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quarta-feira, 3 de maio de 2023

A mosca


Há quem entenda que o exercício da política tem de assumir os contornos da maledicência, da ofensa gratuita e do rebaixamento dos adversários. Não entendo assim. Quem por esses caminhos envereda demonstra alguma soberba, alguns tons antidemocráticos e, sobretudo, uma clara falta de respeito pelos outros.



Esta semana escutei um desses momentos. O líder da bancada parlamentar do CDS, olhando para um deputado da oposição perguntou-lhe sobre a sua formação (académica, naturalmente) e, na ausência de resposta, terminou dizendo que talvez não tivesse sequer o 12º ano. Quando escutei tamanha deselegância, lembrei-me do poeta popular António Aleixo, falecido no ano que eu nasci:

(...)
Uma mosca sem valor
poisa c’o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.
(...)

Que grande António Aleixo, Homem "simples, humilde e semi-analfabeto", em discurso directo a todos quantos rebaixam os outros movidos pelos interesses pessoais ou de circunstancial grupo. Ora, na Assembleia estão os representantes do Povo, eleitos em sufrágio universal. A presença dos que lá estão não pode ser colocada em causa. Essa leitura pertence ao Povo e é, constitucionalmente, realizada de quatro em quatro anos. Portanto, o debate nunca pode ser sobre eventuais percursos académicos, mas sobre os conteúdos das propostas ali debatidas. Há deputados com uma auréola de doutor que pouco ou nada adiantam, enquanto outros, sem esse percurso, demonstram estudo, conhecimento e invulgar capacidade de argumentação. No próprio partido do deputado em questão.

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Coerência

 

NOTA
Estas duas intervenções, praticamente com os mesmos membros do governo, têm dois anos. O que mudou?

Segui o último discurso do Senhor Deputado Lopes da Fonseca por ocasião do debate do Orçamento da Região para 2021. Desde logo, uma nota: respeito, sincera e totalmente, as suas posições de agora, quando confrontadas com outras anteriores ao acordo de coligação com o PSD, na sequência das últimas eleições regionais. Mudou, é certo, muito, corrigiu o azimute, é verdade, porque lá diz o povo que "só os burros não mudam de ideias", não é? São tantos os casos que ontem dissertavam a cores negras, algumas vezes cinzentas e que, hoje, "branco mais branco não há". 

Mas o problema não está aí, embora isso gere um gravíssimo desconforto junto dos eleitores. No cerne do problema está a diferença entre ser social-democrata e ser democrata-cristão. De facto, são tão próximos quanto distintos naquilo que é essencial. Portanto, vá lá acreditar em quem? Daí que o problema, pelo menos do meu ponto de vista, não é que seja complexo, colide sim e de que maneira, com uma palavra: COERÊNCIA. 

Porque um partido tem, forçosamente, uma base ideológica distintiva face à qual permite a sua identificação por parte dos eleitores. Daí as diversas formações políticas. Quando a ideologia deixa de existir, quando ela se dissolve no oceano dos interesses, quando os princípios orientadores são deitados no lixo, deduz-se, então, das duas uma: ou as pessoas não estão no lado dos valores que dizem acreditar, ou a questão é mais profunda e prende-se com arranjos partidários e outros, muitos outros, que justificam vender, neste caso, a Democracia-Cristã aos bocados e a pataco, até ao momento de ser completamente engolida pela força maior. 


Aquilo a que assisto não tem nada a ver com as posturas de ilustres figuras públicas de um passado recente que foram, na Região, referências maiores da Democracia-Cristã. Respeitáveis figuras, muitas que tive o prazer de conhecer e, demoradamente, conversar. Que falta fazem à democracia vivida com princípios e de forma honesta. Mas a política chegou a este nível. É a política ziguezagueante, gerida no bas-fond, baseada na facilidade do que hoje é verdade, amanhã, tornar-se em uma grosseira mentira, é a política assente em palavras falsas como se todos fossem mentecaptos. E não é só a Democracia-Cristã na Região. O leitor, pergunto a propósito, entenderá que os socialistas, com 22 Deputados, se tivessem abstido no último Orçamento Regional, depois de dias e dias de tanta crítica e de tanta proposta apresentada e chumbada? Porque não é normal, pergunto, o que estará por detrás disto? Ah e tal, o Covid, o benefício da dúvida! Treta política. Um partido que deseja ser poder tem de apresentar uma alternativa orçamental naquilo que é estruturante. Se não apresenta, então, nada os difere. Abster-se pode significar tão-somente isto: não faríamos melhor!

É nestas circunstâncias que os eleitores vivem. E queixam-se da abstenção? Pois, meus Caros, sem credibilidade, honestidade, referências e posicionamentos exemplares, Bordallo Pinheiro criou a fantástica metáfora do "Zé Povinho".