terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Último dia. Amanhã tudo será igual!


Violência, agressividade entre bem-falantes, intolerância, ausência de diálogo cooperante, conflitos por uma hegemonia contrária ao sentido da vida, paulatina destruição da nossa casa comum, ganância em contraponto à negação da exploração do homem pelo homem, abandono, fome, pobreza, guerra e morte, tudo isto continuou em 2019, apesar dos sempre louváveis acenos e desejos de um bom ano! A todos os níveis, do mais alto exercício da política até ao mais paroquial, a hipocrisia voltou a pontificar, continuaram as Acções de Graças com governantes na primeira fila, orando e batendo no peito, "por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa", mas a terminar, nestes dois últimos dias, mulheres aperaltadas e homens de smoking embora descalços, abraçam-se, mastigam passas (para quê?) bebem champanhe, em muitos casos do melhor, assistem ao fogo e fazem promessas e juras. Para o ano é que será o concretizar dos sonhos e desejos! 

Fogo na Madeira em 2016.
Foto da minha autoria. Atribuí o título:
"Abraço de Anjo"

E para a esmagadora maioria o próximo ano não será, obviamente. A engrenagem está montada, sofisticadamente oleada, aquela que subtil mas intencionalmente tritura e impede a esperança de melhores dias. O diabo continuará a amassar o pão e eles, do alto do seu púlpito, continuarão a sua luta pela descoberta de palavras e frases vãs, assobiando para o lado relativamente ao mundo que os mais vulneráveis vão escondendo e reclamando. 
Não sou uma pessoa derrotada pelas evidências, mas não gosto de caminhar vendo não vendo! Acompanha-me Salgado Zenha (1923/1993), um político que frequentemente assumiu que "só é vencido quem desiste de lutar". Já estive em algumas, profissionais e de cidadania activa, agora remeto-me a ler, reflectir e transmitir o que brota da acumulação de sentimentos. Não é novidade para qualquer um de nós que os "Vampiros" não nos deixam. O Zeca continua cheio de razão, embora outros sejam os tempos: "No céu cinzento sob o astro mudo / Batendo as asas pela noite calada / Vêm em bandos com pés de veludo / Chupar o sangue fresco da manada (...)". A sofisticação dos actos é que é diferente. Não é preciso uma polícia de Estado, não são necessários bufos de papel passado e a tortura apresenta-se sem marcas físicas externas visíveis. São interiores e devoradoras. Tudo flui no quadro de uma anormal normalidade. Roubam às escâncaras, pagamos os luxos e corrupções, desrespeita-se o sentido das prioridades estruturais e os pavões do "carro-preto" fazem-nos trazer em memória o que uma princesa terá dito ao saber que os pobres não tinham pão: "eles que comam brioche", o que significou e significa uma completa ausência de entendimento das tais prioridades básicas. Pois, Zeca, a engrenagem tem História e seguidores: "(...) São os mordomos do universo todo / Senhores à força mandadores sem lei / Enchem as tulhas bebem vinho novo / Dançam a ronda no pinhal do rei (...)".
Não estou a exagerar. Basta olhar em redor e fixar este número: por aqui, 30% de pobres significa cerca de 75.000 pessoas que não vivem bem em uma Região Autónoma, qual fruto bonito por fora mas corroído por dentro. Ficam claras as assimetrias. O Banco Alimentar que o diga, a que se juntam instituições religiosas e tantas outras que mitigam a fome. E o que dizer de tantas outras fomes? E o que dizer de um tempo onde ter um emprego não significa não ser pobre? E o que dizer dos milhares com consultas médicas e intervenções cirúrgicas em atraso. E o que dizer de um sistema educativo espantosamente apresentado como inclusivo, mas que deixa pelo caminho milhares que engrossam o "clube" da desesperança?
Porque temos o dever de acreditar no Homem, porque por detrás de Hong-Kong, dos coletes amarelos, dos jovens em luta pela defesa do Planeta entre tantos outros movimentos de cidadania de importante e constante revolta, apesar dos fazedores de implacáveis guerras e de uma comunicação social ao serviço de interesses não descortináveis em um simples olhar, oxalá que, em 2020, sejam dados passos no sentido de uma inteligência que respeite a dignidade do ser humano. Que os milionários se lembrem que a sua defesa e progresso está directamente relacionada com o bem-estar dos semelhantes. Que já descobrimos que as crises são fabricadas e que não é saudável, este é um mero exemplo, que 2/3 da riqueza dos Estados Unidos esteja nas mãos de dez famílias. E ali fala-se do sonho e da liberdade! Que os Estados olhem para as pessoas e que as economias estejam ao serviço do Homem e não de minorias. Por isso, apesar de tudo, um Bom Ano. Que a saúde não atraiçoe!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 29 de dezembro de 2019

E APESAR DISTO OS CULPADOS SÃO SEMPRE OS OUTROS


Final de ano, tempo para algum balanço. Entre muito que poderia e deveria ser analisado, ontem li um texto do Dr. Carlos Pereira, Deputado do PS na Assembleia da República. Transcrevo-o, não pelo facto de ser um Amigo, mas por nele ver a capacidade técnica e política que a muitos e muitos políticos não descortino. Vivi com ele várias lutas, infelizmente, quase todas perdidas. Pelo meio, muitas ofensas. A verdade porém, é que o tempo acabou por lhe dar razão. Esta síntese, publicada na sua página de fb, constitui, apenas, alguns pontos de referência. Mas existem tantos outros. Parabéns Amigo Carlos e que continue o seu trabalho político em defesa de uma Madeira distante de novos colonos. E, já agora, saiba que estou a reler "A Herança - saiba como a Madeira escondeu a dívida", esse magnífico documento de economia que todos os Deputados deveriam ler.

Há um custo mas não sei para quem mandar a conta das responsabilidades! Ou melhor, já não me cabe a mim fazê-lo ...
Num tempo de balanço , apetece-me voltar atrás, mais atrás do que apenas 2019, e lembrar que custa estar certo antes do tempo. Custa muito, não para mim próprio, porque aprendi a viver sem o sabor do reconhecimento, custa porque a Região perde muito ao reconhecer os erros tão tardiamente ou a ignorar ostensivamente alertas sustentados .
Três exemplos concretos de grande dimensão que se tivesse sido atalhado o caminho a Madeira vivia melhor:
1- DÍVIDA DA MADEIRA: cheguei ao Parlamento da RAM em 2007. Por essa altura falava-se numa dívida de 500 milhões . Passado pouco mais de um ano actualizei os dados depois de cruzar informação e lancei a suspeita de uma dívida que ultrapassava os 3,2 mil milhões . Fui enxovalhado muitas vezes, aguentei, insisti e provei os meus cálculos mas 3 anos mais tarde o mundo conheceu os 5,5 mil milhões de euros. Se tivesse sido levado a sério os meus abertas estaríamos hoje bastante melhor e talvez nunca tivéssemos um PAEF!
2- PERDA DE FUNDOS EUROPEUS: alertei a partir de 2005 e reforcei o apelo a partir de 2007 que era preciso colocar na agenda os critérios de transferência de fundos porque podíamos perder centenas de milhões de euros . Fiz várias propostas em sede de ALRAM por causa do empolamento do PIB em virtude do efeito da Zona Franca. Foi sempre tudo chumbado e, mais uma vez, não me esqueço das perseguições e eles sabem de quem falo . Hoje está demonstrado que eu tinha razão mas a Região perdeu 1500 milhões de euros.
3- REGIONALIZAÇÃO DA SDM E GESTÃO PÚBLICA DA ZONA FRANCA. Apelei ao bom senso para que a Região assumisse a gestão dos benefícios fiscais, desde 2008. Apresentei propostas todos os anos. Alertei para que aquando a renovação da concessão (2017) fosse aproveitado para, ou realizar outro concurso ou a Região assumir a sua gestão. Hoje (já alguns meses atrás) volta a ser demonstrado que tinha razão e percebemos todos que a resolução desta questão será feita com um custo social adicional desnecessário. Também fui insultado até pelo ex- presidente da SDM que sempre se apresentou como figura distante e sábia criando uma barreira para avaliar responsabilidades e proveitos!
Podia dar bastantes mais exemplos: a concessão da inspecção automóvel que alertei vezes sem conta (até fui insultado e agredido pelos concessionários); os custos da OPM (fui ameaçado pelo Dr Sousa, um tal que aparece como estrela local porque manda cartas ao governo e por aí se mantém); a escandalosa gestão das sociedades de desenvolvimento, hoje nem vale a pena fazer comentários... e por aí fora !
É um balanço de quem dedicou uma parte da sua vida a defender o interesse da Madeira e que depois de tudo , e apesar de tudo, há contas a fazer embora já não saiba muito bem para quem mandar a conta e sobretudo esteja afastado desses deveres !
Bom ano.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O "carnaval" continua na Escola de Hotelaria e Turismo


Só o Omo lava mais branco! Foi a leitura que fiz depois de ler o "trabalhinho" publicado na edição de hoje do Dnotícias sobre a Escola de Hotelaria e Turismo da Madeira. A escola está bem e recomenda-se, pode ser a conclusão. O "entrudo" continua! Todos os professores reclamaram sem sentido e o outro pessoal, de prestadores de serviços a especialistas, deveriam estar calados, acabei por deduzir.

A secretaria da Educação, que tutela o estabelecimento, deve ter organizado a coisa muito bem para, através de outrem, lavar a sua cara. A entrevista é "omo" e o papel da secretaria é de embrulho. Está tudo limpinho e enfeitado com cores garridas, não há razões para alarme, a transparência no funcionamento é total que nem o mais famoso limpa vidros conseguiria fazer. A páginas tantas, face a tanto sucesso, perpassou-me pela cabeça a canção de os "Da Vinci", "O Conquistador", pelos cursos em Angola, Moçambique e agora S. Tomé. Ainda chegam à Praia, Bissau, Macau e Timor!
Portanto, em função da "despropositada" movimentação dos professores, vi-os de cabelos em pé em uma reunião sindical, dirão os mais incautos que, para esclarecimento cabal, no mínimo, seria razoável promover um inquérito, mas, de facto, para quê? Pelo que li, todo aquele pessoal é ingrato face a uma escola em "entrudo" permanente. O ano escolar passa para 34 semanas e até poderão vir a receber em dias de férias as horas extraordinárias. Não é bom? Se é... o problema é que parece que os supermercados não recebem "dias de férias" em troco do carrinho de compras! E o que seria do "entrudo" sem dinheirinho para as malassadas? 
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Não dá a bota com a perdigota


Nota prévia
Não sou entendido em mecânica de automóveis, ligeiros ou pesados, nem tenho formação jurídica para acusar ou absolver. Portanto, o que aqui fica escrito é a leitura de um simples cidadão que olha para um caso e fica perplexo. Talvez porque toda a informação não circulou. Talvez. 

Neste Natal, entre muitos e muitos aspectos que poderia e, porventura, deveria equacionar, desde os diversos constrangimentos, desde os de natureza social até ao estendal de hipocrisias que a época é propícia, há uma situação, a de um Homem que me parece só, acusado de ter sido o responsável por 29 mortes. Refiro-me ao caso do autocarro que tombou na estrada do Caniço.
Ora bem, li que se tratava de um excelente profissional, muito experiente e cumpridor das tarefas, li também que não se tratava de uma pessoa desequilibrada a vários níveis de análise nos foros médico e psicológico e li, também, que nada acusava na taxa de alcoolemia.
Fiquei pasmado quando foi público que, segundo os peritos, o autocarro estava em perfeitas condições de circulação. E mais pasmado fiquei quando, de seguida, o Ministério Público da Madeira acabou por acusar o motorista por 32 crimes (homicídio por negligência e crimes de ofensa à integridade física).
Ora, parece-me que "não dá a bota com a perdigota". Certo é que o tal motorista exemplar e experiente passará este Natal com muitos dedos apontados para ele. Não o meu e, certamente, o de milhares de madeirenses porque, repito, há evidentes contradições por explicar. E não é preciso ser entendido em automóveis ou em matéria jurídica. Apenas contradições. Imagino o que deve estar a passar. Ele e a sua família. E sendo assim, eu que não o conheço, saúdo-o com um fraterno abraço de solidariedade.
Imagens: Google Imagens.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Zozi, a Miss Universo que questiona e redefine a beleza


Ricardo Vita, 
in Público, 
20/12/2019

“Cresci num mundo onde uma mulher que se parece comigo, que tem a cor da minha pele e o meu cabelo, nunca foi considerada bonita, e acho que chegou a hora de acabar com isso, hoje. Quero que as crianças olhem para mim e vejam o meu rosto, e quero que vejam os seus rostos reflectidos no meu.”

Foi com essas palavras retumbantes, mas serenas, que o mundo inteiro descobriu surpreendido, no dia 8 de Dezembro, a Miss Universo 2019; uma mulher negra, inspiradora e sublime, em sintonia consigo mesma e com este século de afirmação de todas as diversidades. Lembrou-nos Nefertiti, a poderosa rainha egípcia negra de lendária beleza. Tem 26 anos e vem da terra de Mandela, África do Sul. Chama-se Zozibini Tunzi, uma genuína deusa da beleza do novo paradigma e do futuro.
É Zozi, para os amigos que, como ela, entendem a importância dos imaginários, da iconografia e as modalidades das suas construções. É a quinta mulher negra a ser coroada Miss Universo, mais é a primeira a reivindicar em voz alta a sua intenção de mudar mentalidades — para defender a beleza e a mulher — destacando a cor da sua pele e o seu cabelo crespo como triunfos intrínsecos. Pois, Zozi entendeu que a sua coroa já havia sido comprada e paga. Tudo o que ela precisa fazer é usá-la. Sabe que a sua história não começou no século XV com a chegada dos europeus a África, mas foi com eles que murchou. Sabe disso.

O frescor de Zozi faz-nos pensar sobre a beleza. Quem a define e como? E essa definição, a quem beneficia e a quem prejudica? Basicamente, como é que escolhemos entre o belo e o feio nas nossas sociedades? Pois, se a beleza é inevitavelmente uma construção cultural, então como podemos desconstruí-la, quebrá-la quando a definição não nos corresponde? Em 2011, critiquei, num artigo publicado no diário francês Libération, a uniformidade que reinava no universo da alta-costura.

Quis mostrar como designers como Karl Lagerfeld impuseram um modelo de beleza que excluía quase todas as mulheres não brancas. A mulher que ele sublimava era andrógina, magra, para não dizer anoréctica, sem formas ou curvas que subjugariam o olho imparcial posado sem concupiscência malsã na mulher não caucasiana, geralmente fora do padrão. Por exemplo, o olho parcial de Lagerfeld não podia apreciar a beleza e a escultura divina do corpo de várias mulheres negras. Era incapaz de ir além dos muros que cercavam a sua ilha. Com ele, graças à força de ataque que adquirira na Chanel, a digna alta-costura, a de Paco Rabanne, Yves Saint Laurent e Jean-Paul Gaultier ou John Galliano, havia deixado de rimar com diversidade.
Lagerfeld reinou como um absolutista neste mundo durante décadas, ditava a chuva e o bom tempo. Mas, com os outros, a haute couture era mais bonita e temos boas lembranças disso. Azzedine Alaïa lançou e defendeu com unhas e dentes Naomi Campbell; Saint Laurent fez o mesmo com Mounia, Iman Bowie e Katoucha; e Alek Wek foi várias vezes a “noiva” nos desfiles de Christian Lacroix.
No entanto, havia, e ainda há, uma constante. Fora de Alek Wek, na pele, impuseram-nos modelos negros — tanto mulheres como homens — com pele clara e feições finas. Essa segregação persiste em praticamente todos os lugares, como no mundo da música. No ano passado, numa entrevista sincera, Mathew Knowles, pai e ex-manager de Beyoncé, reconheceu, e insistiu, que a sua filha não teria o sucesso nem a carreira a solo que tem se não tivesse pele clara. “Se fizermos uma retrospectiva, sobre Whitney Houston, por exemplo, analisando as suas fotografias, veremos como elas foram trabalhadas para a tornar mais clara de pele! Há uma percepção, um colorismo, quanto mais clara for a pele, mais inteligente e rico parecemos. Portanto, existe uma percepção da cor em todo o mundo, mesmo entre os negros”, afirmou. Esse fenómeno, “selectivo e imposto”, continua até hoje. Winnie Harlow, uma linda modelo negra canadiana, vítima de vitiligo, é usada, positivamente, pelas marcas Desigual e Diesel; e Ashley Graham, uma modelo branca com excesso de peso, também goza dos favores de marcas e revistas famosas.

Portanto, há pessoas que decidem o que é bonito e o impõem a todos. Quando isso é feito de maneira sã, como no espírito de Yves Saint Laurent — o espírito que une, que celebra a diversidade e a diferença —, é claro que devemos recebê-lo de braços abertos para o abraçar. Mas devemos recusar com força os Lagerfelds de ontem, hoje e amanhã, devemos combatê-los.

E sejamos como Zozi, ela sabe que a beleza do mundo foi construída contra os negros, desde que foram dominados. Ela sabe que é por isso que os negros se rejeitam hoje, que a história de submissão se tornou a razão da sua vergonha de existir, o auto-ódio. Mas o que Zozi sabe melhor é que ela vem de uma longa linhagem de nobreza; de monarcas cujos poderes e inteligência eram temidos por todos os povos da terra, de filósofos, sábios e poetas que treinaram a humanidade toda. Ela sabe disso, é o que justifica a sua dignidade reconfortante. Essa dignidade, que ouvimos na voz segura e vemos no seu cabelo natural, não se deve apenas à vitalidade e pujança de Winnie Mandela, mas também ao orgulho das Candaces, essas rainhas poderosas do reino matrilinear de Kush (ou Cuxe). Ela sabe que os seus antepassados construíram e governaram o Egipto da abundância e alta expansão.
Zozi sabe o preço da sua coroa, sabe que é sua, de pleno direito. Ela faz parte dessa geração consciente que não quer mais ser definida por outros; a sua é a geração do novo paradigma. É essa geração que está determinada a reabilitar todas as belezas ocultadas ou minoradas, e as belezas confiscadas há muito tempo por gurus oportunistas e dogmáticos da monocultura, aqueles que definem a beleza como bem entendem por seu único e insaciável desejo de continuar a dominar.
Alegremo-nos então hoje, pois, pela primeira vez na história, ao mesmo tempo, no momento em que escrevo estas linhas, a Miss Teen USA é negra, a Miss USA é negra, a Miss America é negra, a Miss Mundo é negra e até a Miss França é negra. Não é um favor que vem do white-saviorism, como alguns revisionistas sempre tentaram afirmar nessas circunstâncias, é a força de um movimento de base que está determinado a mudar o mundo. A maioria de jovens do mundo — brancos, amarelos, vermelhos, negros — quer criar um outro mundo, um lugar mais agradável para se viver na diversidade. E só espero que, no próximo ano, todos esses títulos sejam atribuídos a outras belezas diversas, das quais o mundo é abundante: asiáticas, orientais, ameríndias, brancas. Este é o ciclo normal da vida humana, que devemos plenamente libertar das intenções vis dos supremacistas e segregacionistas.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A literatura ou a vida


Por
António Guerreiro, 
in Público, 
20/12/2019

Num texto sobre a lista de livros do ano que escrevi para esta edição do Ípsilon, falo da existência quase clandestina de alguns livros, por determinações das regras do mercado e das contingências da recepção crítica. Mas falo também de uma clandestinidade auto-infligida (algo que se passa quase exclusivamente no campo da poesia), que foi praticada, por exemplo, durante alguns anos, por Joaquim Manuel Magalhães.


Podemos entrever nalguns gestos deste tipo um desencantamento com aquilo a que chamamos “a vida literária”; mas pode ser também, noutros casos, um jogo com a coisa literária, com os leitores e o “meio”, ou uma reivindicação exacerbada da autonomia da obra. O “caso” que me suscitou algumas considerações foi o de Jorge Gomes Miranda, sobre o qual já me tinha muitas vezes perguntado: “O que é feito deste poeta, que deixou de publicar?” (pergunta que faço também relativamente a outro poeta: “O que é feito de Paulo Teixeira?”). Evidentemente, esta pergunta supõe um hábito muito do nosso tempo, toma como modelo o escritor que publica todos, ou quase todos os anos, acompanhando a aceleração do nosso tempo. Ficar hoje meia dúzia de anos sem publicar, mesmo que já seja autor de uma obra volumosa, é ficar condenado ao desaparecimento público. Um escritor com a publicação escassa de um Flaubert é, no nosso tempo, uma singularidade que raramente ajuda o reconhecimento. É verdade que existem casos como os de Salinger, que com o seu romance, Catcher in the Rye, se tornou um escritor de culto e passou ele próprio à clandestinidade, como quem não quer ter nada a ver com a vida literária nem com a função-escritor, como um criador que se ausenta da sua criação. Porque é que nos fascinam estas figuras como Salinger ou como Maurice Blanchot? Este último neutralizou-se completamente na vida civil, depois do Maio de 68, em nome da literatura. É difícil imaginar outra actividade, artística ou não, em que a “impessoalidade” seja vista como a mais alta exigência, em que a obra, no fundo, aniquila o seu autor.

O escritor francês Romain Gary, que se suicidou em 1980 com 66 anos, publicou livros com diferentes pseudónimos, sem nunca revelar a identidade que lhes correspondia. Assim acabou por ser o único escritor da literatura francesa que conseguiu a proeza de ganhar dois prémios Goncourt: um, atribuído a um romance assinado pelo seu próprio nome, e outro por outro romance assinado por um tal Émile Ajar, que durante muitos anos não se soube quem era. Neste tipo de mistificações, Romain Gary não foi o único génio.

Em Itália, encontramos ainda na primeira metade do século XX um outro modelo de escritor: o escritor que nunca escreveu, mas que é considerado pelos outros um seu par e que alcança um prestígio e uma autoridade extraordinárias. É o caso de Roberto Bazlen, que nasceu em 1902 em Trieste e morreu em 1965 em Milão. Foi ele que serviu de matéria a um romance de Daniele del Giudice, O Estádio de Wimbledon, que saiu com um prefácio de Italo Calvino. Sobre Roberto Bazlen, ou Bobi Bazlen, como era mais conhecido, escreveu Roberto Calasso no prefácio ao livro onde foram reunidos postumamente os escritos de Bazlen (afinal, ele tinha escrito alguma coisa; e uma das coisas que escreveu intitula-se Notas sem Texto) : “Na antiga querele entre o homem do livro e o homem da vida, Bazlen representava o homem do livro que está todo na vida e o homem da vida que está todo no livro”. Estas palavras muito lúcidas ajudam-nos a perceber certas atitudes dos escritores que parecem não conformar-se às exigências e aos protocolos da sua arte:
Há uma antiga e inextinguível inimizade entre a literatura e a vida, e ora se dá a primazia a uma, ora se dá a primazia a outra, ora se sacrifica uma, ora se sacrifica a outra. Quando as duas vivem em perfeita harmonia e são feitas uma para a outra, devemos suspeitar que nem a vida nem a obra são muito interessantes.
Este conflito não tem fim, existe em todos os tempos, e não são as regras actuais da edição e de legitimação dos livros que alteram significativamente as coisas. E é em função dele que temos de compreender os gestos enfáticos ou discretos de quem passa ao silêncio ou ao quase-silêncio.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Trabalho por objectivos ou ganhar por objectivos?


Vivemos em um mundo às avessas. Em tudo. Porque o dinheiro é rei: uns em luta pela sobrevivência no dia-a-dia; outros, escravizando em modo de tempos modernos, sofregamente, porque a lógica do sistema baseia-se em querer mais e muito mais. Vem isto a propósito do trabalho por objectivos.  


Há dias, em uma grande superfície comercial, abeirei-me de uma daquelas ilhas que vendem produtos, eu diria, da época. Interessei-me e comprei. Lá pelo meio da transacção disse à simpática vendedora: parece que o negócio está fraco. Resposta: tem dias, uns melhores que outros. O problema é atingir os objectivos. Objectivos? questionei? Com um semblante alegre para com o cliente de circunstância, próprio de quem deseja vender o máximo, adiantou: para a semana tenho de chegar a (x vendas), porque de contrário perco o bónus e talvez mais do que isso.
Saí dali a pensar nesta história do trabalho por objectivos. Se calhar o mais correcto seria falar de ganhar por objectivos! E em um ápice lembrei-me da minha gestora de conta, já tem uns anos, que às nove e meia da manhã, à minha exclamação "pela sua cara, parece-me que isto hoje não vai bem". Não pode ir, foi a resposta, e continuou: entrei às 08:30, são nove e meia e já me perguntaram "o que já vendi hoje". Alguns anos mais tarde, todos viemos a conhecer a trama bancária desse e de outros bancos. Em síntese, exploração de uns para alimento, neste caso, de condenáveis interesses de uns quantos.
Do meu ponto de vista, a questão do trabalho por objectivos deve colocar-se ao nível empresarial em uma perspectiva macro. Isto é, em função do período anterior, a empresa x define, como objectivo, um crescimento de, por exemplo, 2%. Toda a estrutura organizacional, quero eu dizer, todos os seus colaboradores, animados de um sentido de pertença, deverão trabalhar no sentido da concretização daquele objectivo. Coisa bem diferente é, a um circunstancial colaborador, portanto, com um vínculo precário, dizer-lhe que tem de vender 300 caixas de um determinado produto na semana k. Sem publicidade de suporte, acrescento.
É panaceia do trabalho por objectivos que esmaga e que, muitas vezes se torna ridículo. Um dia, na minha escola, uma assistente operacional abeirou-se e pediu-me que a ajudasse a preencher um documento que tinha recebido. A páginas tantas o documento solicitava que definisse os objectivos a concretizar no ano seguinte. Porque está sujeita a uma avaliação para progredir na carreira, a senhora estava em pânico e disse-me: eu limpo o pavilhão e todas as instalações anexas uma vez por dia e dou assistência aos senhores professores, aliás, como está definido. O que acha, vou pôr aqui que passarei a limpar três vezes por dia? Pedi-lhe o papel, levei-o para casa, preenchi e, no dia seguinte acertámos os pormenores. Ela ficou feliz porque o tal papel, devidamente preenchido, ao querer dizer tudo, nada dizia, portanto, não a comprometia. Porque o seu trabalho era feito de forma exemplar.
Mas há quem diga que se não houver objectivos o pessoal não trabalha! São todos uns malandros, ouve-se amiúde. Não aceito este posicionamento, quando em causa está a estrutura organizacional e a criação de um verdadeiro sentido de pertença capaz de fazer atingir um objectivo desejado. A este propósito deixo aqui o endereço de um texto que publiquei, baseado na organização de uma empresa de sucesso. 


Ilustração: Google Imagens.

domingo, 15 de dezembro de 2019

It once upon a time a Great Britain…


Por 
Vítor Lima, 
14/12/2019

Os ingleses tiveram de escolher nas últimas eleições, entre um idiota e um incapaz. O Boris Trump pretende recuar à orgulhosa Inglaterra, ainda que sem império mas com muitos offshores para animar a Bolsa. O Corbyn vincou as questões sociais mas mostrou-se neutro em algo mais abrangente como a integração europeia; sem querer ver que as duas coisas estariam absolutamente ligadas, um erro crasso que o vai remeter para a aposentação.

Um terço dos votantes trabalhistas vieram de regiões empobrecidas e apoiaram o Brexit como se o encerramento autárcico seja solução para alguma coisa. E Boris, com a sua maioria de avatares nacionalistas, quiçá lepenistas, tratará de liquidar o sistema de saúde, privatizando-o; e, certamente, de modo mais radical do que vem acontecendo em Portugal, com as célebres PPP, levadas a cabo pelo PS/PSD, com capitalistas a viver do dinheiro dos impostos.


Em termos gerais, calcula-se que a quebra do PIB da GB, para os próximos dez anos, será de 4 a 10% consoante o resultado dos acordos com a UE, nos capítulos do comércio e dos emigrantes.
Uma grande parte do enorme problema que Boris vai ter de resolver é admitir que a Escócia e a Irlanda do Norte (e até Gales, onde o separatismo cresce a olhos vistos) se separem da Inglaterra, transformando esta numa Grande Londres e arredores, centrada na bolsa, na rede de offshores e reportando a Trump.
O que se passa no mundo, muito para além do Brexit, da atrofia da GB, da estagnação da economia e a incapacidade política das classes políticas é a crise do capitalismo.
Acima o novo mapa dos EUA com o seu novo estado federado.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

O PSD ainda está na geringonça?


Por
Daniel Oliveira,
in Expresso Diário, 
05/12/2019

O debate entre os candidatos começou da pior forma para o PSD. Pelas contas de merceeiro, com uma medição de desempenhos que levou a alguns momentos ridículos, como a responsabilização de Rui Rio por resultados tidos quando era vice-presidente ou o regresso dos resultados de Luís Montenegro nas candidaturas à Câmara de Espinho ou uma distrital. Em resposta, Montenegro explicou as condições difíceis em que concorreu à autarquia do norte. Ou seja, assumiu que, tal como dissera Rui Rio em relação às legislativas, as condições em que se concorre são relevantes. E Rui Rio repetiu a responsabilização dos opositores internos. O que, num partido com a história do PSD, cola mal.



É natural que num confronto interno se faça um debate sobre os créditos de cada um. Mas não é um debate que nos diga respeito. Um debate entre candidatos a um partido, quando passa na televisão, deve sair do que apenas é importante para os militantes. E a viagem de Rui Rio à Maçonaria (cuja obediência eu também considero incompatível com a liderança de um partido), acabando a dizer que acredita em notícias desmentidas, foi um dos momentos mais infelizes. Rui Rio optou, mais uma vez, pelo julgamento de tabacaria que sempre criticou.
Passado este momento penoso, chegou-se ao debate que é relevante para os próximos anos: como o PSD fará oposição ao PS? A posição de Montenegro é das que resulta sempre em todos os partidos: o sectarismo. Mas será difícil, caso chegue à liderança, manter a fasquia onde a colocou. Afirmar que não precisa de ver o Orçamento para dizer que vota contra (Pinto Luz explicou que era preciso dar a aparência de que se tinha esperado para ver e ser contra) é incompreensível para qualquer pessoa normal. Rui Rio, nessa matéria, tem o discurso do senso comum. Pelo menos para os eleitores – outra coisa são os militantes.
Para explicar o seu posicionamento, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz construíram uma fantasia sobre a atual situação política. É como se a “geringonça” continuasse a existir e toda a estratégia do partido se baseasse nessa ideia. Só que a “geringonça” não morreu apenas em teoria. Morreu na prática. Não há acordos e não há interesse, nem do Bloco de Esquerda nem do PCP, em prolongar uma relação com os socialistas que não lhes trará vitórias programáticas ou eleitorais.

Se o PSD tem um problema é o PS ter-lhe comido o centro. O retrato fantasioso resulta da necessidade em justificar a incomunicabilidade com o PS, que galvaniza os militantes

A partir desta fantasia, os dois candidatos construíram uma segunda fantasia, ainda mais distante da realidade: a de um PS radicalizado, totalmente amarrado a uma política esquerdizante e socializante. Até de amor à Venezuela se falou. Se isso não foi verdade durante a “geringonça”, onde o papel de bloquistas e comunistas foi forçar devolução de rendimentos perdidos e reversão de medidas impostas no período da troika (onde se incluíram a renacionalização da TAP e o recuo nas concessões dos transportes urbanos, as duas muito recentes e mal explicadas), vai para lá do delirante neste momento. Se o PSD tem um problema é o PS ter-lhe comido o centro, não é ter-se radicalizado à esquerda.
Este retrato fantasioso não resulta de uma dificuldade de perceção. Resulta de uma necessidade. Montenegro e a sua versão moderada precisam dele para justificar a incomunicabilidade com o PS, que galvaniza mais os militantes do que os eleitores. Que não é seguramente justificada, como tentaram fazer crer, pela história do partido que fez inúmeras revisões constitucionais com os socialistas. Uma estratégia que corresponde a uma radicalização à direita que transformaria o PS num partido charneira, que ocuparia todo o centro e não, como querem fazer imaginar para consumo interno, o lugar de líder de um bloco da esquerda que morreu no início de outubro. Esse episódio político passageiro durou apenas a anterior legislatura e terá, na melhor das hipóteses, o seu último momento na aprovação deste Orçamento de Estado, demasiado precoce para uma crise política.
Com base nesta fantasia o debate deslizou para o que poderia ser interessante: as grandes clivagens políticas e ideológicas que definem o confronto de alternativas. Fora a construção de uma história muito própria do país, em que o PSD foi quem “instaurou uma verdadeira democracia liberal em Portugal” e até “construiu o terceiro sector”, apenas duas ideias estiveram presentes: baixar impostos sobre as empresas e dar mais espaço ao privado no Serviço Nacional de Saúde, ignorando a recorrente suborçamentação do SNS, responsabilidade de vários governos. E depois, o velho, estafado e enganador debate que contrapõe um crescimento económico baseado nas exportações ao aumento do consumo interno, como se um e outro fossem contraditórios. Bem à moda portuguesa, que vê a ideologia do outro como uma doença e a nossa como “reformismo”, todas as divergências com o PS, as reais e as imaginadas, foram tratadas como “complexos ideológicos” dos adversários.
No fim, ficou uma sensação estranha: sabemos que Luís Montenegro é mais à direita e Rui Rio mais ao centro, estando Miguel Pinto Luz, que até nem se safou mal, algures no meio deles. Mas isso só se percebe na relação que prometem ter com o PS, chumbando tudo, chumbando tudo mas fingindo que se pensa no assunto ou chumbando quase tudo quase de certeza. Entre eles, não houve sinal de divergências políticas substantivas. E o PSD tem abrangência suficiente para elas existirem. Talvez não aconteça porque diferenças menos acentuadas não permitem caricaturas sobre os “complexos ideológicos” dos outros ou simples frases de efeito sobre a “agenda reformista” deles próprios. Uma agenda que vá para lá de baixar impostos às empresas e privatizar partes do SNS. O país ficou a saber o que cada um quer fazer na oposição, não percebeu o que os distinguiria no poder.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Tantas cartas para Greta


Por
Francisco Louçã, 
in Expresso Diário, 
03/12/2019

O estilo epistolar foi o escolhido por inúmeros autonomeados correspondentes de Greta Thunberg. Nada há que objetar quanto à técnica discursiva, cada qual sabe de si e de como entende apresentar as suas ideias, embora seja de assinalar que esta escolha da carta aberta delimita unicamente dois campos, ou o da proximidade (escrevo a alguém que conheço ou que reconheço) ou o da distância (contraponho-me a alguém de quem discordo e que quero criticar em público). No caso de Greta, temos desde o jogo do político que se quer refletir no fenómeno de popularidade, até ao do crítico zangado mas a quem o instinto aconselha a não atacar uma figura mais simpática. E o resultado é uma chuva de cartas para Greta.


Greta tornou-se um símbolo mundial por várias razões e nenhuma delas é passageira. Por ser jovem e falar diretamente. Por exprimir um sentimento e uma razão que eram obviamente tratados com cinismo pelas instituições. E, sobretudo, por mobilizar o conhecimento científico contra um situacionismo calculista e adaptativo. Essa é a sua força principal, a mais radical: ela fala em linguagem direta e em nome do consenso científico que se alarma com a displicência da diplomacia, com o interesse da indústria e com a fuga dos governos à responsabilidade. Nada disto é ingenuidade ou ar do tempo, como ligeiramente supuseram alguns dos comentadores, no início deste périplo das novas ideias da justiça climática. O incómodo dos governos, habituados a técnicas de jogo político de curto prazo, é por isso patente na forma como aplaudem o que não parecem dispostos a aceitar (os governos europeus) ou insultam o que não querem sequer admitir (os governantes dos EUA e do Brasil).
Pressionados pelo fenómeno mediático e procurando responder como se fosse somente uma moda, chegam então as cartas abertas de governantes e influencers. A mais discutida dessas cartas a Greta, pelo menos entre nós, foi a do ministro do Ambiente. Nada presumo sobre as suas intenções, pois seria injusto. Noto até que o Governo anunciou uma antecipação para o fecho de centrais termoelétricas e denunciou alguns dos contratos de concessão de prospeção petrolífera, tudo boas medidas num país que tem avançado na produção de energias alternativas.

No entanto, tem sido também assinalado que estas decisões convivem com o paradoxo da degradação da ferrovia, da decadência dos transportes públicos nas grandes áreas metropolitanas, sobretudo do metropolitano, com a concessão de autorizações de perfuração em Bajouca e Aljubarrota e com deliberações que aumentarão as emissões da aviação em mais 40%. Dar com uma mão e tirar com outra é má política.

Em qualquer caso, a agenda ambiental de urgência entrou no debate português. As greves climáticas de jovens são a maior mobilização dos movimentos estudantis em muitos anos e nada indica que se deixem fazer esquecer. Por isso, estas cartas têm um problema. Focam mais quem assina do que o que pretende fazer. São um espelho, e não uma conversa, dado que não estão sequer à espera de resposta. Exibem, em vez de apresentarem soluções. É possível ter em cinco anos as cidades sem carros, com os centros urbanos restritos ao transporte público e de moradores? É possível antecipar para 2030 a neutralidade carbónica? É possível refazer a floresta? E priorizar a reabilitação urbana em vez da construção? Sim, é tudo possível. Suspeito que há quem queira atrasar, negociar ou evitar soluções deste tipo, mesmo escrevendo cartas cordiais a Greta. Afinal de contas, essa é a história da vida das sociedades modernas, se alguma decisão afeta o poder dos poucos que dominam, sobra a escolha de prejudicar os muitos que se espera que fiquem caladinhos. E, sobretudo, que não ouçam uma miúda de 16 anos que cita relatórios científicos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Politiquice barata!


FACTO

Plano de Investimentos da Câmara Municipal do Funchal para 2020 foi aprovado; o Orçamento para 2020, NÃO. - Fonte: Dnotícias.

COMENTÁRIO

Não são necessários muito comentários, porque qualquer cidadão apercebe-se da politiquice sem qualquer vergonha. Passei pela autarquia, como vereador, durante doze anos. Exerci o meu direito de discordância em relação ao Orçamento, mas também relativamente ao Plano. Porque os dois documentos são indissociáveis. 
Ora, seria legítimo que a oposição na Câmara votasse contra os dois documentos, por discordância quer na política das grandes opções como do orçamento de suporte. O que não está correcto é assumir, maioritariamente, que o plano é, no mínimo, satisfatório, mas, alto aí, não vão ter dinheiro para o cumprir.
Ah e tal, dirão, são coisas com algum grau de diferença, por isto e por aquilo. Digo eu, vão junto da população e perguntem se aquela votação tem algum sentido. Ouvirão, certamente, da boca dos munícipes, que aquelas votações constituem uma politiquice barata, sem nexo e perturbadora, porque a Câmara irá, durante os próximos tempos, ser gerida através de duodécimos. Percebe-se que o que está em causa é complicar a vida da vereação maioritária da Câmara Municipal.
Se não concordam com o Orçamento deveriam ter votado contra o Plano de Investimentos. Assim, com os cortes de milhões de euros do Governo relativamente à Câmara, agora, com o estrangulamento do Orçamento e Plano, julgo que algumas forças estão a apostar em eleições intercalares. A ver vamos.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Impunidade sem limites


Por
Subdirector do DIÁRIO
01 DEZ 2019 

O Governo Regional perdeu todo e qualquer pudor face às nomeações de clientela partidária para os lugares da administração pública. A ‘máscara’ caiu mal foram conhecidos os resultados eleitorais. Daí para cá temos assistidos a um assalto sem paralelo à máquina do poder na Região. Sem filtros e à vista de todos. O governo faz tábua-rasa das elementares regras da ética e dos princípios democráticos para colocar os amigos nos gabinetes, nas empresas, nos institutos, protagonizando um festim onde não faltam ligações familiares próximas. 43 anos depois, o laranja e o azul fundiram-se com as cores da autonomia.

Nos conselhos de administração das empresas públicas a gula partidária intensificou-se e, sem justificação convincente, o executivo procede ao aumento do número de vogais apenas e só para saciar dirigentes do PSD e do CDS. Na ‘Habitação’, primeiro. Depois virá o SESARAM. Os critérios de competência sucumbiram aos da influência e chantagem partidária. Na Saúde o escândalo assume contornos indecentes. Para colocar uma ex-secretária regional no comando do IASAÚDE, o governo vai mudar os estatutos do organismo porque a senhora não possui as qualificações necessárias para o desempenho do cargo. 

Como se não bastasse criou mais uma direcção regional, com tudo o que isso implica a mais de despesa pública, para suprir a dificuldade que a indicação forçada de Rita Andrade implica. Na direcção clínica do SESARAM assiste-se a outra trapalhada semelhante. Filomena Gonçalves não assumiu o lugar porque foram detectadas, a tempo, ilegalidades contratuais, que têm de ser ultrapassadas. Qual o problema? Nenhum. 

Até lá arranja-se um substituto provisório, porque o serviço de saúde só pode ser liderado por esta médica, competentíssima ao que sabemos, que é dirigente do CDS e pessoa próxima do deputado Mário Pereira, que tem feito valer toda a sua influência política na empresa. Entretanto, um concurso público à medida da cirurgiã já está em marcha. Sobre as listas de espera e sobre a falta de condições hospitalares? Nem uma palavra.
No melhor destino insular da Europa e do Mundo andamos nisto há longas semanas, perante a indiferença generalizada dos partidos da oposição e com parte da sociedade focada na lastimável ‘barracada’ da Placa Central, como se todos os nossos problemas desembocassem ali. Nesta espécie de circo político que antecipa o Natal ficamos a saber que na Madeira regista-se a segunda taxa mais elevada de risco de pobreza do país. Ficámos também a saber que as nossas crianças passam horas a mais nas creches e que a acção social escolar abrange muito mais alunos na Região do que no continente. Mas importam todos estes sinais? Rigorosamente nada. Em Lisboa, o primeiro-ministro foi ao Parlamento anunciar medidas para combater a pobreza, reconhecendo-a e elegendo-a como uma das principais preocupações. E por cá? Um dia depois, o Conselho de Governo decide expropriar temporariamente parte da avenida Arriaga e as latrinas da praça da Restauração, para que não falte poncha e arraial nas semanas da Festa. Delicioso. No meio desta ‘guerra de alecrim e manjerona’ faltava a ‘cereja no topo do bolo’: é-nos anunciado que vai ser criado um grupo de trabalho para resolver a questão do subsídio social de mobilidade. Em português corrente é a mesma coisa que dizer que nada vai ser solucionado em breve e que o madeirense vai continuar a pagar uma pequena fortuna para se deslocar a Lisboa. Foi nisto que deu o “diálogo permanente” que Miguel Albuquerque inaugurou no novo relacionamento com o governo da República.
Sobra-nos o consolo de que a Madeira cresce consecutivamente há 76 meses, mesmo que isso não diga rigorosamente nada à esmagadora maioria da sua população.