Para todos os insulanos, o tema da mobilidade é doloroso no plano da relação política com o Estado. Há muito que o acompanho. Mas, cada vez mais, sinto-me incapaz de contribuir com uma opinião pela nebulosidade de todo o processo. Julgo que tudo ou quase tudo já foi dito. O problema assemelha-se a um cruzamento sem se saber que caminho tomar. O apogeu da conflitualidade e do esgrimir de argumentos foi atingido pelo líder da bancada parlamentar do PSD, na Assembleia da República, um tal Hugo Soares, ao lançar esta pérola: "(...) É justo que os vossos, os nossos impostos de portugueses que trabalham, continuem a subsidiar a viagem de pessoas da Madeira e dos Açores para o Continente, que não asseguram o cumprimento das dívidas para com o Estado?".
Não sendo politicamente conveniente ao Primeiro-Ministro repetir a asneira, competiu ao Hugo pegar no megafone e vai disto!
Podia eu, enquanto cidadão, contrapor se será justo, por exemplo, pagar dos "nossos impostos", vinte mil euros de assinatura de um canal de desporto ou onze mil euros para cabeleireiros visando a melhoria da aparência pública do elenco governamental. O que começa a ser difícil! Mas dou isso de barato. Não entro por aí, simplesmente porque baixaria ao nível do deputado (com letra minúscula). E isto porque não confundo um direito constitucional com situações de, presumo, paixão pelo futebol ou de embelezamento passageiro de figuras públicas. Nos dias de chuva até já nem pegam num guarda-chuva, pois há um funcionário que os conduz. Tudo isto tem muito de ridículo e de vaidade ostentatória!
Mas há perguntas que, julgo eu, estão muito para além das palavras e situações que vamos dando conta: afinal, neste processo da mobilidade, o que escondem e não revelam?
Estou certo que, o que se apresenta na frente dos nossos olhos de actores/observadores, não abarca questões históricas de pensamentos colonialistas, no quadro das então ditas "ilhas adjacentes", mas, sobretudo, parece-me exprimir um submundo de indescortináveis interesses e incompetências. Pessoalmente, não consigo lá chegar. Será por impotência do Estado, que demonstra incapacidade para impor à companhia aérea de bandeira as regras necessárias à consecução do direito constitucional, impedindo, por exemplo, tarifas, muitas vezes, mais agravadas do que para outros destinos internacionais? Será por um quase invisível lóbi dos operadores de viagens? Será porque o Estado, tradicionalmente, se mostra incumpridor dos prazos de liquidação das suas responsabilidades, ao contrário do que exige na sua relação com os cidadãos? Será, assim, tão difícil de provar, através do cartão de cidadão (naturalidade) e residência fiscal, que um dado cidadão vive e paga os seus impostos na região? E para que servirá a inspecção preventiva de actos ilegais e corruptivos?
Naturalmente, muitas outras perguntas podem ser feitas, só não aceito é que o madeirense e o açoriano tenham de subsidiar o Estado no acto da compra para ser ressarcido, depois, à custa de uma infernal papelada, desajustada e enervante. Disto o deputado Hugo nada sabe. Sabem e bem aqueles que vão aos CTT, perdem tempo e, bastas vezes, regressam com as mãos a abanar, porque faltou um papelinho ou porque a fotocópia, imagine-se, não estava totalmente legível. Ou, então, como já me aconteceu, depois de 40 minutos de seca, a funcionária levantar-se e assumir que não podia pagar reembolsos porque, "o dinheiro acabou"! E sabem também os que submetem a papelada através dessa maldita plataforma. E sabem aqueles que não dispõem de uma adequada literacia informática.
Por favor, tratem-nos com igualdade. A lata é tal que, depois, dizem-nos que se trata de um "subsídio social".
Ilustração: Arquivo próprio
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