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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Frei Bento Domingues - "Eu vivi sempre no espanto"

 

Segui a entrevista do Frei Bento Domingues com a jornalista Fátima Campos Ferreira (RTP1). Da sinopse do programa "Primeira Pessoa": "É considerado um dos maiores teólogos portugueses, um homem da Igreja Católica, ainda que por vezes crítico de hierarquias clericais. Em Primeira Pessoa, Frei Bento Domingues revela o seu lado mais intimista num momento raro em televisão.Frei Bento Domingues é uma voz profética e um cultor da liberdade. Uma pessoa que nos interpela e provoca sobre a existência humana no melhor sentido da verdade. Natural de Terras de Bouro, vive hoje no Convento Dominicano, em Lisboa". Deixo aqui uma série de passagens que me entusiasmaram na perspectiva de pensar para além das palavras ditas.



Liberdade de pensamento

Um dia convidaram-me para docente na Universidade Católica. Perguntei: você garante que eu posso exprimir-me livremente? A resposta: Isso não posso. Então, não vou. As pessoas esquecem-se que o Evangelho deve fermentar a cultura contemporânea.

O Pensamento e a Economia

Relativamente ao pensamento próprio e aos condicionamentos impostos aos clérigos: "(...) havia um julgamento anti-modernista que visava repudiar tudo o que era moderno. Eu não podia aceitar. Entre outros aspectos, falta, por exemplo, "pensamento económico. Falta fazer uma revolução sobre o ensino da economia. Acho que devia haver uma insurreição pacífica no sentido de uma liberdade criadora".

A Igreja e a pedofilia

"Eu acho que as pessoas que tinham essa tendência sexual em relação às crianças, fizeram-se padres a pensar na clientela (...) ordenações que não foram verdadeiras".

A Igreja e os mitos

"Eu vivi sempre no espanto (...) a religião primitiva está cheia de mitos, de histórias, de insistência no pecado, no castigo, no inferno ou então pelo Céu, mas que tinha de passar pelo purgatório bem duro. Eu não admito que se assuste ninguém. Para mim, a religião é alegria."

As fórmulas teológicas

Sobre as crises de fé: "Eu tive crises nas fórmulas teológicas. Por exemplo, todas as narrativas da Ressurreição dizem que Cristo está vivo. São as mulheres que o dizem. Pertence ao núcleo da fé Cristã a emancipação das mulheres. A Teologia é o desfazer dos equívocos que impedem as pessoas de uma limpeza da inteligência."

O Mundo em mudança

"A questão é ter ouvidos e ter olhos para ver o Mundo em mudança... e ter uma proposta. A tentação da Igreja é dizer que está na posse da verdade (...) O Papa João Paulo II disse que o caminho da Igreja é o caminho da Humanidade".

Prazer e pecado

"As pessoas em tudo viam pecado. Ligou-se prazer e pecado. Não tem nada a ver. Pecar é estragar, estragar a vida humana uns aos outros. A Palavra (expressão) que eu acho mais importante na pregação humana é esta: em que eu posso ajudar" (...) "A dignidade humana é a verdadeira religião. Aquilo que é o teste da autenticidade religiosa é o teste da autenticidade da fraternidade".

Papa Francisco

Eu tenho uma alegria que é a de viver na época em que apareceu Francisco, porque é um Homem dos mundos e a sua convicção Cristã é de abertura ao universal".

Legados

"Eu não tenho legado nenhum. Tenho sempre a sensação da ignorância."

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 8 de maio de 2022

Bons pastores


Por
Público
8 de Maio de 2022

Repetir que o ser humano concreto, em todas as suas coordenadas, é o primeiro caminho da Igreja ou acusar a Igreja de atraiçoar o seu próprio programa não leva a lado nenhum.



1. Comunicaram-me que, no dia 3 deste mês, o PÚBLICO e o 7Margens iam lembrar-se de que, nessa data, se cumpriram 30 anos das minhas crónicas neste jornal. Não vou falar das crónicas, mas apetece-me relembrar a introdução que escrevi para o primeiro livro, editado pelo Mário Figueirinhas [1], porque tentei exprimir, por contrastes, uma teologia que implicava uma antropologia. Há, no entanto, nessa introdução, o uso do termo homem para significar homem e mulher, mas que oculta as mulheres. Por isso, desde há muito, utilizo sempre a expressão ser humano.

Recordei, nessa introdução, que em 1935 pediram a Yves Congar, OP, um diagnóstico sobre o inquérito, então realizado pela famosa revista La Vie Intelectuelle, sobre as razões da “descrença actual”. A análise teológica do longo processo do divórcio entre a Igreja e os movimentos científicos, culturais e sociais que agitaram a gestação do mundo moderno ficou condensada numa frase que sempre me impressionou: “A uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião.”

Trinta anos mais tarde, em pleno Vaticano II, voltou a insistir no mesmo ponto: “O maior obstáculo, que os seres humanos de hoje encontram no caminho da fé, vem da falta de ligação que julgam verificar entre, por um lado, a fé em Deus, no seu Reino e, por outro, o ser humano e a sua obra terrestre. É urgente mostrar o laço íntimo que os une. É na superação desse fosso que se deveria procurar a resposta mais eficaz às razões da descrença moderna” [2].

Teilhard de Chardin, em 1920, numa breve nota sobre a evangelização dos novos tempos, pressente a gravidade do que está a acontecer: “Cristão e humano tendem cada vez mais a não coincidir. É este o grande cisma que ameaça a Igreja.”

Nos anos 50, esta impressão ainda não se tinha apagado: “Indubitavelmente, por alguma razão obscura, há qualquer coisa que já não passa entre o ser humano e Deus, tal como é apresentado aos seres humanos de hoje. É como se o ser humano não tivesse diante de si a figura do Deus que procura adorar” [3].

Em 1960, o grande medievalista Marie-Dominique Chenu, OP, verifica que “o novo mundo dos nossos dias ainda não foi integrado no pensamento cristão” [4]. Philippe Roqueplo, no começo da sua tese de doutoramento – Experiência do mundo, experiência de Deus? – mostrou a que ponto a teologia oficial permanecia impermeável a todas as tentativas de integrar, na experiência cristã, as tarefas da construção do mundo e de acolhimento do Reino de Deus. Percorreu o monumental Dictionnaire de Théologie Catholique, elaborado entre 1903 e 1950, constituído por 22 grandes e compactos volumes. Este dicionário pretendia abarcar “todas as questões que interessavam ao teólogo”. Veja-se o resultado:

“Na entrada profissão, vem um artigo ‘profissão de fé’; em emprego: nada; em mulher: nada; em amor: um terço de coluna assim distribuído: v. ‘caridade’; amor do próximo: v. ‘caridade: amor próprio: algumas linhas que reenviam para ‘ambição’; amor puro: v. ‘caridade’; mas sobre amor humano propriamente dito: nada; em amizade: nada (…); em vida: um artigo ‘vida eterna’ (…); em mal: vinte colunas; em economia: nada; em política: nada; em poder: finalmente um artigo de 103 colunas (quatro vezes mais que ‘mal’) sobre… ‘o poder do Papa na ordem temporal’. Em técnica: nada; em ciência: mais um longo artigo dividido em quatro pontos: ciência sagrada; ciência de Deus; ciência dos anjos e das almas separadas; ciência de Cristo… mas sobre o que nós chamamos ciência: nada; em arte: um longo artigo sobre… a arte cristã; em beleza: nada; em valor: nada; em pessoa: v. ‘hipóstase’; em história: nada; em leigo e laicado: nada, a não ser um longo artigo sobre o laicismo estigmatizado como uma heresia’ [5].

Estas ausências revelam um sobrenaturalismo teológico ignorante da significação das realidades terrestres com as quais é tecida a história humana, lugar da experiência cristã.

Veio o Concílio Vaticano II. Abriu com uma generosa mensagem ao mundo feita pelos padres conciliares. A constituição pastoral Gaudium et Spes é um abraço franco ao mundo contemporâneo: “As alegrias e as esperanças dos seres humanos de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por seres humanos, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história” (n.º 1).

2. É certo que João Paulo II percorreu o mundo, arrastou multidões e disse logo no começo do seu pontificado o essencial: “O ser humano, na plena verdade da sua existência, do seu ser pessoal e, ao mesmo tempo, do seu ser comunitário e social — no âmbito da própria família, no âmbito de sociedades e de contextos bem diversos, no âmbito da própria nação, ou povo (e, talvez, ainda somente do clã ou da tribo), enfim, no âmbito de toda a humanidade — este ser humano é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão: ele é a primeira e fundamental via da Igreja, via traçada pelo próprio Cristo e via que imutavelmente conduz através do mistério da Encarnação e da Redenção” [6].

No entanto, muita gente considera que há posições das autoridades eclesiásticas, assumidas em nome da lei de Deus e da vontade de Cristo, que são actos da maior desumanidade. De onde virá este profundo desencontro? Não sei. Repetir que o ser humano concreto, em todas as suas coordenadas, é o primeiro caminho da Igreja ou acusar a Igreja de atraiçoar o seu próprio programa, não leva a lado nenhum.

Adianto a hipótese que tem guiado a minha colaboração no PÚBLICO. A questão talvez esteja em identificar apressadamente a Igreja com o próprio Jesus Cristo.

Jesus sabia e sabe o que há no ser humano. Conhece a profundidade do nosso coração. Em todos os seus gestos e palavras canta e chora uma inesgotável ternura e compaixão pelo mundo. Jesus é a humanidade de Deus. A Igreja, não. A Igreja tem de aprender a ser humana com Jesus Cristo e com todos os seres humanos da terra.

3. A celebração deste domingo é dedicada a evocar Cristo como Bom Pastor. As principais figuras do Bom Pastor que encontrei, no meio de muitas pessoas que vivem a espiritualidade do cuidado, foram o Papa João XXIII, nas audiências públicas a que fui fiel, enquanto estive em Roma por conselho de Giorgio La Pira, e o Papa Francisco que nos acompanha dia a dia. Com eles, as parábolas do Novo Testamento, as pinturas que, desde as catacumbas até hoje, as tentam exprimir, são pessoas que incarnam a misericórdia divina por todos os que se sentem perdidos nas periferias da desumanidade.

[1] Frei Bento Domingues, O.P., A Humanidade de Deus. Religião sem mundo, mundo sem religião, Mário Figueirinhas Editor, Porto, 1995
[2] Chrétiens en dialogue, Paris, Cerf, 1964, p. XXXIII
[3] L’Avenir de l’home, Paris, Seuil, 1959, p. 339
[4] ICI, xperience du monde: experience de Dieu?, Cerf. Paris, 1968, p.19-20
[6] Redemptoris Hominis, nº 14