segunda-feira, 17 de outubro de 2016

DIRECTOR REGIONAL DA EDUCAÇÃO ESCREVE CARTA ABERTA AO SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO


Desempenhando o cargo de Director Regional da Educação, quando de Educação escreve, sinto-me impelido a ler os textos do Dr. Marco Gomes. Li e mastiguei as suas palavras e conceitos explanados no artigo de ontem publicado no DN-Madeira. Das duas, uma: ou marcou, definitivamente, uma posição sobre o seu pensamento em matéria de política educativa, o que equivale dizer que escreveu uma carta aberta ao Secretário da Educação, ou está de saída do governo. Inclino-me para a segunda hipótese, porque não me parece aceitável que entre a correcta teoria divulgada e a prática do governo a que pertence exista uma tão significativa diferença. 


Participei, já tem uns anos, em um debate, na televisão regional, que contou com a presença do Dr. Marco Gomes. Gostei da sua postura e das preocupações que enunciou. Desde aí, embora não tenhamos relações próximas, a verdade é que, genericamente, mantenho uma atitude de consideração. Não deixo de dizer que estranhei a sua adesão a um governo que se sabia de rotinas, facto que agora reforço através do seu significativo desabafo. Adiante.
O que o director regional escreveu (aqui) é, exactamente, aquilo que tantos investigadores, autores, professores, psicólogos, e pensadores em geral sobre política educativa têm dito e escrito. Que as crianças andam "ansiosas" (é verdade que diagnosticam défice de atenção e hiperactividade, quando o problema, na generalidade dos casos, é outro bem diferente) e que (...) "é verdadeiramente preocupante que estamos a alimentar o crescimento de muitas crianças numa espécie de ansiedade crónica"; que as crianças estão "confinadas às paredes de uma sala, a realizarem atividades demasiado escolarizadas, a fazerem os trabalhos de casa e sem contacto com o exterior"; que "os alunos portugueses até ao sexto ano são, entre os estudantes dos países da OCDE, os que permanecem mais tempo na escola (cerca de mil horas por ano)"; que (...) "estamos efetivamente a pôr, como se diz vulgarmente, "os nervos das crianças em franja", com as implicações e consequências que daqui resultam, provocando danos a diferentes níveis, alguns deles mesmo irreparáveis" (...); que "é preciso que os pais parem e pensem, pois de alguma forma (de muitas formas aliás) andaram e andam a contribuir e a pactuar com tudo isto"; (...) que o que "hoje ainda está muito generalizada é uma ideia "embebida" de um capitalismo selvagem estendido à escola, que incentiva (ao contrário do que deveria ser) o individualismo sobre todas as coisas"; que estamos "de facto, em muitas situações, a "esfrangalhar" as nossas crianças" daí, em conclusão, pede o Dr. Marco Gomes, "deixem as crianças serem crianças", enfim, posso dizer que tudo isto me escorregou garganta abaixo como mel. Tantos já escreveram estas e outras palavras no mesmo sentido. Ainda na passada semana publiquei vários textos chamando à atenção para o anacronismo do sistema, quer a montante, quer a jusante. Daí que assine por baixo o citado artigo. Mas perante esta total discrepância entre a política defendida e a política praticada (não é a oferta educativa fora da escola que deve ser colocada em causa, mas o sistema educativo que a deve considerar), só lhe resta uma opção: sair da situação absolutamente desconfortável em que se encontra, porque tal como disse em relação às crianças, tenderá a ficar com "os nervos em franja".
O sistema educativo está errado de raiz, como está toda a organização social. O tempo para a família está a ser ocupado pela actividade laboral, as crianças são quase um empecilho, a escola, tendencialmente, transformou-se em armazém (o que são as escolas a tempo inteiro?), a pobreza espalha-se tornando-se em paisagem, bloqueando a escola a diversos níveis, a perspectiva pedagógica assume contornos de enervante rotina, os programas são um desastre, fundamentalmente, pela acumulação de pseudo-conhecimentos, há muito que andam a escolarizar o que deve ser do domínio do lazer, a rede escolar subjugou-se ao economicismo e, perante todas estas questões, pergunto, que medidas orientam a política do governo regional? Onde pára a Autonomia, uma vez que a Constituição da República não serve de desculpa para tudo? Que o director regional não me leve a mal, mas eu não teria estômago para digerir políticas que são absolutamente contrárias àquilo que escreve. Parabéns pelo que escreveu, Dr. Marco Gomes, mas decida-se, porque, tal como assumiu, as crianças têm o direito de "serem crianças". E presumo mais, que tal como as crianças está politicamente exausto e só lhe resta regressar ao lugar onde certamente foi feliz. Não tem outra alternativa. Despeça-se!
Ilustração: Google Imagens.

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