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sexta-feira, 8 de julho de 2016

OS EMIGRANTES MADEIRENSES PRECISAM DE ACÇÕES, NÃO DE PALAVRAS!


É o que me dizia, em função do contexto, sem qualquer ofensa, um dirigente associativo, se bem me recordo, em Maracay, centro-norte da Venezuela. Após um almoço com a direcção da "Casa Portuguesa", em amena e simpática cavaqueira, esse dirigente disse-me mais ou menos isto: não façam como os outros que vêm aqui, "mamam" um almocinho e nada feito. Passados tantos anos, o disparo desse dirigente encaixa no centro do alvo. É essa a leitura que faço. Infelizmente. 

Imagens da visita à Venezuela em finais de 1998
O secretário regional, Dr. Sérgio Marques, regressou da Venezuela. Há dias escutei-o na TSF sobre os resultados de tal visita. Pelos emigrantes madeirenses que lá vivem, alguns milhares em dificuldades extremas, mesmo antes desta revoltante crise governativa, sinceramente, senti tristeza, porque os nossos conterrâneos mereciam melhor. Em missão política estive na Venezuela duas vezes. Na primeira, decorria a campanha que conduziu Hugo Chavez ao poder. Na segunda, uma semana depois da tragédia de Vargas, onde fui portador, em nome do Grupo Parlamentar do PS, de um cheque de três mil contos entregue à Missão Católica Portuguesa, dirigida pelo Padre madeirense Alexandre Mendonça. Na primeira visita acompanhei o Dr. Mota Torres, na altura presidente do PS-Madeira. Percorremos todos os pontos fundamentais, de Caracas até Valência. Do extenso programa visitámos e reunimos, desde a embaixada ao ministério dos negócios estrangeiros, candidatos à presidência, às instituições de solidariedade social, clubes, associações e academias. Ouvimos as pessoas, os professores, os empresários, entre outros, com o falecido Agostinho Macedo, fundador da Central Madeirense, escutámos, de todos, as suas angústias e os seus anseios. Momentos houve de comoção pela narração das dificuldades, mas também de exaltação pelo trabalho abnegado e de grande sucesso. Dessas visitas foram elaborados relatórios e entregues às entidades. 
Tragédia em VARGAS
Entretanto, passaram-se mais de quinze anos e a lengalenga do governo continua, daí a tristeza que senti e sinto. Tantos congressos realizados na Madeira, amiudadas visitas a todo o lado, almoços e jantares, discursos no "Dia da Região", festins e a verdade é que, exceptuando um tal "plano de emergência" em função do caos político, económico e social agora vivido na decorrência de um tal Maduro, o essencial continua na mesma. Escutei, novamente, preocupações sobre a língua, a cultura e uma aproximação ao tecido empresarial, aspectos requentados que não avançam. Há qualquer coisa que dá a entender uma aproximação aos madeirenses emigrados, mas que não ultrapassa as aparências. Fica bem deles falar, mas tudo morre na casca por mais fóruns, congressos e visitas que realizem. 
É o que me dizia, em função do contexto, sem qualquer ofensa, um dirigente associativo, se bem me recordo, em Maracay, centro-norte da Venezuela. Após um almoço com a direcção da "Casa Portuguesa", em amena e simpática cavaqueira, esse dirigente disse-me mais ou menos isto: não façam como os outros que vêm aqui, "mamam" um almocinho e nada feito. Passados tantos anos, o disparo desse dirigente encaixa no centro do alvo. É essa a leitura que faço. Infelizmente. Da parte que nos tocou, tentámos ajudar, remetendo centenas de manuais escolares para os centros de aprendizagem do português e, até, no folclore, desenvolvemos acções tendentes à formação técnica, aspecto que, após alerta, quem de direito não deu um passo. Por tudo isto, Dr. Sérgio Marques, menos conversa e mais acções concretas. Porque a um governo não basta visitar ou reunir, o mais importante é o desenvolvimento das iniciativas por eles sugeridas. 
Ilustração: Arquivo próprio.

sábado, 29 de agosto de 2015

ENCONTRO DAS COMUNIDADES MADEIRENSES


Não concedo o benefício da dúvida, tantas foram as promessas ao longo de quarenta anos. Os emigrantes têm dado jeito para deles se falar, para reunir e manter uma agenda de preocupações, todavia, por aí ficam as boas intenções e as palavras circunstancialmente ditas. Aliás, pergunto, quantos congressos foram realizados, quantas actas escritas e rubricadas, quantas visitas o presidente do governo da Madeira empreendeu às comunidades (até para se despedir...), quantos jantares e discursos foram realizados com mil e uma promessas, quantos secretários andaram pelas comunidades visitando clubes, associações de caridade, academias, paróquias e participando em festas populares? Resultado? Zero respostas aos problemas. À luz da História, do meu ponto de vista, este encontro realizado no Funchal, surge desenquadrado de uma política. Primeiro, deveria ser conhecida, assumida e divulgada a política deste governo para os madeirenses emigrados; depois, a definição de uma calendarização de acções onde, encontros deste tipo se justificam.  


Depois de 40 anos do mesmo partido político a governar a Madeira, onde tantas audições foram realizadas, vem o actual presidente do governo dizer que "(...) este encontro visa, em primeiro lugar, vos ouvir" (...) porque é importante "ouvir as vossas opiniões e sobretudo as vossas sugestões no que diz respeito ao futuro da Região e a sua relação com as nossas comunidades". E o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus não ficou atrás, garantindo "a política do Governo para as comunidades será definida em função do resultado das conclusões do encontro e dos próximos eventos" (DN-Madeira, edição de hoje). Pergunto, e todos os dossiês que estão para trás? Valem zero? Esta é a realidade, tudo o resto são palavras de circunstância.
E se assim escrevo é, também, por algum conhecimento. Em missão política tive a oportunidade de visitar a Venezuela (duas vezes) e a África do Sul. Em uma das visitas  à Venezuela acompanhei o Dr. Mota Torres, ao tempo presidente do Partido Socialista. Visitámos, entre outras cidades, Caracas, Maracay e Valência. Que viagem essa tão importante e tão sentida que foi. Fizemos a habitual ronda institucional, mas sobretudo procurámos integrarmo-nos na realidade dos emigrantes através de Joel Mendonça, um bem sucedido empresário natural da Ribeira Brava. Estivemos com o embaixador, com o Cônsul (auscultando preocupações) e com candidatos à Presidência da República (em defesa da comunidade), no acto ganho por Hugo Chaves. Numa segunda visita vivi o drama de Vargas (ao Senhor Padre Alexandre Mendonça, em nome do Grupo Parlamentar do PS, entreguei a ajuda de três mil contos), estive com autarcas nascidos na Madeira, ouvi a angústia dos professores na sua luta pelo ensino do Português, a quem faltavam livros e materiais. Em ambos os países almocei e jantei com figuras da cultura e do associativismo que reclamavam um simples apoio, por exemplo, ao nível da formação técnica do folclore madeirense e escutei a aflição e o medo constante dos empresários. No regresso dessas viagens elaborei relatórios, fi-los chegar a quem tinha o dever político de accionar as preocupações enunciadas. Tive uma longa reunião com o Secretário de Estado das Comunidades, o qual, depois de ler um dos relatórios disse-me: "o que aqui está escrito é carninha do lombo". Significava isto que o designado trabalho de casa tinha sido feito. Fiz-lhe ver que, na África do Sul, tinha proferido um discurso na Casa da Madeira de Joanesburgo, no Dia da Região, 01 de Julho, com mais de trezentas pessoas, e que nos tínhamos comprometido em levar aos governos da Região e da República os seus anseios. Significava isto: mexa-se! Pedi livros às escolas e aos professores que recebem, todos os anos, exemplares de manuais. Enchi dois grandes caixotes, com os volumes para cada entidade que ensinava o português e o PS-M fê-los chegar àqueles dois países através da "mala diplomática". Do governo regional: zero!
Durante quase dois anos, semanalmente, julgo que à Quinta-feira, gravei uma crónica entre dez e quinze minutos, para o programa "Café da Noite", o programa dirigido pelo emigrante madeirense José Luís Silva e que era o de maior audiência entre os emigrantes de toda a África do Sul. De que valeu? questiono-me, hoje. Apenas a minha consciência e a do Dr. Mota Torres estão com o sentimento do dever cumprido. Aliás, os emigrantes sabem que não contam com nada nem para nada. Da Madeira, nos últimos anos, apenas vi o aproveitamento de uma iniciativa nacional designada por "Portugal no Coração". Os emigrantes idosos, mal desembarcavam no aeroporto eram motivo de comunicação social em um claro aproveitamento político, pago pela República. A grande obra, conjugada com a República, junto dos emigrantes, essa ficou toda por fazer. E digo mais: que vozes se levantaram contra a violência traduzida em mortes e contra a situação de centenas ou milhares de emigrantes madeirenses pobres que vivem da caridade das instituições? Que iniciativas estratégicas foram implementadas para atrair investimento na Região? Que acções de colaboração foram desenvolvidas ao nível da nossa cultura, indo ao encontro das segundas e terceiras gerações? Zero.
Fico por aqui porque me invade um sentimento de tristeza face a tanto folclore realizado (encontros e congressos) mas sem um fio condutor e uma consequência visível. E conto-vos uma brevíssima história que espelha o abandono. Estávamos em Valência onde fomos recebidos no Centro Social Madeirense. À hora de almoço esperava-nos toda a direcção. Vieram os discursos e à despedida, um dos directores olhou-nos e disse de forma amiga mas directa: "não façam como muitos que aqui vêm mamar um almocinho e depois nada feito"! 
Eu apenas conheço dois países de emigração. E os outros? Ao final de 40 anos vêm falar que agora é que é? Folclore, apenas folclore político. Treta.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 8 de janeiro de 2012

VÃO "MORRER" PARA LONGE!



Com uma distinta lata, usam, na lapela, um pin com a bandeira de Portugal, sinónimo de uma luta pelo país que dizem defender. Para ele, Miguel Relvas, quando vê os jovens lá fora, fica-lhe a "sensação de que pátria deles é o momento onde estão, a circunstância em que estão". Oh, senhor ministro, sabe-se que até 1974 teve de viver em Angola. Foi a independência que fez os seus pais regressarem. Pergunto, por que razão não ficou por lá, ou, depois de gerada uma certa estabilidade, o que o levou a não regressar a Angola? E por que não motiva os seus descendentes a emigrarem?


Primeiro foi o Dr. Passos Coelho, agora, o Dr. Miguel Relvas a aconselhar que os jovens tenham os olhos no Mundo. Isto é, uma forma eufemística de dizer aos jovens, à força do nosso País, emigrem, não fiquem cá, vão "morrer" para longe. E, curiosamente, falou deste assunto em Penela, no centro-interior de Portugal, onde a desertificação acontece, onde não é necessário o governo sugerir a busca do ganha pão para além das fronteiras, pois os próprios habitantes há muito assim decidiram. O discurso de um ministro não pode ser este. Ora, quando se diz a um jovem para procurar lá fora o que o seu país não lhe proporciona, apenas estamos a empobrecer o país. Mas isso também não constitui novidade. É do primeiro-ministro a asserção que temos de "empobrecer".
Disse o pseudoministro Relvas: vive-se "um tempo de incerteza em Portugal como em toda a Europa" e o país "precisa necessariamente de exportar e precisa de encontrar novos mercados". Precisa, no seu entendimento, de "exportar" também inteligência, os seus recursos humanos e, naturalmente, o que ainda consegue produzir. E digo isto porque  me choca assistir a tanto jovem, de qualidade, a exercer a sua actividade fora do país, jovens reconhecidos em varíadíssimas áreas técnicas e científicas, e um ministro não conseguir oferecer um sinal de esperança na criação de condições para que esses jovens desempenhem cá dentro o que são "obrigados" a fazer lá fora. A isto designo por incompetência política. E são estes senhores do PSD/CDS que, com uma distinta lata, usam, na lapela, um pin com a bandeira de Portugal, porventura sinónimo de uma luta pelo país que dizem defender. Todavia, na práxis política, refiro-me a Miguel Relvas, quando vê os jovens lá fora, fica-lhe a "sensação de que pátria deles é o momento onde estão, a circunstância em que estão". Oh, senhor ministro, onde pára a coerência discursiva e o significado desse pin na lapela? Sabe-se que, até 1974, teve de viver em Angola. Foi a independência que fez os seus pais regressarem. Pergunto, por que razão não ficou por lá, ou, depois de gerada uma certa estabilidade, o que o levou a não regressar a Angola? E por que não motiva os seus descendentes a emigrarem?
Bom, mas que fique claro que não tenho rigorosamente nada contra a emigração. A decisão é individual e deve ser respeitada, em função dos interesses, das condições de trabalho e de uma panóplia de factores que, repito, a cada um diz respeito. Não aceito é que um governo tenha esta postura de incentivo à emigração, quando somos poucos, quando há inteligência e competências formadas cá dentro e que custaram muito dinheiro, e agora se entrega para benefício de outros. Falo a um determinado nível de formação, mas podemos também equacionar o quadro dos menos qualificados, cuja saída do País não constitui garantia de sucesso e independência. Muitos safam-se e milhares continuam a "comer o pão que o diabo amassou". E terá o ministro consciência do que significa a emigração no quadro da rutura das famílias? 
Ora, considerando o momento que Portugal atravessa, penso que de um governo esperam-se medidas tendentes à criação de condições de aproveitamento do seu principal activo, os recursos humanos, condições propiciadoras do desenvolvimento, condições de povoamento do interior progressivamente abandonado, condições propiciadoras de respostas às necessidades do povo. Chutar para longe os problemas caracteriza bem a política de certos senhores. Mas, note-se, emigrar é um direito individual. Não precisa é que o governo incentive.
Ilustração: Google Imagens.