sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A RECOMPENSA PELO DESCALABRO


Mas há outras questões a ter em conta: a arquitectura dos espaços escolares, a dimensão dos estabelecimentos de ensino, o número de alunos por cada turma, os currículos, os programas, a autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino, a desburocratização do sistema, a retirada de toda a "tralha" em que a escola está megulhada, confundindo o essencial com o acessório, o "conhecimento poderoso" de que fala Michael Young, a reorganização do mundo do trabalho no sentido de acabar com essa treta da Escola a Tempo Inteiro, a própria formação inicial, complementar e especializada dos docentes, enfim, isto e muito mais merecem uma profunda reflexão que conduza a um novo paradigma. O que me espanta, ou talvez não, é que os dois secretários regionais da Educação que, juntos, tiveram responsabilidades políticas durante cerca de 23 dos 35 anos de governo próprio (65,7% do tempo de governação), esses políticos responsáveis pelo descalabro, tenham hoje os seus nomes em duas escolas da Região. "Prà frente, sempre" que o povinho não se dá conta daqueles graves problemas. O polvinho sabe o que faz para manter o poder!


Os valores provisórios apresentados pelo Instituto Nacional de Estatística que demonstram ter aumentado, substancialmente, o número de pessoas menos qualificadas (de 42.701 há dez anos para 58.284 pessoas nos últimos censos nacionais), embora provisórios, repito, oferecem-nos uma grandeza muito preocupante. Os resultados finais podem, obviamente, oscilar, mas não ao ponto de um quadro negro passar para uma situação inversa. Isso a verificar-se corresponderia, naturalmente, à total descredibilização do Instituto Nacional de Estatística. E esta instituição é credível, pois não há memória de erros grosseiros, em qualquer sector, ao ponto de inverter os dados apresentados.
Os Censos são bem diferentes, registo, do que a Região costuma fazer com as estatísticas do desemprego. O dr. Brazão de Castro, que foi responsável pelo acompanhamento do desemprego, durante anos, negativamente, muito se esforçou por apresentar percentagens que não correspondiam à verdade. Para ele, as taxas mantinham-se, com ligeiras oscilações, quando todos víamos o desemprego a crescer. Daí a certeza que os valores que eram indicados ao INE não eram os verdadeiros. A história do processo do desemprego veio confirmar esta situação. E não foi por acaso que, apesar de solicitado por diversas vezes, o Director Regional de Estatística, nunca recebeu o grupo parlamentar do PS. Por algum motivo, sublinho.
Os Censos são de resposta directa. É a própria pessoa que regista ou dita a sua realidade em vários campos. Não é crível que existam grandes disparidades, até porque, as perguntas, neste aspecto, são claras, isto é, a pessoa tem ou não tem a escolaridade básica. Ora, os resultados apresentados não me espantam. Constituem o corolário de um sistema desprovido de uma linha de rumo, construído sem inteligência e sobretudo distante de uma perspectiva integrada. Como é óbvio, não se pode pensar o sistema educativo, sem ter uma adequada atenção ao sistema económico, financeiro, social, cultural e familiar, entre outros. O que acontece na escola tem de ser visto numa perspectiva daquilo que desejo que aconteça amanhã. Isso obriga, naturalmente, a três perguntas essenciais: onde estou nas diversas áreas e domínios, onde quero chegar e que passos tenho de dar para lá chegar. O que hoje se confirma é que não só os governantes não responderam a estas questões iniciais, como oferecerem a ideia, ao longo de todo o tempo, de cada um estar isoladamente a trabalhar nas secretarias que lhes foram confiadas. Esta é uma questão central. Em suma, os dramas do desemprego estão na escola; os dramas da pobreza estão na escola, os dramas de cada mês faltar mais mês estão na escola, a incultura das famílias está na escola. Portanto, não há volta a dar à situação, enquanto todo o processo não for inteligentemente concertado.
Mas há outras questões a ter em conta: a arquitectura dos espaços escolares, a dimensão dos estabelecimentos de ensino, o número de alunos por cada turma, os currículos, os programas, a autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino, a desburocratização do sistema, a retirada de toda a "tralha" em que a escola está megulhada, confundindo o essencial com o acessório, o "conhecimento poderoso" de que fala Michael Young, a reorganização do mundo do trabalho no sentido de acabar com essa treta da Escola a Tempo Inteiro, a própria formação inicial, complementar e especializada dos docentes, enfim, isto e muito mais merecem uma profunda reflexão que conduza a um novo paradigma. Que leva muitos anos, que se decreta mas cuja transformação só pode ser entendida de forma graduada no tempo. É, aliás, um dos princípios do desenvolvimento: a transformação graduada.
O que me espanta, ou talvez não, é que os dois secretários regionais da Educação que, juntos, tiveram responsabilidades políticas durante cerca de 23 dos 35 anos de governo  próprio (65,7% do tempo de governação), esses políticos responsáveis pelo descalabro (Dr. Brazão de Castro e Dr. Francisco Fernandes), tenham hoje os seus nomes em duas escolas da Região. "Prà frente, sempre" que o povinho não se dá conta daqueles graves problemas. O polvinho sabe o que faz para manter o poder!
Ilustração: Google Imagens.

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