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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SÍRIA


A narrativa ocidental sobre a guerra na Síria é simples – era uma vez um ditador chamado Assad contra o qual, em 2011, o povo se ergueu pedindo democracia; o ditador mandou prender, torturar e bombardear os rebeldes e aí começou uma guerra civil que dura até hoje. Uma guerra terrível, que já fez meio milhão de mortos e provocou milhões de refugiados – mais de metade da população, deixando um rasto de devastação e ruínas, a ponto de estar em causa a própria sobrevivência do país, agora retalhado em zonas de influência. O problema com esta narrativa é que ela não se sustenta inteiramente. Tem, é certo, elementos de verdade – Assad é um ditador, a perseguição aos opositores é terrível, havendo até suspeitas (como no caso de Saddam, no Iraque) de utilização de armas químicas contra populações civis. Mas esse esquema interpretativo deixa na sombra as razões mais profundas do conflito: o embate regional entre as duas grandes correntes do Islão – sunitas contra xiitas – e, tanto ou mais importante ainda, a luta pelos recursos energéticos da região.


O acordo a que chegaram Síria e Irão para construir um oleoducto para escoar o petróleo do Cáspio evitando a Turquia e concorrendo com os sauditas e os outros países do Golfo no fornecimento de petróleo ao Ocidente é apontado por especialistas como sendo uma das causas da guerra de que pouco ou nada se fala. Esse enquadramento explicativo simplista, embora possa funcionar até certo ponto em termos de grande público, tem, além disso, debilidades evidentes que não resistem a um olhar minimamente crítico. Se a questão é simplesmente uma luta da liberdade contra a ditadura, maus de um lado, bons do outro, como explicar que do lado dos “rebeldes” estejam alguns dos piores inimigos das democracias ocidentais – o chamado Estado Islâmico, a Al-Qaeda e a Al-Nusra? Se esta guerra é só e principalmente um confronto entre liberdade e ditadura, como explicar que do lado da democracia estejam regimes tão prepotentes como os da Turquia, Arábia Saudita e Qatar?
O facto dos Estados Unidos apoiarem os chamados “moderados” não muda o essencial.
Sim, os moderados existem, não são mera ficção – mas o núcleo duro das forças anti-Assad é outro – o Estado Islâmico e a Al-Qaeda. E alguém tem dúvidas de que se Assad caísse seriam estas forças e não os democratas que a curto prazo iriam prevalecer?
É manifesto que a opção americana nesta guerra – auxiliando os que querem derrubar Assad – deriva mais de concepções geoestratégicas sobre a correlação de forças que se pretende ver vitoriosa no Médio Oriente do que da defesa da democracia.
O que Washington pretende é um Médio Oriente em que os países do Golfo, fornecedores de petróleo e aliados dóceis dos ocidentais – a quem compram milhões de milhões de dólares em armamento – continuem a ser dominantes, contendo as ambições nacionalistas do Irão e da Síria.
Já com um pé na Síria, onde desfruta de uma base aérea e de acesso marítimo crucial para a sua frota no Mediterrâneo, por via dos acordos anteriores com o regime alauita, a Rússia preferiu jogar pelo seguro, apoiando financeira e militarmente Damasco.
A vitória obtida agora em Alepo, com a recaptura da cidade pelo exército sírio, estimula certamente Moscovo a prosseguir nessa via, desafiando assim os interesses americanos na região.

REACÇÃO DE WASHINGTON

Para Washington, pelo contrário, a retomada de Alepo por Assad foi sentida como uma derrota quase humilhante.
Certamente não por acaso, os liberais americanos recuperaram agora as acusações de interferência de Moscovo nas eleições dos EUA supostamente para favorecerem Trump em detrimento de Hillary. Nos media, pelo menos, o sentimento anti-russo atinge níveis só comparáveis aos piores anos da Guerra Fria.
Com isso, dá-se vazão à fúria pelo fracasso da política de Obama na Síria e ao mesmo tempo cria-se um clima tendente a dificultar ao máximo qualquer viragem na relação com a Rússia que o novo presidente possa – como já indicou – querer empreender.
Melhor seria, no entanto, que se retirassem do desastre da Síria – que se segue aos do Iraque, Afeganistão e Líbia – a lição que se impõe: as políticas neoconservadoras de caos criativo e “regime change” foram um completo fracasso, só se traduzindo em devastação e morte, com prejuízo evidente para as populações dos países envolvidos e consequências negativas para a velha Europa, onde vêm agora embater ondas sem precedentes de refugiados em fuga dos cenários de guerra que supostamente seriam o preço a pagar para democratizar os países árabes.
Está mais do que na hora de rever essa estratégia e essa grande mentira. Sob pena de se obterem resultados diametralmente opostos aos pretendidos – consolidação de regimes ditatoriais e reforço das posições da Rússia no Médio Oriente.
NOTA
Texto de Carlos Fino, Jornalista, publicado no Facebook.

quarta-feira, 16 de março de 2016

DA "GUERRA TOTAL" DO SÉCULO XX, PASSÁMOS À "GUERRA DA INSEGURANÇA" NO SÉCULO XXI


É um sofrimento diário, já aqui escrevi. Assistir, pontualmente, às 20 horas, ao contínuo êxodo de muitos milhares, oriundos de países inseguros, martirizados pela guerra e pela fome, é assunto que constrange, dói e nos massacra pela impotência de uma solução. Olhar para aquelas tendas, para aquele chão enlameado, para a chuva que persiste, já não bastasse as doenças que proliferam entre adultos e crianças, parte qualquer coração, mesmo os mais insensíveis. Olhar para aquelas crianças, de olhar terno, muitas de colo, vê-las em um sofrimento permanente, com pais sem meios para a necessária assistência, todos estamos de acordo que é doloroso em pleno Século XXI. É a falência das instituições internacionais, dos políticos e das políticas que dizem desenvolver, no seu mundo feito de palavras e de poucas acções concretas.


Com que raio de políticos temos de lidar e aturar, com as suas posições muitas vezes contraditórias, claramente subjugados a uma mancheia de interesses, entre muitos, os geoestratégicos, os da droga e os do próprio negócio das armas que alimenta a guerra que, curiosamente, dizem negar. Diplomacia? Qual diplomacia? Confrontamo-nos, sim, com a falência das instituições internacionais, que funcionam, claramente, atrás dos problemas. Gente com acrescida responsabilidade que dorme bem face aos conflitos que por aí proliferam. 

A miséria anda à solta e ainda falam em direitos do Homem e, insistentemente, nos direitos da criança. Espantoso. Atentemos no texto de Matilde Pereira (Renascença): "O conflito na Síria, que dura há mais de cinco anos, já resultou em 2,4 milhões de crianças refugiadas, provocou a morte de muitas e levou ao recrutamento de crianças para o combate armado. Algumas destas crianças-soldado chegam a ter apenas sete anos, segundo o relatório da UNICEF divulgado esta segunda-feira.

Cerca de uma em cada três crianças sírias nasceram depois do início do conflito há cinco anos, o que significa que as suas vidas têm sido moldadas pela violência, pelo medo e pelas deslocações, descreve o relatório “No Place for Children” (Um local que não é para crianças). Este número inclui mais de 306 mil crianças nascidas como refugiadas desde 2011. A UNICEF estima que mais de 80% da população infantil síria esteja a ser afectada pelo conflito. “Na Síria, a violência tornou-se uma prática comum, atingindo casas, hospitais, escolas, centros de saúde, parques, jardins infantis e locais de culto”, afirma, no relatório, Peter Salama, director regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África. “Perto de sete milhões de crianças vivem na pobreza – uma infância marcada pela perda e pela privação.” Este relatório da UNICEF verificou 1.500 violações graves praticadas contra crianças, incluindo mais de 60 casos de morte e mutilação resultantes do uso de explosivos em zonas de habitação. Destas crianças, mais de um terço foram mortas na escola ou a caminho da escola".


Isto, na Síria. E nos outros 414 conflitos identificados, quarenta e cinco dos quais "altamente violentos"? Perante o drama mundial, os senhores(as) da aldeia global  engravatados ou com lenços Channel, pouco têm passado das palavras. O dramatismo é sensível e a impotência da Europa, do "Velho Continente", como a História catalogou, é um facto. Da "guerra total" do século XX, hoje vivemos a "guerra da insegurança" e do medo. O nuclear assusta, o conflito entre etnias e religiões tornou-se dramático, as ideologias xenófobas preocupam, a luta pelo domínio dos combustíveis é assustador, enfim, são tantas as razões que conduziram a mais de 60 milhões de pessoas em todo o mundo deslocadas devido aos conflitos armados e perseguições diversas. Que Mundo este!

Ilustração: Google Imagens e Folha de S. Paulo

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

QUE MUNDO TERRÍVEL... NA SÍRIA AS CRIANÇAS MORREM A CAMINHO DA ESCOLA OU NA FILA PARA O PÃO!



Trata-se de um trabalho da jornalista Ana Dias Cordeiro que aqui deixo um excerto:
Na maioria, as crianças e adolescentes foram vítimas de bombas ou outras armas explosivas – mais de 7500 das mais de 10.500 mortes registadas em crianças, ou sete em dez crianças. Mas muitas – cerca de um em quatro crianças – não foram apanhadas pela violência, mas alvo dela. Em 389 casos, as crianças ou adolescentes foram mortos por atiradores furtivos (snipers); 764 foram vítimas de execução sumária, e entre estas, há registo de 112 mortes por tortura. A cidade de Alepo no Norte e o distrito de Dara, no Sudoeste da Síria, foram particularmente martirizados. “Aquilo que mais perturba nos resultados deste trabalho (Oxfam Research Group) é não só o número impressionante de crianças mortas neste conflito, mas a forma como foram mortas. Bombardeadas nas suas casas, nos seus bairros, durante as habituais actividades quotidianas, como ir à escola ou estar na fila de espera para comprar pão; mortas a tiro em fogo cruzado, alvos de snipers, vítimas de execuções sumárias, gaseadas ou torturadas”, diz Hana Salama, co-autora do relatório, citada no comunicado à imprensa disponível no site da instituição.