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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Como um país de 9,5 milhões de habitantes se tornou, por uns dias, “o centro” do mundo


Por

A derrota de Viktor Orbán significa, acima de tudo, um grande abalo nas fileiras do movimento MAGA de Donald Trump que, até ao último momento, lhe concedeu o máximo apoio.



No domingo, dia 12/04/2026, houve eleições parlamentares na Hungria, onde Viktor Orbán, o líder europeu que mais tempo serviu –16 anos – na União Europeia, averbou uma pesada derrota, saindo vencedor, com uma vitória expressiva, o conservador pró-europeu, Péter Magyar, que militara, durante anos, nas fileiras do partido de Orbán.

A derrota de Viktor Orbán significa, acima de tudo, um grande abalo nas fileiras do movimento MAGA de Donald Trump que, até ao último momento, lhe concedeu o máximo apoio, enviando inclusive o seu vice-presidente J.D. Vance, para participar e intervir na campanha, levando promessas de financiamento e apoio económico à Hungria, caso Orbán ganhasse, ou seja, a “receita” antes oferecida a Javier Milei da Argentina não surtiu efeito na Europa, tanto que agrupamentos extremistas europeus já se interrogam das vantagens das ligações ao Maga. Não será que as constantes “errâncias” de Trump descredibilizam aquilo em que se mete?!

Na realidade, segundo o jornal “Politico”, Orbán era tido nas hostes do Maga como “figura de destaque e precursor do seu movimento nacionalista cristão e anti-imigração”. Para Trump, um herói super-inspirador dos movimentos da extrema-direita mundial de que ele (Trump) se arroga líder supremo, o “Trump antes de Trump”, na designação de Steve Bannon, o primeiro guru ideológico do Presidente, o homem que, na Europa, tentou montar uma Universidade, para formar “dirigentes” para a máquina populista de extrema-direita, chegando a estar prevista arrancar em Itália, mas caiu por não autorizada.

A derrota de Orbán provocou, assim, fortes arrepios e sobressaltos por todo o mundo da extrema-direita e direita radical, daí o foco posto nos resultados destas eleições.

Os resultados eleitorais mostraram, da parte do povo húngaro, uma grande rejeição a Orbán. Essa, a grande questão que urge analisar. A corrupção continuada, visível, a concessão escandalosa de privilégios, institucionais e económicos, a familiares e gente amiga (empresários e novos empresários) dos membros dos governos terá, certamente, pesado mais que, propriamente, a gestão da política húngara, embora as duas muito se cruzem.

A vitória de Magyar foi saudada por grande parte dos dirigentes europeus, mas sobretudo com grande euforia da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Não se apreende bem o que isto significa, a não ser a expectativa de maiores facilidades quanto à Ucrânia.

Sem dúvida, algum desanuviamento soprará em Bruxelas, mas as relações tensas com Kiev irão permanecer, no imediato, pois Péter Magyar reconhece que não tenciona deixar de se abastecer do petróleo e gás russos, mais baratos, pois é necessário, diz, ter uma política pragmática que garanta o abastecimento das empresas e famílias húngaras. Deste modo, boicotes aos oleodutos que transportam energia da Rússia para a Hungria, através do território da Ucrânia, não serão aceites, pois apenas alimentam a insegurança interna no país. Aliás, nesta matéria sucederam-se grandes conflitos entre Bruxelas, Budapeste e Kiev não facilmente resolúveis, com dificuldades de intermediação de Bruxelas, sobretudo no caso recente do oleoduto Druzhba, ainda por resolver.

Esta posição de Magyar contrasta, em muito, com as sanções económicas que a UE tentou aplicar, desde os princípios da guerra da Ucrânia, hoje reconhecidas como erro, por grande número de analistas, pelos efeitos nefastos nas economias dos países europeus, designadamente, fazendo-os entrar em perda de competitividade (aumentos dos custos energéticos) e reflexos no custo de vida das famílias e na transição energética, pois fizeram activar centrais a carvão, por exemplo, na Alemanha. E, pior ainda, muitas destas sanções económicas não foram pensadas, tendo em conta os interesses globais da UE, mas em completa submissão aos EUA e, em seu benefício, ao substituírem grande parte do fornecimento da energia russa, a preços bem mais altos. Uma dependência por outra, com prejuízos para a Europa em toda a linha (desemprego e fecho ou deslocalização de empresas).

O que traz esta mudança política na Hungria à União Europeia?

Fora algum desanuviamento nos relacionamentos com Bruxelas e entre dirigentes, como antes se referiu, não é muito expectável que Péter Magyar vá trazer ideias novas de fundo, que venham dinamizar a União Europeia. Sabemos apenas que nas políticas de imigração em nada se distingue de Orbán. Vai tentar, certamente, animar a economia húngara, até porque Bruxelas terá de levantar a suspensão da entrega de fundos comunitários suspensos com Orbán, cuja aplicação dará alguma dinâmica à economia.

Mas, pouco acrescentará quanto a ideias em áreas estruturantes, a começar pela energia, sem dúvida, a mais determinante de todas, até pelas transformações de fundo de que a União Europeia precisa, para tornar-se a prazo uma potência mundial. É evidente que outras áreas importantes como a defesa, a IA, a digitalização, a política externa, o sistema financeiro, necessitam de ser repensadas nesse sentido.

A União Europeia para ser respeitada e credibilizar-se junto do Sul Global, que representa o mundo não Ocidente, a fatia mais substancial do Mundo Global e de maior futuro e, deste modo, ganhar prestígio e lugar de primeiro nível num mundo multipolar, precisa de ganhar posições próprias, corajosas e de enfrentar os EUA, sempre que necessário, pela diferença. Não é o que tem acontecido.

Em termos de política externa, faz falta acrescentar à UE vozes como a de Pedro Sánchez, com posições próprias, claras e independentes dos EUA. E não será isso que Magyar vai acrescentar. É apenas mais um a engrossar a corrente.

Pedro Sánchez tem sido, recentemente, o único dirigente europeu que condena, de forma clara, o genocídio levado a cabo por Israel em Gaza e agora no Líbano. Foi a única voz europeia que não se encolheu, condenando frontalmente a guerra que Trump e Netanyahu, a 28 de Fevereiro último, lançaram contra o Irão, a meio de negociações em curso.

A Europa ficou nas meias tintas, como sempre, quando não mesmo se apresenta como “várias” Europas. Não vou afirmar que a Europa apoiou a guerra contra o Irão, uma guerra que, segundo tudo indica, apenas serve a estratégia de Netanyahu no caminho para a sua Grande Israel.

A União Europeia teria sido consequente se tivesse denunciado a guerra e tomado medidas dificultando-a, como suspendendo os acordos comerciais com Israel e defesa como fez agora Meloni e, não endossar culpas ao Irão por ter atacado alguns países do Golfo, designadamente as bases americanas existentes nesses países, que começam a ser questionadas, em termos de eficiência, nos próprios EUA.

Por outro lado, a Espanha e a China estão a desenvolver uma aproximação estratégica e diplomática, com vista ao fomento de parcerias, com Pedro Sánchez nas suas intervenções a incentivar a Europa a caminhar nesse sentido, o que aos EUA não agrada, daí as ameaças das taxas com os dirigentes europeus, e estes sempre a encolherem-se, apesar de dizer que desejam autonomizar-se, nunca indo além das palavras.

À China, que pensa a prazo, agrada que este ambiente de clareza e confiança com a Espanha se consolide. Mas, não tenho dúvidas, que lhe agradaria bem mais, se tudo isto se processasse a nível da União Europeia – um caminho ainda muito longe e mais, se se imaginar estender a uma colaboração com os BRICS.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Democracia vs Autonomia


Por
Henrique Sampaio
Funchal Notícias

A 22 de Abril de 1994, no prefácio que escreveu para a 2.ª edição da «Carta a um Governador», António Loja, na qualidade de primeiro subscritor do documento entregue em Maio de 1969 ao governador civil do então designado distrito autónomo do Funchal, sublinhava “(…) já então, o problema da ligação necessária entre a Democracia e a Autonomia estava claramente definido como essencial, tal como continua a estar nos nossos dias. Enquanto sentirmos que a Democracia é imperfeita a Autonomia será insatisfatória porque pode transportar dentro de si os germes de perigosos poderes pessoais; por outro lado, enquanto subsistir a ideia de que a Autonomia não é eficaz, fica a certeza de que a Democracia é inoperante e, deste modo, existe sempre o risco de ser posta em causa”. E, noutro passo, desse prefácio, António Loja acrescentava: “Talvez para alguns esta seja a Democracia com que sonharam e esta seja a Autonomia que desejaram. Mas parece-me perfeitamente legítimo que outros não pensem assim e que vivam na convicção permanente de que o essencial está por fazer, que a luta pela liberdade e pela dignidade humana é de todos os dias e que o futuro exige mais de todos nós”. Ou seja, então, como em 1969, António Loja entendia que a Democracia e a Autonomia eram indissociáveis.



Uma leitura assaz pertinente, tanto mais que é, precisamente nessa década de 90 do século passado, que Mário Soares, na sua qualidade de recandidato à Presidência da República, procede à denúncia do que classificou como existência de défice democrático na Madeira. Uma denúncia que António Guterres, na condição de candidato a primeiro-ministro, retomaria nessa mesma década.

Pelo meio, como é do domínio público, Almeida Santos, politicamente próximo de Soares e de Guterres, predispor-se-ia a participar num programa televisivo denominado «Fogo Cruzado», contribuindo dessa forma para branquear a figura do principal visado na denúncia do referido défice democrático, o então presidente do governo regional. Esse facto, aliado à circunstância de, na sequência da vitória do PS nas eleições legislativas nacionais de 1995, uma série de ministros e secretários de Estado, aquando de deslocações à Madeira, terem distribuído elogios em catadupa ao governo regional em exercício, representaria um evidente sinal de que tal denúncia, limitara-se a ser meramente instrumental. Ou seja, o PS nacional usou-a na luta política, e rapidamente colocou-a na gaveta, o que, não significava, porém, que não existissem razões de sobra para mantê-la na agenda.

Anos volvidos, já no presente século, no reinado de José Sócrates, Paulo Rangel acusaria o PS no governo de “claustrofobia e de asfixia democrática”, por no seu entender estar em curso um ataque sem precedentes à comunicação social.

Sendo certo que na actividade política, a tendência é sempre para facilmente detectar o mal no quintal do adversário e só vislumbrar virtudes no seu espaço partidário, como classificar, em matéria de direitos, liberdades e garantias, a governação protagonizada pelo seu correligionário a que um insuspeito jornal espanhol atribuiu o epíteto de «campeão português do insulto»?

Ao que parece, está em curso um determinado unanimismo regional no sentido de procurar obter um entendimento em matéria de revisão constitucional no que concerne à temática das regiões autónomas, ou se preferirem da autonomia, nomeadamente no que se refere à clarificação dos respectivos poderes e competências.

Parece até que há quem tenha entrado em êxtase pelo simples facto do tal «campeão» ter tecido um alegado elogio público, como se, quem passa a vida a dizer mal de tudo e de todos, menos, é claro, dele próprio, pudesse ser digno de confiança….

Ora, tendo em conta esse passado, distante, mas próximo também, seria ajuizado que a designada oposição antes de fazer coro no tal unanimismo, não se esquecesse das condições do exercício da sua própria actividade política, de promessas nunca cumpridas, no âmbito, por exemplo, das incompatibilidades e impedimentos e do funcionamento do primeiro órgão de governo próprio da Região, o seu parlamento. E que, legitimamente, condicionasse um tal acordoa alterações nesses domínios.

Não o fazer, seria, convenhamos, um erro de palmatória. E uma prova de total ingenuidade política.

* por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.