quinta-feira, 4 de abril de 2013

"O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO É DE UMA IGNORÂNCIA QUE FAZ MEDO"


Regresso a José Niza e dou-lhe toda a razão: "o que mais repugna é o espectáculo da ignorância e o gáudio do populismo". Exacto. Parece-me evidente que constituirá muita confusão para certas cabeças organizar a escola de acordo com outros princípios que não os vigentes. E não estou sequer a entrar no domínio dos considerados sobredotados. Aproveito tais princípios e generalizo-os. "Falo de escolas onde se respeita o aluno e não o sistema; onde as crianças têm a oportunidade de escolha e de definição do seu ritmo; de escolas com flexibilidade do currículo; onde as crianças e os professores, não o sistema, são os responsáveis por estabelecer os blocos de aprendizagem; onde os professores dispõem de uma grande autonomia com os seus grupos de crianças; escolas que não se veneram os velhos paradigmas educativos e onde as novas ideias são bem-vindas; onde a avaliação muda e afina-se constantemente para se adaptarem às capacidades dos estudantes; onde se verifica, na instituição, uma grande capacidade de fuga à rotina pela aceitação da mudança na forma de fazer as coisas". Utopia, dirão alguns. Pois que seja, na expressão de Galeano "ela (utopia) serve para caminhar". Pois então caminhemos nesse sentido, de uma escola de poucos alunos, de reduzido número de alunos por turma, autónoma, com liberdade organizacional e pedagogicamente adulta. Levará vinte ou mais anos, pois que leve, mas não é possível, como ainda ontem escrevi, termos "professores do século XX, a ensinar crianças do século XXI, com as metodologias do século XIX". E pior, ainda, um ministério castrador que vê a educação como um sistema uniforme e tipo interruptor de electricidade: determinam e todos cumprem.


O Sistema Educativo
é um castelo na areia
Andam aí os professores em rodopio para tentarem que os seus alunos consigam as melhores respostas às perguntas do exame. Ao invés da escola estar preocupada com a capacidade dos alunos questionarem, a escola impõe-lhes, como receita, o domínio da resposta prévia. Logo, imagine-se, no 1º ciclo do ensino básico. Para já no 4º ano! Na idade da descoberta, da criação do alicerce sobre o qual deveriam assentar os pilares do "conhecimento poderoso", antes, irracional e acientificamente preferem condicionar as respostas às perguntas que julgam ser importantes para a vida. Daí o exame aferidor se o menino "aprendeu" a lição. Daí a concomitante avaliação dos docentes, partindo do pressuposto que se eles não respondem com acerto é porque o professor(a) não conseguiu condicionar os alunos às desejadas respostas. Como disse o Professor José Niza, uma das figuras que, nas últimas quatro décadas mais se bateu por uma nova pedagogia (o Movimento da Escola Moderna muito lhe deve), o "Ministério da Educação é de uma ignorância que faz medo". Mas, em Maio, quando o ano escolar termina lá para o final de Junho, os meninos terão exame. Trata-se, do meu ponto de vista, do culminar de um círculo vicioso extremamente condicionador, por um lado, da liberdade de ensinar, por outro, condicionador do futuro das crianças. Já aqui, em tempos, transcrevi um texto do Professor José Pacheco, exactamente sobre esta matéria, publicado na edição de Inverno de 2012 da revista A Página da Educação. O artigo começa assim: "A conceituada revista Science deu a conhecer um estudo que contraria tendências reveladas em recentes decisões de política educativa. (...) Deborah Stipek, docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, trabalhou o seu estudo ao longo de 35 anos. A autora do estudo denuncia o facto de os jovens serem treinados para obterem bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. E acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada. (...) Irá o senhor ministro contrariar dados científicos? - questiona e prossegue: (...) Deborah sublinha o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas enquanto prejudicam vidas que poderiam ser promissoras. Em suma, sublinha o Professor José Pacheco, "um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames é prejudicial à aprendizagem. E quem o afirma é a revista Science que tem por título "Educação não é uma corrida". Escutemos a pesquisadora: "O sistema actual baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Esta forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na actualidade faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos mesmo antes da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja o cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém".
Exames no 1º ciclo?
Antes ensinem-as a olhar, ver e descobrir!
Regresso a José Niza e dou-lhe toda a razão: "o que mais repugna é o espectáculo da ignorância e o gáudio do populismo". Exacto. Parece-me evidente que constitui muita confusão, para certas cabeças, organizar a escola de acordo com outros princípios que não os vigentes. E não estou sequer a entrar no domínio dos considerados sobredotados. Aproveito tais princípios e generalizo-os. "Falo de escolas onde se respeita o aluno e não o sistema; onde as crianças têm a oportunidade de escolha e de definição do seu ritmo; de escolas com flexibilidade do currículo; onde as crianças e os professores, não o sistema, são os responsáveis por estabelecer os blocos de aprendizagem; onde os professores dispõem de uma grande autonomia com os seus grupos de crianças; onde não se veneram os velhos paradigmas educativos, porque as novas ideias são bem-vindas; onde a avaliação muda e afina-se, constantemente, para se adaptarem às capacidades dos estudantes; onde se verifica, na instituição, uma grande capacidade de fuga à rotina e aceitação da mudança na forma de fazer as coisas". Utopia, dirão alguns. Pois que seja, na expressão de Galeano "ela (utopia) serve para caminhar". Pois então caminhemos nesse sentido, de uma escola de poucos alunos, de reduzido número de alunos por turma, autónoma, com liberdade organizacional e pedagogicamente adulta. Levará vinte ou mais anos, pois que leve, mas não é possível, como ainda ontem escrevi, termos "professores do século XX, a ensinar crianças do século XXI, com as metodologias do século XIX". E pior, ainda, um ministério castrador que vê a educação como um sistema uniforme e do tipo interruptor eléctrico: determinam e todos cumprem.
Regresso aos exames das crianças do 1º ciclo e pergunto: para quê? para que servem? o que acrescentam? já não tiveram o exemplo consubstanciado nos resultados da avaliação intermédia, realizada em Janeiro passado, onde mais de 50% dos alunos obtiveram resultados inferiores a 50%? porquê insistir no erro? por incompetência e ignorância? Talvez! O que adianta, ao invés de fazerem crescer o interesse pelo conhecimento (com rigor, disciplina e projecto sustentável), atemorizar crianças, tal como era apanágio há muitos anos, com todos os rituais que dominam uma situação de exame? O que ganhámos com isso? E já querem provas de aferição no 2º ano do ensino básico. Novamente, pergunto: para quê? Ou não seria melhor produzir conhecimento, sério, adaptado à idade, o tal lastro conducente aos pilares do "conhecimento poderoso"? E o que pensa o secretário da Educação do governo da Madeira? Certamente que nada, porque nunca o ouvimos sobre matéria que transportasse um novo pensamento científico e estratégico.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

É ao mesmo tempo consolador e preocupante saber que no Ensino há muita gente séria, competente e empenhada.
Mas não tenhanos ilusões: grande parte dos políticos do poder e das oposições não está verdadeiramente preocupada com a qualidade do ensino público porque tem dinheiro para colocar os seus filhos no privado. Se fossem todos obrigados a colocá-los nas escolas públicas, outro galo cantaria...
A verdade é que o ensino público destina-se fundamentalmente a tirar da rua uns largos milhares de adolescentes, enquanto os pais estão a trabalhar e produzir riqueza. No fundo, a Escola é uma espécie de penitenciária em que os professores são uma espécie de carcereiros. Esta metáfora é propositadamente exagerada mas, infelizmente, tem muito de realidade e ainda mais nos dias de hoje, em que não há dinheiro para nada. E é por isso que é quase proibido punir ou reprovar. E os professores, os eternamente mal pagos, que se desenrasquem e não se queixem mesmo quando agredidos por pais e alunos.
Caro amigo, se ainda tem dúvidas, volte a ler (estou certo de que o leu quando foi publicado na década de 70)o livro "Sementes de Violência" de Evan Hunter. É a verdade nua e crua.

João André Escórcio disse...

Caríssimo,
Estou de acordo consigo que há políticos pouco interessados na qualidade do ensino público. É em defesa dessa qualidade que escrevo. E essa qualidade só pode advir quando implantado um sistema que parta das próprias escolas e que, por essa via, reforce a sua identidade e estimule um quadro de ambição. Quando o sistema é muito hierarquizado (vertical) tende-se para o cumprimento das tarefas e não para o fortalecimento do sentido de pertença.
De resto a escola pública deve seguir o caminho da competência, do rigor, da disciplina e dos bons resultados. O problema é saber como é que atingimos os bons resultados: com escolas de 1500/2000 alunos, com 300 professores e 200 administrativos? Onde as pessoas são números? Em que o próprio quadro docente da manhã não conhece o da tarde? Com critérios de avaliação dos docentes (burocrático) que desvirtuam a complexidade do processo ensino-aprendizagem?
Finalmente, Caríssimo Amigo, a escola portuguesa chumba e até demais, exactamente, porque não está orientada para o sucesso. Na Madeira, por exemplo, anualmente, chumbam cerca de 6.000 alunos que custam cerca de 21 milhões de euros. Entretanto, há estudos, um dos quais do Prémio Nobel da Economia, do ano 2000, que caracteriza as repercussões futuras por cada euro investido no apoio aos primeiros sinais de desconformidade na aprendizagem. Mas os governos preferem gastar do que investir, preferem dispensar professores do que reorientar as suas funções. Enfim, estamos metidos num problema muito grave, se conjugarmos também a ausência de uma séria política de família.