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domingo, 16 de novembro de 2014

"A PRAÇA DO POVO"


“Governo assenta em duas coisas; refrear e enganar” diz Fernando Pessoa

“A praça é do povo! como o céu é do condor”.

É o antro onde a liberdade
cria águias em seu calor.
Senhor, pois quereis a praça?
Desgraçada a população!
Só tem a rua de seu...
Ninguém vós rouba os castelos,
Tende palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Mas embalde...que o direito
Não é pasto de punhal
Nem a patas de cavalo
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos Setembros!
Da plebe doem-se os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensanguentado
Diz: já não posso sofrer.

Castro Alves
(1847-1871)


Começam a rarear as inaugurações fulgurantes; já não se vê o vinho seco e a espetada em doses avulsas. A democracia madeirense elegeu, por décadas, um líder querido que, segundo nos anunciou, em breve se despede. Na festa, em Dezembro próximo, não faltará uma queima de artifício de precisamente 1.046.679,48 € para encher de cor, barulho e fumo a festa da despedida.
Nessa noite os sem-abrigo da cidade do Funchal serão uns entre tantos, sem nada a celebrar e, quem sabe, incomodados com a invasão da “sua” nocturna propriedade.
A recém inaugurada Praça do Povo estará cheia de cor, alegria, promessas de amor, votos de prosperidade numa Babel de sentimentos.
Sob as lajes e os detritos de um temporal (porque a memória e a história não podem ser apagadas) muitos recordarão a tragédia de um dia de Fevereiro que parece já esquecido, a menos que a Natureza dê sinal de vida e no-lo recorde. Na praça 20 de Fevereiro!
“O governo assenta em duas coisas; refrear e enganar” diz Fernando Pessoa no seu desassossego lúcido. Por cá engana-se sem refrear. As últimas notícias são férteis quer em providentes proponentes a queridos líderes quer em actos de alçada judicial. É um massacre noticioso e quotidiano de personagens que depressa esqueceram os trabalhos ciclópicos destas décadas e surgem hoje, como pitonisas, com carradas de soluções e projectos sistematizados, fadados a usar as moradias dos antecessores, com os mesmos vícios, as mesmas mobílias.
A praça enchesse-se sem o preito de uma sagração ou uma vontade una de mudança que abale as cenas carnavalescas com que somos brindados e convidados, sem opção de voluntarismo, a contribuir.
À beira mar sabe bem a brisa, o horizonte desconhecido prenhe de luz. Velhos e novos desfrutam o sol, o cheiro aromático de ervas, a novidade do espaço, a silhueta dos navios e o beijo violento do oceano; o chão frio, branco, irregular em tudo, atrai a multidão em festa.
E que um poeta não lembre, esquecendo o povo em festa, o som da praça vazia.
NOTA
Artigo de opinião de Maria Teresa Góis, publicado na edição de hoje do DN-Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 22 de julho de 2012

DOIS ARTIGOS A LER

  
Sou assíduo leitor de Maria Teresa Góis e de Roberto Ferreira, habitualmente, aos Domingos, na edição do DN-Madeira. Os artigos de hoje são, particularmente, muito incisivos e oportunos. Maria Teresa Góis escreve sobre as declarações do Bispo D. Januário Torgal Ferreira e Roberto Ferreira coloca em causa os silêncios do Presidente da República. Dois textos que vale a pena ler. 
Há sim, muitos diabinhos negros, desses chifrudos de olhos grandes, com passinhos mansos, leves, cheirando a incensos diluídos em pó (...) 
"(...) Eles andam aí… Antes que a prosa me corra para os acontecimentos actuais quero mencionar o desassombro, claro, frontal, inteligente e lúcido de D. Januário Torgal Ferreira. Acutilante faz a análise da Pobreza, do uso indevido de dinheiros públicos, com palavras fortes que escandalizaram ministros, os porta-vozes das direitas que quais virgens ofendidas de média idade, vieram vomitar a sua indignação. Falasse D. Januário em processos no DCIAP ou no Ministério Público e, talvez, se sentissem menos ofendidos. Bem-haja D. Januário por não querer uma Igreja amorfa, acomodada, afastada dos valores há mais de dois mil anos proclamados.
Há sim, muitos diabinhos negros, desses chifrudos de olhos grandes, com passinhos mansos, leves, cheirando a incensos diluídos em pó, comprando a essência da experiência e da credibilidade avulso (...). Maria Teresa Góis
Será normal um governo regional deter um jornal, pago pelos impostos de todos, para, a seu bel-prazer, desancar em quem lhe apetece, alegando que o faz em legítima defesa? Seria possível permitir que uma situação idêntica se passasse no continente? 
"(...) De certo tem acompanhado o "filme" dos acontecimentos, mas eu ajudo-o a recordar: considera normal o que se passa na Assembleia Legislativa, cujos trabalhos são interrompidos em quase todas as sessões, em que deputados eleitos são postos na rua (com aparatosas intervenções policiais), em que as alocuções não são mais que um campeonato crescente de ofensas de todo o género e feitio, onde quase ninguém do governo presta contas?
O senhor revê-se no espetáculo deprimente de gritos, empurrões e de sessões abruptamente suspensas do parlamento regional?
Considera "normal funcionamento", deputados serem expulsos de cerimónias públicas promovidas pela própria Assembleia?
Realmente é mau de mais para o senhor sequer esboçar um movimento.
Será normal um governo regional deter um jornal, pago pelos impostos de todos, para, a seu bel-prazer, desancar em quem lhe apetece, alegando que o faz em legítima defesa?
Seria possível permitir que uma situação idêntica se passasse no continente?
Seria possível uma democracia em que o primeiro-ministro, aquele que lhe presta contas semanalmente, se borrifasse para o Parlamento e o apelidasse de "casa de loucos"? O que faria? Senhor Professor, eu gostava mesmo muito que me explicasse o seu conceito de democracia (...) Roberto Ferreira
Ilustração: DN e FB