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sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

A morte "cerebral" da democracia

 

Podem acusar-se uns aos outros, explorando as respectivas debilidades. Faz parte do jogo democrático, das oportunidades e convicções. Porém, quando todos estão contra um, e o isolado, nessa arte do diálogo, não consegue visualizar as causas e escolhe ser vítima perante o coro de desconfiança, dá a entender que a montra é equivalente ao estado deplorável que se encontra o armazém. A manutenção desta persistência torna-se motivo para muitas perguntas.



A história é longa, tem outras importantes personagens, e não me cabe aqui descrevê-la. Mas, os sinais mais evidentes que alicerçam o estado de desencanto, dizem-se em meia dúzia de linhas. 

Pouco me diz a espuma produzida nas várias sedes do debate político. Sei-a de cor e mudo de canal. As causas, essas sim, quando se as buscam, esclarecem, quase completamente, a ausência de rumo, as cumplicidades, os tentáculos e ventosas do polvo ou as muitas maneiras de cozinhar lapas. Estas deviam ser o mote da investigação jornalística e não só, o quadro que os políticos e os analistas deviam pesquisar, analisar e difundir enquanto elementos de reflexão. Simplesmente, porque são os eventuais e duvidosos erros de processo que se tornam susceptíveis de esclarecer, pressupostamente, condenar e, nesse âmbito, reorientar a sociedade. 

Nada resolve andar atrás de paleios e dos casos do dia que, hoje, já nem se vendem, tal a repetição, por vezes histérica, com que acontecem. Deviam interessar as causas, as razões que trouxeram a sociedade até aqui, independentemente do crescimento das toneladas de cimento ou aquisição de veículos. Interessa, sobretudo, conhecer os jogos de bastidores; as caras escondidas e o bas-fond; os benefícios que resultam de uma crónica forma interdependente de governar; a disseminação do discurso, articulado e expandido ao território, que amarra e subjuga o livre exercício da democracia; as várias e preocupantes iliteracias que aprisionam; os almoços e jantares grátis, bem como todo o tipo de festas que trazem qualquer coisa na ponta do convite; a multiplicação e porquês de serviços e de instituições desnecessárias e que se atropelam; os camuflados e muito bem engendrados compadrios tendentes à formação de monopólios que, na prática, parecem que não o são; os formatos muito inteligentes de perseguição, exclusão, olhares enviesados e subtil anulação de cidadãos que pensam a coisa pública; as razões mais substantivas que conduzem à formação de riquezas mal explicadas; a utilização descarada dos meios públicos para a promoção de um grupo, enfim, importante seria perceber a teia e tomar consciência das razões de um significativo alheamento e captura da sociedade, por medo ou qualquer outra razão. Portanto, o que está em causa não é o orçamento ou uma moção de censura. O problema é outro, muito mais complexo.

Falta isso, o meticuloso estudo das causas e fazer a pedagogia sobre a história do processo que conduziu a esta rua estreitíssima, onde os que "chefiam" perderam o crédito, não são geradores de confiança, e os que se apresentam constituem, grosso modo, o espelho do vazio intencionalmente criado. 

Gostaria que a sociedade fosse outra, livre, culta no sentido da produção de saberes e sínteses do que se passa em seu redor; que fosse pouco ou mesmo nada dependente; sem qualquer medo e pronta a colocar no seu devido lugar os que se vendem a consciência ou se vestem de cordeiro. Não é isso que acontece, infelizmente, também porque a escola não foi libertadora, antes condicionadora do pensamento. Ela foi mais programática e de exclusão do que de formação de pessoas formadas na ciência, na ética e na razão. Não ajudou na formação de pessoas de pensamento livre!

Por outro lado e consequentemente, faltam-nos referências, respeito, rigor, disciplina conquistada pela compreensão, regras, profissionalismo (muito) e liberdade de pensamento. É sensível a incapacidade para o inconformismo, de não ter receios, de ser quem se é, inteiros, abertos ao mundo, sem autocensura e críticos de tudo o que se passa debaixo dos nossos olhos de actores-observadores. No essencial, não ser escravo de outrem, não subjugados a tutelas esclerosadas, incultas e manifestamente interessadas na sua sobrevivência. Durante anos, lembram-se(?), metralharam-nos com aquela de sermos "um povo superior". Tempos que fomos "ricos" embora com uma legião de pobres.

Como sair disto? É uma pergunta complexa, eu sei. Eu diria que estamos perante a "Curva Sigmóide" de Charles Handy: todas as organizações têm uma fase de implantação, outra de crescimento a que se segue uma terceira de maturação, normalmente geradora de turbulência. Dir-se-á que, no caso evidente na Região da Madeira, a organização liderante demonstra esgotamento. Aliás, já há muitos anos que atingiu esse ponto, isto é, não consegue dar resposta às necessidades das populações e, por isso, entrou em acelerado declínio. É público e notório que isso está a acontecer.

Handy diz-nos que só existe uma saída possível na fase de maturação: sendo certo que o novo não nasce do velho, importa, então, desenhar uma nova curva sigmóide, que se implante e, rapidamente, faça uma qualquer organização crescer a caminho de uma nova fase de maturação. Conseguir fazê-la, com segurança, criatividade, assertividade e responsabilidade, é o problema que está nas mãos da população. 

"(...) Aliás, o que a Região precisa não é de uma correcção marginal, antes necessita de mudanças profundas, sensatas, escalonadas no tempo, através de novas políticas que só outros políticos o poderão fazer com eficácia. Maquilhar não chega, pois retirando a máscara fica a realidade. A história dos processos políticos diz-nos que não são possíveis mudanças através do mesmo quadro ideológico, fundamentalmente porque as pessoas seguem posicionamentos idênticos, ficam amarradas pela mentalidade, pelos interesses e pelas pressões. As mudanças operam-se sempre de fora para dentro, porque é aí que reside a inovação, a criatividade e o entusiasmo pela transformação". - Parte de um texto que escrevi em 30.01.2011. 

Ilustração: Google Imagens

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