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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Tema proposto: "Compromisso partidário para evitar eleições antecipadas"


A escola educadora e transformadora não existe. Logo, o compromisso não pode existir.



Como pode haver compromisso se não estamos a educar para o rigor e a responsabilidade? O compromisso não se decreta, ele constrói-se, paulatinamente, na conjugação de princípios e de valores que a sociedade vai intuindo. Ora, falhando aí, não existe possibilidade de acordos políticos consistentes e portadores de futuro, quando se perdem referências essenciais, quando a família e a escola falham, quando se assiste a um contínuo resvalar das regras mais básicas do comportamento social, quando se perde o sentido que o exercício da política constitui um serviço público temporário à comunidade e não um interesse profissional e de vida. Os acordos tornam-se, assim, frágeis, pontuais, marginais e até inviáveis, quando não sobressai a formação básica mais elementar. Hoje, já não basta um aperto de mão para selar um compromisso.

A muitos custa dizer bom dia; obrigado; por favor ou retirar os olhos do computador quando se atende alguém. Ocupa-se todo o espaço de uma escada rolante, estaciona-se indevidamente e conduz-se sem respeito pelas regras e pela segurança. Escrever ou tecer comentários absolutamente insensatos e desprimorosos tornou-se normal, tal como ser agressivo, violento e grosseiro. Fugir aos impostos ou permitir que a corrupção se torne paisagem, vender, aos poucos, a honra, alimentando o chico-espertismo, o compadrio ou a existência de grupos favorecedores dos seus interesses, tornou-se uma tendência. Ora, quando isto acontece, a ausência dos valores mais básicos toma conta de tudo o resto. Torna-se rastilho.

Não se trata de uma percepção minha, mas de uma constatação, este evidente, contínuo e preocupante deslizar que perturba, como se a palavra educação no âmbito dos valores tenha, hoje, um novo significado. Atente-se no que visualizamos e escutamos nas confrangedoras "arenas" do debate político, os ares altivos, as ofensas dirigidas por palavras e gestos, onde é sensível a ausência de verdadeiros estadistas, daqueles que se preocupem com as gerações seguintes. Tudo gira em função do posicionamento ideológico, da preservação do lugar e da eleição seguinte.

No essencial, tudo aquilo que é básico acaba por estruturar a atitude e a forma como enfrentamos os processos, entre outros, os de natureza política. E o compromisso, note-se, não implica concordância, mas a inteligência que determina que nos acordos bem-sucedidos todos perdem para que todos possam ganhar. Falta essa cultura maior que a família, pouco exigente, genericamente, não dá e que o sistema educativo, intencionalmente, tem ignorado.


Vive-se, portanto, num círculo vicioso e pernicioso de causas multifactoriais. Transmitidas e degradadas de geração em geração, não apenas pelos avanços da tecnologia (redes sociais e outros), mas pelo quadro dramático que a escola configura, cada vez mais preocupada com o cumprimento dos currículos e dos extensos programas, de muitos conteúdos para esquecer, numa absurda política enciclopédica e de competição por notas, mas nada desenhada visando uma consistente formação do ser humano. E a formação é muito mais que responder de acordo com os manuais. Precisamos, portanto, de uma escola que privilegie o pensamento, o rigor, a responsabilidade individual e colectiva, a humildade, a solidariedade e o compromisso, que não tenha medo de falar de política, que combata as muitas iliteracias e que, neste contexto, saiba estruturar, em liberdade, o conhecimento compaginado com a vida em sociedade. Essa escola educadora e transformadora não existe. Logo, o compromisso não pode existir.

Os compromissos políticos, respeitadores das diferenças ideológicas, só serão possíveis quando a escola for cultura e expressão máxima da obra de construção do ser humano. Enquanto tiver uma raiz enciclopédica, os resultados serão os que as estatísticas e análises demonstram. O problema é que essa escola de cultura, rigor e responsabilidade ninguém a deseja inaugurar. Percebo. Por um lado, porque exige sabedoria e leva muito tempo a estruturá-la; por outro, porque o poder imediato e as suas teias constituem o “bloom” das suas vidas políticas.

sábado, 16 de agosto de 2025

Uma sociedade aprisionada é uma sociedade morta

 

Vivemos tempos conturbados de difícil e racional explicação, quando a vida, para todos, independentemente do local onde ela acontece, devia acrescer o sinal mais da felicidade. Do Norte ao Sul, do interior ao litoral. O poder a qualquer preço, em todos os patamares da vivência colectiva, a ganância, os lucros sem freio que sufocam os demais, os subterfúgios e os indetectáveis jogos de bastidores que passam longe dos olhares comuns, a extensa rede de influências arquitectadas pelos novos colonos, a perda da independência da comunicação social, muito quieta e dócil, por isso mesmo, suavemente promotora de uma notável inteligência na condução do interesse dos grupos dominantes, a gritaria em cima dos múltiplos palcos onde vendem ilusões, eu sei lá o que por aí anda, de alto a baixo, de leste a oeste... tal como uma droga que só atenua os efeitos à custa de doses mais elevadas.


Circunscrevendo-me ao espaço onde nasci e vivo, este quadro que me entristece e desencanta, que flui e é audível à boca pequena, não tem pintores e pinceladas novas onde sobressaia uma matriz porventura inspiradora e de esperança. Foi desenhado há muito por um mestre e ajudantes que reproduziram experiências passadas. Um projecto de sociedade egoísta, desenvolvido com tintas e pincéis baratos. Criaram apenas um exemplar, bastou-lhes isso, e multiplicaram-no e distribuíram-no pelo casario ao jeito do "Menino da Lágrima". O "dramatismo" dessa pintura, situado entre o melancólico e o conformado, qual metáfora, assemelha-se a esta realidade social. O "quadro" está em todo o lado, dito por outras palavras, toda a sofisticada engrenagem política conhece o sistema, autocensura-se e sabe quanto os pintores, eu diria mentores, desejam e apreciam os comportamentos adequados, sempre em tons saudosistas, antes "A bem da Nação", hoje, "A bem da Região".

Ora, quando uma sociedade chega a tal estado de dependência e medo, de despersonalização, de incultura no sentido mais vasto do termo, incapaz de cruzar a informação e ter opinião sustentada, quando perde o sentido crítico, baixa os ombros e curva a cerviz demonstrando, através do voto, incapacidade para colocar em sentido os vários poderes, sejam eles quais forem, parece-me óbvio que tudo se transforma num pântano onde, paulatinamente, vão despontando e se reproduzindo pintores secundários, os seguidores sem história e memória. Como se isso não bastasse, a enxurrada do tempo acabou também por levar muitos homens e mulheres, outrora figuras genuínas na luta de importantíssimas causas, à conversão ao eucaliptal, ao mundo dos silêncios que secam o pensamento e trazem no seu bojo o tal conformismo. Capitularam e tornaram-se funcionários rendidos à liturgia do "Menino da Lágrima". 

Um distinto Amigo, já falecido, um dia, numa daquelas noites onde as palavras escorriam ao sabor dos pensamentos, disse-me com um tom de humor corrosivo que o caracterizava: "se o Al Capone regressasse, a primeira pergunta que faria talvez fosse esta: como conseguem fazer tanto sangue sem um único tiro?" E, mais adiante, complementou: o problema não está nos túneis das importantes obras concretizadas, mas nos túneis que fizeram na cabeça das pessoas". Adormeceram-nas, injectando elevadas doses de verdade única que pulverizaram o pensamento livre e assertivo.

Ora, distante dos horrores da guerra, entre outras, desse vergonhoso genocídio que um dia será severamente punido, presumo, apenas por mera imagem, eu diria que, por aqui, construíram, intencionalmente, muitas "faixas de Gaza". Não há tiros, mas silêncios comprados; não há destruição do património, mas há um claro aniquilamento da liberdade de cada um. Estão na "faixa" porque nunca o poder foi tão verticalizado e "docemente" autoritário. Diariamente, oleiam a máquina e apertam os parafusos que o tempo desgastou! E a máquina, embora velha, continua a triturar. Tempos houve que, apesar de condicionamentos vários, os partidos políticos de projecto conseguiam apresentar figuras de reconhecida idoneidade política e respeitabilidade social, pessoas livres sem réstia dessa tenebrosa palavra: medo. Hoje, escasseiam. Há partidos políticos que definham, vários foram arredados na Assembleia enquanto espaço de debate e proposta; a quase totalidade das freguesias é dominada por uma única fonte de pensamento; os municípios, idem; as casas do povo e o associativismo em geral capturado; a escola, enquanto espaço de aprendizagem para a vida democrática, científica e profissional, a escola que devia respeitar sonhos e talentos, está enredada na burocracia que prende e esmaga, numa asfixiante e cinzenta hierarquia sem rasgo que sobrevive de expedientes e da subtil perseguição; a galinha dos ovos de ouro está em dramática convulsão apesar dos títulos de destino de excelência... dizem que conquistados. Tudo isto, enfim, entrou naquilo que designo por uma normal anormalidade. Tudo se aceita, tudo é tolerado e tudo se verga à "torre de marfim". 

De facto, não é aceitável que o regime democrático assim funcione. Há razões substantivas, de raiz histórica, que explicam  o percurso de cinquenta anos de paciente apresamento da consciência colectiva. E o perverso objectivo, pacientemente, foi conseguido. Resta saber, como sair desta sofisticadíssima e condicionadora engrenagem que não se compagina nem com a liberdade, nem com o crescimento, nem com o desenvolvimento sustentável, tampouco com a Democracia. Uma sociedade aprisionada é uma sociedade morta.

Ilustração: Google Imagens

domingo, 17 de setembro de 2023

Crápulas do BCE!


Por
Marco Della Luna, 
in geopol.pt
11/09/2023
estatuadesal



Com a guerra da Ucrânia, os EUA aniquilaram politicamente a UE e separaram-na da Rússia. Portanto, agora Washington já não precisa da UE


O BCE foi criado, pelos seus estatutos, com base em pilares precisos:

  • não ajudar os estados através da compra dos seus títulos de dívida pública, não ser condicionado pelos governos e não condiciona-los,
  • regular a criação de moeda, evitar uma inflação superior a 2% ao ano.

Fez tudo ao contrário, com efeitos perniciosos: ao aplicar a Estabilidade Financeira de Mario Draghi e outros, criou a dívida "go go" (Q.E.), dívida que agora nos cai em cima; comprou cerca de um terço da dívida pública, o que constitui uma ajuda aos estados; fez cair pelo menos dois governos (Papadopoulos, Berlusconi) e enviou avisos a alguns governos para manterem certas linhas de política económica, sob pena de não comprarem a sua dívida pública, o que constitui uma chantagem política; quando as tensões inflacionistas surgiram, não devido a um excesso de procura, mas a deficiências nas estruturas da oferta, reagiu de forma imprópria, aumentando as taxas, desencadeando a recessão e a crise de insolvência, e, no entanto, não travou a inflação.

Lembram-se de quando o Financial Times, apresentando-o como um corajoso inovador de grande envergadura, exaltava Mario Draghi e o seu "whatever-it-takes", ou seja, a sustentação da bolha do mercado especulativo através da criação e injeção de quantidades imprudentes de dinheiro sem financiar a economia real? Mario Draghi estava simplesmente a aplicar a política dos governos dirigidos pelos bancos que, depois do escândalo e do desastre do crédito hipotecário de alto risco e da alavancagem insana, em vez de punirem os banqueiros responsáveis por esse comportamento e impedirem a sua repetição com reformas adequadas, os recompensaram, descarregaram os prejuízos sobre os contribuintes e os trabalhadores, e recriou, com uma enorme e continuada emissão monetária a taxas zero ou negativas, as condições para uma repetição multiplicada da sujidade destrutiva que enriqueceu enormemente precisamente a classe de banqueiros a que Mario Draghi pertence e com a qual o Financial Times parece concordar. Essa classe, para voltar a citar Mario Draghi, é constituída pelas pessoas que podem fazer coisas, enquanto a população em geral só as pode sofrer.

Esses mesmos senhores não fizeram um milésimo de nada para salvar a Grécia de uma catástrofe (provocada por outros banqueiros) e de um saque que também custou milhares e milhares de vidas. De pé! Sim, sobre os cadáveres dos outros.

Criaram o sistema de branqueamento da dívida pública, em que, depois de 2008, socorreram os bancos na condição de estes comprarem dívida pública ilimitada e depois a usarem como garantia para o RePo ao BCE.

Drenaram capital de investimentos produtivos para financiar tudo o que era improdutivo e falso, como títulos do Estado, imobiliário especulativo, economia verde.

Não permitiram que os défices temporários alterassem a fiscalidade.

Tornaram mais rigorosos os parâmetros de solvência, dando a quem já tem, e conduzindo assim a economia numa direção hiper-cíclica, monopolista ou oligopolista, na melhor das hipóteses.

Fizeram do euro um ativo de pleno direito, como uma ação da empresa da UE, da oniróide narrativa ideológica supremacista europeia, e, portanto, tão escasso e deflacionário quanto o ouro.

A economia da UE não conheceu infra-estruturas nem empreendedorismo generalizado, mas apenas o sonho de estar perto da fonte mágica de dinheiro que compra tudo ao mundo sem fazer nada, apenas vendendo acções do sonho europeu. Mas, nessa altura, faz sentido reduzir a população, porque quanto menos pessoas a partilharem, mais ricos são, por isso não há problema em promover tratamentos de saúde contraproducentes e relações amorosas estéreis, e cães em vez de crianças; até ao esquecimento, quando o mundo já não aceitar a ação de um delírio louco e suicida.

Recorde-se que a chamada unidade europeia é um projeto não europeu, mas norte-americano, impulsionado e financiado pela CIA, destinado a impedir uma integração económica com a URSS. Com a guerra da Ucrânia, aniquilou politicamente a UE e separou-a da Rússia. Portanto, agora Washington já não precisa da UE.

Cortou as pernas à Alemanha, sabotando o Nord Stream, e agora corta-as à França, desestabilizando o seu império colonial africano e demolindo a sua imagem moral. Cortou também as pernas ao euro, ao reduzir a sua quota-parte de utilização no comércio internacional em benefício do dólar.

Peça traduzida do italiano para GeoPol desde a revista Italicum

quinta-feira, 9 de março de 2023

Pobreza, Inteligência Artificial, Comissões de Inquérito e Estudos de Opinião

 

Faz parte de uma certa paródia regional, eu sei, e daí, não é meu espanto, mas talvez uma certa perplexidade de como alguns conseguem levar de mansinho a água ao seu moinho. Durante anos a fio. O problema está em saber até quando e quais as sequelas sociais. Pelo que assisto, o coma é tão profundo que tudo passa como a água nas penas dos patos. Nem o "jardinismo", como todas as suas diatribes, com a paulatina "compra" e imposição de silêncios, as dívidas escondidas, as subtis ou descaradas perseguições, os alegados enriquecimentos rápidos e talvez mal explicados, porque dá jeito, a quase "institucionalização" de uma perversa economia paralela, a paciente montagem de redes e de compromissos, a muitos dizendo não dizendo, "toma lá, dá cá", o controlo da comunicação social, a multiplicação de instituições e subsídios a granel para contentar clientelas, nem nesse período da longa história, dizia, foi tão longe. Ou talvez hoje os novos dignitários estejam a receber de bandeja os "investimentos" feitos. É uma possibilidade.

Um dia, o Dr. Jardim falou de uma fase mais "raffiné". Pois, a democracia, por isso, é, hoje, um simulacro do que devia ser. O engano dos sentidos fez o seu caminho e agora, a percepção que se tem é a de uma sociedade doente, divorciada dos seus próprios interesses, uma sociedade de múltiplos receios ou medos, acorrentada nas aparências e que, mesmo sofrendo, prefere o conhecido ao desconhecido. Já não se rala. Entretanto, as grandes referências da oposição regional foram desaparecendo: ou porque morreram ou porque assumiram que outros ficassem com o brinquedo! Complementarmente, parece-me evidente que o sistema educativo foi intencionalmente condicionador, ao preferir a liturgia dos manuais programáticos à liberdade de pensamento, da criatividade e da inovação. Em poucos anos a sociedade caiu numa espécie de pântano que impossibilita a consciência de fuga ao lamaçal. Sobrevive. E a Igreja? O que dizer dela? Todos o sabem. Cala-te boca.


Desta minha convicção, sublinho, que muito para mangas daria, nos últimos dias confrontei-me com quatro temas que, não espantando, confirmam, porém, a pasmaceira e a lógica do sistema político. 

Primeiro: POBREZA. Quarenta e sete anos depois de Abril de 1974, pergunto se será necessário um estudo sobre os cerca de 80.000 pobres ou em risco de pobreza? O que fizeram dos sucessivos dados publicados pelos Institutos de Estatística e da análise às políticas de governação regional para o sector? Há uma longa história de debates, com apresentação de dados, na Assembleia Legislativa da Madeira. Basta consultar o Diário das Sessões. Lembro-me, por exemplo, em Julho de 2011 (este é um entre muitos outros momentos), por iniciativa do Dr. Bernardo Martins, ter sido apresentado um projecto que, infelizmente, foi liminarmente chumbado pela maioria PSD. A páginas tantas o projecto referia:

"(...) Considerando que a pobreza não é uma fatalidade, e que compete aos políticos terem a nobre missão da criação de uma sociedade mais coesa e solidária, numa acção que envolve, articuladamente, as dimensões económica, social e cultural;
Considerando que os objectivos do “Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social” continuam válidos e merecem um permanente aprofundamento, tendo em vista, nomeadamente, aumentar a consciencialização cívica e a visibilidade das situações de pobreza, contribuir para a diminuição da exclusão social e mobilizar para este combate a sociedade e todos os níveis de poder, como assembleias, governos e autarquias;
Considerando que “2010 - Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social” é “uma missão ainda por concluir, que não se esgotou na mobilização garantida por este Ano Europeu”, como refere o seu Coordenador Nacional, Edmundo Martinho, porquanto “todos podemos fazer a diferença na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva”;
Considerando que, pela universalidade do seu sentido, pela justeza da sua razão e pelo seu interesse público, esta evocação deverá realizar-se, independentemente das maiorias parlamentares ou governativas que se constituam em 2012;
A Assembleia Legislativa da Madeira, ao abrigo do disposto no Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma da Madeira e do Regimento deste Parlamento, resolve:
1 – Designar 2012 como o “Ano Regional de Combate à Pobreza e à Exclusão Social”;
2 – Definir, entre outras, como principais finalidades desta iniciativa as seguintes: proceder a um estudo exaustivo e caracterizador da pobreza e da exclusão social na Região Autónoma da Madeira; reconhecer o direito dos cidadãos em situação de pobreza e exclusão social a viver com dignidade e a intervir na sociedade; sensibilizar as pessoas para o reforço da coesão social; ampliar a acção política da Região na erradicação da pobreza e da exclusão social. (...)"

Passaram-se doze anos após o chumbo deste proposta e eis que, paradoxalmente, os que a chumbaram resolveram realizar um estudo. É espantoso.


Segundo: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. Um dos princípios do desenvolvimento é o da transformação graduada. Há uma sequência no tempo que não pode ser ignorada. Da mesma forma que coexistem três perguntas simples que qualquer gestor/administrador da coisa pública (e não só) deve dominar: onde estou, onde quero chegar e que passos tenho de dar para lá chegar. O onde estou equivale ao levantamento exaustivo da situação real, para que daí se possa arquitectar uma situação ideal. Ora, o sistema educativo está de rastos, sendo evidente que esta escola não consegue dar resposta aos desafios de um mundo em constante aceleração. Segundo os estudos é desmotivadora para alunos e professores, apresenta currículos e programas desadequados, submete-se aos ditames de uma administração centralizadora e padronizadora, é rotineira e previsível, porém, quando é este o quadro, alguém vem falar de "inteligência artificial", ignorando o extenso rol de características onde o sistema se encontra. Como é possível ser prospectivo e presumir que se irá atingir a complexidade, quando são queimadas as etapas de um longo processo científico. Houvesse engenho e arte, depois de 47 anos de políticas, podia o sistema experimentar e almejar tal desiderato. Pela via que seguem, não. Tratam-se de umas palavras soltas atiradas ao ar e sem significado. Tal como a história do Brava Valley!


Terceiro: COMISSÕES DE INQUÉRITO. Um festival de palavras e de depoimentos inconsequentes. Apenas fumo. Um ex-Deputado Europeu e, depois, governante regional, falou de "obras inventadas". Foi logo encostado à parede. E o inquérito parlamentar surgiu. Conclusão: "obras inventadas", protecção a um grupo restrito de empresários, pressão destes sobre a governação, enfim, são tudo histórias, essas sim inventadas. Nada ficou nem ficará provado. Mas quando e onde rolaram cabeças na sequência de um qualquer inquérito parlamentar? É tudo mentira, pois o desabafo, certamente, tem a chancela do ressabiamento de quem o proferiu. Até o relator da comissão foi indicado pelo partido maioritário. Curioso, até, que o parceiro de coligação que antes abria a boca e não era nada piedoso, remeteu-se agora a um silêncio sobre a tal "mentira" criada pelo ex-governante. Tudo solenemente abafado. Pois tudo foi realizado com total transparência, rigor técnico, fiscalização sem mácula e absolutíssima lisura de comportamentos éticos e morais. O ex-Deputado irá, certamente, "de castigo" para o quarto escuro da política!


Quarto: ESTUDO DE OPINIÃO/SONDAGEM. Corolário de tudo isto, o povo (?), em sondagem recentemente publicada, atribuiu 50% dos votos ao partido governante, onde se inclui um ínfimo contributo do parceiro de coligação. Significa que está tudo ou quase tudo certo. Portanto, siga a festa...   



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Dnotícias

terça-feira, 13 de setembro de 2022

A recessão organizada por Lagarde


VISTO DE FORA
Por Tiago Franco *
Setembro 11, 2022

Raquel Varela usou uma expressão, que considero feliz, para descrever a actual crise económica: recessão organizada. Enquanto governantes nos tentam convencer que a perda do poder de compra e a redução de salários se devem à guerra na Ucrânia, aquilo a que assistimos são lucros fabulosos na banca, nas energéticas e nas cadeias de supermercados.



Sendo os preços definidos pelos salários e pelos lucros, sem que se conheçam aumentos significativos no lado dos salários, compreende-se que a subida de preços (inflação) se destine apenas a fazer crescer a balança no lado do lucro. É isto que o BCE de Lagarde consegue ao aumentar, repetidamente, as taxas de juro.

Criar uma escandalosa orgia de lucros à custa da disparatada subida dos preços em contraponto com a estagnação dos salários. Está criada a tempestade perfeita em que o trabalhador por conta de outrem fica preso num ciclo sem saída. Por um lado, não pode deixar de trabalhar e, por outro, o valor a que vende a sua força de trabalho vale cada vez menos. Ao mesmo tempo, o lucro das corporações vai batendo recordes.

Pelo meio, Lagarde diz-nos que é este o caminho para que a inflação regresse aos 2% lá para 2024, e António Costa (tal como os restantes governos da União Europeia), vai distribuindo umas migalhas pela população a partir do IVA extraordinário amealhado por conta da “economia de guerra”.

Em lado nenhum se aumentam salários. Em lado nenhum se mantém o poder de compra do lado dos trabalhadores. Mas em todo o lado as empresas aumentam os seus lucros. Se isto não nos faz pensar, enfim, não sei o que mais será necessário. Talvez quando nos vierem buscar a pele.

Dou por mim, pela primeira vez na vida, a concordar com uma afirmação de um deputado da Iniciativa Liberal. Se, de facto, o Governo quer proteger as famílias, bastaria que, por agora, reduzisse a fatia que tira de cada salário na contribuição do IRS. Era esse o verdadeiro acompanhamento da inflação.

Mas então, e a Ucrânia? Sim, a Ucrânia, onde nos garantem que a vitória é possível (até ao último ucraniano, entenda-se), e que, de costas largas, aceita todas as justificações que nos empobrecem. Até onde iremos?


Há uma ironia macabra em tudo isto. Enquanto os nossos governantes (europeus) nos garantem que não podemos deixar de apoiar financeiramente, e com armas, os esforços de guerra, dizem-nos que, também por causa desse esforço, devemos aceitar a perda de salários e, para alguns, das suas habitações. Isto depois de nos garantirem que a inflação seria temporária, quando todos já tínhamos percebido que estaria sempre associada (nem que fosse pela narrativa) a uma guerra que ninguém parece querer ver terminada.

Sempre que ouço esta conversa de que a Ucrânia não pode cair, olho em volta e penso nos que, em qualquer parte do mundo, vão caindo todos os dias na ignorância dos interesses europeus. Mas mais do que isso, pergunto-me até quando aceitaremos patrocinar esta guerra com a nossa pobreza?

Nada no terreno nos leva a pensar que os ucranianos poderão fazer mais do que resistir. Para além de Nuno Rogeiro, que nos garante desde Maio que os russos já não aguentam mais, a maior parte dos especialistas não vislumbram maneira alguma de rechaçar o exército russo do Donbass e da Crimeia. Mesmo aqueles que já viram a guerra para lá dos estúdios de televisão.

Portanto, enquanto a União Europeia e os Estados Unidos forem enviando dinheiro e armas, enquanto nós formos empobrecendo sem gritar muito, enquanto os ucranianos tiverem gente viva e enquanto os russos conseguirem vender gás e petróleo aos asiáticos, em princípio a guerra tem pernas para andar.


Quem grita pela solidariedade eterna com a guerra no Leste Europeu é quem, por norma, nunca quis saber de qualquer outra invasão. Mas é também quem, acima de tudo, vê o drama alheio sem o risco de perder o telhado ou que, apesar dos aumentos do Banco Central Europeu (BCE), tem um salário suficientemente robusto para se sentar na poltrona a exigir solidariedade. Fica bem. É a barricada dos impérios pela verdade. São a nova versão do “fiquem em casa, salvem vidas”, que o meu emprego já é para a vida.

Acalmaram-se um pouco os falcões que exigiam a entrada da NATO no terreno (de forma oficial, pelo menos), e isso leva-nos para a parte da solução de todo este imbróglio.

Sem a NATO e uma III Guerra Mundial, é possível derrotar os russos? Rogeiro faz-nos crer que sim, os militares dizem que não. Acreditando nestes últimos, alguns que até defendem que a única solução do conflito passará pela perda de território por parte da Ucrânia, a quem interessa o prolongamento deste conflito?

Assim de repente, consigo pensar em várias corporações que estão a lucrar como nunca, percebo que para os Estados Unidos seja importante desgastar os russos o mais possível (até porque eles já o admitiram), e para alguns governos até a inflação parece ser positiva.


Mas para nós, o comum dos mortais que trabalha 40 horas por semana e paga contas, de que nos interessa a moral da escolha entre impérios? A hipocrisia da invasão boa vs. a invasão má? A irritante sobranceria com que aceitamos a morte de uns, mas declaramos inconcebível o sacrifício de outros, consoante o nome do invasor ou a proximidade do nosso bairro.

Compreendo que ucraniano algum queira perder território. Mas… tem de ser a Europa toda a pagar por isso? Não posso eu escolher a que invadido quero dar a minha solidariedade, ou, pelo menos, achar que que tenho o direito de não pagar guerras que não escolhi?

Andei, andámos, dois anos a pagar os lucros das farmacêuticas e dos laboratórios, enquanto nos cortavam salários. Agora transferimos o valor do trabalho para o capital que está no sector da energia, do armamento, da banca. E voltamos a reduzir salários.

Quase três anos desta merda, deste ciclo de empobrecimento. Sem que nos perguntem sequer se queremos fazer parte dele. Uma minoria que controla, dirige e oprime a maioria que trabalha, mas que, ao que parece, se recusa a pensar e reagir.

Eu não aceito que me obriguem a pagar guerras que não escolho. Nem sequer aceito que me digam quais são as guerras boas ou guerras más. E certamente não compreendo, em nome de quem é que a estabilidade da minha família tem que ser colocada em causa para que a banca, os senhores da guerra e as energéticas lucrem como nunca.

Entre o sangue ucraniano e a pobreza que aumenta na Europa, há quem ganhe fortunas. E nós, os idiotas de serviço, discutimos 125 euros de esmola e gritamos Slava Ukraini no sofá, sem saber quanto mais tempo nos sentaremos nele.

*Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)

N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O mundo pos-covid que chegará… um dia


Vítor Lima, 
in Blog Grazia Tanta, 
01/10/2020


1 – Os seres humanos, instrumentos do capital

Entre os múltiplos efeitos da pandemia podem destacar-se alguns – não sanitários -, tais como um maior apuro no aproveitamento, pelos grandes empórios, quanto ao escrutínio, enquadramento, manipulação de dados pessoais, para efeitos da sua segmentação ou homogeneização, com o estabelecimento de normas a cumprir e a concomitante vigilância, diluindo capacidades individuais num trabalho alienante e inútil, articulado com um tempo de lazer preenchido com atividades estupidificantes.



Essas atividades inúteis servem apenas para convencer o seu praticante a manter-se integrado no circo do capital, por muito inútil que seja o seu “trabalho” do ponto de vista económico, social ou de enriquecimento cultural. Trabalho, sendo esforço, só tem cabimento se produz algo de socialmente necessário ou útil; porém, em muitos casos, toda a vida do executante é atravessada sem que ele se aperceba alguma vez da inutilidade ou dos danos que resultaram da aplicação do seu tempo e das suas capacidades físicas e anímicas. Essa distorção na vida dos seres humanos tornou-se típica do capitalismo e, pela sua dimensão, conduz a danos de ordem anímica, ambiental e sanitária que afetam grandes grupos humanos ou mesmo a Humanidade; como é o caso da cangalhada militar.

Antigamente, nas classes dominantes, mormente na nobreza, as suas principais atividades eram o lazer e a guerra, com a entrega da gestão do património, da captação de impostos e tributos, a alguém capacitado para o efeito - um eclesiástico ou um plebeu. Nas outras camadas populacionais, no campo ou nas embrionárias cidades, não havia lugar para tarefas inúteis, encaradas como trabalho; todos sabiam o objetivo e a utilidade real do seu esforço de trabalho, mesmo que este fosse o lazer ou a satisfação de um capricho de um senhor. Tratava-se de garantir a subsistência e de medir o esforço laboral em função das necessidades do grupo familiar e do pagamento do tributo ao senhor local – em géneros, jovens para a guerra ou para o serviço doméstico no castelo ou no palácio.

Em épocas de epidemia, de más colheitas ou de devastação pela guerra - não havendo … subsídios de desemprego ou tarefas definidas pelos poderes públicos para colmatar a ausência de um rendimento, como no New Deal, só restava a emigração ou, a procura de ocupação nas cidades, onde a atividade produtiva era bem mais diversificada do que no campo.

A mobilidade, após a expansão europeia do século XVI alargou-se ao espaço global, por cobiça, espírito de aventura, guerra ou, através do comércio de especiarias, escravos, armas... Essa mobilidade envolvia áreas onde viviam sociedades complexas e até mais avançadas do que as europeias mas que cederam à colonização europeia. Onde isso não acontecia, como na América do Norte e nas Caraíbas a regra foi o extermínio dos seus habitantes e o recurso massivo à escravatura… a coberto das figuras divinas do panteão cristão e dos seus sacerdotes.

O capitalismo, gerando a procura incessante da acumulação de capital e beneficiando de tecnologias geradoras de elevados ganhos de produtividade, poderia reduzir o tempo dedicado ao trabalho libertando a Humanidade do esforço laboral e dando-lhe tempo livre para sua utilização no deleite da cultura, do desporto, da sociabilidade...

Mas não o fez e continuará a não fazer. Beneficia do essencial dos ganhos de produtividade, constrói enormes burocracias e instrumentos de controlo do trabalho e dos seus executantes, para que a mão-de-obra se mantenha pacificada e capturada pela lógica do capitalismo, aceitando como escrita nas estrelas a sua subalternidade face os capitalistas.

Desenvolve-se toda uma ideologia baseada na segmentação dos rendimentos do trabalho entre trabalhadores e patrões; e estes, mesmo sendo muito minoritários beneficiam da maioria dos ganhos. Dizem os próceres do capital que é essencial haver capitalistas porque são estes que criam o emprego, pagam os salários… evidenciando assim, o caráter secundário, acessório dos trabalhadores.

Na bíblia dos capitalistas, Deus criou o capitalista e, no seguimento, criou o assalariado para assegurar o bem-estar e o entretenimento do primeiro.

2- A acumulação infinita de capital

O capitalismo não concebe limites para a acumulação e inventa formas de a aumentar até ao infinito, para assim consolidar a sua perenidade e perpetuar o seu poder sobre a população e os recursos do planeta. Por um lado, no capítulo da produção de bens e serviços, procura maximizar a sua oferta para incrementar os lucros; e, por outro, em contradição total, procura manter o comedimento nos rendimentos do trabalho sabendo que um poder de compra restringido significa menos consumo, menos gasto. E, daí que aponte às pessoas o recurso insensato a dívida para alimentar o consumismo em todas as camadas sociais, após a secagem da capacidade de utilização dos rendimentos do trabalho. Como se sai disto?

Claro que tudo isso é insuficiente. Daí resulta a demência inerente ao sistema financeiro, que, como elemento central de multiplicação de capital, vive tomado de uma pulsão, uma gula que nunca se satisfaz, com o aumento e a valorização dos títulos que emite; nem com as margens de lucro que obtém nas transações que protagoniza, a todo o instante. Daí surgem as crises financeiras, os conflitos militares e o “investimento” em armamento, com o protagonismo dos gestores dos grandes bancos centrais, de instituições globais como o FMI ou o BIS – Bank of International Settlements que acompanha a situação do sistema financeiro global; bem como dos governos nacionais e das classes políticas que se encarregam de gerir os impactos do desvario financeiro, e transformá-los, em crise social e económica, com agudeza crescente e cada vez mais frequentes, como se pode observar comparando a crise de Wall Street em 2008 com a que se desenvolve na boleia do coronavírus.

A financeirização, com a criação de dinheiro em exponencial, de forma virtual, inserida em redes de circulação de dados, gerados de modo instantâneo e encadeados entre si, configura, a todo o momento, redes de negócios especulativos. A base material da economia, assente na produção de bens e serviços ou da auto-produção doméstica e do auto-consumo perdeu relevância e tornou-se um apêndice, um subproduto do mercado, devidamente supervisionado pelos aparelhos de Estado.

3 - Excedente de pessoas[1]

No momento presente vive-se um tempo de grande incerteza perante o vírus e de temor perante o assalto ao rendimento das classes populares. Entre os efeitos da pandemia podem destacar-se alguns, tais como um maior apuro no aproveitamento, pelos grandes empórios, do escrutínio, do enquadramento, da manipulação de dados pessoais, para efeitos da sua segmentação ou homogeneização; também, com o estabelecimento de normas a cumprir e a adequada vigilância, diluindo capacidades individuais num trabalho alienante e inútil; ou ainda, com um tempo de lazer preenchido com atividades estupidificantes. Com essas inúteis atividades – não sentidas como tal pelo trabalhador - pretende-se dar-lhe uma ideia falsa sobre a importância do seu labor. É uma prática alienante e pacificadora – típica do capitalismo.

Nos modos de produção anteriores ao capitalismo, as funções laborais poderiam ser penosas mas sabiam-se as suas finalidades; ninguém exercia funções sem saber o objetivo, mesmo que fosse a satisfação de um capricho do seu senhor. No capitalismo, as tecnologias permitiriam fortes reduções de tempo de trabalho, sem perda de rendimentos, se todas as funções a desempenhar fossem reconhecidas como socialmente úteis. Isso significaria um tempo acrescido de lazer, para estudo, cultura ou desporto e daí resultaria a grande questão de ordem política – se os meios permitem a produção de todos os bens e serviços úteis à Humanidade, é preciso abolir quantos condenam a multidão a jornadas de trabalho longas, penosas e com baixos rendimentos. Bem como todas as atividades socialmente inúteis ou nocivas.

Pela forma como a multidão - em tempos de covid-19 - permite o desemprego massivo, o layoff, o recurso ampliado à caridade, as limitações na circulação no espaço físico, a perda de horas de vida com os olhos vidrados na nova teletela, um futuro muito nebuloso e pouco promissor, deduz-se que a articulação entre os capitalistas e as classes políticas domina a situação.

Em Portugal está ainda bem presente o que se seguiu ao descalabro financeiro provocado pelo partido-estado PS/PSD, antes e durante a intervenção da troika (2011-2015); e, a pacificação pela “esquerda” da parca contestação então havida, ainda evidencia os seus efeitos. A classe política portuguesa, como em outros países, não resolveu qualquer problema dos então existentes e somou ainda os efeitos imputados ao covid-19.

A ocupação do Estado por partidos políticos que colocam todas as responsabilidades de gestão económica e social da sociedade nos seus próprios membros e apaniguados, remete a população para a situação de objeto manso e mole, de mainatos subordinados aos interesses da classe política. A crise do vírus, que no momento presente mostra uma duração muito para além do inicialmente previsto, revela, numa primeira instância a imensa incapacidade de gestão por parte das classes políticas – com relevo para a Europa Ocidental, EUA e Brasil – contrastante com a frieza e capacidade observada em vários países da Ásia Oriental. Em todos os casos, porém, há uma constante – a ausência de iniciativas populares capazes de se organizarem em rede, afastando-se das lógicas piramidais e da monstruosa burocracia que carateriza os aparelhos estatais; as populações colam-se à tv e assistem, passivas ao espetáculo repetitivo protagonizado por hordas de mandarins e plumitivos; e, imbecilizados, estarão prontos a dormir com máscara ou banharem-se em alcatrão se determinado por um primeiro-ministro.

Se a humanidade não pode, por limitações físicas ou institucionais, produzir o rendimento necessário para acompanhar a deriva especulativa financeira, esta tem de recorrer a artifícios para aumentar o capital envolvido no circuito económico; e, nesse processo, o sistema financeiro globalizado e os governos que o servem desestruturam as sociedades, espalham sofrimento, artificializam as economias, ofendem o planeta.

Em Portugal, neste verão, a taxa de poupança ultrapassou 10%, o que se confronta com valores próximos de zero (quando não, negativos), nos últimos anos; e isso, relaciona-se com grandes quebras no consumo e no rendimento disponível. O povo tem o bom senso de se precaver para dias piores, porém, do sistema bancário e dos governos não se sabe o que pode surgir; por exemplo, podem penalizar as contas com saldo acima de determinado valor para incentivar o consumo ou, aumentar a carga fiscal para reduzir o deficit público. O poder quer voltar à taxa de poupança nula para que o dinheiro possa ser captado pelo carrossel financeiro; o seu negócio é a geração de dívida, não de poupanças. E, em 2023, espera-se que na Europa do euro, deixe de haver dinheiro em papel ou metal; tudo ficará gravado, não nas estrelas mas nos servidores do sistema financeiro globalizado[2], num grau muito mais elevado de controlo das vidas das populações.

Hoje, o tão desejado crescimento económico, o do nebuloso PIB, tem como fulcral e mais usual, o recurso a dívidas contraídas por famílias, empresas e Estados. O carrossel financeiro roda num outro palco.

Em regra, as famílias endividam-se junto dos bancos, nomeadamente para suportar a posse de casa e meios de transporte, necessidades essenciais descuradas pelos Estados; estes, ávidos cobradores de impostos, cederam a sua satisfação à sagrada “iniciativa privada”[3]. A engrenagem da dívida, com origem nas famílias, tem o seguinte enquadramento:

· As famílias endividam-se por décadas, aproveitando a baixa das taxas de juro concedidas pelos bancos; e os Estados mostram o seu parasitismo captando impostos – IMT, Selo e, posteriormente, IMI, ad secula seculorum.

· O risco para os bancos é baixo porque o imóvel é objeto de hipoteca e de fianças; o risco, é todo das famílias, em casos de desemprego ou separação conjugal, por exemplo;

· As baixas taxas de juro coadunam-se com os salários, também com fraca evolução. E as primeiras não preocupam particularmente os bancos, como se verá a seguir;

· Os bancos credores, não ficam à espera que passem décadas para recuperar o capital emprestado e os juros. Juntam um grande número de créditos, repartem o seu valor em títulos que colocam no mercado financeiro, recuperando o equivalente a grande parte do crédito concedido às famílias devedoras. A essa operação chama-se titularização e corresponde à constituição de uma cascata de operações sucessivas, com a inclusão de novos créditos, envolvendo sucessivos grupos de compradores de habitações ou outros, de longo prazo;

· Sucintamente, há uma dívida familiar constituída para várias décadas e um banco concedente do empréstimo. Esse banco vai reunir vários empréstimos desse tipo (e outros) e emitir títulos que serão comprados por outras instituições, recuperando assim, um valor onde se inclui o valor da totalidade desses vários empréstimos concedidos. Porém, não deixou de ser credor daquela família e de outras; apenas utilizou um expediente para antecipar o retorno dos valores dos empréstimos.

A transação colocou, em circulação, um valor que é o espelho dos empréstimos para habitação ali englobados; e, isso pode multiplicar-se n vezes, tantas quantas as titularizações efetuadas envolvendo os débitos, podendo associar-se a um jogo de espelhos ou à constituição das pirâmides de Ponzi, cujo valor máximo é, teoricamente, o infinito. Juntando todas aquelas dívidas, o mesmo banco torna-se devedor de quantos adquiriram os títulos emitidos, mas recolheu dinheiro para novas aplicações.

De permeio, os bancos podem aumentar as suas disponibilidades para a concessão de crédito, adquirindo títulos de dívida pública - eventualmente com taxas negativas – e que entregam, de imediato, ao banco central em troca de dinheiro para o seu uso corrente, a concessão de crédito ou a especulação bolsista. Isto é, os bancos centrais, sem alterar nada no equilíbrio dos seus balanços, procedem a acréscimos dos seus créditos sobre o volátil sistema financeiro que, em teoria deveriam controlar (como se viu nos casos… BPN, BES…) e aceitam como garantia títulos de dívida pública que virão a ser pagos pela carga fiscal que incide sobre os povos, por imposição das suas classes políticas, fachadas dos interesses do sistema financeiro e das transnacionais. O equilíbrio financeiro não se altera; o que acresce é a punção fiscal presente e futura para pagar a dívida pública e o endividamento particular, resultante do abandono pelos Estados de políticas de habitação e de transportes públicos em favor da tão cantada iniciativa privada.

Também as empresas recorrem ao endividamento. As baixas taxas de juro radicam-se na política dos bancos centrais no mesmo sentido, com as devidas repercussões na banca comercial que, por sua vez, desenvolve ações de titularização para libertar capitais para novos empréstimos.

O crédito barato - e as quase nulas taxas de remuneração dos depósitos - articulam-se para fomentar o consumo e, simultaneamente, desencorajar a poupança; daí que se forme uma quase obrigação no sentido do endividamento… como interessa ao sistema financeiro e às classes políticas que, na sequência, se apossam do futuro de pessoas e empresas, capturadas pelas obrigações face ao sistema financeiro. Assim, a formação do crédito nasce, não das poupanças mas nas pirâmides de Ponzi em que se insere a prática das titularizações.

Essas pirâmides engrandecem-se ainda com a constante entrada nos circuitos “legais” do dinheiro proveniente dos vários tráficos (drogas, armas, seres humanos…), corrupção, etc. para alegria do sistema financeiro e com o olhar distraído da supervisão dos bancos centrais e outros pomposos reguladores; em regra, os governos assanham-se mais contra as fugas fiscais dos pequenos negócios e muito pouco com a evasão fiscal dos ricos[4]. Esses reguladores e os governos nacionais, tradicionalmente, mostram-se distraídos com o dinheiro que circula entre o sistema financeiro visível e as dezenas de registos offshore espalhados pelo mundo, mormente em ilhas remotas.

As empresas, maximizando a obtenção do crédito barato, reduzem a utilização de capitais próprios; e, no caso português, banalizou-se também – e há muitos anos - a utilização, pelas empresas de contribuições, devidas e não pagas, à sonolenta Segurança Social portuguesa, parasitada por todos os governos… sem qualquer protesto do mundo sindical ou dos partidos ditos da oposição. A delapidação da Segurança Social é uma prática recorrente que faz parte de um acordo tácito no seio da classe política.

A competitividade das empresas vai assim surgir dos baixos níveis salariais dos trabalhadores – atomizados e desorganizados - nas horas de trabalho não pagas, no trabalho precário, no despedimento facilitado ou mesmo, pelos layoffs facilitados pelo governo em tempos de covid-19.

Todo este sistema baseado em cascatas de crédito é extremamente vulnerável mesmo que ancorado em taxas de juro bastante baixas, para evitar dificuldades às empresas e, ligadas a taxas de inflação igualmente baixas; assim, fomenta-se uma elevada propensão consumista da população que, com salários estagnados, envereda pelo recurso ao crédito, facilitado pela banca.

Este modelo de integração de entidades – empresas, mormente as mais pequenas, os Estados e a banca – depende essencialmente do banco central que dificilmente o poderá cancelar:

· O abastecimento do sistema financeiro não pode cessar pois o crédito bancário seria bem mais caro e difícil de obter sem firmes garantias, o que muitas empresas não poderiam oferecer;

· A sua cessação conduziria a uma enorme crise global, seria o desabar de um castelo de cartas, com a falência de inúmeras empresas, endividadas e com acumulação de malparado nos bancos. A ativação de hipotecas conduziria à acumulação de imobiliário sem compradores e, portanto, desvalorizado, com impactos a montante, na construção, que incorpora elementos de muitas indústrias, serviços e trabalho;

· Os despedimentos de trabalhadores e a mobilização de rendimentos de substituição, vindos da esfera estatal, não evitariam dificuldades no pagamento das prestações dos créditos para habitação;

· Os subsequentes efeitos nas contas públicas (deficits) afetariam o habitual recurso a “leilões” de dívida pública, certamente com taxas de juro muito mais altas do que hoje.


[2] desaparição do dinheiro físico na Europa do euro – hoje, um valor de $ 14,5^11 - que incorporará as disponibilidades do sistema financeiro para a especulação a que se deve acrescer os custos do abastecimento das populações com notas e moedas, deixando as populações sem quaisquer instrumentos próprios de troca que não a direta, trocar batatas por cebolas, por exemplo. Se se pensar que a fortuna dos cinco mais ricos do planeta – Bezos, Gates, Arnaud, Zuckerberg e Ellison – é de $ 414^9… talvez não seja muito… 



[4] Em Portugal, o caso BES é um bom exemplo do entrançado de circuitos e da parcimónia como os governos encaram o assunto, incorporando nos seus elencos gente muito bem relacionada com o crime financeiro ou seniors de escritórios de advogados. Nenhum governante se quer (ou pode) mostrar como um Robin dos Bosques, embora abundem no seu seio os funcionários dos… sheriffs de Nottingham.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

"Eu conheço um País..."


Não é que me tire do sério, mas irrita-me. Quando oiço, o que é recorrente, sobretudo no discurso político, "este país" ou o "rectângulo", confesso que tais verbalizações me deixam com alguma brotoeja pelos evidentes sinais de desconsideração e aviltamento. Porque este, para o bem e para o mal, é o nosso país e quanto ao "rectângulo", todos os outros têm configurações mais ou menos geométricas, facto que me leva a pensar que subsiste um sentido extremamente depreciativo  e provocador quando alguém por aí escreve ou fala.


Todos os países, sem excepção, têm as suas potencialidades a par de muitas fragilidades. Olhe-se para os Estados Unidos, com todo o seu poder, como navega nas águas turvas e agitadas no combate à epidemia. Em contraponto, olhemos para a nossa diáspora e tenhamos presente quantos homens e mulheres foram capazes de construir o sucesso em vários sectores de actividade; para o largo conjunto de jovens cientistas espalhados por centros de investigação de topo; olhemos para as artes em geral e para o desporto, em particular, e que orgulho sentimos ao constatarmos o valor dos desempenhos. Mas olhemos, ainda, para toda a nossa História de quase 900 anos, sobre o que fomos e o que fizemos. Ou então, em 45 anos de democracia, a transformação que operámos no país. Sempre bem? Não. Muitas vezes de forma desesperantemente criticável. Por aqui tempos houve de espezinhamento, obviamente que sim. É a nossa História e que deve ser conhecida. Sem pedras no sapato, sem a sensação do coitadinho, nem como arma de arremesso. O país que somos não merece tais epítetos, nem as regiões autónomas, especificamente, podem ser depreciativamente tratadas como "aqueles dos rochedos". 
Ademais, medíocres existem em todos os lugares, aqui e lá; corruptos, idem; gente sem pensamento, obviamente; riquezas mal explicadas, em todo o lado; poderes obscuros e governos globalmente imbecis, nem se fala; incultos, a cada passo. Repito, aqui e lá. Porém, este é o nosso país e a nossa Língua a Portuguesa! Por mais que muitas situações nos arreliem, não somos superiores a ninguém. Nem inferiores. Temos tantas fragilidades como competências de topo, o que me leva a concluir: no plano autonómico supramos as debilidades e construamos o Portugal que desejamos. Sem mesquinhez. 

Texto do Jornalista
NICOLAU SANTOS
Publicado na Revista UP da TAP

O texto que a seguir publico, da autoria do jornalista Nicolau Santos, é de Março de 2011. De então para cá muitas coisas se alteraram, obviamente. Porém, no plano global, constitui um excelente retrato síntese do nosso Portugal. 

«Eu conheço um país que em 30 anos passou de uma das piores taxas de mortalidade infantil (80 por mil) para a quarta mais baixa taxa a nível mundial (3 por mil)
Que em oito anos construiu o segundo mais importante registo europeu de dadores de medula óssea, indispensável no combate às doenças leucémicas. Que é líder mundial no transplante de fígado e está em segundo lugar no transplante de rins.
Que é líder mundial na aplicação de implantes imediatos e próteses dentárias fixas para desdentados totais.
Eu conheço um país que tem uma empresa que desenvolveu um software para eliminação do papel enquanto suporte do registo clínico nos hospitais (Alert), outra que é uma das maiores empresas ibéricas na informatização de farmácias (Glint) e outra que inventou o primeiro antiepilético de raiz portuguesa (Bial).
Eu conheço um país que é líder mundial no sector da energia renovável e o quarto maior produtor de energia eólica do mundo, que também está a constuir o maior plano de barragens (dez) a nível europeu (EDP).
Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o primeiro sistema mundial de pagamentos pré-pagos para telemóveis (PT), que é líder mundial em software de identificação (NDrive), que tem uma empresa que corrige e detecta as falhas do sistema informático da Nasa (Critical)e que tem a melhor
incubadora de empresas do mundo (Instituto Pedro Nunes da Universidade de Coimbra)
Eu conheço um país que calça cem milhões de pessoas em todo o mundo e que produz o segundo calçado mais caro a nível planetário, logo a seguir ao italiano. E que fabrica lençóis inovadores, com diferentes odores e propriedades anti-germes, onde dormem, por exemplo, 30 milhões de americanos.
Eu conheço um país que é o «state of art» nos moldes de plástico e líder mundial de tecnologia de transformadores de energia (Efacec) e que revolucionou o conceito do papel higiénico (Renova).
Eu conheço um país que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial e que desenvolveu um sistema inovador de pagar nas portagens das auto-estradas (Via Verde).
Eu conheço um país que revolucionou o sector da distribuição, que ganha prémios pela construção de centros comerciais noutros países (Sonae Sierra) e que lidera destacadíssimo o sector do «hard-discount» na Polónia (Jerónimo Martins).
Eu conheço um país que fabrica os fatos de banho que pulverizaram recordes nos Jogos Olímpicos de Pequim, que vestiu dez das selecções hípicas que estiveram nesses Jogos, que é o maior produtor mundial de caiaques para desporto, que tem uma das melhores seleções de futebol do mundo, o melhor treinador do planeta (José Mourinho) e um dos melhores jogadores (Cristiano Ronaldo).
Eu conheço um país que tem um Prémio Nobel da Literatura (José Saramago), uma das mais notáveis intérpretes de Mozart (Maria João Pires) e vários pintores e escultores reconhecidos internacionalmente (Paula Rego, Júlio Pomar, Maria Helena Vieira da Silva, João Cutileiro).
O leitor, possivelmente, não reconhece neste país aquele em que vive ou que se prepara para visitar. Este país é Portugal. Tem tudo o que está escrito acima, mais um sol maravilhoso, uma luz deslumbrante, praias fabulosas, ótima gastronomia. Bem-vindo a este país que não conhece: PORTUGAL.»

NOTA
A lista é longa e foi complementada neste blogue:
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Tempos de desilusão


Cresce a desilusão. Silenciosa, mas anda por aí, por todo o lado. Tenho por adquirido que, hoje, ninguém tem mão nisto. A violência cresce, em alguns casos de forma animalesca; é o sistema de Saúde feito terra de ninguém, cheio de conflitos e divisões; é a Educação, completamente atolada em um pântano, disfarçada de palavras enfeitadas e muita propaganda, onde vale mais a burocracia que a aprendizagem; é essa coisa da aquacultura onde ninguém se entende e, no mínimo, explica; é a Economia que, dizem, cresce, mas, paradoxalmente, não é sensível nos bolsos do povo; são as casas do povo transformadas em casas de propaganda; é o Ambiente com mais imagem e paleio que acções; é a arrepiante queda do sector do Turismo; são os sinais graves de manifestações que cheiram a ausência de transparência, abafadas pelo poder do dinheiro; é a Segurança Social que deixa prescrever milhões; é o assalto à comunicação social, pintado de cores amenas, mas onde lá no fundo emerge o controlo absoluto para manter as consciências adormecidas; é a enervante Justiça, desesperante e degradante, até com juízes e procuradores que deixam um rasto de desconfiança, (um mero exemplo: será aceitável que um alegado crime de ofensas pessoais ande para ali a marinar há 27 anos?); é uma Assembleia Legislativa onde faltam referências maiores e que vive de uma arrepiante gritaria e de truques de retórica; é a pobreza que choca; é a falsa alegria de viver que esconde infelicidades sem fim; é a mentalidade retrógrada assente na ignorância altifalante e no deixa andar; é a falta de modos, de  rigor profissional, cumprimento de prazos, de responsabilidade e respeito pelos outros, desde as situações mais comezinhas àquelas de maior significado, e que nos deixam boquiabertos. Ninguém tem mão nisto!

Não se trata de saudosismo. Nada disso, por várias razões e mais uma: é que o meu tempo foi uma trampa. Nasci no final da última grande guerra. Tempos difíceis com um pavoroso Estado Novo de permeio. Muitos sobreviveram no quadro do pão que o diabo amassou! Apesar da vergonhosa guerra colonial que me impuseram, tive sorte e ganhei, com muito esforço, o meu espaço, mas isso, sem olhar para o passado, não me impede de ver o que por aí vai, na comparação entre os dias de ontem e os de hoje.
Ultrapassadas as dificuldades, estamos a passar por tempos de desconfiança absoluta, que nos leva, permitam-me, a "um olho no burro e outro no cigano"; tempos de mentira dita com um fácies de seriedade convincente; tempos de gente aureolada de exemplares senhores, alguns até banqueiros, que roubam à descarada; tempos de muitos comentadores de treta, vazios, superficiais, porque não fazem um esforço de estudo compaginado; tempos de inculturas e iliteracias diversas; tempos de atropelo à dignidade de quem trabalha e de desamor pelos outros; tempos de gente que se "vende aos bocados", como escreveu Sttau Monteiro, "(...) a prestações, dia a dia. Muitos, ao fim dum tempo, já nem sabem que estão a vender-se: atingem uma posição que os obriga a defender interesses contrários a tudo o que sempre sustentaram, e são comprados por essa posição (...)"; tempos de uma desenfreada corrupção, subtil ou descarada; tempos de subordinação a directórios vários, que coarctam a liberdade, a autonomia e ordenam segundo os seus interesses; tempos de habilidosos oportunistas que se instalam pela via partidária e progridem por ínvios caminhos, espezinhando e afastando quem, eventualmente, possa fazer sombra; tempos que, por mais que dela se fale, não desejam a mudança, porque ela própria não interessa aos poderes instituídos; tempos de reguladores que nada regulam; tempos de bastidores maquiavélicos e ardilosos da escala local à global, onde pensar é quase proibido; tempos de multiplicação de fortunas que desequilibram e provocam dramáticas assimetrias; tempos de esgotamento individual e de medo, consequência dos novos senhorios ditatoriais que impõem uma doce escravatura, bem vestida, que desgraçam seres humanos indefesos; tempos de gente que fabrica a guerra, porque é sensível ao cheiro do petróleo; gente que "mata" quem divulga ou prende quem denuncia escândalos. Justificam,  hipocritamente, porque estamos em um "Estado de Direito Democrático".
Ao correr do pensamento, onde tanto fica por acrescentar, sinto que a desilusão, a frustração e a perda de alegria crescem e ninguém tem mão nisto. O que fazer? Li que "a desilusão é a visita da verdade". É capaz de ser.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Zozi, a Miss Universo que questiona e redefine a beleza


Ricardo Vita, 
in Público, 
20/12/2019

“Cresci num mundo onde uma mulher que se parece comigo, que tem a cor da minha pele e o meu cabelo, nunca foi considerada bonita, e acho que chegou a hora de acabar com isso, hoje. Quero que as crianças olhem para mim e vejam o meu rosto, e quero que vejam os seus rostos reflectidos no meu.”

Foi com essas palavras retumbantes, mas serenas, que o mundo inteiro descobriu surpreendido, no dia 8 de Dezembro, a Miss Universo 2019; uma mulher negra, inspiradora e sublime, em sintonia consigo mesma e com este século de afirmação de todas as diversidades. Lembrou-nos Nefertiti, a poderosa rainha egípcia negra de lendária beleza. Tem 26 anos e vem da terra de Mandela, África do Sul. Chama-se Zozibini Tunzi, uma genuína deusa da beleza do novo paradigma e do futuro.
É Zozi, para os amigos que, como ela, entendem a importância dos imaginários, da iconografia e as modalidades das suas construções. É a quinta mulher negra a ser coroada Miss Universo, mais é a primeira a reivindicar em voz alta a sua intenção de mudar mentalidades — para defender a beleza e a mulher — destacando a cor da sua pele e o seu cabelo crespo como triunfos intrínsecos. Pois, Zozi entendeu que a sua coroa já havia sido comprada e paga. Tudo o que ela precisa fazer é usá-la. Sabe que a sua história não começou no século XV com a chegada dos europeus a África, mas foi com eles que murchou. Sabe disso.

O frescor de Zozi faz-nos pensar sobre a beleza. Quem a define e como? E essa definição, a quem beneficia e a quem prejudica? Basicamente, como é que escolhemos entre o belo e o feio nas nossas sociedades? Pois, se a beleza é inevitavelmente uma construção cultural, então como podemos desconstruí-la, quebrá-la quando a definição não nos corresponde? Em 2011, critiquei, num artigo publicado no diário francês Libération, a uniformidade que reinava no universo da alta-costura.

Quis mostrar como designers como Karl Lagerfeld impuseram um modelo de beleza que excluía quase todas as mulheres não brancas. A mulher que ele sublimava era andrógina, magra, para não dizer anoréctica, sem formas ou curvas que subjugariam o olho imparcial posado sem concupiscência malsã na mulher não caucasiana, geralmente fora do padrão. Por exemplo, o olho parcial de Lagerfeld não podia apreciar a beleza e a escultura divina do corpo de várias mulheres negras. Era incapaz de ir além dos muros que cercavam a sua ilha. Com ele, graças à força de ataque que adquirira na Chanel, a digna alta-costura, a de Paco Rabanne, Yves Saint Laurent e Jean-Paul Gaultier ou John Galliano, havia deixado de rimar com diversidade.
Lagerfeld reinou como um absolutista neste mundo durante décadas, ditava a chuva e o bom tempo. Mas, com os outros, a haute couture era mais bonita e temos boas lembranças disso. Azzedine Alaïa lançou e defendeu com unhas e dentes Naomi Campbell; Saint Laurent fez o mesmo com Mounia, Iman Bowie e Katoucha; e Alek Wek foi várias vezes a “noiva” nos desfiles de Christian Lacroix.
No entanto, havia, e ainda há, uma constante. Fora de Alek Wek, na pele, impuseram-nos modelos negros — tanto mulheres como homens — com pele clara e feições finas. Essa segregação persiste em praticamente todos os lugares, como no mundo da música. No ano passado, numa entrevista sincera, Mathew Knowles, pai e ex-manager de Beyoncé, reconheceu, e insistiu, que a sua filha não teria o sucesso nem a carreira a solo que tem se não tivesse pele clara. “Se fizermos uma retrospectiva, sobre Whitney Houston, por exemplo, analisando as suas fotografias, veremos como elas foram trabalhadas para a tornar mais clara de pele! Há uma percepção, um colorismo, quanto mais clara for a pele, mais inteligente e rico parecemos. Portanto, existe uma percepção da cor em todo o mundo, mesmo entre os negros”, afirmou. Esse fenómeno, “selectivo e imposto”, continua até hoje. Winnie Harlow, uma linda modelo negra canadiana, vítima de vitiligo, é usada, positivamente, pelas marcas Desigual e Diesel; e Ashley Graham, uma modelo branca com excesso de peso, também goza dos favores de marcas e revistas famosas.

Portanto, há pessoas que decidem o que é bonito e o impõem a todos. Quando isso é feito de maneira sã, como no espírito de Yves Saint Laurent — o espírito que une, que celebra a diversidade e a diferença —, é claro que devemos recebê-lo de braços abertos para o abraçar. Mas devemos recusar com força os Lagerfelds de ontem, hoje e amanhã, devemos combatê-los.

E sejamos como Zozi, ela sabe que a beleza do mundo foi construída contra os negros, desde que foram dominados. Ela sabe que é por isso que os negros se rejeitam hoje, que a história de submissão se tornou a razão da sua vergonha de existir, o auto-ódio. Mas o que Zozi sabe melhor é que ela vem de uma longa linhagem de nobreza; de monarcas cujos poderes e inteligência eram temidos por todos os povos da terra, de filósofos, sábios e poetas que treinaram a humanidade toda. Ela sabe disso, é o que justifica a sua dignidade reconfortante. Essa dignidade, que ouvimos na voz segura e vemos no seu cabelo natural, não se deve apenas à vitalidade e pujança de Winnie Mandela, mas também ao orgulho das Candaces, essas rainhas poderosas do reino matrilinear de Kush (ou Cuxe). Ela sabe que os seus antepassados construíram e governaram o Egipto da abundância e alta expansão.
Zozi sabe o preço da sua coroa, sabe que é sua, de pleno direito. Ela faz parte dessa geração consciente que não quer mais ser definida por outros; a sua é a geração do novo paradigma. É essa geração que está determinada a reabilitar todas as belezas ocultadas ou minoradas, e as belezas confiscadas há muito tempo por gurus oportunistas e dogmáticos da monocultura, aqueles que definem a beleza como bem entendem por seu único e insaciável desejo de continuar a dominar.
Alegremo-nos então hoje, pois, pela primeira vez na história, ao mesmo tempo, no momento em que escrevo estas linhas, a Miss Teen USA é negra, a Miss USA é negra, a Miss America é negra, a Miss Mundo é negra e até a Miss França é negra. Não é um favor que vem do white-saviorism, como alguns revisionistas sempre tentaram afirmar nessas circunstâncias, é a força de um movimento de base que está determinado a mudar o mundo. A maioria de jovens do mundo — brancos, amarelos, vermelhos, negros — quer criar um outro mundo, um lugar mais agradável para se viver na diversidade. E só espero que, no próximo ano, todos esses títulos sejam atribuídos a outras belezas diversas, das quais o mundo é abundante: asiáticas, orientais, ameríndias, brancas. Este é o ciclo normal da vida humana, que devemos plenamente libertar das intenções vis dos supremacistas e segregacionistas.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A FOME DE ERISÍCTON

LILIANA RODRIGUES
Professora Universitária/Investigadora
Opinião no JM - 25/08/2019 

Imagine uma árvore gigante, no meio de um bosque deslumbrante, onde as ninfas da floresta, as Dríades, procuravam a sombra para dançarem. Cada Dríade nascia ligada e era emanada de uma determinada árvore. Ali vivia, junto a ela. Quando a sua árvore era cortada ou morta, a ninfa também morria. Então, os deuses puniam quem as destruía. 


Foi o que aconteceu com Erisícton, Rei da Tessália. Este desafiou Deméter, deusa das colheitas, protectora dos agricultores e do bosque, que amava com todas as suas forças a árvore das árvores – um carvalho gigante. O rei decidiu usar essa árvore para fazer o soalho do seu palácio. De machados em punho, os serviçais obedientes começaram a golpear o carvalho, que carpia de dor e escorria sofrimento do seu tronco. Ali por perto, ouviam-se as vozes da indignação. A deusa protectora da floresta exigiu ao rei que desistisse de abater o colossal carvalho. Mas Erisícton, como todos os que pensam que são reis não o sendo, só se ouvia a si mesmo e os seus propósitos seriam atingidos sem que o esmagamento de terceiros lhe doesse na consciência. O seu desprezo pelos vivos e pelo sagrado, o não se curvar nem a deuses nem a homens, mostravam bem o seu carácter violento e ímpio. Tinha em si que a sua riqueza poderia comprar os medos e os castigos. Voltou a ordenar aos servos que abatessem a árvore. Um deles atreveu-se a contrariar o rei evocando a profanação do carvalho sagrado e a ira dos deuses. Antes que acabasse a frase já tinha a cabeça cortada. Algo bastante comum no mundo da política, onde a discordância é a mais imperdoável heresia.

Erisícton pegou no machado e, ele próprio, cortou a árvore. As ninfas choravam por não terem conseguido impedir a morte daquela que lhes dava sombra e que era, por Deméter, velada. Derrubado e coberto de lacerações, do carvalho gigante irrompia sangue e ouvia-se uma voz a anunciar um castigo, intimado pelas ninfas das florestas. A punição seria cruel. 

Deméter enviou para o rei a Fome, conhecida por Éton, e ordenou que esta se instalasse no estômago do rei. Daí foi despertado um apetite insaciável que tudo devorava. O rei gastou toda a sua fortuna em comida, devorou os seus rebanhos e cavalos de corrida. Vendeu a própria filha como escrava para comprar mais e mais comida…
Não somos muito diferentes hoje em dia. Há reis que usam e abusam da imagem dos filhos para ter maior simpatia dos súbditos. A diferença é que as bocas destes reis se enchem da palavra “democracia”, que vai sendo mendigada, tal como Erisícton vagabundeava a pedir por alimento, nas ruas por onde passam. Outros deitam alcatrão nos lugares de poder da natureza. Outros ainda, limitam-se a queimá-la.
A magreza era visível a cada dia que passava e o rei Erisícton, entre a soberba de outrora e a loucura presente, arrancava os seus braços e devorava os seus próprios membros. Assim são alguns homens que devoram os seus e a si mesmos, até que o limite do poder redunde no seu próprio desaparecimento. Para trás, deixam um rasto de destruição e de cabeças cortadas pelo prazer da vaidade. “A vaidade tem horror a tudo o que desperta a lembrança da nossa indigência” (Aires, M.). Que obrigação terão estes servos de escolher homens assim?
No fim, os deuses castigam um homem só. Em todos os sentidos que a palavra solidão tem. A cegueira e a loucura já puniram verdadeiros e falsos reis. Mas a arrogância, o orgulho e a vingança engolem qualquer homem. O deserto só atravessa quem quer e a obediência tem o custo da fome. Uma fome que nos devora a alma.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

A Estrada das Ginjas – Parte I


Por
DN - Madeira 20 AGO 2019 

Fiquei verdadeiramente estupefcto, quando li no DN de 24 de Julho último, solenemente anunciado pelo Presidente do GR, que estão para breve os trabalhos de arranjo e reabertura ao trânsito rodoviário da Estrada das Ginjas. Pergunta-se para quê, com que objectivo? Mas antes, vamos a um pouco de história:

Estávamos no início da década de 1980, quando os Serviços Florestais da Madeira decidiram rasgar um acesso rodoviário, no Concelhio de S. Vicente, entre a localidade das Ginjas e a dos Estanquinhos no Paúl da Serra, passando pelo sítio do Caramujo. Nunca se entendeu muito bem qual a justificação de semelhante obra, uma vez que não serviria agregados populacionais ou agrícolas, nem tão pouco haveria necessidade de proceder a trabalhos de reflorestação ou de limpezas florestais, dado que a área em questão se encontrava coberta por densa floresta Laurissilva.
De qualquer modo, foram colocadas as máquinas no terreno, junto à Levada Grande ou Canal do Norte, no sítio das Ginjas, e iniciaram-se os trabalhos de desbravamento, subindo encosta fora aos ziguezagues. Os danos no coberto vegetal foram então inevitáveis e bastante notórios, principalmente na zona quase plana do Caramujo.
Por essa altura, tinha iniciado havia pouco tempo, a minha actividade profissional, tendo sido colocado na Circunscrição Florestal do Funchal. Integrava aí a equipa de trabalho que procedia no terreno, ao reconhecimento e delimitação do que viria a ser o Parque Natural da Madeira. Recordo-me de o meu Director, a dada altura, me ter pedido para acompanhar os trabalhos de abertura da estrada, ao que solicitei escusa a essa tarefa, pelo facto de não concordar em absoluto com tal obra, alegando as razões que me pareceram então óbvias, e que ainda hoje se mantêm perfeitamente actuais.

Os trabalhos prosseguiram, e ao fim de uns longos meses, as máquinas atingiram finalmente o sítio dos Estanquinhos, no bordo Nordeste do planalto do Paúl da Serra, vencendo um desnível de 600 m. Para trás ficou um rasto de destruição significativo ao longo de 10 Km, numa zona até então praticamente intocada, e com pouca ou nenhuma pressão humana.

Dizia-se então que a estrada agora aberta, constituiria uma alternativa rodoviária à Estrada Regional, assegurando assim o não isolamento da Vila de S. Vicente, servindo como escapatória para o Sul da Ilha. A estrada de terra batida, rapidamente começou a sofrer as consequências erosivas dos rigores dos invernos nortenhos, e as chuvas que por vezes lá caem abundantemente, tornaram-na dificilmente transitável, mesmo por viaturas todo-o-terreno. Pouca ou nenhuma utilidade teve aquela estrada ao longo dos anos. Deixada a um relativo abandono, a generosa floresta indígena foi gradualmente regenerando, numa tentativa de cicatrizar a extensa ferida que lhe causaram.
Entretanto, no ano de 1982 é criado oficialmente o Parque Natural da Madeira, o que foi o grande instrumento de ordenamento e gestão do património natural da Ilha, ficando a área em questão classificada como “Reserva Natural” e “Reserva Geológica e de Vegetação de Altitude”, respectivamente.
Com tal notícia, veio também a saber-se que nos trabalhos vão ser utilizados dinheiros comunitários do PRODERAM, e que a estrada terá um “pavimento especial não impermeabilizado”. Gostaria que me esclarecessem como é que num acesso compactado pela circulação automóvel, apresentando um declive como aquele, se garante a infiltração no solo das águas pluviais?!
Não nos tomem por tolos com falácias deste género, e assumam humildemente de uma vez por todas que esta estrada é absolutamente desnecessária!....
O mais incrível e inaceitável de tudo isto, é o facto de a entidade que deveria promover e zelar pela protecção efectiva da Laurissilva - o GR, seja ela própria a tomar a iniciativa de a depreciar em grande escala, pomposamente anunciada no município que se intitula e se assume como Capital da Laurissilva!...Quando se assiste ao fenómeno imparável e impiedoso das alterações climáticas, e à crescente escassez de água, deveria prevalecer o bom senso e a competência, para se acautelar com o maior rigor possível a salvaguarda da nossa Laurissilva, considerando-a como se de um Santuário se tratasse.
E por hoje aqui me fico...