quarta-feira, 3 de abril de 2013

A ESCOLA ALTERNATIVA


"(...) O problema é que a boa estrela de Nuno Crato como ministro se construiu em torno de duas ideias-chave: a do desprezo pela pedagogia e a de que seria o Ministério da Educação e Ciência o principal responsável pela perda de autoridade dos professores. Os resultados estão à vista e é sobre eles que teremos de pensar para tomarmos consciência do paradoxo em que nos atolámos como docentes, gente do século XX, a ensinar gente do século XXI com os métodos do século XIX". Li este texto na véspera da peça publicada no Diário de Notícias. E quando a li, lembrei-me de uma frase que trago em memória activa, de um meu professor de Psicopedagogia, o notável Professor Paula Brito, decorria o ano 1969/70: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente. O desencontro é inevitável". Só os Cratos do nosso País, permanentemente em "Plano Inclinado", não percebem que o caminho é outro, que esta Escola, este sistema e este vergonhoso desinvestimento na educação, acompanhado do aniquilamento das preocupações de natureza social, não está alicerçado no sentido do sucesso, mas do insucesso e do abandono como provam os números das diversas estatísticas a vários níveis.

Quem não entender o essencial desta frase
não sabe o que anda a fazer na Educação
Li, com muito agrado, uma peça publicada no DN-Madeira sobre a implementação, na Madeira, daquilo que configura a "Escola Alternativa", no quadro de uma pedagogia alternativa. E li com agrado porque, embora com substanciais variantes, existem outros paradigmas de escola e de pedagogias que contrariam a escola vigente no nosso País. E isso é que me parece importante, isto é, o facto de existirem muitas famílias que só por não terem alternativa é que mantêm os filhos no actual sistema educativo. Lamentável é que os políticos com responsabilidades na Educação, ano após ano, ou melhor, década após década, não consigam enxergar o que é óbvio, o que tantos e tantos investigadores e pensadores há muito escrevem e defendem. Pelo contrário, com as suas políticas tendem a aferrolhar o sistema, maximizando-o, centralizando-o e padronizando-o. Matam, assim, a autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino e arvoram-se em donos do saber e da "pedagogia oficial" na feliz expressão do Professor Licínio Lima. Investigador que vai mais longe: "(...) Se o racional adoptado parece, hoje, de tipo alternativo, contra certas pedagogias "modernas" ele não é, por isso, menos pedagógico. Revela, de resto, pouco estudo, diminuto conhecimento da realidade escolar e da sua história, assim abrindo caminho à importação de programas ideológicos para a educação incapazes de atender às especificidades da escola em Portugal. O vocacionalismo reinante e a pedagogia para as qualificações para a empregabilidade, a competitividade e o empreendedorismo, a generalização dos exames e o rigorismo na avaliação (...) o aumento do número de alunos por turma, a defesa da meritocracia, a existência de uma concepção formal de igualdade de oportunidades, entre outros, configuram um certo racional pedagógico e, especialmente, a mesma e tradicional forma de governar a educação. Governando de cima para baixo, do centro para as periferias, desvalorizando os saberes pedagógicos dos professores e contribuindo para a sua desprofissionalização, alienando a sua autonomia e responsabilidade, desprezando as lógicas locais e a própria escola. A governação democrática da educação permanece uma tarefa bem mais decisiva, e legítima, do que a produção de doutrinas pedagógicas oficiais e a sua imposição administrativa, seja de que signo for (...)".
Em Portugal, por exemplo, recordo as pressões, para não dizer, perseguições, absolutamente inauditas e de mentalidade medíocre, para bloquear o funcionamento da Escola da Ponte, na Vila das Aves. Uma escola diferente que (re)nasce todos os dias dos alunos para os alunos. Uma escola onde, como dizia uma pequena aluna para um visitante, temos de esquecer tudo o que se sabe sobre educação para visitá-la e compreendê-la. Referia-se, naturalmente, ao conceito tradicional de escola, de turma, de organização curricular e pedagógica, de exames e de notas, de uma campainha que toca para entrar e toca para sair. Nessa escola a forma como se constrói o conhecimento não encontra paralelo. E neste pressuposto acompanho o pensamento dos Professores Ariana Cosme/Rui Trindade quando sublinham: "(...) O problema é que a boa estrela de Nuno Crato como ministro se construiu em torno de duas ideias-chave: a do desprezo pela pedagogia e a de que seria o Ministério da Educação e Ciência o principal responsável pela perda de autoridade dos professores. Os resultados estão à vista e é sobre eles que teremos de pensar para tomarmos consciência do paradoxo em que nos atolámos como docentes, gente do século XX, a ensinar gente do século XXI com os métodos do século XIX". Li este texto na véspera da peça publicada no Diário de Notícias. E quando a li, lembrei-me de uma frase que trago em memória activa, de um meu professor de Psicopedagogia, o notável Professor Paula Brito, decorria o ano 1969/70: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente. O desencontro é inevitável". Só os Cratos do nosso País, permanentemente em "Plano Inclinado", não percebem que o caminho é outro, que esta Escola, este sistema e este vergonhoso desinvestimento na educação, acompanhado do aniquilamento das preocupações de natureza social, não está alicerçado no sentido do sucesso, mas do insucesso e do abandono como provam os números das diversas estatísticas a vários níveis.
A urgência de uma Educação a cores
em contraponto 

a uma Educação a preto e branco!
Mais do que nunca, sublinha José Caride Gomez, professor na Universidade de Santiago de Compostela, é "necessaria reivindicación de la educacion como una práctica social libertadora". Este sistema educativo conduz exactamente ao contrário, ao constrangimento, à submissão imposta ao interesse de outros, à escola remediadora social, à escola escrava de orientações reformistas trágicas neo-liberais com mais de trinta anos e que, ideológica, matemática e religiosamente, Crato segue todos os passos. Exemplo disso é a designada "revisão curricular" que, perversamente, promove a desigualdade social. E sobre esta matéria muito haveria a dizer, porque não basta "umas metas e uns standarts, estabelecendo os resultados esperados, não basta utilizar uma medida, obtida, tipicamente, através de um exame, para avaliar ou representar a qualidade na educação" (Professor Domingos Fernandes, in A Página da Educação). Como explicou o Professor João Formosinho, "é importante que haja ilhas de diferença no sistema educativo". Ora, enquanto assim não acontecer, enquanto a diferenciação pedagógica, melhor dizendo, enquanto os Cratos do nosso País não entenderem que "a diferenciação se resolve através da organização pedagógica da escola e não do currículo", continuaremos a semear "o paradoxo em que nos atolámos como docentes, gente do século XX, a ensinar gente do século XXI com os métodos do século XIX".
Ilustração: Google Imagens.

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