domingo, 25 de junho de 2017

38.000 MADEIRENSES À ESPERA DE UMA CONSULTA (DN)


O problema do sistema de saúde é político, não é técnico, nem financeiro. Se fosse técnico seria a consequência da má qualidade e abandono dos profissionais de saúde, concretamente, médicos, enfermeiros e restante pessoal qualificado em várias áreas complementares. Não é, a avaliar pelo reconhecimento, muitas vezes público do que fazem, em função das lacunas de meios e dos cortes cegos ao nível dos salários, já de si dos mais baixos na Europa. Financeiro também não, quando se vê gastar (diferente de investir) milhões em actos secundários, do governo às autarquias, sem qualquer efeito multiplicador e ao longo de dezenas de anos. Tivesse o sistema de saúde sido prioritário e não estaria a Madeira, na saúde, por exemplo, a correr atrás do prejuízo. Só pode ser político, isto é, de péssima administração e gestão da "coisa pública". E tanto assim é que, entre 2015 e 2017, a Madeira dispôs de quatro secretários na pasta da Saúde e vários Conselhos de Administração do SESARAM.


Ninguém pára para reflectir. Não há semana que a comunicação social não reporte situações que envergonham. É a falta de medicamentos, é a saída de médicos do sistema, é a sangria de enfermeiros "despachados" para outros países que aproveitam a qualidade formada nas instituições portuguesas, são as instalações que não satisfazem, são as listas de espera desde cirurgias a uma consulta de rotina, é o novo hospital em situação de permanente impasse há mais de quinze anos, são as decisões internas geradoras de conflito, é o paleio político para consumo mediático, mas sem efeito duradouro e consistente para todos os utentes, é a ausência de educação para a saúde, eu sei lá, para além dos temas de informação ou de reportagem, a série de questões estruturais que chegam ao conhecimento das pessoas. Portanto, esta é uma questão claramente POLÍTICA. Organizem-se e se falta capacidade para conduzir este processo, têm uma boa solução, ceder o lugar a quem, politicamente, se sinta capaz de o fazer! 
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 20 de junho de 2017

SONDAGEM DETERMINA MUITO JUIZINHO NA OPOSIÇÃO



O PSD-Madeira a cair significativamente não é nada que espante. Depois de quarenta anos no poder até considero que o desgaste ainda é, estranhamente, favorável. Mas, neste momento, a verdade é que, enquanto indicador, o PS-Madeira, já  por duas vezes, triplica o número de deputados. Parece existir aqui uma grande consistência do eleitorado quando às suas opções. Pelo menos por agora.
Ora, isto significa que a oposição tem de ter muito juizinho se quiser surgir aos olhos do povo de forma consistente, focado em um único objectivo, isto é, permitir que esse povo experimente outras formas de governo. No espaço continental esse aspecto está consolidado, pois os eleitores dão e retiram a confiança sempre que entendem. Na Região Autónoma dos Açores o mesmo acontece. Falta à Madeira essa experiência que é vital na democracia. E sendo assim, necessário se torna adultez política. A começar pelas autárquicas.
Ilustração: DN-Madeira

SAVOY: O MONSTRO ENCALHADO



Li uma peça no DN-Madeira na qual um Arquitecto, julgo que Paulo David, falava de "navios encalhados", referindo-se a algumas zonas históricas do Funchal, no caso concreto, Moinhos, que uma vez reabilitados tornar-se-ão zonas apelativas, agradáveis e de valor. No caso do Savoy, parece-me exactamente o contrário, pois trata-se de um "navio encalhado" no pior sentido. Coloquem, agora, uma chaminé!!!
Ilustração: Arquivo próprio.

domingo, 18 de junho de 2017

UMA SÓ PALAVRA: VERGONHA.


Foto DN/Flagrante.

Uma foto obtida do mar ou do cais Molhe da Pontinha apresenta-nos esta obra, em construção, do novo Hotel Savoy. Não sei se já chegou ao topo! São 20 andares, 15 dos quais acima da cota de soleira. A explicação, pormenorizada, pode ser lida no texto da Drª Violante Saramago Matos, AQUI. Várias foram as vozes que se levantaram sobre esta megalómana obra, inclusive, a do presidente da delegação regional da Ordem dos Arquitectos. Inclusive, uma petição acabou por não ser entregue na Assembleia, por não ter reunido o número suficiente de assinaturas. Significativo do alheamento. Para já, trata-se de uma obra que rebenta com a escala do anfiteatro da cidade do Funchal. Há uma pergunta que, neste momento, deve ser colocada: tendo sido do Dr. Miguel Albuquerque a responsabilidade total da autorização da sua construção, hoje, o que pensa, após o que está à vista de todos? Seria interessante conhecer a sua leitura sobre esta agressão paisagística que ajuda a descaracterizar o anfiteatro da cidade do Funchal. Mais, seria bom que fosse do conhecimento de todos os funchalenses os pareceres das entidades envolvidas.

sábado, 17 de junho de 2017

FUTEBOL "INDÚSTRIA CANIBAL"


Gosto de acompanhar um bom espectáculo de futebol. Tal como fico preso à televisão aquando de outras modalidades de onde sobressaem imensos aspectos deste a técnica à beleza do movimento, só possíveis com muitos anos de persistente dedicação. O que não suporto é ter de passar de canal em canal e ter de levar com todos, sentados e pagos, a falar da mesma coisa, bastas vezes ofendendo-se, em uma insuportável gritaria. De uma ninharia fazem uma novela! E levam dias a falar da mesma coisa. Quando não há assunto para especular até ao tutano, vistas as repetições de todos os ângulos, coisa que o árbitro não dispõe, ficam por aí na falta que o árbitro não viu, no fora-de-jogo mal apontado, na grande penalidade que ficou por marcar, enfim, permitam-me a expressão, em uma chafurdice para a qual não há paciência. Há quem goste, aceito, mas não deixa de ser demais. Agora é a paranóia dos e.mails e se o Ronaldo fica ou não em Madrid. Faço como um dia o Herman despachou: não gosta... mude de canal que também é a cores. É a minha opção preocupado que estou com outros aspectos bem mais importantes. 


Ora que raio, se existiu ou se existe corrupção, pequena ou grande, que envolve, dizem, dirigentes e árbitros, apresentem as provas na sede própria, na Justiça. Ponto final. Aliás, sabe-se que ela, corrupção, anda por aí. Por todo o sítio. É a própria comunicação social que, diariamente, nos informa. E é o próprio Ministério Público que monta tantas operações no sentido de verificar papelada comprometedora. E são os Tribunais que, uma vez ou outra, condena por provas concludentes dessa corrupção. Outra coisa é o espectador ter de levar com horas a fio de paleio maldizente e especulativo. Entre a miséria de um big brother ou coisa parecida, em sessões contínuas, e certos programas de pressuposto "desporto", venha o diabo e escolha!
Gente identificada com os designados três grandes do futebol, como se outros não existissem ou servissem, apenas, para compor o ramalhete; gente, sou capaz de apostar, muitos, sem um passado nem um presente de actividade física ou desportiva regular, tão gordos se apresentam, mas que falam e falam como se doutorados fossem; gente que proporciona um  péssimo exemplo para os mais novos que ficam embebedados no discurso e que acabam por reproduzir, mais tarde, essa discussão estéril. Falam de esquemas tácticos, de regras de arbitragem, de técnica, de características dos jogadores, substituindo-se aos treinadores, como se acompanhassem o dia-a-dia do treino, ou alguma capacidade tivessem advinda de uma qualquer licenciatura em desporto. Em alguns casos é chamada ignorância altifalante.
Desde os anos sessenta que tenho um certa simpatia por um determinado clube. Mas passo muito bem sem ele. Sou sócio de um clube há 67 anos, mas passo muito bem sem ele. Não frequento estádios e há dezenas de anos que não assisto ao vivo a uma partida. Portanto, é para o lado que melhor durmo se tais clubes ganham ou perdem. Porém, parece-me óbvio que um clube, seja ele qual for, após uma caminhada de trinta e seis jornadas, chega em primeiro lugar, é porque tem, no mínimo, o mérito da regularidade. A vitória fica a dever-se aos árbitros e aos dirigentes? Não me parece razoável, porque se assim fosse o escândalo já tinha sido há muito despoletado. De resto, porque a corrupção é inaceitável, quem tem provas, tem o dever de as remeter para o Ministério Público e deixem-nos desse matraquear diário de e.mails deste e daquele! Até porque, todos, da FIFA à UEFA  até aos clubes e jogadores, pelo que se sabe, em função de processos anteriores e do que é público, como diz a voz do povo, ninguém têm água com que se lave. Galeano tinha razão quando se pronunciou sobre o futebol: "(...) é uma indústria canibal".
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O CORPO DE DEUS MUTILADO


Sim, é disso que se trata. O Corpo de Deus está mutilado na humanidade por todo o mundo, vou alumiar aqui alguns exemplos...


1. Hoje especialmente está mutilado em Londres nas vítimas do grave incêndio que consumiu um edifício residencial, Grenfel Tower, em Londres. Pomo-nos em silêncio perante tamanha hecatombe infernal.
2. Na Venezuela onde a violência, a fome e a falta dos bens essenciais são uma realidade quotidiana, Deus fica mutilado perante a barbárie, a prepotência e a teimosia. Sim, a teimosia ditatorial que faz o seu caminho e não se importa que mutile o Corpo de Deus nos seus cidadãos, deixando-os a morrer à fome, na pobreza e na violência, especialmente, suscitada pelas forças de segurança. Um drama que não se imagina onde vai parar.
3. O terrorismo semeia a morte por todo o lado, fazendo vítimas inocentes, especialmente, crianças indefesas e tantas pessoas que estava no lugar errado e na hora errada, porque alguém sem amor à sua vida e muito menos à dos outros faz explodir as bombas do ódio e da vingança, às vezes invocando-se erroneamente o nome de um deus. Um absurdo que não limpa nenhum terrorista da condição de criminoso.


4. Entre nós o Corpo de Deus está mutilado nos serviços da saúde que falham em muitos domínios, não por causa do nosso dedicado corpo de pessoas que se dedica aos doentes, médicos/as, enfermeiros/as e todo o pessoal auxiliar que fazem das tripas coração para salvar o mais que podem os seus/nossos doentes. Mas o Corpo de Deus não deixa de se mutilar por causa da consulta que não veio a tempo razoável, faltaram os medicamentos, faltou a máquina do coração, os medicamentos, o mamógrafo e todo o material para ser feita a urgente e a tão desejada cirurgia, que iria salvar ou adiar o momento derradeiro deste mundo.
5. O Corpo de Deus fica mutilado todas as vezes em que se recorre à violência por ódio, por vingança e para impor uma vontade pessoal, mesmo que seja a mais absurda do mundo. Daí que tenhamos que contar com tantas pessoas com o coração negro porque foram espancadas, violadas sexualmente ou simplesmente escravizadas de alguma maneira para que vingasse o gosto mórbido dos pequenos e grandes ditadores que existem por todo o lado.



6. O Corpo de Deus está mutilado por tantos que estão sem pão e sem chão, jogados no olho da rua do desespero, na exclusão do trabalho digno, nos sem abrigo, nos toxicodependentes, na solidão e depressão infernais, na indiferença que é o pior veneno dos tempos atuais, nos excluídos das decisões que vêm a ter implicação na vida de todos… A mutilação do Corpo Divino está nas feridas e nas chagas de tantos idosos jogados ao abandono de lares, hospitais e alguns até completamente exilados nas suas próprias habitações bem perto de familiares próximos.
7. O drama dos refugiados. É a maior chaga do nosso tempo. São multidões em fuga dos métodos de violência que regrediu ao tempo da pedra lascada, levada a cabo por grupos rebeldes, que nasceram como cogumelos, resultantes de políticas erradas das grandes potenciais mundiais, o negócio das armas e as posições hipócritas de muitos governantes de países ditos civilizados.



8. Por isso, há este dia do Corpo de Deus, para que no pão e no vinho, que se transubstanciam em Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia, para que daí venha a radicalidade transformadora da vida e do mundo para que o sonho nos torne militantes da construção de um mundo mais humano e fraterno.

9. O Papa Francisco numa das suas catequeses sobre a Eucaristia escreveu e termino com isso: «Por vezes, alguém pergunta: “Por que deveríamos ir à igreja, visto que quem participa habitualmente na Santa Missa é pecador como os outros?”. Quantas vezes ouvimos isto! Na realidade, quem celebra a Eucaristia não o faz porque se considera ou quer parecer melhor do que os outros, mas precisamente porque se reconhece sempre necessitado de ser acolhido e regenerado pela misericórdia de Deus, que se fez carne em Jesus Cristo. Se não nos sentirmos necessitados da misericórdia de Deus, se não nos sentirmos pecadores, melhor seria não irmos à Missa! Nós vamos à Missa porque somos pecadores e queremos receber o perdão de Deus, participar na redenção de Jesus e no seu perdão». Vamos todos contribuir com a nossa medida de bondade empenhada para que tenhamos menos o Corpo de Deus mutilado à nossa volta

NOTA
Texto do Padre José Luis Rodrigues, publicado no seu blogue "Banquete da Palavra"

segunda-feira, 12 de junho de 2017

É MAIS FÁCIL UMA CAMPANHA NEGATIVA DO QUE UMA CAMPANHA PROPOSITIVA


Começam a aparecer indicadores que denunciam que, alguns, pouco ou nada aprenderam com os anos que já levamos de DEMOCRACIA. Em poucas palavras: as campanhas negativas e ofensivas, muitas vezes, da dignidade das pessoas, continuam a prevalecer relativamente às campanhas de natureza propositiva. Já não é tanto a promessa fácil que está em causa, enquanto engodo para a conquista do voto, mas a proposta global definidora de uma maneira de encarar e preparar as cidades e vilas para um futuro sustentável em todos os sectores e áreas de actividade. Julgo eu, depois de muitos anos a acompanhar este processo, que é residual o número daqueles eleitores que ainda alinham ou toleram o discurso ofensivo, a promessa pontual ao nível do beco, da tampa de saneamento básico, da posição das mesas de uma esplanada ou em cartazes de uma franciscana pobreza na mensagem. Estão enganados os que pensam que, por essa via, ganham a confiança dos eleitores.  


Choca-me, por isso, quarenta e três anos depois de Abril, os alegados actos de corrupção não sejam dirimidos em sede própria, nos Tribunais, ou, então, uma juventude partidária, que deveria ser irreverente e propositiva em defesa do seu futuro, escolha exactamente a mesma conversa dos seus eventuais e históricos mentores. É triste assistir à democracia nivelada por baixo. Por um lado, por exemplo, no caso da corrupção, porque a lei é para ser cumprida, reunidas as provas concludentes da sua existência na gestão e administração da "coisa pública", não exista coragem para solicitar a respectiva investigação, antes julguem preferível alimentar ou o boato ou as manifestações mediáticas provocadoras de dúvida; por outro, na comunicação através de cartazes, os eleitores sintam que aquilo com que são confrontados não corresponde, grosso modo, à vivência do dia-a-dia.
Isto é preocupante em uma altura que é sensível que a população nutre desconfiança na generalidade dos políticos, bem presente nas altíssimas taxas de abstenção (existem outros aspectos, claro) que em nada favorecem a participação que a democracia exige. Estou em crer que todos os actos políticos menos bem pensados acabam por concorrer para esse desgaste conducente à ideia de que não vale a pena, porque todos são corruptos e todos são desonestos. Melhor dizendo, todos à excepção dos que produzem as declarações. Ora, o exercício da política não se compagina com este quadro de tensão e ofensa permanente. Para o eleitor não partidário, a esmagadora maioria, interessa-lhe, sobretudo, uma visão mais abrangente, de proposta séria em todos os sectores e áreas. Desejam credibilidade. O eleitor, à distância, com a sua experiência, confrontado com certas posições, acaba por descobrir e é capaz de dizer para com os seus botões: o que tu queres sei eu! Portanto, eu que me incluo nesse vasto leque de pessoas que pensam a sociedade e que desejam uma luta civilizada entre pontos de vista distintos, sinto-me defraudado quando em causa não está uma palavrinha simples mas de grande alcance: PROPOSTA.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

THERESA MAY NA SENDA DE AZNAR?


Francisco Louçã, in Público

06/06/2017)

Vale a pena olhar para Espanha por estes dias que correm. Na economia, uma nova vaga pode derrubar o Popular, o banco Opus Dei, que seria então o primeiro banco europeu a ser “resolvido” já de acordo com as ameaçadoras regras da União Bancária, ou seja, com confisco de depósitos. Na política, Pedro Sanchez ganhou as eleições no PSOE, contra o aparelho e contra o El Pais, e promete oposição a Rajoy, em concorrência ou aliança com o Podemos de Pablo Iglesias.


Mas é Theresa May, primeira-ministra britânica, quem antes de todos devia estudar com atenção a história recente de Espanha e, em particular, o episódio da derrota impossível da direita, então conduzida por José Maria Aznar, em 2004. Aznar estava há oito anos no poder, tinha maioria absoluta, as sondagens anunciavam vitória esmagadora, a oligarquia mediática desprezava os adversários. Era um dos grandes do mundo: com Barroso e Blair, fora às Lajes apoiar Bush e iniciar a invasão do Iraque. E foi derrubado pela viragem surpreendente nas eleições, logo depois de ter tentado aproveitar um atentado da Al Qaeda, mentindo sobre os seus autores, para obter ganhos internos. Foi demasiado evidente, fracassou, perdeu as eleições.
Esse ataque foi de dimensão dificilmente comparável com o que ocorreu em Manchester ou agora em Londres, mesmo que as motivações fossem semelhantes e a desumanidade seja indistinguível. Mas a forma de gestão política de uma crise de segurança, que atinge a pessoa comum que se passeia na rua, ou as crianças e adolescentes que saem de um concerto, essa deve ser analisada com atenção. É uma difícil mas também rara oportunidade para os governantes, ainda mais em campanha eleitoral, e May nem fingiu que não queria aproveitar o momento para reforçar a sua imagem de liderança política depois de semanas de perda. Aznar, no seu tempo, fez ainda um pouco mais, deformou as informações para enganar a opinião pública, faltavam poucas horas para o voto. Só que esses momentos estão naquela fronteira invisível que é gerada pela emoção: um pouco mais é demais e o jogo político depende de como é sentida a credibilidade do governo. Aznar perdeu tudo e May poderia seguir o seu caminho.
As probabilidades ainda a favorecem, mesmo que nestas vésperas do voto a diferença entre Conservadores e Trabalhistas já seja reduzida. Lembremo-nos, no entanto, da evolução desta espantosa campanha: há duas semanas May tinha quase 20% de vantagem e a imprensa era unânime, Corbyn é um “activo tóxico”, vai conduzir o Labour a uma “derrota histórica”, é “demasiado radical para vencer eleições”. A vitória esmagadora dos Conservadores foi festejada um pouco cedo demais, agora instalou-se a dúvida e não será por acaso que um homem de direita descobre que, afinal, May é uma continuidade de Thatcher (e de Blair, que foi o herdeiro de Thatcher), o que pode levar o país a mais problemas.
Ora, o que virou o jogo eleitoral foi o debate sobre os programas dos partidos e o que querem fazer no governo. Quanto a critério democrático, não está mal. O contraste, aliás, foi a chave do sucesso de Corbyn: no seu manifesto propõe a nacionalização dos correios, dos caminhos de ferro, da água e da distribuição da energia, a criação de um novo banco público e a recusa da venda de um banco nacionalizado (o Royal Bank of Scotland, um dos maiores do mundo), e ainda a manutenção da propriedade pública de duas cadeias de televisão. Os Conservadores de May, pelo contrário, prometeram prosseguir o curso da privatização e dos cortes nos serviços públicos, a receita que já conhecemos.
Pode um programa socialista, moderado como este, ganhar as eleições? Pois pode. Mas ganhar eleições não basta, é preciso governar e, no passado, os trabalhistas fracassaram em duas grandes ocasiões: em 1945 e em 1966. Para mais, o bom senso dirá que, com o Brexit e o peso da finança globalizada, a situação é ainda mais difícil agora.
Em todo o caso, que um partido contrarie o consenso de que Macron é hoje o exemplo mais exuberante – e continua a prometer que a sua primeira grande medida será facilitar os despedimentos – e que demonstre que um programa de nacionalizações pode mobilizar amplo apoio popular, isso sim é um sinal de como o mundo pode girar.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

EM DEFESA DE UMA MELHOR SUPERVISÃO


À margem da sessão plenária do Parlamento Europeu em Estrasburgo, e no seguimento de um outro encontro realizado no passado mês de Fevereiro, a eurodeputada Liliana Rodrigues voltou a reunir-se com Corina Cretu, Comissária para o Desenvolvimento Regional. Em cima da mesa esteve a criação de mecanismos eficazes para a supervisão de projectos financiados com valores abaixo dos 50 milhões de euros.


A deputada socialista defende que, “apesar da supervisão dos pequenos projetos ser da competência dos Estados Membros, é necessário que a Comissão sugira novos critérios a ter em conta aquando da supervisão dos mesmos, de forma a reforçar os mecanismos de controlo”. Referindo ainda que, “para além da óbvia preocupação com a fraude, mais fácil de camuflar nestes pequenos projectos, há outros critérios que devem ser contemplados, como a conservação do património histórico e cultural ou o respeito pela qualidade ambiental”. De referir que, por diversas vezes, a deputada Liliana Rodrigues questionou a Comissão Europeia nesse sentido, nomeadamente no que respeita à demolição de pontes e muralhas históricas na cidade do Funchal.
Para Liliana Rodrigues, a Comissão Europeia “não pode ver-se associada a projectos que interferem de forma séria na comunidade em que vão ser implementados sem ter em atenção, ou pelo menos dando orientações claras para que as autoridades nacionais responsáveis o façam, perspectivas distintas quanto à correcção e pertinência dos projectos apresentados. Por várias vezes tive oportunidade de referir a destruição de pontes e de muralhas históricas na cidade do Funchal como um mau exemplo de utilização de dinheiro do Fundo de Coesão. Não foram ouvidas outras opiniões antes de iniciar a destruição de património histórico, mesmo havendo descontentamento e manifesta contestação por parte dos cidadãos e especialistas. Há toda uma avaliação anterior que está a faltar ou que pelo menos não está a contemplar muitos aspectos que deveriam ser tidos em conta, daí a pertinência da criação de mecanismos que venham suprir estas lacunas. Não esqueçamos que o património histórico, cultural e ambiental possui uma dimensão europeia”.
Indo de encontro ao defendido por Liliana Rodrigues, a Comissária do Desenvolvimento Regional sublinhou o compromisso da Comissão de apresentar uma estratégia eficaz e inovadora para as regiões ultraperiféricas da Europa, examinando formas de tornar a política de coesão pós-2020 menos de "tamanho único” para todos os Estados Membros e atender mais às especificidades, aos pontos fortes e aos desafios das Regiões Ultraperiféricas.
Em Outubro deste ano, já durante a Presidência da Guiana Francesa no Grupo das Regiões Ultraperiféricas do Parlamento Europeu, a deputada Liliana Rodrigues trabalhará com a Comissão no sentido de desenvolver uma estratégia de supervisão que promova o rigor na implementação destes projectos de menor dimensão apoiados por financiamento europeu.
NOTA

quinta-feira, 1 de junho de 2017

OS EMIGRANTES MADEIRENSES NA VENEZUELA NÃO COMEM NEM CURAM MALEITAS COM PALAVRAS DE SOLIDARIEDADE


Constrangem-me e decepcionam-me as atitudes políticas que não transportam qualquer coisa significativa. O Dr. Sérgio Marques, secretário regional dos Assuntos Parlamentares da Madeira, em visita à Venezuela, repetidamente, disse que a razão da sua visita "(...) não é vir aqui descortinar soluções para a crise política (óbvio) é pelo contrário exprimir um sinal claro de solidariedade com a nossa comunidade" (...) "Não a abandonamos (comunidade). São madeirenses, independentemente do sítio onde estejam a viver e, portanto, é também essa mensagem que quero transmitir com a minha vinda cá". Ora, os emigrantes madeirenses não comem, tampouco adquirem medicamentos com a solidariedade manifestada através de palavras. A solidariedade deve materializar-se com factos e não com acenos de simpatia que por aí ficam. E sendo assim, os que vivem dolorosos momentos necessitam de uma solidariedade consubstanciada em alguma coisa, por pequena que seja, mas que atenue a dor. Já explicito melhor.


Não é necessário ir à Venezuela para saber que "a situação se degradou bastante nestes meses que medeiam entre a minha anterior visita (Julho de 2016) e esta que está a ocorrer neste momento" (...) que "a situação está a degradar-se, acentuadamente, e é cada vez mais preocupante, até porque não descortinamos uma saída para esta crise política, social, económica, muito profunda em que a Venezuela está a mergulhar e que afecta, obviamente, tremendamente, a nossa comunidade". Declarações deste teor constituem, apenas, paleio político que nada acrescentam. Basta seguir os meios de comunicação social, as imagens dos confrontos na rua, as dezenas de mortos, os assaltos, as declarações da besta que governa, as manifestações aqui no Funchal, as inscrições no centro de emprego, o número de crianças que passaram a integrar as escolas, para percebermos, rapidamente, que o quadro é dramático. Ora, a solidariedade não pode ser concretizada ao jeito de quem se cruza com um faminto e que lhe diz: tenha paciência. A solidariedade materializa-se, neste caso, procurando, através dos canais institucionais, desde secretaria de Estado à Embaixada e Consulados, passando pelo vasto associativismo, de forma oficialmente articulada e fiscalizada, fazendo chegar, prioritariamente, medicamentos e alimentos. Bastaria meter mãos à obra. Ou por via do orçamento regional ou pela sempre pronta disponibilidade do nosso povo, tantas vezes já demonstrada em variadíssimas situações de aflição. Mais, ainda, através da contribuição daqueles que tanto ganharam e enriqueceram com as obras realizadas na Madeira. 
Sei quanto pode custar um contentor de medicamentos ou um contentor de alimentos, incluindo o respectivo transporte. Que raio de governo que não encontra soluções? A solidariedade assente em palavras não funciona. Prestar solidariedade dá muito trabalho, mas é preciso fazê-la funcionar. Por outro lado, a secretária da Inclusão e Assuntos Sociais apregoou que a Segurança Social já atribuiu a regressados da Venezuela cerca de € 100.000,00, mas não ficou claro se a verba saiu da Segurança Social que é NACIONAL ou do orçamento regional! No primeiro caso, no quadro autonómico, chama-se a isso cumprimentar com o chapéu alheio. E o drama dos que lá ficaram?
Deixo um exemplo de solidariedade efectiva relembrando o desastre que varreu Vargas e que sepultou centenas nos anos 90. Uma semana depois, um representante do grupo parlamentar do PS-Madeira na Assembleia Legislativa da Madeira esteve em Caracas e junto do Padre Alexandre Mendonça, entregou três mil contos para atender à situação dos madeirenses afectados. O saldo da conta do grupo parlamentar ficou a zero, mas prestou-se solidariedade. Mais tarde, quando tantos falavam do carenciado ensino da Língua Portuguesa, sei que foram remetidas centenas de livros escolares, para todos os graus de ensino, para colégios e associações que transmitiam o ensino da nossa língua e cultura. Prestou-se solidariedade. Porque a solidariedade não pode ser uma mão cheia de NADA e a maioria dos que emigraram não são ricos. 
Ilustração: Google Imagens.