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quinta-feira, 18 de junho de 2026

As curvas que a soja tem dado… e continua a dar


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

Para a China, a soberania alimentar constitui uma peça basilar da sua política, construída na conjugação de relações intersectoriais concretas. Neste sentido, a soja, pelo desempenho nessas múltiplas relações, tornou-se um eixo extremamente importante.



A soja começou a ser cultivada na China para consumo humano, há 5000 anos, tendo dominado a produção mundial até à década de 1930. Desde aí, deu tantas voltas com dinâmicas tão variadas, passando a China, em tempo relâmpago, de maior produtor a maior importador mundial. Alterações, como estas, não acontecem, sem profunda mossa (económica, política e social) e sem choques de estratégias (ou até guerras) entre países, sobretudo, quando o “domínio do mando político” é ou pode ser muito “beliscado”.

Em menos de um século e, designadamente, após a Segunda Guerra Mundial, a soja rompe com os usos tradicionais, seguindo caminhos para além da alimentação, integrando-se como input (matéria prima) em fileiras complexas de produção, onde se destacam o óleo e lubrificantes, as farinhas alimentares, os alimentos compostos para animais, a indústria farmacêutica, …, tornando-se, assim, uma das commodities agrícolas de maior “folego” e, neste contexto, desencadeando rivalidades e mudanças geopolíticas entre as grandes potências mundiais, com destaque para a China e Estados Unidos, mas não deixando de atingir países como o Brasil, a Argentina e alguns estados europeus, debilitados na Segunda Grande Guerra.

Estas alterações tão rápidas da geopolítica da soja iniciaram-se, no essencial, com os EUA que, com a Segunda Grande Guerra, reforçaram ainda mais o seu papel motor na economia mundial, que, de forma pronunciada, já se tornava notória desde os anos 30.

Japão captura a Manchúria

Era a zona da Manchúria quem dominava a produção e as exportações de soja. Mas, no período antes da Segunda Guerra, com a invasão e ocupação pelo Japão começa a saga da mudança do circuito da soja, primeiro desviada para os interesses japoneses, privando os EUA do acesso privilegiado que tinha até então e, neste contexto, um processo de deslocalização da produção veio a colocar o continente americano em primeiro plano, com destaque para os Estados Unidos.

Por outro lado, a industrialização da China, integrada numa vasta reforma económica, vem acelerar esta dinâmica. O processo de industrialização absorve muitas áreas do campo chinês, subtraindo muitos hectares para urbanismo (implantação de cidades), implantação de zonas industriais, desenvolvimentos de infraestruturas (aeroportos, estradas, caminhos de ferro, portos), não podemos esquecer as zonas económicas especiais “um só país, dois sistemas” e o seu forte impacto nestas alterações. Não podemos deixar, ainda, de referir que, desde meados dos anos 1980, a China construiu mais de 50 grandes aeroportos pelo país todo.

Mas, o campo chinês não só perde superfície agrícola cultivável, perde sobretudo pessoas. Durante um certo período, as perdas para as cidades e zonas económicas especiais foram da ordem dos 15 milhões de camponeses por ano, mudando os seus hábitos sociais, onde o tipo de alimentação se transforma, a pouco e pouco, numa outra realidade, mais exigente e diversificada, onde a procura de carne, por exemplo, começa a ter um aumento fortíssimo.

A China de país de camponeses passa, num período curtíssimo, a país de trabalhadores de indústria, serviços e de trabalhadores intelectuais.

Estados Unidos, o maior produtor de soja

Tudo isto conjugado, leva a que os EUA se transformassem no maior produtor mundial de soja para satisfazer as suas necessidades e exportação, com a China a abandonar cada vez mais a produção e a abastecer-se no estrangeiro, por razões várias, entre elas, a produtividade.

Com a redução da área de terras de cultivo, houve que fazer opções e a China escolheu produzir trigo e milho, por a produção por hectare ser mais elevada e rentável até pela água que se tornava escassa, reduzindo a produção de soja, apesar do aumento do consumo. Neste processo acelerado de industrialização, deslocalizar a produção de soja era a solução mais indicada.

Porém, por volta do ano 2000, com a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC), o mercado agroalimentar chinês torna-se ainda bem mais aberto e deficitário. A soberania alimentar começou a acusar indícios de fragilidade, devido à elevada dependência no abastecimento de soja para alimentação da sua pecuária exigente devido ao alto consumo de carne sobretudo de porco. O défice da balança alimentar atinge níveis preocupantes e a estratégia entra em revisão, não só pelos valores importados, mas sobretudo pelos perigos da elevada concentração de fornecedores, em que os EUA assumem um lugar de destaque.

É evidente que a China soube “jogar”, sobretudo, nestes últimos tempos, com a importação de soja para responder às tarifas de Trump, desviando drasticamente as importações para o Brasil, afectando, de forma contundente, os produtores de soja americanos, na sua maioria republicanos, criando desta forma sérios problemas políticos a Trump, que teve de entrar na subsidiação e na negociação com a China, sendo o desbloqueamento um dos temas cruciais da recente visita a Pequim.

Afinal, não foi só com o argumento das Terras Raras que a China avançou para o terreno da “guerra económica”, levando ao recuo de Trump nas tarifas. E, nestas guerras, ganha quem é ousado e mais preparado.

De novo, a China em mudança

A China defende que as indústrias Agro, encaradas em termos de soberania alimentar, estão ao mesmo nível da soberania da defesa do país. Nesse contexto, há que posicioná-las na situação da menor dependência possível ou num grau de dependência controlável.

A situação presente oferece fragilidades. Por exemplo, o défice actual da balança comercial agrícola é da ordem dos 124 mil milhões de dólares, sendo as empresas fornecedoras demasiado concentradas num leque reduzido de países. Um problema básico de soberania alimentar a resolver.

O governo avança por dois caminhos para a sua solução, estando já a implementá-los.

Um, o desenvolvimento de estufas para a redução de produtos vegetais importados, sobretudo os provenientes dos trópicos como, por exemplo a banana, estufas estas geridas, mediante o recurso a instrumentos de inteligência artificial.

O outro e o mais determinante consiste na redução da sua dependência das proteínas vegetais de origem do Continente americano, designadamente dos Estados Unidos e Brasil, onde a importação de soja tem um peso muito específico.

Como pensa a China resolver esta questão? Já está em linha o lançamento de um processo para a produção de proteínas microbianas em que a China domina, hoje, 70% do mercado mundial. Ora, isto leva a que, num prazo de 15 anos, as importações chinesas dos EUA se reduzam de 86% e do Brasil 36%.

Esta estratégia leva a uma grande revolução do mundo da soja, designadamente ao nível dos países fornecedores, para além de acicatar a sempre presente disputa tecnológica entre China e EUA, uma das questões de maior confronto competitivo no presente e em que a China, em vários domínios, está a conquistar terreno.

Para a China, a soberania alimentar constitui uma peça basilar da sua política, construída na conjugação de relações intersectoriais concretas, (logísticas, comerciais, financeiras, tecnológicas e políticas), pelo que a soja, pelo desempenho nessas múltiplas relações, se tornou um eixo deveras importante a nível interno e com efeitos estruturantes ou desestruturantes (consoante o ângulo da análise) na economia mundial.

domingo, 14 de junho de 2026

PACOTE LABORAL - "DEIXEM OS TRABALHADORES EM PAZ"


Tenho por assumido, depois de tantas vezes ouvir a Senhora Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Doutora Maria do Rosário Palma Ramalho, que lhe falta no seu currículo de vida, as vivências do mundo empresarial e o conhecimento sobre as razões da pobreza. Dá-me a entender que se guia pelas percepções ideológicas que a esmagam e não pelo estudo sistemático profundo daqueles dois quadros. E como, pela sua práxis, denuncia que não os domina, assuntos, aliás, que a Cátedra não lhe despertou, deixo aqui, em contraponto à sua efervescência sobre o Pacote Laboral, uma singela frase do empresário José Teixeira, líder do Grupo DST, com sede em Braga: "Deixem os trabalhadores em paz".



De facto, o problema da produtividade, do crescimento e do desenvolvimento não se resolve nem com o designado "Pacote Laboral", tampouco com a "Prestação Social Única". Para melhor entendimento sobre esta personagem, feita ministra, gostaria de perceber, no espaço de um Portugal pobre, mas, anacronicamente, com muitos ricos, o seu pensamento relativamente às carências sociais e de tudo o que se encontra a montante do trabalho. Concretamente o que ela pensa sobre a pobreza, os pobres, todas as iliteracias e debilidades na formação profissional!

Ora bem, a curiosidade daquela empresa é que o seu líder considera que a variável que mais influencia a produtividade é a Cultura. Logo, é na organização de uma escola formadora para a vida que se encontra o nó górdio do problema. Uma escola que traga no seu seio, não um enciclopedismo bacoco, mas os pressupostos do trabalho, a competência, o rigor, a disciplina, a ciência, o conhecimento, a inovação e a criatividade.

O Engenheiro José Teixeira assumiu: "não somos de enriquecer, mas somos de criar riqueza". Daí, "deixem os trabalhadores em paz", disse. E, já agora, tão bom seria que a Senhora Ministra descesse às históricas causas da pobreza para daí partir para soluções portadoras de futuro, compaginadas com o malfadado sistema educativo. É que eles, os pobres, não são causa, são a consequência da ausência de lucidez e engenho político. Uma melhor produtividade leva anos a ser construída, é multifactorial Senhora Ministra, portanto, não é pelo que circunstancialmente lhe parece que a economia crescerá e se tornará robusta. Tenha presente o que, há dias, assumiu o Professor Sampaio da Nóvoa: "Ensinar e Aprender não são Educar".

Mas disto, nada sei. Apenas tenho uma opinião. A Senhora Ministra é que sabe! Mas lá diz o engenheiro que o erro está no facto dos líderes (políticos) "pensarem que sabem o que as pessoas pensam, sem lhes perguntarem (...)". É isso!

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Dever de memória


Por 
Henrique Sampaio
Funchal Notícias

Quem me conhece, sabe que a minha grande paixão foi, sempre, o jornalismo. Um jornalismo entendido como exercício de cidadania, na perspectiva de quarto poder, independente, por conseguinte, dos demais poderes. Uma paixão que começaria na juventude, na 2ª metade da década de 60, aquando da passagem, no Funchal, pela Juventude Operária Católica, escrevendo curtos textos numa folha policopiada em stencil e no órgão mensal da organização, “Juventude Operária”, e que se intensificaria com a aproximação estabelecida como semanário “Comércio do Funchal”. Uma ligação que prosseguiria no pós-25 de Abril quando em 1975, entre 15 de Janeiro e 25 de Novembro, fui redactor do Emissor Regional da Emissora Nacional e correspondente do vespertino “República”.



Foi esse gosto, esse prazer pela escrita que me levaram, em finais de 1987, a candidatar-me a um concurso destinado à admissão de jornalistas que a empresa D. N., Lda., propriedade do “Diário de Notícias” do Funchal, então promoveu.

“Diário de Notícias”, com quem, aliás, já colaborava, nomeadamente através do suplemento «Domingo», coordenado pelo jornalista Tolentino de Nóbrega, no qual, a partir da edição de 22 de Novembro de 1987, era responsável pela rubrica «A semana vista por …», em que comentava a actualidade, nas suas três dimensões: regional, nacional e internacional.

Tratou-se de um concurso, sujeito a provas de selecção e que culminou com uma entrevista com o psicólogo dr. Agostinho Trindade de Sousa, que, por sinal, na segunda metade da década de 60, sucedera ao dr. José Manuel Paquete de Oliveira, na chefia de redacção do “Jornal da Madeira”, que, no final, disse-me não ter dúvidas que reunia as condições para poder ser admitido como jornalista no «DN», mas que, naturalmente, a decisão competiria à respectiva Administração e Direcção.

Tinha sabido, entretanto, que fora dos melhores classificados do concurso, bem como que estavam a ser ouvidas pessoas para eventual admissão como jornalistas no «DN», sem que tivesse sido chamado.

Contactado o então Director-Geral da empresa D.N., Lda., dr. José Câmara foi-me dito que o meu nome “havia sido excluído por decisão do Director do «Diário de Notícias», Sílvio Silva e que o mesmo havia acontecido com, pelo menos, mais duas pessoas”.

Inconformado com a exclusão, expressaria o meu descontentamento e protesto através de carta dirigida a Richard Blandy, presidente do conselho de administração da citada empresa que, em resposta, invocando a “Lei da Imprensa”, referiu que “compete ao Director a orientação, superintendência e determinação do conteúdo do periódico” e que “não pretendia imiscuir-se nas tarefas que não lhe dizem respeito, como a escolha de pessoas para o exercício de funções de jornalista do Diário de Notícias”. Nessa missiva, datada de 3 de Junho de 1988; Richard Blandy fez ainda questão de acrescentar: “Esta empresa como privada que é, norteia-se por objectivos comerciais legítimos, não faz política, nem se deixa condicionar por pressões exteriores que possam alterar os seus propósitos”.

Aqui chegados, permitam-me um parenteses: esta história, contada na primeira pessoa, ao contrário do que o leitor possa estar a pensar ou a interpretar, não tem como objectivo contar um episódio da minha existência, mas, a partir dele, demonstrar como, ao longo de dezenas de anos, foi construída uma Região que, passados 50 anos, está muito distante de poder ser apresentada como modelo de virtudes.

Mas, para completar esta história pessoal, há ainda factos adicionais:

A rubrica «A semana de …» terminaria a 3 de Abril de 1988. Uma semana antes (Suplemento «Domingo» de 27/3/88), analisando a actualidade regional, designadamente a posição do Governo Regional face à greve geral contra o pacote laboral do governo de Cavaco Silva tinha escrito (cito): “(…) tal como lá, o Governo Regional viu-se na necessidade de tentar desmobilizar os trabalhadores, chegando ao ponto de afirmar que aderir à greve «é atrair sobre si as atenções», o que convenhamos constitui uma forma de intimidação”. Em consequência, sou informado que deixaria de poder escrever sobre matérias de âmbito regional e nacional. E em sinal de gratidão, a criatura que se auto intitularia de «único importante», em entrevista publicada no «Jornal da Madeira» de 1 de Maio desse ano, afirmava: «o DN está muito bem entregue» (sic)!.

A 9 de Janeiro de 1989, Jorge Figueira Silva, advogado da empresa Blandy, militante do PPD, sucede a Sílvio Silva na direcção do matutino madeirense.

E o autor destas linhas que voltara a colaborar no aludido suplemento publicando dossiers vários e entrevistas com vultos de diferentes áreas da sociedade portuguesa, um dia dirige-se à redacção do «DN» e pede para falar com o novo director. A conversa decorre no último andar das instalações, à época situadas na Rua da Alfândega, 8. Tinha como intenção retomar a publicação de textos de opinião. O dr. Jorge Figueira da Silva diz-me que, para já, só se forem de análise internacional. E coloca ainda uma outra condição: arranje um pseudónimo. Questionado sobre o porquê, e apontando para as janelas do referido andar (onde ao longe se podia visualizar a zona onde se situa a denominada Quinta das Angústias, sede da Presidência do Governo), disse-me: «Você não imagina as pressões, os telefonemas que recebo aqui, todos os dias!».


O gosto, a paixão pelo jornalismo levou-me a aceitar escrever apenas sobre assuntos de carácter internacional, recusando, porém, fazê-lo através de pseudónimo. Recorri aos nomes do meio do meu próprio nome e assim, em Novembro e Dezembro desse ano de 1989, no diário que se reclama de «independente», lá estão alguns artigos da autoria de um tal de Henrique Fernandes (para quem não sabe, o meu nome completo é António Henrique Fernandes Sampaio).

A obsessão do ex-destacado colaborador do «Voz da Madeira» pelo controle da comunicação social começara desde cedo, ainda como líder parlamentar. Uma das primeiras medidas apresentadas, no início da 1ª sessão legislativa da Assembleia Regional, eleita na sequência das eleições de 27 de Junho de 1976, foi precisamente a de uma proposta de criação de uma denominada «CIRCE – Comisao dos Interesses Regionais na Comunicação Estatizada», cujo objectivo era o de, com base na representatividade eleitoral, interferir e condicionar o exercício na Região da actividade dos emissores regionais da rádio e televisão – a proposta não passaria no crivo da então Comissão Constitucional, mas, como é por demais evidente, a intenção de controlar, domesticar e manipular a generalidade da comunicação social nunca foi abandonada, constituindo um desiderato fundamental da futura governação.

A história da Madeira foi profundamente marcada pelo secular regime de colonia, assente num regime de subserviência, de servilismo, de completa dependência do caseiro relativamente ao senhorio.

O regime seria oficialmente extinto em 1977, pondo termo a essa sujeição.

A canga, contudo, não foi eliminada. Permaneceu com outras roupagens e protagonistas.

A autonomia conquistada foi capturada por um partido e em particular pela personagem que o bispo Francisco Santana catapultaria para o exercício do poder. E em lugar desses senhorios surgiu o grande senhorio que ao mesmo tempo que reclamava de Lisboa mais autonomia centralizava em si todo o poder. Ameaçando e ostracizando quem não se submetia à sua omnipotente vontade. Insultando e perseguindo adversários políticos e simples cidadãos. Aliciando pessoas e instituições. E criando, em simultâneo, um gigantesco polvo, cujos tentáculos cobriam (cobrem) todas as áreas e sectores da sociedade regional.

É, por isso, insultuoso que quem edificou esta gigantesca canga, tenha a suprema lata de perorar sobre «Bem Comum», «Liberdade», «Valores», «Primado da Pessoa Humana».

A democracia tem regras. Não é o reino do vale tudo. Não se define apenas pela realização de eleições livres. Implica separação de poderes (legislativo, executivo, judicial).

Uma alegada «democracia musculada» não passa de uma caricatura de democracia.

Quem acompanha de perto a política internacional conhece, por exemplo, os nefastos efeitos de uma governação como a de Victor Órban na Hungria ou da passagem pelo poder de Donald Trump nos EUA.

Ora, num território como o da Região ou numa população de 250, 260 mil habitantes, uma governação, exactamente com essas mesmas características, produz consequências incomensuravelmente bem mais gravosas, tanto mais que foram disseminadas ao longo de dezenas de anos.

E elas estão à vista, para quem queira ver. Uma sociedade onde predomina a apatia, o acomodamento, o servilismo, o medo.


* por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.