domingo, 20 de maio de 2012

EXPRESSO: UMA ILHA À BEIRA DO NAUFRÁGIO


O horror da pobreza espalhada e multiplicada e desde sempre escondida, a pobreza da postura na vida política daqueles que têm responsabilidades diretas e indiretas e que são incapazes de levantarem a voz e de se posicionarem contra esta gente que luta até ao fim por um naco de poder, a vergonha dos milhares que têm de estender a mão à caridade, mesmo aqueles que ainda tendo trabalho, são pobres porque enredados em dívidas, a vergonha que sentem os mais jovens em idade escolar, onde lhes falta um pouco de tudo, a vergonha dos estudantes universitários que deixam a sua formação por falta de meios, a vergonha sentida pelos jovens casais que entregam a casa e regressam à habitação dos pais, o medo de sair à rua, abrir a boca e gritar bem alto, BASTA, o medo do futuro, enfim, vive-se uma Região "à beira do naufrágio", é verdade.


A reportagem "Uma ilha à beira do naufrágio", publicada na revista do Expresso desta semana, onde é equacionada a "pobreza, a vergonha e o medo na Madeira", não veio acrescentar nada ao já conhecido. Aliás, as seis páginas de texto, são redundantes no conhecimento básico da situação e, portanto, muito distantes do verdadeiro caos que está instalado. Mas, confesso, senti vergonha, apesar da verdade, ao ver a minha terra exposta no semanário com uma tiragem média superior a 115.000 exemplares. O melhor da reportagem está na foto de capa onde o presidente do governo aparece com a mão na cara tapando os olhos. A força desse instantâneo diz tudo, mesmo a quem não conhece, em pormenor, a realidade destas tristes e enclausuradas ilhas atlânticas.
"Pobreza, vergonha e medo" constitui uma boa síntese. O horror da pobreza espalhada e multiplicada, embora desde sempre escondida, a pobreza da postura na vida política daqueles que têm responsabilidades diretas e indiretas e que são incapazes de levantarem a voz e de se posicionarem contra esta gente que luta até ao fim por um naco de poder, a vergonha dos milhares que têm de estender a mão à caridade, mesmo aqueles que ainda tendo  trabalho, são pobres porque enredados em dívidas, a vergonha que sentem os mais jovens em idade escolar, onde lhes falta um pouco de tudo, a vergonha dos estudantes universitários que deixam a sua formação por falta de meios, a vergonha, a vergonha sentida pelos jovens casais que entregam a casa e regressam à habitação dos pais, o medo de sair à rua, abrir a boca e gritar bem alto, BASTA, o medo do futuro, enfim, vive-se uma Região "à beira do naufrágio", é verdade. 
Ora bem, a reportagem do jornalista Micael Pereira aflora o conhecido e, apesar dos meus constrangimentos, não deixo de dizer que estas seis páginas de texto acabam por ser importantes, enquanto eco de uma situação que o País deve conhecer. Faltaram, sublinho, outras seis páginas a contar a história de como até aqui a Madeira chegou. A história dos orçamentos regionais, a história dos monopólios, a história das riquezas, umas de crescimento exponencial e outras mal explicadas, a história do controlo de toda a sociedade, desde a família que vive em sítio mais recôndito até ao sistema empresarial, passando por todo o associativismo, a história da megalomania das obras sem sentido e de um fartar vilanagem ao longo de várias décadas, a verdadeira história do Centro Internacional de Negócios da Madeira, a história de um parlamento que não fiscaliza nada nem ninguém, entre outras, a história comparativa entre a Região Autónoma da Madeira a a Região Autónoma dos Açores. Mas mesmo com estas lacunas, a reportagem poderá servir para o Presidente da República, depois do seu périplo pelo Oriente, ler e atuar. Só que, com toda a certeza, não o irá fazer. Continuará a assobiar para o lado, sabe-se lá porquê! Da mesma forma se comportará o Governo da República, mais preocupado com a cega imposição da austeridade, doa a quem doer, do que com a fome dos portugueses do Continente e dos portugueses que residem na Região. Porém, convencido estou, que tarde ou cedo, virão por aí adentro, para apagar o "fogo" que está a ser ateado. Poderá ser tarde demais, porque a angústia está a atingir os limites do insuportável para milhares de famílias.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Não sejamos ingénuos. Cavaco não tem nada a ganhar em meter-se nesta alhada. Neste momento o que o preocupa é conseguir um bom tacho no estrangeir, uma vez que não pode ser reeleito.

João André Escórcio disse...

Também é verdade.