A avaliar pelas primeiras conclusões, talvez se possa dizer que se tratou de dinheiro perdido nessa pressuposta investigação sobre a pobreza regional. Com que então "onde há muito turismo há mais pobreza"! Esta uma conclusão sumária do padre Agostinho Jardim Moreira, vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza e responsável por um estudo realizado na Região, para perceber as razões mais substantivas dos quase 30% de pobres na Madeira. Segundo li esta manhã, "(...) foram 21 meses de trabalho intenso para que este ambicioso estudo pudesse aplicar os instrumentos de investigação previstos e devolver à sociedade e aos parceiros da RAM um melhor conhecimento sobre a pobreza neste território". Intenso trabalho, sublinho!
Ora bem, não era necessário um estudo externo sobre este drama. Bastaria que os governantes tivessem memória, fossem verdadeiros, deixassem a hipocrisia política e utilizassem os meios ao seu dispor para acompanhar, estudar e desenvolver políticas estruturantes de combate a este flagelo social. Repito, tivessem memória. Infelizmente, nada retiveram ao longo do tempo.
Há quinze anos assisti a uma conferência do Doutor Alfredo Bruto da Costa (1938/2016) que esteve na Região para abordar as questões da pobreza. Anotei que, num estudo nacional, realizado entre 1995 e 2000, nesse intervalo de seis anos, o investigador tinha concluído, reparem bem, que 80% dos madeirenses tinham passado durante dois ou mais anos por uma situação de pobreza; que 30% viviam em pobreza regular, dos quais 15% em pobreza persistente. Sublinhou, então, que a "armadilha da pobreza era a armadilha das desigualdades" e que "(...) tudo o que fosse combate à pobreza mantendo o padrão da desigualdade" não tinha sentido, pois apenas mantinha tranquila uma parte da consciência política. Disse mais: que não se pode cair no círculo vicioso de que "os pobres são pobres porque são pobres", antes "os pobres são pobres porque os ricos são ricos". O investigador que, para além de notável académico foi Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, instituição ligada à Igreja Católica, teve a resposta do PSD, enxovalhando-o e apelidando-o de comunista, gonçalvista e de outros epítetos.
E porquê? Porque havia que manter a ilusão da prosperidade da "obra pública" como se a negação da pobreza pudesse ser medida em função das toneladas de cimento ou pelo número de viaturas em circulação. Tenho presente, na Assembleia Legislativa, as palavras de um secretário dos Assuntos sociais: que a pobreza na Madeira rondaria os 4%, mais tarde corrigida pelo presidente do governo de então para um valor entre os 8 e os 10%. O secretário chegou a enaltecer que a Madeira tinha menos pobres que a Suécia (9%). Espantoso, não é?
Depois, também tenho presente, a luta do Dr. Bernardo Martins, no plenário e em sede de Comissão dos Assuntos Sociais da Assembleia, em Julho de 2011, através da apresentação de um Projecto de Resolução, que estipulava o ano 2012 como o Ano Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social. Esse projecto foi chumbado pelo PSD, da mesma forma que, durante anos, o governo, através dos seus deputados, tudo fez para bloquear a criação do Banco Alimentar Contra a Fome (propostas do PCP e do PS). Eu conheço a trama porque, juntamente com o Dr. Bernardo Martins, tive uma reunião, em Lisboa, com a Drª Isabel Jonet, Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares. Inclusive, Bernardo Martins, face à intransigência do governo da Madeira, já em 2010 tinha proposto um estudo sobre a realidade da pobreza na Madeira. Em vão, infelizmente. E também tenho presente que o ex-Presidente do Conselho Directivo do Centro de Segurança Social da Madeira, Dr. Roque Martins, foi demitido por ter dito a verdade factual sobre a pobreza na Região.
O estudo agora apresentado surge, assim, com muitos anos de atraso e sejam quais forem as conclusões e as propostas daí resultantes, tenho por certo que a hipocrisia política perdurará mais algum tempo. O governo não me parece que seja portador de uma ideia estruturante nas várias áreas e domínios. Há uma mentalidade que subsiste. Ainda em Outubro de 2023, a actual presidente da Câmara do Funchal, Drª Cristina Pedra, este é um mero exemplo, recusou a existência de pobreza extrema na Madeira dizendo que o País e a Madeira, "estão bem longe da tristeza que é a falta de rendimento" (...) na Madeira não é preciso roubar para comer" (...) porque "há uma rede integrada de associações e entidades" que garantem refeições em lugares condignos. (Dnotícias, página 13, 21.10.2023).
Com aquelas declarações, a Drª Cristina Pedra clarificou o seu posicionamento que constitui o pensamento vigente: desde que haja uma rede que, digo eu, esconda a pobreza extrema ou não, desde que se disponibilizem uns apoios financeiros, desde que o associativismo possibilite umas salas, mesas, cadeiras e umas refeições, tudo com dignidade, o drama da pobreza fica resolvido ou atenuado e a consciência política tranquilizada. Ora, em circunstância alguma, devemos adoçar as asperezas da vida e a dignidade do ser humano. As questões sociais devem ser encaradas com a máxima frontalidade e de forma nua e crua. E nunca foram.
"(...) Não é de migalhas que os excluídos precisam. A esmagadora maioria precisa de um pensamento económico estruturado que torne mais igual o que é estruturalmente assimétrico e dependente; a esmagadora maioria dos pobres não precisa quem lhes venham dizer que "têm de tomar a cana em suas mãos e pescar", quando o pensamento político rouba-lhes as canas, as linhas, os anzóis e o próprio isco em benefício de alguns que conhecem bem os corporativismos, os subtis "monopólios", as "fortunas mal explicadas", os interesses partidários e, sobretudo, as teias e os labirintos dos vários poderes; a esmagadora maioria precisa de uma escola para a vida e não de uma escola que, sorrateiramente, promova a triagem fazendo-os desistir; a esmagadora maioria precisa de salários decentes que evitem a rua, a mão estendida à caridade (palavra que me irrita), a vergonha e o assistencialismo que cresce à vista desarmada; a esmagadora maioria precisa de uma cultura e mentalidade que a escola e a família não disponibilizam; a esmagadora maioria necessita de políticos que não olhem para a eleição seguinte, mas para a geração seguinte". - in blogue, da minha responsabilidade: www.comqueentao.blogspot.com (21.10.2023).
Respeito e muita consideração nutro pelas mais diversas instituições que combatem a pobreza, de dia e de noite, respeito o notável trabalho das paróquias que matam a fome e esbatem casos muito sérios de carências várias, mas entendo também que não é pela via do penso rápido da "caridade" que os problemas se resolvem. É pela via política, com deliberações que "dêem o peixe mas também a cana", em simultâneo, como salientou o Professor Alfredo Bruto da Costa. A "caridade" deve ser o fim da linha, o ataque às margens, para quem mergulhou tão fundo que experimenta dificuldades em se erguer. A caridade não resolve, a prazo, problema algum, apenas se destina a esbater os erros dos políticos.
Disse Amartya Sen, Nobel da Economia em 1998: "Um Homem com fome não é um Homem livre". Será que interessam as múltiplas fomes?
Ilustração: Google Imagens/Dnoticias
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