terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

5G, um romance americano


Por
Economista - O Jornal Económico
24 Fevereiro 2020

Mais do que a apregoada democracia ocidental em risco, o romance dos EUA tem por base o medo. O medo apavora-os. E o atraso tecnológico em que se encontram é de difícil recuperação.

1. A Quinta Geração (5G) de internet móvel incorpora a ideia de revolucionar o mundo das comunicações, o que, nos dias de hoje, é quase sinónimo de uma mudança profunda de vida das pessoas. Tudo em alta velocidade. Tudo a relacionar-se com tudo. Mais aparelhos conectados ao mesmo tempo.
Por detrás desta promessa, esperança, forjou-se um “romance” pretensamente oriundo da China.
A China mediante esta tecnologia – insinuam os EUA e muitos países vão na onda – pretende ir captando o máximo de informações das mais variadas áreas, penetrar aqui e ali em sectores nevrálgicos de diferentes países e, articulando esses processos, chegar ao domínio do Mundo a prazo, chegar a primeira potência mundial.
Chegam a insinuar que aeroportos e hospitais, se equipados pela Huawei, poderiam ser paralisados em situações críticas de desentendimento mundial.
A partir deste romance forjado, os EUA estão a movimentar uma guerra tecnológica mundial e política contra a China, nela cabendo toda a espécie de boicotes, de pressão sobre os países ocidentais e outros, para afastar a Huawei de concursos de fornecimento de equipamento às redes 5G que começam a ser instaladas.

2. E porquê a Huawei?

A Huawei é a grande empresa chinesa, detentora de equipamentos avançados para a 5G e que, segundo vários especialistas de renome, leva mais de três anos de avanço científico e tecnológico face à sueca Ericsson ou à finlandesa Nokia, os dois rivais europeus de maior consistência. Para além destes avanços científicos e tecnológicos, oferece vantajosas e imbatíveis condições de mercado, em termos de custo no fornecimento dos equipamentos.
No campo da cibersegurança, (a grande acusação dos EUA contra a China e a Huawei) montou um laboratório em Londres, onde é possível testar que oferece todas as condições, ou pelo menos, que se situa em plano igualitário ao dos seus concorrentes europeus e americanos.
Neste contexto, com base nos sãos princípios da economia de mercado, não faz sentido discriminar a Huawei face à Ericsson e Nokia como está a França de Macron a tentar fazer, ao não lhe conceder medidas proporcionais com a exigência de validade de autorização claramente mais curta, apesar das suas bases científicas e tecnológicas terem vantagens provadas face às duas empresas europeias.
Face às empresas dos EUA, a posição científica e tecnológica da Huawei mantém idênticas vantagens às que apresenta face às europeias e na concorrência de mercado ganha muitos pontos.

3. O romance com alguma ponta de veracidade retorna assim aos EUA.

Toda esta guerra acontece porque os EUA se atrasaram na ciência e tecnologia dos equipamentos ligados ao mundo das telecomunicações, à internet das coisas (IoT), e sabem que, quem comandar as instalações em 5G, tem uma forte probabilidade de determinar o Mundo nos próximos 30, 40 anos.
Aliás, a China nunca escondeu esse objectivo de chegar a primeira potência mundial. No último Congresso do Partido Comunista Chinês, ficou bem claro e estabelecido este desiderato para 2035. E está a trabalhar em várias frentes, entre elas conquistar e consolidar o avanço científico e tecnológico em áreas sensíveis como as telecomunicações.
Contudo, a actual trajectória evolutiva não está a correr bem à China, pois o coronavírus veio marcar o crescimento económico abaixo dos 6% e manchar um pouco a imagem do país. Alguma falta de eficiência no ataque ao coronavírus veio ao de cima, em resultado de algumas formas muito rígidas de decisão e funcionamento do sistema. Por outro lado, nem tudo foi negativo, a China evidenciou elevada capacidade de realização como a construção de um hospital com cerca de mil camas, num curto espaço de tempo, só possível num país com as características da China.

4. Este atraso tecnológico na história dos EUA, em que são apanhados de surpresa pela China, faz lembrar o da era do Sputnik em 1957, quando os EUA se atrasaram na exploração do espaço para a então União Soviética. É evidente que os tempos são outros e o encaixe mundial das economias também. Sem dúvida que uma vitória chinesa hoje causa muito mais mossa do que naquele tempo, em que a economia soviética estava muito isolada.

Hoje, a China tem a sua economia muito integrada com a economia mundial.
Aliás, decisões à Trump são contraditórias. Podem fazer atrasar por algum tempo o percurso da China, mas os países que alinharem incondicionalmente ao lado dos EUA vão também sofrer e muito, nomeadamente a Europa, se não optar por uma política autónoma, ou seja, uma estratégia equidistante dos dois colossos para instalar a 5G e deixar-se ficar na alçada das pressões americanas.
Por um lado, tudo indica que a UE vai continuar submissa ao software americano. Muitos analistas vão nesta linha de pensamento. Por outro lado, a diplomacia americana acaba por facilitar a posição da China, de tão má que é.
E o romance dos EUA, para ser bem contado, deve ter por base o medo e não a apregoada democracia ocidental em risco, como pretendem fazer passar. Os EUA têm a noção exacta do perigo que enfrentam. O medo apavora-os. O motor da pressão dos EUA sobre o mundo é esse medo bem objectivo. O atraso tecnológico em que se encontram é de difícil recuperação.
Alguns países vão seguir uma estratégia dúbia na instalação do 5G. Aquilo que fez Boris Jonhson (entreabrir a porta aos equipamentos da Huawei) é uma boa indicação a Trump de que as suas pressões tão pouco veladas podem não resultar.

5. Por outro lado, a China tem os seus trunfos. Se a Huawei for muito condicionada, e está a sê-lo – inclusive a filha do seu fundador foi detida no Canada há uns meses atrás, sob alegações algo absurdas num ambiente normal de relações comerciais entre países civilizados; assim como a França quer impor prazos mais curtos de validade dos equipamentos face à Nokia e Ericsson – a tudo isto pode a China retorquir com restrições no seu mercado interno às empresas ocidentais, e já está a colocar frontalmente a questão.

Aliás, a embaixada chinesa em Paris já protestou em comunicado contra a discriminação da Huawei, e colocou a questão da posição chinesa em termos de restrições.
Por outro lado, as empresas ocidentais estão a olhar para as leis de mercado e a reagir com prudência mas com desconfiança face à submissão dos governos a pressões americanas. Um certo impasse é possível mas, nas condições actuais do mundo tecnológico, a balança parece pender para o lado chinês.
6. A terminar, uma curta observação. Não me parece que a 5G seja um conceito consolidado. Há, em vários quadrantes, ideias muito difusas, pelo menos pelo que leio na comunicação social e numa ou outra revista da especialidade. Talvez nem mesmo os seus principais intérpretes tenham já as ideias bem afinadas.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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