sábado, 29 de setembro de 2012

POR AQUI, TAMBÉM EXISTEM CORONÉIS. O CACAU É QUE É OUTRO!


Coronel Ramiro: "Tem não. Vocemecê é forasteiro. É que nem vento que vem, passa e vai embora. Eu sou da terra onde se planta o cacau. Sou daqui. Vocemecê é de lugar nenhum".
Dr. Mundinho: "Engana-se Coronel. Eu vim para fincar raízes. Como uma semente que cai na terra, germina, vira árvore, árvore nova, coronel, que traz bons frutos. Já as árvores velhas secam, caiem".
Coronel Ramiro: "Vocemecê tem a ousadia de dizer que vou cair? Procure saber: tudo aqui nesta cidade depende de mim".
 
 
António Fagundes no papel
de Cor. Ramiro Bastos.
Por aqui também existem
alguns coronéis!
Trinta anos depois de Gabriela ter chegado à televisão, a novela baseada na obra do notável Jorge Amado, esta versão, produzida pela Globo, está a permitir um reavivar da memória de um trabalho que, ao tempo, apaixonou Portugal inteiro. Anteontem segui um capítulo. Voltei atrás e, pacientemente, transcrevi uma parte que considerei de uma flagrante oportunidade. Afinal, também por aqui, existem alguns coronéis!
A cena passa-se no baile da Associação Comercial. Envolve vários personagens, desde coronéis, à neta do Coronel Ramiro Bastos (o homem forte da cidade, Intendente de Ilhéus, e que todos temem) Jerusa, a neta de Ramiro Bastos e o Dr. Mundinho, recém chegado à cidade, opositor político de Ramiro Bastos. A parte que aqui transcrevo, naturalmente, com algumas omissões de transcrição, refere-se à apresentação de Jerusa ao Dr. Mundinho que Ramiro Bastos, à distância, vê e não gosta.
Jerusa: "Fiz alguma coisa de errado?"
Coronel Ramiro: "Fez. Falou com este homem que é meu desafecto. Tocou onde não devia. Vá, vá, vá... (...)"
Acompanhante de Jerusa: "Venha, venha Jerusa. Obedeça ao seu avô".
Coronel Ramiro: "Dr. Mundinho, eu não quero o nome da minha neta Jerusa na sua boca. E você aí doutor teve o atrevimento de apresentar este homem para a minha neta?"
Doutor: "Os senhores têm desavenças na política e nos negócios, mas eu acredito que podemos conviver".
Coronel Ramiro: "Nos bons tempos este homem nem estaria aqui. E se o cabra ousasse seria posto para fora a pontapé".
Dr. Mundinho: "Coronel Ramiro Bastos, até agora eu ouvi quieto em respeito pela sua idade, mas por favor não me ofenda. Tenho tanto direito de estar aqui quanto o senhor".
Coronel Ramiro: "Tem não. Vocemecê é forasteiro. É que nem um vento que vem, passa e vai embora. Eu sou da terra onde se planta o cacau. Sou daqui. Vocemecê é de lugar nenhum".
Dr. Mundinho: "Engana-se Coronel. Eu vim para fincar raízes. Como uma semente que cai na terra, germina, vira árvore, árvore nova, coronel, que traz bons frutos. Já as árvores velhas secam, caiem".
Coronel Ramiro: "Vocemecê tem a ousadia de dizer que vou cair? Procure saber: tudo aqui nesta cidade depende de mim".
Dr. Mundinho: "É por causa do senhor que o progresso não chega aqui".
Coronel Ramiro: (rindo para os outros coronéis) "Quer tomar o meu lugar. É para rir. O povo acredita na minha pessoa, vota em mim e em quem eu mandar".
Dr. Mundinho: "O povo vai abrir os olhos, coronel, e nesse dia o senhor vai perder e o progresso vai dar o seu lugar. (...) Despeço-me, mas há uma coisa que eu admiro.
Coronel Ramiro: "(olhando para os outros) "Agora vai dizer que me admira".
Dr. Mundinho: "Tem uma linda neta, coronel. Um encanto para os olhos. Até mais ver". (Despede-se, passa pela neta e cumprimenta-a).
Coronel Ramiro: "Que ousadia. Noutro tempo eu abria o bucho deste cabra mesmo".
Outro Coronel: "Os tempos mudaram".
Outro Coronel: " Mudaram para pior. Se for preciso jagunço tenho lá um".
Coronel Ramiro: "Não é preciso (...) não vou me preocupar com moleque que acabou de chegar".
Outro Coronel: "Ele foi cumprimentar a sua neta".
Coronel Ramiro: "Não posso negar que ele tem colhão. Mas não se atreva a cortejar a minha neta Jerusa. Aí vai ser assunto de família. Isso sim, a gente resolve com sangue".
Achei interessantíssimo este diálogo de implicações políticas onde a neta Jerusa apenas constitui um pretexto. Dei comigo a segui-lo e a contextualizá-lo na vida política da Madeira. Aqui também há vários "coronéis" (o cacau é que é outro) e há um que desempenha o papel de Ramiro Bastos: "O povo acredita na minha pessoa, vota em mim e em quem eu mandar". Nem mais. Só que há também "coronéis" a dizer que "Os tempos mudaram". O Ramiro da novela ameaça com sangue (quando a "família" for posta em causa - eu diria, em aproximação à Região, a "máfia boazinha" for posta em causa). Aqui, em 1975, também houve bombas e sangue! Sem querer ser pejorativo, porque se trata de calão, apenas utilizando a palavra de Ramiro Bastos, aqui também há gente de "colhão"!
Ilustração: Google imagens.

5 comentários:

Vico D´Aubignac (O Garajau) disse...

Caro Professor,
Muito bom e oportuno este seu post.
Lemos atentamente até ao final, pensando que iria todavia terminar o relato com a cena do ultimo episódio, na verdade o ultimo frame se bem se lembra:
O Dr Mundinho, de fato branco e chapéu, a entrar triunfante no vilarejo e um pata rapada, genufletido, a beijar-lhe a mão direita em sinal de submissão ao novo "Coroné" todo poderoso.
Mundinho tomou o lugar de Ramiro. Subentendeu-se nesse gesto a farsa que é a vida política.
Saudações.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
Exacto. Uma grande farsa. À escala local, basta um simples olhar para os bastidores e tudo quanto de move por detrás destas candidaturas à liderança do PSD regional. Por detrás das candidaturas e por detrás do povo.
Um abraço e bom fim-de-semana.

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Vico D'Aubignac colocou o dedo na ferida...
Apolítica é mesmo isso.

Filipe Sequeira disse...

Aqui nesta novela, Coronel Alberto Jardim Alzheimar, não tem lugar não.
Coronel Alzheimar Jardim, já tentou imitar Luis XIV...sucumbiu por evidente falta de memória para o efeito..., já nem se lembra do "catorze"...!
Tentou dar uma refrescada noa imagem do seu ídolo Pinochet, desistiu, por evidente excesso de idade para o honoravel cargo...!
Negro de raiva, pretende agora representar Obama, perante Albuquerque...independentemente do resultado já foi à vida...neste momento, rezam-se missas do parto, em defesa da sua definitiva viagem...que Deus lhe perdoe...Paz à sua alma politica...!

João André Escórcio disse...

Obrigado pelos vossos comentários. Por falta de cuidado da minha parte em verificar os comentários em moderação, só agora os publico. Peço desculpa.
Um abraço aos dois.