da desigualdade social, mas são uns malandros que não querem trabalhar, uns preguiçosos que não fazem nada e vivem à conta da boa vontade alheia. (...)"
NOTA
Excerto de um artigo do Padre José Luis Rodrigues, publicado na edição de hoje do DN-Madeira.

domingo, 28 de dezembro de 2014

JÁ NÃO ESCRAVOS, MAS IRMÃOS


Este assunto ganha cada vez mais pertinência, ainda mais se pensarmos que vivemos num mundo cheio de barbaridade, de pobreza, de exploração do homem pelo homem e de uma falta tremenda de respeito de uns pelos outros. A escravidão volta com toda a força. Quando se pensava que o desenvolvimento humano podia conduzir a humanidade para uma sã convivência, onde os valores democráticos ditavam a conduta humana, afinal, vemos a barbárie cada vez mais generalizada, a corrupção torna-se pão de cada dia, impondo como referência de sucesso a falta de respeito e o roubo descarado, mesmo que isso ponha em causa a justiça, o bem comum e faça mergulhar na pobreza povos inteiros.


A mensagem do Papa Francisco justifica a reflexão sobre a necessidade da fraternidade humana a partir deste pressuposto: «Infelizmente, o flagelo generalizado da exploração do homem pelo homem fere gravemente a vida de comunhão e a vocação a tecer relações interpessoais marcadas pelo respeito, a justiça e a caridade. Tal fenómeno abominável, que leva a espezinhar os direitos fundamentais do outro e a aniquilar a sua liberdade e dignidade, assume múltiplas formas sobre as quais desejo deter-me, brevemente, para que, à luz da Palavra de Deus, possamos considerar todos os homens, «já não escravos, mas irmãos» (nº 1).
Por isso, as denúncias não se fazem esperar. O Papa diz: «Penso em tantos trabalhadores e trabalhadoras, mesmo menores, escravizados nos mais diversos sectores, a nível formal e informal», por isso, pensamos em tantos trabalhadores entre nós, aqueles que têm a sorte de ainda terem trabalho, que são humilhados, insultados na sua dignidade, explorados a todos os níveis. Quantos estão assinar papéis e mais papéis como se tivessem recebido, mas no fim não receberam nada e se receberam não viram o justo valor? Quantos estão a trabalhar várias horas ao dia sem que recebam qualquer compensação por esse trabalho extra? Quantos andam a pedinchar trabalho por todo o lado e são recebidos com palavras brutas, má criação e arrogância? Quantos neste mundo não encontram leis e entidades que os protejam como deve ser? – A exploração dos trabalhadores intensificou-se com a desumanidade neoliberal que enlouqueceu muitos governantes.
Perante a desgraça da emigração e migração dos povos que procuram melhores condições de vida diz o Papa Francisco: «Penso também nas condições de vida de muitos migrantes que, ao longo do seu trajecto dramático, padecem a fome, são privados da liberdade, despojados dos seus bens ou abusados física e sexualmente». Face à tragédia que tem sido os últimos tempos entre nós com a emigração deve fazer-nos pensar a sério esta questão. Continua o Papa: «Penso no “trabalho escravo”», que a mobilidade de hoje está a gerar por todo o lado. Há «as pessoas obrigadas a prostituírem-se, entre as quais se contam muitos menores, e nas escravas e escravos sexuais; nas mulheres forçadas a casar-se, quer as que são vendidas para casamento quer as que são deixadas em sucessão a um familiar por morte do marido, sem que tenham o direito de dar ou não o próprio consentimento».
Há também «menores e adultos, que são objecto de tráfico e comercialização para remoção de órgãos, para serem recrutados como soldados, para servirem de pedintes, para actividades ilegais como a produção ou venda de drogas, ou para formas disfarçadas de adopção internacional». E os «que são raptados e mantidos em cativeiro por grupos terroristas, servindo os seus objectivos como combatentes ou, especialmente no que diz respeito às meninas e mulheres, como escravas sexuais. Muitos deles desaparecem, alguns são vendidos várias vezes, torturados, mutilados ou mortos».
NOTA:
Um artigo do Padre José Luís Rodrigues, hoje publicado no DN-Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

OS BELOS DESEJOS DO SENSO COMUM


Há textos e textos. Uns que tocam nas feridas que sangram, que nos levam a questionar por que razão tudo isto é assim, que razões conduzem a tanto egoísmo, a tanta malvadez, tanta insensibilidade e tanta mentira dita de forma séria; outros, que lemos e ficamos com a ideia de palavras juntas sem qualquer interesse na mensagem. Ontem, li e reli um texto do Padre José Luís Rodrigues que se enquadra em um conjunto de preocupações que interrogam e geram  desassossego. Um texto que gostaria que tivesse tido origem no Bispo do Funchal e que fosse lido frente aos mais altos dignitários da Região e do País, em um daqueles momentos que a "corte", hipocritamente, assiste à celebração. Deixo aqui tal texto, para que se multiplique o número de leitores.   

"Há desejos que são comuns a todos nós. Obviamente, que pairam no nosso pensamento, mas são tantas vezes desejos que recebemos dos outros que estão à nossa volta. Venham de onde vierem são os belos desejos do senso comum. A urgência por trabalho, salário digno para fazer face às despesas das famílias é o que se deseja, o ser humano não precisa que lhe façam caridade, mas que lhe reconheçam a dignidade. Nada é pior para uma família do que não ter condições económicas para levar para casa dignamente o pão para se alimentar. É, deveras, nojento e indigno, um Estado e um governo, que persiste em manter as coisas tais como elas estão. 


Contribui para a crise, para a austeridade, para a fome, para o desemprego, numa palavra contribui para fazer continuar a miséria e mesmo assim proclamam à boca cheia que isto está salvo. Como pode estar salvo, se as pessoas não são tratadas a tempo e horas quando estão doentes? Mais ainda, se nos chegam as notícias hediondas, que chegam grávidas, bebés incluídos e idosos aos hospitais com fome? – Não nos enganem mais. O tempo urge e se salvaram o país economicamente falando, por favor, salvem o seu povo, que bem precisa de salvação.
As elites endinheiradas deste país pensam assim. Vivem como elites prediletas e iluminadas. Acham que a tudo têm direito mesmo que seja à custa da fome e da miséria. Não sabem que há neste país, grávidas com fome. Crianças com fome. Idosos desamparados e com fome. Desempregados desesperados. Famílias sufocadas por causa da carga de impostos, escolas a fechar e as que sobram com falta de material necessário para funcionarem, hospitais convertidos em morgues, porque não há material que os desinfeste e tantas outras situações que fazem mergulhar um povo inteiro no desencanto e na depressão…
E tudo à conta dos desvarios e desvios irresponsáveis destas inconscientes elites. Por isso, a vergonha já não tem limites e o insulto excede tudo o que a normalidade devia tolerar. Não podemos calar esta gente que nasceu em berço de ouro e que acha que pode açambarcar tudo à conta da miséria da maioria do nosso povo? Não se pode aplicar-lhes um corretivo? - Deve ser tomado tudo o que levaram do país indevidamente e restituir até ao último cêntimo ao Estado para que seja depois derramado na economia e nos serviços do bem comum. Os criminosos devem ser chamados a contas e a haver culpas, devem ser presos. Doa a quem doer".
Ilustração: Google Imagens.