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domingo, 9 de maio de 2021

"Que Deus te acrescente"


FACTO

"Isto é tudo aquela política ressabiada" (...) "não tenho inveja que alguém receba mais do que eu". Excertos de declarações do presidente do governo regional a propósito dos salários e complementos auferidos pelos gestores públicos.



COMENTÁRIO

Eu também. Faço minhas as palavras da liturgia popular de outros tempos, onde "nos campos do Alentejo, bem como nas suas vilas e aldeias, a amassadura e a cozedura do pão eram acompanhados de um certo ritual. Assim, ao deitar-se o sal na água da amassadura, dizia-se: Deus lhe acrescente" (Hernâni Matos). 

Só que o problema não é esse. Não é de "inveja", tampouco de um qualquer "ressabiamento". O problema é de equilíbrio, bom-senso e rigor na atribuição e distribuição dos recursos públicos. O drama está quando se comparam funções e responsabilidades; quando se dá conta que, raramente, são os melhores que exercem tais funções, dando lugar aos oriundos de cumplicidades político-partidárias; quando verificamos que as empresas funcionam, na generalidade, com sistemáticas injecções de capital provenientes do orçamento regional; e quando fica o sentimento de impunidade perante o fracasso gestionário. 

O problema não está, sequer, em nivelar por baixo, porque a competência paga-se, mas quando se analisa e buscamos as relações entre umas funções e outras, em conjugação com a realidade no interior da sociedade. Em uma região pobre, dependente e assimétrica, sendo os recursos financeiros escassos, onde um em cada três madeirenses é pobre ou está em risco de pobreza, obviamente que devem redobrar as preocupações com as prioridades estruturais. É preciso ter presente, entre outros factores, que 32,9% dos habitantes está em situação muito complexa, a taxa mais alta do país, segundo o "Inquérito às Condições de Vida e Rendimento" (ICOR), da responsabilidade do Instituto Nacional de Estatística. E é preciso ter presente, ainda, que mais de 20.000 madeirenses não têm emprego e que muitos milhares não usufruem do subsídio social de desemprego.

E perante este quadro, corroborando o presidente do governo, o vice, ao ser confrontado com o desequilíbrio nos salários e complementos dos gestores das empresas públicas, face à escassez de recursos, assumiu: "(...) cada vez gosto mais de vir aqui (Assembleia), no meio de tantas desgraças ainda temos oportunidade de rir um bocadinho, ouvindo tantas asneiras ditas". 

Face à realidade, não digo que seja para o político chorar, no mínimo, ter tento na língua. Regressando ao início, à liturgia popular, é caso para dizer que a "massa" cresce para uns e minga para a maioria. Deve ser do "fermento"!

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

ORGANIZAÇÕES PERFEITAS: ONDE ESTÃO ELAS?

É evidente que não existem organizações perfeitas. Todas cometem erros. Mas aí o importante é que se reconheçam os erros através de um sistema de controlo. O reconhecimento dos erros é determinante para depois renunciar às práticas que minam a motivação dos colaboradores da organização. Uma das razões prende-se com os chamados desmotivadores do trabalho, ou seja, os factores motivacionais negativos. Esses factores minam a sua moral e desperdiça-se, assim, o mais valioso recurso que possuímos: o talento e a criatividade. Enquadram-se aqui as pequenas ocorrências quotidianas que frustam os envolvidos no trabalho e que os induzem a reduzir, consciente ou inconscientemente, a energia que utilizam para o desempenho das suas funções. Digamos que são práticas contraproducentes que se infiltram nas organizações e que, em resultado da negligência, se tornam parte integrante das suas operações normais. Os desmotivadores existem porque são permitidos e permanecem porque não são combatidos. São seis os desmotivadores mais comuns: as políticas; as expectativas obscuras; as reuniões improdutivas; a hipocrisia; as mudanças constantes e ocultação da informação.
Como já referi em outro momento, nós vivemos numa era de conflitos em todas as áreas da vida. Nas organizações também. Onde existem pessoas existem conflitos de ideias, de valores, de convicções, de estilos e de padrões. São aspectos que não podem ser evitados sob pena de anularem as ideias e a própria criatividade. Evitar pode significar gerar uma atmosfera de insegurança. Portanto, só resta saber gerir os conflitos, transformando os desacordos em oportunidades visando a melhoria do desempenho. E isso significa criar um clima adequado, aberto e tolerante, o que faz com que se utilizem os talentos e os recursos de cada pessoa, ao mesmo tempo que se transmite autoridade, credibilidade e capacidade para influenciar os colaboradores. O clima adequado passa por se dizer, claramente, a cada pessoa, o que se espera dela. A comunicação vaga não conduz a parte alguma ao contrário do clima adequado que conduz à criação de uma atmosfera de pertença.
Mas há que ficar atento aos sinais. Tal como um médico que tem de estar atento aos sintomas para poder fazer o diagnóstico, também o gestor tem de saber identificar os sinais. Normalmente os sinais estão divididos em duas categorias: os sintomas, que são actos inconscientes, isto é, comportamentos não intencionais associados ao conflito e as tácticas, estas, pelo contrário, que são as formas mais deliberadas das pessoas envolvidas exprimirem as suas posições.
Os sintomas são de difícil identificação. Mas podemos enumerar alguns: Má comunicação. As pessoas deixam de comunicar totalmente ou fazem-no superficialmente e com extrema tensão; Hostilidade entre grupos. Um sector ou área em crónico litígio com um outro; Atritos interpessoais. Manifesta-se em vários graus: desde a hostilidade calma até à agressão aberta; Escalada. O problema é "enviado para cima", não tanto para ser resolvido mas sobretudo para conseguir mais apoio; Moral em baixo. Corresponde à sensação de que “não vale a pena tentar” ou, então, “para quê maçar-me”; Controlo da informação. Deixar as pessoas às escuras. Dar-lhes a conhecer apenas aquilo que se quer que conheçam; Distorção da informação. Dizer a uns uma coisa e a outros o contrário, criando diversas versões dos factos; Mercado negro da informação. Ganhar e usar a cooperação de pessoas em posições chave para ultrapassar os canais de informação oficiais; a própria Difamação.
Portanto, perante isto, é necessário procurar as causas. E analisar as causas não é fácil como parece. Até porque, quando se detecta um conflito, há sempre uma tendência para culpar alguém que, por sua vez, retribui a acusação. Vários autores, sobre esta matéria, consideram algumas causas mais comuns dos conflitos:
Objectivos e ideologia. Sempre que ocorre uma interacção entre duas ou mais pessoas ou grupos, com objectivos diferentes, existe a possibilidade de conflito. Para obviar isto deve-se criar um clima de confiança e insistir na necessidade de uma concertação de esforços.
Território. Todos nós estamos familiarizados com a ideia de território no mundo animal. As pessoas, no interior das organizações, também. E o território não é apenas o espaço físico. O território joga com o investimento pessoal, a estima, a influência, o poder, os louros, até as próprias recompensas financeiras.
As hostilidade irracionais. Por exemplo, as pessoas que se irritam ou se tornam vingativas devido a atitudes menos aceitáveis de outros.
Ora bem, tudo isto para dizer que há que saber arbitrar os conflitos. Detectar um problema é apenas uma parte. E para arbitrar os conflitos, isto é, os desacordos, há uma série de princípios:
Reconhecer discordâncias que não são conflitos. São os chamados conflitos funcionais. E aqui prevenir é melhorar que remediar.
Intervir quando é necessário. Quando se tornam numa ameaça à estabilidade da organização.
Como já referi, há necessidade de tirar partido dos desacordos. É o que se chama retirar a energia dos desacordos.
Tudo isto, em síntese, para sublinhar que NÃO HÁ ORGANIZAÇÕES PERFEITAS. Importante é saber gerir o lado oculto da organização através de acções preventivas. Evidentemente que há muito a desenvolver sobre esta matéria. Fico por aqui.
Nota: Parte de uma aula sobre Recursos Humanos, da minha responsabilidade, no âmbito da cadeira de Gestão, do Curso de Desporto na Universidade da Madeira.