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quarta-feira, 4 de maio de 2022

Geopolítica contra a globalização




Rui Tavares Guedes, na editorial do Courrier Internacional (Maio de 2022), escreve sobre o "risco que foi identificado há já algum tempo", pelo Secretário-Geral da ONU, o português António Guterres. Fê-lo de forma muito clara: "Receio a possibilidade de uma grande fratura (...) o mundo a dividir-se em dois, com as suas maiores economias da Terra a criar dois mundos separados e concorrentes, cada um com a sua moeda dominante, regras comerciais e financeiras, a sua internet, capacidades de Inteligência Artificial e as suas capacidades geopolíticas e militares".

Quase ninguém deu atenção, mas parece que, passados três anos, é exactamente isso que está a acontecer. A premonição de António Guterres provavelmente confirmar-se-á, pelo que se assiste após a invasão da Rússia na Ucrânia.

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 23 de março de 2022

Confisco de reservas russas empurra mundo para novo sistema monetário internacional


Por
estatuadesal
Alastair Crooke, 
in Diálogos do Sul, 
21/03/2022




Fato é que a atual operação militar na Ucrânia acabará, no devido tempo, relegada ao status de pouco mais de uma nota de rodapé na história global. Mas a guerra financeira total que repercutiu na Rússia é e será fundamental na definição da nova ordem mundial que se avizinha.


De fato, talvez já tenhamos testemunhado o momento em que a história económica mudou de rumo. Aconteceu dia 26 de fevereiro, quando o Ocidente coletivo confiscou todas as reservas cambiais do Banco Central da Rússia mantidas no Ocidente.

Em síntese, o Ocidente decretou que as reservas soberanas russas em euros, dólares e papéis do Tesouro dos EUA deixavam de ser ‘dinheiro bom’. Que deixavam de ter valor como ‘dinheiro’ para pagar dívidas russas a credores estrangeiros. E ao sancionar também o Banco Central Russo, o Ocidente impossibilitou para aqueles que compram bens, energia ou commodities quitar o que devem através do Banco.

A magnitude desse evento é sublinhada pelo fato de que houve conflito anterior também centrado na Ucrânia – a Guerra da Crimeia de 1854-1856 – Grã-Bretanha e França estavam em guerra contra a Rússia. Mas mesmo assim, durante toda a guerra, o governo russo continuou a pagar juros aos detentores britânicos da dívida russa; e o governo britânico também continuou a pagar o que devia ao governo russo.

A mensagem agora é bastante clara – se até os mais proeminentes Estados do G20 podem ter suas reservas canceladas num piscar de olhos, então, para todos que ainda tenham ‘reservas’ em Nova York, é hora, já-já, de as levar para outro lugar, enquanto a viagem ainda é possível! E se você precisa guardar algo de valor, como reserva para dia chuvoso, compre ouro, e guarde bem.

Quer dizer então que alguém por aí pensou que os títulos soberanos norte-americanos (os chamados “papéis do Tesouro norte-americanos, Treasuries) fossem ‘dinheiro’ e invioláveis? Nada disso! Os EUA acabam de declarar nulos e quitados aqueles papéis da dívida dos EUA depositados no Banco Central russo. Talvez – como os Títulos da Rússia Imperial, usados para decorar banheiros europeus, como papel de parede colorido, mas sem valor – o Banco Central russo passe agora a usar seus títulos do Tesouro dos EUA como papel de parede para banheiros (embora em decoração menos colorida).

Mas... Atenção! Há mais. Na legislação proposta no Senado dos EUA, as reservas de ouro de propriedade do Banco Central da Rússia serão congeladas e confiscadas. Há, no entanto, um grande problema para cumprir essa legislação. O ouro existe. Ele está em barras de ouro físico (cerca de 2.300 toneladas métricas), no valor de cerca de 150 bilhões de dólares, MAS são armazenadas na Rússia. Verdade é que não havia nem há meio viável para congelar ou apreender as montanhas de ouro que estão na Rússia... e lá permanecem.

Então, do que se trata, se o ouro não pode ser realmente apreendido?

Trata-se de sanções de boicote secundário contra quem quer que ajude a Rússia a transportar ou a fazer transações em ouro. Por exemplo: se a Rússia importasse, digamos, chips semicondutores chineses e liquidasse a transação em ouro, nesse caso, teoricamente, os EUA poderiam sancionar a entidade que recebesse o ouro na China.

Os EUA, a aplicar sanções contra receptores de ouro russo?! OK, já é um pouco demais... Mas considerem também o seguinte:

Há (pelo menos teoricamente, pois ninguém sabe ao certo) 6.000 toneladas de ouro de propriedade estrangeira (ou seja, de propriedade de Estados estrangeiros) ainda em poder do Federal Reserve de Nova York.

E agora, 6.000 toneladas (dado o precedente do caso russo) já podem ser facilmente confiscadas pelas autoridades norte-americanas – ao apertar um botão. Assim sendo, por que não repatriar aquele ouro, enquanto se pode? Ok. Para começar, porque não será fácil arrancar qualquer ouro de dentro do Fed).

Sim, alguns poderiam dizer que a Rússia é considerada ‘mau ator’ pelos EUA. E nós, os norte-americanos, somos ‘bons’. Ok, vá que fosse, só por hoje. O problema é que a lista dos atores que em algum momento foram rotulados como ‘maus atores’ é longa. Lembre-se de que até a França, membro do G7, foi acusada de ser ‘mau ator’ durante a guerra do Iraque, em 2006.

Assim sendo, então, claro que estamos às vésperas de uma grande retirada das Reservas – para fora da jurisdição dos EUA. A decisão de Biden, de confiscar os ativos do Banco Central russo é tão significativa em termos geopolíticos quanto foi o fechamento, por Nixon, da ‘janela do ouro’ norte-americano, em 1971. Lembrem-se todos de que o fechamento da tal ‘janela’ foi inicialmente elogiado como ‘medida temporária’.

A consequência geopolítica, no entanto, teve efeito de bomba nuclear. O sistema comercial baseado no petrodólar que derivava daquele ouro permitiu aos Estados Unidos ‘detonar’ o mundo com sanções e sanções secundárias. Para tanto, passou a bastar que os EUA declarassem que passavam a ter jurisdição sobre qualquer, e todas, as transações denominadas em dólares, ou que, de algum modo, passassem por processo de compensação em dólares.

A hegemonia dos EUA sobre a chamada “ordem baseada em regras” tem sido muito mais financeira (bem menos, militar). Vale dizer: é ordem imposta sempre que os EUA ameaçam ‘sancionar’ qualquer canalha com uma ‘bomba de nêutrons’ de papéis do Tesouro dos EUA.

E dia 26 de fevereiro, esse sistema começou a se ‘suicidar’, quando os ‘falcões’ russófobos de Washington, iniciaram, estupidamente, uma luta contra o único país – a Rússia – que tem as mercadorias necessárias (i) para governar o mundo; e (ii) para desencadear mudança real para outro sistema monetário. Esse outro sistema monetário tem o mérito de estar ancorado em solo firme, em algo que não é dinheiro ‘fiat’, dinheiro que desce do céu num helicóptero.

É claro que o yuan ou o rublo podem refletir o valor subjacente de suas respectivas grandes reservas de ouro. Mas também, as mercadorias são garantia, e garantia é dinheiro. E a Rússia tem a parte do leão das principais commodities.


Em resumo, o sistema monetário ocidental baseado no dólar norte-americano como moeda de reserva está prestes a acabar numa inflação de dimensões de estrela supernova, pois os EUA perdem a capacidade de usar a poupança chinesa para financiar o orçamento norte-americano e os próprios déficits comerciais norte-americanos.

E é o que está acontecendo à medida que a geração Boomer vai-se aposentando e sobem os ganhos que têm direito de exigir.

Defesa, juros e direitos não discricionários já comem 100% da receita tributária. Portanto, agora, não há outra possibilidade: o Fed tem e terá de imprimir a maior parte dos enormes gastos adicionais.

Zoltan Poszar, uma das vozes mais respeitadas de Wall Street, argumenta que o sistema monetário atual funcionou enquanto os preços das commodities oscilaram previsivelmente numa faixa estreita – ou seja, enquanto não estiveram sob estresse extremo (precisamente porque as commodities são garantia para outros instrumentos de dívida).

Mas quando todo o complexo de commodities está sob estresse, como está agora, os preços enlouquecidos das commodities levam a um mais amplo voto de ‘desconfiança’ no sistema. É o que vemos acontecendo agora.Os falcões russofóbicos não previram isso? Foram surpreendidos por tais ‘consequências inesperadas’?! Havia alguma grande estratégia por trás do confisco das reservas russas, além da visceral má-fé contra a Rússia?

Não. Não previram coisa alguma. Agiram por impulso tresloucado. Sabemos disso, porque tanto o Fed como o BCE informaram que não foram consultados sobre o confisco do ouro nem sobre a expulsão de sete bancos russos do sistema de compensação financeira SWIFT. E esclareceram que, se consultados, teriam votado contra os dois movimentos.

Foi ato de automutilação.

E que ironia! Em seu zelo para esmagar a economia russa, os falcões norte-americanos russofóbicos abriram inadvertidamente o caminho para que Rússia e China começassem a criar um novo sistema monetário, bem longe da ‘esfera de influência’ do dólar norte-americano.*******

Tradução: Vila Mandinga [Tradução automática, por Google Translator, corrigida e revista, para finalidades acadêmicas, sem valor comercial.]

segunda-feira, 14 de março de 2022

Guerra não evitada, escalada evitável


Por
11 Março 2022

Tudo o que está agora a acontecer lembra as recentes palavras de John Matlock, o último embaixador dos EUA na URSS: estas lideranças parecem não estar à altura daquelas que resolveram a Crise dos Mísseis de Cuba.



A dimensão bélica do conflito russo-ucraniano persiste e a possibilidade de vir a extravasar o quadro regional aumenta cada dia que passa. Nesta marcha para o abismo, dir-se-ia que as lideranças políticas europeias parecem não estar a perceber o que está realmente em causa. Em vez de lançarem água para o incêndio e de investirem no estabelecimento de pontes de diálogo parecem incrementar a confrontação como se fossem atores imunes às consequências daquela guerra (veja-se a iniciativa de enviar MIG-29 para o teatro de operações ucraniano).

A análise tornou-se a segunda vítima da guerra

É necessário analisar os acontecimentos de um modo objetivo. Como ensina a Teoria dos Jogos, e toda a doutrina disponível, existe uma responsabilidade partilhada e uma interdependência estratégica entre os atores envolvidos numa contenda de interesses. A linguagem engajada e desproporcionada que tem prevalecido na comunicação social a nível internacional não ajuda a compreender o que está em causa nem o desenrolar dos acontecimentos.

Nessa deriva, aliás, ela própria torna-se um obstáculo: induz uma atmosfera pública intolerante, cria visão de túnel, inibe o debate genuíno, e incita a um massivo efeito de rebanho que, por sua vez, exerce tóxicas pressões na decisão política. Sabemos onde isso levou da última vez que houve um sobressalto securitário nos países ocidentais após o 11 de Setembro.

Os riscos de escalada estão em crescendo, assim como a retórica das várias lideranças. Em vez de contribuírem para diminuir a tensão, temos testemunhado exatamente o contrário, desatentos à alteração da natureza dos riscos: a guerra na Ucrânia tem sério potencial para provocar uma confrontação generalizada à escala global, ultrapassando o patamar convencional.

Antes de prosseguir convém clarificar que o objetivo declarado da Rússia é obter garantias de que a Ucrânia não fará parte da NATO, nem albergará unidades e equipamento militar de potências estrangeiras no seu território. As preocupações, os alertas e os protestos russos continuam a não ser ouvidos, aumentando simultaneamente o nível de ameaça percebido por este ator.

Alguns aspetos da insensatez que nos levou a esta situação merecem ser salientados. Desde 2014 que a situação se tem vindo a deteriorar. A Ucrânia tornou-se uma ponta de lança das políticas norte-americanas anti-Rússia. A intervenção sistemática e continuada dos EUA nos assuntos internos da Ucrânia não passou despercebida à Rússia, em particular o fornecimento massivo, durante estes anos, de armamento a Kiev.

A Ucrânia tornou-se a partir de 2014 no ponto de dor (pain point) securitário para a Rússia. Ainda em 2014, a Rússia invade a Ucrânia e ocupa a Crimeia. E, tal como previsto num diálogo de Boris Ieltsin com Bill Clinton em 1995, a presente liderança russa considerou que tinha chegado a hora de ser ouvida com estrondo.

Putin parece ter considerado que poderia, através de uma manobra em que conjugaria a ação diplomática com uma demonstração de força, resolver o impasse de 20 anos causado pelo alargamento da NATO a Leste, a qual não parou com a sua política de porta aberta, e dos oito anos de ouvidos de mercador relativamente à implementação dos acordos de Minsk.

Durante estes anos, a situação militar agravou-se no Donbass, onde o dispositivo militar ucraniano era cada vez maior, em desrespeito frontal pelos acordos de Minsk, diariamente violados. O número de mortos civis durante os oito anos que nos separam do golpe de estado Euromaidan e as cedências de Zelenski às forças mais extremistas, ilustram a frustração cada vez maior de Moscovo.

Dominó de eventos

O ano de 2021 é crucial para se compreender a situação em que presentemente nos encontramos. Só nesse ano, os EUA forneceram cerca de 1,3 mil milhões de dólares de ajuda militar à Ucrânia. Em março de 2021, a Ucrânia publicou a sua estratégia militar, um documento orientado para a confrontação com a Rússia.

Durante os meses de junho, julho e setembro de 2021 tiveram lugar exercícios da NATO em território ucraniano, que envolveram cerca de 23 mil soldados. O espaço aéreo ucraniano foi aberto aos voos dos aviões de reconhecimento estratégico americano, assim como a drones que permitiam monitorizar o território da Rússia.

Nos últimos meses de 2021, com o pretexto de exercícios, a Rússia estacionou e exibiu um forte dispositivo militar no seu território e na Bielorrússia, nas proximidades da fronteira com a Ucrânia.

Já em plena crise, em novembro de 2021, os EUA e a Ucrânia reafirmaram a importância das suas relações de parceria estratégica e declararam a determinação em aprofundar essa parceria através da cooperação em vários domínios, nomeadamente no da defesa, com o objetivo de contrariar a agressão russa. A ocasião foi aproveitada para os EUA proclamarem o “direito da Ucrânia a decidir sobre o futuro da sua política externa livre de interferências externas, incluindo o respeito pelas aspirações da Ucrânia aderir à NATO.”

Em dezembro de 2021, relembre-se, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros tornou público dois projetos de acordos com os EUA e com a NATO, onde pontificavam as garantias de segurança que a Rússia pretendia ver salvaguardas. Entre outras, a não adesão da Ucrânia à NATO. Os pedidos de garantia foram rejeitados, pelos EUA e pela NATO, não havendo lugar a qualquer convergência ou princípio de entendimento.

Com o aumento da tensão, entram na liça diplomática o Presidente Macron e o Chanceler Sholtz na primeira quinzena de fevereiro de 2022. O máximo que se conseguiu obter desta “shuttle diplomacy” entre Moscovo e Kiev foi uma declaração do Presidente Zelenski em que se comprometia a apresentar no parlamento um projeto de decreto-lei sobre o assunto, que não chegou a apresentar e que nunca iria ser aprovado.

Nos oito anos precedentes, a Ucrânia tinha demonstrado uma manifesta falta de interesse em honrar os acordos de Minsk, e em acomodar uma fórmula que respeitasse os interesses da sua minoria russófona, entretanto perseguida e proibida de falar a sua língua.

O rastilho chega ao paiol

Há que reapreciar os catalisadores específicos da crise. No dia 19 de fevereiro de 2022, na Conferência de Segurança de Munique, o Presidente Zelenski manifestou a intenção de renunciar ao protocolo de Budapeste abdicando da sua neutralidade (na verdade já o tinha feito quando inscreveu na sua Constituição a ambição de aderir à NATO), abrindo a possibilidade de a Ucrânia se rearmar nuclearmente. Esta intervenção é aplaudida de pé pela audiência. Moscovo já tinha denunciado por diversas vezes a pretensão da Ucrânia em possuir armamento nuclear. Tem a tecnologia desenvolvida pela URSS e os meios de lançamento. Desconhece-se se terá recebido ajuda externa para tal.

Em represália pelo discurso de Zelenski em Munique, agravado pela ausência de respostas sobre as pretensões ucranianas de aderir à NATO, e aparentemente assumindo um ponto de não retorno, Putin anuncia no dia 21 de fevereiro, que vai reconhecer a independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk, argumentando que “tem todo o direito de tomar medidas de retaliação para assegurar a nossa segurança [da Rússia]. É exatamente isso que faremos.”

Ao contrário do que aconteceu após o confronto com a Geórgia, em que Moscovo reconheceu de imediato a independência das repúblicas da Abecásia e da Ossétia do Sul (agosto de 2008), no caso da Ucrânia a opção foi outra. Putin optou por abraçar uma solução autonómica para as repúblicas separatistas no quadro da Ucrânia.

E depois da última gota?

Com a situação ao rubro, a sinalização pública e aclamada do patamar nuclear por Zelenski e o abandono dos protocolos de Budapeste pode ser lida como um evento saliente. O que até aí era visto por alguns especialistas (nos quais me incluo) como estando para além dos limites do provável, isto é, uma invasão generalizada da Ucrânia, tornou-se um facto novo. Após este conspícuo momento (pouco enfatizado nos media “ocidentais”) percebeu-se claramente que a situação se tinha alterado, e que os esforços diplomáticos de última hora tinham falhado.

Se era possível vislumbrar algo na neblina, antes do início do conflito, era a certeza de que o Ocidente ajudaria a Ucrânia, mas que não iria assumir com sangue as ansiedades ucranianas. Os EUA instigaram a confrontação ucraniana com a Rússia, sabendo que não estariam disponíveis para combater a seu lado. O mesmo aconteceu com a UE, que andou estes anos todos a encorajar os ucranianos, sabendo que na hora da decisão não se iria apresentar ao lado de Kiev. Os atos heroicos no campo de batalha seriam deixados para os ucranianos.

Os apelos sistemáticos à intervenção militar do Ocidente na Ucrânia, cada vez mais pungentes, são a prova disso. Zelenski queixa-se diariamente da falta de apoio do Ocidente, da insuficiência do seu compromisso, continuando a insistir numa zona de exclusão aérea, ideia de que apesar de rechaçada pela NATO continua presente na agenda mediática. A Zelenski foi dado o papel de peão num transcendente xadrez geoestratégico de “Great Power Politics”, que lhe escapa, não passando de um mandatário de agendas que ultrapassam largamente os interesses securitários do Estado ucraniano, submetendo a sua população a um risco securitário extremo. Podia ter tomado os acontecimentos ocorridos na Geórgia no ano de 2008 como um dado adquirido e empreendido uma “Estratégia de Nash”, i.e., dada a estratégia dos outros, qual a sua melhor resposta?

O próprio Ocidente, que mostrou não estar disposto para se sacrificar operacionalmente pela Ucrânia por saber os custos que iria acarretar, parece insistir na aposta anterior. Com a tensão existente e os nervos à flor da pele, não se entende, numa lógica de atenuar tensões, a necessidade de se retomar, neste momento, o debate sobre a adesão da Finlândia e da Suécia à NATO. A altura para o fazer não podia ser mais inoportuna. A fórmula adotada pela Finlândia e Suécia (membros da UE mas com neutralidade estratégica), a qual inclui a participação ativa destes dois países na Parceria para a Paz da NATO, tem funcionado ao longo de décadas.

A disponibilização de MIG-29 romenos e polacos anunciada pelo Secretário de Estado norte-americano Antony Blinken, de custo-benefício duvidoso, só serve para aumentar a tensão com Moscovo, que já anunciou considerar isso um ato de guerra. Recentemente um senador norte-americano, o republicano Lindley Graham, que é conhecido pelas suas posições intervencionistas agressivas, veio sugerir o assassínio de Putin. Todos estes desenvolvimentos empurram a Rússia para um jogo de soma negativa. Neste cenário, Moscovo pode até jogar para perder, desde que o oponente do outro lado do tabuleiro perca também.

Kiev não é Kabul

Parece insólito acreditar que a Ucrânia sozinha poderá vencer militarmente a Rússia, independentemente do armamento que lhe for proporcionado. Essa ajuda tornará certamente mais oneroso o esforço de ocupação russa, mas devido à sua massa a Rússia muito provavelmente ganhará militarmente. Por mil e uma razões, a Rússia não se pode dar ao luxo de uma derrota no território da Ucrânia, como aconteceu com os americanos no Afeganistão. Não parece estar em causa a vitória russa sobre os ucranianos, mas o custo que essa vitória poderá comportar (com os concomitantes efeitos destrutivos no terreno).

Não sei o que será preciso mais acontecer para se perceber que a Rússia lutará até à exaustão das suas forças para impedir a entrada da Ucrânia e da Geórgia na NATO. Esse limite poderá não ter limite.

Tudo isto lembra as recentes palavras de John Matlock, o último embaixador dos EUA na URSS: estas lideranças parecem não estar à altura daquelas que resolveram a Crise dos Mísseis de Cuba. Em momentos diferentes George Keenan, Henry Kissinger, William Perry e John Mearsheimer, e no plano nacional, entre outros, Jaime Nogueira Pinto explicaram com um realismo mais eloquente do que o meu o que está verdadeiramente em causa. Mas é ainda tempo de relembrar aos decisores norte-americanos e ucranianos em que consiste o dilema de segurança e os seus efeitos.

Não restam hoje quaisquer dúvidas de que Washington sabia que se não fosse satisfeita a principal reivindicação russa – a não adesão da Ucrânia à NATO e o seu estatuto de neutralidade estratégica – algo de muito definitivo iria ocorrer. Optou por não fazer nada para o evitar.

Infelizmente, e de um modo sonâmbulo, sem se atentar ao risco que estamos a correr, continua a prevalecer a retórica da confrontação. O prolongamento da atual situação será insustentável. Esperamos ansiosamente que se arrepie caminho e prevaleça o desanuviamento da tensão.

domingo, 13 de março de 2022

As sanções de Washington destruirão a Europa, não a Rússia


Pepe Escobar, 
in Resistir, 
10/03/2022




O campo de batalha está traçado.
A lista negra oficial russa de nações sancionadoras hostis inclui os EUA, a UE, o Canadá e, na Ásia, Japão, Coreia do Sul, Formosa e Singapura (a única do Sudeste Asiático). Repare como a dita "comunidade internacional" continua a encolher.

O Sul Global deveria estar consciente de que nenhuma nação da Ásia Ocidental, América Latina e África se juntou ao comboio das sanções de Washington.

Moscovo ainda nem sequer anunciou o seu próprio pacote de contra-sanções. No entanto, um decreto oficial "Sobre a ordem temporária das obrigações para com certos credores estrangeiros" que permite às empresas russas liquidarem as suas dívidas em rublos, dá uma pista do que está para vir.

As contra-medidas russas giram todas em torno deste novo decreto presidencial, assinado no sábado passado, que o economista Yevgeny Yushchuk define como uma "mina terrestre de retaliação nuclear".

Funciona assim: para pagar empréstimos obtidos de um país sancionador que excedam 10 milhões de rublos por mês, uma empresa russa não tem de fazer uma transferência. Ela pede a um banco russo que abra uma conta correspondente em rublos sob o nome do credor. A seguir a empresa transfere rublos para esta conta à taxa de câmbio do dia e é tudo perfeitamente legal.

Pagamentos em divisas estrangeiras só passam pelo Banco Central numa base casuística. Eles devem receber autorização especial da Comissão Governamental para o Controlo do Investimento Estrangeiro.

O que isto significa na prática é que a maior parte dos cerca de US$478 mil milhões da dívida externa russa pode "desaparecer" dos balanços dos bancos ocidentais. O equivalente em rublos será depositado algures, em bancos russos, mas os bancos ocidentais, tal como estão as coisas, podem não ter acesso a ele.

É discutível se esta estratégia simples foi o produto daqueles cérebros não soberanistas reunidos no Banco Central russo. É mais provável que tenha havido contributos do influente economista Sergei Glazyev, um antigo conselheiro de topo do Presidente russo Vladimir Putin sobre integração regional: aqui está uma edição revista, em inglês, do seu ensaio inovador Sanctions and Sovereignty, que resumi anteriormente.

Enquanto isso, o Sberbank confirmou que irá emitir os cartões de débito/crédito Mir da Rússia em conjunto com o UnionPay da China. O Alfa-Bank – o maior banco privado da Rússia – também emitirá cartões de crédito e de débito UnionPay. Embora introduzido há apenas cinco anos, 40% dos russos já possuem um cartão Mir para uso interno. Agora poderão também utilizá-lo internacionalmente, através da enorme rede do UnionPay. E sem Visa e Mastercard, as comissões sobre todas as transacções permanecerão na esfera Rússia-China. Desdolarização efectiva.

Sr. Maduro, dê-me um pouco de petróleo

As negociações das sanções iranianas em Viena podem estar a chegar à última fase – como reconhecido até pelo diplomata chinês Wang Qun. Mas foi o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, que introduziu uma nova variável crucial nas discussões finais de Viena.

Lavrov tornou a sua exigência da décima primeira hora bastante explícita: "Pedimos uma garantia escrita... de que o actual processo [de sanções à Rússia] desencadeado pelos Estados Unidos não prejudica de forma alguma o nosso direito ao comércio livre e pleno, à cooperação económica e de investimento e à cooperação técnico-militar com a República Islâmica".

Segundo o acordo do Plano de Acção Global Conjunto (Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA) de 2015, a Rússia recebe urânio enriquecido do Irão e troca-o por yellowcake e, em paralelo, está a reconverter a central nuclear Fordow do Irão num centro de investigação. Sem as exportações iranianas de urânio enriquecido não há simplesmente nenhum acordo da JCPOA. É surpreendente que o secretário de Estado dos EUA, Blinken, pareça não entender isso.

Toda a gente em Viena, até os que estão à margem, sabe que para todos os actores assinarem o renascimento da JCPOA, nenhuma nação deve ser individualmente visada em termos de comércio com o Irão. Teerão também o sabe.

Assim, o que agora está a acontecer é um jogo elaborado de espelhos persas, coordenado entre as diplomacias russa e iraniana. O Embaixador de Moscovo em Teerão, Levan Jagaryan, atribuiu a reacção feroz a Lavrov em alguns bairros iranianos a um "mal-entendido". Tudo isto será jogado nas sombras.

Um elemento extra é que, segundo uma fonte de inteligência do Golfo Pérsico com acesso privilegiado iraniano, Teerão já pode estar a vender até três milhões de barris de petróleo por dia, "portanto, se assinarem um acordo, este não afectará de modo algum o fornecimento, apenas lhes será pago mais".



A administração americana do Presidente Joe Biden está agora absolutamente desesperada: hoje proibiu todas as importações de petróleo e gás da Rússia, que por acaso é o segundo maior exportador de petróleo para os EUA, atrás do Canadá e à frente do México. A grande "estratégia de substituição" energética russa dos EUA consiste em mendigar petróleo ao Irão e à Venezuela.

Assim, a Casa Branca enviou uma delegação para falar com o Presidente venezuelano Nicolás Maduro, liderada por Juan Gonzalez, o principal conselheiro da Casa Branca para a América Latina. A oferta dos EUA é "aliviar" as sanções contra Caracas em troca de petróleo.

O governo dos Estados Unidos passou anos – senão décadas – a queimar todas as pontes com a Venezuela e o Irão. Os EUA destruiram o Iraque e a Líbia, e isolaram a Venezuela e o Irão, na sua tentativa de tomar os mercados petrolíferos globais – só para acabar miseravelmente por tentar comprar a ambos e escapar a ser esmagado pelas forças económicas que desencadeou. Isto prova, mais uma vez, que os "decisores políticos" imperiais são absolutamente ignorantes.

Caracas irá exigir a eliminação de todas as sanções contra a Venezuela e a devolução de todo o seu ouro confiscado. E parece que nada disto foi esclarecido com o 'Presidente' Juan Guaido, o qual desde 2019 era o único líder venezuelano "reconhecido" por Washington.

Coesão social dilacerada

Enquanto isso, os mercados de petróleo e gás estão em pânico total. Nenhum trader ocidental quer comprar gás russo; e isso nada tem a ver com a empresa estatal russa de energia Gazprom, a qual continua a abastecer devidamente os clientes que assinaram contratos com tarifas fixas, de US$100 a US$300 (outros estão a pagar mais de US$3.000 no mercado spot).

Os bancos europeus estão cada vez menos dispostos a conceder empréstimos para o comércio de energia com a Rússia devido à histeria das sanções. Uma forte pista de que o gasoduto Rússia-Alemanha Nord Stream 2 pode estar literalmente enterrado é que o importador Wintershall-Dea anulou a sua parte do financiamento, assumindo de facto que o gasoduto não será lançado.

Todos os que têm cérebro na Alemanha sabem que dois portos metaneiros extra para a recepção de gás natural liquefeito (GNL) – ainda por construir – não serão suficientes para as necessidades de Berlim. Simplesmente não há GNL suficiente para os abastecer. A Europa terá de lutar com a Ásia sobre quem pode pagar mais. A Ásia vence.

A Europa importa cerca de 400 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano, sendo a Rússia responsável por 200 mil milhões. É impossível a Europa encontrar 200 mil milhões de dólares em qualquer outro lugar para substituir a Rússia – seja na Argélia, no Qatar ou no Turquemenistão. Para não mencionar a sua escassez dos portos metaneiros necessários.

Assim, obviamente, o principal beneficiário de toda esta confusão serão os EUA – que poderão impor não só os seus terminais e sistemas de controlo, mas também lucrar com empréstimos à UE, vendas de equipamento, e acesso pleno a toda a infraestrutura energética da UE. Todas as instalações de GNL, tubagens e armazéns serão ligados a uma única rede com uma única sala de controlo: um sonho empresarial americano.

A Europa será deixada com uma produção de gás reduzida para a sua – em declínio – indústria; perdas de emprego; diminuição dos padrões de qualidade de vida; aumento da pressão sobre o sistema de segurança social; e, por último mas não menos importante, a necessidade de solicitar empréstimos extra-americanos. Algumas nações voltarão ao carvão para aquecimento. O Desfile Verde será lívido.

E quanto à Rússia? Como hipótese, mesmo que todas as suas exportações de energia fossem reduzidas – e não o serão, os seus principais clientes estão na Ásia – a Rússia não teria de utilizar as suas reservas estrangeiras.

O ataque russofóbico total às exportações russas também visa metais como o paládio – vital para a electrónica, desde computadores portáteis a sistemas aeronáuticos. Os preços estão a disparar. A Rússia controla 50% do mercado global. Depois há os gases nobres – néon, hélio, árgon, xenon – essenciais para a produção de microchips. O titânio subiu um quarto e tanto a Boeing – em um terço – como a Airbus – em dois terços – dependem do titânio da Rússia.

Petróleo, alimentos, fertilizantes, metais estratégicos, gás néon para semicondutores: tudo a arder aos pés da Feiticeira Rússia.

Alguns ocidentais que ainda apreciam a realpolitik bismarckiana começaram a interrogar-se se a blindagem da energia (no caso da Europa) e os fluxos de mercadorias seleccionadas das sanções não terá tudo a ver com a protecção de uma imensa extorsão: o sistema de commodities derivativas.

Afinal, se isso implodir, devido a uma escassez de mercadorias, todo o sistema financeiro ocidental explode. Isto é que é um verdadeiro fracasso do sistema.

A questão chave para o Sul Global digerir é se o "ocidente" não está a cometer suicídio. O que temos aqui, essencialmente, são os Estados Unidos a destruírem deliberadamente a indústria alemã e a economia europeia – bizarramente, com a sua conivência.

Destruir a economia europeia significa não permitir espaço extra de mercado para a China, e bloquear o inevitável comércio extra que será uma consequência directa de trocas mais estreitas entre a UE e a Parceria Económica Global Regional (Regional Comprehensive Economic Partnership, RCEP), o maior acordo comercial do mundo.

O resultado final será os EUA a comerem as poupanças europeias ao almoço enquanto a China expande a sua classe média para mais de 500 milhões de pessoas. A Rússia vai sair-se muito bem, tal como esboça Glazyev: soberana – e auto-suficiente.

O economista americano Michael Hudson esboçou de forma concisa os lineamentos da auto-implosão imperial. Mas muito mais dramático, como catástrofe estratégica, é como os surdos, mudos e cegos desfilam em direcção a uma recessão profunda e a uma quase hiperinflação, que irá dilacerar o que resta da coesão social do Ocidente. Missão Cumprida.

08/Março/2022

[*] Jornalista.