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segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Crise financeira: até o FMI teme o pior


Por
Yanis Varoufakis, 
in Outras Palavras, 
07/10/2022




Subitamente — e contra todos os prognósticos — o FMI, o xerife da ordem económica capitalista condenou o novo favor do governo inglês aos super-ricos. Turbulências sugerem: um novo repique da crise global aberta em 2008 pode estar próximo.



Em 30 de setembro, o Fundo Monetário Internacional assustou os mercados e surpreendeu os comentaristas ao repreender o governo conservador do Reino Unido por irresponsabilidade fiscal. O choque foi evidente. A crítica do FMI ao governo de uma grande economia ocidental é como um zelador repreendendo o proprietário por colocar em risco o valor avaliado do prédio. Essa sensação de inversão da ordem usual das coisas foi ainda mais nítida porque, não esqueçamos, foram os conservadores britânicos, sob a rígida liderança de Margaret Thatcher, que ditaram a regra sobre a probidade fiscal como alicerce do neoliberalismo. O FMI passou mais de quatro décadas impondo essa ortodoxia a governos em todo o mundo.

Como numa tentativa de amplificar a agitação que certamente causaria, o comunicado do FMI chegou a censurar o governo britânico por introduzir grandes cortes de impostos (agora parcialmente cancelados após a intervenção do Fundo), porque eles iriam principalmente “beneficiar os que ganham mais” e “provavelmente aumentar a desigualdade”. Os conservadores leais à sitiada nova primeira-ministra da Grã-Bretanha, Liz Truss, os republicanos mais vigorosos dos EUA, analistas econômicos internacionais e até mesmo alguns de meus camaradas de esquerda ficaram brevemente unidos por uma perplexidade comum: desde quando o FMI se opõe a mais desigualdade? Seria difícil identificar um único “programa de ajuste estrutural” do FMI que não aumentou a desigualdade. Se duvidar, pergunte à Argentina, Coreia do Sul, Irlanda ou Grécia (onde fui ministro das Finanças e tive que negociar com o FMI) sobre as restrições associadas a seus empréstimos. Os burocratas intransigentes do Fundo teriam passado por um momento como o da “estrada de Damasco”?

Três teorias surgiram sobre os motivos do FMI para se opor aos cortes de impostos do Reino Unido para os ricos. Uma delas é que o conselho do Fundo temia que a instituição tivesse dificuldade para arrecadar dinheiro suficiente, se Londres viesse a solicitar um resgate. Outra teoria, expressa pelo ex-secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, é que o FMI agora entendia que deveria mostrar imparcialidade em suas negociações com países ricos e pobres. “Quando há uma situação de crise ou políticas manifestamente irresponsáveis, é meio natural que o FMI faça algum tipo de registro”, disse Summers ao Financial Times, acrescentando: “Não acho que o FMI deva distinguir entre acionistas ricos e seus acionistas de mercados emergentes”.

Uma terceira teoria seguiu a lógica da conversão paulina, sugerindo que a declaração do FMI condenando as doações do governo Truss para os ultrarricos poderia marcar uma mudança radical na instituição sediada em Washington. De acordo com essa visão, o FMI estava percebendo que para salvar a ordem liberal internacional dos vários populistas autoritários ascendentes no mundo – como Donald Trump, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Viktor Orbán, Narendra Modi e Jair Bolsonaro – era preciso mudar sua missão para uma direção mais social-democrata.

Apesar de hipóteses interessantes, nenhuma dessas explicações se encaixa com a realidade à qual o FMI respondeu com a surpreendente declaração da semana passada. A noção de que Londres requererá um resgate grande demais para o FMI é absurda. A Grã-Bretanha é um país rico, que toma emprestado exclusivamente em uma moeda impressa pelo Banco da Inglaterra. Se o pior acontecesse, o Banco da Inglaterra poderia aumentar as taxas de juros para até 6% para estabilizar a libra esterlina e os mercados monetários. Uma taxa de juros nesse nível certamente demoliria o modelo econômico do Reino Unido dos últimos 40 anos, mas seria preferível a um resgate do FMI.

E tenho experiência em primeira mão que contradiz a teoria de que o FMI só agora, pela primeira vez, decidiu confrontar um país do G7 cujas políticas considera ameaçar a estabilidade financeira global. Em minhas negociações como ministro das Finanças da Grécia com o Fundo, em 2015, os principais funcionários foram abertamente contundentes sobre a rejeição do governo alemão de um plano de reestruturação total da dívida pública da Grécia; acusaram Berlim de minar a estabilidade financeira da Europa e, por extensão, do mundo.

Um ano depois, em uma conversa telefônica entre altos funcionários do FMI publicada pelo WikiLeaks, seu chefe europeu disse a um colega que o Fundo deveria confrontar a chanceler alemã Angela Merkel e dizer: “A senhora está diante de um dilema. Precisa pensar no que é mais caro: seguir em frente sem o FMI, ou escolher o alívio da dívida que achamos que a Grécia precisa para nos manter a bordo.” Nessa segunda teoria, o FMI agora deveria começar a agir em relação aos governos ocidentais da mesma forma que faz com os países em desenvolvimento.

Isso nos leva à terceira, e mais interessante, das três explicações: para salvar a ordem liberal global do populismo de direita, o FMI está se tornando social-democrata, até mesmo “woke”: como alguns conservadores britânicos têm acusado. A verdade, temo, é menos heroica. O que aconteceu na semana passada é simplesmente que o FMI entrou em pânico. Assim como outras pessoas inteligentes do governo dos EUA e do Federal Reserve, seus funcionários temiam que o Reino Unido estivesse prestes a fazer com os Estados Unidos e o resto do G7 o que a Grécia havia feito com a zona do euro em 2010: desencadear uma crise financeira num incontrolável efeito dominó.

Nos dias que antecederam a declaração de “mini-orçamento” do governo Truss, o mercado de US$ 24 trilhões de bônus do Tesouro dos EUA, cuja saúde decide se o capitalismo global respira ou engasga, já havia entrado no que um analista financeiro chamou de “vórtice de volatilidade”, algo não visto desde o crash de 2008 ou os primeiros dias da pandemia. O rendimento do título de referência de dez anos do governo dos EUA aumentou acentuadamente de 3,2% para mais de 4%. Pior ainda, um grande número de investidores evitou um leilão de novas dívidas dos EUA. Nada assusta mais as autoridades do que o espectro de uma greve de compradores nos mercados de títulos dos EUA.

Para acalmar os nervos dos investidores, as autoridades defenderam-se com mensagens tranquilizadoras. Neel Kashkari, presidente do Federal Reserve de Minneapolis, resumiu o estado de espírito assim: “Estamos todos unidos em nosso trabalho para reduzir a inflação para 2% e estamos comprometidos em fazer o que precisamos para que isso aconteça.” Este foi o momento em que o governo do Reino Unido decidiu anunciar a política fiscal mais expansionista da Grã-Bretanha desde 1972.

As autoridades norte-americanas não foram as únicas a se preocupar. Dias antes desse “evento fiscal” do governo de Londres, o Conselho Europeu de Risco Sistêmico – um órgão estabelecido pela União Europeia após a crise de 2008-2009 – emitiu seu primeiro aviso geral, confirmando que os mercados financeiros da Europa haviam caído no vórtice de volatilidade que se originou nos Estados Unidos. Os fornecedores de eletricidade da Europa faliriam devido a compromissos com pedidos futuros a preços exorbitantes, a poderosa indústria manufatureira da Alemanha fecharia por causa da escassez de gás natural e a dívida pública e privada subiria rapidamente.

Um choque financeiro extra do Reino Unido tinha o potencial de causar enormes efeitos colaterais em toda a Europa e além. Se o mercado subprime dos EUA pôde empurrar os bancos franceses e alemães para a beira de um precipício em 2008-09, essa última onda de choque da anglosfera poderia causar danos semelhantes, especialmente se abalasse o mercado de títulos do Tesouro dos EUA.

Diante dessa crescente tempestade transatlântica, a decisão do FMI de intervir não foi surpreendente. O único enigma restante é por que o FMI apontou ou ultrarricos como beneficiários da desigualdade ampliada pelos cortes de impostos do governo Truss. Embora a força das circunstâncias tenha mudado de forma significativa, duvido que isso signifique o fim dos instintos neoliberais do FMI. Muito mais provável é o seguinte: o FMI percebeu que as políticas de geração de desigualdade pós-2008, que ajudou a aplicar, mergulharam o capitalismo do Atlântico Norte em um estado de estagnação que agora é instável, e teme que esse vórtice de volatilidade piore com as novas medidas, e que isso criasse desigualdade ainda maior. Se o FMI começou a não gostar da desigualdade, é apenas porque a vê como causadora de instabilidade sistêmica.

Após o colapso financeiro de 2008, os EUA e a UE adotaram uma política de socialismo para banqueiros e austeridade para as classes médias e os trabalhadores. Isso acabou por sabotar o dinamismo do capitalismo ocidental. A austeridade encolheu os gastos públicos precisamente quando os gastos privados estavam em colapso, e isso acelerou o declínio dos gastos públicos e privados. Em outras palavras, fez despencar a demanda agregada na economia.


Ao mesmo tempo, a flexibilização quantitativa [quantitative easing] dos bancos centrais canalizou rios de dinheiro para o Big Finance, que o repassou para o Big Business, que, diante dessa baixa demanda agregada, o utilizou para recomprar suas próprias ações e outros ativos improdutivos.

A riqueza pessoal de alguns disparou, os salários da maioria estagnaram, o investimento desmoronou, as taxas de juros despencaram e os Estados e as corporações tornaram-se viciados em dinheiro grátis. Então, quando os bloqueios da pandemia sufocaram a oferta de bens e os auxílios governamentais aumentaram a demanda, a inflação voltou. Isso forçou os bancos centrais a escolher entre concordar com o aumento dos preços ou destruir os zumbis corporativos e estatais que eles alimentaram por mais de uma década. Eles escolheram o primeiro.

De repente, porém, o FMI viu a capacidade perdida do establishment liberal de estabilizar o capitalismo refletida no aumento da desigualdade econômica. Assim, a última coisa que os mercados precisavam, perceberam os tecnocratas do Fundo, era mais socialismo para os ricos. Mas seria preciso muita boa vontade para interpretar a reação de pânico do FMI como uma conversão sincera à redistribuição econômica e à social-democracia. Foi apenas uma advertência contra um ato de automutilação da elite.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O COMPORTAMENTO POLÍTICO ESQUIZOFRÉNICO DO FMI


Umas vezes, de mansinho, vêm dizer que a austeridade foi longe demais. Em outros momentos, mostram os dentes e afiam a língua para criar o ambiente necessário à inevitabilidade da austeridade. Perceber este comportamento político esquizofrénico não é fácil, quando um recente estudo prova a completa falência das opções propostas pela famigerada troika. Mas eles insistem, combinados, à vez, ora o FMI, ora a Comissão Europeia, ora aqueles que, dentro do País, olham para os portugueses como se fossem uma folha de Exel. Eles secundarizam tudo, a opinião dos economistas laureados com o Prémio Nobel, eles fazem o encantador discurso da solidariedade, mas marimbam-se em tudo o que cheira a pobreza, eles prometem um amanhã de felicidade, porém, na prática, o que se constata é que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Não é paleio, apenas os dados da estatística. Cada vez melhor me soa "Os Vampiros" de Zéca Afonso. Um tema intemporal. 


Christine Lagarde (FMI), sistematicamente, diz e contradiz. Tem dias. É uma Senhora conforme, conforme as pressões, os mercados, os interesses económicos e financeiros, toda essa gentinha para quem a multiplicação do dinheiro especulativo constitui objectivo primeiro da vida. Tem dias que lhe rebate a consciência. Mas depressa lhe passa. A verdade é que à custa dos mais vulneráveis e da sua exploração, falam por eles ao mesmo tempo que escondem as riquezas no Panamá e em tantos outros sítios congeneres. Ontem, a Senhora, agarrada a um relatório(!), veio, uma vez mais, puxar as orelhas ao governo português, ao insistir na necessidade de "mais medidas adicionais", leia-se medidas de austeridade, para cumprir o défice. Escrevo estas palavras ao mesmo tempo que vou cantarolando Zéca:
(...)
"A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas
São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei
(...)
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada.
(...)
Para ela e outros não há vida para além do défice. Há que restringir as despesas. Na Educação, na Saúde e nos direitos sociais já de si mínimos. Há que cortar, maldosa e fanaticamente, nos subsídios que disfarçam a pobreza. Há que continuar a política do trabalho sem regras, o despedimento facilitado, o trabalho precário, os "bancos de horas" e a enorme carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, em geral (Portugal foi o país da OCDE que mais aumentou a carga fiscal para os trabalhadores com baixos rendimentos em 2015 - Passos Coelho), e, em particular, sobre a praga dos recibos verdes. Há que privilegiar a banca, pondo o povo a pagar as leviandades, como se a esmagadora maioria desse povo fosse culpada pelo desastre gestionário. Há que assobiar para o lado, aquando de situações reprováveis como o daquela ex-comissária europeia Neelie Kroes, soube-se agora, que terá administrado uma empresa sediada numa "offshore", nas Bahamas, entre 2000 e 2009, em violação do código de conduta do executivo comunitário. A falta de vergonha e de honestidade passam ao lado, mas uma ou duas décimas no défice é logo motivo de alertas, de perseguições e de ameaças de corte nos fundos a transferir. Uma coisa é o dever de sermos rigorosos e irrepreensíveis administradores da coisa pública; outra é esta constante pressão que traz no seu bojo o roubo a quem pouco tem. Oh país martirizado e ofendido por aqueles que servem os grandes interesses! Acordemos!
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

FMI "ERROU" NO DIAGNÓSTICO E APLICOU A RECEITA. RESTA SABER SE INTENCIONALMENTE!


Leio no "Observador": "FMI errou na "narrativa". A Portugal faltava poupança, não competitividade. O Relatório independente, encomendado pelo FMI, diz que o fundo desenhou o Programa da troika partindo de um diagnóstico errado. E que chegou ao fim ainda em risco de entrar num caminho "explosivo". O Fundo Monetário Internacional (FMI) aterrou em Portugal em 2011, para desenhar o programa de resgate, trazendo no bolso vários anos de diagnósticos errados dos principais problemas da economia nacional. Foi esta quinta-feira divulgado um vasto relatório, encomendado pelo FMI, em que vários especialistas fazem uma análise independente da forma como o FMI interveio na Grécia, Irlanda e Portugal" (...) O FMI colocou demasiada ênfase na falta de competitividade no sector exportador de Portugal como causa primordial dos défices comerciais e da conta corrente. Não encontrámos suporte a esta análise nos dados". A pergunta é legítima: isto significa(ou) incompetência por parte dos técnicos do FMI ou as análises feitas tiveram um cunho intencional? Porventura, um dia, se saberá.


Eles são técnicos, obviamente, mas respeitam, julgo eu, quem os chefia. Daí que esteja em causa Christine Lagarde. Aliás, Senhora que ao longo de todo o tempo demonstrou avanços e recuos discursivos muito pouco equilibrados para as funções que desempenha. Mas, reportando-me aos técnicos, nunca gostei do ar arrogante, a forma como entravam no nosso Parlamento Nacional, o semblante carregado como se apresentavam, ao jeito de "donos disto tudo", e que terminou (?) com o chefe da missão do Fundo Monetário Internacional (FMI), Subir Lall, a faltar à reunião da Concertação Social que ele próprio tinha convocado (28 de Junho). Uma deselegância de significado político relevante. A leitura que qualquer pessoa faz de todo este processo, é que a sofisticada engrenagem está muito para além do que os nossos olhos alcançam. 
Lamento, entre outras, três coisas: primeiro a subserviência dos Órgãos de Soberania Nacional, durante quatro anos, ao ponto do então Presidente da República, Professor Cavaco Silva, ter sublinhado: "(...) Foi tomada uma decisão muito importante para o nosso futuro: colocámos atrás das costas a sétima avaliação" (...) "Penso que foi uma inspiração da nossa Senhora de Fátima"; depois, lamento a falta de referências políticas no plano das instituições internacionais. Deixámos de acreditar na honestidade e seriedade dos processos e das concomitantes decisões políticas; finalmente, pelo erro de diagnóstico, pagámos e continuamos a pagar. Quem nos ressarcirá pelos danos?
Em três palavras: somos constantemente enganados. O presente relatório do FMI isso mesmo demonstra.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

WOLFGANG SCHÄUBLE DOMINA AS FINANÇAS ALEMÃES E AS DOS OUTROS... POR QUE SERÁ?


Portugal precisa de um novo programa de resgate, diz o Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble. É por estas e muitas outras que milhões de europeus estão fartos e cheios DESTA Europa. Depois não querem mais referendos! 


Schäuble sabe-a toda. Ele sabe como ganhar com a desgraça, leia-se pobreza, dos outros. Ele transporta no seu nome Wolf(gang) - bando, quadrilha ou corja; grupo organizado que se reúne para prejudicar algo ou alguém - aquilo que algumas figuras europeias de braço dado com o FMI, há muito fazem aos mais vulneráveis. É o caso desse chefe de missão do FMI, Subir Lall que teve o desplante de colocar em causa as 35 horas de trabalho, o que significa ir contra a Assembleia da República e o governo português. "Subir" até pode, mas não à nossa custa.
Enfim, todos com o trabalhinho de casa feito e copiado uns dos outros.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 7 de junho de 2016

ANEDÓTICO: FMI ADMITE QUE AGENDA NEOLIBERAL ELEVA A DESIGUALDADE


Penso não existir outra palavra que caracterize a posição dos economistas do FMI: anedótica. Depois de tantas posições, inclusive através de Prémios Nobel da Economia, sistematicamente ignorados pelo FMI, a comunicação social destacou as declarações assumidas por Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri: "(...) Em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, colocando em risco uma expansão duradoura". Isto é, as políticas receitadas pelo FMI acabaram por ser criticadas pelos próprios economistas. É de gargalhada, ou então, por detrás destas declarações há mais qualquer coisa que não se descortina.



Resta agora saber se a União Europeia, esmagadoramente neoliberal, o que pensa disto e como é que irá actuar. Continuará a defender a  cega austeridade como medida fundamental para o crescimento? E o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, absoluto defensor de uma agenda política que tem visado o "empobrecimento" (disse-o após as eleições de 2011) de uma grande parte dos portugueses, que resposta tem para estes três economistas? E o que dirá relativamente ao governo da República que nega a austeridade? Sentar-me-ei para assistir.  
Ilustração: Google Imagens.





domingo, 3 de abril de 2016

OS VAMPIROS ESTÃO DE VOLTA


O Fundo Monetário Internacional, depois de, por diversas vezes, ter assumido que a austeridade foi longe demais, vem agora, através de Christine Lagarde, duvidar da capacidade de Portugal cumprir metas. Défice inferior a 2,9% só com Plano B, diz o FMI. E o que tal plano b) significa é, apenas, mais austeridade, mais constrangimento para as famílias e continuidade do empobrecimento. O resto é conversa fiada em que se especializaram as instituições porta-vozes dos grandes interesses financeiros. Montaram, paciente e obstinadamente, uma complexa engrenagem onde necessário se torna uma inteligência capaz de poder escapar ao redemoinho. Há quanto tempo a direita política fala de um plano b)? No essencial, estão todos umbilicalmente interligados, FMI, União Europeia, agências de rating e seus sequazes.



Christine Lagarde, leio, "não acredita nas metas orçamentais que António Costa traçou para Portugal e pede mais esforço e menos generosidade. Adiar a reposição integral dos salários dos funcionários públicos, manter a sobretaxa do IRS e preparar um plano B que permita cumprir as metas do défice são algumas das recomendações do FMI". Ora, esbater a pobreza, dinamizar a economia assente em um outro paradigma é coisa que não lhes interessa. A receita que definiram é a que se ajusta ao pensamento dominante. Austeridade, privatizações a eito, emprego precário, substancial redução dos apoios sociais, tudo para defesa dos "investidores" e nada em defesa do bem-estar mínimo das populações. Nem se coíbem de "invadir" os países, remetendo, de longe, o discurso desestabilizador de qualquer dinâmica alternativa. Uma vergonha! Tenhamos presente quando o grego Varoufakis quis, na UE, discutir economia, teve como resposta: "você até tem razão mas vamos esmagar-vos mesma". A UE discute Tratados (porquê e com que interesse!) os povos querem que se discuta Economia. Li em uma entrevista a Varoufakis: "O Eurogrupo toma decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém” (...) "Afinal o que temos é um grupo inexistente que tem o maior poder para determinar as vidas dos europeus. Não presta contas a ninguém, dado que não existe na lei; não há minutas das reuniões; e é confidencial. Por isso nenhum cidadão sabe o que lá é dito… São decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém" (...) "Quando falava nas reuniões, com argumentos económicos preparados, "as pessoas ficavam a olhar para mim, como se não tivesse falado (…) Bem podia estar ali a cantar o hino da Suécia que ia receber a mesma resposta (…) Nem sequer havia mal-estar, era como se ninguém tivesse dito nada", revelou Varoufakis. (...) O que mais impressionou Varoufakis nas reuniões a que assistiu foi a "completa ausência de qualquer escrúpulo democrático por parte dos supostos defensores da democracia". O ex-ministro da Grécia dá um exemplo: "Ter várias figuras muito poderosas a olharem-me nos olhos e dizerem ‘Você até tem razão no que está a dizer, mas vamos esmagar-vos à mesma".
É esta Europa que temos e é neste mundo que o FMI funciona. Entretanto, porque tudo tem um limite começam a surgir alguns movimentos contra esta lógica própria de sanguessugas. "Mário Centeno, ministro das Finanças de Portugal, faz parte de um grupo de oito ministros das Finanças europeus que escreveram uma carta à Comissão Europeia a contestar a fórmula de cálculo do défice estrutural, que serve de base à definição do esforço orçamental que os países têm de fazer todos os anos, para cumprir os tratados europeus. A carta está ser avançada pelo jornal espanhol Expansión, numa notícia sobre um movimento de “rebelião” liderado por Espanha e por Itália. Além destes dois países e de Portugal, assinam a carta Luxemburgo, Lituânia, Letónia, Eslovénia e Eslováquia. A carta é dirigida ao vice-presidente da Comissão, Valdis Dombrovskis e ao comissário Pierre Moscovici, com conhecimento do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. Os governantes apontam para "incoerência" no atual sistema. O principal argumento é que o défice estrutural é calculado em função do PIB potencial – um indicador "desconhecido” e que portanto gera estimativas com “um elevado grau de incerteza”. A utilização do défice estrutural produz assim "diferenças significativas" entre diferentes Estados membros quando se avalia se há ou não cumprimento dos objectivos do défice estabelecidos pela União Europeia. Mário Centeno assina a carta depois de um Orçamento do Estado para 2016 marcado por intensas discussões com a Comissão Europeia sobre o esforço de ajustamento orçamental necessário para este ano. Bruxelas impôs mil milhões de euros de medidas adicionais, face às intenções iniciais do Governo, precisamente com o argumento de que seria necessário reduzir o défice estrutural em linha com as regras europeias" (ionline).
E assim andamos nós nesta embrulhada!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

NEGOCIAÇÃO (?) APENAS PARA A FOTOGRAFIA. DESDE QUE ASSUMAM O QUE QUEREMOS... TUDO BEM!


Comissão Europeia peremptória: resta esperar pelo desfecho da consulta popular do próximo Domingo, pois "agora é o momento de o povo grego escolher o seu futuro". Esta declaração, à luz de todo o processo, parece transportar uma mensagem clara: ou votam sim e aí terão de subordinar-se às regras que os mercados desejam (as instituições estão vergadas aos interesses que de todo não são os dos povos); ou votam não e à Grécia as portas do financiamento ficarão, tendencialmente, bloqueadas. 


Em uma e outra situações a crise humanitária agravar-se-á, no caso do não com a agravante de réplicas em outros países. No essencial, o que isto significa é que todos têm de ir comer o milhinho nas mãos de "Merkel & Associados". Pedro Abrunhosa sintetizou e bem:"O grande capital descobriu que não precisa da Democracia para nada". É isso. Muito menos encaixam no seu léxico as palavras "solidariedade", "liberdade", "fraternidade" e "igualdade". Porventura nem conhecem os princípios que sustentaram a criação da UE. Mais, ainda: para essas figuras negociar é apenas um enfeite democrático e para a fotografia, porque ou aceitam assim, ou nada!
Todas as dívidas devem ser pagas, obviamente, interessa saber como e em quanto tempo. E quando um Nobel da Economia e outras figuras criticam, severamente, esta forma de lidar com as dívidas (austeridade sobre austeridade e empobrecimento galopante), eu que nada sei sobre matéria económica, pasmo ao verificar a leviandade das diversas instituições que nem aprendem com os resultados das suas politicas no passado recente.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

CHRISTINE LAGARDE NÃO ESTÁ EM CONDIÇÕES DE SENTIR O DRAMA DOS OUTROS


Por um lado diz-se "desapontada" pelos resultados "inconclusivos", logo depois manda apertar com os gregos; uma vezes diz que a austeridade foi longe de mais, mas logo a seguir pede reformas que vão no sentido da austeridade; em outros momentos salienta a disponibilidade para colaborar com as autoridades gregas, como foram as recentes declarações à BBC, mas logo depois fecha-se ao lembrar que os compromissos têm de ser satisfeitos nas datas marcadas. Isto é, parece-me, no plano político, uma barata tonta enfeitada com um lenço Channel.
 

Christine Lagarde, hoje Directora Geral do FMI, tem a escola da direita política. Ela quer lá saber do desastre humanitário grego quando, por um lado, enfrenta a pressão do grande capital especulativo e, por outro, defende o seu rendimento anual LÍQUIDO de € 323.000,00, a que se somam € 58.000,00 para despesas. Será que ela está em condições de sentir como nós o drama dos outros?
O sentimento que tenho é que, face aos desenvolvimentos dos últimos dias, depois da publicação do texto de Varoufakis (sugiro a leitura desse texto que aqui publiquei ontem), quer o FMI, quer as instituições europeias, procuram uma nesga para sair do problema, mas sempre de forma a agravar a situação grega. Evito escrever sobre economia, porque essa não é a minha formação, mas lendo, serenamente, o texto de Varoufakis, publicado no Expresso, percebe-se que há muita porcaria, para não dizer selvajaria política no quadro da ganância que alimenta essa direita. Pessoalmente entendo que esta foi uma CRISE FABRICADA, porque nunca tão poucos ganharam tanto à custa do sacrifício de milhões. Pelo que li, a Grécia não pode ir mais longe, porque isso constituirá repetir o passado. A proposta do seu governo, aliás, já foi longe de mais. É apenas a minha percepção.
Finalmente, este não é um período para fazer humor com determinadas situações, mas Ricardo Araújo Pereira, disse, há já algum tempo, que a pergunta que fazia se estivesse frente a alguém do FMI seria esta: "quando é que eu posso puxar as calças para cima?". Está tudo dito.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 28 de junho de 2015

GRÉCIA: UMA TROIKA DE INTERESSES QUE MAIS PARECE "DRÁCULAS" À SOLTA


Para que se informe e então avalie, para que se questione e depois o questione, para que possa elogiar ou criticar, caso pretenda lamentar ou exaltar, o Expresso traduziu na íntegra o que Varoufakis leu e apresentou na reunião de Eurogrupo de quinta-feira, que acabou como começou: em desacordo. A leitura é longa, mas recomendável e necessária para se perceber o que a Europa rejeitou e o que a Grécia pediu.

Nota de Varoufakis no seu blogue pessoal, onde disponibilizou o discurso: “O único antídoto para a propaganda e para as 'fugas' malévolas é a transparência. Depois de tanta desinformação em torno da apresentação que fiz no Eurogrupo da posição do governo grego, a única resposta é publicar exatamente as palavras que proferi. Leiam-nas e julguem por si mesmos se as propostas do governo grego constituem ou não uma base para um acordo”. 


Colegas, 
Há cinco meses, na minha primeira intervenção no Eurogrupo, disse-vos que o novo governo grego enfrentava uma tarefa dupla: 
Temos de ganhar uma moeda preciosa sem desbaratar um importante capital. 
A moeda preciosa que tínhamos de ganhar era um sentimento de confiança, aqui, entre os nossos parceiros europeus e junto das instituições. Para obter essa moeda necessitaríamos de um pacote de reformas significativo e um plano de consolidação fiscal credível. 
Quanto ao capital importante que não podíamos dar-nos ao luxo de desbaratar, esse era a confiança do povo grego, que teria de ser o pano de fundo de qualquer programa de reformas acordado que pusesse fim à crise grega. O pré-requisito para que esse capital não se perdesse era, e continua a ser, um só: a esperança tangível de que o acordo que levamos para Atenas:
. é o último a ser forjado em condições de crise;
. compreende um pacote de reformas que põe fim a uma recessão ininterrupta de seis anos;
. não atinge selvaticamente os pobres como as anteriores reformas atingiram;
. torna a nossa dívida sustentável, criando assim perspetivas genuínas do regresso da Grécia aos mercados, terminando a nossa dependência pouco digna dos nossos parceiros para pagar os empréstimos que deles recebemos.
Cinco meses passaram, o fim da estrada está à vista, mas este derradeiro ato de equilíbrio não se materializou. Sim, no Grupo de Bruxelas estivemos quase. Quase é quanto? Do lado dos impostos, as posições são realmente próximas, especialmente para 2015. Para 2016, o fosso restante representa 0,5% do PIB. Propusemos medidas paramétricas de 2% contra os 2,5% em que as instituições insistem. Esta diferença de meio por cento propomos eliminá-la através de medidas administrativas. Seria, digo-vos, um erro tremendo deixar que esta minúscula diferença causasse danos massivos na integridade da Zona Euro. A convergência foi também alcançada num vasto leque de questões. 
Ainda assim, não nego que as nossas propostas não instilaram em vós a confiança de que precisais. E, ao mesmo tempo, as propostas das instituições que o Sr. Juncker transmitiu ao primeiro-ministro Tsipras não podem gerar a esperança de que os nossos cidadãos necessitam. Assim, chegámos perto de um impasse. 
Assim, no último minuto e neste estado de negociação, antes de que acontecimentos incontroláveis tomem conta da situação, temos o dever moral, para não falar do dever político e económico, de ultrapassar este impasse. Não é altura para recriminações nem acusações. Os cidadãos europeus responsabilizar-nos-ão coletivamente, todos os que não conseguirem encontrar uma solução viável. 
Mesmo que, mal orientados por rumores de que a saída da Grécia pode não ser assim tão terrível, ou que possa até beneficiar o resto da Zona Euro, alguns estejam resignados a que isso aconteça, é um acontecimento que desencadeará poderes destrutivos que ninguém pode travar. Os cidadãos de toda a Europa não apontarão às instituições, mas aos seus ministros das Finanças, aos seus primeiros-ministros, aos seus presidentes. Ao fim e ao cabo, elegeram-nos para promover a prosperidade partilhada da Europa e para evitar buracos que possam ferir a Europa.
O nosso mandato político é encontrar um compromisso honroso e trabalhável. É assim tão difícil conseguir isto? Achamos que não. Há poucos dias, Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI, publicou um artigo intitulado "Grécia: um acordo credível vai requerer decisões difíceis de todas as partes". Tem razão. As quatro palavras significativas são "de todas as partes". O Dr. Blanchard acrescentava que: "no coração das negociações está uma questão simples. Que ajustamento tem de ser feito pela Grécia, que ajustamento tem de ser feito pelos seus credores oficiais?". 
Que a Grécia precisa de se ajustar não há dúvidas. A questão, porém, não é a quantidade de ajustamento que a Grécia precisa de fazer. É, pelo contrário, que tipo de ajustamento. Se por "ajustamento" queremos dizer consolidação fiscal, cortes de salários e pensões e aumento das taxas de juro, é claro que fizemos mais disso do que qualquer outro país em tempo de paz. 
. o défice fiscal, estrutural ou ciclicamente ajustado do setor público passou a superavit à custa de um ajustamento de 20% que bateu recordes mundiais;
. os salários caíram 37%;
. as pensões foram reduzidas até 48%;
. o número de funcionários públicos diminui em 30%;
. o consumo caiu 33%;
. até o crónico défice corrente do país caiu 16%.
Ninguém pode dizer que a Grécia não se ajustou às suas novas circunstâncias, do pós-2008. Mas o que podemos dizer é que este gigantesco ajustamento, necessário ou não, criou mais problemas do que resolveu: 
. o PIB agregado real caiu 27%, enquanto o PIB nominal continuou a cair quadrimestre sim, quadrimestre não ao longo de 18 quadrimestres sem parar até hoje;
. o desemprego disparou para os 27%;
. o trabalho não-declarado atingiu os 34%;
. a banca trabalha sob empréstimos não-produtivos que excedem em valor os 40%;
. a dívida pública ultrapassa os 180% do PIB;
. as pessoas jovens e bem qualificadas abandonam a Grécia aos magotes;
. a pobreza, a fome e a falta de energia registaram aumentos normalmente associados a estados de guerra;
. o investimento na capacidade produtiva evaporou-se.
Portanto, a primeira parte da pergunta do Dr. Blanchard - "que ajustamento tem de ser feito pela Grécia?" - precisa de ser respondida. A Grécia precisa de uma grande dose de ajustamento. Mas não do mesmo tipo que teve no passado. Precisamos de mais reformas, não precisamos de mais cortes. Por exemplo, 
. precisamos de nos ajustar a uma nova cultura de pagamento de impostos, não de elevar as taxas do IVA, que reforçam o incentivo para fugir ao pagamento e conduzem os cidadãos respeitadores da lei a uma maior pobreza;
. precisamos de tornar o sistema de pensões sustentável, erradicando o trabalho não remunerado, minimizando as reformas antecipadas, eliminando a fraude no fundo de pensões, fazendo aumentar o emprego - não erradicando a tranche solidária das mais baixas das baixas pensões, como as instituições exigem, empurrando dessa forma os mais pobres dos pobres para uma pobreza ainda maior e convocando uma hostilidade popular massiva contra outro conjunto de ditas reformas.
Nas nossas propostas às instituições oferecemos: 
. uma extensa (mas otimizada) agenda de privatizações abrangendo o período entre 2015 e 2025;
. a criação de uma autoridade de Impostos e Alfândegas completamente independente (sob a égide e supervisão do Parlamento) 
. um Conselho Fiscal que supervisione o orçamento do Estado;
. um programa a curto prazo que limite o crédito mal parado e gira empréstimos não produtivos 
. reformas dos códigos do processo judicial e civil 
. liberalização de vários mercados de produtos e serviços (com salvaguardas para os valores da classe média e profissões que deles fazem parte e parcela do tecido social);
. reformas da administração pública (introduzindo sistemas limpos de avaliação dos funcionários, reduzindo custos não-salariais, modernizando e unificando as carreiras do setor público).
Juntamente com estas reformas, as autoridades gregas pediram à OCDE que ajudasse Atenas a desenhar, implementar e monitorizar uma segunda série de reformas. Quarta-feira, encontrei-me com o secretário-geral da OCDE, o Sr. Angel Gurria, e a sua equipa para anunciar esta agenda conjunta de reformas, completada com um mapa específico: 
. um grande movimento anticorrupção e instituições relevantes para o apoiar;
. liberalização do setor da construção, incluindo o mercado e padrões de materiais de construção;
. liberalização do comércio por grosso;
. código de práticas dos media, eletrónicos e impressos;
. centros de negócios na hora que erradiquem os obstáculos burocráticos ao negócio na Grécia;
. reforma do sistema de pensões - onde a ênfase esteja num estudo completo, atual e a longo prazo, no faseamento das reformas antecipadas, na redução dos custos operacionais dos fundos de pensões, na consolidação da segurança social - em vez de nos meros cortes de pensões. 
Sim, colegas, os gregos precisam de se ajustar mais. Precisamos desesperadamente de reformas profundas. Mas exorto-vos a levarem seriamente em consideração esta importante diferença entre: 
. reformas que ataquem ineficiências ou comportamentos parasitas e oportunistas, 
e
. mudanças de parâmetros que aumentem as taxas de juro e reduzem os benefícios dos mais fracos.
Precisamos muito mais de reformas reais e muito menos de reformas de parâmetros. 
Muito se disse e escreveu acerca do nosso "recuo" na reforma do mercado de trabalho e quanto à nossa determinação para reintroduzir a proteção dos trabalhadores assalariados através da negociação coletiva. Será isto uma fixação de esquerda nossa que faz perigar a eficiência? Não, colegas, não é. Veja-se por exemplo a provação dos jovens trabalhadores em várias cadeias de lojas que são despedidos quando se avizinha o seu 24º aniversário, para que os empregadores possam contratar funcionários mais jovens e assim evitar pagar-lhes o salário mínimo normal que é inferior para empregados menores de 24 anos. Ou vejam o caso dos empregados que são contratados em part time por 300 euros ao mês, mas são obrigados a trabalhar a tempo inteiro e são ameaçados com a dispensa se se queixarem. Sem contratação coletiva, estes abusos abundam com efeitos nefastos na concorrência (uma vez que os patrões decentes competem em desvantagem com os que não têm escrúpulos), mas também com efeitos negativos nos fundos de pensões e na receita pública. Alguém seriamente pensa que a introdução de uma negociação laboral bem concebida, em colaboração com a OIT e a OCDE, constitui "reversão das reformas", um exemplo de "recuo"? 
Voltando por instantes à questão das pensões de reforma, muito foi feito para que as pensões contem por mais do que contavam no passado; tanto quanto 16% do PIB. Mas consideremos o seguinte: as pensões diminuíram 40% e o número de pensionistas mantém-se estável. Portanto, os gastos com pensões diminuíram, não aumentaram. Esses 16% do PIB não se devem a gastar mais em pensões, mas, pelo contrário, à dramática queda do PIB que trouxe com ela uma igualmente dramática redução nas contribuições devido à perda de empregos e ao crescimento do trabalho informal não-declarado. 
O nosso alegado recuo na "reforma das pensões" é que suspendemos a ulterior redução das pensões que já perderam 40% do seu valor, enquanto os preços dos bens e serviços de que os pensionistas precisam, isto é, medicamentos, mal foram alterados. Considerem este facto relativamente desconhecido: cerca de um milhão de famílias gregas sobrevive hoje à custa da magra pensão de um avô ou de uma avó, dado que o resto da família está desempregada num país onde apenas 9% dos desempregados recebem qualquer subsídio de desemprego. Cortar essa única, solitária pensão corresponde a lançar uma família nas ruas. 
É por isso que continuamos a dizer às instituições que sim, precisamos de uma reforma do sistema de pensões, mas não, não podemos cortar 1% do PIB às pensões sem causar uma nova e massiva miséria e mais um ciclo recessivo, uma vez que estes 1,8 mil milhões multiplicados por um grande multiplicador fiscal (de até 1,5) é retirado do fluxo circular da receita. Se ainda existissem grandes pensões, cujo corte faria diferença a nível fiscal, cortá-las-íamos. Mas a distribuição das pensões está tão comprimida que poupanças dessa magnitude teriam de ir comer nas pensões dos mais pobres. É por esta razão, suponho, que as instituições nos pedem para eliminarmos o complemento solidário de reforma para os mais pobres dos pobres. E é por essa razão que contrapropomos reformas decentes: uma redução drástica, quase eliminação, das reformas antecipadas, consolidação dos fundos de pensões e intervenções no mercado de trabalho que reduzam o trabalho na economia paralela. 
Reformas estruturais promovem o crescimento potencial. Mas meros cortes numa economia como a grega só promovem a recessão. A Grécia deve ajustar-se através da introdução de reformas genuínas. Mas ao mesmo tempo, voltando à resposta à pergunta do Dr. Blanchard, as instituições têm de ajustar as suas definições de reforma promotora do crescimento - para reconhecerem que cortes de parâmetros e aumentos de impostos não são reformas e que, pelo menos no caso da Grécia, minaram o crescimento económico. 
Alguns colegas notaram no passado, e podem voltar a fazê-lo, que as nossas pensões são demasiado altas em comparação com os idosos dos seus países e que é inaceitável que o governo grego espere que eles mantenham o nosso nível de pensões de reforma. Deixem-me ser claro acerca disto: nunca vos pediremos para subsidiarem o nosso Estado, os nossos salários, as nossas reformas, a nossa despesa pública. O Estado grego vive dentro dos seus meios. Nos últimos cinco meses conseguimos mesmo, apesar de termos zero acesso aos mercados, pagar aos nossos credores. Tencionamos continuar a pagar.
Compreendo as preocupações de que o nosso governo possa cair de novo no défice primário e que é essa a razão que leva as instituições a pressionarem-nos para aceitar grandes aumentos do IVA e grandes cortes nas reformas. Embora seja nosso entender que um acordo viável seria suficiente para fazer disparar a atividade económica o suficiente para produzir um saudável superavit primário, percebo perfeitamente bem que os nossos credores e parceiros possam ter razões para ser céticos e exigir salvaguardas; uma apólice de seguro contra o eventual resvalar do nosso governo para o desperdício de recursos. É o que está por detrás do apelo do Dr. Blanchard ao governo grego para que ofereça "medidas verdadeiramente credíveis". Então, ouçam esta ideia. Uma "medida verdadeiramente credível". 
Em vez de se discutir meio ponto percentual de medidas (ou se estas medidas fiscais devem ser ou não do tipo paramétrico), que tal uma reforma mais profunda, mais abrangente, mais permanente? Um teto para o défice que seja legislado e monitorizado pelo Conselho Fiscal independente com que nós e as instituições já concordámos. O Conselho Fiscal monitorizaria a execução do orçamento de Estado numa base semanal, lançaria avisos se uma meta de superavit primário parecesse estar a ser violada e, em certas ocasiões, lançaria reduções automáticas horizontais a todos os níveis para evitar a derrapagem abaixo do limiar previamente acordado. Dessa forma está ativado um sistema de alerta que assegura a solvência do Estado grego enquanto o governo grego mantém o seu espaço político de que precisa para manter a soberania e ser capaz de governar num contexto democrático. Este é um firme propósito que o nosso governo implementará imediatamente após um acordo. 
Dado que o nosso governo nunca mais precisará de pedir emprestado dinheiro aos vossos contribuintes nem aos contribuintes que estão atrás do FMI, não faz sentido um debate entre Estados-membros que competem para ver quem tem pensionistas mais pobres, instigando um nivelamento por baixo. Em vez disso, o debate avança para os pagamentos da dívida. Quão grandes têm de ser os nossos superavits? Alguém acredita seriamente que a taxa de crescimento é independente do conjunto de metas primárias? O FMI sabe bem que os dois números andam juntos e é por isso que a dívida pública grega deve ser olhada de uma só vez. 
O nosso grande serviço da dívida deveria ser encarado como uma grande labilidade fiscal infundada. Embora seja verdade que as partes EFSF e GLF da nossa dívida têm maturidades elevadas e a taxa de juro não é grande, a labilidade fiscal infundada do Estado grego, a nossa dívida, constitui um componente poderoso que impede hoje a recuperação e o investimento. Refiro-me aos 27 mil milhões de obrigações ainda detidos pelo BCE. É uma labilidade infundada a curto prazo que os potenciais investidores na Grécia olham e viram costas porque podem ver o fosso de fundos que esta parte da dívida cria instantaneamente e porque reconhecem que estes 27 mil milhões na contabilidade do BCE travam a Grécia e não a deixam aproveitar o programa de financiamento do BCE quando este programa está em desenvolvimento e atinge a sua máxima capacidade para vir em auxílio dos países ameaçados pela deflação. É uma cruel ironia que o país mais afetado pela deflação seja precisamente o que é excluído do remédio antideflacionário do BCE. E é excluído por causa destes 27 mil milhões.
A nossa proposta é simples, eficaz e mutuamente vantajosa. Não propomos mais dinheiro, nem um euro para o nosso Estado. Imaginem o seguinte acordo em três partes a anunciar nos próximos poucos dias: 
Parte 1: Reformas profundas, incluindo o plafonamento do défice que já mencionei. 
Parte 2: Racionalização do calendário de pagamentos da dívida grega segundo as seguintes linhas. Primeiro, para efetuar uma RECOMPRA DA DÍVIDA, a Grécia pede um novo empréstimo ao ESM, depois compra as obrigações ao BCE e retira-as. Para renegociar este novo empréstimo, concordamos que a agenda de reformas profundas é a condição comum para completar com êxito o atual programa e para assegurar o novo acordo ESM que entra em prática imediatamente depois e corre em concorrência com o continuado programa FMI até ao final de 2016. Os fundos a curto prazo assentes no cumprimento do programa corrente e no financiamento a longo prazo é completado com o retorno dos lucros SMP, ascendendo a 9 mil dos restantes 27 mil milhões, que vão para uma conta usada para satisfazer os pagamentos da Grécia ao FMI. 
Parte 3: Um programa de investimentos que impulsione a economia grega, fundado no Plano Juncker, o Banco de Investimento Europeu - com quem já estamos em conversações - o EBRD e outros parceiros que serão convidados a participar também em ligação com o nosso programa de privatizações e o estabelecimento de um banco de desenvolvimento que procure desenvolver, reformar e colateralizar bens públicos, incluindo propriedades imobiliárias. 
Alguém duvida verdadeiramente de que este anúncio em três partes mudaria dramaticamente o espírito, inspiraria os gregos a trabalharem duramente na esperança de um futuro melhor, convidaria investidores para um país cuja Bolsa caiu tanto e daria confiança aos europeus de que a Europa pode, no momento decisivo, fazer as coisas certas? 
Colegas, nesta encruzilhada é perigosamente fácil pensar que não há nada a fazer. Não caiamos na armadilha deste estado de espírito. Podemos forjar ainda um bom acordo. O nosso governo está de pé, com ideias e com a determinação de cultivar as duas formas de confiança necessárias para pôr fim ao drama grego: a vossa confiança em nós e a confiança do nosso povo na capacidade da Europa para produzir políticas que joguem a seu favor e não contra ele.

terça-feira, 19 de maio de 2015

FMI, OS PIRATAS DOS NOVOS TEMPOS


Já não há palavras para classificar esta gentalha que invadiu as instituições internacionais. Ontem, através de relatório, o FMI voltou a intrometer-se na nossa vida, dizendo que há necessidade de fazer baixar as pensões através de uma nova fórmula de cálculo; de reduzir o número de funcionários públicos, particularmente no sector da Educação; de aumentar da TSU dos trabalhadores e limitar o salário mínimo nacional.


Não desistem da austeridade. A prescrição é sempre a mesma: não chega, pois bem, carregue-se em cima dos que já andam depenados! Os pobres aguentam, os desempregados que emigrem e procurem soluções, se as houver, os mais idosos que morram e desamparem a loja do capitalismo selvagem, os mais jovens que deixem a escola e integrem o grupo sem esperança. Depois logo se verá. Desculpem-me, porque não gosto de soltar palavras mais azedas, mas esta gente é canalha do mais baixo, embora com fatinho de alta costura. Canalha que não sabe o que são as dificuldades, o que significa ter família, a importância de educar as crianças e jovens, o que é o direito de ser feliz. Esta gente, do meu ponto de vista, não desembarcava em qualquer aeroporto nacional. Bem fazem os gregos que não permitem que a linha vermelha seja ultrapassada. Somos um País com 887 anos de História, de gente respeitadora e cumpridora, pelo que não deve estar à mercê de cretinos e piratas dos novos tempos.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 6 de maio de 2014

QUAL A SAÍDA LIMPA NESTE CONSPURCADO LABIRINTO?


Não há "saída limpa" quando o labirinto está completamente conspurcado e cheio de minas. E ouvem-se todos os centros de decisão, do FMI, aos vários sectores da União Europeia, passando por vários países e até comentadores sem pensamento estruturado, os aplausos de uma vitória que não existe. Raios os partam todos, porque mentem, porque aldrabam, porque tentam passar uma mensagem falaciosa da realidade. Como podem congratular-se com os resultados de um programa de assistência quando três anos depois, a dívida aumentou para os 130% do PIB, a taxa de desemprego é assustadora, quando é preciso recuar aos anos 60 do século passado, para estabelecer a comparação com as vagas maciças de emigração, quando a pobreza disparou para valores inimagináveis, quando o tecido empresarial está em completo esgotamento, quando os sistemas de saúde, educação e de protecção social encontram-se em ruptura, quando o país vai continuar sob controlo externo de seis em seis meses, pergunta-se, num quadro destes, de agravamento das desigualdades, se a dita saída não é suja? Muito suja, obviamente! Vários anos de sacrifício, de roubo nos salários, nas pensões de aposentação, de um substancial agravamento de todos os impostos e de um gravoso ataque sem precedentes aos trabalhadores do nosso País, terá alguma verdade aquela conferência de imprensa do primeiro-ministro?

Que trio!
Estamos entregues a gente sem escrúpulos, MENTIROSA e subjugada aos interesses externos da alta finança. Todo o português vê, claramente, que está a ser enganado. E o tempo o dirá. A direita política, a todo o custo, porque há eleições europeias a 25 de Maio, quer fazer passar a ideia de um enorme sucesso das políticas de austeridade impostas nos países sujeitos a ajuda externa, mas essa não corresponde à realidade. Não há um, apenas um indicador económico que prove tal sucesso. Bem pelo contrário, o país está exaurido, sem defesas e sem esperança. Foram três anos perdidos para gáudio da alta finança que aqui encontrou mais um espaço para esmagar e sugar a pouca riqueza do nosso povo. Bastará que passe a euforia das eleições europeias e, eventualmente, a direita política conserve os seus lugares-chave na política económica, e lá aparecerão de novo, os esfaimados do costume, com a benção interna da dupla Passos/Portas, a corroer ainda mais as nossas parcas riquezas. 
Passos Coelho sussurrou que o dia 17 de Maio corresponderá a um novo 25 de Abril. Merecia uma bolachada (em sentido figurado). Saberá o que foi a luta durante dezenas de anos pela verdadeira libertação do povo, amarrado que estava a uma ditadura que marcou e condicionou o seu futuro? Saberá quantos portugueses morreram às mãos dos agentes da polícia política, quantos foram torturados, quantos viveram a tragédia do exílio e do campo de concentração do Tarrafal? Saberá quantos portugueses morreram ou ficaram estropiados numa guerra colonial sem sentido? Saberá o que foi o analfabetismo e os condicionamentos sociais ao longo de meio século de obscurantismo? Saberá o que foram as vagas de emigração forçada? Saberá o que significou de esmagamento pela fabricada trilogia "Deus, Pátria e Família"? Passos Coelho, enfim, não consegue enganar. Nem ele nem Portas. Ambos passam com facilidade a linha vermelha que antes seria inultrapassável, teimam em afirmar que não haverá mais aumentos de impostos e, dias depois, aumentam-nos, ambos são políticos que dizem coisas enquanto mantêm a sua fome de poder, mesmo que esse poder seja efémero e muito pequenino! Não os designo por palhaços pela consideração que tenho à profissão. Apenas por isso. Revolta-me, porque ao contrário deles, eu e muitos milhares de portugueses arriscámos a vida numa guerra estúpida.
É tempo de o povo acordar e acreditar que existem alternativas. Que a Europa precisa de uma substancial mudança que coloque as pessoas no centro das preocupações e não os movimentos financeiros especulativos que trituram os povos. O povo tem essa oportunidade no dia 25 de Maio. Não votar significa, apenas, a possibilidade de mais austeridade e de mais sacrifícios. 
Ilustração:  Google Imagens.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

LIXO SÃO OS SENHORES DA ESPECULAÇÃO FINANCEIRA


Deixou de existir respeito pelos países e pelos povos que os compõem. É o domínio do dinheiro sobre o domínio das condutas sensatas e respeitosas. Catalogar de "lixo" o eventual (!) risco de cobrança em função das finanças públicas de um país, constitui uma afronta pelo significado que a própria palavra transporta: coisa que se deita fora, imprestável, escória, entulho, sujeira, imundície e por aí fora. A palavra "lixo" no contexto em que a aplicam é ofensiva da dignidade do país e do seu povo. No nosso caso, um povo a caminho dos novecentos anos de História. Essas agências de rating, que nasceram em função do serviço a prestar aos grandes interesses financeiros, se, para mim, nem deveriam existir, ao ser aceita a sua presença, redobrados cuidados deveriam ter na designação de tais classificações. "Lixo" é o que os grandes senhores do capital produzem, através das falcatruas que operacionalizam, não apenas nos paraísos fiscais, na atitude de esmagamento de uns visando o seu próprio crescimento, nas situações miseráveis que geram, deslocalizando empresas e criando desemprego e sofrimento, o seu entretenimento diário nos jogos especulativos, assente na informação privilegiada e na sua absoluta demarcação relativamente aos que sofrem as consequências do mundo de ganância em que vivem. Esse, sim, é "lixo" podre que cheira muito mal, porque, genericamente, não envolve uma palavra tão simples mas tão cheia de significado: humanismo. Esses fazem parte do "lixo" político, económico e financeiro, a quem se deve esta maldita crise fabricada por esses senhores sem escrúpulos.


Revolta-me quando oiço aquela miserável classificação. Como se nós, portugueses, não tivéssemos a nossa dignidade, como se nós, ao longo da História não dispuséssemos de exemplos que demonstram honestidade, seriedade, cumprimento dos contratos assumidos, como se nós fossemos qualquer coisa insignificante no contexto das nações. A palavra "lixo" é, por isso, humilhante. Mas é assim que classificam o esforço do povo trabalhador que, ao fim e ao cabo, acaba por servir os interesses daqueles que nos classificam de "lixo". Vendem-nos o dinheiro a preço proibitivo, especulam com as nossas debilidades, sofremos, pagamos e não têm pejo algum em considerarem-nos "lixo". É a tal máfia que Francisco Moita Flores sobre a qual escreveu. Por isso é tão mafioso quem esmaga quanto o Estado, integrado em uma comunidade europeia, que aceita aquela designação. Refiro-me a Portugal como a qualquer outro país.
Quem neste momento lê estas linhas é capaz de estar a dizer para dentro: "são os mercados, estúpido". Pois são, disso não tenho dúvidas. Mas é contra essa corja que me insurjo, cuja finalidade última da vida é somar riqueza à riqueza. Não que alguma coisa tenha contra os ricos. Quero lá  saber! Não quero é que nos roubem. O bom povo costuma dizer: "que Deus lhes acrescente". O problema é o modo, o caminho, a engrenagem mafiosa, os interesses, as ligações perigosas, os conluios, a promiscuidade política, entre tantos e tantos aspectos difíceis de descortinar. Isso, sim, é LIXO!
Ilustração: Google Imagens. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

POR UMA NOVA ORDEM MUNDIAL


O FMI sublinhou que os portugueses gastam mais do que podem. O consumo acima das possibilidades estrangula as possibilidades de investimento, dizem. A cantilena dos últimos anos que, de tanto a repetirem, acaba por tornar a mentira em dúvida e, depois, verdade. Muitos não vão nesse jogo, sujo e obsceno que apenas interessa a uns poucos no plano dos seus interesses. Deixo aqui um excerto de um artigo de Miguel Pimentel, publicado no PÚBLICO: "As questões sobre a desigualdade na distribuição da riqueza no mundo são conhecidas mas a frieza dos números dá-nos uma perspectiva mais real e dramática deste tema: as 85 pessoas mais ricas acumulam a mesma riqueza que as 3.570 milhões mais pobres, 46% da riqueza do mundo é detida por 1% das famílias mais ricas, 7 em cada 10 pessoas vivem em países onde a desigualdade na distribuição da riqueza se tem agravado nos últimos 30 anos, 1% da população mundial detém 110 biliões de dólares de riqueza (estou a falar na convenção tradicional, são 110 milhões de milhões) que corresponde a 65 vezes a riqueza detida pela metade da população mais pobre, a percentagem de riqueza detida por 1% da população mais rica em relação à restante população tem aumentado em 24 de cada 26 países entre 1980 e 2012, nos Estados Unidos 95% da riqueza gerada com o crescimento pós-crise, desde 2009, foi captada por 1% da população enquanto que 90% da população ficou mais pobre, uma em cada 3 pessoas vive na pobreza". Será necessário fazer um desenho à Senhora Christine Lagarde? Penso que não. Ela sabe que é assim, que os pobres e todos os que sobrevivem à ditadura dos mercados, não são responsáveis pela pouca-vergonha. 

O povo é culpado! Essa é boa!

E quanto a Portugal, os quase três milhões de pobres, mais de um milhão de desempregados (se em conta tivermos a realidade), os 120.000 por ano que estão a emigrar, estes e outros importantes indicadores, serão os responsáveis pela situação portuguesa? 
Os dados são da EAPN Portugal - Rede Europeia Anti-Pobreza: "a nova estratégia Europa 2020 visa reduzir em 25% o número de europeus que vivem abaixo dos limiares nacionais da pobreza, isto é, retirar 20 milhões de pessoas da pobreza. No que respeita a Portugal, a meta definida no âmbito dessa estratégia, nos próximos 10 anos, tem por objectivo  retirar pelo menos 200 mil pessoas em situação de pobreza (Só?). De notar que, de acordo com a nova estratégia Europa 2020, o número de pessoas em risco de pobreza e de exclusão será definido a partir de três indicadores: risco de pobreza, privação material e agregado familiar sem emprego. Segundo o Relatório do Comité de Protecção Social sobre a Europa 2020 verifica-se que uma em cada cinco pessoas na União Europeia encontra-se em risco de pobreza e exclusão social e 40 milhões de pessoas enfrentam a privação severa. Na UE, 25 Milhões de crianças estão em risco de pobreza e exclusão social". Será isto culpa dos pobres porque gastam "mais do que podem"?
Vão mas é dar uma curva! Infelizmente, tal é a ganância e a exploração que a revolta dos pobres pode estar a caminho. É verdade que o dinheiro, hoje, não tem pátria, mas uma nova ordem mundial certamente que será estabelecida e muitos dos que espezinham os povos serão visados e punidos. É uma questão de tempo.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

"CARTA ABERTA A UNS PEDAÇOS DE MERDA"


O vosso destino, amiguinhos do FMI, eu compreendo. Vocês são aves de arribação, falham aqui, partem para ali. Entendo menos o dos vossos kapos locais: em falhando e ficando, porque continuam seguros no laboratório?

O jornalista Ferreira Fernandes,do DN-Lisboa, escreveu um texto que merece a nossa atenção. É frontal e verdadeiro. 

"Olá, amiguinhos do FMI. Eu sou o ratinho branco. Desculpem estar a incomodar-vos agora que vocês estão com stress pós-traumático por terem lixado isto tudo. Concluíram vocês, depois do leite derramado: "A austeridade pode ser autodestrutiva." E: "O que fizemos foi contraproducente." Quem sou eu para desmentir, eu que, no fundo, só fiquei com o canto dos lábios caídos, sem esperança? O que é isso comparado com a vossa dor?! Eu só estiquei o pernil ou apanhei três tipos de cancro, mas é para isso que servimos nos laboratório: somos baratos e dóceis. Já vocês não têm esses estados de alma (ficar sem emprego, que mau gosto...), vocês são deuses com fatos de alpaca e gravata vermelha como esses três novos que acabam de desembarcar para nos analisar os reflexos. "Corre, ratinho branco!", e eu corro. Vocês cortam-me as patas: "Corre, ratinho branco!", e eu não corro. E vocês apontam nos vossos canhenhos sábios: "Os ratos sem pernas ficam surdos." Como vocês são sábios! E humildes. Fizeram-nos uma experiência que falhou e fazem um relatório: olha, falhou. Que lição de profissionalismo, deixam-nos na merda e assumem. Assumir quer dizer "vamos mudar-lhes as doses", não é? E, amanhã, se falhar, outro relatório: olha, falhou. O vosso destino, amiguinhos do FMI, eu compreendo. Vocês são aves de arribação, falham aqui, partem para ali. Entendo menos o dos vossos kapos locais: em falhando e ficando, porque continuam seguros no laboratório?"
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 23 de abril de 2013

ESTAMOS A SER ENGANADOS


O presidente da Comissão Europeia admitiu que a Europa falhou ao não explicar o que estava em jogo e afirmou que "as políticas de correcção orçamental – mesmo que sejam correctas – não são política e socialmente sustentáveis". Vejamos, desde logo a contradição: por um lado as políticas são correctas, por outro, não são socialmente sustentáveis. Em que ficamos? Disse: "Penso que estamos a atingir o limite das actuais políticas" (...) "Porquê? Porque uma política, para ter êxito, não pode apenas estar bem desenhada, tem que ter um apoio político e social mínimo". Ora, esta posição não é assumida por ignorância, mas com dois sentidos: primeiro, para colocar-se, de certa forma, à margem das responsabilidades e granjear alguma simpatia; por outro, pela necessidade de ir ao encontro dos interesse do directório europeu que serve. Uma no cravo outra na ferradura como vulgarmente se diz.


Enganam-nos com palavras doces e com um ar celestial, como se não tivessem nada a ver com o assunto, como se fosse menor a memória de todos quantos seguem a informação diária. Dizem uma coisa hoje e amanhã outra, baralham-se e intencionalmente conflituam entre pares ao mais alto nível da decisão política, outros, dentro do País, teimosamente, seguem o mesmo rumo quando os demais olham em redor e, percebendo o lado prático da economia, verificam que o caminho está completamente esburacado. Ainda ontem, por exemplo, o presidente da Comissão Europeia admitiu que a Europa falhou ao não explicar o que estava em jogo e afirmou que "as políticas de correcção orçamental – mesmo que sejam correctas – não são política e socialmente sustentáveis". Vejamos, desde logo a contradição: por um lado as políticas são correctas, por outro, não são socialmente sustentáveis. Em que ficamos? Disse: "Penso que estamos a atingir o limite das actuais políticas" (...) "Porquê? Porque uma política, para ter êxito, não pode apenas estar bem desenhada, tem que ter um apoio político e social mínimo". Ora, esta posição não é assumida por ignorância, mas com dois sentidos: primeiro, para colocar-se, de certa forma, à margem das responsabilidades e granjear alguma simpatia; por outro, pela necessidade de ir ao encontro dos interesse do directório europeu que serve. Uma no cravo outra na ferradura como vulgarmente se diz. 
Porém, qualquer pessoa com responsabilidade política (ou gestionária) sabe que existem técnicas de previsão quantitativa e técnicas de previsão causais e não causais. Sabe que, nas primeiras, há métodos de extrapolação (técnicas de projecção matemática de fenómenos mais ou menos estáveis, pretendendo-se projectar o futuro a partir de tendências e conhecimentos passados), de decomposição de séries temporais (que se baseiam no tratamento isolado e em diferenciação das componentes de tendência, estabilidade e movimentos cíclicos) e modelos econométricos (previsões assentes na análise conjunta de múltiplas relações simultâneas entre diversas variáveis); e conhece as segundas, as técnicas de previsão causais (explicação das relações causa-efeito) e não causais (quando não pode ser estabelecida uma relação de causa-efeito) através da identificação das variáveis endógenas (controláveis) e exógenas (normalmente não controláveis). E depois existe a questão do horizonte temporal das previsões que podem ir desde o muito grande prazo ao muito curto prazo. Eles sabem de tudo isto, sabem que a previsão constitui a primeira fase do processo de planeamento e que a previsão tem por objectivo estudar os acontecimentos susceptíveis de explicar aquilo que deve ser ou aquilo que vai acontecer no futuro. Quando alguém toma uma decisão tem assim de saber, com um elevado grau de segurança, quais as consequências futuras das decisões tomadas hoje. É, por isso que julgo que estamos a ser todos enganados.
Leio: Paul Krugman, num artigo de opinião no "El País" – "A depressão do Excel" - tece considerações sobre o "erro" de Rogoff e Reinhart, apontando o dedo aos decisores políticos por aceitarem indubitavelmente estudos como os dos dois economistas. "Devemos situar o fiasco de Reinhart e Rogoff no contexto mais amplo da obsessão pela austeridade: o evidente desejo dos legisladores, políticos e peritos de todo o mundo ocidental em contornarem o problema do desemprego e, como troca, utilizar a crise económica como desculpa para reduzir drasticamente os programas sociais". De acordo com o economista, desde a publicação de "Crescimento em tempo de dívida", o estudo tem sido questionado por vários académicos que negavam que uma dívida pública elevada conduzia necessariamente a uma taxa de crescimento lenta. "Pode ocorrer perfeitamente o contrário: um mau comportamento económico conduzir a uma dívida elevada", refere Krugman. O economista dá como exemplo o Japão, que se começou a endividar gradualmente depois do seu crescimento económico começar a abrandar no início dos anos 90". Pelo que assume o Nobel da Economia, estamos a ser todos enganados.
Em contraponto, leio também as declarações de Merkel que aponta uma integração mais profunda dos países da Zona Euro. Austeridade e consolidação são algumas das necessidades dos países que partilham a moeda única. Angela Merkel afirmou que os estados-membros da Zona Euro têm de estar preparados para ceder a soberania, em determinados domínios, às instituições europeias. Esse pode ser o preço a pagar para ao países do euro superarem a crise da dívida e reconquistar os investidores estrangeiros. A chanceler alemã continua a insistir no conceito de austeridade, garantindo que a Europa tem de encontrar uma forma de assegurar crescimento e consolidação financeira. E leio, finalmente, o que C. Lagarde, do FMI, diz hoje e muda no dia seguinte: uns dias apela ao controlo da austeridade, em outros, através dos seus emissários, manda carregar na austeridade. Em conclusão: estamos a ser enganados.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O GANGSTERISMO DOS DIRECTÓRIOS POLÍTICOS INTERNACIONAIS


Dizia-me: "sinto-me roubado e estou a entrar numa fase de descontrolo". Facilmente adivinhei o seu desespero no seio da família. E facilmente multipliquei por milhares os casos que por aí andarão, de empresários a trabalhadores, de jovens a idosos, de tantos que têm de partir à aventura. Só este quadro assume contornos de tragédia. É o Estado a apoderar-se de tudo, através de uma engrenagem sofisticada de confisco, hoje com esta medida, amanhã, com aqueloutra. Conhecerão os historiadores situações de reles pirataria, de chegar, apoderar-se, esmagar e ir-se embora. Eu julgo que existe aqui algo de semelhante, mas através de uma actuação altamente sofisticada. O roubo é perpetrado com inteligência, de forma paulatina, sequencial, de mansinho como se fosse só mais isto, até o ponto de, enredados na pobreza e dependentes, quando ainda dispõem, de um magro salário, o povo sentir-se apavorado, cheio de incertezas e, portanto, sedado e incapaz de reagir à criminosa usurpação. É o que se está a passar com o mundo de incertezas e de privações pelas quais estão a passar as famílias.

 
"Janeiro fora cresce uma hora"... talvez, a partir deste aforismo se possa dizer: Janeiro fora crescem horas de angústia. Cruzo-me com pessoas, falo com algumas, acompanho a comunicação social, procuro cruzar a informação nacional e internacional e chego sempre à mesma conclusão, isto é, caminhamos, apressadamente, para a tragédia, para o conflito, sei lá, para a existência de sangue. Lamento, profundamente, que os sinais para aí conduzam. E a paz é tão simples quanto monossílabo é!
Ontem, na baixa funchalense, escutei um desesperado. Pessoa da "antiga" classe média, sem aspirações a rico, que apenas luta para ser minimamente feliz. Dizia-me: "sinto-me roubado e estou a entrar numa fase de descontrolo". Facilmente adivinhei o seu desespero no seio da família. E facilmente multipliquei por milhares os casos que por aí andarão, de empresários a trabalhadores, de jovens a idosos, de tantos que têm de partir à aventura. Só este quadro assume contornos de tragédia. É o Estado a apoderar-se de tudo, através de uma engrenagem sofisticada de confisco, hoje com esta medida, amanhã, com aqueloutra. Conhecerão os historiadores situações de reles pirataria, de chegar, apoderar-se, esmagar e ir-se embora. Eu julgo que existe aqui algo de semelhante, mas através de uma actuação altamente sofisticada. O roubo é perpetrado com inteligência, de forma paulatina, sequencial, de mansinho como se fosse só mais isto, até o ponto de, enredados na pobreza e dependentes, quando ainda dispõem, de um magro salário, o povo sentir-se apavorado, cheio de incertezas e, portanto, sedado e incapaz de reagir à criminosa usurpação. É o que se está a passar com o mundo de incertezas e de privações pelas quais estão a passar as famílias.
No meio desta evidente convulsão social que, diariamente, se agrava, vem o FMI, claro, a pedido do governo português, propor o mais gravoso pacote de medidas que há memória, o qual, pura e simplesmente, se levado à prática, determinará acabar com o nosso estado social, determinará o aumento substancial do desemprego na função pública e determinará acabar com os princípios e os valores nascidos com a Revolução de Abril de 1974 e pelos quais o Povo lutou durante uma longa noite fascista. Dir-se-á que para esses mercenários do FMI é chegada a hora do ajuste de contas com a História. Ora, entre outras, duas leituras me ocorrem a esta proposta: por um lado, o facto do governo português mostrar-se completamente incompetente aos olhos de quem vê o mundo limpo do gangsterismo dos directórios políticos internacionais. Então, são os outros que vão ditar o que precisamos de fazer, em última instância, o deve ser a nossa Pátria?; por outro, a proposta do FMI significa que se trata de uma organização politicamente obscena. Vem Christine Lagarde e sublinha que a austeridade só por si não resolve coisa alguma, mas logo a seguir a receita que apresenta é a de maior austeridade e de empobrecimento de um povo historicamente pobre. Para disfarçar a situação, Durão Barroso passa por aí, certamente, em pré-campanha para qualquer coisa que começa a dominar o seu pensamento, e fala de crescimento económico, situação, disse, que alguns governos não entendem! Referia-se, certamente, ao governo português, numa declaração supostamente independente. Isto é, todos querem mandar neste espaço territorial de quase 900 anos, isto e, parecendo que não estão em concerto, no fundo, seguem a estratégia de confundir toda a gente para impôr a dinâmica que lhes interessa. Maquiavélico? Nem por isso. As lógicas políticas nas quais o mundo está dissolvido conduzem a que assim seja. Que havia e que há situações a corrigir, pois é evidente que sim, mas todos nós não podemos ser vítimas de uma engrenagem financeira internacional, vítimas de uma "economia de casino" vergonhosa e suja levada a cabo por gangsters que nem um tiro precisam de dar para fazer sangue.
A verdade é que anda toda a gente aflita, atónita, espoliada, sem esperança e com o Primeiro-Ministro a pedir que olhem para a luz no fundo do túnel. Penso ser o comboio da emigração e não o comboio da vida política desenhada em cores de esperaça. Raios os partam todos. Olhem para o povo que sofre e olhem para a tragédia que estão a semear, antes que esse copo se encha e apenas uma gota de desespero crie aquilo que ninguém deseja.
Ilustração: Google Imagens.