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quinta-feira, 25 de abril de 2024

Presidente da Comissão Europeia em mar revolto


Por 
João Abel de Freitas, 
Economista

Von der Leyen está metida num processo de contornos claramente duvidosos, de contratação pela UE de um seu correligionário de partido, o eurodeputado Markus Pieper, a quem atribuiu um alto cargo bem remunerado.



Entre 6 e 9 de Junho, vão ser eleitos os 720 deputados do Parlamento Europeu. A presidente da Comissão europeia, Ursula von der Leyen, manifestou vontade, junto do seu grupo parlamentar europeu –PPE –, de continuar a liderar a Comissão por mais cinco anos.

Até aqui, tudo legítimo. Porém, face a acontecimentos vários e de natureza diversa será que reúne condições para o cargo?

Notas retidas da comunicação social para um melhor juízo

1. Ursula von der Leyen deveria esforçar-se por apresentar um núcleo de ideias fortes de credibilização dessa vontade e uma análise crítica sobre os domínios que correram bem e menos bem no seu primeiro mandato. Muitos foram os que correram menos bem na política, gestão e estratégia, devido ao seu apego sectário aos interesses económicos e políticos do seu país de origem, a Alemanha, com relevo para a energia e à sua manifesta dependência acrítica dos EUA, designadamente, a aceitação sistemática de sanções económicas desadequadas aos interesses europeus, mas benéficas aos EUA.

Von der Leyen apresentou-se na Roménia, em Março último, na reunião do PPE, onde a sua candidatura foi apresentada e aclamada, com um discurso vazio e, quando uma ou outra ideia surgia era de colagem à direita radical (grupo Meloni) como o tema da imigração, onde até o PSD português se demarcou dessa posição.

2. Acontece que, nos últimos tempos e, sobretudo, nos últimos meses, a vida de Von der Leyen, na Comissão, não anda a correr-lhe de feição.

Para além do “Pfizergate”, suspeitas de corrupção e conflito de interesses em torno da compra de vacinas, aquando da Covid-19, situação em investigação na Procuradoria Europeia, surge o “Piepergate” a ensombrar ainda mais a sua imagem. É motivo para referir o velho ditado: “uma desgraça nunca vem só”!

A presidente Von der Leyen está metida num novo processo de contornos claramente duvidosos (há quem denomine “escândalo”), de contratação pela UE de um seu correligionário de partido (CDU alemã), o eurodeputado Markus Pieper, a quem atribuiu um alto cargo bem remunerado – o de representante da Comissão Europeia para as Pequenas e Médias Empresas (PME). O processo, conhecido na comunicação social como “caso Piepergate”, tem sido comentado em vários jornais, incluindo o “Expresso” (10 abril 2024).

Markus Pieper foi o escolhido, apesar de haver outras duas candidaturas, com melhor avaliação para o cargo, nas três comissões de selecção, sendo uma de consultores externos. A diferença de pontuação não era assim tão somenos, mas da ordem de 30%, segundo revela “La Matinale Européenne”.

Markus Pieper não era um eurodeputado qualquer, mas o secretário da delegação da CDU alemã no PE, um político de peso com influência no seio da democracia-cristã alemã e no próprio PPE.

3. As entorses de processo são de elevada monta e pouco se compreende a cooperação extrema de Ursula von der Leyen, a não ser lendo os jornais. E, aqui, podemos evoluir para uma “teoria de compra” de elevado cargo político bem remunerado.

Enquadramento mínimo do processo

4. A criação do cargo foi anunciada por Von der Leyen, no seu discurso institucional da União, em Setembro de 2023. Poucos dias depois, é aberto concurso, fixando-se o dia 25 de Outubro como data limite para a entrega de candidaturas.

Apresentam-se: Markus Pieper, eurodeputado da CDU alemã, Martina Dlabajorá, eurodeputada europeia liberal da República Checa e Anna Stellinger, directora geral adjunta da Confederação das empresas suecas, encarregada dos assuntos internacionais e europeus.

Depois do crivo nas comissões de selecção, as três candidaturas são convidadas para uma outra entrevista com Von der Leyen, o comissário Thierry Breton, responsável pelas PME e Johannes Hahn (comissário da Administração), equipa escolhida pela presidente da Comissão.

Na base da entrevista, Breton recomenda Martina Dlabajova para o exercício do cargo. Alguns dias mais tarde, na reunião do colégio de comissários de 31 de Janeiro de 2024, estando Breton ausente em missão, nos EUA, Von der Leyen avança com a nomeação de Markus Pieper para representante da Comissão Europeia nas PME.

Refira-se, segundo escreve “La Matinale Européenne”, o que está em causa é uma troca de apoio ao segundo mandato de Von der Leyen. Thierry Breton foi apanhado de surpresa na volta dos EUA.

Uma parte do Colégio de Comissários, quando tomou conhecimento deste processo sui generis, decidiu contestar abertamente a decisão de Ursula von der Leyen, através de carta (27Março 2024) a exigir uma reanálise da situação. Entretanto, a candidata checa também apresenta recurso.

Todos estes procedimentos, uma vez conhecidos, aliados a outros comportamentos políticos recentes de Von der Leyen nomeadamente as posições de exagero de defesa de tudo quanto vem de Israel colocam Von der Leyen em situação muito crítica. E, assim, é de se interrogar como pode Von der Leyen continuar na corrida a um segundo mandato?

Será mesmo que o PPE, face a todos estes imbróglios, arrisca continuar a apoiar Ursula von der Leyen, correndo o risco de uma derrota no futuro Parlamento Europeu quando foi eleita para o anterior mandato pela margem de 12 votos apenas?

O que farão agora os partidos portugueses, PSD e CDS? Não está em causa a origem partidária de Ursula von der Leyen, pois sendo o PPE o grupo esperado como o mais votado tem esse direito de proposta.

Finalmente, a 16 de Abril último, o eurodeputado alemão demite-se no dia exacto em que ia assumir o cargo, porque é desautorizado no PE por uma votação maioritariamente contra a sua nomeação (382-144). Que enxovalho político para Von der Leyen!

Neste processo de nomeação e de ‘desnomeação’, as acusações mútuas também ocuparam grandes espaços na comunicação europeia, nomeadamente na francesa, dada a denúncia do comissário francês, responsável pelas PME.

Os deuses devem estar loucos

5. Quando a situação política europeia está a rumar fortemente para a direita radical, situações como esta são uma via verde. Os laivos de corrupção e influência são fortes e a solução só pode ser o afastamento da candidatura de Von der Leyen. Vários nomes correm nos meandros dos jornais.

Que haja bom senso para credibilizar a próxima Comissão Europeia, tanto mais que vêm aí tempos difíceis! Não é imaginável ver, lado a lado, nos comandos do Mundo Ocidental, Von der Leyen, depois de imagem tão degradada, e Trump. Mas tudo pode acontecer. A acontecer tudo isto, não passa de uma “comédia”, deprimente e triste. Um retrocesso. Como diz o filme: “Os deuses devem estar loucos”.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 4 de abril de 2023

O motor económico da Europa em risco de gripar


Por
02 Abril 2023

Estima-se que, em cada ano, deixam a Alemanha cerca de 180.000 altos quadros e empresários que ajudam a desqualificar a sociedade alemã pelos múltiplos efeitos no funcionamento da economia do país.



Um artigo de Rainer Zitelmann, publicado no “Contrepoint” (26/03/2023), é muito pouco abonatório da saúde da economia alemã, sob vários ângulos de análise.

Certamente, o nome do autor diz-nos pouco. Mas trata-se de um historiador alemão, politólogo, investigador, sociólogo e um conferencista de renome, participante e organizador de seminários sobretudo para empresários em todo o mundo, em países tão diferentes como a China, Vietname, EUA, Alemanha, Brasil, Chile, França …, pago com certeza a peso de ouro, autor de um livro recente a publicar para já em 30 países, que se intitula “Em Defesa do Capitalismo”.

O artigo alerta para um problema crítico, a Emigração de quadros empresários jovens, na sua maioria à volta dos 40 anos, experientes e bem-sucedidos na profissão.

Conta-nos o autor que a taxa de Emigração na Alemanha neste tipo de quadros empresariais é a terceira mais elevada das 38 principais nações mais industrializadas, pormenorizando ainda que 3/4 destes emigrantes têm diploma universitário.

Até os países mais avançados e de melhor nível de vida deixam “fugir” os seus quadros. Afinal, não é só Portugal que deixa escapar muitos quadros de que tanto precisa, sobretudo da área da saúde.

Um problema que dá que pensar

Este artigo reflecte, de forma ligeira embora, o sentir dos conferencistas de dois seminários por ele realizados em Berlim. No primeiro, os participantes eram na sua maioria empresários de diferentes sectores económicos onde destaca um comerciante de vinhos, um grande fabricante de brinquedos e um outro ainda a trabalhar na energia.

Face à pergunta de quem já tinha colocado a si próprio deixar o país para exercer a actividade num outro, diz que ficou chocado, quando quase todos levantaram o braço.

Dias depois, no outro seminário, também predominantemente de empresários e na sequência do anterior, “Plano B – e se a Alemanha bater contra o muro”?

Um agricultor declarou: “Os políticos não têm qualquer ideia do que é a agricultura”. Todos os dias nos aborrecem com regulamentos e mais regulamentos, cada um mais absurdo que o anterior. “Já os aturei o suficiente”. Agora estou a preparar-me para sair para outro sítio, onde possa trabalhar.

Desagrado e desencanto sem dúvida. Se se poderá generalizar, é uma outra questão! Mas, não deixa de ser um alarme de que algo anda mal. Mas, comenta, nem todos os empresários vão deixar o país, mesmo aqueles que têm muita vontade de o fazer.

Há muitas barreiras à saída, a complicar uma tomada de decisão. Há um “muro fiscal”, que coloca graves impedimentos. Os alemães têm bem mais experiência de outros muros, mais físicos, que se viam!

Segundo o autor do artigo, quando o empresário deixa o seu país é tratado, como se tivesse vendido a sua empresa ou as suas acções e realizado “um lucro” que, de facto, não existiu e sobre ele é taxado.

E ainda acentua. “Este imposto tornou-se mais rigoroso para os alemães que se mudam para países da UE”. Não queria acreditar. Fui à procura de informação e encontrei referências várias a este “muro fiscal” na imprensa europeia. Não aos procedimentos em pormenor.

Pergunto-me. Este procedimento é compatível com as normas comunitárias ou a Alemanha é tão dominante que se isenta a ela própria das regras comuns?!

Presentemente, cerca de 3,8 milhões de alemães vivem fora da Europa, correspondendo a uma taxa de emigração de 5,1%. Estima-se que, em cada ano, deixam a Alemanha cerca de 180.000 altos quadros e empresários que ajudam a desqualificar a sociedade alemã pelos múltiplos efeitos no funcionamento da economia do país.

Uma imigração muito menos qualificada ocorre em sentido inverso para postos de trabalho de base ou de nível intermédio, atraída muitas vezes sobretudo pela protecção social existente no país. Por outro lado, um estudo da OCDE indica que a Alemanha pratica a carga tributária e social, mais alta do mundo.

O autor defende que não são apenas as condições económicas que fazem os alemães deixarem o país e aponta um indicador deveras curioso, o da inveja social, em que, por acaso, a Alemanha se posiciona em segundo lugar, sendo a França o primeiro e em terceiro a China, entre os 30 que entram para o cálculo de comparação. Este indicador é determinado através do diferencial entre níveis de rendimentos.

As empresas

A situação a nível de empresas não é menos dramática. E neste quadro são tidos em conta múltiplos aspectos, com relevo para a burocracia do Estado, a elevada regulamentação e o custo dos factores de produção, onde a energia assume um peso determinante.

A BASF, a maior empresa química do Mundo, fez deslocalizar para a China, muito recentemente, parte de suas produções e justifica que o fez por excesso de regulamentação, demasiada burocracia e os elevados custos de energia que lhe retiram a competitividade e a todo o sector do ramo implantado na Alemanha.

O CEO da BASF argumenta que não foi a guerra da Ucrânia que afectou os custos da energia, pois os empresários alemães já a pagavam, muito antes da guerra, 50% mais elevada que nos EUA. Em seu entender, foi a errada política energética (EnergieWende) de responsabilidade de Merkel que começou a arrasar a indústria alemã.

O tipo de transição energética protagonizada pelo governo alemão, nos últimos doze meses, vem afundar ainda mais a indústria a prazo, porque não é tecnicamente credível para a descarbonização da sociedade e entende que o mecanismo de formação dos preços da electricidade tem de ser reformulado.

Concluindo, a energia é um tema basilar para a Europa, onde a Alemanha tem demasiadas culpas do caos em que se encontra. E insisto, sem um entendimento na mudança de rumo, não só o motor da economia europeia gripa bem como arrastará toda a União a uma situação crítica. E da Comissão nada a esperar para melhor, pois segue a voz do dono.

E sobre a energia, até o primeiro-ministro português se pronunciou sobre a ineficácia das medidas recentes avançadas pela Comissão Europeia.

Mas, se a UE continuar incapaz de resolver o problema da energia em profundidade, como até aqui, as eventuais medidas que se tomem ao nível de país ou por grupos de países-membros só poderão ampliar ainda mais a falta de coesão comunitária.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Fusão nuclear, uma grande pedrada nos inimigos do futuro


Por
26 Dezembro 2022

2022 foi o ano de maior consumo de carvão no mundo, com maior emissão de CO2. O Mundo andou para trás com a descarbonização ou, para ser mais benigno, fez compasso de espera.



Esta semana havia um bom lote de assuntos de elevado interesse político, económico e social para artigos de opinião:
O Catargate e a União Europeia, por exemplo, numa vertente da muita regulamentação existente e da pouca monitorização;
O porquê do mercado negro do petróleo estar tão próspero e dinâmico com o embargo e a fixação (60 dólares/barril) do preço de aquisição do petróleo russo;
As cheias e em especial as de Lisboa comparadas com as de Tóquio e outras cidades, onde as condições atmosféricas são de um modo geral mais desfavoráveis;
As falências em curso de um número significativo de empresas nos países europeus devido à crise energética numa Europa em perda de competitividade;
A ONU e a multiplicação de COPs (a COP27 no Egipto e a COP15, poucos dias depois, no Canadá). Encontro de lóbis? Coordenação de interesses? Ocupação de pessoas que vivem destes eventos…?

Uma mão-cheia de temas. Era só optar.

A fusão nuclear

1. Bem ou mal, aderi ao tema da fusão nuclear que até nem consta dos elencados antes.

Caiu-nos uma excelente notícia sobre esta vasta temática. Pela primeira vez na História, uma experiência de fusão nuclear dos cientistas do Laboratório Nacional Lawrence Livermore da Califórnia (LNLL) “conseguiu produzir mais energia do que a consumida no uso da produção”.

Não sendo um especialista na matéria, bem longe disso, estou convicto de há algum tempo que a energia nuclear civil desempenhará um papel estruturante no progresso da Humanidade, seja sob a forma de fissão, a energia hoje existente com todos os seus avanços dinâmicos recentes, seja sob a forma de fusão que, quando passar à industrialização, não emite CO2 – aliás como a fissão –, mas acrescentará a não geração de resíduos radioactivos, ou quaisquer riscos de acidentes graves como Fukushima ou Chernobyl. Efetivamente, não resisti a partilhar e comentar esta boa notícia que nos abre mais futuro.

Projectos experimentais de fusão nuclear estão em andamento, designadamente nos EUA, China e Reino Unido, para não falar do ITER, instalado em Cadarache, no sul de França, uma iniciativa internacional de vários países (China, Coreia do Sul, EUA, Índia, Japão, Rússia e União Europeia), mas infelizmente com atrasos sucessivos. Tido como muito importante na implementação da fusão, não está a cumprir os fins para que foi desenhado.

E, assim, ainda bem que surge a concorrência e com resultados expressivos. Aliás, experiências anteriores na China e EUA que estão no sucesso desta, anunciada a 13 de Dezembro, já tinham sido mais consistentes que o desempenho do ITER. Até parece que a localização (europeia) e a sua gestão não acomodam uma dinâmica adequada!

2. A fusão nuclear deu agora um grande passo, embora haja quem queira denegrir esse avanço, alegando que se trata de um acontecimento menor ou então que muitos séculos hão de vir até aparecer a electricidade via fusão.

Segundo li em jornais estrangeiros, o LNLL “causou fusão nuclear controlada libertando 2,5 Megajoules de calor com apenas 2,1 Megajoules de energia fornecida”. É evidente que ainda se está distante da consolidação industrial desta experiência. Bastantes mais serão necessárias e certamente vários Laboratórios irão continuar este trabalho de investigação.

As previsões para a aplicação industrial, ou seja, o seu uso na produção de electricidade continuada é uma incógnita, embora cientistas, certamente com algum grau de voluntarismo e optimismo, apontem para 15/20 anos.

O laboratório da Califórnia, ao dar este passo decisivo, está ciente do muito caminho a percorrer. O seu anúncio tem um propósito claro: consolidar o financiamento por parte da Administração americana. Para a mentalidade americana, a apresentação de resultados concretos, independentemente do grau de inovação em que se encontre, abre caminho à concessão de mais financiamentos e, nesta fase, é fundamental afastar escolhos dessa natureza.

3. Quanto às opiniões “cépticas”, sobretudo de origem europeia, permito-me registar algumas interrogações.

Não terão os descréditos apontados em artigos de opinião e comentários origem nos defensores das energias renováveis? É um dado adquirido que alguns tipos de renováveis, como a eólica, atravessam incertezas devido a irregularidade do vento, antevendo-se situações de futuro, menos boas. E da produção das terras raras usadas estar muito concentrada na Ásia não poderá nascer uma linha de dependência nestas energias…?

Por outro lado, as energias renováveis, como se sabe, não resolvem per si a descarbonização devido à sua intermitência, precisando sempre de energia compensadora e, neste caso, para os antinucleares, de energia fóssil.

A velha questão que divide a União Europeia

4. Infelizmente, existe uma velha questão, no âmbito da União Europeia, que muito tem contribuído para a profunda divisão na União Europeia (UE) E entre os defensores das renováveis e os da nuclear. Esta realidade é a base de efeitos nefastos profundos como os que estão a ocorrer agora com os elevados preços da energia e o seu contributo para a inflação que nos domina.

Vejo na abordagem por certas forças desta experiência no processo de fusão nuclear uma reedição dessa herança, designadamente por parte da Alemanha e de algumas ONG, que temem avanços porque têm interesses muito fortes em jogo.

Não nos podemos esquecer que há lóbis alemães poderosíssimos sobretudo do lado dos fabricantes de equipamento que com o avanço da nuclear e agora com a Fusão perdem a argumentação da nuclear como energia perigosa. O medo da desgraça ficaria enterrado. Mas atenção, há que olhar para o futuro com os pés assentes no chão. A energia de fusão é futuro, embora esta situação não corresponda a abandonar a fissão.

2022 foi o ano de maior consumo de carvão no mundo, com maior emissão de CO2. O Mundo andou para trás com a descarbonização ou, para ser mais benigno, fez compasso de espera. A Europa foi uma das zonas mais poluidoras, exactamente porque accionou várias centrais a carvão para escapar a eventuais roturas de energia neste Inverno, apesar de haver quem considere que a situação no ano de 2023 possa ser pior (Agência Internacional de Energia).

Por outro lado, a UE continua a ser parcial pois trata a energia nuclear em plano de secundariedade face às renováveis, contrariando os avanços da ciência cada vez mais favoráveis para esta, e quanto às renováveis os problemas avolumam-se.

As dúvidas sobram sobre as influências de muitos dirigentes da UE. Destas más políticas e estratégias enviesadas já conhecemos bem os efeitos. Perda de poder de compra e de competitividade. A Europa está em perda e cada vez mais tenderá, por este caminho, a ser uma potência de segundo nível, pelos erros que acumula e divisões internas não superadas. Um entendimento na energia é fundamental a uma Europa forte.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

Nota complementar

O Joule é uma unidade de medida tradicionalmente usada para medir a energia mecânica ou a energia térmica; numa outra aproximação: 1 Joule corresponde a 1W¨*s (Watt-segundo); o Megajoule corresponde a um milhão de Joules.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Narendra Modi na presidência do G20


Por
12 Dezembro 2022


Esperemos que esta presidência do G20 consiga ir além dos sentimentos e plante algumas sementes, no sentido de uma distribuição mais equilibrada de poderes entre os países.



No dia 1 deste mês de Dezembro, a Índia assumiu a presidência do G20 pelo período de um ano, sucedendo assim à Indonésia, cuja última cimeira se deu em Bali (14-16 Novembro).

1. Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, no discurso proferido em Bali, já na antevisão de futuro timoneiro do G20, pintou um quadro negro do Planeta (mudanças climáticas, Covid19, acontecimentos na Ucrânia, mau funcionamento das cadeias de distribuição…), atribuindo a instituições multilaterais como a ONU e seus diferentes Órgãos (Banco Mundial, FMI, PNUD, OMC…) falhas graves nas decisões de índole política e económica, que muito contribuíram para esta realidade.

Para Modi, as instituições multilaterais continuam a agir e a privilegiar os interesses do Ocidente em desfavor das economias emergentes.

O Ocidente continua, de facto, a tentar perpetuar-se, ou seja, a determinar o rumo do Mundo de acordo com o seu pensamento e interesses, quando, na realidade, desde há muito, deixou de reunir as condições para essa preponderância mundial.

2. A ordem mundial, constituída no pós – 2ª. Guerra, encontra-se perfeitamente desfasada dos temas e problemas de hoje. Tudo tem vindo a mudar nas mais diversas frentes, na economia, no social, no político, na demografia e até no campo das tecnologias do futuro. O Mundo transformou-se, mas continua manietado pelo poder do Ocidente que, no limite, não hesita no recurso à força militar para manter os privilégios.

Narendra Modi falou, assim, da necessidade firme de reconstruir a ordem mundial vigente. Neste contexto, disse, vai usar a presidência do G20 para desafiar o Ocidente e lançar de modo concertado e pacífico as alterações de fundo conducentes a uma distribuição mais equilibrada do poder político e a um novo figurino de governação do Planeta, de forma que as economias emergentes venham a ocupar, no xadrez político mundial, a posição que lhes compete e até ao presente nunca reconhecida.

Ninguém gosta de perder poder. E esta é a situação real. O Ocidente está em perda continuada de influência em várias frentes e resiste a isso por todos os meios (legítimos e ilegítimos).

3. A Índia, a China, o Brasil, a Arábia Saudita, a Indonésia e outros países emergentes do G20 opuseram-se, na Cimeira de Bali, à decisão dos países ocidentais de incluir na declaração final a condenação da Rússia a respeito da guerra da Ucrânia. O presidente da Indonésia, anfitrião da Cimeira, solicitou aos dirigentes ocidentais moderação na sua retórica contra a Rússia.

O primeiro-ministro da Índia considera que “o G20 é um fórum destinado a construir consensos em torno do desenvolvimento, do crescimento e das questões financeiras” e “a questão da guerra e dos conflitos deve ser discutida no Conselho de Segurança da ONU” tema, no entanto, dominante em Bali.

Narendra Modi e o G20

4. Modi tem referido várias prioridades para a presidência do G20. A segurança energética, a segurança alimentar, o financiamento pelas economias mais ricas (Norte) da transição ecológica das economias emergentes, bem como a transição digital têm merecido acentuado destaque.

No dia 1 de Dezembro, Narendra Modi fez publicar no jornal “L’Opinion”, em França, a título exclusivo, um documento enquadrador da presidência da Índia do G20, com o desígnio de “Uma Terra, Uma Família, Um Futuro”, em que afirma: “Os maiores desafios que enfrentamos – mudanças climáticas, terrorismo e pandemias – podem ser resolvidos não lutando uns contra os outros, mas apenas agindo conjuntamente”.

Fazendo uma curta referência às 17 presidências anteriores do G20, em que salienta o seu contributo para a estabilidade macroeconómica, a racionalização da tributação internacional e a redução dos encargos da dívida dos países, entre muitos outros resultados, questiona-se se o G20 não poderá ir mais longe, catalisando uma mudança fundamental de mentalidade, em benefício da humanidade como um todo.

Modi é afirmativo, mas refere que, por enquanto, a norma ainda é o confronto. “Vemos isso quando os países competem por territórios ou recursos. Vemos isso quando bens essenciais são transformados em armas. Vemos isso quando as vacinas são monopolizadas, enquanto milhões de pessoas permanecem vulneráveis”.

Modi aponta no documento que a Índia é um microcosmo pois para além de representar mais de 1/6 da população mundial é um país com uma diversidade de línguas, religiões, costumes e crenças vivendo numa certa harmonia, e daí poder projectar as suas experiências de forma a fornecer pistas de eventuais soluções mundiais.

“No decurso da nossa presidência do G20, apresentaremos as experiências, os ensinamentos e os modelos da Índia como modelos possíveis para outros países, em particular os países em desenvolvimento”.

O documento termina com um apelo de futuro.

“Para dar esperança às gerações futuras, encorajaremos negociações honestas entre os países mais poderosos, sobre a atenuação dos riscos colocados pelas armas de destruição massiva e o reforço da segurança mundial. A agenda indiana para o G20 será inclusiva, ambiciosa e orientada para a acção e será decisiva. Unamos os nossos esforços para fazer da Presidência Indiana do G20 uma presidência de transformação, harmonia e esperança. Trabalhemos em conjunto para moldar um novo paradigma, o de uma globalização centrada no Humano”.

Excelentes sentimentos e ideias!

Esperemos que esta presidência do G20 consiga ir além dos sentimentos e plante algumas sementes, no sentido de uma distribuição mais equilibrada de poderes entre os países, que alguns passos aconteçam e as presidências seguintes, a cargo também de economias emergentes, consolidem alguns degraus. É determinante para a pacificação mundial que algum progresso concreto aconteça nestes domínios.

Notas de complemento

i) Os países do G20 em número de 19 a que se junta a União Europeia incluem a África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, EUA, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia e Turquia.

Destes 19 países, Alemanha, Canadá, Coreia do Sul, EUA, França, Itália, Reino Unido e Rússia são considerados desenvolvidos. Os restantes são economias emergentes.

ii) O conjunto dos países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) são todos membros do G20 e como se referiu em artigo sobre este tema, os BRICS contestam o funcionamento das Instituições Multilaterais por não respeitarem os interesses das economias emergentes. A Índia traz para a presidência do G20 algumas dessas ideias, o que é natural dado pertencer aos dois agrupamentos.

iii) Após a Índia seguir-se-ão na presidência do G20, o Brasil, seguido da África do Sul os dois, países BRICS.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Até a ventania anda traiçoeira na União Europeia


Por
16 Outubro 2022


O vento do Futuro, segundo estudos produzidos por especialistas, tende a tornar-se muito traiçoeiro, gerando uma situação complexa na exploração da energia eólica.



1. O vento anda arredio. Pretendem/pensam alguns países da Europa combater a crise climática muito pela aposta na energia do vento, e este a trocar-lhes as voltas!

No último ano, segundo o programa Copérnico da União Europeia (de recolha, tratamento e disponibilização de informação sobre o estado do tempo na Terra), o vento atingiu o pico mais baixo e irregular dos últimos 40 anos, nomeadamente em países do Norte da Europa, como o Reino Unido, Irlanda, Luxemburgo e Alemanha.

“Em 2021, a velocidade das correntes de ar a uma centena de metros de altitude – a altura das eólicas – diminuiu entre 10 e 15% na Europa do Norte em relação às médias habituais” (“L’Express-le Sept”, 6 de Outubro 2022). Assim, a eólica que participava no “mix” da electricidade do Reino Unido “com 18%, viu-se reduzida a 2%, em Setembro 2021”.

O vento do Futuro, segundo estudos produzidos por especialistas, tende a tornar-se muito traiçoeiro, gerando uma situação complexa na exploração da energia eólica.

As perspectivas apontam para a consolidação desta evidência actual, pondo em causa o papel que às eólicas estava reservado no combate à crise climática, com a produção de energia sem emissão de gases com efeito de estufa (CO2).

Dada a capacidade das turbinas eólicas [quer terrestres (onshore) quer marítimas (offshore)] ser muito sensível à velocidade do vento, esta pode tornar-se uma fonte de energia inadequada e cara, face a outras fontes alternativas.

Poderá esta situação ser revertida em benefício da UE?

2. A União Europeia, infelizmente, não tem uma política energética comum, uma das suas graves falhas estruturais e um dos símbolos maiores de soberania. E nunca terá, enquanto Alemanha e França não se entenderem sobre certos princípios básicos relativos à energia.

O sistema energético da Alemanha vem se desenvolvendo, desde há muito pela Energiewende – um conceito alemão de transição energética, assente nas energias renováveis e sobretudo a saída da nuclear. De facto, uma combinação de energias fósseis e renováveis.

Três meses depois do “desastre nuclear” de Fukushima, Angela Merkel, aproveitando a emoção da população, toma a decisão política de fazer o seu país sair da energia nuclear, fazendo passar no Parlamento o decreto do fecho das 17 centrais nucleares alemães até 31 de Dezembro 2022.

Merkel toma, então, uma decisão política de um enorme significado para o seu país, com efeitos determinantes na UE, permitindo-lhe aparentemente acelerar a transição energética, conjugando energias renováveis e gás natural russo, o que não corresponde estritamente a produzir energia limpa, pois não consegue desenvencilhar-se das energias fósseis, necessárias às renováveis de produção intermitente.

Dois erros crassos numa só decisão. Retirar do “mix eléctrico” a nuclear e tornar-se dependente em mais de 50% do fornecimento de gás dum só país, embora barato.

Perante esta decisão há quem afirme: o problema de fundo da energia na União Europeia decorre de opções erradas de um só país e acrescenta a Alemanha nunca fará a transição energética limpa, sem recurso à energia nuclear. Um tema e um debate interessantes e, talvez, a prazo, o princípio da solução da crise estrutural europeia.

3. Problemas de preços do gás já os havia antes da guerra, até porque o ambiente vivido era crítico, mas tudo se complicou com ela. E depois, no tempo da guerra, já nem Merkel era chanceler, ampliando bem mais a complicação.

Ao chanceler Scholz falta pulso, como bem demonstrou ao deixar enredar-se por Joe Biden na visita à Casa Branca, na triste história do gasoduto em que Biden afirma, em plena conferência de imprensa conjunta, “não haverá Nord Stream2” e o chanceler nem pestaneja com esta intromissão grosseira e humilhante.

A Europa no mau caminho

4. Enquanto a Ásia, nomeadamente China, Índia, Japão e Coreia do Sul e em menor grau EUA e Canadá aceleram na direcção da nuclear, a Europa entrou em queda no seu uso, devido a um grupo de países ter seguido a Alemanha. Hoje, alguns estão a recuar, de forma ainda hesitante. Até a própria Alemanha não vai encerrar todas as centrais nucleares até finais de 2022, temendo o frio de Inverno que vem aí e segundo consta com algum rigor.

A França que sempre produziu energia nuclear também acusa quebra de produção, por ter andado, por influência da Alemanha, com hesitações e ter descurado a manutenção adequada das suas centrais, vendo-se agora obrigada a desactivar alguns dos seus reactores para manutenção. Até o presidente francês, Emmanuel Macron, apesar de ter mudado de agulha quanto ao nuclear, atravessou um período de hesitação. Nas eleições últimas, apresentou um plano de relançamento da nuclear, embora os seus críticos refiram que se trata de um plano mínimo.

A situação energética na Europa, sem estratégia comum, com grandes incompatibilidades e ainda agravada pelas dificuldades de substituição do gás russo e preços três vezes mais caros, enfrentará uma crise prolongada, muito grave e recuos no combate à descarbonização. Atingir as metas em que a Europa se empenhou no Acordo de Paris não passa de um sonho, quando até as centrais a carvão altamente poluidoras estão a ser activadas, sobretudo na Alemanha.

Segundo um estudo da Rystar Energy para o American Petroleum Institute… os EUA e o Catar em conjunto nem num horizonte de 10 anos terão capacidade para fornecer à Europa mais de 50% dos consumos de gás antes fornecidos pela Rússia e, não nos podemos esquecer, que dos EUA vem sobretudo gás de xisto, de menos qualidade e caro.


Segundo a Rystar Energy, após 2025, as possibilidades de aprovisionamento irão melhorar ligeiramente. Mas, nos próximos três anos, a situação é crítica. A Europa vai sofrer muito nos invernos. Os preços de gás vão ser elevados e a quantidade reduzida. As famílias e empresas muito atingidas. Frio, emprego, salários em risco, e fecho de empresas.

Haverá saída?

Sim, a médio prazo, mas voltamos ao princípio. Sem entendimento para uma estratégia energética na UE nada feito. A energia é o motor da economia, todos sabemos e, sem energia de qualidade não há desenvolvimento nem descarbonização das sociedades. O que equivale a recuos significativos em várias frentes, incluindo o combate às alterações do clima.

Numa zona do Planeta, onde os recursos energéticos são escassos, uma transição energética doseando energias fósseis e energias limpas não se apresenta realizável sem o recurso à energia nuclear complementada com energias renováveis competitivas. A concretização levará o seu tempo, mas previamente exige entendimento. Um problema complexo, pois, há muitos lóbis contra o entendimento, sobretudo do lado alemão.

Uma revolução mental, o mais difícil, na União Europeia na área da energia precisa-se. A nuclear terá de conquistar o seu lugar seguro, porque segura sem dependências a estratégia da UE. Outros caminhos, com as tecnologias conhecidas do presente, não nos levam à descarbonização da sociedade europeia, mas ao declínio da Europa.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Gás de xisto em exploração na Europa?


Por
18 Setembro 2022


Os países europeus não tinham alinhado com os EUA. Agora, desorientados com a escassez de gás natural mas sobretudo temerosos da avalanche de contestação social, os políticos europeus fazem marcha atrás.



A Europa em deriva climática

1. A Europa e a União Europeia em particular estão em onda de desnorte perante a crise energética (que se arrasta há algum tempo) e a inflação galopante que daí decorre. Segundo o Eurostat, em Agosto, a inflação atingiu 9,1%, na zona euro, um aumento de 0,2 pontos percentuais face ao mês anterior. Em Portugal, o INE reviu em baixa para 8,9%.

A escassez de gás natural, que tudo indica pode trazer um inverno de frio pouco amigável para a maioria dos europeus, faz estremecer os dirigentes políticos.

Juntando a subida dramática dos preços dos bens ao aumento das prestações do crédito, nomeadamente a da casa, estão criadas as condições explosivas para uns tempos de turbulência com efeitos sociais e políticos imprevisíveis.

A comunicação social europeia está a ser eco desta situação, apontando movimentos autónomos de contestação social como o do não “pagamento da factura” no Reino Unido, que já recolheu 180 000 signatários e procura até ao 1º. de Outubro reunir um milhão para começar a agir, “não pagando”. Em França, após manifestações dispersas, está em marcha uma maior para 29 de Setembro, esta da responsabilidade da CGT, que inclui, entre as suas palavras de ordem, a temática das pensões.

Em muitos outros países (Alemanha, Itália, Bélgica …) e cidades diversas reina um forte descontentamento e indícios de protesto variados. Na Itália, desenvolve-se o movimento “rasgue-se a factura”. Este ambiente favorece avanços das forças de extrema-direita no espaço europeu como aconteceu na Suécia e as sondagens em Itália vão também nesse sentido.

Tudo aponta para uma mudança da correlação de forças no terreno político da UE, o que a acontecer não será indiferente às relações com a Rússia.

Medidas de mitigação dos efeitos da crise

2. Alguns governos estão a avançar com medidas de mitigação do impacto da subida vertiginosa de preços, com pouca adesão dos europeus.

O descrédito das populações nos políticos “corta” fundo. Há o sentimento de que os políticos europeus erraram sucessivamente e perderam o comando da situação. Que os erros cometidos nas sanções foram muito desproporcionais, não tendo em conta a situação de crise económica que vinha da Covid19, nomeadamente o estrangulamento dos circuitos de abastecimento.

A Comissão Europeia tenta medidas quase sempre mal desenhadas que não convencem os países membros, nem as populações, porque não atendem ao custo-benefício, económico, político e social.

A reunião do Conselho Europeu da Energia do dia 9 de Setembro é uma prova. Mais um fiasco a somar para mal dos europeus. Não sei se o Banco para o Hidrogénio avançado pela Presidente tem sentido e vai convencer alguém. É necessário reflectir nos erros cometidos antes de avançar com mais medidas desastradas.

O avanço pela Comissão da medida “revisão da formação dos preços da electricidade nos mercados por grosso”, há muito reclamada até por Macron, é tão tímida e formatada com pouca consistência técnica, que não incute confiança.

Um assunto que toda a gente entende que nada tendo a ver com os custos de produção da electricidade, no presente, antes segue os preços do gás, é um absurdo, apenas serve os lucros dos grandes grupos energéticos (apropriação de rendas) em detrimento dos consumidores em geral.

Erros não se resolvem juntando outros.

A introdução do gás de xisto na Europa

3. Há um passado europeu recente por detrás da não exploração do gás de xisto na Europa, devido a preocupações ambientais e efeitos geológicos. Por exemplo, o aumento do grau de sismicidade em zonas de exploração.

Os países europeus não tinham alinhado na onda dos EUA que desprezaram estes efeitos e avançaram. Agora, desorientados com a escassez de gás natural mas sobretudo temerosos da avalanche de contestação social, os políticos europeus fazem marcha atrás, querem mostrar trabalho e, deste modo, vários países encaram e alguns já decidiram partir para o gás de xisto.

No Reino Unido, a primeira-ministra Liz Truss, dois dias após a sua tomada de posse, levantou a moratória de suspensão da exploração abrindo caminho para o gás de xisto.

Na Alemanha, o problema está em marcha. O lóbi do gás de xisto está a trabalhar bem e já capturou um partido do governo, o FDP (partido democrático livre)

A Hungria foi o primeiro a dar luz verde e outros países ponderam.

Há de facto muitos metros cúbicos de gás de xisto no subsolo europeu. E nada mudou em termos de impacto ambiental e geológico face ao que se sabia quando tudo foi proibido ou abandonado por não viabilidade económica.

O que é o ‘fracking’

4. Esta técnica de extração serve para capturar petróleo ou gás de xisto (fracturação hidráulica), através de uma cisão precisa de blocos geológicos, por meio de injecção de água a elevada pressão que perfura, deste modo, as rochas pouco permeáveis. A água a alta pressão é misturada com uma elevada e diversificada quantidade de produtos químicos de elevada toxicidade e areia para dificultar que as rochas perfuradas voltem a fechar.

É construído um poço normalmente vertical até uma certa profundidade (cerca de 2 Km). Detectada a camada dos hidrocarbonetos, alarga-se o poço a fim de permitir a maior captação possível de gás.

Há muita controvérsia sobre o uso dos combustíveis fósseis e ainda mais sobre as técnicas de extracção.

O fracking como uma dessas técnicas tem associado graves e perigosos efeitos em diferentes domínios, apontando-se a poluição da água designadamente os lençóis freáticos bem como o elevado consumo. Um furo, referem alguns estudos, consome 200 000 m3, usa cerca de 500 produtos químicos de variados efeitos por exemplo, substâncias de teor cancerígeno; a poluição do ar; a poluição dos solos, e o aumento do grau de sismicidade nas zonas de exploração.

Não podemos deixar de relevar os elevados riscos para a saúde humana do seu uso, onde a leucemia nas crianças é evidenciada nos estudos de impacto.

Desconcerto com o acordo de Paris

5. Em síntese, políticos e governos europeus, entre eles, os dos maiores países recorrem a todos os expedientes para “taparem” os erros que as populações lhes imputam, na escassez do gás e efeitos decorrentes. O frio do inverno é o que mais temem.

A entrada da Europa na extracção do gás de xisto, a dar-se, é um erro maior, pois este combustível fóssil é muito mais perigoso que o gás natural. É um caminhar para trás no tempo e um grande desconcerto da Europa com o acordo de Paris.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 5 de julho de 2022

BRICS, grandes economias emergentes


Por
João Abel de Freitas, 
04 Julho 2022

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento, ou Banco dos BRICS, como é conhecido, foi a decisão de maior confronto com os interesses das economias desenvolvidas. Uma resposta à leitura que fazem do sistema financeiro dominante, que só serve e protege os interesses dos países desenvolvidos.



A designação BRICS

1. Os BRICS, presentemente, são um conjunto de cinco países – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, uma espécie de “aliança” com a pretensão de exercer uma influência geopolítica forte a nível mundial. Estes países estabeleceram entre si um código de conduta na base de princípios gerais, como a não-interferência, a igualdade e o benefício mútuo.

Não são, assim, nem um bloco económico tradicional, apesar dos objectivos económicos que prosseguem, nem uma associação formal, tipo Mercosul.

O grupo inicial BRIC(s) – os primeiros quatro países – tem data de fundação 16 de Junho 2009, apesar do encontro informal havido por iniciativa da Rússia em Setembro de 2006, em Nova Iorque, à margem da 61ª Assembleia Geral das Nações Unidas, que acabou por abrir “portas” para formas futuras de cooperação.

A África do Sul só se juntou em 2011, aquando da 3ª Cimeira, passando então o grupo a designar-se de BRICS (S de South Africa, e não do plural inicial).

A designação BRIC(s) teve, por baptismo, um estudo de 2001, “Building Better Global Economic Brics”, da autoria do economista Jim O’Neil, do banco americano Goldman Sachs, que antecipava para aqueles quatro países de economia emergente potencialidades de desenvolvimento que poderiam levá-los a rivalizar fortemente, num prazo alargado, com as grandes potências industrializadas da economia mundial, sensivelmente as economias integrantes do G7. Este grupo reuniu recentemente em Cimeira na Alemanha (26/28 de Junho último), preocupado, sobretudo, com a expansão da influência dos BRICS no Mundo e, em especial, com a China, que tem tido maior sucesso e está a contribuir para o lento desmoronar da hegemonia do “Ocidente”.

A evolução BRICS

2. A evolução do grupo assenta no conceito de grandes mercados emergentes, tendo em conta explorar as oportunidades decorrentes da sua elevada população, grandes territórios e recursos variados, no sentido da melhoria das condições e peso de decisão na cena internacional. Os BRICS procuram posicionar-se como uma voz que reúne interesses próprios, distintos da governação dominante a nível mundial e sem sujeição aos ditames dos países desenvolvidos.

Para os BRICS, instituições como a ONU, o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional (FMI), instrumentos gestores e de domínio da sociedade e economia mundiais, não servem os seus interesses, nem os da economia global no seu todo e, por isso, devem ser ajustadas. Neste contexto, defendem que, às economias emergentes, deve ser assegurado um papel de maior relevo nessas instituições.

3. Os BRICS, desde a sua institucionalização em 2009, têm vindo a funcionar na base de Cimeiras rotativas, uma vez que não houve um tratado assinado entre os primeiros-ministros ou chefes de Estado dos países membros que definisse um formato organizativo, pelo que também não têm uma sede fixa.

No entanto, pode apontar-se para uma certa “institucionalização horizontal”, devido ao funcionamento na base de grupos, parcerias ou actividades concretas.

O Banco de Desenvolvimento dos BRICS

4. Na 6ª Cimeira em Fortaleza, Brasil (15 de Julho 2014), foi oficializada a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), mais conhecido como Banco dos BRICS, com o capital de 100 mil milhões de dólares, subscrito em partes iguais por cada um dos cinco países, e um fundo de reserva monetário de idêntico valor com sede na cidade de Xangai, China, que tem como primeiro presidente uma personalidade indiana, aliás, o país de quem surgiu a ideia da fundação do NBD.

A grande finalidade deste Banco é o financiamento de projectos de infraestruturas e de desenvolvimento, com vista a compensar as graves insuficiências de crédito às economias emergentes prestadas pelas principais instituições financeiras internacionais, Banco Mundial e FMI.

Comparando o Banco dos BRICS com o Banco Mundial em termos de capital e órgãos de gestão, temos um Banco Mundial detido em elevada percentagem pelos EUA, sendo o seu presidente um representante do governo norte-americano. Aqui, certos princípios, como a igualdade, não contam. Domina o “Senhor” absoluto do Mundo!

A criação do NBD foi, sem dúvida, a decisão de maior confronto com os interesses das economias desenvolvidas, aliás, na sequência da leitura que fazem do sistema financeiro dominante que só serve e protege os interesses dos países desenvolvidos.

Países em torno dos BRICS

5. Há quatro países que manifestaram interesse em entrar para os BRICS: Turquia, Egipto, Indonésia e Argentina. Existe ainda uma vintena de países observadores.

No entanto, o grupo continua a funcionar em torno dos cinco que o integram. A questão do alargamento anda, certamente, a ser ponderada e amadurecida face ao estado de organização, e de pensamento, embrionários do grupo, pois o que os liga é, no fundo, o deslocamento do eixo de tomadas de decisão no Mundo – hoje concentrado nas mãos dos EUA e um pouco na Europa, esta em situação de subalternidade.

A Guerra da Ucrânia e os BRICS

6. A 14ª Cimeira dos BRICS realizou-se nos dias 22 e 23 de Junho de 2022, no contexto de muitas Cimeiras e Fóruns quase em simultâneo.

Aquando da Assembleia Geral das Nações Unidas de 20 de Março último, Índia, China e África do Sul abstiveram-se na votação que condenava a Rússia pela invasão da Ucrânia. O Brasil votou a favor, embora o seu embaixador tenha condenado as sanções à Rússia, alegando que em nada facilitariam a retoma do diálogo.

Esta diferença de votação não parece ter beliscado o funcionamento dos BRICS. Assim, a Cimeira realizou-se e, segundo alguns analistas, até fortaleceu o relacionamento entre os seus membros, tendo-se falado pouco da guerra da Ucrânia e muito da cooperação económica com resultados bem concretos, sobretudo nas trocas comerciais, que têm aumentado fortemente em termos de petróleo e gás entre Índia, China e Rússia.

O Brasil, por exemplo, preferiu vincar a merecida representação que as economias emergentes deveriam ter e não têm em instâncias como a ONU, Banco Mundial e FMI, tema muito caro sobretudo à Índia, Brasil e África do Sul.

No fim, um apelo a negociações para terminar com a Guerra Rússia/Ucrânia. É evidente que, numa outra linha, há quem defenda que sendo um dos BRICS, a Rússia, país que desencadeou a guerra, este facto terá levado a uma paralisação da sua influência no Mundo.

Não vou seguir essa linha, independentemente da situação complexa que se criou e da desinformação constante propagandeada por um Ocidente “cada vez mais estreito”.

Estou mais na linha de Boaventura Sousa Santos quando diz que os BRICS representam as novas faces do não-Ocidente, pois estes países estão a atrair muitos outros para a sua órbita, através de trabalho real e da voz credível de defesa dos interesses das economias emergentes em África, Ásia e América Latina.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Açores e Madeira na senda de Charles Darwin


Por
06 Junho 2022


Em 1996, mais de um século depois, a Igreja acaba por admitir que a Teoria da Evolução de Darwin não era incompatível com a “fé cristã”. A curiosidade orientada é, pois, uma grande ferramenta e virtude de procura do conhecimento.



1. A demografia, entendida como os movimentos de aumento ou de redução da população e dos fluxos inter-grupos da espécie humana, é considerada por alguns estudiosos como uma das quatro forças globais e motoras que têm vindo, a ritmos diferentes, a moldar o planeta Terra, ao longo dos muitos milhares de anos da sua existência.

As outras três forças são a procura de recursos, a globalização e as alterações climáticas, todas elas assumidas numa perspectiva dinâmica de conceito e de visão, em que as mudanças tecnológicas desempenham um papel de charneira e alavanca. São forças-chave que vão continuar a marcar o futuro da Humanidade.

Há quem adicione as tecnologias como uma quinta força, porque interage intrínseca e activamente com todas as demais, as impulsiona e, por vezes, faz alterar o patamar e a dinâmica no interior de cada força global e na relação entre elas.

O conceito de demografia é, aliás, abrangente. Para além do seu uso na análise da dinâmica da população humana, pode ser utilizada em outros domínios como nas espécies vivas e até na vida (demografia) das empresas de um país, de uma região ou de um sector. Em tudo quanto nasce e morre.

2. As dinâmicas demográficas da espécie humana colocam-nos uma série de interrogações e reflexões não resolvidas em grande parte ou, sendo mais preciso, levam-nos a temas alvos de grande controvérsia, uns que se arrastam desde sempre e a que a ciência continua a tentar dar resposta e a outros novos como o do crescimento.

Será que algures no tempo vai dar-se uma inflexão ou, utilizando uma linguagem muito conhecida destes anos de Covid-19, será que a população humana vai entrar em planalto deslizante? Tema este, aliás, importante pois fez aparecer o malthusianismo com Thomas Malthus com quem Darwin se cruzou na fundamentação da sua Teoria e outros mais recentes como Paul Elrlich, biólogo da Stanford University, os dos excessos da população mundial a preconizar que “centenas de milhões de pessoas iam morrer de fome”.


Mas o Quando, o Onde surgiu o ser humano e o Como são áreas bem aliciantes. E o Como é aquela que nos atrai de momento, porque tem directa e indirectamente a ver ou se prende com esta ligação aos Açores e à Madeira.

Charles Darwin

3. A existência do ser humano à face do planeta Terra foi, durante longos anos, rodeada de um grande obscurantismo. A ciência dedicou-lhe pouca atenção ou então não teve condições para melhor. Apenas nos documentos de pendor religioso, com ênfase para a Bíblia, se davam respostas a este enigma e numa linguagem que é uma espécie de união entre o simbolismo e a metáfora.

A ciência pouco tinha avançado até 24 de Novembro de 1859, quando Darwin aparece com o seu livro “Sobre a Origem das Espécies através da selecção natural”, mais conhecido e editado, em vários idiomas, simplesmente com o título, “A Origem das Espécies”.

Após 20 anos de aturada investigação, com cinco de visitas pelo mundo para testar pela observação in loco certas hipóteses de trabalho, Darwin veio baralhar a sociedade mundial pacificada e ancorada na criação divina da criatura humana. Numa palavra, deu um golpe radical na “ordem mundial divina”.

Darwin hesitou muito na publicação do trabalho, certamente, porque temia a reacção social e científica dos seus pares e da sociedade.

Com este livro veio demonstrar a tese das sucessivas modificações gradativas das espécies humanas, ou seja, a possibilidade do surgimento de novas espécies, através da selecção natural (a imposição da lei do mais forte) ou, se quisermos de outra forma, os seres vivos superiores desenvolvem-se a partir de formas menores, desta maneira validando o aparecimento dos seres humanos pela via natural evolutiva (Teoria da Evolução) e não pela criação divina.

Darwin, ao pôr em causa, com esta sua tese científica, a versão da criação divina da Igreja, torna-se o cientista mais “odiado” do mundo. A sua Teoria da Evolução sofre grande oposição por muito tempo e assim continuará. Refira-se, no entanto, que as estruturas supremas da Igreja foram um pouco mais comedidas, pois já tinham um precedente com a história “do sol em volta da terra” em que tiveram de recuar, após uma acirrada perseguição aos que discordavam da posição da Igreja.


Finalmente, em 1996, mais de um século depois, a Igreja acaba por admitir que a Teoria da Evolução de Darwin não era incompatível com a “fé cristã”.

Darwin e os Açores

A propósito de Darwin, refira-se que Francisco de Arruda Furtado, um jovem natural dos Açores, então com 26 anos, entra em contacto com o cientista inglês que lhe responde.

Furtado, um apaixonado pela história natural desde muito novo, tornou-se colaborador de Carlos Machado contribuindo para a fundação do Museu de Ponta Delgada, incluindo-se, assim, no grupo de naturalistas açorianos. Morreu cedo, com 33 anos apenas, tendo ainda trabalhado no Museu de Lisboa, para onde se transferiu em 1885, a organizar colecções e descrição de espécies.

Há uma obra recente em forma de peça de teatro – “O Português que se Correspondeu com Darwin”, de Paulo Renato Trincão, que se debruça sobre este caso e que no Prefácio diz: “O teatro é uma bela maneira de fazer cultura científica, uma bela maneira de, através da arte, levar a ciência – neste caso, a história da ciência – ao grande público, mostrando quais são e como são os seus processos e caminhos”.

Darwin e a Madeira

A obra foi levada à cena no Funchal pela Companhia Contigo Teatro em 2009 (meses de Novembro/Dezembro), no contexto da comemoração do ano internacional de Darwin, sabendo que a 24 de Novembro desse mesmo ano, se comemoravam 150 anos da publicação de “A Origem das Espécies”. Como se lê num documento da Contigo Teatro: “Este texto, de natureza didáctica, pretende não só divulgar a obra de Darwin e alguns conhecimentos científicos, mas também dar a conhecer um português, Francisco de Arruda Furtado (curiosamente oriundo também de um arquipélago, o dos Açores) que se correspondeu com o célebre naturalista”. E prossegue:

“Uma vez que também fazemos parte de uma ilha, cuja fauna e flora são mundialmente reconhecidas pelas suas especificidades e riqueza, este espectáculo assume ainda maior relevância. Não esqueçamos que a ilha da Madeira foi, na verdade, a ilha mais citada na referida obra de Darwin”.

Interessantes estas coincidências e fecho o artigo com uma outra passagem do Prefácio: “Se Darwin é hoje bastante divulgado, Francisco de Arruda Furtado não será suficientemente conhecido dos portugueses. Ele, que foi uma excepção à regra do atraso científico, merece sê-lo, em particular dos jovens interessados pela ciência. Tal como ele, embora longe da ciência, quem for suficientemente curioso, esteja onde estiver, poderá aproximar-se dela, pois tem-na ao seu alcance”. A curiosidade orientada, uma grande ferramenta e virtude de procura do conhecimento.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 10 de maio de 2022

Uma boa notícia: crescimento real do PIB em 11,9%


Por
09 Maio 2022

As políticas de aumentos salariais seguidas pelo Governo são uma forma de retirar poder de compra aos rendimentos do trabalho pois não jogou, quando podia, com um mix de políticas: aumento de salários e alívio da fiscalidade sobre o trabalho.



1. A economia portuguesa cresceu em termos reais 11,9% no primeiro trimestre de 2022 face a igual período do ano anterior, e 2,6% quando comparada com o quarto trimestre de 2021. Uma boa notícia que as estimativas rápidas do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgadas em 29 de Abril último, nos proporcionam.

Portugal apresenta, assim, o valor mais elevado da Zona Euro, rompendo com as expectativas dos economistas portugueses mais optimistas que apontavam para valores em torno dos 9%.

Dois valores interessantes quando, por exemplo, os EUA registam uma queda de -1,4%, e a União Europeia (UE) 0,2% (valores em cadeia) e 5% de variação homóloga, que compara com 2,6% e 11,6% em Portugal. Na UE, apenas a Áustria se aproximou de Portugal, com 2,5%.

Olhar para estes valores de forma acautelada


2. Temos, no entanto, de olhar para estes valores de forma hábil. Não podemos esquecer que 11,9% é um valor dos primeiros três meses (Janeiro, Fevereiro e Março) de 2022, que não reflecte ainda os efeitos da guerra Rússia-Ucrânia, sendo que para a frente nada nos garante.

Também importa não esquecer que, no período de comparação (primeiro trimestre de 2021), o País atravessava um ponto baixo (-5,4%), com a Covid-19, o que relativiza e bem os 11,9%.

De qualquer modo, a situação económica era então comum a toda a Europa, pelo que não temos que denegrir a nossa situação, como muitas vezes há tendência, antes pelo contrário analisá-la e ver se algum ensinamento se pode retirar.

O INE, sem uma explicação detalhada, atribui o crescimento da riqueza neste primeiro trimestre fundamentalmente à procura interna, em especial, ao consumo privado e ao turismo. As trocas económicas externas deram um contributo reduzido.

A subida galopante de preços da energia que tem vindo a registar-se desde meados de 2021 vai levar a uma retracção do consumo privado no curto/médio prazo, pois a grande maioria da população está a perder poder aquisitivo, ou seja, com o mesmo rendimento ou um poucochinho mais (aumentos salariais ínfimos) vai passar a poder adquirir menos bens. Assim, o consumo privado vai reduzir-se, as empresas diminuirão os seus negócios e, por conseguinte, o PIB sofrerá os efeitos desta mudança de trajectória de rendimentos.

Evidente. Poderá haver um esforço na exportação, mas nunca o suficiente para operar a compensação. O aumento de rendimentos das pessoas é, assim, fundamental na dinâmica da economia.

Com pés de barro não se caminha


3. Pés de barro ou pés bem seguros de quem nos governa faz bem a diferença na gestão política da economia. Há que olhar para as circunstâncias, analisá-las e ter objectivos. O turismo, por exemplo, tem tido um impacte retumbante e o ambiente que se respira em termos de reservas hoteleiras permanece favorável por todo o país.

Com muitos outros sectores, porém, não sucede o mesmo, pois enfrentam condicionalismos com os preços dos inputs necessários à produção. Ouvimos queixas reais em muitas áreas, e até a Infra-Estruturas de Portugal se queixa da subida galopante de preços e das obras que vão derrapar.

Estamos perante uma situação inflacionista que não é transitória, como diz o Governo. Uma situação inflacionista que veio para durar pelo menos enquanto os problemas energéticos se mantiverem em turbulência, ainda mais com toda a confusão reinante no seio da UE, onde ninguém se entende e as pressões externas, sobretudo dos EUA, são uma constante no pior sentido.

Os aumentos de rendimentos e a dinâmica económica


4. Assim, os salários não podem ser analisados de forma mecânica até porque há aquele ponto de equilíbrio com efeitos positivos na dinâmica económica que, de certeza, não são os 0,9% de aumento previstos para a função pública.

Um aumento de rendimentos equilibrado na sociedade pelo aumento de salários não provoca uma espiral inflacionista, pois estamos perante uma inflação pelo lado da oferta – são os custos das matérias primas e dos bens intermédios a subir que determinam o aumento dos preços.

Assim, um aumento de salários a um nível equilibrado seria acomodável e para cobrir a diferença para o nível da inflação, uma política de actuação fiscal através do alívio da carga sobre os rendimentos do trabalho, por exemplo, a actualização dos escalões dos impostos no mínimo pela taxa de inflação e a revisão em baixa de uma ou outra taxa fiscal nos escalões reporia o “mix” de rendimentos a injectar na economia portuguesa.

Com uma política deste tipo atingir-se-iam vários objectivos, nomeadamente:
Criava-se mais riqueza dinamizando a economia pela procura interna;
Não se perdia poder de compra, o que vai acontecer com a política “reducionista” subjacente ao orçamento aprovado já na generalidade para 2022;
Corrigir-se-iam salários médios esmagados;
E, se tudo isto se articulasse com o investimento, designadamente através dos fundos comunitários, melhor ainda porque podia proceder-se a mudanças qualitativas tão necessárias à estrutura e organização da economia (pública e privada).

Desta forma, ganharíamos todos. Os que têm rendimentos mais ou menos fixos decorrentes do trabalho e as empresas, com o poder de compra restabelecido, mais facilidade obteriam nos seus negócios. E, no conjunto, a economia do País sairia beneficiada.

Com a perda de poder de compra previsto, todos perdemos.

Conquistar pontos no PIB


5. Ouvi o primeiro-ministro António Costa destacar o reforço do peso dos salários no PIB como um objectivo de convergência com a Zona Euro até ao final da legislatura, em 2026. Uma boa ideia, mas a política salarial em curso navega em direcção oposta.

À data, o peso dos salários no PIB é, em Portugal, de 45% e a média da UE 48%. Se, em 2022, pela política do Governo, os salários vão se contrair face ao PIB, que vai crescer mais que os salários, andamos por maus caminhos.

Então, como vamos recuperar nos anos seguintes sabendo que a inflação veio para durar, e na Europa reina uma grande instabilidade e sem capacidade para sanar as causas que lhe estão na origem: a inexistência de uma política energética europeia?!

Os dados apontam mais para uma Europa a flutuar, de uma dependência para outra, em termos de energia e menos no concerto de uma política comum. Sabemos que há dois grupos de países capturados pelos grandes interesses dos grupos económicos que se digladiam arduamente pelo poder. Não por uma política estratégica comum que sirva os interesses da Europa.

Deste modo, as políticas de aumentos salariais seguidas pelo Governo português são uma forma de retirar poder de compra aos rendimentos do trabalho pois não jogou, quando podia, com um mix de políticas: aumento de salários e alívio da fiscalidade sobre o trabalho.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Provocando ou polemizando


Por
26 Abril 2022

Uma coisa e outra. Mas como envolve uma grada figura da igreja, alguém mais puritano poderá ver algum melindre, numa conversa tida como filosófica, em misturar o religioso e as técnicas do profano e ser levado a “aprimorar” o título, com a palavra, “pecando”, ou então como inclui também um grande nome do desporto nacional e europeu poderia alguém desta área, com todo o direito, ser tentado a questionar e o “futebol?”.



Uma coisa e outra. Mas como envolve uma grada figura da igreja, alguém mais puritano poderá ver algum melindre, numa conversa tida como filosófica, em misturar o religioso e as técnicas do profano e ser levado a “aprimorar” o título, com a palavra, “pecando”, ou então como inclui também um grande nome do desporto nacional e europeu poderia alguém desta área, com todo o direito, ser tentado a questionar e o “futebol?”.

De pecados estamos bem. Dos mais clássicos, parece que já não se fala. Dos novos, a dinâmica é de mudança a toda a hora e que interessam pois, segundo sei, se já nem inferno existe! E pecados sem inferno… Assim, cada um “peca” consoante entende e para “os pecados” que caem no crivo da sociedade, a justiça civil que trate do assunto. Um Estado mais laico. De pecados paro, só assinei o ponto … embora só veja maldades e das grossas…

Os factos

1.Imensa curiosidade à partida no teor da conversa havida na Biblioteca do Vaticano entre José Mourinho e Tolentino Mendonça, duas figuras portuguesas, graúdas nos seus meios/profissões, uma bem mais conhecida nacional e internacionalmente, por ser um dos treinadores de futebol mais badalados do mundo, desde há bastante tempo.

O cardeal Tolentino Mendonça ainda não chegou ao patamar de José Mourinho em termos de celebridade e atrevo-me a dizer mesmo no seu próprio meio, mas opinião própria, está a trabalhar para lá entrar. Legítimos os seus objectivos pessoais.

Talvez mesmo no círculo restrito dos cardeais ainda não tenha a projecção ambicionada, pois tratou-se de uma subida estonteante. Aqui, assemelha-se um tanto ao José Mourinho que desde muito cedo subiu a jacto, embora com uma vantagem e um grande trunfo. Tinha passado por uma “catedral do futebol”, o Barcelona. Penso que isto de não se seguir uma certa tradição, a gestão de uma diocese ou de uma ordem/instituição, dificulta a modelação do carisma. E não tendo ainda o carisma de competição seguro precisa de o burilar de formas condizentes.

2. A minha curiosidade surge quando vou comprar o Expresso do fim-de-semana da Páscoa que até saiu um dia antes e vejo a capa da revista preenchida por essas duas figuras (Tolentino Mendonça e José Mourinho – o cardeal e o treinador, em foto em pose de pensar (a lembrar agência de comunicação), empolgante, bem ajustada à imagem que de cada um imagino.

O que terá acontecido a estas duas figuras para capa de tamanho destaque?!

Não tinha informação que nenhum estivesse em vésperas de ganhar um “campeonato”. José Mourinho anda distraído e arredado nestes últimos tempos de justificar o “Special One” que tanto assumiu e Tolentino Mendonça também já distante um tanto do tempo do seu título cardinalício. Independentemente do seu valor, a subida fez-me transportar para uma ligação à sua terra de origem, a ilha da Madeira, um verdadeiro viveiro, uma terra produtiva de figuras gradas da Igreja. Muitos bispos e dois cardeais.

Tolentino Mendonça é o segundo cardeal. E os dois um pouco do lado norte da Ilha

Teodósio Clemente de Gouveia, cardeal de Lourenço Marques, é da minha freguesia São Jorge e contemporâneo de Cerejeira. Segundo parece não se conjugavam lá muito bem. Em algumas pesquisas na Torre do Tombo, cruzei-me com um ou outro documento de Dom Teodósio sobre as Colónias, endereçados a Salazar, mais concretamente sobre as missões a questionar a política, numa linha de pensamento de proximidade a Rolão Preto.

Tolentino Mendonça é natural de Machico, sacerdote, professor universitário, poeta, doutorado em Teologia Bíblica. Vive no Vaticano desde 2018, onde dirige a Biblioteca Pontifícia, para o que teve de ser coroado de arcebispo pelo Papa Francisco, que cerca de um ano depois o chama a cardeal.

O conteúdo da conversa

3. Não sei se se trata de uma “conversa” o texto promovido e produzido primeiro pelo jornal “L’Osservatore Romano” (mas é a palavra que consta), embora o veja mais como uma entrevista a Mourinho conduzida pelo Cardeal Tolentino. Pormenor de somenos importância.

O texto é interessante e motivado, à partida, pela pessoa de Manuel Sérgio, um pensador com alguma originalidade, muito ligado à filosofia abrangente do desporto que foi professor de José Mourinho na Escola de Motricidade Humana de Lisboa.

Manuel Sérgio, o motivo de começo para falarem. Mourinho, depois, vai discorrendo muito centrado em si e na sua evolução como homem gestor de outros homens.

Não consigo dar uma ideia global do conteúdo da entrevista que é grande demais para caber neste meu espaço. Permito-me relevar, contudo, uma passagem do pensamento de Mourinho de que cito: “ao nível técnico propriamente dito, entramos numa situação de quase dejà vu porque aquilo que me acontece hoje já me aconteceu há alguns anos atrás”…”Mas, a nível humano, cada dia é um novo dia e cada pessoa é uma pessoa nova … eu recuso sempre fazer comparações entre jogadores. Ao longo dos últimos 20 anos tive muitos, e cada um deles é único”.

Este pensamento de José Mourinho não podendo dizer-se que é um último grito , interessante até para se reflectir ao nível das empresas e organizações.

Acho que José Mourinho se saiu do contexto, com a distinção mais elevada.

Mas porque cheguei aqui?

4. Podia ter ficado pela leitura, matando a curiosidade.

Mas pus-me a matutar: como o acaso dá tanta volta! No “Expresso”, sem dúvida, uma conversa entre dois crentes de meios diferentes e sendo Tolentino Mendonça, colaborador, a publicação é furo jornalístico. Capa, destaques, fotos dos dois na Biblioteca do Vaticano, tudo se conjuga numa promoção das diferentes Partes e o jornal vende. Tudo oportuno: o tempo de Páscoa.

E, então, olho para outros ângulos. Comecei a deslumbrar laivos de alguma “economia promocional”. Gerar carisma…objectivos. O próprio acaso do “L’Osservatore Romano”, jornal do Vaticano, ter uma iniciativa destas quando tenho a sensação que para publicar algo não rotineiro nesse meio de comunicação se precisa de mover alguns cordelinhos!

Dúvidas que partilho porque me tocaram.

No Vaticano (e poderia citar outra instituição tipo ONU, FMI …) quem por lá anda pode ambicionar desempenhar certas funções, qualificadas e influentes, subir no pódio. E criar carisma é, assim, um requisito importante.

L’Osservatore Romano, Expresso não se encaixarão nessa sina?! É a dúvida que me permito plantar aqui.

Penso que interrogar o acaso não é pecado!