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terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Ganância

 


Ricardo Salgado, o ex-patrão do BES! Vi-o ontem na televisão. Pelo braço de sua mulher arrastando os pés até à viatura. Agora de cabelo desalinhado e sem gel, de sapatilhas, sem fato e gravata, longe dos corredores do poder, enfim, um homem presente mas ausente, uma pálida sombra do banqueiro de tez austera que foi. Há dois anos foi o João Rendeiro, outro banqueiro que viveu no pântano da aldrabice. Engenhosas trapalhadas marcaram a vida de ambos, deixando milhares na lista de lesados. Histórias que todos conhecemos nos seus traços gerais. 

Interrogo-me sobre a ascensão e queda destes dois (mas há outros certamente cúmplices), motivada por uma ambição descontrolada com um previsível e trágico fim. É simples mas de uma extensa complexidade a pergunta que me assalta: para quê? Porque a VIDA é muito mais que milhares de milhões de "riqueza" acumulada, muitas vezes de forma nada transparente. Milhões quando apenas temos um estômago. Conclusão das duas histórias de vida: a ganância, tarde ou cedo, conduz à destruição do ser humano.

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 2 de agosto de 2015

ESTÁ AÍ ALGUÉM QUE EXPLIQUE?


A revista VISÃO desta semana traz um artigo muito interessante de João Garcia, director da revista, subordinado ao título "Está aí alguém que explique? A pergunta tem a ver com alegadas desconformidades na aplicação das designadas medidas de coação. Sublinha João Garcia: "(...) Vai um juiz e recusa mandar para casa um preso preventivo (José Sócrates, obviamente) porque não quer usar pulseira electrónica; noutra ocasião, manda para casa, mas com dispositivo de sinalização, um outro arguido (Armando Vara) que já deu inúmeras provas de que não é propriamente um fugitivo (sempre compareceu ao Face Oculta e já tem uma condenação pesada de cinco anos de prisão); para completar o leque, agarra outro arguido que já estava em liberdade caucionada e apesar de a acusação não o ter requerido, decreta-lhe a obrigação de  permanência na habitação, mas dispensa-o da pulseira (Ricardo Salgado). Põe-lhe polícia à porta. As decisões (proferidas após longos interrogatórios feitas à Sexta-feira) são sempre sustentadas com receios similares e, nota curiosa, o juiz nestes casos foi sempre o mesmo (Carlos Alexandre) (...)". Daí a pergunta:  "Está aí alguém que explique?"


Eu também não entendo, independentemente de não conhecer os processos. Nem quero conhecer. Apenas, tal como o director da revista VISÃO considero estranho. O advogado Doutor Garcia Pereira, na sua página de FB, com o título, "Prendem Sócrates para não tocar em Portas e Barroso" leio: "Como é sabido, o PCTP/MRPP nunca morreu de simpatias por José Sócrates e pelo seu governo, um dos piores que o país teve. Mas não é isso que agora está em causa, quando a Polícia Judiciária, pela mão de famigerados justiceiros como Rosário Teixeira, com a cobertura de agentes do Ministério Público e de juízes como Carlos Alexandre, depois de ter abortado prematuramente a Operação Labirinto no caso dos vistos gold, permitindo que Miguel Macedo e outros altos quadros do Estado, do governo e do PSD pudessem escapar à prisão; depois de deixar à solta Ricardo Salgado, chefe do maior gang de gatunos e financiador das campanhas eleitorais de Cavaco e do PSD, e de não tocar em Paulo Portas e Durão Barroso, a mesma PJ e ministério público decidem precisamente prender uma importante figura do Partido Socialista, com quem os actuais dirigentes do PS mais se identificam politicamente."
Ora bem, eu não me posiciono sobre estes assuntos. Leio posições diversas, neste momento, muito convergentes no desencanto da Justiça em Portugal. Daí que considere estranho que prendam um ex-primeiro-ministro, segundo julgo saber, depois de quase um ano de investigação e que o mantenham privado da liberdade, já lá vão oito meses sem qualquer acusação. Enquanto outros, sobretudo banqueiros (BPN e BES), continuam no luxo. E o curioso disto é que, sem qualquer escrutínio, as instâncias superiores estão caladas e os partidos políticos em um silêncio ensurdecedor, quando as Leis têm origem na Assembleia da República. Silêncio, sobretudo do Partido Socialista. À Justiça o que é da Justiça, obviamente que sim, mas em um Estado de Direito Democrático, sustento que ninguém pode estar acima da lei, nem os juízes! Sócrates pode ser considerado inocente (trata-se, apenas, de uma hipótese), mas já ninguém lhe retira o tempo de prisão, a imagem pública nacional e internacional e uma eventual continuidade na política activa.
Ilustração: Página da revista Gente.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

E LÁ VAMOS NÓS PAGAR A GANÂNCIA DE OUTROS


"Há cerca de um ano que Ricardo Salgado não devia ser presidente do Banco Espírito Santo. Em meados de 2013, quando se soube que tinha recebido uma comissão de 8,5 milhões de euros de um construtor civil por causa de um qualquer serviço que lhe terá prestado em Angola, nesse mesmo dia o Banco de Portugal deveria tê-lo declarado pessoa não idónea para se manter à frente do banco verde. Era o mínimo. Nos Estados Unidos, uma situação idêntica dá também direito a prisão, com punhos algemados e as televisões a filmarem em direto. Nenhum banqueiro em exercício pode receber comissões por fora. É das regras, é da deontologia do cargo, é do mais elementar bom senso. Mas Salgado fê-lo e o Banco de Portugal calou-se. 


Salgado corrigiu três vezes a sua declaração de rendimentos e o Banco de Portugal calou-se. Agora, duas jornalistas do Jornal de Negócios, Maria João Gago e Maria João Babo escrevem um livro sobre a ascensão e queda de Salgado, mostrando, preto no branco, que os 8,5 milhões de euros afinal foram um «presente» de 14 milhões do tal construtor civil (José Guilherme, para os mais distraídos, um homem que não usa telemóvel por ser demasiado «perigoso») e o Banco de Portugal cala-se. O dr. Salgado queria presidir ao Conselho Estratégico e o Banco de Portugal cala-se. O dr. Salgado já não vai presidir ao conselho estratégico mas vai integrá-lo e o Banco de Portugal cala-se. O dr. Salgado continua a dirigir o banco até à assembleia geral de 28 de Julho e o Banco de Portugal cala-se. As bolsas europeias caem, o Banco Popular trava uma emissão de 500 milhões, a Mota-Engil África interrompe um IPO, o Financial Times on line dá manchete ao caso, o principal jornal de economia da CNN abre com o banco verde e o dr. Salgado continua todos os dias a entrar na instituição pela Rua Barata Salgueiro como se o mundo estivesse calmo e sereno.
Há clientes que perderam 25 milhões que tinham aplicados no Banque Privée na Suíça. A Porto Editora também vai levar um rombo grande. E há o caso da Portugal Telecom, que está a ser devastada na sua governação, na fusão com a Oi e nas suas contas, depois de ter aplicado 897 milhões na Rioforte, que nunca mais verá – e o dr. Salgado continua com o seu ar olímpico a governar o banco como se ele não estivesse em chamas.
O dr. Salgado não merece ficar nem mais um minuto à frente do banco ou em qualquer dos seus órgãos de gestão. Mostrou não ter os mínimos padrões de ética exigidos para ocupar esses cargos. A ganância matou-o. Ao Banco de Portugal exige-se que remova o cadáver o mais depressa possível do caminho, sob pena de nos afundarmos todos com ele. Ou, mais grave, nos virmos todos a tornar colegas acionistas do dr. Salgado. Livra!
As ações caíram mais de 17% na quinta-feira, estiveram suspensas há um ror de tempo, os mercados estão em pânico, os investidores e os clientes também, e o dr. Salgado continua a levitar sobre tudo e sobre todos, sem perceber que aquilo que tinha antes – todo o tempo do mundo para resolver os problemas e a confiança de todos para executar essas tarefas – acabou abrupta e definitivamente na semana passada.
Bem pode o dr. Salgado mandar dizer que o banco tem uma almofada de 2,1 mil milhões e que a exposição ao GES é de apenas 1,2 mil milhões. Bem pode dizer que o GES é uma coisa e o BES outra, embora os administradores do banco estivessem todos na administração do grupo. Bem pode culpar o contabilista, a crise, a informática, o dr. Álvaro Sobrinho, os jornais e tutti quanti pela evidente falência em que está o Grupo Espírito Santo e pelos enormes problemas que o BES está a enfrentar. A questão, simples, muito simples, é que o tempo do dr. Salgado acabou. E acabou no dia em que a sua ganância o levou a aceitar um presente de 14 milhões de euros. Ou de 8,5 milhões. Um presente que ele nunca explicou à opinião pública, dizendo sobranceiramente que já tinha explicado tudo a quem de direito. É essa sobranceria que conduziu o grupo e o banco até aqui e que está a colocar em causa o sistema financeiro e a credibilidade da República, que tinha sido conquistada a duras penas dos trabalhadores e dos contribuintes nacionais.
Não, o dr. Salgado não merece ficar nem mais um minuto à frente do banco ou em qualquer dos seus órgãos de gestão. Mostrou não ter os mínimos padrões de ética exigidos para ocupar esses cargos. A ganância matou-o. Ao Banco de Portugal exige-se que remova o cadáver o mais depressa possível do caminho, sob pena de nos afundarmos todos com ele. Ou, mais grave, nos virmos todos a tornar colegas acionistas do dr. Salgado. Livra!"
NOTA:
Texto recebido por e.mail (19.07.2014) que publico na íntegra.