terça-feira, 23 de abril de 2013

ESTAMOS A SER ENGANADOS


O presidente da Comissão Europeia admitiu que a Europa falhou ao não explicar o que estava em jogo e afirmou que "as políticas de correcção orçamental – mesmo que sejam correctas – não são política e socialmente sustentáveis". Vejamos, desde logo a contradição: por um lado as políticas são correctas, por outro, não são socialmente sustentáveis. Em que ficamos? Disse: "Penso que estamos a atingir o limite das actuais políticas" (...) "Porquê? Porque uma política, para ter êxito, não pode apenas estar bem desenhada, tem que ter um apoio político e social mínimo". Ora, esta posição não é assumida por ignorância, mas com dois sentidos: primeiro, para colocar-se, de certa forma, à margem das responsabilidades e granjear alguma simpatia; por outro, pela necessidade de ir ao encontro dos interesse do directório europeu que serve. Uma no cravo outra na ferradura como vulgarmente se diz.


Enganam-nos com palavras doces e com um ar celestial, como se não tivessem nada a ver com o assunto, como se fosse menor a memória de todos quantos seguem a informação diária. Dizem uma coisa hoje e amanhã outra, baralham-se e intencionalmente conflituam entre pares ao mais alto nível da decisão política, outros, dentro do País, teimosamente, seguem o mesmo rumo quando os demais olham em redor e, percebendo o lado prático da economia, verificam que o caminho está completamente esburacado. Ainda ontem, por exemplo, o presidente da Comissão Europeia admitiu que a Europa falhou ao não explicar o que estava em jogo e afirmou que "as políticas de correcção orçamental – mesmo que sejam correctas – não são política e socialmente sustentáveis". Vejamos, desde logo a contradição: por um lado as políticas são correctas, por outro, não são socialmente sustentáveis. Em que ficamos? Disse: "Penso que estamos a atingir o limite das actuais políticas" (...) "Porquê? Porque uma política, para ter êxito, não pode apenas estar bem desenhada, tem que ter um apoio político e social mínimo". Ora, esta posição não é assumida por ignorância, mas com dois sentidos: primeiro, para colocar-se, de certa forma, à margem das responsabilidades e granjear alguma simpatia; por outro, pela necessidade de ir ao encontro dos interesse do directório europeu que serve. Uma no cravo outra na ferradura como vulgarmente se diz. 
Porém, qualquer pessoa com responsabilidade política (ou gestionária) sabe que existem técnicas de previsão quantitativa e técnicas de previsão causais e não causais. Sabe que, nas primeiras, há métodos de extrapolação (técnicas de projecção matemática de fenómenos mais ou menos estáveis, pretendendo-se projectar o futuro a partir de tendências e conhecimentos passados), de decomposição de séries temporais (que se baseiam no tratamento isolado e em diferenciação das componentes de tendência, estabilidade e movimentos cíclicos) e modelos econométricos (previsões assentes na análise conjunta de múltiplas relações simultâneas entre diversas variáveis); e conhece as segundas, as técnicas de previsão causais (explicação das relações causa-efeito) e não causais (quando não pode ser estabelecida uma relação de causa-efeito) através da identificação das variáveis endógenas (controláveis) e exógenas (normalmente não controláveis). E depois existe a questão do horizonte temporal das previsões que podem ir desde o muito grande prazo ao muito curto prazo. Eles sabem de tudo isto, sabem que a previsão constitui a primeira fase do processo de planeamento e que a previsão tem por objectivo estudar os acontecimentos susceptíveis de explicar aquilo que deve ser ou aquilo que vai acontecer no futuro. Quando alguém toma uma decisão tem assim de saber, com um elevado grau de segurança, quais as consequências futuras das decisões tomadas hoje. É, por isso que julgo que estamos a ser todos enganados.
Leio: Paul Krugman, num artigo de opinião no "El País" – "A depressão do Excel" - tece considerações sobre o "erro" de Rogoff e Reinhart, apontando o dedo aos decisores políticos por aceitarem indubitavelmente estudos como os dos dois economistas. "Devemos situar o fiasco de Reinhart e Rogoff no contexto mais amplo da obsessão pela austeridade: o evidente desejo dos legisladores, políticos e peritos de todo o mundo ocidental em contornarem o problema do desemprego e, como troca, utilizar a crise económica como desculpa para reduzir drasticamente os programas sociais". De acordo com o economista, desde a publicação de "Crescimento em tempo de dívida", o estudo tem sido questionado por vários académicos que negavam que uma dívida pública elevada conduzia necessariamente a uma taxa de crescimento lenta. "Pode ocorrer perfeitamente o contrário: um mau comportamento económico conduzir a uma dívida elevada", refere Krugman. O economista dá como exemplo o Japão, que se começou a endividar gradualmente depois do seu crescimento económico começar a abrandar no início dos anos 90". Pelo que assume o Nobel da Economia, estamos a ser todos enganados.
Em contraponto, leio também as declarações de Merkel que aponta uma integração mais profunda dos países da Zona Euro. Austeridade e consolidação são algumas das necessidades dos países que partilham a moeda única. Angela Merkel afirmou que os estados-membros da Zona Euro têm de estar preparados para ceder a soberania, em determinados domínios, às instituições europeias. Esse pode ser o preço a pagar para ao países do euro superarem a crise da dívida e reconquistar os investidores estrangeiros. A chanceler alemã continua a insistir no conceito de austeridade, garantindo que a Europa tem de encontrar uma forma de assegurar crescimento e consolidação financeira. E leio, finalmente, o que C. Lagarde, do FMI, diz hoje e muda no dia seguinte: uns dias apela ao controlo da austeridade, em outros, através dos seus emissários, manda carregar na austeridade. Em conclusão: estamos a ser enganados.
Ilustração: Google Imagens.

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