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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

UM GOVERNO SEM VERGONHA NA CARA


É como se qualquer um entrasse num serviço de finanças públicas e dissesse ao chefe: só pago se me fizerem um desconto de 15%. Ou, então, nos diversos serviços das escolas públicas, desde as cantinas às reprografias, os pais exigissem pagar menos 15%. Ou, então, nos hospitais, as taxas moderadoras e outros serviços prestados aos utentes tivessem um desconto de 15%. E por aí fora! Isto é, o secretário da Educação, de braço dado com o secretário das Finanças, quando se trata dos cidadãos a pagar, é a eito e de acordo com a lei, mas quando se trata de cumprir os protocolos acordados e assinados, façam lá 15% de desconto se não preguem a dívida no tecto! É o descaramento total, a falta de vergonha e a ausência de rigor e de responsabilidade nos compromissos assumidos. Nem se sentam à mesa para recalendarizar os pagamentos em atraso, o que seria natural, para além de não cumprirem prazos impõem reduções sobre consumos e investimentos já realizados pelo associativismo. Pergunto: e os dirigentes desportivos como é que ficam? Muitos deles que avançaram com as suas contribuições na expectativa de receberem quando o governo pagasse os protocolos assumidos! Mas, enfim, são estas as características de um governo que não se comporta como entidade de bem, mais parecendo um bando de malfeitores em quem não se pode acreditar. Na República é assim, na Região Autónoma também. O governo não vai ao "saco do dinheiro" e impõe, por exemplo, uma redução de 15% nas despesas do Jornal da Madeira, mais vai ao associativismo e porta-se como delinquente político. Aplicam, agora, a palavra "recalibrar" a estratégia dos pagamentos, para mim vejo, apenas, o "calibre" desta gente que governa.


A minha posição sobre matéria de financiamento público ao desporto está assumida desde os primórdios dos anos 80. Mais recentemente, sob a forma de proposta de Decreto Legislativo Regional (em 2007 e 2010), apresentei um vasto documento que colocava ordem no evidente desnorte. Documentos que contaram com uma larguíssima colaboração de representantes de várias áreas e que o grupo parlamentar do PSD-M chumbou quase sem discussão política. Os erros pagam-se a prazo e agora, como vulgarmente se diz, andam aos papéis, não sabendo como livrar-se do peso do monstro que geraram. Só um pormenor: em 2007 e 2010, nessas propostas de diploma, foi defendida a alienação das participações no capital social das sociedades anónimas desportivas (SAD's), concedendo três anos para uma adaptação a um novo regime, curiosamente, é o governo que seis anos depois de ter chumbado a proposta de 2007, deseja a concretização dessa alienação. Espantoso.
Portanto, uma coisa é o regime jurídico que deve nortear o apoio ao sistema desportivo, outra é não ter vergonha na cara quando assumem compromissos que sabem não os poder liquidar. O problema reside aqui e nesse aspecto, enquanto cidadão, não me conformo. Qualquer pessoa sente a necessidade de olhar para as instituições como referências de seriedade, nunca como bandos face aos quais temos de estar de pé atrás. Descontos de 15%, 10% ou de 5%, seja lá que percentagem for, coloca em evidência que estamos entregues a políticos que não merecem a mínima confiança. Há que pô-los a léguas! Rapidamente. Chega.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

"É MELHOR FECHAR TUDO" - DISSE O EX-DEPUTADO!


Ora bem, dizer o que disse o ex-deputado, equivale assumir a derrota da política desportiva implementada por este governo e passar um atestado de incompetência ao Secretário da Educação e também ao Secretário das Finanças. Porque as perguntas simples de fazer são estas: se não têm dinheiro para pagar as deslocações desde Setembro de 2011, em que pressupostos assenta a manutenção do compromisso entre o governo e os clubes? Como podem responsabilizar-se por pagamentos quando é certo e sabido que não há dinheiro? Então, não seria mais sensato e responsável, (re)definir uma nova orientação que, pesadas todas as variáveis e acautelados alguns aspectos, passa, inevitavelmente, pela ruptura do actual quadro? Uma ruptura dramática, é certo, mas necessária, porque os tempos que vivemos não estão para futebóis. "A coisa aqui tá preta" como cantou Chico Buarque.

Ainda ontem aqui escrevi sobre as questões relacionadas com o financiamento da actividade do movimento associativo. Hoje, no DN-Madeira, um ex-deputado do PSD-M, Dr. Rui Gouveia, presidente do Ribeira Brava, assumiu estar "farto e cansado" e que decidiu "participar na II Divisão porque acreditámos na palavra das pessoas que nos disseram que não precisávamos de nos preocupar com as viagens. Estes meses todos depois, não me preocupo com mais nada. Não nos pagam as viagens desde de Setembro de 2011. Já nem sei como vou pagar as últimas duas viagens deste mês e tenho mais uma daqui a uma semana" (...) "ainda na terça-feira falei com a Direcção Regional de Juventude e Desporto, expliquei a minha situação e apenas me disseram para aguardar(...)". 
Aí está, ainda não perceberam que não há dinheiro e que o actual quadro de falência e de carências em todos os sectores, não permite mais leviandades e mais pontapés para a frente! Só lamento é que o ex-deputado tenha votado na Assembleia contra todas as propostas no sentido da correcção destes processos e agora assuma que é "melhor fechar tudo". O tempo é, de facto, um grande mestre, não é verdade? 
Ora bem, dizer o que disse o ex-deputado, equivale assumir a derrota da política desportiva implementada por este governo e passar um atestado de incompetência ao Secretário da Educação e também ao Secretário das Finanças. Porque as perguntas simples de fazer são estas: se não têm dinheiro para pagar as deslocações desde Setembro de 2011, em que pressupostos assenta a manutenção do compromisso entre o governo e os clubes? Como podem responsabilizar-se por pagamentos quando é certo e sabido que não há dinheiro? Então, não seria mais sensato e responsável, (re)definir uma nova orientação que, pesadas todas as variáveis e acautelados alguns aspectos, passa, inevitavelmente, pela ruptura do actual quadro? Uma ruptura dramática, é certo, mas necessária, porque os tempos que vivemos não estão para futebóis. "A coisa aqui tá preta" como cantou Chico Buarque: 
"(...)
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
(...)"
Convinha que o governo e os deputados do PSD-M cantarolassem Chico Buarque e caíssem na realidade. Se o ex-deputado está farto e cansado, imagine todos aqueles que desde o século passado andam a dizer que seria uma questão de tempo e que a falência surgiria!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

AINDA NÃO PERCEBERAM QUE NÃO HÁ DINHEIRO!


Na sequência desta novela, onde o governo anda com as calças na mão e os clubes com o credo na boca, o grupo parlamentar do PSD-M, insiste no erro, ao apresentar na Assembleia, com discussão lá para o dia 06 de Fevereiro, de um documento a remeter ao Tribunal Constitucional sobre a Portaria Nacional que, no essencial, coloca o governo da República fora da responsabilidade pelo pagamento das deslocações dos atletas madeirenses às provas nacionais. E insiste no erro, por dois motivos essenciais: primeiro, já aqui o disse, a Região recebe cerca de 200 milhões anuais no âmbito dos custos de insularidade. Penso que é desse bolo que a Região terá de retirar a fatia necessária ao financiamento das ligações aéreas. Independentemente deste aspecto, repito, o que está em causa é uma nova arquitectura do sistema desportivo. No fundo, a redefinição e articulada compaginação do sistema educativo com o sistema desportivo. E sobre esta matéria há muito texto publicado e inúmeras propostas que jazem nos arquivos da Assembleia, todas com o selo de chumbo por parte do PSD-M.


Às voltas com um problema no meu computador, cruzei-me ontem com o meu Amigo Maurílio Caires (MCI - computadores) com quem mantive um diálogo, de resto, sempre interessante. A páginas tantas, perguntei-lhe: então, como vai o seu Cruzado Canicence? Resposta pronta: está lá. E mais adiante... "sabe, as pessoas ainda não perceberam que não há dinheiro". Em concreto, não se referia aos associados do seu clube, mas à situação do desporto regional e particularmente do futebol, envolvido que anda em situações de dívidas acumuladas, de contratos-programa assumidos e não liquidados, de incapacidade para suportar encargos, simplesmente porque a torneira do financiamento funciona a conta-gotas. Quando funciona! E apesar dessa situação pública e notória, razão tem Maurílio Caires quando sublinha aquilo que me disse, que há pessoas que ainda não perceberam que não há dinheiro. Trata-se de uma posição esclarecida, ele que é empresário, que certamente conhece a angústia de ser empresário, de um mercado que não funciona ou funciona com muitas dificuldades, que domina os números do desemprego, que sabe o que é pagar salários, a segurança social, o IVA e por aí fora, com facturas pregadas no tecto por dificuldades na cobrança, ele que domina tudo isso, é evidente que acaba por ter uma leitura esclarecida das prioridades. Só que as pessoas não entendem ou fazem o possível por não conjugar todas as variáveis da situação, e daí insistirem numa situação que só pode conduzir ao agravamento da mesma.
Ora, quando por aí se fala da nova Portaria (regional) balizadora do financiamento público, há quem pense que o que está escrito será cumprido. Uma coisa é a Portaria outra é haver dinheiro para pagar. Tal como aconteceu com os contratos-programa. Assinaram-nos, mas simplesmente não pagam, porque não há dinheiro. Porque há outras prioridades muito mais importantes por solucionar do que a competição desportiva assente nos moldes que gerou este monstro financeiro que ninguém consegue domar. E o empresário Maurílio Caires viu, à distância, este problema, daí que tivesse, por duas vezes, prescindido que o seu clube acedesse às competições nacionais. Foi uma atitude inteligente, sublinho. Por isso tem moral para falar e, de certa forma, esta é a imagem que retenho, assumir que o "rei vai nu". 
Na sequência desta novela, onde o governo anda com as calças na mão e os clubes com o credo na boca, o grupo parlamentar do PSD-M, insiste no erro, ao apresentar na Assembleia, com discussão lá para o dia 06 de Fevereiro, de um documento a remeter ao Tribunal Constitucional sobre a Portaria Nacional que, no essencial, coloca o governo da República fora da responsabilidade pelo pagamento das deslocações dos atletas madeirenses às provas nacionais. E insiste no erro, por dois motivos essenciais: primeiro, já aqui o disse, a Região recebe cerca de 200 milhões anuais no âmbito dos custos de insularidade. Penso que é desse bolo que a Região terá de retirar a fatia necessária ao financiamento das ligações aéreas. Independentemente deste aspecto, repito, o que está em causa é uma nova arquitectura do sistema desportivo. No fundo, a redefinição e articulada compaginação do sistema educativo com o sistema desportivo. E sobre esta matéria há muito texto publicado e inúmeras propostas que jazem nos arquivos da Assembleia, todas com o selo de chumbo por parte do PSD-M.
A posição do PSD-M é, portanto, a de quem continua, tal como o presidente do governo afirmou, a querer empurrar os problemas com a barriga. Estou certo que a posição do Tribunal Constitucional será negativa, simplesmente porque a Madeira já dispõe de 200 milhões onde cabem tais encargos. Compete ao governo, das duas uma: ou retira uma fatiazinha para manter a loucura; ou redefine as bases de uma prática desportiva tendo em consideração que somos uma região assimétrica, pobre e dependente. Façam o favor de escolher.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

UMA QUESTÃO DE MEMÓRIA


Todavia, não há outra alternativa se não o do corte abrupto nas despesas não prioritárias. E o desporto, por mais que isso nos custe, não é um sector de actividade prioritário. Não é. Podem alguns enfeitar e justificar a importância da prática desportiva, mas só pode haver desporto quando outras necessidades básicas estão satisfeitas. O desporto, enquanto direito constitucional (Artigo 79º) não está primeiro que o combate à pobreza, às causas mais substantivas de 15.000 penhoras que a administração fiscal tem em mãos, não está primeiro que os factores geradores de emprego e não está primeiro do que o drama da fome que atinge milhares de madeirenses e portosantenses. Na situação de profunda crise regional na qual mergulhámos, onde não existe riqueza que pague a dívida contraída a todos os níveis, o desporto tem de assentar, prioritariamente, numa escola devidamente organizada, capaz de dar resposta a essa necessidade, e não numa prática que conduza a um aumento da despesa. 


Compreendo o desconforto de todos quantos trabalharam, de forma benévola, pela promoção da actividade desportiva, o desconforto de todos aqueles que assumiram compromissos nos seus clubes e associações, que assinaram documentos de grande responsabilidade e que  têm o seu nome na banca menos bem visto, que olham para o governo regional com olhos enviesados porque lhes deve entre quatro e seis anos de transferências financeiras por protocolos rubricados entre as partes e não cumpridos, compreendo o facto de existirem participações nacionais e internacionais, ao nível individual e de clubes que podem ser afectadas, compreendo que a situação criada, ou melhor, o monstro de responsabilidades financeiras geradas possa vir a condicionar o acesso à prática desportiva de muitos jovens, isto é, qualquer pessoa fica, obviamente, perante os dados, angustiada com o rol de preocupações e de incertezas que por aí vão. Todavia, não há outra alternativa se não o do corte abrupto nas despesas não prioritárias. E o desporto, por mais que isso nos custe, não é um sector de actividade prioritário. Não é. Podem alguns enfeitar e justificar a importância da prática desportiva, mas só pode haver desporto quando outras necessidades básicas estão satisfeitas. O desporto, enquanto direito constitucional (Artigo 79º) não está primeiro que o combate à pobreza, às causas mais substantivas de 15.000 penhoras que a administração fiscal tem em mãos, não está primeiro que os factores geradores de emprego e não está primeiro do que o drama da fome que atinge milhares de madeirenses e portosantenses. Na situação de profunda crise regional na qual mergulhámos, onde não existe riqueza que pague a dívida contraída a todos os níveis, o desporto tem de assentar, prioritariamente, numa escola devidamente organizada, capaz de dar resposta a essa necessidade, e não numa prática que conduza a um aumento da despesa. 
Sou sensível ao desconforto das instituições e, por isso mesmo, o melhor que o governo poderia fazer era pagar as transferências financeiras acordadas e que se encontram em atraso, através de um compromisso calendarizado, ao mesmo tempo que deveria definir um novo paradigma para o futuro. Insistir na mesma tecla corresponde a uma grosseira mentira e até mesmo fraude, quando sabe que não vai poder cumprir aquilo que contratualizará com o associativismo. Os treze milhões que constam no orçamento regional, mesmo que consubstanciem um significativo corte, é mais uma insustentável aldrabice política. Aliás, este não é assunto novo e para que não se dê um apagão na memória, relembro que este assunto vêm desde os finais dos anos 70 e primórdios dos anos 80. A situação que hoje se vive foi prevista, equacionada e apontados os caminhos que conduziriam à estabilidade do movimento associativo. Inclusive, foram propostos diplomas em sede de Assembleia Legislativa da Madeira, um dos quais o que estabelecia as "Bases da Actividade Física, do Desporto Educativo Escolar, do Desporto Federado e aprovava o Regime Jurídico de atribuição de comparticipações financeiras ao associativismo desportivo na Região Autónoma da Madeira". Sem a pretensão de dizer que lá está tudo, no mínimo, está a proposta de um caminho diferente, mais seguro e sustentável. E o PSD-Madeira tudo chumbou, nem um esforço mínimo de debate sério quis fazer, como sempre, teimosamente, arengou nas suas teses ao jeito de "prà frente sempre" e, portanto, hoje, está confrontado com a mentira que criou.
E agora vem com a treta da continuidade territorial, com o pagamento das ligações aéreas entre a região e o continente, mas esquece-se de dizer que, anualmente, recebe cerca de duzentos milhões de euros no âmbito dos custos de insularidade. Duzentos milhões de euros que deles faz o que quer e entende, o que não pode é querer mexer ou sacar de dois sacos! Os governos anteriores não foram na história e este que envolve uma coligação PSD/CDS também não vai. Da mesma forma que cerca de um milhão de euros, provenientes dos jogos da Santa Casa, destinados, por legislação, ao desporto escolar, ao que julgo saber foram metidos no mesmo bolo orçamental, o que pode significar que o desporto escolar continuará a ser o parente pobre, digo eu, paupérrimo, de toda esta política desportiva sem norte. 
Ora, quando digo que existem outras prioridades que não as do desporto, não me enclausuro na defesa que são os treze milhões que solucionariam o monstro dos encargos regionais que estão por liquidar. Juntam-se a esses, os milhões do Jornal da Madeira, os milhões dos templos da Igreja Católica, os milhões desperdiçados em tantas obras megalómanas, injustificáveis e insustentáveis, onde o desporto constitui apenas uma parcela muito pequena da loucura política. Portanto, não é correto que se isole o desporto de tudo o resto. Umas despesas são mais visíveis do que outras, mas os tempos que temos pela frente sendo de grandes dificuldades ao nível empresarial, do emprego, da liquidação dos seis mil milhões de dívidas, de combate à pobreza e fome, implicam um drástico reajustamento e uma definição muito clara na assumpção das prioridades. Se assim não for, o governo continuará a mentir, a aldrabar e conduzir a Região para muitos anos de perda quase total da sua Autonomia.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ASSOCIATIVISMO JUVENIL ESCOLAR E A INTENCIONAL DISTRAÇÃO DOS ADULTOS


Aos problemas de gestão e administração da escola, os de natureza burocrática e os de natureza pedagógica, juntar os da organização dos jovens, passou a constituir não uma oportunidade para educar mas uma ameaça. Esta constitui uma outra perversão do sistema educativo que não tem sabido potenciar a força interna da escola, que está nos jovens, para neutralizar as fraquezas da própria escola.


As associações de estudantes são de extrema importância. A vivência e a aprendizagem ao nível do trabalho associativo em equipa, a dinâmica organizativa, gestora e administrativa, a mobilização dos estudantes na dinamização de campanhas pelos hábitos culturais onde se integra, também, o desporto, constituem aspectos que têm sido descurados. Olho para o actual quadro e pela experiência de muitos anos de ensino, constato que existe um enorme peso institucional que tudo quer controlar, não deixando espaço para a experiência, criatividade e inovação. Tudo ou quase tudo aparece organizado pelos adultos, o que leva a que a oferta não seja construída com a participação dos estudantes. A oferta nasce verticalmente, como produto acabado.
Ora, isto gera o desinteresse e o abandono. É sintomático que não existe uma cultura no sentido da integração e da participação voluntárias, onde os professores surjam, por um lado, como catalizadores das iniciativas e, por outro, como agentes de supervisão em função da sua experiência de vida. Dir-se-á que falta uma atitude cultural de confiança, pelo que subsiste a ideia que os jovens não são capazes e, até certo ponto, irresponsáveis para tomarem nas suas mãos o poder de iniciativa.
É evidente que esta mentalidade mata o sentido de participação, quando um dos princípios do desenvolvimento é precisamente o da participação: ou as pessoas participam ou os processos morrem. Este quadro tende a agravar-se, desde logo, por duas razões essenciais: primeiro, devido a uma cultura centralizadora do poder instituído que gosta de saber quem lidera e a que força política pertence. Começa aí a castração da capacidade de intervenção livre. É a divisão da escola entre bons e maus, entre os da cor dominante e os outros; segundo, em consequência, porque se torna mais fácil controlar as iniciativas quando as rédeas se encontram nas mãos do poder institucional.
Trata-se de uma cultura muito idêntica à do Estado Novo. Nos anos 30 do século passado, recordo, a título de mero exemplo, a designada, por Lei, “mania do desporto”, fez com que surgisse a FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho), hoje INATEL, precisamente com esse espírito, isto é, já que não posso impedir a iniciativa, controlo-a. Relativamente ao associativismo juvenil, escolar ou não, a leitura política é muito semelhante, pois o poder hegemónico sempre teve a tendência para um olhar felino sobre as organizações. Não é por acaso que, em tempos, alguém terá dito que o objectivo era dispor de uma célula partidária em cada turma. Esta perspectiva constitui um monumental erro educativo, simplesmente porque se aprende fazendo, participando, não apenas como intérprete, mas como co-responsável da actividade. É daí que se consolidam as experiências que, mais tarde, acabam por ter efeitos positivos complementares da formação académica. O instrumento da participação tem um valor incalculável na vida porque há sempre um transfere para novas situações. Ao lado das competências adquiridas no plano curricular devem juntar-se outras competências que, tarde ou cedo, a vida profissional reclamará. A participação ajuda na descoberta e na formação de líderes, na capacidade de gestão dos recursos humanos e gestão e arbitragem de conflitos, no desempenho burocrático, na capacidade empreendedora, na dinamização e controlo da actividade. A participação não pode ficar por uma comissão “ad hoc” para uma viagem de final de curso ou, grosso modo, pela música no intervalo das aulas. As dinâmicas associativas devem assumir um papel de fulcral importância no processo educativo.

Há uma escola em Portugal, a Escola da Ponte, onde, sobre os valores matriciais do projecto educativo, se destaca: “Como cada ser humano é único e irrepetível, a experiência de escolarização e o trajecto de desenvolvimento de cada aluno são também únicos e irrepetíveis. O aluno, como ser em permanente desenvolvimento, deve ver valorizado na construção da sua identidade pessoal, assente nos valores de iniciativa, criatividade e responsabilidade”.
O próprio projecto educativo da escola deveria, desde modo, contar com a participação dos jovens, uma vez que a eles se dirige. É assim que é feito em sistemas educativos sérios e com resultados. Só que isso implica, também, estabelecimentos com menos alunos e docentes habilitados com uma formação adequada para estruturarem e potenciarem, desde o 1º ciclo, as dinâmicas de uma juventude com sentido democrático, participativa e integrada.
Só que, infelizmente, não podemos ignorar a coexistência de uma atitude de alguma desconfiança por parte das direcções executivas. Aos problemas de gestão e administração da escola, os de natureza burocrática e os de natureza pedagógica, juntar os da organização dos jovens, passou a constituir não uma oportunidade para educar mas uma ameaça. Esta constitui uma outra perversão do sistema educativo que não tem sabido potenciar a força interna da escola, que está nos jovens, para neutralizar as fraquezas da própria escola. O sistema tem andado distraído relativamente a esta matéria, todavia, creio, intencionalmente. Um exemplo: fala-se da indisciplina que grassa nas escolas. Pois bem, há estabelecimentos de ensino cujo regulamento interno, o enunciado dos direitos e deveres, é gerado a partir do debate dos próprios alunos e homologado em assembleia de escola. Todos sabemos que aquilo que nasce de nós próprios tendencialmente é cumprido. Aquilo que é imposto sem a participação tende a ser violado. Diz a sabedoria popular que “o proibido é o mais apetecido”. A vida ensinou-nos isso, então, porque raio, não trazer esse conhecimento para a escola? As pessoas estão a se esquecer que os compromissos fazem parte do processo educativo. Dir-se-á que dá mais trabalho. Talvez. Mas, a prazo, estou certo que os resultados são melhores.
Um pouco por tudo isto que fui escrevendo ao correr do pensamento, julgo que as escolas deveriam despertar os alunos para a existência do seu próprio clube. O clube com regime estatutário próprio, nascido dos estudantes e para os estudantes, dinamizador de toda a actividade cultural e desportiva. É ali que se ganha o conhecimento, as dinâmicas do trabalho, o sentido organizacional, a capacidade de planeamento, o sentido de responsabilidade e a estimulação da comunidade escolar em múltiplas áreas de intervenção.
Há textos publicados sobre esta matéria desde o final dos anos 70, mas até hoje são poucas as iniciativas que se consolidaram. E as existentes são incipientes. Escrevi vários a partir de leituras que fiz e das  experiências que interiorizei, experiências com sucesso lá fora realizadas. Não tem havido interesse porque o sentimento que existe é que o associativismo gera ruído no clássico sistema organizacional. O poder prefere construir e oferecer o menu, numa receita do tipo pronto-a-vestir, quando a educação precisa de alta-costura e por medida. São os estudantes que devem ser os costureiros do futuro e não quem está sentado à secretária de uma qualquer secretaria regional. São os estudantes que melhor podem estimular os sentimentos de solidariedade, da cooperação, da autonomia e da criatividade, obviamente sob a supervisão dos professores. Só que esta supervisão não significa que os estudantes sejam apenas receptores e actores.
A terminar, quando o próprio Conselho Regional de Juventude, outra clássica força de bloqueio, tem uma composição escolhida a dedo político, que reúne, quando reúne, não para debater mas para confirmar o que o poder político deseja, enfim... está tudo dito.
Ilustração: Google Imagens.