segunda-feira, 29 de outubro de 2018

PRETO, BRANCO... E CINZENTO


27 OUT 2018 - DN-Madeira 

NOTA
Excelente artigo que vale a pena ler.

Nunca foi tão difícil ter 50 anos como agora. Digo-o não por julgar que alguma vez tenha sido fácil para alguém digerir que o início do seu fim começou, mas por hoje acrescer a essa súbita consciência da efemeridade da vida a clara evidência de que nada é estável. Nada. Nem sequer os valores civilizacionais que enformaram a minha geração e a anterior à minha e a anterior a esta. Hoje, é um facto inquestionável, tudo está em processo de mutação, de revisão, o que abala de forma avassaladora a estrutura de qualquer ser que, como eu, julgava ter a vida arrumadinha num confortável preto e branco, sem zonas cinzentas.

Sempre, na verdade, me considerei uma pessoa equilibrada, capaz de relativizar, de me colocar no lugar do outro e, como tal, capaz de discernir objetivamente o bem do mal, o correto do incorreto, o particular do universal. Hoje, no entanto, ao chegar ao tal ponto em que a linha da vida inverte tranquilamente o seu sentido, sinto que o meu edifício de certezas, paulatinamente construído ao longo de décadas, se desintegrou, instaurando a dúvida e, sobretudo, convidando-me a assumir a máxima socrática do “só sei que nada sei”. E o pior é que se, para o filósofo, a consciência da ignorância era a premissa da procura do conhecimento, para mim é apenas a constatação de que o mundo se assemelha a um grande pote de geleia em que tudo pode – e, se calhar, deve – ser questionado. Não há firmeza, apenas pontos de vista e bibliografia, muita bibliografia a sustentá-los. A todos, sem exceção.
Pensei nisto não como quem pensa uma tragédia, mas como quem se sente encalhado entre dois mundos, o velho e o novo, e não sabe de qual gosta mais. Não sei, efetivamente, se preferia o mundo em que beijar os avós em tenra idade era algo inquestionável e sem qualquer rasgo de violência ou o mundo que perdeu a inocência e, sem eufemismos, põe em causa a legimitidade desse beijo enquanto elemento perturbador da autoafirmação afetiva da criança.
Não, não se julgue com isto que estou contra o novo mundo, o actual, em que, sem pejo e doa a quem doer, se é capaz de gritar que o rei vai nu. Nada disso. Reconheço, de facto, a validade dos argumentos que o sustentam, apesar de serem tão diferentes dos que me moldaram. O problema é que é tão, mas tão cansativo perceber que tudo mudou que, por vezes, me sinto uma formiga no meio de um vendaval. É difícil, muito difícil mesmo, reajustar conceitos, reinventar a vida e, sobretudo, “ser” num mundo verdadeiramente flexível e permeável. Hoje tudo, antes de ser melhor ou pior do que antes, é novo. E o novo assusta, intimida, causa estranheza.
Não admira, por isso, que esta “atualização” de valores em marcha coincida com a emersão de uma espécie de cultura de ódio por parte do senso comum que, incapaz de aceitar a mudança, o novo, contra-ataca da pior forma, substituindo a argumentação racional e sólida pela devassa da privacidade, pelo ataque pessoal, na lógica irracional do matar o mensageiro à falta de melhor. Leiam-se, se houver paciência, os comentários que nas redes sociais se seguem às notícias que testemunham o advento deste tempo novo, no qual também a estupidez e a ignorância galgam caminho num verdadeiro atropelo ao conhecimento e à sensatez. Sim, porque se algo se mantém estável neste mundo de mudanças, esse algo é a falta de humildade inteletual de quem ousa contestar fundamentos científicos com argumentação oca que nada questiona, mas apenas insulta e humilha o suposto “adversário”.
Por tudo isto e mais alguma coisa, sou, confesso-o, uma quinquagenária que sabiamente vai resistindo à tentação da teimosia, do lutar contra a inevitabilidade do inevitável. E o inevitável é que o mundo está a mudar. Quer se goste, quer não. O desafio é, portanto, ter a capacidade de escutar, não simplesmente ouvir, o que esse novo mundo tem a dizer. Sem preconceitos, sem radicalizações, sem ódios viscerais E, sobretudo, sem esquecer, que tudo na vida, como dizia o poeta, primeiro se estranha e depois se entranha.

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