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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

A ruralização da política


E aqui vamos. A agressividade gratuita continua, esquecendo-se os seus mentores que esse foi um chão que deu votos, por comodismo de uns e medo por parte de outros. Creio que uma larga maioria já não aprecia expressões do tipo: "Eles deveriam ser presos" (...) "Foi dar trabalho a um palerma" (...) Não queremos jovens com perguntas ou dúvidas" (...) Que o vento leve as almas que atrapalham" (...) O Funchal não precisa de vocês" (...) "Um bando de impreparados" (...) "Talibães da incompetência" (...) "Calar a voz do governo é um desrespeito à democracia, à Autonomia, à Madeira e a sua cidade"... quando se esquecem que, até 2013, nenhum partido tinha voz no Dia da Cidade!



Um dia, já tem muitos anos, uma Senhora de idade avançada, sentada à porta de casa, na zona mais alta do Funchal, após eu "vender o meu peixe eleitoral", olhou-me nos olhos e disse: "nunca diga mal dos outros". Certamente que com estas ou outras palavras tantos políticos ou sabem ou já ouviram posições semelhantes às daquela munícipe. Se eu já tinha como princípio orientador aquele pressuposto, depois de escutar a voz da razão, mais certo fiquei do que é viver em uma Democracia adulta, respeitadora dos outros, onde todos os posicionamentos devem ser considerados. Numa sociedade decente não existem uns e outros; os bons e os maus; os inteligentes e os pouco dotados. Existem, sim, pessoas, com direitos, deveres e opiniões. E a Democracia é exactamente isso, a capacidade de saber confrontar sem entrar no domínio da indecência. Até no domínio das propostas os candidatos devem medir as palavras, ou pela impossibilidade da sua concretização ou porque elas se voltam contra si próprios. Deixo o confronto verbal menor para centrar-me nas propostas.

Sobre os cursos técnicos superiores li o que disse o candidato Dr. Pedro Calado: "(...) São cursos de dois anos. Há uma grande lacuna nesse área. Há muitos jovens a procurarem as áreas técnicas com alguma especialização de ensino profissionalizante e a nível superior que, neste momento, não têm qualquer financiamento, nem atribuição de bolsas de estudo. Será um compromisso nosso e é uma das áreas que queremos muito investir". Não quero comentar alguns lapsos conceptuais (e confusos) que esta declaração contém, mas comento dois aspectos: primeiro, a responsabilidade da política educativa não pertence às autarquias; segundo, da declaração depreende-se que o Dr. Calado, candidato à presidência da Câmara Municipal do Funchal, está contra o Dr. Calado que até há poucos dias foi vice-presidente do governo da Região com a pasta das Finanças. E está contra o secretário regional da Educação que nunca propôs bolsas de estudo com tal finalidade.

É evidente que todos percebemos que o tempo é de feira das promessas. Vive-se, diariamente, um "quem dá mais" no sentido de, por faixas etárias, tentar a conquista do voto. Só que há princípios que não deveriam ser pervertidos, porque existem responsabilidades atribuídas aos governos e às autarquias, daí que considere muito pouco sensato confundir as obrigações de uns e de outros. Se as autarquias garantirem as responsabilidades que lhes incumbe no âmbito dos estabelecimentos de aprendizagem do 1º ciclo, enfim, já é muito bom. O pior é que, tendencialmente, enveredaram pelos manuais escolares e já vão na atribuição de bolsas de estudo. Só o Dr. Calado, julgo eu, deve saber que protocolos fará com o governo no sentido de ter um gigantesco saco de notas para pagar todas as promessas. 

O que os munícipes esperam da autarquia do Funchal é muito trabalho nos sectores, áreas e domínios fundamentais para o desenvolvimento e bem-estar dos cidadãos (tanto que há a dizer sobre isto!), o que implica um sentido de missão muitas vezes protocolarizado com o governo regional (a Região é tão pequena!) em total respeito pelas opções político-partidárias dos cidadãos, jamais de pessoas que chumbam orçamentos "por dá cá aquela palha", que cortam financiamentos, criticam e rebaixam malevolamente os outros, quando os próprios apresentam um currículo pouco abonatório. Fazer oposição exige profundo conhecimento das matérias, bom-senso, sentido de oportunidade e elevação discursiva. Tudo o resto é paleio.

Julgo que é tempo de trazer para a política, por um lado, a sensatez e o respeito pelos eleitores, por outro, a negação da agressividade como testemunham as frases com as quais iniciei este texto.

Ilustração: Google Imagens.

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