Adsense

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Dos “Nem-Nem” ao “Mais do mesmo”


Por
Henrique Sampaio
Funchal Notícias



1. A escassos dias da 2ª volta das eleições presidenciais, pode dizer-se que a grande questão em aberto, é saber a dimensão da anunciada vitória de António José Seguro. Uma questão que não é de somenos importância. E que, a avaliar pelas sondagens e estudos de opinião, estará dependente da participação eleitoral: não só da maior ou menor abstenção, mas também do volume de votos em branco.
A circunstância da coligação governamental, quer no plano nacional quer regional, não ter visto o seu candidato (Marques Mendes) disputar o lugar em Belém determinou que quer o primeiro-ministro, quer os presidentes dos governos regionais dos Açores e da Madeira tenham anunciado a opção pela neutralidade na presente disputa eleitoral.

Uma opção que, naturalmente, tem significado político, desde logo porque é dado aos eleitores dessa área um sinal de que o voto num ou noutro candidato é indiferente, que não se trata de uma escolha relevante. Como se entre um democrata e um populista, entre um humanista e um xenófobo e racista, entre quem quer unir os portugueses e um outro que tem como bandeira o espalhar do ódio e da discriminação, não fosse necessário, clareza na escolha.
É, por isso, salutar constatar o leque abrangente de figuras da direita democrática e do centro-direita que se sentiram no dever de tornar claro o sentido do seu voto, face até ao desafio do candidato que almejava congregar os votos desse sector do eleitorado.

É que, ao contrário, do que porventura Luís Montenegro considerará, não é irrelevante o score que o candidato que invoca a necessidade de três Salazares obtenha no dia 8 de Fevereiro. Ou seja, se atingir ou ultrapassar a percentagem alcançada pela AD nas eleições legislativas nacionais de Maio de 2025 – é esse o seu grande objectivo para se autointitular líder da direita -, politicamente falando o primeiro-ministro e o seu governo ficarão mais fragilizados e simultaneamente o aludido candidato reforçará a ambição de o substituir em S. Bento.
Em sentido oposto ao posicionamento responsável tornado público pelas aludidas personalidades políticas, no espaço comunicacional têm surgido vozes e comentários – alguns totalmente previsíveis tendo em conta o respectivo currículo -, defendendo mais ou menos abertamente a opção pelo voto em branco, como foi, por exemplo, o caso do candidato apoiado pela Iniciativa Liberal, o que -assinale-se – não surpreende, já que o mesmo tinha admitido poder votar, numa 2ª volta, no candidato apoiado pelo Chega e haver no seu partido quem tenha como guru inspirador o presidente argentino Javier Milei.

No mesmo sentido, houve quem no plano regional, questionasse se a eleição de domingo “valerá o nosso voto expresso”, tendo chegado ao descaramento de escrever-se que, designadamente no plano europeu, “a eleição da direita mais radical não teve qualquer efeito nocivo no regime democrático” (!,sic). O que equivale a dizer-se que, para quem assim pensa, o governo húngaro é tão recomendável como qualquer outro e, por conseguinte, não vem mal nenhum ao mundo (neste caso ao nosso país) se os eleitores optarem pelo candidato da “ruptura”. Nada, aliás, que os deputados do CDS na Assembleia da República também, já, não tivessem afirmado. E, para compor o ramalhete, houve, ainda, tempo para o pai da “dívida oculta” regional vir a terreiro repetir a velha e gasta cassete da revisão constitucional, como se se tratasse de uma espécie de panaceia milagrosa para os males do rectângulo e dos arquipélagos insulares (a que não faltou sequer uma citação do «compagnou de route» do seu tio, o seu pai político). Em todo o caso, é sempre enternecedor ver dois ex-líderes partidários irmanados, mais a mais quando ambos se reclamam de «valores cristãos». É caso para dizer, se Cristo voltasse à terra, o que seria dos vendilhões do templo?!

2. Uma mudança na liderança de um partido pressupõe sempre uma mudança de rumo, principalmente se ocorre na sequência de uma sucessão de derrotas eleitorais, algumas das quais de profundo impacto.

Dirão alguns, que o que conta são as ideias, as mensagens, as políticas – que são, naturalmente, importantes.

Mas, manter rostos desse passado político, ainda por cima, em lugares de destaque, que imagem, que sinal, se transmite ao eleitorado? Uma imagem, um sinal, de credibilidade, ou uma espécie de «evolução na continuidade»? Quer-se crer que se pode aspirar a recuperar eleitores, mantendo o mesmo líder parlamentar e entregando, de novo, uma das vice-presidências do partido a alguém que é recordado no espaço público por ter protagonizado um episódio indigno em todo e qualquer lugar, mais a mais quando se exercem funções públicas?

Perante as decisões tomadas, há perguntas que importa fazer:

1) Trata-se da assumpção de que o que se pretende instituir é uma liderança de transição, quiçá, na expectativa de que aconteça uma espécie de milagre, ou seja, que a mesma água volte a passar por debaixo da ponte?;

2) A insistência no referido vice-presidente, significa o quê? Uma dependência de uma espécie de «sindicato de votos» ou algo mais grave ainda?
Seja como for, há dependências ou manutenções que são marcantes. Que são uma espécie de programa político, com tudo o que isso encerra e revela.

*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

Post-Scriptum: 
O retrato: Em quase meio século de existência, os sucessivos governos regionais, todos eles, maioritariamente da responsabilidade do mesmo partido, propagandearam sempre a imagem de uma espécie de modelo de virtudes. Isto é, nunca assumiram insuficiências, lacunas, procuraram fazer crer que vivíamos numa espécie de paraíso na terra. Volvido todo este tempo, salta à vista uma Região marcada por profundas desigualdades, muito à imagem da Madeira Velha que se dizia pretender esconjurar. O resultado não poderia ser outro, quando o poder político nunca assumiu as inúmeras carências sociais existentes, muito pelo contrário negando-as até, como repetidamente sucedeu com o problema da pobreza. Essa insensibilidade social revela-se nas designadas altas clínicas, na falta de lares, no drama da habitação. E, agora, na escusa de responsabilidade por parte da maioria dos enfermeiros do serviço de urgência do Sesaram.

Sem comentários: